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Full text of "Coleção Os Pensadores - 1ª Edição. Abril Cultural, 1973/1974. [Convertido E Comprimido Para Preto & Branco]"

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OS PENSADORES 


XI 


So E 


MICHEL DE MONTAIGNE 


ENSAIO 


Tradução de SERGIO MILLIET 


My. 


EC AS 


EDITOR: VICTOR CIVITA 


Título original: 
Essais 


1.º edição — Novembro 1972 


e - Copyright desta edição, 1972, 
Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. 
Tradução publicada sob licença da 
Editora Globo S.A., Porto Alegre. 


| SUMÁRIO 


| s 

l 

| Livro Primeiro 
DO FUROR AO LENEOR QuaM ice UR RR SU DR EAR E A e ER 1H 
Cap. I — Por diversos meios chega-se ao mesmo fim ...ccccccccc. 13 
CAP JE Da misteza ils sus Dea DR ARS DAE E o o AU SUA 15 
CAR TU DocnossosOdios E aleicoes attas Lou aura ia dd e a SE ds 16 
Cap. IV — De como a alma que carece de objetivo para as suas paixões 

ASsmanie sta ainda quigi dO aC a sÓ lar minto fer papa Re 5 o 20 
Cap. V — Deve o comandante de uma praça sitiada sair para parlamen- 

EGO leais AR A porto REA DR es REA DO RN PP PD 2] 
CAP NI Ahora das neaocI ações E PerigÓsa sa ta aplbngro aco rfp o 23 
Caro VI As ações julcam-se pelas INLCNÇÕES: «bras eai Eai o 24 
CAR =D po cosidaido e mah q RD A Aa RS 25 
CAP. IX DOS MEntiosOS qua Ela ara as ps aa aa RR AR auge 25 
Cap. X — Dos que improvisam e dos que se preparam para falar ...... 28 
Cap. XI — Dos prognósticos ....... ERR TR RED pr Ra ER aa 29 
ESAmE NI = AD asperse Verano esmas SA Do O A o Trail gate UA a A EO da 31 
CAP NI Cermonial das entrevistas reais: «ups ns Ra o sec ae 32 
Cap. XIV — O bem e o mal só o são, as mais das vezes, pela idéia que 

EQICS LEMOS esa ras vaga qa ea TR ME STR Ta nc NO o de LU PO ur 33 
Cap. XV — Merecedor de punição é quem defende-uma praça forte além 

dO SraLOaNEL Tres e ne q id PARA ONDA CER a SR ae 2 
CAR Vie ACO MaRGAstO ra qua ii ao SS ARDE NO Rr CEA a q aa 43 
Cap. XVII — Maneira de agir de alguns embaixadores ...ccccccc. 44 
CRP CV be Amed O ds ares ele aço pa Rad PE rare RE RO 45 
Cap. XIX — Scmente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou 

infelizes era vida ce a Ss a De PESE ur SÃO no ear 47 
CAP. XX — De como filosofar é aprender amorrer ........ccccc.. 48 
EAD RM = A forçada iimASiNação, Gas A tie ia EA Ne Dl E 
Cap. XXII — De como o que beneficia um prejudica outro .......... 60 
CAP. XXIII — Dos costumes e da inconveniência de mudar sem maiores 

CdAdOS ASCISCMLNALOR E pus ee Sis A to poda RE RR 61 
Cap. XXIV — Uma mesma linha de conduta pode levar a resultados 

EL GC RIOS qe pao Ro SAS RO ul A E PRQ RC O ara Rs RR pe 69 


E ! 
Mie and? 
| 

! 


- XXV — Pedantismo ........... RAE RO COD pe eg DER POR A 
SD v = Da educaçao das crianças pr aa des Hei a A ue AS 
- XXVII — Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso uni- 


camente-de acordo COM ATAZAO Lai RS a Es ERRO AN RA e 


My EE A Am ade us o a Ag Rn da ASS ca A Pd 
. XXIX — Capítulo dos sonetos, não incluídos nesta edição ...... 
o MR A O ERA AO mon ea aro eai pu Co Rd ni a A q 
A | == O OSC ANA DA LSD Sol to eo caga O a A Ta IS DR 
- XXXIH — De como é preciso prudência no julgar os desígnios da 


PrONIJOCHC doa em e SR SR a a Sd O 2 DO SRD o SR PA 


. XXXII — Devemos fugir da volúpia ainda que nos custe a vida 

. XXXIV — Não raro a sortena razão se apóia .....cccccccc. 
- XXXV — Uma lacuna de nossa administração ....cccccccc. 
E RR =D On ADILO- dese VESTIR nu anne pra ADA DU RD Rn 
E EC NTSC ALdOrO ONCE. dera Neo Se GE RP Do a e ep DR 
. XXXVI —- Como uma mesma coisa nos faz rire chorar ....... 
E SO Apa SI er sejbia Lito pda a a ao AIRE DR TU PRN DS RO RA 
“er =Consideraçoes acerca de CACO. ras SR RES Sra 
. XLI— O homem não cede a outrem a glória que conquistou ..... 
- XLII — Da desigualdade entre os homens ...cccccccclccc 
a ep Das leis SumAÇIAS! 1 me e bu abs a dada pe dl ga Rc et da 
Re ND SOTO (A ty a aeb aço RD ED AD DR E AD 
ey A pataliacde ren Se A uia SS RR da 
do DA o = O SADIO DO Sosa o o nrapad di Onda it DR AE a TR RR DR 
MEME Dasncerteza dos nossos quiZzos asse pra 
EN TI Dos cavalos de Snes ars ss aa ET carga Cala Nes 
RE Dos Costumes antigos pas a RÉ e E a 
E Sobre Demoento EIGracIO qu amo sie RES La e tac GU, Sa 
bl Vascao as pal Avi as ma E RSS A ia Sera Per Ra 
LT Parcimonia dos antipos” Mesas also RA TA eae dg A 
cai Den a sentença de Cesar o pnsh a ps re di a ANA 
yo Das vas sutilezas patio gas na Do car BS df 
Pav e ADOS OU ONCS o Run or dane do CU O pra Jide pie E e ASR RARO 7 SS 
MEVE Das orações sinta urso nai E ao DA ce A ND ag 
ev RACE E a a a 2 2 RD Ci DAR A a DA RI AR E 


Livro Segundo 


» | == Da incoerência das Nossas AÇÕES «usuais ais Danda ad 
SAAB) areia Draco a E aro relata oi uraRa Dio dns ET LOM RR PSD PRE 
- HI — A propósito de um costume da Ilha de Ceos .....ccccc.. 
Car. 
CAP. 
A a Dio co ceiro foiTo pe NDA a O RU NR TOR ES PRO RN RR 
CAP. 
CapP. 
CAP. 
- X — Dos livros 


IV — Fiquem pata amanha Os NegÓCios Luc .guda pis saia aaa 
VD ACO NSCICINCIA! mis dci DES co anda ug Da Be Po UV 
VE = Das recompensas Nononticas «casi subs a cana e ee 
VIII — Da afeição dos pais pelos filhos 
IX — As armas dos partos 


CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP... 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
Car. 


CAP. 
CAP. 
CAP. 


CAP. 
CAP.; 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 
CAP. 

CAP. 

CAP. 
CAP. 
CAP. 
CapP. 


Xp Da crueldade: «ud ear fa AE E qe qa DP o e ça 
'XI — Apologia de Raymond Sebond ......ccccccccccc 
MIT De comoquigara mortes drum pe ade dg pe SO a a 
XIV — Como o nosso espírito cria suas próprias dificuldades .... 
XV — Nosso desejo cresce com a dificuldade ....cccccicc 

DRA A O pe io (6 jo Ee RR RR GAR RO ROS DR RR e 
XVII — Da presunção ........... PA ag RD a e E 
sy = OCS MEN LIdO-A Ss capas rede cr iniro pas is arte ras 2 pn 
“XIX — Da liberdade de consciência ...... RR Ro NR NE 
iXX — Nada apreciamos inteiramente puro .....ccciccccccc. 
RO = [Dan O CNC] As À Secad ae o ut OR de qa be a RD Cia RR 
e SOS CONCIOS q asAns uind NR ATARI URI dd ie epi df RS 


RATES Dosmelose dos ans Paint o ND iai à e da 
DOM Iy == [a srandeza FOMAIa ess si ur sanE Ih ger Up MEN Sea 


'XRV — Da inconveniência de fingir de doente .......cccc.... 
e vd A DOSPOlCE Ares Dura dead nos doi parado So A TUR Mo o P ÃO ea RU dp 


XXVII — A covardia é mãe da crueldade ......ccccccc. 
XXVIII — Cada coisa a seutempo ....cccccccccccccc 
DCD US RO Aa ape RD REAR E ER US a 
XXX — A propósito de uma criança monstruosa ....cccccc. 
E = A CONCI AS aee en O RR pra ea PE e SR 
EX ROC == Defesa de-Seneca e Piutalco ce se se a 


Peel Elistor jarderE spunina 20 nas DDS ma a mn 


 XKXIV — Observações acerca dos meios que Júlio César punha em 
SDRAtiGaa DUCIIAM «uq fobia AME RUE AR GS aro da DR Os SR PER TRA é VÓ 
A a e res od SINE TES Sa aa oca ei anda sd PR do 
RAM VI Dos homens Preemineêntes: sia as REA DO DEEM ADA 
XXXVII — Da semelhança dos filhos com os pais .......cc.. 


Livro Terceiro 


[Dont cido Nones tora ces o pe e E E RS RIR A AS 
DE Don ependimento Cos Soa PER O die Sn ue RU ar 
UI — Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros ..... 
IV — Dadiversão ....cccccc. DE o JR DP DA RR 


ENA TODOS MO e MIL BU Dist dra o e RO Sa E ES a 
EV DON COChes? Bros nao Ea diabo A AD De dc do ER 


VI Dos nconvenentes das prandezasS uu ipanema a é 
VD ararte de CONVERSA Cai qa e O a 
[X== Davaldade: actas RA q NR RS RR ROB ADR O UU q 
X — Do domínio da própria vontade ........... DEAR e 
DESA DOS ONO: 4 (Sus UR a En id RS po PS e DR DR fg DT 
XII — Da fisionomia ..cccccc. Ao Fte qu dan RS RD san 


CCT D CR PONCIANO quis aire eis cin LÓ ua E SUR AR 


Nota do tradutor 


Tendo sido feita a tradução em linguagem atualizada dos Ensaios, de confor- 
midade com o texto da edição da Pléiade, confrontado com o texto anotado pelo 
General Michaut, e, somente bem mais tarde, a dos estudos de Pierre Moreau, 
Pierre Villey e Maurice Weiler, nem sempre coincide literalmente com as cita- 


ções desses autores a versão portuguesa. São elas, entretanto, inteiramente fiéis 


ao espírito senão à letra do texto original. O leitor não terá dificuldade em identi- 
ficá-las, quando necessário. 
S.M. 


LIVRO | 


DO AUTOR AO LEITOR 


Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé. 

Adverte-o ele de início que só o escrevi para mim mesmo, e alguns íntimos, 
sem me preocupar com o interesse que poderia ter para ti, nem pensar na posteri- 
dade. Tão ambiciosos objetivos estão acima de minhas forças. Votei-o em parti- 
cular a meus parentes e amigos e isso a fim de que, quando eu não for mais deste 
mundo (o que em breve acontecerá), possam nele encontrar alguns traços de meu 
caráter e de minhas idéias e assim conservem mais inteiro e vivo o conhecimento 
que de mim tiveram. Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfei- 
tado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor 
efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício 
de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto. Vivos se exibirão 
meus defeitos e todos me verão na minha ingenuidade fisica e moral, pelo menos 
enquanto o permiir a conveniência. Se tivesse nascido entre essa gente de quem 
se diz viver ainda na doce liberdade das primitivas leis da natureza, asseguro-te 
que de bom grado me pintaria por inteiro e nu. 

Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro, o que será talvez razão sufi- 
ciente para que não empregues teus lazeres em assunto tão fútil e de tão mínima 
importância. 

E agora, que Deus o proteja*. De Montaigne, em primeiro de março de 1580. 


*“ A frase pode prestar-se a confusão. No texto original diz-se: A Dieu donc — o que o General Michaut 
interpreta: Sur ce, à la grãáce de Dieu. 
Trata-se do destino do livro e pareceu-me melhor esclarecê-lo. (N. do T) 


| ci 


E Ro 


CAPÍTULO 1 


Por diversos meios chega-se ao mesmo fim 


A maneira mais comum de amolecer o cora- 
ção dos que nos ofendem, quando, vingança 
em mãos, eles nos têm à sua mercê, é comovê- 
los pela nossa submissão; inspirando-lhes 
comiseração e piedade. Entretanto a bravura, a 
tenacidade e a resolução, meios inteiramente 
opostos, alcançam às vezes idêntico resultado. 


Eduardo, Principe de Gales, que durante 
tanto tempo governou a nossa Guyenne! e per- 
sonagem cujos atos e carreira revelam muita 
magnitude, tendo-se apoderado pela força de 
Limoges, ordenara o massacre dos habitantes 
que o haviam gravemente ofendido. Cami- 
nhava ele pela cidade sem que os gritos dos 
homens, mulheres e crianças assim condena- 
dos à morte lhe.amolecessem a alma, quando 


deparou com três fidalgos franceses que, sozi- 


.nhos, e com incrível ousadia, enfrentavam o 


exército vitorioso. Essa coragem inspirou-lhe 
tal consideração e respeito, que subitamente se 
lhe acalmou a cólera; e o perdão que de ime- 
diato concedeu aos temerários, ele o estendeu 
aos demais habitantes da cidade. 

Scanderberg, Principe do Epiro, perseguia 
um de seus soldados com a intenção de matá- 
lo. Este, depois de ter tentado em vão acalmá- 
lo com protestos de toda espécie e. as mais 
humildes súplicas, resolveu, em desespero de 
causa, esperá-lo de espada na mão. O gesto 
resoluto freou instantaneamente a exasperação 
do senhor, o qual, ao ver tão honrosa atitude, 
outorgou mercê ao perseguido. O exemplo é 
suscetível de ser interpretado de outra maneira, 
mas tão-somente por quem ignore a força pro- 
digiosa e a valentia desse principe, 

O Imperador Conrado Ill, assediando o 
Duque da Baviera, não consentira em deixar 
sair da cidade senão as mulheres dos fidalgos 
que ali se encontravam. Comprometera-se a 
respeitar-lhes a honra mas à condição de sai- 


1 Não confundir com Guiana. Aqui Montaigne 
se refere à província francesa. (N. do T.) 


rem a pé e levando apenas, com elas, o que 
pudessem carregar; e recusara-se a atenuar tais 
condições, por mais humilhantes que fossem 
as satisfações oferecidas pelo inimigo. Aten- 
tando unicamente para os ditames do coração, 
lembraram-se as mulheres de levar às costas os 
maridos, os filhos e o próprio duque. Impres- 
sjonou-se o Imperador a tal ponto com essa 


prova dê coragem que chegou a chorar de 
emoção. O ódio mortal que votara ao duque, 
cuja desgraça desejava, tornou-se menos vio- 
lento € a partir desse momento ele o tratou, e 
aos seus, com humanidade. 

Ambos os meios dariam resultado comigo, 
pois tenho grande propensão para a miseri- 
córdia e a benevolência. Entretanto, acho que 
cederia mais facilmente ainda pela compaixão 
do que pela admiração, embora a piedade seja 
considerada paixão condenável pelos estóicos, 
os quais admitem que socorramos os aflitos 
mas não que nos enterneçamos ante o sofri- 
mento ou dele nos compadeçamos. Os exem- 
plos que precedem parecem-me sublinhar me- 
lhor a realidade das coisas. Mostram-nos a 
alma em luta com estes dois sentimentos 
contrários: resistir a um sem dobrar e ceder ao 
outro. Isso se explica se admitimos que entre- 
gar-se à piedade é mais fácil e característico 
dos corações bondosos e pouco enérgicos. As 
pessoas mais fracas, como as mulheres, as 


crianças e a gente do povo, a tanto são levadas 


habitualmente. Ao passo que não se deixar 
enternecer pelas lágrimas e súplicas e atentar 
somente para as provas manifestas de indiscu- 
tível coragem, é peculiar às almas bem tempe- 
radas, que apreciam e honram os caracteres 
enérgicos e tenazes. 


Entretanto, espanto e admiração podem 
produzir semelhantes efeitos nas naturezas 
menos generosas; haja vista o povo de Tebas 
que, chamado a julgar no processo intentado 
contra os capitães de seus exércitos, por se 
terem mantido nos cargos além do tempo em 


14 MONTAIGNE 


que deviam ocupá-los, com dificuldade absol- 
veu Pelópidas, deprimido pela acusação e não 
sabendo defender-se senão com lamentações e 
súplicas, enquanto, ao contrário, diante de 
Epaminondas — que, depois de expor em ter- 
mos exaltados os atos de seu comando, pôs-se, 
cabeça erguida e verbo sarcástico, a censurar 
ao povo sua ingratidão — a assembléia, toma- 
da de admiração por homem de tão bela cora- 
gem, dispersou-se sem ir ao escrutínio. 

Dionísio, tirano de Siracusa, tendo-se apo- 
derado, após longo e difícil assédio, da cidade 
de Reggio e com ela de Phyton, homem de 
grande virtude que comandara a obstinada 
defesa, quis vingar-se de maneira que viesse a 
constituir um exemplo. Antes de mais nada 
comunicou-lhe ter mandado afogar o filho e 
seus demais parentes, ao que Phyton respon- 
deu apenas que tinham sido mais felizes, por 
um dia, do que ele próprio. Dionísio entregou- 
o então aos carrascos que o despojaram de 
suas roupas e o arrastaram pela cidade, 
vergastando-o ignominiosamente e o acabru- 
nhando com as mais brutais e cruéis injúrias. 
Phyton, conservando presença de espírito e 
coragem, não afrouxa, continuando a vanglo- 
riar-se em voz alta de sua honrosa e gloriosa 
defesa, causa de sua próxima morte e prova de 
que não quisera entregar sua pátria ao tirano, 
ao qual ameaça com a punição dos deuses. 
Lendo nos olhos da maioria dos soldados que 
estes, em vez de se irritarem com as bravatas, 
eram levados a desprezar seu próprio chefe e a 
depreciar a vitória, e, espantados com tama- 
nha coragem, se iam comovendo e já resmun- 
gavam, falando mesmo de arrancar Phyton 
das mãos dos carrascos, Denis pôs fim ao mar- 
trio, mandando jogá-lo às escondidas no 
mar?. 

Em verdade o homem é de natureza muito 
pouco definida, estranhamente desigual e di- 
verso. Dificilmente o julgariamos de maneira 
decidida e uniforme. Eis Pompeu que perdoa 
toda a cidade dos Marmentinos? contra a qual 
estava muito irritado, por consideração para 
com a virtude e a grandeza de alma de Zenão 
que reivindicava e solicitava ser castigado 
sozinho. No entanto, em semelhante circuns- 
tância, em Pérusa, o hospedeiro de Sila nada 
obteve, nem para si mesmo nem para os 

"outros. E contra meus primeiros exemplos 
vemos Alexandre, o homem mais denodado 
que jamais houve e tão magnânimo com os 
vencidos, agir de modo bem diferente em 


2 Deodoro de Sicília. História tirada da tradu- 
ção de Amyot. 


3 Habitantes de Brescia (Lombardia). 


Gaza, conquistada após numerosas e grandes 
dificuldades, contra Bétis que comandava a 
praça e que durante o sítio dera provas de bri- 
lhante coragem. Encontrando-o só, abando- 
nado pelos seus, de armas partidás e coberto 
de sangue a lutar ainda no meio de um punha- 
do de macedônios que o atacavam de todos os 
lados, Alexandre, vivamente afetado por uma 
vitória tão caramente paga (entre outros pre- 
juízos recebera ele próprio dois ferimentos), 
disse-lhe: “Não morrerás como o ambicionas, 
Bétis; fica certo de que antes sofrerás os mais 
cruéis tormentos que se inventam contra um 
cativo”. Nada respondendo Bétis à ameaça, 
antes tomando uma atitude de altivez e desa- 
fio, Alexandre, diante do silêncio orgulhoso e 
obstinado, exclamou: “Não dobrou sequer o 
joelho! Não fez sequer um pedido! Pois eu 
acabarei com esse mutismo e, se não puder 
arrancar-lhe uma palavra, conseguirei pelo 
menos um gemido!” * E, passando da cólera à 
raiva, mandou furar-lhe os calcanhares e 


amarrá-lo ainda em vida a um carro para que, 
assim arrastado, se fizesse em pedaços. Qual 
terá sido o móvel dessa crueldade em Alexan- 


dre? Uma tal coragem terá parecido natural e 
pouco digna de apreço em quem também a 
possuía em alto grau? Ou não podia ele ver em 
outros sem inveja a sua própria qualidade? Ou 
não era capaz de dominar-se diante de um obs- 
táculo à sua cólera? O fato é que, se fosse 
capaz de domínio sobre si mesmo, tê-lo-ia 


exercido por ocasião da tomada e saque de 
Tebas, onde tantos valentes guerreiros, cuja 
resistência se desmantelara, foram passados 


pelo fio da espada, assim morrendo seis mil, 
dos quais nenhum se viu fugir ou rogar mercê. 
Ao contrário, andavam todos pelas ruas a 
enfrentarem os vencedores, forçando-os a 
matar em condições honrosas. Não se viu 


nenhum, por mais crivado de ferimentos esti- 
vesse, que não tentasse ainda vingar-se. No seu 
desespero, tudo lhes servia de arma, consolan- 


do-se da própria morte com a morte de alguns 
de seus inimigos. Essa coragem infeliz |não 
acordou, entretanto, em Alexandre, nenhuma 
piedade; eum dia inteiro de carnificina não 
bastou para estancar-lhe a sede de vingança. O 
massacre não findou senão quando acabaram 
as vítimas. E somente as pessoas incapazes de 
carregar armas, mulheres e crianças, foram 
poupadas, sendo, em número de trinta mil, 
reduzidas a escravos *. 
3 Quinto Cúrcio, IV, 6. | 
8 Deodoro de Sicília. | 

| 

t 


ENSAIOS —I 15 


CAPÍTULO II 


Da tristeza 


Sou dos que menos sentem essa disposição 
de espirito *; não a aprecio nem a valorizo, em- 
bora de um modo geral, e preconceituo- 
samente, os homens a respeitem e estimem. 
Com ela enfeitam a sabedoria, a virtude, a 
consciência, mas o -adorno é pobre e feio. Os 
italianos com muito mais razão deram seu 
nome à maldade”, pois ela é sempre nociva, 
sempre insensata, e também covarde e despre- 
zível: Os estóicos a proíbem aos sábios. 


Diz-nos a história” que Psametico, rei do 
Egito vencido por Cambises, rei da Pérsia, 
vendo passar a filha, como ele próprio cativa, e 
que ia buscar água vestida de serva, permane- 
ceu mudo, olhos voltados para o chão, 
enquanto choravam todos os seus amigos. 
Vendo logo depois o filho, que conduziam 
para a morte, conservou a mesma atitude. No 
entanto, diante de um criado que levavam à 
tortura, juntamente com outros prisioneiros, 
pôs-se a golpear a cabeça demonstrando extre- 
ma aflição. 


Pode-se comparar esse fato ao que ocorreu 
recentemente com um de nossos príncipes, o 
qual recebeu em Trento a notícia da morte do 
irmão mais velho, sustentáculo da honra e da 
manutenção da família. Logo depois sabia do 
falecimento do segundo irmão para o qual, 
desaparecido o primeiro, voltavam todas as 
esperanças. Ambas as desgraças ele as supor- 
tou com coragem exemplar. Eis que dias mais 
tarde vem a morrer um dos seus amigos”, ao 


s No texto: “paixão”. O dicionário de Hatzfeld e 
Darmesteter assinala entretanto o sentido do 
“sofrimento”, tirando o exemplo do próprio Mon- 
taigne. Pareceu-nos melhor tradução “disposição de 
espírito”, adotada por Michaut. (N. do T.) 

7 Malignité — no original, o que significa na lin- 
guagem arcaica — disposição para fazer o mal. 
Quanto à palavra italiana a que alude Montaigne, 
há confusão. Trata-se não de “tristezza” mas de 
“tristizia” para a qual o dicionário de Petrocchi 
consigna o sentido de “ignomínia”. (N. do T.) 

8 Heródoto. 

9 No texto “domestiques”, palavra que tinha 
então o sentido de amigo da casa. (N. do T.) 


que não pôde resistir. Sua resolução o aban- 
dona e ele se desfaz em lágrimas e lamenta- 
ções, a ponto de observarem que somente ao 
último acontecimento se mostrara realmente 
sensível. Na verdade a medida estava cheia e 
uma coisa de nonada bastara para abater-lhe a 
energia e provocar um transbordamento de 
tristeza. Poder-se-ia, creio, assim explicar 
igualmente a atitude de Psametico, se não 
acrescentasse a história que Cambises, tendo- 
lhe perguntado por que motivo ele, que tão 
pouco se mostrara perturbado com a infelici- 
dade da filha e do filho, tanto se afetara ante a 
de um amigo, recebeu esta resposta: “É que só 
esta última tristeza é suscetível de se exprimir 
por lágrimas; a dor sofrida nos dois primeiros 
casos estã além de qualquer expressão.” 

A propósito, vem-me à memória o caso 
daquele pintor antigo!º que, no sacrifício de 
Ifigênia, teve de representar o sofrimento dos 
diversos personagens segundo o grau de inte- 
resse que cada um votava à bela e inocente 
Jovem, e que ao chegar ao pai da virgem já 
havia esgotado todos os recursos de sua arte. 
Diante da impossibilidade de dar-lhe uma ati- 
tude em relação com a intensidade da dor, pin- 
tou-o de rosto coberto, como se nenhuma 
expressão pudesse ilustrar semelhante desespe- 
ro. Eis por que os poetas imaginam a miserá- 
vel Niobé, que depois de perder seus sete filhos 
viu morrerem as sete filhas, transmudada em 
rochedo pela sobrecarga de desventura: 
“petrificada pela dor?'?, a fim de exprimir 
essa espécie de embrutecimento sombrio, 
surdo e mudo que se apodera de nós quando as 
ocorrências nos esmagam ultrapassando o que 
nos é dado suportar. E, efetivamente, uma dor 
excessiva, exatamente porque excessiva, deve 
estupidificar a alma a ponto de paralisar qual- 
quer gesto, como acontece quando recebemos 
inesperadamente uma péssima notícia. Somos 
tomados de espanto, penetrados de pavor ou 
de aflição e como tolhidos em nossos movi- 
mentos até que à prostração suceda o relaxa- 


10 Cicero. 
11 Ovídio. 


16.07 | MONTAIGNE 


mento. Surdem então as lágrimas e os lamen- 
tos que aliviam a alma e como que lhe 
permitem mover-se mais à vontade: “é com 
dificuldade: que afinal recupera a voz e pode 
exprimir sua dor” 2. 

Durante a guerra do Rei Fernando contra o 
rei da Hungria perto de Buda!'º um dos guer- 
reiros mostrou-se particularmente valente nos 
combates que se verificaram. Ninguém o reco- 
nhecera e todos o elogiavam e lhe lamentavam 
a sorte porquanto sucumbira na refrega. E nin- 


guém mais do que um Sr. de Raisciac, fidalgo 
alemão, o engrandecia, entusiasmado com tão 
rara coragem. Recolhido o corpo, Raisciac 
aproximou-se como os demais para ver quem 
“era, e ao lhe tirarem a armadura reconheceu o 
filho. A emoção dos presentes aumentou mais 


ainda; só ele permaneceu impassível, sem dizer 
palavra, sem pestanejar, de pé, contemplando 
fixamente o corpo até que a violência da dor 
tendo atingido o próprio princípio da vida o 
derrubasse para sempre. “Quem pode dizer a 
que ponto arde, arde bem pouco”! *, dizem os 
amantes que querem exprimir insuportável pai- 
xão ou: “Quão miserável sou! O amor pertur- 
ba-me os sentidos. À tua vista, ó Lésbia, perco 
a razão. Falar estã acima de minhas forças, 
minha língua engrola, uma chama sutil percor- 
re-me as veias, mil ruídos confusos soam-me 
aos ouvidos e o véu da noite estende-se sobre 
os meus olhos! º.º 

Não é no auge de nossos transportes quando 
nos ferve o sangue nas veias que somos mais 
capazes de encontrar o tom que comove e per- 
suade. Nesses momentos a alma está por de- 
mais absorvida em seus pensamentos, o corpo 

12 Virgílio. 

13 Budapeste. 


14 Petrarca. 
15 Catulo. 


demasiado abatido e lânguido de amor; daí, 
por vezes, a inesperada e fortuita impotência 
que surpreende o amante tão fora de propó- 
sito; daí esse gelo que o envolve, em virtude do 
extremo ardor, na própria fonte de seu gozo. A 
paixão que se deixa saborear e digerir mal me- 
rece ser assim nomeada. “Os prazeres leves 
são loquazes, as grandes paixões silencio- 
sas! 8 

Da mesma forma nos comove a surpresa de 
um prazer inesperado: “Logo ao ver-me, ao 
perceber de todos os lados as armas de Tróia, 
fora de si, como golpeada por pavorosa visão, 
se imobiliza. Seu sangue gela, desmaia e só 
muito tempo depois pode enfim falar! 7.” 

Além daquela romana que morreu de ale- 
gria ao ver o filho escapar da derrota de 
Canes; além de Sófocles e Dionísio, o tirano, 
que também morreram de alegria ao receberem 
uma boa notícia; e Talma que faleceu na Cór- 
sega ao saber das honras que o Senado de 
Roma lhe conferira; vimos neste século o Papa 
Leão X que, ao ter notícia da tomada de 
Milão, tão ardentemente desejada, experi- 
mentou tal carga de alegria que a febre o assal- 
tou, levando-o à morte. E mais um testemunho 
comprovador da fraqueza humana tirado dos 
antigos: Deodoro, o dialético, vendo-se em 
suas aulas públicas incapaz, de repente, de res- 
ponder às objeções que. lhe faziam, sentiu 
tamanha vergonha que morreu na hora. Quan- 
to a mim, sou pouco predisposto a essas pai- 
x0es violentas; tenho uma sensibilidade” 8 
naturalmente grosseira e a torno mais espessa 
ainda e empedernida mediante raciocínios 
diários. 

18 Sêneca. 

17 Virpílio. 

18 “Apprehension” tanto pode ser compreensão 


(faculdade de entender), como sensibilidade 
(faculdade de sentir). (N. do T.) ; 


CapíruLo HI - 


Dos nossos ódios e afeições | 


Os que censuram aos homens sempre se 
preocuparem com as coisas futuras e nos ensi- 
nam a gozar os bens presentes, e com eles nos 
contentarmos, observando que não mandamos 
no que está por vir, talvez, menos ainda do que 


no passado, referem-se ao mais corriqueiro dos 
erros humanos, se é que se pode chamar erro a 
essa tendência que, embora a ela sejamos 
impelidos pela própria natureza no afã da 
continuidade de sua obra, falseia a nossa 


t 
t 


DS O A ia ie — 


ENSAIOS— I 17 


imaginação, mais exigente de ação que de ciên- 
cia, ainda que ignoremos aonde nos leva. 
Nunca estamos em nós; estamos sempre além. 
O temor, o desejo, a esperança jogam-nos sem- 
pre para o futuro, sonegando-nos o sentimento 
e o exame do que é, para distrair-nos com o 
que será, embora então já não sejamos mais. 
“Todo espírito preocupado com o futuro é 
infeliz ! 9.” 

“Faze aquilo para que és feito e conhece-te a 
ti mesmo”, eis um grande preceito amiúde cita- 
do em'Platão. E cada um dos membros dessa 
proposição já nos aponta nosso dever, e traz 
em si o outro. Quem se aplicasse em fazer 
aquilo para que é feito perceberia que lhe é 
necessário adquirir antes de mais nada O 
conhecimento de si próprio e daquilo a que 
estã apto. E quem se conhece não erra acerca 
de sua capacidade, porque se aprecia a si 
mesmo e procura melhorar, recusando as ocu- 
pações supérfluas, os pensamentos e os proje- 
tos inúteis. Da mesma forma que a loucura 
não se satisfaz ainda que cedamos a seus dese- 
Jos, a sabedoria, sempre satisfeita com o pre- 


sente, nunca se descompraz consigo mesma. A' 


ponto de Epicuro considerar que nem a previ- 
dência nem a preocupação com o futuro são 
peculiares ao sábio. 

Entre as leis relativas ao homem depois da 
morte, das mais justificáveis se me afigura a 
que submete as ações dos príncipes a um julga- 
mento póstumo?º. Os príncipes com efeito 
devem submeter-se às leis, pois não pairam 
acima delas. E por não poder a justiça nada 
contra eles, quando vivos, natural me parece 
que ao desaparecerem deva ela agir sôbre sua 
reputação e os bens legados, coisas que não 
raro preferimos à vida. É um uso que não acar- 
reta senão vantagens às nações que o adotam. 
E os bons príncipes; que poderiam queixar-se 
de ver tratada: a memória dos maus como a 
sua, hão de desejá-lo. Devemos disciplina e 
obediência aos reis, bons ou maus; isso é indis- 
pensável para que desempenhem seu papel. 
Mas nossa estima e nossa afeição, não lhas 
devemos, a não ser que as mereçam. Admita- 
mos que as necessidades políticas nos obri- 
guem a suportâ-los com paciência por mais 
que sejam indignos, a dissimular-lhes os vícios, 
a endossar-lhes os atos quaisquer que sejam, 


na medida de nossas forças e desde que de tal. 


endosso necessite a sua autoridade. Mas, cum- 
prindo esse dever, não há razão para que nos 
recusemos a julgá-los e não tenhamos a liber- 
dade de exprimir nossos ressentimentos se for 


13 Sêneca. 
2º Deodoro de Sicília. 


o caso, nem que nos neguemos a honrar essss- 
ses bons servidores que, embora conhecendo 
as imperfeições do senhor, o serviram com res- 
peito e fidelidade, exemplo útil a ser transmi- 
tido à posteridade. Aqueles que, em virtude de 
obrigações pessoais, defendem sem razão a 
memória de um príncipe indigno, fazem ato de 
Justiça privada em prejuízo da justiça pública. 
Tito Lívio anda certo ao observar que a lin- 
guagem dos homens enfeudados à realeza é 
sempre cheia de vãs ostentações e falsos teste- 
munhos, encarando cada qual o seu rei 
independentemente de seus méritos como um 
soberano cujo valor e cuja grandeza não 
podem ser ultrapassados. Pode-se reprovar a 
altivez dos soldados que responderam a Nero, 
o qual perguntara a um deles por que lhe que- 
ria mal e ao outro por que o deseiava matar: 


“Gostava de ti quando eras digno desse senti- 
mento”, respondeu o primeiro; “desde, porém, 
que te tornaste parricida, incendiário, histrião, 
cocheiro, odeio-te como o mereces.” E o 
segundo afirmou: “Porque não vejo outro 
remédio para teus contínuos desmandos?!” 
Mas quem há de reprovar os testemunhos pú- 
blicos e universais que depois de sua morte 
foram obtidos contra esse príncipe, seus tirâni- 


cos e odiosos entusiasmos, testemunhos que o 
estigmatizaram para sempre — e como ele 
todos os maus? Lamento que entre os usos e 
costumes tão sábios da Lacedemônia se tenha 
intrcduzido uma hipócrita cerimônia, por oca- 
sião da morte dos reis. Todos os confederados 


e os povos vizinhos, juntamente com os hilo- 
tas, homens e mulheres, feriam a fronte em 
sinal de luto, proclamando entre gritos e 
lamentações que o defunto (bom ou mau tives- 
se sido) fora o melhor dos reis que haviam 
tido. Davam, assim, à condição os louvores 


que ao mérito deveriam caber, e relegavam 
para o último lugar aquilo que em primeiro 
deveria estar. Aristóteles, que trata de todos os 
assuntos, indaga, a propósito das palavras de 
Sólon: “ninguém se pode dizer feliz antes de 
morrer”, se quem viveu e morreu segundo seus 
desejos, mas deixou má reputação ou os seus 
pósteros na miséria, deve qualificar-se como 
feliz. Enquanto viverrios temos a faculdade de 
fazer com que nosso pensamento se pouse 
onde queremos; quando deixamos de existir 
acabam as possíveis comunicações com o 
mundo vivo. Eis por que Sólon teria dito me- 
lhor se houvesse afirmado que o homem não é 
nunca feliz, porquanto só o é quando já não 
mais existe. 


21 Tácito. 


18 MONTAIGNE 


“Encontra-se com dificuldade um sábio. 


capaz de fugir da vida e a repelir: ignorante do 
futuro, o homem imagina que parte de seu ser 
sobrevive e não pode libertar-se desse corpo 
que perece e cai? 2.” 

Bertrand du Guesclin morreu no sítio do 
castelo de Randon em Puy, na Auvergne. 
Tendo os sitiados capitulado depois da morte 
dele, viram-se obrigados a depor as chaves da 
cidade sobre o seu cadáver. Barthélemy de 
Alviane, general do exército veneziano, tendo 
morrido na batalha perto de Brescia, tornou-se 
necessário, a fim de transportar o corpo para 
Veneza, atravessar o território inimigo de 
Verona. Os chefes venezianos em sua maioria 
eram de opinião que se pedisse um salvo-con- 
duto aos veroneses. Théodore Trivulce a isso 
se opôs, preferindo passar à força, ainda que 
fosse preciso combater, pois não era decente, 
disse, que quem em vida jamais temera o ini- 
migo parecesse amedrontar-se depois de 
morto??. — As leis gregas apresentam-nos 
algo semelhante: quem solicitava do inimigo 
um corpo para inumá-lo renunciava à vitória e 
não mais a podia consagrar com um troféu; e 
aquele a quem a solicitação era feita conside- 
rava-se vencedor. Nícias assim perdeu as van- 
tagens nítidas que conseguira contra os corin- 
tios e, inversamente, Agesilas desse modo 
assegurou um êxito mais do que duvidoso 
sobre os beócios. Tais fatos poderiam parecer 
estranhos, se desde sempre não juntassem os 
homens à preocupação do além a crença de 
que as bênçãos celestes o acompanham ao tú- 
mulo e se estendem a seus restos. E tantos são 
os exemplos antigos a esse respeito — sem 
falar nos de hoje — que não se faz preciso 
insistir. Eduardo I, rei da Inglaterra, tendo 
observado nas suas intermináveis guerras con- 
tra Roberto, rei da: Escócia, a que ponto sua 
presença contribuía para o êxito, cabendo-lhe 
a vitória lá onde ele se encontrava, no momen- 
“to de render o último suspiro obrigou o filho, 
mediante juramento solene, a mandar ferver- 
lhe o corpo depois de morto para que, separan- 
do-se as camnes dos ossos, se enterrassem aque- 
las e se transportassem estes com o exército 
sempre que marchassem contra os escoceses. 
Como se o destino houvesse fatalmente subor- 
dinado a vitória à presença dos ossos. — Jean 
Ghiska? *, que perturbou a Boêmia na defesa 
dos erros de Wiclef, exigiu que depois o esfo- 
lassem e com a pele fizessem um tambor que 
usariam quando pegassem em armas contra os 
inimigos, imaginando que dessa maneira aju- 
daria a manter as vantagens obtidas nas guer- 
ras anteriores. Certas tribos de índios também 


22 Lucrécio. 
23 Brantôme. 
2º Em outras edições, Ziska ou Vischa. 


levavam para o combate contra os espanhóis 
os ossos de um de seus chefes por causa dos 
êxitos que tivera em vida. Outras tribos desse 
mesmo continente carregam com elas, na guer- 
ra, OS corpos dos seus guerreiros que se te- 
nham distinguido pela valentia e morrido na 
luta, pois os consideram suscetíveis de darem 
sorte e servirem de estímulo. Mostram-nos os 
primeiros exemplos a recordação de nossos fei- 
tos honrosos acompanhando-nos ao túmulo; 
os últimos atribuem, ademais, a essa recorda- 
ção, um sentido afetivo. 


O caso de Bayard é mais admissível. Esse 
chefe ao sentir-se mortalmente ferido por um 
tiro de arcabuz no corpo, e instado a retirar-se 
da luta, respondeu que não era no momento de 
findar que iria começar a virar as costas ao ini- 
migo. E continuou a pelejar enquanto as forças 
o permitiram. E, não podendo mais permane- 
cer a cavalo porque se sentia desmaiar, man- 
dou a seu escudeiro que o deitasse ao pé de 
uma árvore, porém de maneira a morrer com o 
rosto voltado para o inimigo. E assim se-fez. 


Acrescentarei outro exemplo, tão interes- 


“sante no gênero quanto os precedentes. O 


Imperador Maximiliano, bisavô do Rei Filipe, 
atualmente no trono, foi um príncipe dotado de 
numerosas e eminentes qualidades e notável 
pela sua beleza física. Entre as suas singulari- 
dades havia a de não se assemelhar a esses 
príncipes que para tratar dos negócios mais 
importantes fazem de sua retrete um trono. 
Nunca teve criado por mais familiar a quem 
permitisse vê-lo em trajes menores. Escondia- 
se para urinar e tão pudibundo quanto uma 
virgem, nem ao médico nem a ninguém mos- 
trava as partes do corpo que costumamos 
cobrir. Eu, que tão impudente tenho a lingua, 
sou entretanto, por temperamento, igualmente 
inclinado. a semelhante discrição. E, a menos 
que a tanto seja levado por necessidade ou 
volúpia, não exponho aos olhos de ninguém as 
partes de meu corpo ou os atos íntimos que 
nossos costumes recomendam se soneguem à 
vista; e faço disso uma obrigação talvez maior 
do que convém a um homem, e em particular 
de minha profissão? *. Mas o Imperador Maxi- 
miliano a tal exagêro chegara que ordenou 
expressamente em testamento que lhe, puses- 
sem ceroulas depois de morto, acrescentando 
que a pessoa encarregada dessa missão a 
desempenhasse de olhos vendados. O desejo 
expresso por Ciro a seus filhos de que nem eles 
28 Original: Jy soufre plus de contrainte, que je 
n estime bienséant à un homme — A frase presta-se 
a confusão. Michaut a interpreta forçando alexpres- 
são, mas como Montaigne se considera militar (ver 
comentário de Thibaudet à edição La Pléiade), 


parece-nos que a interpretação escolhida atênde ao 
espírito do texto. (N. do T.) 


ENSAIOS — 1 19 


. nem ninguém lhe tocassem o corpo depois da 
morte, provém, imagino, de alguma prática 
devota, pois tanto ele como seu historiador, 
entre outras grandes qualidades, mostraram-se 
durante a vida especialmente dedicados à 
religião. 


Desagrada-me o que me contou certo indivi- 
duo altamente colocado e diz respeito a pessoa 
de minhas relações intimas, assaz conhecida 
pelos cargos que ocupou na paz como na guer- 
ra. Esta personagem, que morreu em sua Corte 
em idade avançada e após cruéis sofrimentos 
devidos a cálculos, passou suas últimas horas 
regulando com exagerados cuidados a cerimô- 
nia de seu enterro de modo a dar-lhe o maior 
relevo. Pedia aos nobres visitantes que se 
comprometessem sob palavra de honra a 
tomar parte no cortejo fúnebre. Ao próprio 
príncipe que me narrou o caso, pediu ele insis- 
tentemente mandasse vir o seu séquito, e citava 
exemplos e argumentava para provar que tanto 
se devia a um homem de sua condição. E, 
tendo arrancado tal promessa e estabelecido dê 
acordo com suas idéias a distribuição e a 
ordem da parada, expirou aparentemente satis- 
feito. Não creio ter jamais visto tão persistente 
vaidade. 


Preocupar-se com regular os funerais ou de 
maneira orginal ou com excessiva parcimônia, 
como por exemplo reduzindo o acompanha- 
mentó a um simples servidor carregando uma 
lanterna, são singularidades inversas das pre- 
cedentes, embora da mesma ordem e de que 
também encontro exemplos na minha família. 
Há entretanto quem aprove tais gestos, como 
aprovam a proibição de Marco Lépido a seus 
herdeiros de empregar o cerimonial adequado 
ao seu caso. Se assim agindo imaginamos 
fazer ato de temperança e austeridade, evi- 


tando uma despesa e uma satisfação que não 
gozaremos e cuja percepção nos será impossi- 
vel, tal atitude em verdade não será muito 
meritória. Se me coubesse resolver quanto ao 
assunto, eu diria que nessas como em todas as 
demais circunstâncias da vida, cada qual deve 
orientar-se pela sua situação na sociedade, e o 
filósofo Lícon demonstrou sabedoria quando 
prescreveu a seus. amigos que o enterrassem 
como achassem melhor, organizando funerais 
que não fossem nem supérfluos nem miserá- 
veis? 8. No que me diz respeito, que obedeçam 
aos usos em vigor; confio na discrição daque- 
les a quem caberá então tal incumbência. “Eis 
um cuidado que é preciso desprezar pera si 


26 No. textô “mécaniques”, isto é, como os dos 


artesãos — demasiado simples — miseráveis por 
extensão. — Ne soyons ni superbes, ni mécaniques 
dans notre habillement (Malherbe — citado tio 


dicionário de Hatzfeld e Darmesteter. (N. do T.) 


próprio e não negligenciar para os outros? 7.” 
Santo Agostinho fala uma linguagem digna de 
um santo quando diz: — “A organização dos 
funerais, a escolha da sepultura, a pompa das 
exéquias, são menos necessárias à tranqui- 
lidade dos mortos do que ao consolo dos 
vivos.” — No mesmo espírito, Sócrates ao 
morrer respondia a Criton que lhe perguntava 
como queria ser enterrado — “como quiser- 
des”. Se eu devesse atentar?º mais completa- 
mente para a coisa, ser-me-ia agradável imitar 
os que, ainda em vida e na plena posse de suas 
faculdades, empreendem gozar antecipada- 
mente as homenagens fúnebres que lhes serão 
prestadas, deleitando-se na contemplação de 
sua efigie reproduzida no mármore do túmulo. 
Felizes aqueles para quem ver o que serão, 
guando não forem mais é um prazer, e que 
vivem de sua própria morte. 


Embora eu considere a soberania do povo a 
mais natural e racional, por pouco não me 
torno seu inconciliável adversário, tal aversão 
me infunde a atitude injusta e inumana dos ate- 
nienses que condenaram à morte e imediata 
execução, sem sequer lhes ouvir a defesa, os 
valentes capitães que acabavam de vencer os 


lacedemônios junto às ilhas Arginusas na 
batalha naval mais árdua e considerável que os 
gregos jamais tiveram. E por quê? Porque 
esses chefes após a vitória tinham procurado 
tirar partido de suas vantagens, de acordo com 
a arte da guerra, em vez de se atardarem em 
recolher os mortos e lhes darem sepultura. A 
odiosidade da execução ainda maior relevo 
apresenta ante a atitude de Diomedonte, um 
dos condenados, soldado e homem político de 
grande mérito. Depois de ouvir a sentença e 


diante da calma restabelecida na assembléia, 
adianta-se para falar e em lugar de usar a pala- 
vra em defesa da causa, pondo em evidência a 
iniquidade de tão cruel veredicto, não pensa 
senão nos juízes e pede aos deuses que os 
recompensem e lhes comunica que tais eram os 
votos dele próprio e de seus companheiros, 
temerosos de que a ira celeste despertada pela 
não observância dos deveres funerários se des- 
viasse deles próprios, os beneficiários de tão 
brilhante êxito. E sem mais nada acrescentar, 
sem nenhuma recriminação, marchou corajo- 
samente para o suplício?º. 


27 Cícero. 

28 No texto “empescher” — o que só se entende 
dando ao verbo o sentido assinalado no dicionário 
de Godefroy —- refletir, ocupar-se longamente com 
— exemplificado com uma frase de Froissart. 
Assim o anota igualmente Thibaudet. (N. do T.) 

2º A frase é incrivelmente confusa em sua sintaxe. 
Adotamos a interpretação de Michaud, procurando 
aproximar-nos entretanto o mais possível do texto 
origina:: (N. do T.) 


20 MONTAIGNE 


Alguns anos mais tarde, o destino puniu os 
atenienses por onde haviam pecado. Chabrias, 
comandante de sua frota, tendo vencido perto 
da ilha de Naxos, a Polis, almirante espartano, 
perdeu o fruto da vitória, de importância capi- 
tal, receoso de idêntica condenação. Para não 
deixar sem sepultura os corpos de alguns dos 
seus homens, que flutuavam sobre as ondas, 
deixou que fugissem inúmeros inimigos, os 
quais, voltando-se ao depois contra ele, fize- 
ram-no pagar caro a observância tão inopor- 
tuna dessa superstição. “Queres saber onde 
estarás depois de morto? Irás para onde se 
encontram as coisas ainda por nascerem*º.” 

Outros concedem em princípio o repouso ao 


30 Sêneca. 


corpo que a alma abandona. 

“Que não tenha túmulo para recebê-lo e 
onde, aliviado do peso da vida, seu corpo 
possa repousar em pazº?.? 

Tudo nos leva a crer. que a morte não é o fim 
último. A própria natureza nos fornece exem- 
plos de misteriosas relações entre o que não 
mais existe e o que vive ainda. Não experi- 
menta o vinho nas adegas modificações corres- 
pondentes às que as estações imprimem às 
vinhas? E dizem também que a came dos ani- 
mais mortos na caça e conservada em salga- 
deiras se modifica e muda de gosto tal qual 
acontece com a desses mesmos animais quan- 
do vivos. 


31 Enio. 


CAPÍTULO IV 


De como a alma que carece de objetivo para as suas paixões 
as manifesta ainda que ao acaso 


Um fidalgo de nossa sociedade, sujeito a 
ataques de gota, tinha por hábito responder, 
gracejando, aos médicos que lhe recomen- 
davam abster-se de carnes salgadas, que lhe 
apetecia responsabilizar alguém ou alguma 
coisa quando o mal o visitava e seu sofrimento 
aumentava. E aliviava-lhe a dor poder atribuir 
a causa disso ora ao chouriço, ora à língua de 
boi ou ao presunto que comera, mandando-os 
ao diabo. 

Em verdade, assim como nos dói o braço 
erguido para bater, se o golpe não alcança o 
alvo e atinge O vácuo, e assim como para tor- 
nar uma paisagem agradável é preciso que ela 
não se isole no espaço mas antes se apóie a um 
fundo apropriado e seja vista a distância 
suficiente, 


“assim como o vento, se espessas flores- 
tas não se erguem à sua frente como 
obstáculos, perde sua força e se dissipa 
na imensidão??, 


assim a alma perturbada e agitada se confunde 
quando lhe falta um objetivo. Em seus trans- 


32 Lucano. 


portes, exige ela, sempre, algo a que culpar e 
contra o que agir. 

Plutarco?? diz, a propósito dos que se afei- 
çoam a macacos e cãezinhos, que a nossa 
necessidade de amar:em não se exercitando 
normalmente em vez de permanecer insatis- 
feita projeta-se sôbre objetos ilícitos ou indig- 
nos dela. Vemos igualmente a alma tomada 
pela paixão, de preferência a não se entregar a 
ela, enganar-se a si própria criando um obje- 
tivo falso ou fantasista, ainda que a expensas 
de suas próprias convicções. É o que leva os 
animais feridos a voltar-se contra a pedra ou o 
ferro que os feriu ou a morder-se a si mesmos 
para se vingarem da dor sentida. 


“Assim a ursa de Panônia se faz mais 
feroz quando atingida pelo dardo que 
retém a fina correia de Líbia; furiosa, 
procura morder a lança que a rasga e 
persegue o ferro que com ela gira? 4.” 


Que causas não inventamos para as desgra- 
ças que nos afligem? A quem ou a que, com 


33 Vida de Péricles. 
34 Lucano. 


ENSAIOS — 1 21 


razão ou sem ela, não culpamos a fim de ter 
algo contra que nos havermos? Em teu deses- 
pero arrancas as loiras tranças, rasgas O peito 


a ponto de o sangue mancthar-lhe a brancura; - 


são eles a causa da morte desse: bem-amado 
irmão que uma bala mortal tão cruelmente 
atingiu? Não, volta-te, pois, contra outros. 

A propósito do exército romano que, na 
Espanha, acabava de perder seus dois chefes, 
Públio e Cneu Cipião, ambos grandes guerrei- 
ros, diz Tito Lívio: — “Em todo o exército 
cada qual se pôs imediatamente a derramar là- 
grimas e a dar pancadas na cabeça”. Não é 
esse um costume generalizado? E não andava 
certo o filósofo Bion quando, a propósito do 
rei que no arrebatamento de sua dor arrancava 
barba e cabelos, dizia gracejando: “Pensa ele 
realmente que a pelada amorteça a tristeza do 
luto?? *”? E quem não viu jogadores rasgar ou 
mastigar cartas, ou engolir dados, para se vin- 
garem de um prejuízo? — Xerxes mandou fus- 
tigar o mar e desafiou o monte Atos; e Ciro 
divertiu seus exércitos durante muitos dias a 
querer vingar-se do rio Gindus pelo medo que 
tivera ao atravessá-lo. Calígula destruiu um 
magnífico palácio por causa do desgosto? & 
que sua mãe ali experimentara. 

Dizia o povo, na minha mocidade, que um 


38 Cicero. 

38 O texto é claro e diz “plaisir que sa mêre y avoit 
eu”. — Entretanto Michaut interpreta como. sendo 
“déplaisir”, desgosto. A edição de Lefevre (Paris, 
1834) anota a frase: “Talvez desgosto, porquanto 
sua mãe aí estivera prisioneira.” — Thibaudet é de 
opinião que se trata de um cochilo de Montaigne e 


na edição La Pléiade opina por “desgosto”. (N. do ” 


T.) 


rei dos nossos vizinhos? ?, castigado por Deus, 
jurou vingar-se. Para tanto ordenou que duran- 
te dez anos não se rezasse, nem se Lhe mencio- 
nasse o nome, nem mesmo, na medida em que 
a autoridade pode preiendê-lo, se acreditasse 
nEle. E com isso não procurava o povo apon- 
tar a tolice do soberano mas sim a glória da 
nação cujo rei assim agia. Presunção e estupi- 
dez andam juntas, porém tais atos mais se 
explicam pelo primeiro do que pelo segundo 
defeito. O Imperador Augusto, tendo enfren- 
tado violenta tempestade no mar, pôs-se a 
desacatar Netuno, e, como vingança, mandou 
retirar a estátua dessa divindade durante as 
festas circenses, extravagância menos descul- 
pável ainda que as precedentes38. Mais absur- 
do ainda se mostrou quando Quintilio Varus 
foi derrotado na Alemanha. Tomado de cólera 
e desespero, batia a cabeça contra os muros € 
gritava: “Varus, Varus, devolve minhas le- 
giões!” Semelhantes insanidades ultrapassam 
a loucura, principalmente quando a elas se 
Junta a impiedade e elas se voltam contra Deus 
ou contra a sorte como se esta nos pudesse ver | 
e ouvir. Agem assim como as traças diante dos 
relâmpagos e trovões e que, a exemplo dos 
Titãs, pénsavam reduzir Deus à razão, intimi- 
dando-o com flechas desfechadas contra o 
céu?º, Ora, como diz um poeta antigo, em Plu- 
tarco, “não nos devemos encolerizar contra os 
acontecimentos, porquanto não se preocupam 
com as nossas iras”. Mas nunca criticaremos 
demasiado essa desordem de nosso espírito. 


37 Afonso XI, de Castela. 
*8 Suetônio. 
*º Heródoto. 


CAPÍTULO V 


Deve o comandante de uma praça sitiada sair 
pára parlamentar? 


Lúcio Marco *º, que comandou os romanos 
durante a guerra contra Perseu, rei da Macedô- 
nia, desejoso de ganhar tempo a fim de reorga- 


49 Tito Lívio. 


nizar seus exércitos, fez ao rei propostas de 
paz que lhe amoleceram a prudência e o leva- 
ram a conceder uma trégua de alguns dias, 
dando ao inimigo azo e tempo para se armar, 
de que resultou a ruína do monarca. Em Roma 


22 MONTAIGNE 


alguns senadores imbuídos dos costumes de 
seus antepassados condenaram essa maneira 


de proceder por contraria ao que antes se fize- 
ra e que consistia em combater com coragem e 
não com astúcia, não se recorrendo nem à sur- 
presa, nem aos ataques noturnos, nem aos 
simulacros de fuga seguidos de inesperadas 
cargas. A guerra só se iniciava depois de 
declarada e, não raro, após terem sido marca- 
dos o lugar e a hora da batalha. A tais senti- 
mentos obedeceram quando entregaram a 
Pirro o médico que o traíra e aos falessios*! 
seu desleal mestre-escola. Nisso agiam como 
verdadeiros romanos e não como esses astu- 
ciosos cartagineses e esses gregos sutis que dão 
maior valor ao êxito obtido pela malícia do 
que ao alcançado pela força. O embuste pode 
servir. na hora, mas o adversário só se sente 
realmente vencido quando o foi em guerra leal 
e justa. em que a vitória sorri ao mais valente, 
e não pela manha nem pela sorte. Os senadores 
que falavim essa honesta linguagem não 
conheciam evidentemente ainda esta bela má- 
xima de Virgílio: “Contra o inimigo não há 
como escolher entre o ardil e a coragem.” 

Aos acaianos*2, diz Pólibo, repugnava o 
emprego da astúcia na guerra, só se conside- 
rando vitoriosos quando o ânimo do inimigo 
era abatido. O homem sábio e virtuoso deve 
saber que a única vitória é a que pode procla- 
mar sua boa-fé e honra. E diz outro ** autor: 

“Que nosso valor decida se é a vós ou a 
mim que a sorte, senhora dos acontecimentos, 
destina o império.” 

No reino de Ternate, uma dessas tribos a 
que sem hesitação chamamos bárbaras tem 
por costume só iniciar as hostilidades após 
uma prévia declaração de guerra à qual se 
acrescenta a enumeração precisa dos meios 
que pretende utilizar: número de guerreiros, 
natureza das armas ofensivas e deferisivas, 
munições. Isso feito, se o adversário não se de- 
cide a entrar na batalha, julgam-se esses bár- 
baros no direito de empregar, para o êxito, 
todos os meios a seu alcance. E outrora em 
Florença pensavam tão pouco em vencer pela 
surpresa que preveniam o inimigo um mês 
antes de marchar para o combate, tocando sem 
descontinuar um sino a que apelidavam Marti- 
nela. 

Quanto a nós, menos supersticiosos, consi- 
deramos que as honras da guerra cabem a 
quem com ela se beneficia e estimamos, depois 


“1 Povo da Arcádia. 
*2 Habitantes da Grécia. 
*3 Ênio, citado por Cicero — Das Deveres I-12. 


de Lisandro, que, se a pele do leão não basta, 
cumpre juntar um pedaço da pele da raposa. 
Ora, como acontece que é quando se parla- 
menta que ocorrem as surpresas, nesse mo- 
mento em particular deve o chefe pôr-se de 
sobreaviso. Daí a regra em vigor entre os ho- 
mens de guerra de nossa época, a saber, que O 
governador de uma praça sitiada nunca saia a 
fim de parlamentar. 

Nossos pais censuraram os senhores de 
Montmord e de PAssigny, que defendiam 
Pont-à-Moussof contra o Conde de Nassau, 
por terem contravindo a tais princípios. Entre- 
tanto, é desculpável quem sai da praça a parla- 
mentar, desde que tome todas as medidas para, 
em caso de perigo, ter por si uma vantagem. 
Assim o fez o Conde Guy de Rangon quê 
defendia Reggio. Tendo-se apresentado o Sr. 
de 1Eut a fim de parlamentar, afastou-se Guy 
de Rangon tão pouco da praça que, em se veri- 
ficando uma escaramuça durante as negocia- 
ções, não somente o Sr. de PEut e sua escolta 


(à qual pertencia Alexandre Trivulce que foi 
morto) se acharam dominados, como também 
o Sr. de PEut, para segurança própria, se viu 
obrigado a entrar na cidade sob a proteção do 
conde. E o que nos conta Du Bellay, mas 
Guicciardin o relata igualmente atribuindo-se 
a glória do acontecimento. 

Antígono, assediando Eumenes em Nora € 
insistindo para que saísse a fim de pessoal- 
mente parlamentar com ele e alegando que a 
Eumenes cabia fazê-lo por ser ele, Antígono, 
mais forte e de mais alta condição, ouviu do 
sitiado esta nobre resposta: “Não reconhecerei 
ninguém acima de mim enquanto tiver a facul- 
dade de brandir uma espada * *? E só consen- 
tiu em encontrar-se com Antígono quando este 
lhe entregou Ptolomeu, seu sobrinho, como 
refém. 

No entanto houve quem se saísse bem em 
semelhante ocorrência confiando na palavra 
do adversário. Testemunho disso temo-lo em 
Henry de Vaux, de Champagne, sitiado pelos 
ingleses no castelo de Commercy. Barthélemy 
de Bonnes* º que os comandava, tendo conse- 
guido sapar boa parte do castelo e dispondo-se 
a mandar irrcendiá-lo para esmagar os defenso- 
res sob os escombros, intimou Henry de Vaux 
(o qual já lhe havia enviado três emissários) a 
ir pessoalmente parlamentar, no seu próprio 
interesse. Este foi, e, percebendo a iminência 
da catástrofe a que não escaparia, demonstrou 
sua gratidão ao inimigo entregando-se, com 
seus homens, incondicionalmente. Pôs-sejfogo 
então na mina escavada, cederam os esteios 


Í 
4º Plutarco. | 
45 Froissart. | 


que sustentavam os muros e o castelo esbo- 
roou-se. Quanto a mim, confio facilmente nos 
outros, mas não confiaria se viessem a supor 


23 


tratar-se de um ato de fraqueza ou covardia e 
não por ser eu franco e acreditar na lealdade 
de meu adversário. 


CAPÍTULO VI 


A hora das negociações é perigosa 


Ultimamente, nas minhas vizinhanças, em 
Mussidan * º*, um destacamento inimigo que 
ocupava a cidade foi forçado a retirar-se. Cla- 
mavam os soldados, e outros de seu partido, 
que haviam sido traídos porque os tinham 
surpreendido e vencido durante as negocia- 
ções, e antes que um acordo se assinasse. Tais 


recriminações se compreenderiam em outros ' 


tempos, mas, como disse no capítulo prece- 
dente, nossos processos atuais são diversos e é 
de se desconfiar de todos enquanto. a assina- 
tura definitiva não é aposta no tratado. E nem 
assim se imaginará tudo terminado. E sempre 
foi perigoso confiar em que um exército vence- 


dor saiba cumprir a palavra dada e deixe de, 


entrar, de imediato, na cidade que obteve con- 
dições vantajosas para render-se. 

L. Emílio Reggio, pretor romano, tendo -per- 
dido muito tempo diante da cidade de Focéia 
da qual não conseguia apoderar-se em conse- 
quência da tenacidade que punham os habitan- 
tes em defendê-la, com. eles conveio em consi- 
derá-los amigos do povo romano. E, tendó-os 
convencido de suas intenções pacíficas, obteve 
licença para entrar na cidade como o teria 
feito em qualquer cidade aliada. Mas logo que 
ali se encontrou com seu exército, de que se fi- 
zera acompanhar na maior solenidade, não 
mais pôde conter os seus, embora o tentasse, 
os quais saquearam tudo, sob as suas vistas, 


levados pelo espírito de vingança e o amor à- 


pilhagem que sobrepujam o respeito à autori- 
dade e a disciplina militar. 

Cleômenes sustentava que o direito de guer- 
ra, no que concerne ao mal que se possa fazer 
ao inimigo, está acima das leis da justiça divi- 
na, bem como da justiça humana. Tendo con- 
cluído uma trégua de sete dias com os argenos, 
já na terceira noite os atacava durante o sono e 
os batia, alegando que na .trégua não se 
mencionavam as noites* ?. Mas os deuses .o 
puniram por sua má-fé. Estando ele em nego- 


36 A seis léguas do castelo de Montaigne. 
“7 Plutarco. 


ciações, e já tendo os defensores abrandado a 
vigilância, foi a cidade de Casilinum conquis- 
tada de surpresa. E isso nos tempos em que 
Roma possuía o exército mais disciplinado, 
com chefes imbuídos do sentido da justiça. 
Porque não está dito que em dadas circuns- 
tâncias não seja permitido nos prevalecermos 
da tolice do inimigo como nos prevalecermos 
de sua covardia. A guerra admite como lícitas 
muitas práticas condenáveis; O princípio de 
que “ninguém deve procurar tirar proveito da 
estupidez alheia” não vale**. Entretanto Xe- 
nofonte, autor tão competente em tal matéria, 
grande chefe militar e filósofo, ele próprio dis- 
cípulo dos mais distintos de Sócrates, nos 
propósitos que empresta a seu imperador per- 
feito, dá a-essas prerrogativas uma extensão 
por assim dizer sem limites, o que posso admi- 
tir inteiramente. 

O Sr. D'Aubigny sitiava Cápua, comandada 
por Fabrício Colona. Este, após sangrento 
combate em que levara a pior, pôs-se a parla- 
mentar do alto de um torreão, mas durante as 
negociações, tendo os seus homens relaxado a 
vigilância, entraram os nossos na cidade e a 
saquearam. Mais recentemente, em Y voy, o Sr. 
Juliano Romero, tendo tido a ingenuidade de 
sair da cidade a fim de parlamentar com o 
Condestável, encontrou, ão voltar, a praça em 
poder do inimigo *º. Nós mesmos não estamos 
isentos de censura: o Marquês de Pescaire 
sitiando Gênova sob o comando de Otaviano 
Fregose, que nós sustentávamos, chegara a um 
acordo que ia ser assinado quando os espa- 
nhóis conseguiram entrar na cidade e aí agi- 
ram como se a tivessem tomado de assalto. 
Posteriormente, em Ligny, no Barrois, sob o 
comando do Conde de Brienne, e sitiada por. 
Carlos V em pessoa, Bertheville, lugar-tenente 
do conde, tendo saído para negociar, a cidade 
foi tomada enquanto parlamentava. Dizem os 
italianos: 


*8 Cícero. 
*º Montaigne confunde Yvoy com Dinant. 


24 MONTAIGNE 


Fu il vincer, sempre mai laudabil 
cosa, 

Vincasi o per fortuna o per 
ingegno. 


“É sempre glorioso vencer, deva-se a vitória 
ao acaso ou ao engenho *º.? O filósofo Crisipo 
não teria sido da mesma opinião nem eu tam- 
pouco. Dizia ele que quem toma parte em uma 
corrida deve em.verdade empregar todas as 
forças para ganhar, mas não lhe é permitido 
agarrar o competidor ou passar-lhe uma rastei- 


8º Ariosto. 


ra. E Alexandre, o Grande, agiu de maneira 
mais generosa ainda quando respondeu a Poli- 
perconte — que o instava a valer-se da escuri- 
dão da noite para atacar Dario: “Não me pare- 
ce digno roubar vitórias. — Prefiro queixar- 
me da sorte a envergonhar-me da vitória º".” 

“Recusa-se a golpear Orode, lançar-lhe um 
dardo que fira por trás, corre a ele, e é de fren- 
te, homem a homem, que o ataca. Quer vencer, 
mas não pela surpresa € sim e unicamente pela 
força das armas *2.” 


81 Quinto Cúrcio. 
52 Virgílio. 


CaPpíTULO VII 


As ações julgam-se pelas intenções 


A morte, dizem, liberta-nos de todas as obri- 
gações. Conheço quem haja interpretado essa 
máxima de maneira singular. Henrique VHI, 
rei da Inglaterra, comprometera-se com D. 
Filipe, filho do Imperador Maximiliano, ou, 
mais honrosamente referido como pai de Car- 


los Quinto, a não atentar contra a vida de seu 


inimigo, o Duque de Suffolk, chefe do partido 
da Rosa Branca, que fugira da Inglaterra e se 
refugiara nos Países-Baixos onde Filipe o man- 
dara prender, entregando-o ac rei mediante a 
promessa de respeito à vida do duque. Sen- 
tindo que ia morrer, Henrique VIII determinou 


a seu filho, em testamento, que logo depois de 
seu falecimento executasse o duque. Ultima- 
mente nos acontecimentos trágicos que em 
Bruxelas provocaram o suplício dos Condes de 
Hom e de Egmont, ordenado pelo Duque de 
Alba, houve particularidades notáveis. Esta 
entre outras: o Conde de Egmont, em virtude 
de cujas promessas de garantias o Conde de 
Horn se entregara ao Duque de Alba, reivin- 
dicou com insistência que o matassem em pri- 
meiro lugar, a fim de que a sua morte o liber- 


tasse da obrigação assumida. Parece-me, no 


caso, que a morte não eximia o rei da obriga-. 


ção de cumprir a palavra dada e que o Conde 
de Egmont, ainda que vivo, não faltava à sua. 
Nossas obrigações são limitadas pelas nossas 


forças e os meios de que dispomos; a execução 
e as consequências de nossos atos não depen- 


dem de nós; somente a nossa vontade depende. 


Nesta e nas necessidades assentam as leis que 
regulam os deveres do homem. Eis por que o 
Conde de Egmont, embora com a alma e a 
vontade amarradas à sua promessa, mas sem 


força para executá-la, a ela não estava amárra- 
do, ainda que sobrevivesse ao Conde de Horn. 
Ao passo que o rei da Inglaterra, faltando 
intencionalmente à sua palavra, não pode ser 
culpado pelo fato de ter adiado o ato desleal 
para depois de seu falecimento. Idêntico é o 
caso do pedreiro de Heródoto que, tendo leal- 
mente guardado segredo acerca do local em 
que se encontravam os tesouros do rei do 
Egito, ao morrer o seu senhor, O revelou aos 
filhos. 

Vi outrora muitas pessoas que, sentindo 
pesar-lhes a consciência por se terem apro- 
priado de bens alheios, se mostraram dispostas 
a inserir em seu testamento dispositivos em 
vista da restituição dos mesmos. Não são elas 
dignas de louvor, já porque atrasaram uma 
ação que devia ser imediata, já porque preten- 
deram reparar uma falta sem sofrimento nem 
sacrifício. Deviam ter acrescentado os pró- 
prios bens; a reparação do mal atendera me- 
lhor aos reclamos da justiça e mais mérito tive- 
ra quanto mais pesados e penosos, os 
sacrifícios. A penitência exige algo mais do 
que a simples reparação dc dano. Pior fazem 
ainda os que deixam para depois da morte a 


t 


ENSAIOS — 1 25 


manifestação, contra O próximo, dos rancores 
que esconderam durante a vida. Mostram que 
pouco prezam a própria honra, não se incomo- 
dando com provocar a ira dos ofendidos con- 
tra a sua memória. E menos provas dão de 
consciência, não tendo sabido, nem sequer por 
respeito à morte, dominar a própria perversi- 


dade que se prolonga dessa maneira além de si 
mesmos. Tal qual farianí juízes iníquos que se 
pusessem a julgar sem ter mais a causa em 


mãos. Na medida de minhas forças, procurarei 
evitar de nada dizer após a morte que não haja 
dito em vida, e abertamente. 


CapítruLo VIII 


Da ociosidade 


Nas terras ociosas º?, embora ricas e férteis, 
pululam as ervas selvagens e daninhas, e para 
aproveitá-las cumpre trabalhá-las e semeá-las 
a fim de que nos sejam úteis. Assim também 
vemos que as mulheres produzem sozinhas flu- 
xos de matérias sem consistência, mas para 
que engendrem em condições favoráveis neces- 
sário se faz fecundá-las com a boa semente. 
Assim igualmente os espíritos: se não os ocu- 
pamos com certos assuntos que os absorvam e 
disciplinem, enveredam ao léu, sem peias, pelo 
campo da imaginação. 


“Assim, quando em um vaso de bron- 
ze uma onda agitada reflete os raios do 
sol ou a imagem tênue da lua, a luz, dar- 
dejando incerta de todos os lados, à 
direita e à esquerda, sobe, desce, fere o 
forro com seus reflexos móveis º *.” 


E nesse estado não há loucura nem devaneio 
que não concebam: “forjando vas ilusões, 
semelhantes às quimeras de um doente” **. 


53 Não trabalhadas, não cultivadas. (N. do T.) 
84 Virgílio. 
55 Horácio. 


Sem objetivo preciso, a alma se tresmalha, 
pois, como se diz, é não estar em nenhum 
lugar, estar em toda parte * *. 

Retirei-me há tempos para as minhas terras, 
resolvido, na medida do possível, a não me 
preocupar com nada, a não ser O repouso, e 
viver na solidão os dias que me restam. Pare- 
cia-me que não podia dar maior satisfação a 
meu espírito senão a ociosidade, para que se 
concentrasse em si mesmo, à vontade, o que 
esperava pudesse ocorrer porquanto, com o 
tempo, adquiria mais peso e maturidade. Mas 
percebo que: “na ociosidade o espírito se dis- 
persa em mil pensamentos diversos? 87, e ao 
contrário do que imaginava, caracolando 
como um cavalo em liberdade, cria ele cem 
vezes maiores preocupações do que quando 
tinha um alvo preciso fora de si mesmo. E: 
engendra tantas quimeras e idéias estranhas, 
sem ordem nem propósito, que para perceber- 
lhe melhor a inépcia e o absurdo, as vou con- 
signado por escrito, na esperança de, com o 
correr do tempo, lhe infundir vergonha. 


56 Marcial. 
57 Lucano. 


CaPpíTULO IX 


Dos mentirosos 


Não há a quem convenha, menos do que a 
mim, apelar para a memória. Dessa faculdade 
careço por assim dizer totalmente e não creio 


que haja no mundo alguém menos bem aqui- 
nhoado a esse respeito. Quanto ao resto sou 
como o vulgo, mas nesse ponto meu caso me- 


26 MONTAIGNE 


rece ser assinalado e anotado. Além do incon- 
veniente que disso resulta na vida comum (e 
por certo, tendo em vista sua importância, Pla- 
tão tinha razão de qualificá-la entre as grandes 
e poderosas divindades), como na minha terra 
diz-se de quem não mostra bom-senso que não 
tem meinória, quando me queixo da minha pa- 


rece que me confesso maluco. Não me acredi-- 


tam, contestam as minhas palavras, incapazes 
de distinguir a memória do discernimento, o 
que agrava ainda mais a coisa. Com isso 
cometem uma injustiça, pois ve-se na prática 
juntar-se comumente às memórias excelentes a 
falta de bom-senso” E me prejudicam ainda 
tais confusões porque'em relação a meus ami- 
gos — e prezo a amizade acima de tudo — a 
falta de memória passa por ingratidão. Incri- 
minam-me por um defeito físico: “esquece”, 
dizem, “tal pedido ou tal promessa; não se 
lembra dos amigos; sua afeição por mim não o 
impediu de dizer ou de calar tal coisa”. Sem 
dúvida tenho facilmente falhas de memória, 
mas nunca negligenciei deliberadamente a soli- 
citação de um amigo. Basta a minha enfermi- 
dade, não é justo que ainda a transformem em 
uma espécie de má vontade, uma falta de fran- 
queza em contraste absoluto com meu caráter. 
Eu me consolo atê certo ponto pensando que 
devo a esse defeito não ter ao que me parece 
mal maior, e que por certo me houvera ataca- 
do: a ambição; pois os negócios públicos exi- 
gem -boa memória. Com isso, entretanto, como 
ocorre amiúde na natureza, minhas outras 
faculdades se aguçam na medida em que essa 
se desgasta. Se tivesse sempre na memória o 
que os outros disseram e fizeram, em vez de 
julgar por mim mesmo ter-me-ia apegado, 
como acontece comumente; às apreciações 
alheias. Outra consegiência é a concisão de 
meu falar, pois em geral a memória é mais pro- 
lixa do que a imaginação. Mais bem dotado a 
esse respeito, houvera atordoado os amigos 
com meu palavrório, tanto mais quanto já 
tenho tendência para me entusiasmar com 
qualquer assunto de conversação. E lamen- 
tável é ver, o que pude observar em alguns ínti- 
mos, o narrador levar tão longe a narrativa, à 
proporção que a memória lhe fornece material, 
e acompanhá-la de tanto pormenor inútil que 
se a história é boa lhe destrói o encanto e se 
não apresenta interesse fica-se a maldizer a 
memória do discursador ou a sua falta de 
discernimento. E é coisa difícil concluir conve- 
nientemente uma narrativa ou interrompê-la 
oportunamente uma vez iniciada. Ora, o vigor 
de um cavalo julga-se pela maneira brusca de 
- estancar nos torneios. Mesmo entre os que 
possuem plenamente um assunto, poucos co- 
nheço capazes de sustar sua arenga à vontade; 


| 
| 


e enquanto procuram como fazê-lo, prosse- 
guem se arrastando e como que pasmados em 
meio a frases vas e insignificantes. Isso se 
acentua particularmente nos anciãos que se 
prendem às recordações do passado e não se 
lembram das repetições. Vi histórias muito 
agradáveis tornarem-se aborrecidas na boca de 
um alto personagem de quem todos já a ti- 
nham ouvido cem vezes. 


Em. segundo lugar a fraqueza de minha 
memória faz, como dizia um sábio da antigui- 
dade, que guarde menos recordação das ofen- 
sas recebidas. Fora-me necessário alguém 
encarregado de mas lembrar. E assim procedia 
Dario, o qual,'a fim de não esquecer a ofensa 
dos atenienses, cometera a um pajem a tarefa 
de repeti-la três vezes a seus ouvidos sempre 
que se punha à mesa: “Senhor, lembrai-vos 
dos atenienses.” E mais uma vantagem acho 
eu nisso: todos os sítios que revejo e todos os 
livros que releio me encantam pela sua inces- 
sante novidade. Não é sem razão que se afirma 
não dever meter-se a mentir quem não tem 
memória. Sabe-se que os gramáticos estabe- 
lecem uma diferença entre dizer uma mentira é 
mentir. Dizer uma mentira é, na opinião deles, 
adiantar uma coisa falsa que a gente crê verda- 
deira, ao passo que na língua latina, da qual 
provém a nossa, mentir é falar contra a própria 
consciência. O que eu digo aqui se refere por- 
tanto somente aos que falam em desacordo 
com o que sabem 8º. Tais pessoas ou inventam 
o que dizem, fundo e pormenores, ou se limi- 
tam a deturpar e alterar um fundo de verdade. 
Quando repetem, alterando-a, uma mesma his- 
tória, é-lhes difícil não se contradizerem, por- 
que a coisa se tendo alojado em sua memória, 
tal qual lha transmitiram ou, como a viram 
eles próprios, não lhes é possível, depois, con- 
tá-la várias vezes, e, cada vez com maior ou 
menor exatidão, rememorar todas as altera- 
ções nela introduzidas; ao passo que a impres- 
são primeira lhes permanece sempre presente 
ao espírito, apagando da lembrança todas as 
falsidades enxertadas na verdade. Quando 
inventam inteiramente a narrativa, não exis- 
tindo uma primeira impressão suscetível de 
perturbá-los, parecem menos expostos a erros; 
entretanto, uma coisa que não existe, que nada 
fixa, foge facilmente à memória, a menos que 
seja esta excepcional. Disso vi muitos exem- 
plos, por vezes divertidos, em detrimento dos 
que, por profissão, falam no sentido de seu 
maior interesse ou para agradar aos grandes a 
quem se dirigem. Variando muito as circuns- 
tâncias a que devem adaptar sua consciência, 


s8 Com o que sabem ser verdadeiro, certo. A. do 
T. 


ENSAIOS— I 21 


cumpre-lhes modificar por igual a linguagem, 
chegando a dizer da mesma coisa ora branco 
ora preto, de um jeito a uns e de outro a 
outros. E se por acaso esses auditores se comu- 
nicam tais dizeres contraditórios, que resta do 
talento inventivo? Além daquilo que por 
imprudência podem deixar escapar, qual a 
memória capaz de lembrar as formas tão 
diversas que imaginaram para sua história? 
Tenho visto certas pessoas invejarem essa 
habilidade, sem perceberem que dessa repúita- 
ção não se tira proveito real 5º. 


Em verdade, mentir é um vício odioso. 
Somente pela palavra é que somos homens e 
nos entendemos. Se compreendêssemos clara- 
mente o horror e o alcance da mentira, contra 
ela pédiríamos o suplício da fogueira que, com 
menor razão, se aplica a outros crimes. Sou de 
opinião que castigam em geral as crianças por 
motivos fúteis, erradamente, que as admoes- 
tam por atos irrefletidos e de nenhuma conse- 
quência. A mentira somente, e um pouco 
menos a obstinação, parece-me, é que deve- 
riam ser combatidas desde cedo, pois com a 
criança crescem e se desenvolvem. E bem difi- 
cil se torna extirpá-las quando se transformam 
em hábito. Daí o fato de muitos homens, 'pelos 
demais pontos de vista honestos, se “abaúido- 
narem a tais vícios e a eles se escravizarem. 
Conheço um alfaiate, bom sujeito, a quem 
ninca ouvi dizer a verdade, mesmo quando lhe 
era útil. Se, como a verdade, tivesse a mentira 
uma só face, eu a poderia ainda admitir, pois 
bastaria considerar certo o contrário do que 
dissesse o mentiroso; mas há cem mil maneiras 
de exprimir o reverso da verdade e o campo de 
ação da mentira não comporta limites. Os 
pitagoristas tinham para eles que o bem é coisa 
certa e delimitada, o mal incerto e infinito. Mil 
caminhos desviam da meta, um só conduz a 
ela. Por certo não posso garantir que tenha 
força de vontade bastante para não perpetrar 
uma solene e desabusada mentira a fim de 
escapar a um perigo extremo e evidente. Disse 
um antigo prelado que é preferível a compa- 
nhia de um cão à de um homem cuja lingua- 
gem desconhecemos. — Assim dois homens de 
países diferentes não são homens em relação 
um do outro *º. Quanto é mais sociável o silên- 
cio do que a linguagem mentirosa! 

O Rei Francisco I vangloriava-se de ter, à 


5º Michaut interpreta a frase: “si réputation y est, 
Peffet n'y peut être” de maneira que me parece 
demasiado livre. Diz, com efeito, “não vêem que 
uma vez estabelecida a reputação cessa o proveito 
obtido pela habilidade”. (N. do T.) 


8º Plínio. 


força de questioná-lo, confundido a Francisco 
Taverna, embaixador de Francisco Sforza, 
Duque de Milão, homem com grande reputa- 
ção de saber falar e que lhe fora enviado para 
justificar um ato grave de seu senhor. O rei, 
para continuar a manter contatos na Itália, de 
onde acabara de ser repelido, e contatos preci- 
samente no ducado de Milão, imaginara colo- 
car junto ao duque um de seus fidalgos, na rea- 
lidade um embaixador, mas para todos os 
efeitos um simples cidadão em viagem de 
negócios. O duque tinha ele próprio grande 
interesse em não aparentar quaisquer relações 
conosco, estando muito mais sob a depen- 
dência do imperador do que sob a nossa, 
principalmente nesse momento em que nego- 
ciava seu casamento com a sobrinha do sobe- 
rano, filha do rei da Dinamarca e atualmente 
Duquesa de Lorena. Para isso escolheu o rei 
um Sr: Merveille, fidalgo milanês, seu escudei- 
ro. Merveille partiu com instruções e cartas 
secretas, acreditando-o como embaixador, às 
quais cartas se juntaram outras que O reco- 
mendavam ao duque a respeito de seus negó- 
cios pessoais, destinadas estas últimas a serem 
apresentadas publicamente a fim de dissimular 
sua verdadeira missão. Mas Merveille perma- 
neceu tão longo tempo junto do duque, que o 
imperador veio a desconfiar, o que, acredito, 
deu causa ao que segue: inculpando-o de 
assassínio, mandou o duque certa noite corta- 
rem-lhe a cabeça, sendo o processo liquidado 
em dois dias. O rei, desejando reparação pelo 
ato, dirigiu-se a todos os príncipes da cristan- 
dade e ao próprio dugue; e o Sr. Taverna, 
enviado a fim de expor o caso devidamente 
alterado para as necessidades da causa, foi 
recebido na audiência da manhã. Como base 
de seu arrazoado, depois de apresentar o fato 
da maneira mais favorável ao duque, disse que 
este sempre considerara Merveille um simples 
fidalgo, súdito seu aliás, vindo a Milão a negó- 
cios. E negou que o dúque soubesse pertencer 
ele ao séquito do rei, e até que Sua Majestade 
o conhecesse, não tendo tido nunca a idéia de 
ver nele um embaixador. O rei, por sua vez, 
apertou-o com perguntas e objeções, atacan- 
do-o de todos os lados, e, chegando finalmente 
ao caso da execução, indagou por que se fizera 
ela à noite, como que às escondidas. Ao que o 
pobre homem confundido, pensando ser cortês, 
respondeu que o duque, dado o respeito que 
tinha por Sua Majestade, teria se aborrecido 
imenso com uma execução à luz do dia. Pode- 
se imaginar quanto terá sido repreendido de- 
pois de tamanho despropósito. 

O Papa Júlio II enviara um embaixador ao 
rei da Inglaterra a fim de convencê-lo a agir 
contra aquele mesmo rei de França. Tendo o 


28 MONTAIGNE 


enviado exposto sua missão, objetou o rei da 
Inglaterra mostrando, pormenorizadamente, as 
dificuldades que se opunham à reunião das for- 
ças contra tão poderoso adversário. Ao que 
replicou o embaixador, intempestivamente, 
que tais motivos também lhe tinham vindo ao 
espírito e os submetera à apreciação do papa. 


Essas palavras, tão pouco hábeis no que dizia 
respeito à missão de convencer o rei, deram a 
pensar a este, o que depois se verificou. ser 
exato, que o embaixador se inclinava pela 
França. Comunicou então sua dúvida ao papa, 
o qual confiscou os bens de seu representante e 
pouco faltou para que o mandasse executar. 


É CAPÍTULO X 


Dos que improvisam e dos que se 
preparam para falar 


“Nunca foi dado a ninguém cumular todos 
os dons da natureza º'.” Assim acontece que 
entre aqueles a quem foi dado o dom da 
eloquência, alguns há cuja palavra é pronta e 
fácil e têm a réplica tão viva que nunca 
falham, enquanto outros mais tardios só falam 
“depois de longamente elaborado o tema de 
antemão escolhido. 

Aconselham às mulheres que se dediquem 
de preferência à ginástica e aos jogos susceti- 
veis de valorizar sua graça; pois se me cou- 
besse opinar acerca das vantagens desses tipos 
de eloquência que parecem, em nosso século, 
ser apanágio de predicadores e advogados, 
diria que aos primeiros convém melhor a pala- 
vra meditada e aos segundos o contrário, pois 
ao predicador não falta tempo para preparar- 
se, e quando prega o faz de um fôlego sem que 
o interrompam, ao passo que o advogado pre- 
cisa estar sempre pronto para o debate. 

As réplicas imprevistas da parte contrária o 
mantêm na incerteza do que deve dizer e o 
obrigam a todo irstante a modificar seu ponto 
de partida. 

Foi entretanto o oposto que aconteceu quan- 
do da entrevista, em Marselha, do Papa Cle- 
mente com o Rei Francisco I. O Sr. Poyet, que 
passara sua vida no tribunal e aí granjeara 
uma bela reputação, foi encarregado de aren- 
gar Sua Santidade. Para tanto, preparara-se de 
longa data, tendo mesmo trazido, dizem, seu 
discurso pronto de Paris. No dia em que o ia 
pronunciar, O papa, receoso de vê-lo ventilar 
assunto suscetível de magoar algum dos 
embaixadores dos demais príncipes presentes, 
comunicou ao rei o tema que se lhe afigurava 


81 La Boétie. 


mais apropriado ao momento e ao lugar e que 
se verificou ser, infelizmente, bem diverso 
daquele em que trabalhara o Sr. Poyet. Assim, 
em não servindo a arenga preparada, cum- 
pria-lhe fazer outra sem perda de tempo. 
Como ele se julgasse incapaz de fazê-lo, da 
coisa se encarregou o Cardeal Du Bellay. A ta- 
refa do advogado é mais difícil que a do predi- 
cador e no entanto creio se encontrar em Fran- 
ça número maior de bons advogados que de 
bons oradores sacros. É de se acreditar sejam a 
vivacidade e a improvisação peculiares ao 
espírito, ao passo que a calma e a prudência 
caracterizam a sabedoria. Quanto ao indivíduo 
que permanece inteiramente mudo se não pôde 
preparar seu discurso, é seu caso tão estranho 
quanto o de quem teve todo lazer de meditar 
para fazer melhor e não o conseguiu. 

Contam que Severo Cássio falava tanto me- 
lhor quanto menos. preparado e mais devia, 
portanto, ao talento que ao trabalho. Tão bem 
o serviam os apartes, quando discursava, que 
seus adversários hesitavam em provocâ-lo, de 
medo que a cólera lhe ampliasse a eloquência. 
Conheço por experiência esse gênero particu- 
lar de talento oratório que dispensa o estudo 
prévio e aprofundado e, se não se exprime ale- 
gre e livremente, nada de bom produz. Dize- 
mos de certas obras que sabem a azeite de lam- 
parina, em virtude da parte excessiva de 
trabalho que exigiram. Por outro lado, o desejo 
de fazer bem, e essa contenção do espírito por 
demais atento à sua tarefa, exaurem-no, tra- 
vam-no, e, por vezes, o inibem. Da mesma 
forma a água, quando sob forte pressão, pela 
abundância e violência com que chega, não - 
pode jorrar por um gargalo estreito ainda que 


4| 


o orifício se ache aberto. Ocorre também que 


ENSAIOS— I 29 


talentos oratórios dessa natureza não necessi- 
tam de paixões violentas e que exaltam como a 
cólera de Cássio. Eles não querem ser sacudi- 
dos e sim solicitados. O de que precisam, para 
acordarem e se inflamarem, é ser solicitados 
pelos incidentes ocasionais, fortuitos. Se nada 
OS freia, arrastam-se e esmorecem; a agitação 
dá-lhes vida e graça. 

A esse respeito não me domino por comple- 
to. O acaso é meu senhor: a oportunidade, a 
companhia, o próprio fogo das minhas pala- 
vras atuam sobre meu espírito que produz 
então muito mais do que quando com ele me 
isolo, o consulto e o obrigo a trabalhar. Daí 
valerem mais minhas palavras do que meus 


escritos, se é que se deva escolher entre coisas 
sem valor. E advém disso que não me encontre 
onde me procuro, e mais me descubra por 
acaso, do que apelando para a inteligência. E 
se escrevo algo espirituoso (insignificante tal- 
vez para os outros mas cheio de sutileza para 
mim — mas deixemos de lado tais considera- 
ções que cada qual age como pode) ocorre-me 
perder-lhe de tal maneira o sentido que outros 
descobrem por vezes, antes de mim, O que quis 
dizer. E se raspasse todos esses trechos de 
meus escritos, de tudo me desfaria. De outras 
feitas, entretanto, acontecer-me-á achá-lo tão 
claro quanto o sol do meio-dia. E me espanto 
então com a minha hesitação. 


CAPÍTULO XI 


Dos prognósticos 


s 


Quanto aos oráculos, é certo que já bem 
antes de Jesus Cristo não lhes davam muita 
importância, pois vemos Cicero esforçar-se 
por descobrir a causa do seu descrédito: “De 
onde vem que em nossos dias, e até de há 
muito, Delfo não mais pronuncia tais orácu- 
los? De onde vem que nada se despreza 
mais? 2? — Quanto aos demais prognósticos, 
como os que se induziam da anatomia dos ani- 
mais sacrificados e cuja constituição física, 
segundo Piatão, fora em parte destinada pelo 
Criador a esse gênero de observações 82, os 
que decorriam do saltitar dos frangos ou do 
vôo dos pássaros (“acreditamos que há pássa- 
ros que nascem expressamente para servir a 
arte dos augúrios” $*) ou do raio, dos redemoi- 
nhos (“os arúspices vêem quantidade de coi- 
sas; os áugures prevêem outro tanto; numero- 
sos acontecimentos são anunciados pelos 
oráculos, outros pelos vaticínios, outros pelos 
sonhos, outros ainda pelos milagres” 8 º) e ou- 
tros que na antiguidade intervinham na maio- 
ria dos empreendimentos públicos e privados, 
aboliu-os a nossa religião. Entretanto, ainda 
restam alguns meios de adivinhação, em parti- 


82 Cícero. 

83 Adotou-se a interpretação de Michaut, dada a 
construção extremamente obscura da frase. (N. do 
T.) 

84 Cicero. 

65 Td. 


cular os astros, os espíritos, as linhas-de nosso - 
corpo, os sonhos, etc., testemunhos irrecusá- 
veis da desesperada curiosidade que está em 
nós e faz que percamos nosso tempo em nos 
preocuparmos com as coisas futuras, como se 
não nos bastasse digerir as coisas presentes: 


“Por que, ó senhor do Olimpo, quando 
os pobres mortais são presa de tantos 
males presentes, lhes dar ainda a 
conhecer, mediante presságios, as des- 
graças futuras? Se teus desígnios 
devem cumprir-se, faze que permane- 
.Çam secretos e nos atinjam inespera- 
damente! Que nos seja permitido ao 
menos esperar tremendo * 8.” 


“Nada se ganha em conhecer o futuro; e 
infeliz é quem se atormenta em vão $ 7.” Como 
quer que seja, a adivinhação tem bem menor 
autoridade hoje. Eis por que o exemplo de 
François, Marquês de Saluce, me parece notá- 
vel. Esse marquês comandava, além Alpes, o 
exército: de Francisco I. Tinha prestígio na 
Corte e devia mesmo ao rei o marquesado con- 
fiscado a seu irmão. Sem nenhuma razão para 
fazer como o fez, agindo contra suas próprias 
afeições, deixou-se no entanto impressionar a 
tal ponto (como se viu) pelas belas profecias 


88 Lucano. 
87 Cícero. 


30 MONTAIGNE 


favoráveis a Carlos Quinto, por toda parte 
divulgadas (na Itália tais profecias foram leva- 
das tão a sério que em Roma fortes importân- 
cias em dinheiro se comprometeram na expec- 
tativa de nossa desgraça), que, embora se 
tivesse no intimo condoido da nossa ruína, nos 
abandonou e se passou para O inimigo. Para 
sua desgraça, entretanto, qualquer que tenha 
sido a constelação sob cuja influência agiu. 
Tomando tal decisão, conduziu-se contudo 
como um homem solicitado pelos sentimentos 
mais antagônicos, pois, senhor das cidades e 
das forças que possuíamos, e estando o exér- 
cito inimigo sob as ordens de Antoine de Leves 
nas imediações, sem que ninguém o suspei- 
tasse, podia fazer-nos pior do que fez, por- 
quanto com sua traição não perdemos um só 
homem, nem uma só cidade, salvo Fossano e 
ainda assim após longa disputa. “Um Deus 
avisado escondeu-nos os acontecimentos do 
futuro sob uma noite espessa, e ri-se do mortal 
que se inquieta mais do que deve acerca do 
destino. .: E senhor de si próprio e passa a 
existência feliz quem pode dizer diariamente: 
que importa se amanhã Júpiter escurecer a 
atmosfera sob nuvens sombrias ou nos der um 
céu sereno; satisfeitos com o presente, evite- 
mos preocupar-nos com o futuro º8.” 

E erram os que interpretam como contrário 
a nossa tese o seguinte aforismo: “Há quem 
assim raciocine: se existe adivinhação, existem 
deuses; se existem deuses, existe adivinha- 
ção 8º? Pacúvio diz muito mais sabiamente: 
“os homens entendidos no falar dos pássaros, 
aqueles a quem um figado de animal mais do 
que a própria razão acalma, mais vale ouvi-los 
do que neles crer”. 

Assim teve origem essa arte da adivinhação 
dos toscanos, os quais nela se tornaram céle- 
bres: um camponês lavrava o seu campo; o 
ferro do arado penetrando profundamente a 
terra fez surgir Tages, semideus dos adivinhos, 
que ao rosto de criança junta a prudência do 
ancião. Acorreu gente de toda parte e suas 
palavras e sua ciência, que continham os prin- 
cipios e os meios dessa arte, foram avidamente 
recolhidas e transmitidas através dos séculos. 
Origem digna do seu desenvolvimento. Quanto 
a mim, prefiro ainda resolver os meus negócios 
nos dados a fazê-lo pela interpretação dos 
sonhos. Na realidade, em todos os governos 
sempre se entregou parte da autoridade ao 
acaso. Na República que Platão organiza a 
seu modo a decisão de vários atos importantes 
é-lhe atribuída. Entre outras coisas propõe que 
os casamentos entre pessoas honestas se reali- 


88 Horácio. 
69 Cicero. 


zem por sorte. E leva tão a sério essa dleição 
fortuita que aos filhos dela resultantes deter- 
mina sejam educados no país mesmo, en- 
quanto aos que nascem de uniões contratadas 
por gente ruim'º determina que se exilem. 
Entretanto, se por acaso uma destas crianças 
ao crescer se revela capaz, pode-se chamá-la à 
terra, bem como se pode exilar aquela que, 
entre as outras, não demonstre aptidões na 
adolescência. 

Conheço quem estudando e comentando, 
seus almanaques ressalta a exatidão das previ- 
sões aplicadas aos fatos do presente. Em meio 
a tantas palavras há de haver mentiras e verda- 
des. — “Ao se atirar ao alvo o dia inteiro, al- 
guma vez se atingirá a meta?!” Não dou 
importância ao fato de por vezes acertarem, 
pois seriam de muito maior utilidade se acon- 
tecesse sempre o contrário do que predizem. 
Como ninguém anota seus erros, tanto mais 
quanto constituem a norma e são infinitos, 
fácil se torna valorizar-lhes as ocasionais 
adivinhações, como raras, incríveis, prodigio- 
sas. Eis por que Diágoras, apelidado o ateu, 
respondeu a alguém que lhe mostrava na ilha 
de Samotrácia um templo no qual se viam inú- 
meros ex-votos e quadros comemorativos da 
autoria de pessoas que se haviam salvo de 
naufrágios, e dizia: — “Então? Você que acre- 
dita se desinteressem os deuses das coisas 
humanas, que pensa de tantos indivíduos sal- 
vos graças a eles?” — “E, mas os que perece- 
ram nada pintaram e são muito mais numero- 
sos.” 

Cicero disse que somente Xenófanes de Có- 
lofon, entre os filósofos que admitiram a exis- 
tência dos deuses, se esforçou por combater 
toda espécie de adivinhação. O que não é de se 
estranhar 2, porquanto vimos por vezes, e em 
seu detrimento, alguns espíritos de elite se ate- 
rem a tais tolices. 

Duas maravilhas há no gênero que eu gosta- 
ria de ter visto: o livro de Joaquim, abade da 
Calábria, predizendo todos os papas futuros 
com seus nomes e particularidades, e o livro 
do Imperador Leão que profetizava os impera- 
dores e patriarcas gregos. Mas o que vi com os 
meus olhos é que nas perturbações públicas 
certas pessoas, surpreendidas com os aconteci- 
mentos, se entregam a práticas supersticiosas, 
buscando na observação dos astros as causas € 
Os sinais precursores de suas desgraças. E com 
isso se sentem tão felizes que estou persuadido 


7º Os não sorteados. 

71 Cícero. 

72 Montaigne escreve: “D'autant est-il moins de 
merveille”, o que também se poderia traduzir “não 
há como surpreender-se”. (N. do T.) aa 


ENSAIOS —I 31 


tratar-se de um passatempo divertido para os 
espíritos sutis e ociosos, e acredito que quem 
adquire suficiente destreza para inventar e 
interpretar acha o que bem entenda em qual- 
quer escrito. Facilita-lhes a tarefa o falar obs- 
curo, ambíguo, fantasista do jargão profético, 
pois os que o empregam abstêm-se de se expri- 
mirem com clareza, a fim de que a posteridade 
possa arranjâ-lo a seu gosto. 

O' demônio familiar de Sócrates consistia 
provavelmente em certas inspirações que se 
apresentavam a ele sem passar pelarazão”?. 


73 Discours. O vocábulo de que Montaigne usa 
repetidamente apresenta-se com sentidos diversos. 
Razão, no caso, significa, outras vezes, conversa- 
ção, inteligência, entendimento. (N. do T.) 


Em alma tão pura quanto a sua, feita por intei- 
ro de sabedoria e virtude, é de crer-se que, em- 
bora ousadas e inadmissíveis, tais inspirações 


eram sempre importantes e dignas de se ouvi- 
rem. Não há quem não sinta em si mesmo por 


I E “14. 
vezes semelhante obsessão de uma idéia brus- 
ca, veemente e fortuita. Cabe a cada um de nós 


dar-lhe ou não certa consistência, a despeito 
do que manda a prudência à qual fazemos 


ouvidos moucos. Tive-ás eu próprio, carece- 
doras de razão mas violentamente persuasivas, 
ou ao contrário (como era o caso de Sócrates), 


e a elas me abandonei com tamanha felicidade 
que quase poderia atribuir-lhes uma origem 
divina. 


CAPÍTULO XII 


Da perseverança” “ 


A lei da resolução e da perseverança não 
implica em que não devamos nos precaver, na 
medida de nossas forças, contra os males e 
"inconvenientes que nos podem ameaçar, nem 
deixar de recear que nos surpreendam. Muito 
pelo contrário, todo meio honesto de evitar um 
mal é não somente lícito mas também louvá- 
vel. À perseverança consiste em suportar com 
resignação os incômodos para os quais não 
temos remédio. Por isso não há movimento de 
agilidade corporal ou manejo de armas que 
devamos achar ruins desde que sirvam para 
defender-nos dos golpes que nos assestam. 

Em muitas nações belicosas era a fuga um 
dos principais métodos de combate e o inimigo 
ao qual viravam as costas tinha então mais a 
temer do que quando as viam de frente. E um 
pouco o que fazem os turcos. Sócrates, segun- 
do Platão, criticava Lachez, o qual assim defi- 
nia a coragem: “Não recuar diante do inimi- 
go.” Como? dizia Sócrates, há então 
covardia em vencer o inimigo cedendo-lhe ter- 
reno? — E em apoio de suas palavras citava 
Homero que louva, em Enéias, a ciência de 
simular a fuga. A Lachez que, contradizendo- 


74 Constance, diz Montaigne, o que significa tena- 
cidade, e também perseverança, firmeza de ânimo. 
Neste sentido a emprega o ensaísta. (N. do T.) 


se, reconhecia ser o método praticado pelos 
citas e em geral por todos os povos que com- 
batem a cavalo, ele assinala ainda os guerrei- 
ros lacedemônios treinados para o combate a 
pé e que, na jornada de Platéia, não podendo 
abrir brecha na falange dos persas, tiveram a 
idéia de ceder e recuar, a fim de que, imaginan- 
do-os em fuga e nada terem a fazer senão 
persegui-los, se desagregasse a massa por si 
mesma, estratagema que lhes deu a vitória. 
Voltando aos citas, quando Dario marchou 
contra eles na intenção de subjugá-los, censu- 
rou, dizem, a atitude do monarca inimigo que 
se retirava sem cessar, recusando o combate. 
Ao que Inatirsez respondeu: que não era por 
ter medo dele, como não tinha de nenhum 
outro ser vivo, mas era a maneira de lutar de 
seu povo, o qual não possuia terras cultivadas, 
nem casas, nem cidades a defender e que 
temesse viessem a ser aproveitadas pelo inimi- 
go. Entretanto, se o desejo de Dario, de chegar 
as vias de fato, fosse grande, que se aproxi- 
masse da sepultura dos antepassados dos citas 
e ali encontraria com quem pelejar à vontade. 
Diante do canhão, porém, quando já se está 
visado, como acontece em certas circuns- 
tâncias da guerra, não convém fugir de medo 
do tiro, tanto mais quanto pela sua rapidez e 
imprevisibilidade é quase inevitável. Por isso 


32 MONTAIGNE 


de muito soldado zombaram os companheiros 
ao vê-lo, nessas ocasiões, erguer a mão ou bai- 
xar a cabeça a fim de deter ou evitar o projétil. 
No entanto, quando, da invasão da Provença 
pelo Imperador Carlos Quinto, o Marquês du 
Guast, expondo-se fora do abrigo constituído 
por um moinho durante um reconhecimento 
diante da cidade de Asles, foi visto pelo Sr. de 
Bonneval e o senescal d'Azenois, que passea- 
vam pelas arenas. Eles o assinalaram ao Sr. de 
Villiers, comandante da artilharia, o qual com 
tamanha precisão regulou a colubrina que se o 
marquês não tivesse dado um salto para o 
lado, ao ver acender a peça, fora atingido em 
cheio. Assim também, anos antes, Lourenço de 
Médicis, Duque de Urbino, pai da Rainha 
Catarina, mãe do nosso rei, sitiando Mondol- 
fo, na região do Vicariato, vendo acenderem 
uma peça apontada em sua direção, abaixou- 
se. E fez bem, porquanto de outro modo o tiro 
que lhe raspou a cabeça o teria alcançado no 
estômago. Em verdade, não creio que tais 
movimentos se efetuassem em virtude de 
algum raciocínio, pois como verificar a mira 
em coisa tão repentina? Muito mais judicioso 
me parece imaginar que O acaso favoreceu o 
medo, e que em outras circunstâncias o contrá- 
rio poderia ocorrer e ir a vitima ao encontro do 


tiro em vez de evitá-lo. Não posso deixar de 
tremer quando o ruído do arcabuz soa inopina- 
damente a meus ouvidos em lugar em que não . 
o espero, e essa mesma impressão eu a percebi 
igualmente em outras pessoas mais valentes do 
que eu. 

Os estóicos não afirmam que a alma do 
sábio possa resistir desde logo às sensações e 
visões que o surpreendam. Admitem como 
natural impressionar-se, por exemplo, com um 
estrondo provindo do céu ou de uma ruína; 
admitem que pode empalidecer, contrair-se 
como sob a influência de uma paixão qual- 
quer, mas que ele deve conservar intata sua 
lucidez, sem que se lhe altere a razão; de 
maneira a não ceder ante o terror e o sofri- 
mento. Quem não é sábio conduz-se do mesmo 
modo quanto à primeira parte, mas muito 
diversamente quanto à segunda: a impressão 
da emoção não será nele apenas superficial; 
penetrará até a sede da razão, infetando-a e a 
corrompendo. E será com essa faculdade 
assim viciada que julgará e se conduzirá. 

“Chora, mas seu coração continua inabalá- 
vel? *?2. O sábio dos peripatéticos não perma- 
nece insensível às emoções, mas as modera. 


75 Virgílio. 


CapíTULO XIII 


Cerimonial das entrevistas reais 


Não há assunto, por mais fútil que seja, que 
não caiba nesta rapsódia 7 º. Segundo os nossos 
usos, seria grave falta de cortesia para com um 
igual, e mais ainda para com um grande, não 
nos encontrarmos em casa quando ele nos pre- 
veniu que viria visitar-nos. Margarida, rainha 
de Navarra, acrescentava mesmo, a propósito, 
que, no fidalgo, seria falta de polidez deixar a 
casa, como ocorre amiúde, a fim de ir ao 
encontro do visitante, qualquer que seja o seu 
nível; que é mais respeitoso e delicado esperá- 
lo, ainda que seja apenas de medo de um 
desencontro, bastando acompanhá-lo tão so- 
mente à saída. Libertando-me, quanto a mim, 
o mais possível de quaisquer atitudes cerimo- 
niosas, esqueço não raro uma e outra dessas 
fúteis obrigações. Há quem se ofenda com 
isso, mas que hei de fazer? É melhor que eu 


?8 No sentido de conjunto de fragmentos — no 
caso de ensaios. (N. do T.) 


ofenda alguém uma vez do que ser aborrecido 
diariamente, o que redundaria em contínuo 
constrangimento. E de que serviria ter fugido 
da servidão da Corte se tal servidão nos deves- 
se perseguir no retiro? É igualmente de regra 
sejam os personagens menos importantes os 
primeiros a chegar, como fazer-se esperar é 
muito bem visto entre as pessoas de alta condi- 
ção social. 

Entretanto, na entrevista que ocorreu em 
Marselha entre o Papa Clemente VIL e o Rei 
Francisco I, este, após haver ordenado os 
preparativos necessários, afastou-se da cidade 
durante dois ou três dias a fim de que pudesse 
aquele descansar antes de se encontrarem. 
Igualmente na entrevista de Bolonha, entre 
esse mesmo papa e o Imperador Carlos Quin- 
to, este se arranjou para que Sua Santidade 
chegasse em primeiro lugar. Isso a fim de que, 
dizia, o mais importante esteja antes que O 
outro no local assinalado, antes mesmo dague- 


ENSAIOS —I 33 


le no país do qual se realiza a entrevista, pois 
desse modo há de parecer que ao de condição 
menos elevada cabe procurar o outro e não o 


contrário. E ) 
Não somente cada país, mas também cada 


cidade e até cada profissão têm, em questões 
de civilidade, seus usos próprios. Fui cuidado- 
samente educado na infância a esse respeito e 
vivi bastante na boa sociedade para não igno- 
rar Os que se praticam em França. Poderia 


ensiná-los aos outros. Gosto de obedecer a tais 
regras, mas não a ponto de perturbar minha 


vida. Muitas dessas regras são incômodas e 


não deixamos de mostrar boa educação se por 
discrição ou ignorância omitimos algumas. Ao 
contrário pude ver certas pessoas faltarem aos 
deveres da polidez, porque os exageraram até 
se tornarem importunos. 

Em verdade, utilíssima é uma tal ciência. 
Como a graça e a beleza, ela nos abre as por- 
tas da sociedade e da intimidade das gentes; 
dá-nos ademais a oportunidade de nos ins- 
truirmos pelo que vemos fazerem os outros e 


por estes é aproveitado o que nós mesmos 
fazemos. 


CAPÍTULO XIV 


O bem e o mal só o são, as mais das vezes, pela 


idéia que deles temos 


Os homens, diz antigo ditado grego, ator- 
mentam-se com a idéia que têm das coisas € 
não com as coisas em sit. Seria grande passo, 
em alívio da nossa miserável condição, se se 
provasse que isso é uma verdade absoluta. 
Pois se o mal só tem acesso em nós porque jul- 
gamos que o seja, parece que estaria em nosso 
poder, ou não o levarmos a sério ou o colocar- 
mos a nosso serviço. Se tal coisa depende de 
nós, por que não a resolveremos, liquidando-a 
ou tirando vantagem dela? Se aquilo a que 
chamamos mal não é nem mal nem tormento, 
e se somente nossa fantasia lhe atribui tal qua- 
lidade, podemos modificá-lo. E, em o podendo, 
é absurdo de nossa parte, e sem que nada nos 
obrigue, apegarmo-nos à solução mais aborre- 
cida. E por que atribuir à doença, à indigência, 
ao desprezo um gosto ácido e mau se o pode- 
mos modificar? Pois o destino apenas suscita 
o incidente; a nós é que cabe determinar a qua- 
lidade de seus efeitos. Vejamos portanto se é 
possivel afirmar com autoridade que aquilo a 
que chamamos mal não o é em si, ou, o que dá 
na mesma, se ainda que o seja depende de nós 
mudar-lhe a aparência e as consequências. 


Se as coisas que tememos tivessem um cará- 
ter próprio, a todos se imporiam de igual 
maneira, produzindo idênticas consequências. 
Todos os homens são, efetivamente, da mesma 
espécie e, com pequenas diferenças, providos 
de órgãos semelhantes, instrumentos de con- 
cepção e julgamento. A diversidade de opi- 


niões acerca das coisas mostra claramente que 
atuam sobre nós segundo um dado estado de 
espírito. Quando um que seja as admita como 
são realmente, mil outros as deformam e modi- 
ficam. Encaramos a morte, a pobreza e a dor 
como nossos piores inimigos. Ora, essa morte 
que alguns consideram “a mais horrivel entre 
as coisas horriveis” outros a julgam “o único 
refúgio contra os tormentos da vida — o 


maior benefício que nos deu a natureza — a 
única garantia de nossa liberdade — o único 
amparo imediato e comum a todos contra os 
males”. Aguardam-na alguns a tremerem de 
medo; outros, preferem-na à vida. E não falta 
até quem a considere demasiado acessível: “Ó 


morte, quisessem os deuses que desdenhasses 
os poltrões e que somente a virtude merecesse 
tua preferência? ?.? Mas não nos ocupemos 
com tão gloriosas coragens. 


Teodoro respondeu a Lisimaco que amea- 
çava matá-lo: — “Farás uma bela coisa, à 
semelhança do que pode fazer a cantárida.” 
Em sua maioria os filósofos propositadamente 
se adiantaram à chegada da morte, ou se 
apressaram, ajudando-a. Quanta gente do 
povo nos é dado ver que, ao ser conduzida 
para a morte, e não simplesmente para a morte 
mas para a morte ignominiosa, acompanhada 
as vezes de cruéis suplícios, demonstra grande 
firmeza de ânimo, ou por ostentação ou natu- 


7? Lucano. 


34 MONTAIGNE 


ralmente, a ponto que se diria nada ter mudado 
em sua vida? Tais indivíduos resolvem seus 
problemas domésticos, fazem recomendações 
aos amigos, cantam, dirigem exortações à mul- 
tidão, não desdenhando, não raro, a piada. E 
bebem à saúde de seus conhecidos com cora- 
gem idêntica à de Sócrates. 

Um deles, que conduziam àforca, pediu que 
“evitassem de passar por tal rua porquanto 
corria O risco de encontrar certo negociante a 
quem devia um dinheirinho e receava ser 
preso”. Outro disse ao carrasco que não lhe 
bulisse no pescoço, pois era muito coceguento 
e poderia ter um acesso de riso. Outro respon- 
deu ao confessor que lhe afirmava cearia à 
noite com Nosso Senhor: — Vá em meu lugar, 
hoje estou de jejum. — Outro, que pedira para 
beber, vendo o carrasco fazê-lo antes, no 
mesmo recipiente, recusou “com medo da sifi- 
lis”. Conhecem todos a história daquele picar- 
do a quem, quando subia a escada para a 
forca, apresentaram uma mulher prometendo- 
lhe mercê se com ela casasse. Ele a examinou 
um instante, e voltando-se para o carrasco 
exclamou: “cumpre o teu dever, é coxa”. Con- 
tam que na Dinamarca igual ocorrência se 
verificou. A um condenado à decapitação fize- 
ram idêntica proposta e ele a recusou porque a 
moça tinha as bochechas caídas e o nariz 
muito pontudo. Em Tolosa, um lacaio, acusa- 
do de heresia, dava como única razão de sua 
crença a palavra de seu patrão, jovem clérigo, 
como ele preso. Pois preferiu a morte a dei- 
xar-se persuadir do erro de seu senhor. E rela- 
tam as crônicas que em Arrás, ao se apoderar 
Luís XI da cidade, muita gente do povo se 
entregou à prisão para não gritar “Viva o rei”. 
Entre os bufões, seres assaz desprezíveis, 


houve quem conservasse até o último instante 


o espírito jocoso. Um deles, condenado à 
forca, no momento em que o carrasco o 
empurrava no vácuo, exclamou: Viva o pra- 
zer! o que era seu refrão habitual. Outro, a 
ponto de morrer, fora estendido sobre uma 
esteira junto à lareira e lhe perguntou o médico 
onde lhe doia: — Entre a cama e a chama, 
respondeu 78. E ao padre que, para ministrar- 
lhe a extrema-unção, lhe procurava os pés 
encolhidos e crispados pela enfermidade, ob- 
servou: vós os achareis na ponta de minhas 
pernas. E exortando-o um dos presentes a 
recomendar-se a Deus: Vai alguém vê-lo hoje? 
Ao que o outro retorquiu: Tu mesmo, e dentro 
em breve, se Lhe aprouver. — Não poderá ser 
amanhã à noite? —— Amanhã ou outro qual- 


78 O trocadilho “Entre le banc” (leito superior, 
céu) “et le feu” (fogo da lareira, inferno) é intradu- 
zível. (N, do T.) 


quer momento pouco importa; não demorará 
muito, por isso trata de te recomendares a Ele. 
— Então é melhor que eu mesmo apresente as 
recomendações. 

No reino de Narsinghpur as mulheres dos 
sacerdotes são ainda hoje enterradas vivas 
com os corpos de seus maridos; as outras 
mulheres que não pertencem à mesma casta 
são queimadas vivas nos funerais de seus espo- 
sos e todas suportam a sorte não somente com 
firmeza de ânimo, mas também com alegria. À 
morte do rei, suas mulheres, suas concubinas, 
seus favoritos, seus oficiais e servidores apre- 
sentam-sg om fervor à fogueira em que arde o 
seu senhor e na qual vão precipitar-se, conside- 
rando grande honra acompanhá-lo ao outro 
mundo. 

Durante nossas últimas guerras na região 
milanesa, foi Milão tantas vezes tomada e reto- 
mada que o povo, impacientado com essas 
mudanças repetidas de destino, adquiriu tal 
indiferença ante a morte, que meu pai — de 
quem eu o ouvi — contou que, de uma feita, 
em uma só semana, vinte e cinco chefes de 
família se suicidaram. Esse fato lembra o'que 
ocorreu no sítio de Xanthe a Bruto. Os habi- 
tantes, homens, mulheres e crianças, precipita- 
ram-se em massa ao encontro da morte e com 
tal desejo de perder a vida, que mais não se 
teria feito para salvá-la. E foi somente com 
penosos esforços que pôde Bruto poupar 
alguns. 

Qualquer idéia pode apoderar-se de nós com 
força bastante para que a sustentemos até a 
morte. O primeiro artigo do juramento, tão 
impregnado de coragem, que fizeram os gregos 
durante as guerras médicas, determinava que 
todos se comprometessem antes a morrer do 
que a se sujeitar a dominação dos persas. E 
quantos na guerra entre turcos e gregos preferi- 
ram a morte cruel a renunciar a circuncisão e a 
aceitar o batismo? E de atos semelhantes há 
exemplos em todas as religiões. 

Tendo os reis de Castela banido os judeus 
de suas terras, vendeu-lhes o Rei João de Por- 
tugal, à razão de oito escudos por cabeça, a 
faculdade de se refugiarem em seu reino duran- 
te determinado tempo, ao fim do qual deviam 
partir. Para tanto se comprometia a fornecer- 
lhes navios que os transportassem à África. 
Vencido o prazo, após o qual os que não dei- 
xassem o território seriam reduzidos à escravi- 
dão, verificou-se haver número escasso de 
embarcações. Os que puderam embarcar, rude- 
mente maltratados pelas equipagens, sofreram 
mil e uma indignidâdes; e andaram a navegar 
de um lado para outro até que, esgotadas as 
provisões, se vissem constrangidos a comprá- 
las, e mui caro, dos que os transportavam, a 


ENSAIOS — IT 35 


ponto de, em se prolongando tal estado de coi- 
sas, chegarem a desembarcar com apenas a ca- 
misa do corpo. Ao se informarem desse trata- 
mento inumano, os que haviam ficado em 
Portugal conformaram-se com a servidão. Al- 
guns fingiram mesmo mudar de credo. O Rei 
Manuel, sucessor de João, em subindo ao 
trono, devolveu-lhes inicialmente a liberdade. 
Mais tarde, mudando de opinião, ordenou-lhes 
que saíssem do reino e lhes assinou três portos 
de embarque. Diz o Bispo Osório, historiador 
latino digno de fé em nossa época e que escre- 
veu a crônica daqueles tempos, que, em não os 
tendo convertido a liberdade, esperava o rei se 
decidissem ante tais condições, a fim de se 
livrarem do saque dos marinheiros a que de- 
viam ser entregues, ou ainda para não troca- 
rem uma terra, a que se haviam acostumado e 
na qual possuíam grandes riquezas, por qual- 
quer região estrangeira deles desconhecida. 
Vendo-os resolvidos a partir e assim perdidas 
suas esperanças, o rei suprimiu dois dos portos 
autorizados, ou porque esperasse que um per- 
curso maior e os maiores incômodos disso 
resultantes atemorizassem certo número, ou 
porque em os reunindo todos em um só local 
teria maiores facilidades na execução do proje- 
to concebido de separá-los dos filhos menores 
de catorze anos, os quais, longe dos pais, se 
educariam segundo a nossa religião. Osório 
acrescenta que a execução dessa medida teve 
conseguências horríveis. A afeição natural 
pelos filhos juntando-se ao apego à própria fé 
(de encontro ao que se chocava a bárbara 
ordem) fez que numerosos pais e mães se 
destruíssem a si próprios e, espetáculo mais 
horroroso ainda, por amor e compaixão, jogas- 
sem os filhos em poços a fim de subtrai-los à 


violência imposta. Finalmente, esgotado o 


prazo para a partida, e dada a falta de meios 
de transporte, retornaram os judeus à servidão. 
Alguns se tornaram cristãos, mas ainda hoje, 
cem anos passados, poucos portugueses estão 
convencidos da sinceridade de sua fé, bem 
como dos demais de sua raça, muito embora o 
hábito e o tempo, mais do que a coerção, 
sejam os fatores de maior influência nas 
mudanças de tal natureza. Em Castelnaudary, 
cinquenta albigenses, acusados de heresia, 
recusaram-se a renegar sua crença e foram 
queimados vivos, todos juntos, suportando o 
suplício com uma coragem admirável: 
“Quantas vezes vimos enfrentarem a morte 
certa não somente nossos generais mas tam- 
bém nossos exércitos inteiros 7º.” 

Vi um de meus amigos íntimos desejar a 
morte à força. Absolutamente imbuído dessa 


79 Cicero. 


idéia, que ele próprio enraizara em si atravês 


de uma argumentação especiosa contra a qual 
nada pude, valeu-se com ardor febril da pri- 
meira oportunidade honrosa que se lhe ofere- 
ceu para pô-la em prática sem que o percebes- 
sem. Temos vários exemplos de pessoas, 
inclusive crianças, que em nossa época se sui- 
cidaram para abreviar a incômodos de nona- 
da. A esse propósito não nos diz um autor 
antigo: “Que não havemos de temer, se recea- 
mos o que a própria covardia escolhe como 
refúgio 280? 

Não acabaria mais se aqui enumerasse 
todos os indivíduos de sexos, condições e sei- 
tas diferentes que, em tempos mais felizes, 
aguardaram a morte com resolução, ou a pro- 
curaram voluntariamente, e a procuraram não 
somente para pôr fim aos males desta vida 
como também, alguns, por andarem fartos dela 
ou porque esperavam vida melhor no outro 
mundo. São em número infinito, e mais cômo- 
do me parece suputar aquelas para quem a 
morte foi motivo de temor. Um exemplo basta: 
estando o filósofo Pirro em um navio, presa de 
violenta tempestade, aos que maior pavor 
evidenciavam mostrava ele um porco indife- 
rente ao temporal, e os instava a tomá-lo como 
exemplo. Ousaremos pois sustentar que a 
razão, essa faculdade de que tanto nos orgu- 
lhamos, e em virtude da qual nos conside- 
ramos donos e senhores dos demais seres, nos 
foi dada para objeto de tormento? De que nos 
serve entender as coisas se com isso nos torna- 
mos mais covardes, se esse conhecimento nos 
tira o repouso e a tranquilidade de que goza- 
riamos sem ele, se nos reduz a condição pior 
que a do porco de Pirro? Para nosso maior 
bem é que fomos dotados de inteligência; por 
que fazê-la voltar-se contra nós, contraria- 
mente aos desígnios da natureza e à ordem 
universal que querem que cada um use suas 
faculdades e seus meios de ação da maneira 
mais conveniente à sua comodidade? 

Admitamos, direis, que tendes razão no que 
concerne à morte, mas que pensais da indigên- 
cia? E da dor, que ÁAristipo, Jerônimo e a 
maioria dos sábios consideraram o maior dos 
males, isso com que concordam, na realidade, 
mesmo os que o negam em suas palavras? 
Sofrendo Possidônio aguda crise de dolorosa 
enfermidade, recebeu a visita de Pompeu, o 
qual se desculpou de haver escolhido tão mau 
momento para ouvi-lo divagar sobre filosofia: 
“Não permita Deus”, disse o filósofo, “que me 
domine a dor a ponto de me impedir de disser- 
tar”, e pôs-se a falar precisamente acerca da 


8º Montaigne não nomeia o autor, mas trata-se de 
Sêneca. 


36 MONTAIGNE 


atitude de desprezo a ser assumida diante da 
dor. Enquanto discorria, ia entretanto aumen- 
tando o sofrimento: “Por mais que me casti- 
gues, ó dor, jamais convirei em que és um 
mal.” Que prova esta história de que se preva- 
lecem- os filósofos para discursar acerca do 
desprezo que devemos votar à dor? É questão 
de palavras. Se não se comovia com as alfine- 
tadas da dor, por que interrompeu seu discur- 
so? Por que pensava fazer ato meritório em 
não a chamando um mal? Não se trata aqui 
simplesmente de imaginação. Podemos opinar 
com conhecimento de causa, porquanto são 
nossos próprios sentidos os juízes: “Se nos 
enganam, a razão igualmente nos engana?!” 
Poderemos forçar nossa came a admitir que 
chicotadas sejam cócegas? E nosso paladar a 
apreciar a babosa como um vinho Graves*2? 
O porco de Pirro entra aqui em apoio de nossa 
tese: não se apavora ante a morte iminente; 
mas se o batermos, gritará. Negaremos a lei 
geral da natureza, que se manifesta em tudo o 
que, sob a abóbada celeste, tem vida e treme 
ao golpe da dor? Até as árvores parecem 
gemer quando as mutilamos! 

Só sentimos a morte pelo pensamento, tanto 
mais quanto é coisa de um instante: “Ou a 
morte foi, ou será; nada é presente nela?” 
Ela é menos cruel do que sua esperaº *. Milha- 
res de homens, milhares de animais morrem 
sem'se sentirem ameaçados. Dizemos também 
que o que tememos principalmente na morte é 


a dor, seu sinal precursor. Entretanto, a julgar: 


por um Pai da Igreja: “A morte nac é um mal 
senão pelo que vem depois? *.” Creio estar 
mais perto da verdade dizendo que nem o que 
a precede, nem o que a ela se segue são partes 
integrantes-da morte. Falamos erroneamente a 
esse respeito. A experiência mostra que é antes 
a inquietação causada pelo sentimento da 
morte que faz com que lhe sintamos vivamente 
a dor, e nossos sofrimentos nos são penosos 
quando os pressentimos capazes-de nos condu- 
zir a tal fim. Mas o raciocinio enche-nos de 
vergonha por temermos coisa tão repentina, 
inevitável e que não se sente; e mascaramos 
nossa covardia com os pretextos mais plausi- 
veis. Os males que, como consequência, só nos 
trázem sofrimento, nós os consideramos sem 
perigo. Quem encara como doença as dores de 
dentes, a gota, por dolorosas que sejam, se não 
nos ameaçam a vida? 82 


81 Lucrécio. 

82 Bordéus branco. 

83 La Boétie. 

8* Ovídio. 

85 Santo Agostinho. 

se Há confusão de Montaigne quanto à gota, que 
pode ser mortal. 


Admitamos um momento que na morte 
principalmente a dor nos preocupe. Não é tam- 
bém a dor que se nos apresenta no caso da 
pobreza, e no-la torna sensível pela sede, o 
frio, o calor, as vigílias? Ocupemo-nos pois 
unicamente com ela. Admito seja O pior aci- 
dente que nos possa acontecer, e isso tanto 
mais quanto sou 0 homem no mundo que lhe 
quer mais mal, e a evito quanto posso, embora, 
graças a Deus, não tenha tido por enquanto 
muita intimidade com ela. Mas está em nós, 
senão aniquilá-la, ao menos diminuí-la em nos 
mostrando pacientes e em livrando dela nossa 
alma e nossa inteligência, ainda mesmo que 
mantenha em suas garras O nosso corpo. Se 
assim não fosse, que valor teriam a virtude, a 
valentia, a força, a magnanimidade, a firmeza 
de ânimo? Que papel desempenhariam se não 
pudéssemos desafiar a dor? “A virtude é ávida 
de perigos* 7.” Se não devêssemos dormir ao 
deus-dará, aguentar dentro da armadura o 
calor do meio-dia, comer carne de cavalo e 
asno, ser cortado em pedaços, deixar extraírem 
uma bala da nossa came, sofrer quando nos 
recosem ou nos cauterizam, ou nos colocam 
sondas, como adquiririamos nossa superiori- 
dade sobre o homem comum? E não nos con- 
vidam os sábios a evitar o mal e a dor, quando. 
nos dizem que entre muitas ações igualmente 
boas cabe-nos desejar cumprir a que maiores 
dificuldades apresenta em sua execução? “Não 
é pela alegria e pelos prazeres, nem pelos 
divertimentos e pelo riso, companheiros habi- 
tuais da frivolidade, que nos tornamos felizes; 
nós o somos também amiúde na tristeza, pela 
decisão e pela perseverança**.” Eis por que 
nossos pais nunca compreenderam que as con- 
quistas feitas pela força e correndo os riscos da 
guerra fóssem mais vantajosas do que as obti- 
das sem perigo pela inteligência e pela diplo- 
macia: “A virtude é tanto mais doce quanto 
mais nos custa**º 

Há mais, e isso nos deve consolar: é que, 
naturalmente, “quando a dor é violenta, dura 
pouco; e quando se prolonga, é leve”*º. Não a 
sentimos muito tempo se é excessiva; ou deixa- 
rã de sê-lo ou porá fim à nossa existência, o 
que dá na mesma. Se não a podemos suportar 
ela nos destrói: “Lembra-te de que as grandes 
dores terminam com a morte; de que as peque- 
nas nos deixam numerosos intervalos de 
repouso e de que somos capazes de dominar as 
de intensidade média. Enquanto são suportá- 
veis; suportemo-las com paciência; se não o 


87 Sêneca. 
88 Cicero. 
8% Tucano. 
90 Cítero. 


ENSAIOS — Ei 


são, se a vida nos aborrece, saiamos dela como 
de um teatro”! ? 

O que faz que tão impacientemente suporte- 
mos a dor é que não estamos habituados a pro- 
curar em nossa alma nossa principal satisfa- 
ção; não contamos suficientemente com ela, 
que é a única e soberana senhora de nossa con- 
dição neste mundo. O corpo só tem (salvo 
quanto ao mais e ao menos) uma maneira de 
ser e de fazer; a alma, sob formas diversas e 
variadas e segundo o estado em que se acha, 
submete a si as sensações do corpo e outros 
acidentes. Dai a necessidade de estudá-la, e 


acordar nela seus meios de ação que são todo- 


poderosos. Não há raciocínio, nem prescrição, 
nem força que possam prevalecer contra suas 
preferências. Entre tantos milhares de meios à 
nossa disposição, escolhamos um que assegure 
nosso sossego € nossa conservação e estare- 
mos não somente resguardados contra qual- 
quer insulto, como também ofensas e males 
redundarão, se nos aprouver, em vantagens 
para nós. E talvez até nos regozijemos com 
eles. A alma tira partido de tudo indiferente- 
mente: erro e sonho servem-lhe tanto, quanto a 
realidade, para nos proteger e satisfazer. E 
fácil verificar que nosso estado de espírito é 
que excita em nós a dor e a volúpia; nos ani- 
mais, sobre os quais o espírito não atua, as 
sensações físicas manifestam-se naturalmente, 
tal qual são sentidas, e são por conseguinte 
mais ou menos uniformes em cada espécie, 
como se constata pela similitude das reações. 
Se não interviéssemos ro comportamento de 
nossos membros, pot certo nos sentiriamos 
melhor, pois sem dúvida lhes deu a natureza 
reações justas e moderadas em relação à dor; e 
não poderiam deixar de ser justas, porquanto 
em todos seriam idênticas. Mas como nos 
emancipamos de seus ditames, e nos entrega- 
mos à mais anárquica fantasia, procuremos ao 
menos orientar-nos no sentido que nos seja 
mais agradável. 

Platão receia que atentemos demasiado para 
a dor e a volúpia, o que, a seu ver, tornaria a 
álma dependente em excesso do corpo. Acre- 
dito antes que a desligam deste e a libertam. 
Assim “como a fuga torna o inimigo mais 
encamiçado na perseguição, orgulha-se a dor 
de nos fazer tremer. Em relação a quem a 
enfrenta ela se mostra mais cordata; resista- 
mos, pois, e contenhamo-la. Batendo em retira- 
da, deixando que nos acue, provocamos e cha- 
mamos a nós a ruína que nos ameaça. Em se 
retesando, o corpo suporta melhor a carga; 
assim também a alma. 

Mas, passemos aos exemplos de interesse 


Sd: 


particular para as pessoas que como eu sofrem 
dos rins. Veremos que ocorre com a dor o 
mesmo que com os cristais que se coloram de 
acordo. com o fundo em que repousam; e que 
ela só ocupa em-nós o lugar que lhe damos: 
“Quanto mais eles se entregam à dor, tanto 
mais ela os dominaº*. Sentimos mais aguda- 
mente um golpe de bisturi dado pelo médico 
do que dez estocadas no calor da luta. As 
dores do parto, que os médicos, e também 
Deus, estimam grandes e que cercamos de tan- 
tos cuidados, não lhes dão atenção certos 
povos. Deixo de lado as mulheres de Esparta, 
mas entre as suíças, na nossa criadagem, não 
se percebe que pariram, a não ser por anda- 
rem, ao depois, atrás de seus maridos com a 
criança ao pescoço, que antes carregavam no 
ventre. E essas ciganas feias que surgem por 
vezes em nossa terra lavam seus filhos recém- 
nascidos no riacho em que se banham ao 
mesmo tenpo. Sem falar de tantas raparigas** 
que dão à luz diariamente; e clandestinamente, 
crianças também concebidas às escondidas. 
Mas a nobre e bela esposa de Sabino, patrício 
romano, a fim de não comprometer a outrem, 
suportou sozinha e sem gemido as dores do 
parto de dois gêmeos. Um jovem de Lacede- 
mônia, que roubou uma raposa e a escondeu 
sob o manto, deixou que ela lhe rasgasse o ven- 
tre para não confessar a tolice, porque temia 
mais a vergonha que nós a punição. Outro, ao 
apresentar o incenso, deixa-se queimar pór 
uma brasa caída em sua manga, a fim de não 
perturbar a cerimônia. E não se mencionam 
numerosos casos de crianças de sete ános que 
nos sacrifícios da iniciação, entre os lacedemô- 
nios, suportavam, sem chorar e até morrerem, 
a flagelação? Cicero viu-os baterem-se em gru- 
pos, de unhas e dentes, até perderem os senti- 
dos para não se confessarem vencidos: 
“Jamais os costumes vencerão a natureza, que 
é invencível; mas a moleza, os prazeres, o Ócio, 
a indolência alteram nossa alma; as falsas opi- 
niões e os maus hábitos corrompem-na? *.” 
Todos conhecem a história de Scevola que, 
tendo-se introduzido no acampamento inimigo 
para matar o chefe, não o conseguiu e, dese- 
joso de atingir de qualquer maneira seu obje- 
tivo de libertar a pátria, teve uma idéia estra- 
nha. Confessando seu projeto a Porsena, o rei 
visado, acrescentou, a fim de assustá-lo, que 
no campo romano"havia muitos como ele pró- 
prio decididos a tentar o golpe que falhara. E 
para mostrar que espécie de homem era ele, 


*2 Santo Agostinho. 

93 No texto “garce”, hoje pejorativo, outrora femi- 
nino de “garçon”. (N. do T.) 

94 Cicero. 


38 MONTAIGNE 


aproximou-se de um braseiro, estendendo o 
braço e assim o manteve a grelhar e sem 
demonstrar sofrimento até que o monarca ini- 
migo, horrorizado, mandasse afastar o brasei- 
ro. E que dizer daquele que não interrompeu a 
leitura enquanto lhe amputavam um membro? 
E do outró que persistiu em motejar e rir-se 
das torturas, a ponto de se exasperarem os car- 
rascos e se confessarem vencidos após os mais 
cruéis suplícios inventados para dominá-lo? É 
verdade que era filósofo ! 

Um gladiador de César não cessou de grace- 
jar enquanto lhe abriam os ferimentos e os 
sondavam: “Já se viu um gladiador, por infimo. 
que seja, gemer ou mudar de fisionomia? Que 
arte não põe ele em sua própria queda para 
esconder tal vergonha aos olhos do público! 
Derrubado afinal pelo adversário e.condenado 
pelo povo, virou jamais a cabeça ao receber o 
golpe de misericória?º *” 

Passemos às mulheres. Quem não ouviu 
falar daquela que, em Paris, mandou que a 
esfolassem na esperança de obter uma pele 
mais suave? Há quem arranque dentes sadios e 
viçosos para que a voz se torne mais doce ou 
para que eles tenham mais bela aparência. 
Quantos exemplos de desprezo à dor não 
temos nós desse gênero? São capazes de tudo e 
nada temem por pouco que sua beleza se bene- 
ficie: “Existe quem mande arrancar os cabelos 
brancos e se raspe para obter pele novaº 8? Vi 
quem engolisse areia, € cinza, e sacrificasse o 
estômago a fim de conseguir uma tez pálida. 
Para ter o porte fino e elegante das espanholas, 
a quantas torturas se sujeitam, afetadas, arro- 
chadas, entaladas até se ferirem e por vezes 
morrerem! 

Entre muitos povos de nossa época acontece 
comumente que, para provar a veracidade de 
suas palavras, se inflijam voluntariamente cas- 
tigos. Nosso rei cita casos vistos na Polônia, 
verificados como comprovantes de declarações 
que lhe foram feitas. Em França, afora casos 
semelhantes de imitação, vi na Picardia, pouco 
antes de voltar dessas famosas reuniões de 
Blois, uma moça que, para demonstrar a since- 
ridade de Si promessas, e sua fidelidade, 
espetou o braço cinco vezes com um estilete 
que trazia aos cabelos, sangrando abundante- 
mente. Os turcos dão-se grandes cutiladas em 
honra de suas damas, e a fim de que não se 
apaguem queimam as chagas longamente, não 
só para sustar o sangue mas também para que 
se formem cicatrizes. Isso me foi dito e jurado 
por pessoas que o presenciaram. Nesse mesmo 
país vêem-se todos os dias indivíduos que, por 


35 Cícero. 
96 Tibúrcio. 


algumas moedas, talham profundamente o 
braço ou a coxa. Agrada-me que abundem os 
testemunhos das coisas que importa estabele- 
cer, e nesse ponto o cristianismo nos fornece 
provas concludentes. Depois de nosso divino 
Guia, quantos quiseram, como ele e por devo- 
ção, carregar a cruz! Testemunhas dignas de 
fé informam-me de que São Luís usou cilício 
até o momento em que, na velhice, o proibiu 
seu confessor. E todas as sextas-feiras fazia-se 
açoitar por um padre, com um açoite de cinco 
ferros que para tal trazia sempre consigo entre 
seus apetrechos domésticos. 

O último Duque de Guyenne, Guilherme, 
pai de Eleonora, que trouxe para a casa de 
França esse ducado, usou constantemente, 
como penitência e durante dez ou doze anos, 
uma couraça sob o hábito religioso. Foulques, 
Conde de Anjou, foi até Jerusalém com uma 
corda ao pescoço, para aí se fazer açoitar dian- 
te do túmulo do Senhor. E não se vêem todos 
os anos, na sexta-feira santa, homens e mulhe- 
res aos magotes flagelarem-se reciprocamente 
até se rasgarem a pele e porem a nu os ossos, 
espetáculo de que fui não raro testemunha e 
não me seduziu jamais? Tais pessoas usam 
máscaras e algumas há que o fazem por 
dinheiro para garantir a salvação de outrem. 
Demonstram um desprezo à dor tanto maior 
quanto a avareza é um estimulante menos forte 
do que o fanatismo. 

C. Maximus enterrou o filho, personagem 
consular; Catão o seu, pretor nomeado; L. 
Paulus os dois que tinha, a poucos dias de 
intervalo, e seus rostos não refletiram a menor 
emoção, nada revelou-lhes a tristeza. De uma 
feita disse eu de alguém, gracejando, que frus- 
trara a justiça divina: por um cruel destino, 
perdera no mesmo dia, de morte violenta, três 
filhos já grandes; pouco faltou para que consi- 
derasse o acidente como um favor e um benefi- 
cio particular da Providência. Não aprecio 


esses sentimentos antinaturais: perdi dois ou 


três filhos, em verdade ainda de peito. Con- 
quanto eu não tenha morrido de dor, não dei- 
xou a coisa de me chocar. Trata-se aliás de 
uma das infelicidades a que o homem é mais 
sensível. Existem muitas outras causas de afli- 
ções que se verificam comumente e não me 
perturbariam se me atingissem. Desdenhei 
algumas que me ocorreram, dessas que todos 
consideram deverem afetar realmente; e.não 
ousaria sem corar vangloriar-me em público 
de minha indiferença: “De como se verifica 
que a aflição não provém da natureza, mas 
decorre da opinião” 7.” Esta é, com efeito, uma 
potência 'que tudo ousa e não tem medida. 


97 Cicero. 


ENSAIOS —I 39 


Quem jamais procurou a segurança e o repou- 
so com mais ansiedade do que mostraram Ale- 
xandre e César na busca da inquietação e das 
dificuldades? Terez, pai de Sitalcez, dizia 
amiúde que quando não estava em guerra não 
lhe parecia houvesse alguma diferença entre 
ele e o seu moço de estrebaria. Quando cônsul, 
à fim de assegurar a submissão de certas cida- 
des da Espanha, Catão proibiu o porte de 
armas aos habitantes, em consequência do que 
muitos se mataram: “nação feroz que não 
“acreditava se pudesse viver sem combater”º 8 
E não conheceis inúmeros que renunciaram à 
doçura de uma existência tranquila em seu lar, 
entre amigos e conhecidos, para irem viver em 
horríveis desertos inabitáveis? E outros não 
adotaram um tipo de vida abjeta, degradante, 
em que afetam comprazer-se, desprezando a 
sociedade? O Cardeal Borromeu, recém-fa- 
lecido em Milão, a quem a nobreza, a imensa 
fortuna, o clima italianó e a mocidade outorga- 
vam todas as alegrias e gozos, viveu constante- 
mente em tal regime de austeridade que usava 
a mesma batina, no inverno como no verão; 
dormia unicamente sobre a palha; e as horas 
que os deveres do cargo não lhe consumiam, 
ele as passava de joelhos, estudando continua- 
mente, tendo ao lado de seu livro um pedaço 
de pão e um pouco de água, que era tudo de 
que se compunha sua refeição, e também o 
tempo que lhe destinava. Conheço quem, com 
perfeito conhecimento de causa, tirasse pro- 
veito e promoção da infidelidade da mulher, 
coisa cuja simples idéia já apavora tanta gente. 
Se a vista não é o mais necessário dos nos- 
sos sentidos, é pelo menos o que nos dá maior 
prazer; e de todos os nossos órgãos, os que 
contribuem para gerar parecem os mais úteis e 
os que proporcionam maior felicidade. Certas 
pessoas, entretanto, os detestam unicamente 
por causa das inefáveis satisfações que nos for- 
necem, é OS sacrificam por isso mesmo que são 
valiosos. É provavelmente análogo o racio- 
cínio de quem vaza voluntariamente os olhos. 
A opinião que temos das coisas é que as 
valoriza. Isso se vê pelo grande número daque- 
las que não examinamos a não ser para as ava- 
liar, antes que a nós mesmos. Não lhes ponde- 
ramos nem a qualidade nem a utilidade, mas 
apenas o que nos custam para as obtermos, 
como se o que pagamos fosse parte integrante 
delas; e o valor que lhes atribuímos mede-se 
não pelos serviços que nos prestam, mas pelo 
que demos para consegui-las. Isso me induz a 
achar que as usamos de maneira estranha, pois 
valem segundo o que pesam e na medida do 
peso. E nunca as deixamos desvalorizarem-se. 


98 Tito Lívio. 


O preço dá valor ao diamante; a dificuldade à 
virtude; a dor à devoção; o amargor ao remé- 
dio. Há quem para chegar à pobreza jogue ao 
mar seus escudos, esse mesmo mar que outros 
esquadrinham e batem para encontrar a rique- 
za. Epicuro disse: ser rico não signfica des- 
pir-se de preocupações, mas tão-somente tro- 
cá-las por outras, e em verdade não é a 
carência e sim a abundância que acarreta a 
avareza. 

Eis o que.a esse respeito me sugere a 
experiência: 

Minha vida ao sair da infância apresentou 
três fases. A primeira durou cerca de vinte 
anos durante os quais vivi de recursos fortui- 
tos, na dependência de outros, sem renda pró- 
pria, sem uma situação definida nem previsão 
orçamentária. Gastava tanto mais alegre e 
descuidadamente quanto tudo provinha dos 
acasos felizes da sorte. Nunca passei melhor; 
nunca me aconteceu achar fechada a bolsa dos 
amigos. Impusera a mim mesmo, de resto, e 
como dever primeiro, pagar minhas dívidas em 
seu vencimento, o que me valeu mais de uma 
vez a prorrogação do mesmo, porquanto meus 
credores se comoviam com o meu esforço. Tal 
lealdade me tornou econômico e nunca enga- 
nei a ninguém. Sinto naturalmente algum pra- 
zer em pagar o que devo, como se me desfi- 
zesse de um fardo incômodo, imagem da 
servidão. Por outro lado, satisfaz-me fazer 
algo justo e que contente a outros. Abro exce- 
ção para os pagamentos em que é preciso rega- 
tear e contar. Quando me encontro nessa 
necessidade e não posso dar a outro a incum- 
bência, vergonhosamente e por certo erronea- 
mente, adio quanto possível o cumprimento da 
obrigação, a fim de evitar essas discussões a 
que, por temperamento e maneira de me expri- 
mir, sou infenso. Nada detesto mais do que 
regatear: é uma justa de trapaças e impudên- 
cias em que, após uma hora de conversas, cada 
qual transige, falhando à palavra dada e às 
afirmações reiteradas. E isso por alguns vin- 
téns a mais ou a menos. Também me via em 
apertos quando tinha de pedir emprestado, e, 
não me animando a fazê-lo oralmente, corria o 
risco por escrito, o que me parece menos peno- 
so e torna mais fácil a recusa. Entregava mais 
facilmente e com menor inquietação à minha 
estrela a satisfação de minhas necessidades do 
que me ocorreu depois, ao se desenvolverem 
em mim o espirito de previdência e o racioci- 
nio. As pessoas que têm negócios a adminis- 
trar consideram em geral horrível viver nessa 
constante incerteza. Em primeiro lugar não se 
lembram de que a maioria dos homens assim 
vive. Quanta gente de bem abandonou a renda 
certa — e quanta o faz diariamente — para ir 


40 MONTAIGNE 


em busca de favores reais e de fortuna! César, 
para se tornar César, endividou-se em cerca de 
um milhão em ouro. Quantos negociantes se 
iniciam no comércio mandando tender sua 
fazenda às Índias “por tantos mares borrasco- 
sos”ºº. Nesta época em que tão cara se faz a 
devoção, não vivem mil e uma congregações 
— e sem percalços — contando diariamente 
com as liberalidades do céu para comer? Em 
segundo lugar essa gente ordeira não pensa 
que o que se lhes afigura assegurado não é 
menos incerto e arriscado do que o próprio 
acaso. Com mais de mil escudos de renda 
estou tão perto da miséria como se a beirasse. 
Não somente o destino tem em suas mãos cem 
meios de abrir uma brecha na riqueza para a 
entrada da pobréza (e por vezes não há meio 
termo entre a fortuna excessiva e a miséria) — 
“a fortuna é de vidro; quanto mais brilha tanto 
mais frágil”"ºº. não somente tem esse destino 
a possibilidade de derrubar e desmantelar 
todas as defesas que possamos erguer a fim de 
nos protegermos; mas acho também que a 
indigência existe em geral tanto entre os que 
possuem como entre os que não têm nada. 
Direi mesmo que, sozinha, ela incomoda 
menos do que em companhia da riqueza, resul- 
tando esta menos da renda que da ordem na 
sua-administração: “Cada qual é o artesão de 
sua fortuna”'º1, e um rico necessitado, com 
dificuldades, me parece mais miserável do que 
um pobre, simplesmente pobre: “a indigência 
no meio da riqueza é a mais pesada das pobre- 
zas”'º02 Os maiores príncipes, aqueles mes- 
mos que são os mais ricos, quando carecem de 
dinheiro, quando seus recursos se esgotam, são 
os mais -habitualmente impelidos às piores 
ações, pois haverá coisa mais triste do que se 
fazer tirano e se apossar injustamente dos bens 


de seus súditos? tg 
A segunda fase de minha existência ocorreu 


quando eu tinha dinheiro. Tomando gosto 
nisso, não demorei em criar reservas, impor- 


tantes para a minha condição, estimando que 
sornente o que sobreexcede a despesa comum 
constitui um haver e que não podemos ter por 
seguro um bem apenas augurado, por mais jus- 
tas que sejam as esperanças, pois, dizia a mim 
mesmo, que me aconteceria se me surpreen- 
desse tal ou qual acidente? O resultado de pen- 
samento tão fútil e doentio foi que me esforcei, 
com a criação dessa reserya supérflua, por me 
garantir contra qualquer eventualidade desa- 
gradável. E aos que observavam serem essas 
eventualidades demasiado numerosas para que 


98 Catulo. 

19º Públio Siro. 
101 Sêneca. 
102 Td. 


me precavesse contra elas, eu respondia que, se 
não me podia resguardar de todas, podia aten- 
tar para algumas e em particuiar as mais 
prováveis. Isso não se verificava sem me cau- 
sar apreensões. Mantinha-as secretas e eu, que 
falo tão livremente de tudo que me diz respei- 
to, não falava a verdade quanto ao dinheiro 
que possuía. Ágia como muitos outros, cs 
ricos que se dizem pobres e os pobres que afir- 
mam ser ricos, dispensando a consciência de 
um testemunho sincero, o que constitui ridi- 
cula e vergonhosa prudência. Se viajava, pare- 
Cia-me sempre não estar suficientemente provi- 
do de dinhéiro e quanto mais levava comigo 
tanto mais preocupado me tornava, já por 
causa da insegurança das estradas, já porque 
não depositava confiança na fidelidade da 
criadagem encarregada das bagagens. Se dei- 
xava meu cofre em casa, quanta suspeita e 
inquietação, tanto piores quando não podia 
confessar-me a ninguém e tinha o espírito 
constantemente voltado para esse lado. Afinal 
de contas guardar o dinheiro dá mais trabalho 
do que ganhá-lo. E se não fazia tudo o que 
estou a dizer, não me custava menos evitar de 
fazê-lo. Disso tirava em verdade pouco ou ne- 
nhum proveito, e embora me fosse permitido 
gastar mais, não me pesava menos o gesto, 
pois, como diz Bion: “Quem tem farta cabe- 
leira não sofre menos do que o calvo, se lhe 
arrancam um cabelo”. Adquirido o habito e fi- 
xada a mente no pecúlio a juntar, não mais 
ousamos esborciná-lo; é um edificio que teme- 
mos ver desmoronar-se em o tocando e é preci- 
so um grande aperto para que o parcelemos. E 
empenhar minhas roupas ou vender um cavalo 
me fora menos penoso do que mexer nessa 
bolsa querida que tão bem guardava. O perigo 
estã em que é dificil estabelecer limites preci- 
sos para essa mania de entesourar (assim ocor- 
re com as coisas que julgamos boas) e pôr um 
paradeiro nela. Yamos sempre ampliando o 
que acumulamos e fixando tais limites, sempre 
mais alto, a ponto de nos privarmos pouco 
honrosamente do gozo de nossos próprios 
bens, guardando o total sem usá-lo. Desse 
ponto de vista as pessoas mais ricas do mundo 
seriam as encarregadas de controlar as portas 
e os baluartes de uma cidade importante.'Todo 
indivíduo possuidor de muito dinheiro tem ten- 
dência para a avareza. 

Platão assim classifica os bens corporais ou 
humanos: a saúde, a beleza, a força, a riqueza. 
E diz: a riqueza não é cega, iluminada pela 
prudência é muito clarividente. Dionísio, o 
Jovem, teve um dia uma idéia divertida. Avisa- 
do de que um de seus siracusanos enterrara um 
tesouro para escondê-lo, mandou-lhe que o 
trouxesse. O homem obedeceu, não porém sem 


ENSAIOS —I 41 


primeiro levar uma parte com a qual se estabe- 
leceu noutra cidade. Sua desventura matara 
nele o gosto de entesourar e pôs-se a viver 
largamente. Soube-o Dionísio, e ordenou a 
restituição do tesouro, dizendo que o fazia de 
bom grado porquanto o dono aprendera a 


usá-lo. neta 
Assim continuei durante alguns anos pen- 


sando unicamente em economizar. Não sei que 
bom demônio me guiou, como ao siracusano, e 
me levou a mudar de conduta e a abandonar 
por completo esse espirito de poupança. A 
uma viagem muito dispendiosa devo a resolu- 
ção de renunciar a tão tola maneira de viver. E 
desse modo cheguei a uma terceira fase, certa- 
mente muito mais agradável e normal, penso 
eu, deixando que corram despesas e renda, 
sobreexcedendo-se mutuamente ao acaso, mas 
sem diferenças sensíveis. Vivo assim ao sabor 
do momento, contentando-me com atender às 
necessidades do presente e às despesas previs- 
tas. Quanto ao imprevisto, não bastariam 
todas as previsões do mundo, e seria loucura 
imaginar que com suas próprias mãos nos 
armasse a fortuna contra c destino!º*: é com 
os nossos meios que devemos combatê-lo; 
qualquer arma de ocasião nos trairia no 
momento crítico. Se junto ainda, não o faço 
em vista de despesa futura, nem para comprar 
terras, de que não preciso, mas para me diver- 
tir: “é ser rico não se mostrar ávido de rique- 
zas; é uma renda não comprar”?!º *. Não temo 
que meus rendimentos falhem nem desejo que 
aumentem: “o fruto da riqueza é a abundância 
e a abundância acarreta a saciedade” 1º 8. Feli- 
cito-me a mim mesmo por me haver corrigido 
dessa inclinação para a avareza em uma idade 
em que para ela tendemos naturalmente, e por 
me haver desfeito dessa loucura, a mais ridi- 
cula das loucuras humanas e tão comum nos 
velhos. Feraulez, que passara por essas duas 
fases da fortuna, achando que à ampliação de 
seus bens não correspondera um aumento 
igual do apetite, da sede, da possibilidade de 
dormir e acariciar a mulher, e tendo em mente 
ainda os aborrecimentos decorrentes da admi- 
nistração de suas riquezas, resolveu fazer a 
felicidade de um rapaz pcbre, amigo fiel que 
sonhava com enriquecer. Deu-lhe todo o seu 
patrimônio, que era considerável, excessivo 
até, com o acréscimo da forte valorização de- 
vida à guerra e às liberalidades de Ciro, seu 
bondoso e generoso senhor, sob a condição de 
se encarregar o beneficiado de alimentá-lo e 


103 “contre elle-même”. O trocadilho — fortuna» 
riqueza e fortuna-destino -— tornaria obscuro o 
pensamento. (N. do T.) 

104 Cicero. 

105 Id. 


sustentá-lo decentemente como hóspede e 
amigo. Desde então viveram igualmente satis- 
feitos com a mudança de situações. 

Eis um gesto que de bom grado imitaria e 
muito louvo o sábio partido que tomou um 
velho prelado meu conhecido, o qual entrega 
muito simplesmente sua bolsa e suas rendas e 
o cuidado de sua existência ora a um ora a 
outro servidor. Desse modo viveu longos'anos 
tão ignorante .de seus negócios domésticos 
quanto um estranho. A confiança na bondade 
alheia é um testemunho nada desprezível da 
própria bondade, e Deus a protege. E talvez 
isso explique por que esse prelado teve sempre 
a casa tão dignamente administrada. Feliz de 
quem regula tão bem suas necessidades que 
suas rendas lhe bastam, sem que se tornem 
motivo de preocupação ou perturbação e sem 
que repartição ou recuperação sejam um entra- 
ve a outras ocupações mais de acordo com 


- seus gostos e às quais se possa dedicar conve- 


niente e trangiilamente. 

- Abastança e indigência dependem, pois, da 
idéia que delas temos. À riqueza, como a gló- 
ria e a saúde, só atrai e causa prazer na medida 
em que empresta prazer e atração a quem a 
possui. Estamos bem ou normal neste mundo 
segundo o que pensamos: contente está quem 
se acredita contente e não aquele que os outros 
imaginam contente. Nossa crença é que faz 
seja ou não seja real a felicidade. A fortuna 
não nos outorga o bem ou o mal, ela se limita 
a fornecer-nos os elementos do bem e do mal, 
os quais nossa alma, mais poderosa do que ela, 
trabalha e aplica como lhe apraz, tornando-se 
dessa maneira única senhora e causa de nossa 
condição. Os efeitos externos tiram cor e sabor 
de nossa constituição interna, como as roupas 
que usamos nos aquecem não com seu calor 
próprio, mas com O nosso, que conservam e 
desenvolvem. Se com eles cobrissemos um 
corpo frio, inverso seria o resultado. Desse 
modo conservam-se a neve e o gelo. Todas as 
coisas dependem da maneira por que são enca- 
radas: o estudo é motivo de tormento para o 
preguiçoso; o beberrão sofre sem vinho; a 
frugalidade é um suplício para o comilão; o 
exercício uma tortura para o delicado ocioso, 
etc. As coisas não são nem dolorosas nem difi- 
ceis em si. Para julgar de sua elevação e gran- 
deza é necessário uma alma com essas quali- 
dades, sem o que lhes atribuiriamos nossos 
próprios defeitos. Um remo é reto, e no entanto 
quando mergulha: na água parece. curvo. Não 
basta ver a coisa, importa como vê-la. 

Por que, entre tantos raciocínios que de mil 
maneiras provam que'o homem deve desprezar 
a morte e dominar a dor, não encontramos um 
que nos convença? Por que entre tantos argu- 


42 MONTAIGNE 


mentos por outros aceitos, não achamos um do 
nosso gosto que nos persuada igualmente? 
Que quem não pode engolir o medicamento 
enérgico e detergente, suscetível de destruir o 
mal, absorva pelo menos um lenitivo que ali- 
vie: “nós nos amolecemos, não menos pela 
volúpia do que pela dor e nesse estado nada 


mais temos de viril e forte; uma picada de abe- 
lha basta para arrancar-nos gritos; saber domi- 


nar-se, eis o segrêdo”1º 8. 
108 Cícero. 


Seja como for, não se escapa da filosofia 
exagerando a acuidade da dor e a fraqueza 


humana: apenas a forçamos a opor-nos às 
irrespondíveis réplicas de sempre: “se não vale 
a pena viver, viver sem que valha a pena não é 
imprescindível. Ninguém verá prolongar-se o 
seu mal se não o quiser”. Mas a quem não se 


dispõe a suportar a morte nem a vida, a quem 
não quer resistir nem fugir, como ajudar? 


CAPÍTULO XV 


Merecedor de punição é quem aefende uma 


praça forte além do razoável 


A valentia tem seus limites, como qualquer 
virtude; ultrapassá-los pode levar ao crime. 
Pois é ela suscetível de tornar-se temeridade, 
obstinação, loucura em lhe ignorar os marcos 
delimitadores, bem difíceis em verdade de se 


perceberem em dados pontos de separação. 
Dat, dessas considerações, nasceu o costume 
de, na guerra, punir-se até com a pena de 
morte quem teima em defender uma praça não 


mais defensável segundo as regras da arte mili- 
tar. Sem o que, confiando na impunidade, não 
houvera choça que não sustasse a marcha de 
um exército. 


No sítio de Pavia, o condestável de Mont- 
morency, tendo recebido ordem de atravessar 
o Tessino e de se estabelecer no arrabalde de 
Santo Antônio, viu-se impedido de fazê-lo por 
causa de certa torre situada na extremidade da 


ponte e cuja guarnição se obstinou em defen- 
der até a derrota final. Vitorioso, o condestável 
mandou enforcar todos os prisioneiros. Mais 


tarde, acompanhando o delfim em campanha 
além Alpes, e tendo conquistado à força o cas- 
telo de Villane, mortos os defensores todos 
pelos atacantes exasperados, à exceção do 
capitão e do tenente, a estes mandou o condes- 
tável punir por lhe haverem resistido, fazendo- 
os enforcar. O Capitão Martin du Bellay assim 
agiu igualmente contra St. Bony, governador 


de Turim, cujos soldados tinham sido massa 
crados ao ser tomada a praça forte. 

A apreciação do grau de resistência ou fra- 
queza de uma praça resulta da importância 
das forças assaltantes e dos seus meios de 
ação. Assim, quem com razão se obstina em se 
defender contra duas colubrinas, insensato 
seria se o fizesse contra trinta canhões. Há que 
considerar ainda a glória que dão ao príncipe 
inimigo suas conquistas anteriores, sua reputa- 
ção e o respeito que lhe é devido. Mas é peri- 
goso atentar-se demasiado para estas últimas 
considerações, pois hã quem se imagine tão 
altamente colocado que não lhe parece justo se 
o enfrente, e não o admitindo não hesite em 
passar pelo fio da espada os defensores, em 
lhes sendo a sorte favorável. É o que se deduz 
das formas em que são concebidos a intimação 
e o desafio de antigos príncipes orientais e até 
de seus sucessores. Em sua linguagem orgu- 
lhosa e altiva, repetem-se ainda hoje as mais 
bárbaras injunções. E na região pela qual os 
portugueses iniciaram a conquista das Índias, 
povos havia entre os quais era regra comum e 
sempre aplicada que ao inimigo vencido pelo 
rei em pessoa ou seu lugar-tenente não fossem 
concedidos mercê nem resgate. 

Portanto evite, quem possa, cair nas mãos 
de um inimigo vitorioso e armado, com pode- 
res para julgar. 


ENSAIOS — 1 43 


CAPÍTULO XVI 


Da covardia 


De um príncipe, e grande capitão, ouvi certa 
vez que por ato de pusilanimidade não se devia 
condenar um soldado à morte. E, estando à 
mesa, narrou o processo do Sr. de Vervins que 
a tal pena se condenara por se ter rendido em 
Boulogne. Convenho em que é justo diferen- 
ciar-se um erro devido à fraqueza de ânimo da 
falta maliciosa !º 7. Neste caso agimos com 
pleno conhecimento de causa contra o que nos 
dita a razão posta pela natureza a nosso servi- 
ço a fim de nos guiar. No outro caso parece- 
me que podemos invocar a própria natureza, 
da qual provém nossa fraqueza e imperfeição. 
É esse raciocínio que leva muita gente a pensar 
que só devamos ser responsabilizados pelo que 
fazemos de contrário à nossa consciência. E 
mesmo nessa regra que se baseiam as pessoas 
que censuram e condenam à pena capital heré- 
ticos e infiéis; e também pela mesma razão não 
há como responsabilizar juízes e advogados 
que por ignorância erram no cumprimento de 
seus deveres. 

Quanto à covardia, é certo que vergonha e 
ignomínia são os castigos mais comumente 
infligidos aos réus. O legislador Charondas 
passa por ter sido o primeiro a aplicar tais 
penalidades. Antes dele, os gregos puniam com 
a morte os que fugiam ao combate: Charondas 
contentou-se'com ordenar que, vestidos de 
mulher, ficassem durante três dias expostos em 
praça pública. Esperava, assim, que, a vergo- 
nha lhes reavivando a coragem, pudessem vol- 


tar às fileiras do exército. “Pensai em fazer 


com gue se envergonhe o culpado mais do que 
em lhe derramar o sangue!º*.? 


107 Cometida por velhacaria, má índole. (N. do T.) 
108 Tertuliano. 


Parece que também as leis romanas puniam 
com a morte os desertores, pois Aumien Mar- 
celino cita o Imperador Juliano como tendo 
condenado à degradação e à morte — de 
conformidade com as leis antigas — dez sol- 
dados que haviam virado as costas ao inimigo 
numa carga contra os partas. Entretanto, de 
outras feitas, e por causa idêntica, contentou- 
se ele em condenar os culpados a marcharem 
com os primeiros em meio às bagagens. O rude 
castigo infligido pelo povo romano aos trâns- 
fugas do desastre de Canas e — da mesma 
guerra — aos que acompanharam Cneio Flã- 
vio na derrota, não chegou à pena de morte. 
Em casos como estes é de se temer que a ver- 
gonha engendre o desespero e os dessa manei- 
ra atingidos se tornem possivelmente: nossos 


. inimigos. 


No tempo de nossos pais, o Sr. de Franget, 
então tenente da companhia do Marechal de 
Chatillon, nomeado pelo Marechal de Chaban- 
nes, governador de Fontarabie, em substitui- 


ção ao Sr. de Lude, entregou essa praça forte 
aos espanhóis. Foi condenado, bem como os 
seus, à degradação e à perda de seus títulos 
nobiliárquicos, declarado plebeu, sujeito a 


impostos, e proibido de usar armas. Essa sen- 
tença rigorosa foi executada em Lion. Poste- 


riormente, idêntica penalidade foi aplicada a 
todos os fidalgos que se encontravam em 


Guise quando o Conde de Nassau se apoderou 
da cidade. E a outros ainda, desde então. 
Entretanto, quando a falta evidencia igno- 
rância grosseira ou covardia fora do comum, é 
racional considerá-la ato malicioso, resultante 
de maus sentimentos. e punita nessa qualida- 
de. 


44 —  MONTAIGNE 


CarpítruLO XVII 


Maneira de agir de alguns embaixadores 


A fim de aprender sempre alguma coisa em 
minhas relações com os outros (o que é um dos 
melhores meios de se instruir), procuro em mi- 
nhas viagens orientar as pessoas com as quais 
me entretenho para os assuntos que conhecem 
melhor: “que o piloto se contente com falar 
dos ventos, o lavrador de touros, O guerreiro de 
seus ferimentos e o pastor de suas ove- 
lhas?1º9. O mais das vezes é o contrário que 
se verifica: preferem todos falar do ofício 
alheio, imaginando acrescentar algo assim à 
própria reputação. Testemunho disso é a cen- 
sura de Arquimedes a Periandro que abando- 
nava a glória de ser um bom médico para 
adquirir a de um mau poeta. 

Vede como César insiste em nos revelar sua 
capacidade de construir pontes e máquinas de 
guerra e como se mostra relativamente dis- 
creto ao comentar seus feitos e gestos de solda- 
do, sua valentia, e sua maneira de comandar os 
exércitos. Quer mostrar-se excelente na enge- 
nharia, de que entende pouco, quando seus 
atos testemunham a grandeza do capitão. Dio- 
nísio, o antigo!''º, era na guerra um general 
muito bom, como convinha à sua condição; 
pois se atormentava para que apreciassem nele 
principalmente seu talento poético, em verdade 
bem medíocre. Certo personagem do corpo 
judiciário, a quem há tempos se mostrava uma 
biblioteca abundantemente provida tanto de 
obras de direito, como das disciplinas do saber 
humano, nada disse a respeito, preferindo en- 
trar em explicações doutorais acerca de uma 
barricada que se erguera à entrada do edifício, 
assunto que desconhecia e que cem capitães e 
soldados viam diariamente sem pensar em cri- 
ticar ou louvar. “O pesado boi gostaria de car- 
regar a sela e o cavalo de puxar a charrua! 11? 

Agindo desse modo nada fazemos de útil. 
Esforcemo-nos portanto por ouvir em seus ofi- 
cios ao arquiteto, O pintor, o sapateiro e 
outros. 


109 Propércio. 

1º Em certas edições o texto diz “O velho Dioni- 
sio”, e o exemplo vem no fim do parágrafo. (N. do 
T.) 

111 Horácio. 


A propósito, quando leio histórias, gênero 
que a tantos apetece hoje em dia, tenho por há- 
bito atentar antes de mais nada para quem as 
escreve. Se se trata de profissionais das letras 
atenho-me em particular ao estilo e à lingua- 
gem; se são médicos acredito neles enquanto 
se referem à temperatura do ar, à saúde, à 
constituição física dos príncipes, aos ferimen- 
tos e às doenças; se são jurisconsultos, ouço-os 
em particular nas discussões acerca do direito, 
das leis, da fatura dos regulamentos e outros 
assuntos análogos; se são teólogos, acerca dos 
negócios da Igreja, das censuras eclesiásticas, 
das dispensas e dos casamentos; se são corte- 
sãos, a propósito. dos costumes e das cerimô- 
nias; Se são guerreiros, acerca do que lhes diz 
respeito, e principalmente das ações a que 
assistiram; se são embaixadores, das gestões, 
dos contatos e das práticas relativas à diplo- 
macia e à maneira de orientá-los. Foi o que me 
lévou a ler com interesse um trecho das crôni- 
cas do Sr. de Langey, muito entendido nessas 
coisas e que não teria lido se o fosse em outras. 
Diz ele das famosas admoestações feitas em 
Roma por Carlos Quinto, em pleno consistório 
a que assistiam nossos embaixadores, o Bispo 
de Macon e o Sr. de Velly. Depois de algumas 
palavrás ofensivas para nós, entre as quais que 
se seus capitães, sóldados e súditos não mos- 
trassem maior fidelidade a seus deveres do que 
os dos reis de França (e isso parece que o pen- 
sava de verdade porquanto o repetiu mais de 
uma vez), iria com a corda ao pescoço pedir 
misericórdia; o imperador disse também que 
desafiava O rei para um combate singular, em 
camisa, e de barco em pleno rio, com espada € 
punhal, a fim de que nenhum dos adversários 
pudesse recuar. Termina o Sr. de Langey nar- 
rando que ao relatarem a sessão ao rei dissi- 
mularam seus embaixadores o que precede. 
Ora, acho estranho que um embaixador possa 
dispensar-se de relatar propósitos dessa ordem 
nos relatórios enviados a seu soberano, princi- 
palmente quando são de tal alcance e provêm 
de personagem tão importante, e foram ouvi- 
dos em semelhante assembléia. Parece-me que 
o dever do servidor é reproduzir fielmente 


ENSAIOS —I 45 


tudo, tal qual se apresentou, a fim de que o se- 
nhor tenha liberdade de ordenar, apreciar e 
escolher. Alterar-lhe a verdade de medo que a 
interprete mal e tome um partido errado, e por 
isso esconder-lhe o que lhe interessa, é a meu 
ver inverter os papéis. Manda quem pode e não 
o pode quem obedece. Isso cabe ao tutor e ao 
professor e não a quem, em sua situação, não 
somente é inferior à autoridade mas deve tam- 
bém estimar-se inferior em relação à prudência 
e à experiência. Como quer que seja, no que 
me diz respeito não gostaria de ser servido 
dessa maneira. 


Tanta vontade temos de nos subtrair ao 
comando alheio e tudo é tão bom pretexto para 
usurparmos as prerrogativas dos que têm o 
poder; aspiramos tão naturalmente à liberdade 
e à autoridade, que nada será mais precioso ao 
superior do que encontrar em seus servidores 
obediência pura e simples. Não obedecer intei- 
ramente a uma ordem recebida, fazê-lo com, 
reticência, é falta e erro!!2. Públio Crasso, 
qualificado pelos romanos como cinco vezes 
feliz, estando na Ásia, encomendara a um 
engenheiro grego que lhe trouxesse o maior 
dos mastros de navio que vira em Atenas, a 
fim de empregá-lo na construção de uma mãá- 
quina de guerra. Este, apoiando-se em seus 


112 Adotou-se aqui a interpretação de Michaut, 
pois o texto original exige mais equivalência de pen- 
samento que fidelidade literal. (N. do T.) 


conhecimentos técnicos, tomou a si trazer O 
menor, que lhe parecia mais conveniente. 
Crasso ouviu-lhe as expiicações sem o inter- 
romper e mandou açoitá-lo assim mesmo, por 
considerar que mais do que a obra executada 
em melhores ou piores condições importava a 
disciplina. 

Cumpre observar, entretanto, que uma tal 
obediência passiva não se deve senão a ordens 
precisas acerca de objetivos previstos. Os 
embaixadores têm maior latitude, e em certos 
pontos podem agir livremente, pois sua missão 
não é simplesmente executar e sim esclarecer e 
orientar com seus conselhos a opinião de quem 
representam. Vi em meu tempo pessoas come- 
tidas em postos de comando, a que se censurou 
haverem obedecido ao pé da letra às ordens 
recebidas do rei em. vez de se inspirarem na 
realidade das coisas que podiam pessoalmente 
constatar. Os entendidos criticam ainda hoje o 
costume que tinham os reis da Pérsia de frear 
de tal maneira a ação de seus agentes que para 
as mais ínfimas resoluções eram eles forçados 
a recorrer à autoridade real, o que, dada a 
imensa extensão do país, ocasionava perdas de 
tempo que foram não raro causa de sério pre- 
Juízo para seus negócios. Quanto a Crasso, 
escrevendo a um profissional e lhe comuni- 
cando o emprego a que destinava o mastro 
pedido, não o incitava assim a examinar em 
comum: a coisa e não o convidava a agir como 
lhe parecesse mais conveniente? 


CapítTuLO XVIII 


Do medo 


“Tomado de estupor, fiquei de cabelos arre- 
piados, e sem voz !!3.? Não sou muito versado 
no estudo da natureza humana, como dizem, e 
ignoro de que maneira o medo atua em nós. 
Certo é que se trata de estranho sentimento. 
Nenhum, afirmam os médicos, nos projeta tão 
precipitadamente fora do bom-senso. E em 
verdade vi muita gente tornada insensata pelo 
medo. Mesmo entre os mais assentados provo- 
ca ele terríveis alucinações. 

Ponho de lado o homem vulgar ao qual faz 


113 Virgílio. 


o medo que ora veja seus antepassados saírem 
do túmulo, envolvidos em seus sudários, ora 
lobisomens, gnomos, quimeras. Mesmo porém 
entre os soldados, sobre os quais o medo deve- 
ria ter menor influência, quantas vezes não 
transformou ele um rebanho em um esquadrão 
couraçado? E caniços e bastões em policiais e 
lanceiros? E nossos amigos em inimigos, e a 


cruz vermelha em cruz branca? 
Quando o Sr. de Bourbon tomou Roma, o 


porta-estandarte encarregado da guarda do 
subúrbio de São Pedro foi tomado de tal pavor 
à primeira alerta que, passando através de um 
buraco no muro em ruinas, saiu da cidade car- 


46 MONTAIGNE 


regando seu estandarte e marchou ao encontro 
do inimigo convencido de que se dirigia para o 
interior da praça forte. Vendo a gente do Sr. de 
Bourbon se aprestar para a batalha, voltou a.si 
e, na crença de que os defensores tentavam 
uma sortida!! *, virando as costas entrou de 
novo pelo mesmo buraco na cidade de que se 
afastara cerca de trezentos passos. O porta-es- 
tandarte do Capitão Júlio não se saiu tão bem 
quando o Conde de Bures e o Sr. Du Reu 


tomaram São Paulo. Desesperado de medo, 
lançou-se fora da cidade pela canhoneira, de 


estandarte em mão, e foi dar em cheio nos 
assaltantes que o fizeram em pedaços. Nesse 
mesmo sítio verificou-se um caso extraordi- 


nário: o medo surpreendeu, agarrou e a tal 
ponto paralisou um fidalgo que este caiu 
morto repentinamente, e sem o menor ferimen- 


to, do baluarte em que se achava. Semelhante 
inconsciência furibunda apodera-se por vezes 
das multidões. Em um encontro de Germãâni- 


co!" com os alemães duas frações impor- 
tantes de suas tropas, postadas em pontos dife- 
rentes, fugiram apavoradas, em direção uma 
da outra e acabaram por se chocarem. 

Ora o medo põe asas em nossos pés como 
no caso dos porta-estandartes, ora nos prega 
ao solo e nos imobiliza como aconteceu com o 
Imperador Teófilo. Batido em uma batalha 
contra Os agarenos, ficou tão estupefato e tran- 
sido que não podia decidir-se a fugir “tanto se 
apavora o medo daquilo que lhe pode aju- 
dar!1 8” E assim permaneceu até que Manuel, 
um de seus principais chefes, o sacudiu como 
para acordá-lo de um sono e lhe disse: “Se não 
me seguirdes eu vos matarei, pois é melhor que 
percais a vida do que serdes prisioneiro e cor- 
rerdes o risco de perder o império.” 


É principalmente quando sob a sua in- 
fluência recobramos a coragem que ele nos ti- 


rara contra o que o dever e a honra determina- 
vam, que o medo revela sua ação mais intensa. 
Na primeira batalha séria que tiveram — e 
perderam — os romanos contra Aníbal, sob o 
consulado de Semprônio, um exército de cêrca 
de dez mil infantes tomado de pavor debandou 
e, na sua covardia, não descobrindo por onde 
passar, jogou-se contra o grosso do inimigo. 
Tanto e tão bem fez que depois de matar gran- 
de número de cartagineses rompeu-lhes as filei- 


1º O termo militar é consignado em J. Mesquita 
de Carvalho (“Dicionário Prático da Língua Nacio- 
na!??). (N. do T.) 

115 Trata-se do general romano Júlio César Ger- 
mânico (15 a.C.-19 d.C.). (N. do E.) 

116 Quinto Cúrcio. 


ras, pagando uma fuga vergonhosa com os 
mesmos esforços que teriam de fazer para 
alcançar uma vitória gloriosa. 


O medo é a coisa de que mais medo tenho 
no mundo. Ele ultrapassa, pelos incidentes 
agudos que provoca, qualquer outra espécie de 
acidente. Que aflição será mais penosa e justi- 


ficável do que a dos amigos de Pompeu, teste- 
munhas em seu próprio navio de horrível mas- 
sacre? No entanto, o medo que lhes causou a 
aproximação das velas egípcias abafou neles 
esse sentimento, a tal ponto que se observou 
terem pensado apenas em instar os mari- 
nheiros para que à força de.remos lhes facili- 
tassem a fuga até que, chegados a Tyr e já sem 
receios, tiveram o lazer de meditar sobre a 
perda sofrida e dar livre curso aos lamentos e 
as lágrimas que o medo, mais forte do que a 
dor, paralisara: “o pavor expulsa então de meu 
coração toda sabedoria!" 7.” Os que muito 
sofreram em alguma ação guerreira, nela 
foram feridos e ainda trazem o ferimento a 


sangrar, ao combate podem ser novamente 
levados, logo em seguida, mas, os que tiveram 
forte medo do inimigo, ninguém fará sequer 
que voltem a olhá-lo de frente. Os que têm mo- 
tivo para temer a perda de seus bens, o exílio 
ou a servidão, vivem em constante angústia. 
Não comem, nem bebem, nem dormem, 
enquanto, em idênticas circunstâncias, os 


pobres, os banidos, os servos, continuam a 
viver, não raro tão alegremente como de costu- 
me. Quantas pessoas, atormentadas pelas 


fustigações do medo, não se enforcaram, se 
afogaram ou se atiraram em precipícios, 
demonstrando ser o medo mais importuno e 
insuportável do que a própria morte! 

Os gregos admitem um outro tipo de medo, 
que não provém de um erro de nosso racioci- 
nio, mas ocorre sem causa aparente e por von- 
tade dos deuses. E povos inteiros e exércitos 
inteiros o experimentam. Dessa ordem foi o 
que provocou em Cartago tão prodigiosa deso- 


lação. Só se ouviam gritos de pavor; os habi- 
tantes precipitavam-se fora de suas jcasas, 
como a um sinal de alarma e se atacavam 


mutuamente, e se feriam, e se matavam como 
se inimigos houvessem entrado na cidade. A 
desordem e o tumulto imperavam. E a isso, 


que só findou quando, mediante preces e sacri- 
fícios, conseguiram acalmar a cólera dos deu- 
ses, Chamam os gregos “terror pânico”. 


717 Enio. — Neste caso sabedoria assume o senti- 
do de prudência, retidão, razão. (N. do T.) 


ENSAIOS— II 47 


CAPÍTULO XIX 


Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes 
ou infelizes em vida 


“Nunca se deve perder de vista o último dia 
do homem, nem declarar que alguém é feliz 
antes de vê-lo morto e reduzido a cinzas! 1º.” 
Conhecem as crianças a esse respeito a histó- 
ria do Rei Creso. Creso, feito prisioneiro por 
Ciro, fora condenado à morte. Ao aproximar- 
se a hora do suplício, pôs-se a gritar: “Sólon, 
Sólon.” Comunicada a exclamação a Ciro, 
este indagou de sua significação e Creso lhe 
explicou que para sua desgraça, dele Creso, 
Ciro estava confirmando a verdade de certa 
máxima que Sólon lhe transmitira: “os ho- 
mens, quaisquer que sejam os favores com que 
os cumule a sorte, não podem estimar-se feli- 
zes enquanto não vêem chegar q seu último 
dia”, e isso em virtude da instabilidade das coi- 
sas humanas que um pormenor basta para 
mudar inteiramente. Nessa mesma ordem de 
idéias Agesilau respondeu a alguém que acha- 
va o rei da Pérsia muito feliz, porque, tão 
jovem, já era senhor de tão poderoso Estado: 
“sem dúvida, mas Priam, na mesma idade, não 
era infeliz”. Não se viram reis da Macedônia, 
sucessores de Alexandre, acabarem em Roma 
como marceneiros e escribas? E tiranos da 
Sicília como mestres-escola em Corinto? E 
Pompeu, conquistador de metade do mundo e 
chefe supremo de tantos exércitos, não pagou 
seus últimos cinco ou seis meses de vida com a 
humilhação de enviar súplicas aos miseráveis 
oficiais do rei do Egito? No tempo de nossos 
pais viu-se morrer cativo em Loches e, o que é 
pior, depois de dez anos de detenção, Ludovico 
Sforza, décimo Duque de Milão e que durante 
tanto tempo agitara a Itália. A mais bela das 
rainhas, viúva do maior rei da cristandade, não 
acaba, indigna e bárbara crueldade, de morrer 
pela mão do carrasco? Tais exemplos existem 
aos milhares, pois assim como temporais e 
tempestades se abatem encarniçadamente con- 
tra os mais belos e altos edifícios, há também, 
nos céus, espíritos invejosos das grandezas da 
terra: “tanto é verdade, que uma força secreta 


118 Ovídio. 


derruba as coisas humanas e sem dificuldade 
esmaga aos pés o orgulho dos fachos, e parte 
as achas consulares”'?º. Dir-se-ia que a sorte 
aguarda por vezes nosso último dia, a fim de 
nos fazer compreender o poder que possui de 
derrubar em um instante o que custou longos 
anos para edificar, e assim nos impelir a excla- 
mar com Labério: “Ah! este dia é um dia a 
mais dos que eu deveria viver!2º? 

Dai aceitar-se com razão a máxima tão 
Justa de Sólon. Mas como se trata de um filó- 
sofo para o qual os favores e as desgraças da 
sorte não contam nem como coisa feliz nem 
como coisa infeliz, pois ele encara grandeza e 
poder como acidentes mais ou. menos sem 
importância em nossa vida, penso que sua 
intenção seja mais profunda e tenha querido 
dizer, com isso, que essa felicidade de nossa 
existência, dependente da tranqgiiilidade e da 
satisfação de um espírito reto, da resolução e 
da firmeza de uma alma serena, não deve ser 
atribuida ao homem enquanto não representa 
o último ato — e sem dúvida o mais dificil — 
da comédia de sua vida. 

Quanto a tudo mais podemos dissimular; 
fazer como filósofos belos discursos de forma 
excelente; conservar a nossa serenidade em 
face de acidentes que nos atinjam superficial- 
mente. Mas na última cena, a que se representa 
entre nós e a morte, não há como fingir, é pre- 
ciso explicar-lhe com precisão em linguagem 
clara e mostrar o que há de autêntico e bom no 
fundo de nós mesmos: “então a necessidade 
arranca-nos palavras sinceras, então cai a 
máscara e fica o homem!???. Eis por que a 
esse momento devem relacionar-se todos os 
demais atos de nossa vida. É o dia principal, o 
dia que valoriza todos os outros. É o dia, diz 
um escritor anfigo, que julgará todo o meu 
passado. Deixo que a morte se pronuncie sobre 
minhas ações; por ela se verá se minhas pala- 
vras saem dos lábios ou do coração. Quantos 


118 TLucrécio. 
120 Macróbio. 
121 TLucrécio. 


48 MONTAIGNE 


deveram à morte a reputação de terem bem ou 
mal vivido? Cipião, sogro de Pompeu, desfez, 
em bem morrendo, a opinião que até então ha- 
viam tido a seu respeito. Epaminondas inda- 
gado acerca de quem ele mais estimava, se a 
Chabrias, a Ificrates ou a si mesmo, respon- 
deu: “Para que me pronuncie é preciso primei- 
ramente ver como será nossa morte.” Em ver- 
dade, quanto a ele, fora injusto julgá-lo sem 
levar em conta sua morte, tão honrosa e cheia 
de grandeza. Deus faz o que quer, mas de meu 
tempo três pessoas das mais execráveis que 
conheci, e cuja vida não fora senão um amon- 
toado de abominações e infâmias, tiveram 
morte decente e tal que em nenhuma circuns- 
tância se poderia querer melhor. Há fins glo- 


riosos, e mesmo felizes. Vi a morte interrom- 
per, na flor da idade, a existência de alguém 
que tudo indicava estar a caminho de realizar 
as mais admiráveis ambições; colheu-o a 
morte em condições tais que a meu ver a pró- 
pria realização de suas esperanças não o teria 
elevado mais alto!?2. Morrendo ultrapassou 
mais gloriosamente do que sonhara a fama e o 
poder a que aspirava em vida. Quando se trata 
de julgar a vida dos outros, observo sempre 
como terminou; quanto à minha, esforço-me 
principalmente para que acabe bem, isto é, 
tranquila e silenciosamente. 


122 Provavelmente La Boétie. 


CAPÍTULO XX 


De como filosofar é aprender a morrer 


Diz Cícero que filosofar não é outra coisa 
senão preparar-se para a morte. Isso, talvez, 
porque o estudo e a contemplação tiram a 
alma para fora de nós, separam-na do corpo, o 
que, em suma, se assemelha à morte e constitui 
como que um aprendizado em vista dela. Ou 
então é porque de toda sabedoria e inteligência 
resulta finalmente que aprendemos a não ter 
receio de morrer. Em verdade, ou nossa razão 
falha ou seu objetivo único deve ser a nossa 
própria satisfação, e seu trabalho tender para 
que vivamos bem, e com alegria, como reco- 
menda a Sagrada Escritura'?3. Todas as opi- 
niões propõem que o prazer é a meta da vida, 
mas diferem no que concerne aos meios de 
atingir o alvo. É se assim não fosse, as repeli- 
ramos de imediato, pois quem daria ouvido a 
alguém que apontasse na pena e no sofrimento 
os objetivos da existência? A esse respeito, as 
dissensões entre as seitas filosóficas são puro 
palavrório: “deixemos de lado essas sutile- 
zas”"2*: em tais discussões entra mais obsti- 
nação e picuinha!?8 do que convém à ciência 
tão respeitável. Mas em qualquer papel que se 
proponha desempenhar põe o homem um 
pouco de si mesmo!2 8. 


123 Eclesiastes, UI, 12. 

124 Sêneca. 

125 Picoterie — argumentação maliciosa e prevo- 
cante. (N. do T.) 

128 O texto original é obscuro. Michaut o inter- 
preta também sem muita clareza. (N. do T.) 


Digam o que disserem, na própria prática 
da virtude o fim visado é a volúpia. E agrada- 
me repetir essa palavra que pronunciam 
constrangidos. E se significa prazer supremo e 
extremada satisfação melhor se deva ela à vir- 
tude do que a qualquer outra causa, pois a 
volúpia, robusta e viril, é a mais seriamente 
voluptuosa. E deveriamos chamá-la prazer, 
denominação mais feliz e mais natural, do que 
a de vigor que lhe damos. Quanto à volúpia de 
ordem menos elevada, se acreditam que mere- 
ça igual nome que o mantenham, mas não com 
exclusividade. Mais do que a virtude tem ela 
seus inconvenientes e seus momentos dificeis; 
além de serem mais efêmeras as sensações que 
nos procura, e mais fluidas e fugidias, tem suas 
vigilias, seus jejuns, suas penas, seu suor e san- 
gue. Paixões de toda sorte influem nela e 
redunda ela em tão pesada saciedade que equi- 
vale a uma penitência. É erro nosso imaginar 
que tais inconvenientes a estimulam, e a condi- 
mentam, em razão dessa lei da natureza que 
afirma tudo se fortalecer ante o obstáculo 
encontrado; e erro é também pensar que, quan- 
do se trata de volúpia proveniente da virtude, 
semelhantes dificuldades a acabrunham e a 
tornam austera e inacessível. 

Ao contrário do que se verifica com a volú- 
pia, na prática da virtude tais dificuldades eno- 
brecem, requintam e realçam o prazer divino e 
perfeito que ela nos procura. Bem indigno de 
senti-lo é por certo quem pesa o custo e o ren- 


ENSAIOS — 1 49 


dimento dela; não lhe conhece as belezas nem 
o uso. Os que nos afirmam que, embora sua 
posse seja agradável, penosa e laboriosa é a 
sua conquista, não nos estarão dizendo ser a 
virtude coisa sempre desagradável? Mesmo 
porque quem a terá jamais atingido? Os mais 
perfeitos tiveram de se contentar com aspirar a 
ela, dela se aproximar sem nunca chegar a 
possuí-la. Enganam-se porém os que assim 
faiam, pois não há prazer conhecido cuja pró- 
cura em si já-não constitua uma satisfação. Ela 
liga-se ao objetivo visado e contribui muito 
para o resultado de que participa essencial- 
mente. A felicidade e a bem-aventurança da 
virtude enchem-lhe as dependências e os cami- 
nhos, desde o portão de entrada até os muros 
que lhe cercam os domínios. 

Um dos principais benefícios da virtude está 
no desprezo que nos inspira pela morte, o que 
nos permite viver em doce quietude e faz se 
desenrole agradavelmente e sem preocupações 
nossa existência. E, sem esses sentimentos, 
toda volúpia é sem encanto. Eis por que todos 
os sistemas filosóficos concordam nesse ponto 
e para ele convergem. Embora todos se enten- 
dam igualmente em nos recomendar o des- 
prezo à dor, à pobreza e outros acidentes a que 


está sujeita a vida humana, nem todos o fazem 
com igual cuidado, ou porque tais acidentes 
não nos atingem forçosamente (em sua maio- 
ria Os homens vivem sua vida sem sofrer com a 
pobreza, e alguns, como o músico Xenófilo! 2? 
que morreu com cento e seis anos, vivem em 
perfeita saúde, sem conhecer nem a dor nem a 
doença), ou porque, na pior das hipóteses, 
pode a morte, quando quisermos, pôr fim aos 
nossos males. E ela própria é inevitável: 
“Marchamos todos para a morte; nosso desti- 
no agita-se na urna funerária; um pouco mais 
cedo, um pouco mais tarde, o nome de cada 
um dali sairá e a barca fatal nos levará a todos 
ao eterno exílio' 28.” Portanto, se a receamos, 
temos nela um motivo permanente de tormen- 
tos e andaremos como em país inimigo a deitar 
os olhos para todos os lados: “ela é sempre 
uma ameaça, como o rochedo de Tântalo”"2º. 

Nossos tribunais ordenam muitas vezes se 
execute o criminoso no próprio local do crime. 
Conduzam-no durante o trajeto, entre belas 
residências e dêem-lhe as melhores refeições; 
os mais deliciosos acepipes não poderão acari- 
ciar-lhe o paladar, nem o canto dos pássaros, 
nem os acordes da lira lhe devolverão o 
sono!3º. Pensais que será sensível a nossos cui- 


*27 Filósofo que Montaigne qualifica como músi- 
ço. 


128 Horácio. 
128 Cicero. 
130 Horácio. 


“dados e que o fim último de sua viagem, sem- 


pre em mente, não lhe alterará e tornará insos- 
so qualquer possível prazer? “Inquieta-se com 
o caminho, conta os dias, mede a vida pela 
extensão da estrada, sem cessar atormentado 
pela idéia do suplício que o espera!3?. 


A meta !32 de nossa existência é a morte; é 
este o nosso objetivo fatal. Se nos apavora, 
como poderemos dar um passo à frente sem 
tremer? O remédio do homem vulgar consiste 
em não pensar na morte. Mas quanta estupidez 
serã precisa para uma tal cegueira? Por que 
não coloca o freio no rabo do asno, desde que 
meteu na cabeça andar de costas? '33 Não há 
como estranhar caia tão amiúde na armadilha. 
As pessoas se apavoram simplesmente com lhe 
ouvir o nome: a morte! E persignam-se como 
se ouvissem falar no diabo. E como ela é men- 
cionada nos testamentos, só resolvem fazer o 
seu quando os condenou o médico. E Deus 
sabe em que estado de espírito se encontram 
então, sob o impacto da dor e do pavor. 

Como esta palavra ressoava demasiado 
forte a seus ouvidos, e lhes parecia de mau 
augúrio, tinham os romanos se habituado a 
adoçá-la ou a empregar perifrases. Em vez de 
dizer: morreu, diziam: parou de viver, viveu; 
bastava-lhes que se falasse em vida. Nós lhes 
tomamos de empréstimo esses eufemismos e 
dizemos: Mestre João se foi '2*. 

Se porventura se aplica o ditado “a palavra 
é de prata”, como nasci entre onze horas e 
meio-dia no último dia de fevereiro de 1533 e 
começamos o ano em janeiro !3º, como acon- 
tece agora, faz exatamente quinze dias que 
completei meus trinta e nove anos. Posso pois 
esperar viver ainda tal periodo; e atormentar- 
me meditando sobre tão longinqua eventucli- 
dade, fora loucura. Mas jovens e velhos se vão 
da vida em condições idênticas. Partem todos 
como se acabassem de chegar, sem contar que 
não há homem tão decrépito ou velho ou 
alquebrado que não alimente a esperança da 
longevidade de Matusalém, e não tenha ainda 
vinte anos de vida diante de si. Direi mais: 
quem, pobre louco, fixou a duração de tua 
existência? Acreditas no que dizem os médicos, 


131 Cláudio. 

132 Em outro trecho Montaigne diz fim (bout) e 
não meta (but). (N. do T.) 

183 Lucrécio. 

134 “Feu?, do latim “fuit” foi — Fulano, que se foi 
— Hoje ainda se diz “feu un tel” em francês, mas 
será então traduzido por “falecido fulano”. Quanto 
a “maitre Jean” é o apelido que se dava outrora aos 
pedantes, sábios ou doutores. (N. do T.) 

135 Em França o ano teve vários inícios. Foi Car- 
los IX quem fixou em 1563 a data do começo do 
ano em janeiro. 


50 MONTAIGNE 


sem atentar para o que se verifica em torno de 
ti, e sem julgar pela experiência. Pelo andar 
das coisas, há muito já não vives, senão por 
excepcional favor. Já ultrapassaste a-duração 
habitual da vida. Podes comprová-lo contando 
quantos entre os teus conhecidos morreram 
antes dessa idade, em bem maior número do 
que os que a alcançaram. Anota os nomes dos 
que, pelo brilho de sua existência, adquiriram 
certa fama; aposto encontrar entre eles, mortos 
antes dos trinta e cinco, muitos mais do que 
depois. 

O razoável e o piedoso está em tomar como 
exemplo a humanidade de Jesus: ora, sua exis- 
tência terrena findou-se aos trinta e três anos. 
O maior homem do mundo, homem e não 
Deus, Alexandre, morreu também com essa 


idade. 
Quantas maneiras diversas tem a morte de 


nos surpreender? “O homem nunca pode che- 
gar a prever todos os perigos que o ameaçam a 
cada instante! * 8.” Deixo de lado as doenças, 
as febres, as pleurisias. Quem poderia imagi- 
nar que um duque de Bretanha fosse morrer 
sufocado pela multidão'como aconteceu a um 
deles, quando da entrada em Lião do Papa 
Clemente, meu compatriota? Não vimos um 
dos nossos reis morrer em folguedo? E não 
faleceu outro, seu antepassado, da queda de 
um porco que montava? Esquilo, advertido de 
que morreria da queda de uma casa, embora 
dormisse em um campo de trigo, foi esmagado 
por uma tartaruga caída das garras de uma 
águia. Houve quem sucumbisse em conse- 
quência de uma semente de uva engolida; 
outro, imperador, morreu de uma arranhadura 
feita com o pente; Emílio Lépido em virtude de 
uma topada na porta de sua casa; Aufídio por 
ter batido com a cabeça no batente da entrada 
da sala do Conselho. E entre as coxas das 
mulheres: o pretor Cornélio Galo, Tigelino, 
comandante da guarda de Roma, Ludovico, 
filho de Gui de Gonzaga, Marquês de Mân- 
tua, e, o que é péssimo exemplo, Spensipo, filó- 
sofo platônico. E até um papa de nosso tempo. 

O pobre Bebius, que era juiz, ao adiar o jul- 
gamento de certa causa, morreu subitamente; 
chegara a sua hora. O médico Caio Julius, ao 
tratar dos olhos de um enfermo, teve os seus 
próprios fechados para sempre. E, para mistu- 
rar-me à enumeração: um dos meus irmãos, 
Capitão Saint Martin, de vinte e quatro anos e 
que já dera provas sobejas de seu valor, foi 
atingido por uma bola logo abaixo da orelha 
direita quando jogava péla. Nem vestígio nem 
contusão, não se sentou sequer, não inter- 
rompeu O jogo, e no entanto cinco ou seis 


138 Horácio. 


horas depois, ei-lo atacado de apoplexia causa- 
da pelo golpe recebido. 

Tais exemplos são tão frequentes, repetem- 
se tão comumente diante de nossos olhos, que 
não parece possível evitar se oriente nosso pen- 
samento para a morte, nem negar que a cada 
instante nos ameace ela. Que importa o que 
possa acontecer, direis, se não nos preocu- 
pamos com isso? É também meu parecer, e se 
houvesse meio de escapar ao golpe, ainda que 
fosse sob uma pele de vitela, não seria homem 
se não o empregasse, pois a mim me basta 
viver sossegado e pondo em prática tudo o que 
para tanto venha a contribuir, embora pouco 
glorioso ou exemplar: “prefiro passar por 
louco, ou impertinente, se meu erro me agrada 
ou não o percebo, a ser sábio e sofrer” '3 7, É 
loucura, porém, querer furtar-se assim a essa 
idéia. Vai-se, volta-se, corre-se, dança-se: ne- 
nhuma notícia da morte, que beleza! Mas 
quando ela nos cai em cima, ou em cima de 
nossas mulheres, nossos filhos, nossos amigos, 
que os surpreenda ou não, quantos tormentos, 
gritos, imprecações, desespero! Vistes alguém 
mais humilhado, transtornado, confundido? É 
preciso preocupar-se com ela de antemão. Pois 
essa incúria animal, ainda que pudesse alojar- 
se na mente de um homem inteligente, o que 
acho inteiramente impossível, nos faz pagar 


caro demais sua mercadoria!'*º. Se a morte 
fosse um inimigo suscetível de se evitar, acon- 


selharia agir diante dela como um covarde 
diante do perigo; mas, em não sendo isso ver- 
dade, e atingindo ela infalivelmente os fugiti- 
vos, poltrões ou valentes, “persegue o homem 
em sua fuga e não poupa nem mesmo a tímida 
Juventude que tenta escapar-lhe”"3º: como 
nenhuma couraça nos protege contra ela, 
“cobri-vos de ferro e de bronze, a morte vos 
atingirá sob a armadura”! *º, aprendamos a 
esperá-la de pé firme e a lutar. Para começar a 
despojá-la da vantagem maior de que dispõe 
contra nós, tomemos por caminho inverso ao 
habitual. Tiremos dela o que tem de estranho; 
pratiquemo-la, habituemo-nos a ela, não pen- 
semos em outra coisa; tenhamo-la a todo ins- 
tante presente em nosso pensamento e sob 
todas as suas formas. Ao tropeço de um cava- 
lo, à queda de uma telha, à menor picada de 
alfinete, digamos: se fosse a morte! e esforce- 
mo-nos em reagir contra a apreensão que uma 
tal reflexão pode provocar. Em meio às festas e 
aos divertimentos, lembremo-nos sem cessar 
de que somos mortais e não nos entreguemos 
tão inteiramente ao prazer que não nos sobre 


137 Horácio. ; 
138 Sa denrée — no caso, suas ilusões. (N. do T.) 
139 Horácio. : 
140 Id. 


ENSAIOS —I 51 


tempo para recordar que de mil maneiras 
nossa alegria pode acabar na morte, nem em 
quantas circunstâncias ela sobrevém inopina- 
damente. É o que faziam os egípcios quando 
em seus festivais e votados aos prazeres da 
mesa, mandavam trazer um esqueleto humano 
para rememorar aos convivas a fragilidade de 
sua vida: “Pensa que cada dia é teu último dia, 
e aceitarás com gratidaó aquele que não mais 
esperavas! 41.” 

Não sabemos onde a morte nos aguarda, 
esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a 
morte é meditar sobre a liberdade; quem 
aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; ne- 
nhum mal atingirá quem na existência com- 
preendeu que a privação da vida não é um 
mal; saber morrer nos exime de toda-sujeição e 
constrangimento. Paulo Emílio, ao ir receber 
as honras do triunfo, respondia ao mensageiro 
enviado por esse infeliz rei da Macedônia, seu 
prisioneiro, a fim de suplicar-lhe que não o 
incluísse em seu séquito: “Que o solicite a si 
próprio.” 

Em verdade, sem certa anuência da natureza 
é dificil que a arte e a indústria progridam nas 
obras que produzem. Eu não sou melancólico, 
sou sonhador. Não há nada que minha imagi- 
nação vasculhe mais do que a idéia da morte, e 
isso desde sempre, mesmo no período de 
minha vida em que mais me dediquei aos pra- 
zeres: “estava então na flor da idade”! “2. 
Entre senhoras e festas, imaginavam que 
andasse preocupado a remoer algum ciúme ou 
à espera inquieta de qualquer acontecimento, 
enquanto, na realidade, meu pensamento se 
orientava para não sei quem que, dias antes, ao 
sair de festa semelhante, entregue ao ócio, ao 
amor e às doces recordações, fora tomado de 
febre e morrera. E considerava que coisa aná- 
loga me aguardava de atalaia: “Em breve o 
tempo presente já não será e não poderemos 
lembrá-lo! *3.”'E não me franzia a fronte, mais 
do que outro qualquer, esse pensamento. 

É impossível que à princípio essa idéia 
não nos cause penosa impressão. Mas vol- 
tando a ela, encarando-a de todos os ângulos, 
aos poucos acabamos por nos acostumarmos a 
ela. De outro modo teria eu andado continua- 
mente agitado e amedrontado, pois ninguém 
mais do que eu jamais desconfiou tanto da 
vida e contou menos com a sua duração. 
Minha saúde, até agora excelente, apenas per- 
turbada por pequenas indisposições, não me 
dá maiores esperanças de grande longevidade, 
como tampouco as doenças me fazem temer 


141 Horácio. 
142 Catulo. 
143 TLucrécio. 


um fim prematuro. A cada instante tenho a 
impressão de haver chegado minha última 
hora, e repito sem cessar: o que devera ocorrer 
fatalmente um dia pode acontecer hoje. Efeti- 
vamente, OS acasos e perigos a que estamos 
expostos pouco ou nada nos aproximam do 
fim. E se pensarmos em quantos acidentes 
podem ameaçar-nos, além dos que imagina- 
mos iminentes, deveremos reconhecer que no 
mar como no lar, na guerra como no retiro, a 
morte sempre se encontra perto de nós: 
“Nenhum homem é mais frágil do que outro, 
nenhum tem assegurado o dia seguinte! * *.”? 
Para fazer o que me cumpre fazer antes de 
morrer, todo tempo me parece curto, ainda que 
se trate de trabalho de uma hora. Alguém, 
folheando meu caderno de notas, revelou algo 
que eu desejava se fizesse depois de minha 
morte; disse a essa pessoa a verdade, isto é, 
que ao registrar essa nota me encontrava a 
uma légua apenas de casa, mas me apressara 
em escrevê-la porque não estava certo de não 
morrer antes de entrar. A chegada da morte 
não me surpreenderá; acho-me sempre, e quan- 
to posso, preparado para essa ocorrência. Ela 
se mistura sem cessar a meu pensamento, nele 
se grava. Na medida do possível andemos sem- 
pre de botas e prontos para partir e, em parti- 
cular, não tenhamos negócios a tratar senão 
com nós mesmos: “por que, em tão curta vida, 
fazer tantos projetos?! * 8” Suficiente trabalho 
teremos com esses nossos negócios próprios, 
para que nos embaracemos com outros. Mais 
do que da morte queixam-se uns de que venha 
interromper uma bela vitória; lamentam-se ou- 
tros de não terem podido casar a filha antes ou 
educarem as crianças; um lastima deixar a 
mulher, outro o filho, entes a que mais se ape- 
gavam. Quanto a mim, graças a Deus, estou 
em estado de desaparecer quando Lhe aprou- 
ver, sem nenhuma saudade senão da própria 
vida. Estou em regra com tudo e como que já 
disse adeus a todos, salvo a mim mesmo. 
Nunca homem se apresentou mais bem prepa- 
rado para deixar a vida no momento neces- 
sário e sem a menor dissimulação. Ninguém se 
desprendeu melhor e mais completamente da 
vida do que eu. As mortes mais integrais são 
as mais desejáveis! * 8. “Oh desgraça — dizem 
uns —, um só dia nefasto basta para envene- 
nar todas as alegrias da vida! * 7.” Não termi- 


144 Sêneca. 

145 Horácio. 

146 No texto “les plus mortes morts”, isto é, as 
mortes em que tudo morre ao mesmo tempo em 
oposição às mortes: em que o indivíduo se extingue 
gradualmente, através de sucessivas perdas de facul- 
dades. (N. do T.) 

147 Lucrécio. 


52 MONTAIGNE 


narei nunca a minha obra — lamenta o arqui- 
teto —, deixarei pois imperfeitos esses 
soberbos baluartes! *º.” Nada se empreenda 
pois, em vista de tão remota conclusão, pelo 
menos não se o faça com a apaixonada inten- 
ção de chegar ao fim. Nascemos para agir: 
“quero que a morte me surpreenda em pleno 


trabalho”? 4º, 
Vamos agir portanto e proitonguemos os tra- 


balhos da existência quanto pudermos, e que a 
morte nos encontre a plantar as nossas couves, 
mas indiferentes à sua chegada e mais ainda 
ante as nossas hortas inacabadas! *º. Conheço 
alguém que, na hora extrema, lastimava inces- 
santemente lhe fosse cortar a mcrte, no décimo 
quinto ou no décimo sexto de nossos reis, o fio 
de uma história em andamento. “Não pensem 
que a morte nos rouba a saudade das coisas 
mais queridas! 81,” 

Devemos desfazer-nos dessas preocupações 
vulgares e nocivas. Se se construíram cemité- 
rios perto das igrejas e nos lugares mais 
frequentados da cidade, foi, diz Licurgo, para 
acostumar a plebe, as mulheres e as crianças a 
não se assustarem à vista de um morto e a fim 
de que o continuo espetáculo de ossadas, tú- 
mulos, pompas funerárias, advirta todos do 
que os espera: “Era outrora costume alegrar os 
festins com' execuções e com combates de 
gladiadores; estes caiam amiúde entre as taças 


e inundavam de sangue as mesas do banque- 
te! 52» 


Os egípcios em seus festins faziam apresen- 
tar aos convivas uma imagem da morte, que 
lhes gritava: “bebe, goza, pois serás assim de- 
pois de morto”. Também se tornou em mim 
um hábito não somente ter sempre presente a 
idéia da morte como também falar dela 
constantemente. E nada me interessa mais do 
que indagar da morte das pessoas: que disse- 
ram, que atitude assumiram? Nas histórias que 
leio, os trechos referentes à morte são os que 
mais me prendem a atenção. Vê-se isso pela 
escolha dos meus exemplos e pela afeição par- 
ticular que revelo pelo assunto. Se fosse escri- 
tor, anotaria as mortes que mais me impressio- 
naram e as comentaria, pois quem ensinasse os 
homens a morrer os ensinaria a viver. Dicear- 
cus escreveu um livro com êsse título, porém 
diferente e menos útil em seu objetivo. 

Dirão que em sua realidade a morte ultra- 
passa a nossa concepção; por mais que nos 
preparemos para enfrentá-la, quando ela che- 
gar estaremos no mesmo ponto. Deixai-os 


148 Virgílio. 

149 Ovídio. 

15º Imparfait — não feito, não terminado. 
151 Lucrécio. 

152 Silius Itálico. 


falar. Sem dúvida uma tal preparação com- 
porta grandes vantagens, pois será pouco 
caminhar ao seu encontro sem apreensões? Há 
mais: a própria natureza nos ajuda na ocor- 
rência e nos dá a coragem que poderia faltar- 
nos. Se nossa morte é súbita e violenta, não 
emos tempo de receá-la; se não, na medida em 
que a enfermidade nos domina, diminui natu- 
ralmente o nosso apego à vida. Custa-me 
muito mais aceitar a idéia de morrer quando 
gozo saúde do aus quando estou com febre. 
Quando não me sinto bem, as alegrias da vida 
me parecem menos valiosas, tanto mais quanto 
não estou em condições de usufruí-las,a morte 
se me afigura menos temível. Disso concluo 
que quanto mais me desprender da vida e me 
aproximar da morte, tanto mais facilmente me 
conformarei com a passagem de uma para 
outra. Como diz César, e como o verifiquei em 
mais de uma circunstância, as coisas produ- 
zem maiores efeitos de longe que de perto. 
Assim é que me atormentam mais as doenças 
se estou bem de saúde do que se as enfrento. A 
alegria, o prazer e a força induzem-me a uma 
ampliação desproporcional do estado contrá- 
rio e os incômodos da enfermidade eu os con- 
cebo mais pesados do- que os sinto realmente 
quando adoeço. E espero que o mesmo se dê 
quanto à morte. 

As flutuações a que se sujeita a nossa saúde, 
o enfraquecimento gradual que sofremos, são 
meios que a natureza emprega para dissimu- 
lar-nos a aproximação de nosso fim e de nossa 
decrepitude. Que resta a um ancião do vigor de 
sua juventude e do seu passado? “Ah, como 
sobra pouco aos velhos! 83.” César, a quem 
um soldado, alquebrado e decrépito, viera 
pedir em plena rua autorização para se matar, 
respondeu rindo: “Pensas então que ainda 
estás vivo?” 

Creio que não seríamos capazes de suportar 
uma tai mudança se a ela chegássemos repenti- 
namente. Mas em nos conduzindo pela mão, 
devagar, quase insensivelmente, a natureza nos 
familiariza com essa miserável condição. De 
tal modo que a mocidade se extingue em nós - 
sem que lhe percebamos o fim, em verdade 
mais penoso do que o de nosso ser inteiro ao 
ter de deixar uma vida de achaques quando 
morremos de velhice. O salto que nos cabe dar 
para passar de uma existência miserável ao fim 
dela não é tão sensível quanto o que separa 
uma vida tranquila e florescente de uma vida 


“difícil e dolorosa. O corpo curvado tem menos 


força para carregar um fardo; o mesmo ocorre 
com a alma, que é preciso fortalecer e pôr em 
condição de resistir à opressão causada pelo 


153 Pseudo Galo. 


ENSAIOS — 53 


medo da morte. Como é impossível que encon- 
tre a calma sob o peso desse temor, se o pudes- 
se dominar inteiramente — o que está acima 
das forças humanas — estaria a alma assegu- 
rada contra a inquietação, a ansiedade, o medo 
e tudo o que nos aflige: “nem o rosto cruel de 
um tirano, nem a tempestade furibunda que 
revolve o Adriáticô, nada lhe pode abalar o 
ânimo; nada, nem Júpiter lançando seus 
raios”! 84. A alma tornar-se-ia então senhora 
de suas paixões e de seus mais ardentes dese- 
jos; nada a atingiria, nem a indigência, nem a 
vergonha, nenhuma adversidade. Esforcemo- 
nos pois por conseguir essa vantagem. Nisso 
consiste a verdadeira e soberana liberdade, a 
que nos permite desafiar à violência e a injusti- 
ça, desprezar a prisão e os ferros escraviza- 
dores: “Sobrecarregar-te-ei os pés e as mãos de 
cadeias, e entregar-te-ei ao mais cruel dos 
carcereiros. — Um Deus me libertará quando 
eu o quiser — esse Deus, penso eu, é a morte, 
a morte, termo de todas as coisas! 8 8” 

Nossa religião não teve alicerce humano 
mais sólido que o do desprezo à vida. E não é 
somente a voz da razão que a isso nos conduz, 
pois por que temeríiamos perder uma coisa que, 
uma vez perdida, já não podemos lamentar? E 
como a morte nos ameaça sem cessar sob vá- 
rios aspectos, não será mais desagradável 
ficarmos a receá-los todos, de antemão, do que 
nos resignarmos uma vez por todas, diante 
dela? Por que se préocupar com sua vinda, se é 
inevitável? Dizia alguém a Sócrates: “os trinta 
tiranos condenaram-te à morte”. Ao que o filó- 
sofo respondeu: “Eles já o foram pela nature- 

* Que tolice nos afligirmos no momento em 


que nos vamos ver livres de nossos males !- 


Nossa vinda ao mundo foi para nós a vinda de 
todas as coisas; nossa morte será a morte de 
tudo. Lastimar não mais viver dentro de cem 
anos é tão absurdo quanto lamentar não ter 
nascido um século antes. A morte é origem de 
outra vida. Nascemos entre lágrimas e muito 
nos custou entrar na vida atual; passando para 
uma nova vida despojamo-nos do que fomos 
na precedente. Não pode ser grave uma coisa 
que acontece uma só vez; será razoável recear 
com tanta antecedência acidente de tão curta 
duração? Em relação à morte, viver pouco ou 
muito é a mesma coisa, pois nada é longo ou 
curto quando deixa de existir. Diz Aristóteles 
que há no rio Hipanis insetos que vivem 
somente um dia: os que morrem as oito da 
manhã morrem jovens e os que morrem às 
cinco da tarde morrem de decrepitude. Quem 
não acharia divertido que tão insignificante 


154 Horácio. 
155 Td. 


diferença em existências tão efêmeras bastasse 
para tachá-ias de felizes? Semelhante aprecia- 
ção acerca da duração da vida humana não é 
menos ridícula se a comparamos com a eterni- 
dade, ou sirhplesmente com a duração das 
montanhas, dos rios, das estrelas, das árvores e 


até de certos animais. | 
A natureza nos ensina: sais deste mundo 


como nele entrastes. Passastes da morte à vida 
sem que fosse por efeito de vossa vontade e 
sem temores; tratai de vos conduzirdes de 
igual maneira ao passardes da vida à morte; 
vossa morte entra na própria organização do 
universo: é um fato que tem seu lugar assina- 


lado no decurso dos séculos: “Os mortais se 
emprestam mutuamente a vida... é a tocha 


que se transmite de mão em mão nas corridas 
sagradas! 88?” Mudarei para vós esse belo 
entrosamento das coisas? Morrer é a própria 
condição de vossa criação; a morte é parte 
integrante de vós mesmos. A existência de que 
gozais participa da vida e da morte a um 
tempo; desde o dia de vosso nascimento cami- 
nhais concomitantemente na vida e para a 
morte: “a primeira hora de vossa vida é uma 
hora a menos que tereis para viver”!8?7 — 
“nascer é começar a morrer; o último instante 
de vida é consegiiência do primeiro”! 58, O 
tempo que viveis, vós o roubais à vida e a res- 
tringis proporcionalmente. Vossa vida tem 
como efeito conduzir-vos à morte. E enquanto 
viveis estais constantemente sob a ameaça de 
morte, e mortos, já não viveis mais; ou, se 
assim preferis, a morte sucede à vida, logo 
durante a vida estais moribundos; e a morte 
atinge muito mais duramente e essencialmente 
o moribundo do que o morto. Se soubestes 
usar a vida e gozá-la quanto pudestes, ide-vos 
e vos declareis satisfeitos: “por que não sair do 
banquete da vida como um' conviva sacia- 


. do?! 89?” Se não a soubestes usar, se ela vos foi 


inútil, que vos importa perdê-la? E se ela conti- 
nuasse em que a empregaríeis? “Para que pro: 
longar dias de que não se saberá tirar melhor 
proveito do que no passado? º” A vida em si 


não é um bem nem um mal. Torna-se bem ou 
mal segundo o que dela fazeis. É se vivestes 


'um dia já vistes tudo, pois um dia é igual a 


todos Qs outros. Uma é a luz, uma é a noite. 
Esse sol, essa lua, essas estrelas, em sua dispo- 
sição, são os mesmos que apreciaram vossos 
antepassados e que conhecerão vossos descen- 


dentes. “Vossos sobrinhos não verão nada 
mais do que viram seus pais! 8!” E em última 


156 TLucrécio. 
157 Sêneca. 

15º Manílio. 
159 Tucrécio. 
160 Td. 

161 Manílio. 


54 MONTAIGNE 


análise pode-se dizer que a totalidade dos atos 
diversos que comporta a comédia a que vos 
convidei cumpre-se no decurso de um ano, 
cujas quatro estações, se o observastes, abar- 
cam a infância, a adolescência, a idade virile a 
velhice do mundo. Essa marcha é constante; 
não a modifico nunca e sem cessar ela se repe- 
te, e assim será eternamente: “Giramos sempre 
em torno do mesmo círculo”! 82. “o ano reto- 
ma sem descontinuar a estrada percorri- 
da”? 83. Não estã em meus projetos inovar 
para vós a ordem das coisas: “não posso nada 
imaginar, nada inventar de novo para vos 
agradar; é, e será sempre, a repetição das mes- 
mas cenas”! 8*. Dai vosso lugar a outros como 
outros vos deram o seu. A igualdade é a pri- 
meira condição da equidade. Quem se hã de 
queixar de uma medida que atinge a todos? 
Podeis prolongar vossa vida, o que quer que 
façais não diminuirá em nada o tempo que ten- 
des para serdes mortos. Por mais' comprida 
que seja, vossa vida não será nada, e esse esta- 
do que lhe sucederá — e que pareceis tanto 
temer — terá a mesma duração que se houvés- 
seis morrido no berço: “Vivei quantos séculos 
quiserdes, nem por isso será menos eterna a 
morte" 2 

Nesse estado em que vos porei não tereis 
motivo para descontentamento: “Ignorais que 
não vos sobrevirá um outro vós mesmo, O 
qual, vivo, vos possa chorar como morto e 
gemer sobre o vosso cadáver!" 88” E essa vida 
que tanto lamentais perder não mais a deseja- 
reis: “Não teremos mais com que nos inquie- 
tarmos nem com nós mesmos, nem com a 
vida... nenhuma saudade teremos da existên- 
cia! 87” “A morte é menos temível do que 
nada, se é que alguma coisa menos que nada é 
possível! 88” Morto ou vivo, vós não lhe esca- 
pais: vivo, porque sois; morto, porque não sois 
mais. Por outro lado ninguém morre antes da 
hora. O tempo que perdeis não vos pertence 
mais do que o que precedeu vosso nascimento, 
e não vos interessa: “Considerai em verdade 
que os séculos inumeráveis, já passados, são 
para vós como se não tivessem sido! 8º.” 

Qualquer que seja a duração de vossa vida, 
ela é completa. Sua utilidade não reside na 
duração e sim no emprego que lhe dais. Há 
quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre 
isso enquanto o podeis fazer, pois depende de 
vós, e não do número de anos, terdes vivido 
bastante. Imagináveis então nunca chegardes 
ao ponto para o qual vos dirigieis? Haverá 


162 T[ucrécio. 
163 Virgílio. 
164 Lucrécio. 
1655 Td. 


caminho que não tenha fim? E se o fato de ter 
companheiros vos pode consolar, pensai que o 
mundo inteiro segue caminho idêntico: “As 
raças futuras vos seguirão por sua vez! 7º” 
Tudo obedece ao mesmo impulso a que obe- 
deceis. Haverá algo que não ênvelheça como 
vós envelheceis? Milhares de homens, milhares 
de animais, milhares de outras criaturas mor- 
rem no mesmo instante em que morreis: “não 
há uma só noite, nem um só dia em que não se 
ouçam, misturados aos vagidos dos recêém-nas- 


cidos, os gritos de dor em torno dos esqui- 


feg”1 71 
Por que tentar recuar se não vos é permitido 


voltar atrás? Vistes mais de um indivíduo que 
se satisfez com morrer, fugindo assim a gran- 
des misérias; já deparastes com alguém que se 
achou prejudicado? E não será tolice condenar 


uma coisa que não conheceis nem pessoal- 
mente nem através de outro? Por que vos quei- 


xardes de mim e do destino? Nós vos estare- 
mos prejudicando? Cabe-vos governar-nos ou, 
ao conirário, dependeis de nós? Por mais 
moço que sejais, vossa vida chegou ao fim; um 
homem de pequena estatura é tão completo 
quanto outro muito grande. Nem a estatura do 
homem, nem sua existência têm medidas 


determinadas. É : 
Quiron recusou a imortalidade quando 


Saturno, seu pai, deus do tempo e da mortali- 
dade, lhe revelou as condições dela. Imaginai a 
que ponto uma vida sem fim fora menos tole- 
rável e mais penosa para o homem do que a 
que lhe foi dada. Se não tivésseis a morte, vós 
me amaldiçoaríeis sem cessar por vos haver 
privado dela. Foi propositadamente que a ela 
juntei alguma amargura, a fim de impedir que 


ante a comodidade de seu uso não a buscásseis 
com excessiva avidez. Para vos trazer a essa 


moderação que solicito de vós, de não abreviar 
a vida e não tentar esquivar a morte, temperei- 
as pelas sensações mais ou menos suaves, mais 
ou menos duras gue vos podem outorgar. Ensi- 
nei a Tales, o primeiro entre vossos sábios! 72, 
que viver e morrer são igualmente indiferentes; 
o que o impeliu a responder muito sabiamente 
a alguém que lhe perguntava por que então 
não se matava: porque é indiferente. A água, a 
terra, o fogo, tudo o que constitui meu domínio 
e contribui para vossa vida, não contribuem 
mais do que à morte. Por que temeis vosso últi- 
mo dia? Ele não vos entrega mais à morte do 
que o faz cada um dos dias anteriores. Não é o 
último passo a causa de nossa fadiga; ele ape- 
nas a determina. Todos os dias levam à morte, 
só o último a alcança. Eis os sábios conselhos 
que vos dã a natureza, nossa mãe. 


166-171 


Lucrécio. 
172 Filósofos. 


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| 


ENSAIOS— I 55 


Amiúde indaguei de mim mesmo por que,na 
guerra, a perspectiva ou a presença da morte, 
nossa ou de outrem, nos impressiona muito 
menos do que em nossos lares. Se assim não 
fosse, um exército se comporia unicamente de 
mêdicos e de choramingas. Estranho igual- 
mente que a morte em sendo a mesma para 
todos, a acolham com mais calma os campo- 
neses e o povo miúdo que os outros. Creio, em 
verdade, que são essas fisionomias de circuns- 
tâancia e esse aparato lúgubre com que a cer- 
cam, que nos impressionam mais do que ela 
própria. Quando ela se aproxima, hã uma 
modificação total em nossa vida cotidiana: 
mães, mulheres é crianças gritam e se lamen- 
tam. Inúmeras pessoas nos visitam, consterna- 


das; a gente da casa aí está, pálida e desespe- 
rada; a obscuridade reina no quarto; 
acendem-se velas; à nossa cabeceira juntam-se 
padres e médicos; tudo, em suma, em volta de 
nós se dispõe como para inspirar horror; ainda 
não rendemos o último suspiro, e já estamos 
amortalhados e enterrados. As crianças ame- 
drontam-se quando as pessoas, mesmo suas 
conhecidas, se apresentam mascaradas; pois é 
O que ocorre nesse momento. Arranquemos as 
máscaras às coisas como às pessoas e por 
baixo veremos muito simplesmente a morte. A 
mesma com a qual partiu ontem sem maior 
pavor tal ou qual criado ou aia. Feliz é a morte 
que nos surpreende sem que haja tempo para 
semelhantes preparativos! 


CAPÍTULO XXI 


A força da imaginação 


“Uma imaginação fortemente preocupada 
com um acontecimento pode provocá-lo”, 
dizem os clérigos. 

Sou desses sobre os quais a imaginação tem 


grande domínio. Todos são atingidos por ela, 


mas alguns há que ela derruba. Ela me perse- 
gue e eu me esforço por fugir na impossibi- 
lidade de lhe resistir. Viveria sempre, de bom 
grado, na companhia de pessoas sadias e de 
bom humor; a vista das angústias alheias influi 
fisicamente em mim de maneira penosa, e não 
raro sofro de sentir que alguém sofre. Diante 
de quem tosse continuamente sinto igual irrita- 
ção nos pulmões e brônquios. Sou levado a 
visitar menos os doentes pelos quais me intê- 
resso, e preciso ver, do que os outros, os que 
não considero tanto e visito ocasionalmente. 
Pego a doença que estudo e a semeio em mim. 
Não acho estranho que a imaginação dê febre 
e mesmo provoque a morte nos que não a 
controlam. 

Simon Thomas foi um grande médico em 
seu tempo. Lembro-me de que com ele me 
encontrei em Tolosa em casa de um ancião 
rico e doente do peito. Entre outros meios de 
cura, aconselhou-lhe Simon Thomas a fazer 
com que eu me agradasse em sua companhia, 
pois em contemplando o frescor de meu rosto, 
concentrando o pensamento na alegria e no 
vigor que se irradiavam de meu ser, então em 


plena adolescência, impregnando todos os seus 
sentidos dessa exuberância de saúde que havia 
em mim, poderia melhorar seu estado de saúde 
habitual. Omitia de dizer, entretanto, que o 
meu talvez se ressentisse da experiência. 


Galo Víbio dedicou-se de tal modo ao estu- 
do das causas e efeitos da loucura que perdeu a 
razão e não mais a recobrou. Podia vanglo- 
riar-se de se ter tornado louco por excesso de 
sabedoria. Em certos condenados o pavor 
adianta-se à ação do carrasco, como se viu no 
caso do condenado a quem desvendaram os 
olhos no patíbulo a fim de lhe comunicarem 
ter sido agraciado. Ao lhe tirarem a venda 
verificaram que já morrera, fulminado pela sua 
imaginação. Suamos e trememos, empalide- 
cemos e coramos sob a sua influência. Em 
leito de pluma agita-nos o corpo a ponto, por 
vezes, de nos levar à morte; e tanto inflama a 
fogosa mocidade que ocorre aos jovens satisfa- 
zerem em sonho seus desejos amorosos. 

Embora não seja raro ver-se, à noite, apare- 


.cerem cornos em quem não os tinha ao deitar- 


se, o caso de Cippus, rei da Itália, é particular- 
mente notável. Assistira durante o dia a uma 
luta de touros e se interessara tanto que a noite 
inteira sonhara lhe cresciam chifres na cabeça, 
o que pela força da imaginação aconteceu 
efetivamente. O amor deu ao filho de Creso a 
voz que a natureza lhe recusara. Antíoco con- 


56 


traiu uma febre!?? em consegiência da, 
impressão profunda que lhe causou a beleza de 
Estratonice. Plínio afirma que viu Lúcio Cos- 
sitio mudar de sexo e se tornar homem no dia 
de suas núpcias! 74. Pontano e outros relatam 
semelhantes metamorfoses ocorridas na Itália 
em séculos passados; e em virtude de violento 
desejo dele próprio e de sua mãe, Ífis: “pagou 
como homem as promessas que fizera quando 
mulher”?! 78. 

De passagem por Vitry-le-François! 7 £ foi- 
me dado ver um rapaz a quem o bispo de Sois- 
sons dera o nome de Germain na confirmação, 
e que todos os habitantes do lugar haviam tra- 
tado por Maria, como mulher, até a idade de 
vinte e dois anos. Quando o conheci era já 
velho, muito barbudo e não se casara. Expli- 
cou-me que, em consequência de esforço feito 
para saltar, ocorrera O aparecimento de seus 
órgãos viris. É ainda de uso na região canta- 
rem as moças uma canção em que se reco- 
menda não fazerem grandes exercícios para 
não lhes acontecer tornarem-se rapazes como 
Maria-Germano. Não é tão extraordinário 
assim o caso, e essa espécie de acidente se veri- 
fica não raro. Pode-se observar entretanto que 
a ação da imaginação em tais casos consiste 
em uma contínua obsessão e excitação que 
levam à mudança definitiva de sexo como 
solução mais cômoda e eficiente! 7 7. 

Há quem atribua à imaginação os estigmas 
do Rei Dagoberto e de São Francisco. Diz-se 
também que sob a sua influência pode o corpo 
humano erguer-se por vêzes do seu lugar. 
Paracelso conta que certo padre se alçava a 
um êxtase tal que durante longo tempo perma- 
necia sem respirar e sem sensibilidade. Santo 
Agostinho cita outro que simplesmente, ao 
ouvir lamentações ou gemidos, desmaiava 
imediatamente e tão fora de si ficava que não 
acordava do desmaio por mais que o sacudis- 
sem, lhe berrassem aos ouvidos, o beliscassem 
ou queimassem. Voltando a si, dizia ter perce- 
bido realmente vozes, mas longínquas, e só 


173 Febre no século XVI significa ainda, de um 
modo geral, doença. Poder-se-ia traduzir mais 
vulgarmente: ficou doente ante a beleza de Estrato- 
nice. (N. do T.) 

17º No texto: “de femme changê en homme.” — 
Plínio cita outros casos, mas nenhum no sentido 
contrário. (N. do T.) 

175 Ovídio. 

178º Em 1580 — “Diário de Viagem” de Montaig- 
ne. 

177 A explicação é extremamente confusa. Mi- 
chaut não a esclarece tampouco, antes a complica, 
fazendo intervir a natureza como agindo para esca- 
par à insistência da imaginação. Mas o que Mon- 
taigne procura provar é exatamente a força da 
imaginação. (N. do T) - 


| 
MONTAIGNE 


então enxergava suas queimaduras e chagas. E 
de que não se tratava de impostura voluntária, 
tinha-se a prova no fato da perda de pulso e de 
hálito! 78. É verossimil que seja por efeito da 
imaginação, agindo de preferência sobre as 
almas da gente do povo, inclinada à creduli- 
dade, que as visões, os milagres, os encanta- 
mentos e os fatos sobrenaturais encontram 
quem neles mais acredite. Tanto e tão bem os 
doutrinaram que chegam a pensar verem as 
coisas que em verdade não vêem. 


Creio também que essas falhas divertidas 
verificáveis na consumação do casamento e 
que constituem um obcecante entrave a preo- 
cupar a nossa sociedade, não passam no fundo 
de um efeito da apreensão e da timidez! 7º. Sei 
de fonte segura de alguém, por quem respondo 
como por mim mesmo e não pode ser suspei- 
tado de fraqueza nem de credulidade, que 
ouviu um de seus companheiros contar a des- 
ventura que o atingira no momento menos 
desejado. A narrativa veio-lhe à memória em 
idêntica circunstância e foi de tal ordem sua 
apreensão, sua imaginação se viu tão atingida 
por esse infortúnio que lhe aconteceu então — 
e de outras feitas — a mesma coisa, a má lem- 
brança perseguindo-o sem cessar. Para obviar 
a tão estranha situação, imaginou um meio 
não menos estranho: tomando a dianteira, 
antes de mais nada confessava a possibilidade 
do malogro. Assim se aliviava a contenção de 
seu espírito e dessa maneira, em se achando 
preparado para O pior, muito menos o preocu- 
pava a idéia. Entregando-se então sua compa- 
nheira, sem forçá-lo nem nada exigir dele, viu- 
se totalmente curado e liberto de sua obsessão. 
Quem uma vez praticou ato de virilidade, nada 
mais tem a temer, senão por justa causa de 
esgotamento. Semelhante acidente só é de 
recear-se, em geral, em circunstâncias em que 
nosso espírito se acha sobreexcitado por um 
desejo imoderado a que se alia o respeito, 
principalmente quando os encontros são im- 
previstos e rápidos. Não nos podemos então 
recuperar. Conheço alguém, semi-saciado aliás 
dos prazeres desse gênero, e em quem o conta- 
to da mulher bastava para lhe acalmar o ardor, 
que deve a essa impotência ter conservado ape- 
sar da idade suas funções sexuais. Conheço 
outro ao qual bastou que um amigo assegu- 
rasse possuir um talismã contra tais encanta- 
mentos para curá-lo de suas fraquezas. A coisa 
merece ser contada. 

Certo conde, de mui boa família, e muito 


178 Da respiração. 

178 Atribuía-se a impotência à feitiçaria. Mon- 
taigne a explica de acordo com a psicologia moder- 
na. (N. do T.) 


ENSAIOS — I 57 


meu amigo, desposou uma bela mulher que 
fora objeto das assiduidades de alguém: que 
assistia ao casamento. Isso inquietou bastante 
seus amigos e em particular uma velha senho- 
ra, sua parenta, que presidia às núpcias em sua 
própria casa. Ela acreditava nesses enfeitiça- 
mentos e me comunicou seu temor de que o 
indivíduo usasse de tais meios contra o noivo. 
Respondi-lhe que tinha possibilidade de evitar 
o malefício e pedi-lhe que confiasse em mim. 
Possuía por acaso, no cofre, uma pequena 
moeda de ouro muito delgada, com que me 
presenteara Jacques Pellotier quando morava 
comigo. Nessa moeda havia gravados alguns 
signos do zodíaco com o fim de constituir uma 
defesa contra a insolação e curar as dores de 


cabeça. Devia ser ela colocada na sutura do 


crânio e mantida com a ajuda de uma fita que 
se amarrava ao queixo. Tolice igual às prece- 
dentes! Pensei em tirar partido e disse ao 
conde que, embora ameaçado como os outros, 
e com inimigo capaz de tudo tentar, eu lhe 
podia ajudar. Que fosse dormir sem medo, pois 
eu estava em condições de prestar-lhe um ser- 
viço de amigo e até de realizar um milagre por 
ele, contanto que se comprometesse a guardar 
fielmente o segredo. Devia apenas, à noite, 
quando lhe trouxessem c réveillon! 8º, comuni- 
car-me por um sinal combinado que as coisas 
iam mal. Tivera ele o espírito tão chocado e os 
ouvidos tão cheios, que se prendera realmente 
às perturbações de sua imaginação e fez o 
sinal na hora indicada. Disse-lhe então em voz 
baixa que se levantasse como para sair, se 
apoderasse, como por brincadeira, de meu 
chambre (tinhamos mais ou menos a mesma 
estatura), o vestisse e conservasse até haver 
executado o resto de minha receita, a saber: 


quando tivéssemos saído, se retirasse também: 


para uma necessidade, pronunciasse três vezes 
tais ou quais palavras €e fizesse os movimentos 
ordenados, devendo cada vez cingir a fita que 
eu lhe dera, aplicando cuidadosamente sôbre 
os rins a moeda a ela pregada. E amarrando-a 
da última vez de maneira a não se desprender 
nem mexer, voltasse tranquilamente ao leito 
sem esquecer de estender o chambre de modo a 
cobrilos os dois. Essas macaquices consti- 
tufam o ponto essencial da coisa, pois tão 
estranhos meios não podem senão proceder, 
em nosso pensamento, de uma ciência dificil 
de penetrar. E por sua insanidade mesma 
adquirem importância e consideração. Em 
suma, é certo que na circunstância em questão 
meu talismã atuou mais a favor de Vênus que 
do Sol. Cedi nessa ccasião a um impulso joco- 


189 Prato muito condimentado que serviam aos 


recêém-casados. 


7 | 


so e de curiosidade que não me é peculiar; sou, 
ao contrário, inimigo dessas tolices sutis e fin- 
gidas. É um gênero que não me apetece, embo- 
ra o tenha empregado então, de modo recrea- 
tivo por certo mas também proveitoso. Mas se 
o fato em si não é condenável, a atitude o é. 

Amásis, rei do Egito, desposara Laódice, 
uma bela moça grega. E, ele que sempre fora 
excelente companheiro, viu-se impossibilitado 
de tê-la. Atribuindo o fato a uma qualquer 
mandinga dela, ameaçou-a de morte. Como 
ocorre com tudo o que se relaciona com a 
imaginação, ela insistiu para que recorresse à 
devoção a fim de fazer cessar tal estado de coi- 
sas. E tendo prometido mundos e fundos à 
deusa, achou-se ele divinamente curado já na 
primeira noite após suas preces e seus sacrifi- 
cios. Isso mostra quanto erram as mulheres 
que nos acolhem com atitudes afetadas, bu- 
lhentas ou hostis, pois assim agindo nos ini- 
bem ao mesmo tempo que nos atiçam. À nora 
de Pitágoras dizia que a mulher que dorme 
com um homem deve, ao tirar a saia, despir-se 
do pudor, e somente o reencontrar ao vestir-se. 
O homem que em suas aventuras sofreu algu- 
mas dessas desilusões perde facilmente a con- 
fiança em si. Quem foi vítima uma vez de sua 
imaginação e passou por essa vergonha (a qual 
se verifica quase sempre no início de uma liga- 
ção, porque o desejo é mais vivo e ardente e 
porque, desejoso de impressionar favoravel- 
mente, teme o malogro), em tendo mal come- 
çado ressente-se do despeito que experimentou 
e corre o risco de ver repetir-se a desventura 
dai por diante. 

Os casados, que não carecem de tempo, não 
se devem apressar nem mesmo tentar entrar 
em relações, se para tanto não se acham intei- 
ramente preparados. É preferível, no estado de 
excitação e febre em que vivem então, adiar a 
inauguração do leito nupcial, por desagradável 
que seja, e aguardar uma ocasião propícia, a 
correr o risco de um malogro desesperante. 
Antes da posse, quem tenha motivos para 
duvidar de si, deve de quando em quando fazer 
algumas experiências, provocar, sem insistir, 
até alcançar maior segurança. Quanto aos que 
sabem ter órgãos obedientes, evitem simples- 
mente de ceder demasiado à fantasia. Com 
razão observam quanto esse órgão é indepen- 
dente, excitando-se muitas vezes inoportuna- 
mente e falhando de outras feitas; colocando- 
se em oposição direta à nossa vontade, 
recusando-se peremptoriamente a atender as 
nossas solicitações mentais ou fisicas. Se 
entretanto tomassem como pretexto essa inde- 
pendência para condená-lo e me cumprisse 
defendê-lo, eu insinuaria caber parte da res- 
ponsabilidade aos outros órgãos seus compa- 


58 MONTAIGNE 


nheiros, os quais invejando sua importância e 
sua agradável destinação devem ter conspi- 
rado, sublevando. todo mundo contra ele, 
imputando-lhe maldosamente uma culpa de 
que tampouco não estão isentos. Pois, pergun- 
to, haverá uma só parte de nosso corpo que 
não se recuse às vezes a fazer o que deve ou 
não aja contra a nossa vontade? Cada: uma 
dessas partes obedece a impulsos próprios, que 
as acordam ou adormecem sem intervenção 
nossa. Quantas vezes os movimentos involun- 
tários do nosso rosto revelam pensamentos que 
desejariamos conservar secretos! A causa da 
independência desse órgão pode de igual modo 
atuar sobre o coração, os pulmões, o pulso. À 
vista de um objeto agradável acende impercep- 
tivelmente em nós a chama de uma emoção 
febril. Mas serão somente esses músculos e 
essas veias que se retesam e se distendem 
independentemente de nossa vontade e até de 
nosso pensamento? Não mandamos nossos 
cabelos se eriçarem, nossa pele arrepiar de de- 
sejo ou medo. Nossas mãos têm às vezes movi- 
mentos inconscientes; a língua paralisa-se e a 
voz se extingue em certos momentos. Quando 
não temos nada para comer e a isso não gosta- 
riamos de ser incitados, o apetite exige que 
comamos e bebamos, tal qual o outro apetite, e 
se acalma ou se irrita quando bem entende. 

E não têm, os órgãos pelos quais se alívia O 
ventre, movimentos de retração e dilatação 
como os que concorrem para o funcionamento 
das parte genitais? Para demonstrar o poder de 
nossa vontade, alude Santo Agostinho a 
alguém que produzia, a seu bel-prazer, evacua- 
ções sonoras de gases intestinais. João Luís 
Vives, comentador de Santo Agostinho, acres- 
centa o exemplo de um indivíduo de seu tempo 
que a tal possibilidade juntava a de dar a esses 
ruidos o tom que pediam. Estes exemplos, 
entretanto, não constituem prova irrefutável de 
obediência absoluta dessa parte do corpo em 
geral assaz indiscreta e indisciplinada. Conhe- 
ço uma pessoa em quem essa parte do corpo é 
tão turbulenta e pouco tratável que há qua- 
renta anos vem ela sendo atormentada por não 
poder conter-se. Sua evacuação é por assim 
dizer continua, sem acalmias, e assim parece 
dever continuar até a morte. E praza a Deus 
que somente em histórias tenha conhecimento 
dessa recusa do ventre em se aliviar, capaz de 
levar-nos a uma morte dolorosa. E oxalá nos 
tivesse Ele permitido, como fez o imperador 
que autorizou seus convivas a darem livre 
expansão à natureza!8!. Com muito mais 
razão deveriamos censurar nossa própria von- 


181 A história é contada. por Suetônio, o qual a 
atribui a Cláudio. 


tade, cuja autoridade reivindicamos pelo seu 
espírito de rebelião, e seus desregramentos e 
desobediência. Quer ela sempre o que deseja- 
ramos que quisesse? Não quer ela muitas 
vezes e em prejuízo nosso o que lhe proibimos 
querer? Deixa-se ela sempre conduzir pelas 
conclusões de nossa razão? 

Finalmente na defesa que faço desse órgão, 
direi: quanto ao que lhe censuram, a causa está 
inseparavelmente ligada à de outro órgão seu 
associado, e no entanto só o meu cliente é 
incriminado, porque há contra ele argumentos 
e fatos que não se podem invocar contra o seu 
cúmplice, ao qual apenas se há de culpar de 
provocações por vezes importunas. Jamais de 
falhar. Ademais essas provocações são discre- 
tas e trangúilas. 

Como quer que seja, por mais que discutam 
e sentenciem, advogados e juízes, não deixará 
a natureza de seguir seu caminho. Se dotou 
esse órgão de algum privilégio especial, teve 
razão para fazê-lo, pois é o único a perpetuar a 
imortalidade dos mortais, obra divina, na opi- 
nião de Sócrates; e é ele próprio amor, desejo 
de imortalidade e demônio imortal. 

Graças à imaginação, tal indivíduo escrofu- 
loso deixa em França suas escrófulas, en- 
quanto seu companheiro com elas volta para a 
Espanha!'º2. Eis por que em tais assuntos 
tem-se por hábito preparar o espírito da pes- 
soa. Por que os médicos, antes de operar, pro- 
curam convencer o doente da excelência de 
uma terapêutica em que eles próprios não acre- 
ditam, se não é para que a imaginação supra a 
ineficiência prevista do remédio? Não esque- 
cem o que disse um de seus mestres, a saber, 
que certos doentes saram à simples vista dos 
apetrechos operatórios. Vejo confirmado esse 
defeito da imaginação no fato que me contou 
um empregado de farmácia de meu falecido 
pai, rapaz simples e originário da Suiça, país 
de gente séria e pouco inclinada à mentira. 
Durante muitos anos servira um negociante de 
Tolosa, homem doentio, sofrendo da bexiga, 
razão pela qual tomava frequentes cristéis com | 
receitas que pedia aos médicos quando sentia 
agravar-se a enfermidade. Traziam a lavagem 
com o. cerimonial de praxe; ele verificava se 
não era demasiado quente e deitava-se de lado. 
Operavam então como normalmente mas sem 
procederem à injeção do líquido. Retirava-se o 
farmacêutico e o paciente, acomodado como 
se o cristel tivesse sido realmente ministrado, 
sentia o mesmo efeito que se experimenta em 
semelhante caso. 

Minha testemunha jurou-me que a fim de 


182 Os escrofulosos iam à França para que os 
tocasse o rei — o que devia curá-los. 


ENSAIOS —I 59 


reduzir a despesa (pois o cliente pagava como 
se houvesse recebido a lavagem) a mulher do 
doente inventara valer-se de água morna 
unicamente, mas sempre o resultado denun- 
ciava a trapaça e era preciso tornar ao pri- 
meiro método. d 

Uma mulher, pensando ter engolido um alfi- 
nete com o pão, gritava e se atormentava como 
se sentisse uma dor insuportável na garganta 
onde imaginava se houvesse ele espetado. 
Como não havia nem inchaço nem qualquer 
outro sinal externo, uma pessoa sensata julgou 
se tratasse de um efeito da imaginação por se 
ter a mulher provavelmente arranhado com a 
casca do pão. Forçou-a a vomitar e, no que 
devolveu, jogou às escondidas um alfinete 
retorcido. Imaginando a vítima fosse o alfinete 
engolido, passou-lhe de imediato a dor. 

Sei de um fidalgo que se vangloriou por 
brincadeira, três ou quatro dias após haver ofe- 
recido um alegre jantar, de ter dado gato em 
vez de lebre a seus convivas. Uma moça que 
estivera presente ficou tão horrorizada que 
veio a ter febre, e um tão grande desarranjo 
estomacal que não foi possível salvá-la. Tudo 
isso pode ser atribuído a uma intima ligação 
do espírito e do corpo trocando suas impres- 
sões. Outra coisa se observa quando nossa 
imaginação atua não somente sobre nós mes- 
mos mas também sobre os outros. Assim como 
a doença de meu corpo se transmite a outro 
corpo, o que ocorre nos casos de peste, varíola 
ou infecções da vista, “olhando olhos doentes 
ficam doentes os sãos; muitas doenças desse 
modo se comunicam de um corpo a outro” 83, 
assim também a imaginação fortemente exci- 
tada pode produzir emanações que atuem 
sobre outros seres. À antiguidade oferece-nos o 
exemplo das mulheres da Cítia que, indignadas 
e irritadas contra alguém, o matavam unica- 
mente com a força de seu olhar. As tartarugas 
e os avestruzes chocam seus ovos fixando-os 
simplesmente, o que nos induz a supor pos- 
suam seus olhos, em certo grau, a faculdade de 
emitir e propulsionar algum fluido! º *. Quanto 
aos feiticeiros, dizem-nos providos de olhos 
insultantes e nocivos! 8. — “Não sei que 
olhos fascinam nossas tenras ovelhas! 8 8.” 
Mas eu não acredito no poder dos que se 
dizem mágicos. Como quer que seja, observa- 
se o fato de mulheres grávidas imprimirem aos 
filhos que trazem no ventre a marca de suas 
fantasias. Assim se viu na criança engendrada 


183 Ovídio. 
184 “ne vertu circulatrice.”” — Adotou-se a inter- 
pretação de Michaut. (N. do T.) 


185 Mau-olhado. 
186 Virgílio. 


pelo Mouro"87?. E a Carlos, rei da Boêmia e 
imperador, foi apresentada uma menina das 
cercanias de Pisa, peluda e hirsuta, cuja mãe 
atribuía o fato a uma imagem de São João 
Batista pendurada junto a seu leito. Idênticos 
fenômenos se verificam entre os animais 
(como as ovelhas de Jacó, as perdizes e as 
lebres) que nas montanhas a neve torna bran- 
cos. Viu-se há tempos em minha casa um gato 
à espreita de um pássaro empoleirado no alto 
de uma árvore; olharam-se fixamente com 
intensidade durante alguns momentos e em 
seguida o pássaro deixou-se cair, como se 
tivesse morrido, entre as patas do gato, o que 
se explica ou pela força do olhar deste ou por 
um efeito da própria imaginação do pássaro. 
Os que se ocupam de caça com falcões 
conhecem a história de um falcoeiro, o qual 
apostava que pela simples força de seú olhar 
era capaz de fazer com que descesse a ele a ave 
de rapina; e o conseguia ao que dizem, mas 


não o garanto, pois deixo a responsabilidade 
desses casos a quem os conta. As reflexões são 


minhas; apóiam-se na razão e não na experiên- 
cia. Cada qual acrescente aos meus os exem- 
plos que conheça e quem não os tenha para 
juntar não imagine Sejam estes os únicos, pois 
numerosos e variados são Os fatos que se veri- 
ficam. E se não os escolho bem, que outro os 


selecione. No estudo que faço de nossos costu- 
mes e paixões, os testemunhos fantasistas, 


desde que possíveis, valem como verdadeiros. 
Ocorridos ou não, em Roma ou em Paris, com 
João ou Pedro, mostram-nos sempre um 
aspecto que pode assumir a natureza humana e 
isso basta para que os utilize nestes comentá- 


- rios. Imaginários ou reais, tomo conhecimento 


deles e deles tiro proveito, e, entre os diversos 
ensinamentos de uma mesma história, escolho 
para meu uso o mais notável e preciso. Há 
autores que procuram principalmente tornar 
conhecidos os fatos; eu, se pudesse, visaria 
antes a deduzir deles as consequências que 
porventura comportem. Permita-se nas escolas 
que se admitam analogias ainda que não exis- 
tam. Não vou tão longe e sou mais escrupu- 
loso a esse respeito do que se fizesse história. 
Nos exemplos que aqui reproduzo, tirados do 
que li, ouvi, fiz, ou disse, evito alterar ou omi- 
tir os mais ínfimos e inúteis pormenores. 
Conscientemente não mudo uma virgula; por 
ignorância não sei. A propósito, ponho-me a 
pensar às vezes como um teólogo, um filósofo e 
outros, gente de muita consciência e gráfide 
prudência, podem escrever história. Como 


podem controlar fatos que assentam apenas na 


crença popular, responder pelo pensamento de 
personagens que não conhecem e aceitar como 


187 Ludovico, o Mouro. 


60 


dinheiro de contado suas conjeturas, quando 
hesitariam em testemunhar sob juramento 
diante da justiça a realidade de atos de que 
participaram vários indivíduos ainda que se 
verificassem na sua presença? E que não se 
arriscariam a responsabilizar-se de maneira 
absoluta por nenhuma pessoa de sua intimi- 
dade? Considero aliás menos perigoso escre- 
ver sobre coisas do passado que historiar as do 
presente, pois no primeiro caso não faz o escri- 
tor senão relatar acontecimentos pela autenti- 
cidade dos quais outros respondem. Muitos me 
incitam a escrever acerca de nossa época, 
considerando que a observo com menos pai- 
xão do que outros e a conheço por tê-la visto 
de perto e ter-me aproximado dos chefes dos 
diversos partidos. Mas ignoram que nem pela 
glória de Salústio eu o faria, inimigo declarado 
que sou de tudo o que é obrigação e exige assi- 
duidade e constância. Nada é mais contrário a 
meu estilo do que uma narração seguida e 
longa; tenho o fôlego curto e a redação difi- 
cilt88. Não sei estabelecer um plano de 


188 Textualmente: “Je me recoupe si souvent, à 
faute d'haleine” — Interrompo-me amiúde, por 
falta de fôlego. (N. do T.) 


composição, nem o desenvolver. E ignoro mais 
do que uma criança as expressões e os vocâbu- 
los relativos às coisas do comum. No entanto, 


pus-me a escrever O que sei dizer, adaptando o 
meu assunto às minhas forças. Se tomasse 
alguém por modelo e guia, poderia acontecer 
que não tivesse a possibilidade de acompa- 
nhá-lo. Ademais, livre como o sou natural- 
mente, teria emitido, acerca das coisas e das 
gentes, juízos que, na minha própria opinião e 
provavelmente com toda a razão, seriam injus- 
tificáveis e condenáveis! 8º. 


Plutarco poderia dizer-nos que se os fatos 
por ele narrados em suas obras são todos intei- 
ramente verdadeiros, cabe o mérito a quem 
lhos forneceu; mas se são úteis à posterio- 
ridade e se apresentam de maneira a pôr em 
evidência a virtude, a si próprio os deve. Pouco 
importa seja um fato antigo contado deste ou 


daquele modo; há nisso menor perigo do que 
em uma receita errada. 


188 Segundo [Fhibaudet: “pelos quais teriam com 
razão o direito de me punir”. (N. do T.) 


CarpíruLOo XXII 


De como o que beneficia um prejudica outro 


Dêmade, de Atenas, condenou um homem 
de sua cidade que comerciava com coisas 
necessárias aos enterros, acusando-o de tirar 
disso lucro excessivo, somente auferível da 
morte de muitas pessoas. Tal julgamento não 
me parece muito equitativo, pois não há bene- 
fício proprio que não resulte de algum prejuízo 
alheio e, de acordo com aquele ponto de vista, 
qualquer ganho fora condenável. 

O mercador só faz bons negócios porque a 
mocidade ama o prazer; o lavrador lucra 
quando o trigo é caro; o arquiteto quando a 
casa cai em ruínas; os oficiais de justiça com 
os processos e disputas dos homens; os pró- 
prios ministros da religião tiram honra € pro- 
veito de nossa morte e das fraquezas de que 
nos devemos redimir; nenhum médico, como 
diz o cômico grego'ºº da antiguidade, se ale- 


190 Filêmon. 


gra em ver seus próprios amigos com saúde; 
nem o soldado seu país em paz com os povos 
vizinhos. Assim tudo. E, o que é pior, quem se 
analise a si mesmo, verá no fundo do coração 
que a maioria de seus desejos só nascem e se 
alimentam em detrimento de outrem. Em se 
meditando a propósito, percebe-se que a natu- 
reza não foge, nisso, a seu princípio essencial, 
pois admitem os físicos!'º! que toda coisa 
nasce, se desenvolve e cresce em conseqgiiência 
da alteração e corrupção de outra: “Logo que 
uma coisa qualquer muda de marieira de ser, 


disso resulta imediatamente a morte do que ela 
era antes”! 92, 


131 Em ambos os sentidos, o arcaico, de médico 


(biologista),e o atual, de físico. Por extensão: sábio, 
filósofo, naturalista. (N. do T.) 
182 Lucrécio. 


ENSAIOS —I 61 


CAPÍTULO XXIII 


Dos costumes e da inconveniência de mudar sem maiores cuidados 
as leis em vigor 


Parece-me haver muito bem compreendido a 
força do costume quem primeiro inventou essa 
história de uma mulher que, tendo-se habi- 
tuado a acariciar e carregar nos braços um 
bezerro, desde o nascimento, e o fazendo 
diariamente, chegou pela força do hábito a 
carregá-lo ainda quando já se tinha tornado 
um boi. Porque o costume é efetivamente um 
pérfido e tirânico professor. Pouco a pouco, às 
escondidas, 
princípio terno e humilde, implanta-se com o 
decorrer do tempo, e se afirma, mostrando-nos 
de repente uma expressão imperativa para a 
qual não ousamos sequer erguer os olhos. 
Vemo-lo violentar a natureza, em seus aciden- 
tes como em suas leis: “É o uso o guia mais se- 
guro em todas as coisas”?!93. A esse respeito 
apóio a idéia do antro que Platão imaginou na 
sua República, bem como os médicos que 
amiúde lhe subordinam as razões de sua tera- 
pêutica. Foi pelo hábito que Mitridates conse- 
guiu acostumar seu estômago ao veneno; e que 
a rapariga a que alude. Albert chegara a 
alimentar-se de aranhas. 

Nesse mundo. das Novas Índias há povos 
importantes e em climas variados que .as 


comem, e as criam para tanto, como o fazem 
com os 'gafanhotos, as formigas, os lagartos, os 


morcegos, Os quais são cozidos e servidos de 
diversas maneiras: Um sapo, em época de 
penúria, aí se vende por seis escudos. Para al- 
guns desses povos nossos alimentos seriam 


venenosos: “Grande é a força do hábito. Os: 


caçadores passam a noite na neve; na monta- 
nha queimam-se ao sol. Os pugilistas feridos 
pelo cesto nem sequer gemem ?"º 4. 

Estes exemplos do estrangeiro não nos pare- 
cerão tão estranhos assim Se considerarmos a 
que ponto o hábito atrofia nossos sentidos. 
Não é preciso citar o que se diz da gente que 
vive junto às cataratas do Nilo; nem a teoria 
dos filósofos sobre a música celeste, que em 
suas revoluções produzem os astros, corpos 
sólidos e polidos cujo roçar mútuo deve certa- 
mente ocasionar maravilhosa harmonia aos 


193 Plínio. 
194 Cícero. 


ganha autoridade sobre nós; a: 


acentos da qual se lhes modificam os contor- 
nos e as órbitas. Essa música ninguém a ouve 
na terra em virtude de sua continuidade que 
faz que a ela se acostume o nosso ouvido e não 
a perceba como não percebem os egípcios o 
ruído das cataratas. Basta observarmos os fer- 


“reiros, os moageiros, os fabricantes de armas 


que não suportariam o barulho que fazem 
continuamente se o percebessem como o.perce- . 
bemos. Minha gola de flores"? 5 acaricia-me o 
olfato quando principio a usá-la, mas ao fim 
de dois a três dias somente os que se aproxi- 
mam de mim lhe sentem o bom perfume. E o 
mais espantoso é que apesar de interrupções e 


longos intervalos o hábito possa manter vivo o 


efeito das impressões que provocou. em nossos 
sentidos. É o que ocorre com quem reside 
perto dos campanários. Eu moro em uma torre 
onde pela manhã €e à noite um grande sino 
dobra a Ave-Maria. O ruído abala a própria 
torre e nos primeiros dias me pareceu insupor- 
tável; entretanto dentro em pouco me habituer 
e o ouço agora sem que me incomode, e até me 
acontece não acordar ao som do sino. 


Platão repreendeu uma criança que jogava 
nozes!ºº, ao que ela respondeu: “Você me . 
repreende por bem pouca coisa.” — “O hábi- 
to, retorquiu Platão, não é coisa de nonada.” 
Acredito que nossos maiores vícios se implan- 
tam em nós já na mais tenra infância e que a 
parte principal de nossa educação se acha nas 
mãos de nossa ama. Há mães para as quais é 
uma distração ver os filhos torcerem o pescoço 
dos frangos, ou se divertirem com martirizar 


gatos e cães; e pais bastante tolos para desco- 


brirem no fato de os filhos baterem ou injuria- 
rem um camponês ou um lacaio o sinal precur- 
sor de um temperamento marcial; ou 
predisposições para a sutileza na peça mali- 
ciosa ou a perfidia pregada com habilidade de 
um camarada. Trata-se no entanto do ponto de 
partida e do indício certo da crueldade, da tira- 


195 TYsavam-se então coletes e golas de peles perfu- - 
madas com perfumes de flores. 

198 Jogo dos romanos, correspondendo ao atual 
Jogo de bolinhas de vidro ou “gude”. (N. do T.) 


62 MONTAIGNE 


nia e da traição. Tais vícios se encontram em 
germe na infância, desenvolvendo-se gradati- 


vamente e tanto mais quanto se tornam hábi-. 


tos. E muito perigoso desculpar essas feias 
tendências, argumentando com a tenra idade 
ou o alcance diminuto do ato. Primeiramente 
porque é a natureza quem fala e que sua voz é 
então mais pura e ingênua, em sendo mais 
nova. Em segundo lugar, porque a má ação 
não o é menos ou mais segundo se trate de 
escudos ou alfinetes; a má ação é má em si 
mesma. Acho mais judicioso dizer: por que 
não me ludibriaria alguém em negócios de 
dinheiro se o faz em coisas de alfinetes? — do 
que: roubou-me um alfinete, não roubaria um 
escudo. 


É preciso ensinar cuidadosamente as crian- 
ças a odiar os vícios para os quais mostram 
inclinação; é preciso realçar a seus olhos a 
fealdade natural do ato, não somente a fim de 
que não o pratiquem mas também que os abor- 
reçam do fundo do coração; em suma, para 
que a simples idéia lhes cause horror, qualquer 
que seja a sua feição. 


Bem sei que fui educado na infância a andar 
sempre pela estrada larga e a recusar-me a 
introduzir em meus folguedos intrigas e malí- 
cias, pois os jogos infantis devem julgar-se não 
apenas como divertimentos mas ainda como 
ações de importância. Sinto-me sempre e 
espontaneamente impelido a hostilizar a trapa- 
ça por mais insignificante que seja o passa- 
tempo a que me dedique. Em jogando cartas, a 
dinheiro de cobre ou de ouro, ganhe ou perca, 
jogue com estranhos ou com minha mulher e 
filhas, minha maneira de jogar é a mesma. Em 


tudo e em todo lugar meus próprios olhos bas- 
tam para me controlar, para me pór de sobrea- 
viso em relação a mim mesmo. Ninguém me 
vigia tão bem nem mais temo eu do que 
escandalizar.. 


Acabo de ver em casa um homem de peque- 
na estatura, de Nantes, que veio ao mundo sem 
braços. E tão bem exercitou os pés a fazer o 
que os outros fazem com as mãos, que em ver- 
dade quase esqueceram suas funções normais. 
Aliás a eles denomina-os mãos e os utiliza 
para destrinçar, carregar uma pistola, atirar, 
enfiar o chapéu, pentear-se, jogar cartas ou 
dados que mistura e deita com excepcional 
deteridade. O dinheiro que lhe dei (pois ganha 
a vida em se exibindo), pegou-o com o pé 
como nós com a mão. Vi outro, em minha 
meninice, que por não ter mãos manejava o 
espadão ou a alabarda com uma dobra ou 
vinco do pescoço; e os jogava alto e os pegava; 
e lançava uma adaga e fazia estalar o chicote 
como qualquer carroceiro de França. 


Mas dos efeitos do hábito julgamos melhor 
pelas estranhas impressões *que produzem em 
nossos espíritos, menos resistentes do que o 
corpo. Tudo pode sobre nossos juízos e cren-. 
ças. Deixemos de lado a questão religiosa, a 
que misturam tantas imposturas de que se 
imbuíram tantas grandes nações e tantos e tan- 
tos homens capazes, questão tão alheia à nossa 
pobre razão humana, que somos desculpáveis, 
a menos que sejamos esclarecidos por mercê 
de Deus, se nela nos perdemos. Haverá em 
qualquer outro assunto opinião, por mais 
estranha, que o hábito!º 7 não tenha introdu- 
zido e feito sancionar pelas leis sempre que o 
julgou necessário? E como é justa esta excla- 
mação de certo autor latino: “Que vergonha 
para um físico, que deve investigar sem desfa- 
lecimento os segredos da natureza, apelar para 
o costume a fim de provar a verdade !”198 

Não se depara com nenhuma fantasia da 
imaginação humana, embora desprovida de 
sentido, sem que não se encontrem exemplos 
em algum costume e que, em consequência de 
se haver tornado público!ºº, nossa razão não 
admita e explique. Há povos entre os quais é 
de rigor voltar as costas a quem saúdam e não: 
olhar nunca quem desejam honrar. Entre 
outros, quando o rei cospe, a mais cotada 
dama da corte estende a mão; entre outros 
ainda, os dignitários se curvam e com um 
lenço colhem no chão a sujeira. A propósito, 
uma história: certo fidalgo francês, famoso 
pelo seu espírito, assoava com os dedos o 
nariz, coisa contrária aos nossos usos. Defen- 
dendo sua maneira de se conduzir, perguntou- 
me por que motivo tão sujo excremento mere- 
cia que tomássemos de um lenço delicado para 
recebê-lo. E o que é pior, para com isso fazer 
um embrulho e guardá-lo preciosamente. Era 
por certo mais repugnante esse hábito do que 
se desembaraçar de qualquer maneira como 
procedemos com as demais sujidades. Achei 
que sua observação não pecava inteiramente 
por absurda. O hábito impedira-me até então 
de perceber o estranho da coisa, a qual nos 
repugnaria profundamente se no-la apresen- 


* tassem como sendo praticada em outro país. 


Os milagres decorrem de nossa ignorância 
da natureza e não cabem nesta, mas o hábito 
retira-nos a possibilidade de um juízo sadio. 
Não são os bárbaros motivo de maior estra- 
nheza para nós do que nós para eles; é o que 


187 Fora melhor costume. Montaigne emprega 


indiferentemente costume, hábito, uso, etc. 
(N. do T.) 
188 Cicero. 
198 Público, do povo, de todos, coletivo. 
(N. do T.) 


ENSAIOS— II 63 


compreenderíamos, após ter refletido sobre os 
exemplos que nos apresentam o passado e os 
países longínquos, se nos puséssemos a medi- 
tar sobre os de nosso próprio meio e compa- 
rássemos com objetividade?ºº. A razão huma- 
na é um amálgama confuso em que todas as 
opiniões e todos os costumes, qualquer que 
seja a sua natureza, encontram igualmente 
lugar. Infinita em suas matérias, infinita na 
variedade de formas que assume?º!. Volto 
agora ao meu assunto. 


Há povos entre os quais, à exceção de sua 
mulher e de seus filhos, ninguém fala ao rei 
sem intermediários. Em certa nação, as virgens 
exibem as partes do corpo que o pudor reco- 
menda se sonegarem à vista, enquanto as 
mulheres casadas as cobrem e escondem 
cuidadosamente. Alhures, existe o costume 
(não sem relação com o precedente) de só se 
considerar obrigatória a castidade para a mu- 
lher casada. As solteiras podem entregar-se à 
vontade e quando emprenham porventura 
podem provocar o aborto, mediante drogas 
- especiais e sem recorrer ao segredo. Em outros 
lugares, quando um negociante se casa todos 
os negociantes convidados à cerimônia dor- 
mem com a recém-casada, antes mesmo do 
marido; e quanto maior o número, maiores 
honras e consideração se lhe demonstram por 
sua coragem e resistência. O mesmo ocorre 
quando um oficial se casa, ou um nobre e 
outros. Entretanto, se se trata de camponês ou 


alguém do povo miúdo, cabe ao senhor o direi-' 


to de dormir 'com a casada. E em o fazendo 
exortam-na todos a ser fiel ao marido. Em cer- 
tos países encontram-se casas de tolerância 
nas quais os homens substituem as mulheres e 
aí ocorrem casamentos. Há lugares onde as 
mulheres vão à guerra com os maridos e não 
somente tomam parte nos combates mas tam- 
bém participam do comando. Outros onde não 
se usam apenas anéis no nariz, nos lábios, nas 
bochechas e nos artelhos, mas ainda varetas de 
ouro, por vezes bem pesadas, enfiadas nos 
seios ou nas nádegas; e outros onde limpam os 
dedos nas coxas, nos testículos, na planta dos 
pés. E existem países onde os filhos não her- 
dam, e sim os sobrinhos*e irmãos; alhures a 
herança cabe aos sobrinhos somente, salvo 
quando se trata da sucessão do principe. 


200 No texto “sainement”, sadiamente, sem pre- 
conceitos. (N. do T.) 
201 No texto: “Infinie en matiêre, infinie en diversi- 
té”, o que não parece muito claro quanto ao signifi- 
cado de “matiere”. Adotou-se a interpretação de 
- Michaut, muito embora se possa traduzir, talvez 
"mais fielmente ao espirito de Montaigne, por 
“Infinita em seu objeto, infinita em sua diversida- 
de”. (N. do T.) 


Vemos que em outros países os bens perten- 
cem à comunidade e têm os magistrados sobe- 
ranos o encargo de cultivar as terras e repartir 
os frutos segundo as necessidades de cada um. 
E em certas regiões, choram a morte das crian- 
ças e festejam a dos velhos; noutras dormem 
no mesmo leito dez a doze homens com suas 
mulheres; noutras as mulheres que perdem 
seus maridos de morte violenta não podem 
casar novamente; noutras apreciam tão pouco 
a condição da mulher que matam as crianças 
de sexo feminino ao nascerem e compram dos: 
vizinhos as mulheres de que precisam; noutras 
os maridos podem repudiar suas mulheres sem 
necessidade de alegar o que quer que seja, mas 
o mesmo não é permitido às mulheres; noutras 
podem os homens vender suas esposas se são 
estéreis; noutras cozinham o corpo do defunto 
e moem-no até que vire uma papa € então 
bebem-no com o vinho; noutras a sepultura 
mais desejável é ser comido pelos cães; alhures 
pelas aves; noutras regiões acreditam que as 
almas felizes vivem em liberdade em lugares 
deliciosos gozando tudo o que é agradável, e o 
eco que às vezes ouvimos é a sua voz; noutras 
combatem dentro d'água e flecham com segu- 
rança nadando; noutras, como sinal de satisfa- 
ção, erguem os ombros e baixam a cabeça; e 
descalçam os Sapatos ao entrarem na resi- 
dência real; noutras entregam aos eunucos a 
guarda das mulheres votadas à vida religiosa, 
e, para não serem por elas amados, lhes muti- 
lam nariz e lábios; e entre estes mesmos povos 
vazam os olhos aos sacerdotes, a fim de que 
mais facilmente.se aproximem dos demônios e 
lhes ouçam os oráculos; noutros países cada 
qual tem o deus que lhe agrada: tem-no o caça- 
dor no leão ou na raposa, e o pescador no 
peixe; e ídolos para cada uma das paixões 
humanas. Sol, Lua e Terra constituem suas 
principais divindades e o juramento consiste 


em tocar o solo fixando o Sol. E a carne e o 
peixe entre eles se comem crus. Noutros fazem 


as mais solenes promessas jurando pelo nome 
de alguma pessoa falecida e venerada sobre 
cujo túmulo pousam a mão; noutros, anual- 
mente, como presentede ano novo, manda o rei 
a seus vassalos um fogo aceso, o qual substitui 
o que haja na casa e deve ser apagado; e ao 
novo braseiro vêm os súditos desses principes 


buscar seu próprio fogo sob pena de se torna- 
rem culpados de lesa-majestade; noutros O rei 


abdica para consagrar-se às práticas religio- 
sas, e, o que acontece muitas vezes, seu suces- 
sor. imediato é igualmente obrigado a abdicar 
passando o poder a quem vem em terceiro 
lugar; noutros mudam de forma de governo? º2 


202 No texto “police” que Montaigne mais de uma 
vez usa no sentido de governo. (N. do T.) 


64 MONTAIGNE 


tão frequentemente quanto o requerem os 
negócios públicos, depondo o-rei se lhes parece 
conveniente e confiando o poder aos anciãos 
ou à comunidade; noutros homens e mulheres 
são circuncisos e todos batizados; noutros 
enobrecem o soldado que apresenta a seu sobe- 
rano as cabeças de sete inimigos por ele mor- 
tos em um ou mais combates; noutros, coisa 
rara e pouco de acordo com os princípios 
sociais, não admitem a imortalidade da alma; 
noutros as mulheres parem sem apreensões 
nem lamentações; noutros elas usam perneiras 
de cobre e, se são mordidas por um piolho, 
devem mordê-lo também; e não ousariam 
casar antes de oferecer sua virgindade ao rei; 
noutros a saudação consiste em tocar o solo 
com o dedo, erguendo-o para o céu a seguir; 
noutros os homens que transportam fardos 
carregam-nos à cabeça; e as mulheres aos 
ombros, e estas mijam de pé enquanto aqueles 
o fazem de cócoras; noutros como sinal de 
amizade, enviam seu sangue às pessoas queri- 
das; e incensam como aos deuses os homens 
que querem honrar; noutros não permitem o 
casamento entre parentes, não somente até o 
quarto grau, mas de qualquer grau; noutros 
amamentam os filhos até a idade de quatro 
anos e mesmo doze; e no: entanto consideram 
perigoso para a vida da criança dar-lhe de 
mamar antes de um dia inteiro depois do 
nascimento; noutros cabe aos pais castigar os 
indivíduos do sexo masculino e às mães, ao 
abrigo de qualquer indiscrição, as pessoas de 
seu sexo; e punem os condenados, penduran- 
do-os pelos pés e os defumando; noutros 
circuncisam as mulheres; noutros utilizam 
todas as ervas na alimentação, salvo as que 
têm mau cheiro; noutros nada se fecha e as 
casas por mais belas que sejam não têm portas 
nem janelas; não têm cofres com fechadura e 
os ladrões são punidos muito mais severa- 
mente do que alhures; noutros matam os pio- 
lhos com os dentes como os macacos e acham 
repugnante esmagá-los com as unhas; noutros 
durante a vida inteira não cortam barba nem 
cabelos, nem unhas; há nações onde só cortam 
as unhas da mão direita, conservando intatas, 
por garridice, as da esquerda; e há onde dei- 
xam crescer à vontade barba e cabelos do lado 
direito, raspando-os do outro lado. Em regiões 
vizinhas, numa é atrás que raspam a cabeça, 
noutra na frente; noutras os pais alugam seus 
filhos aos hóspedes para que deles gozem; e os 
maridos emprestam Suas mulheres; noutros 
não é crime ter filhos da própria mãe, como 
não o é se unirem os homens a suas filhas e 
filhos; noutros durante os festins abusam das 
crianças e as passam de mãos em mãos sem se 


preocuparem com o parentesco. Há países 
onde comem carne humana. Em tal outro é 
dever piedoso matar o pai que atingiu uma 
certa idade; alhures decide o pai sobre a sorte 
dos filhos quando ainda se amamentam, desig- 
nando os que quer conservar e educar e os que 
destina ao abandono e à morte. Em algumas 
regiões os maridos velhos emprestam suas 
mulheres aos jovens, em outras elas são co- 
muns a todos, e isso sem pecado; e ocorre em: 
outras ainda adornarem elas seus vestidos com 
borlas de lã ou seda assinalando o número de 
homens que as possuíram. E não terá o costu- 
me constituído aquele estado composto unica- 
mente de mulheres que sabem manejar as 
armas e dar combate? E aquilo que toda-a filo- 
sofia não consegue incutir na cabeça dos mais 
sábios, não o ensina o hábito à gente das clas- 
ses mais baixas? Pois sabemos que existiram 
povos que não somente desdenhavam a morte 
mas ainda lhe festejavam a chegada; entre ou- 
tros as crianças suportavam sem sinal de dor 
serem flageladas até a morte; alhures a riqueza 
era a tal ponto desprezada que o mais miserá- 
vel habitante da cidade não se houvera digna- 
do baixar-se para recolher uma bolsa cheia de 
escudos. Conhecemos países mui férteis e tudo 
produzindo, onde, entretanto, os alimentos 
mais apreciados são o pão, O agrião e a água. 
E não se explica também pelos costumes esse 
milagre da ilha de Quio, onde, em setecentos 
anos, nenhuma mulher ou moça se viu ultra- 
jada em sua honra? 

Em suma, a meu ver, não hã o que o costu- 
me não faça ou não possa fazer; e com razão 
afirma Píndaro, ao que me disseram, ser o há- 
bito o rei e imperador do mundo. Alguém, que 
encontraram a espancar O pai, respondeu ser 
esse o costume de sua casa; que seu pai espan- 
cara assim o avô e êste o bisavô, e, mostrando 
o filho: e este há de espancar-me quando . 
alcançar minha idade, 

E o pai, que o filho empurrava aos trancos 
pela rua, intimou-o a cessar os maus tratos ao 
chegarem a certo ponto, pois ele próprio so 
maltratara seu pai até ali, e ali se situava o li- 
mite dos injuriosos tratamentos hereditários 
que os filhos se haviam acostumado a miris- 
trar aos pais em sua família. É por hábito, diz 
Aristóteles, tanto quanto por doença, que cer- 
tas mulheres se depilam, roem as unhas, 
comem carvão e terra; e também pelo mesmo 
motivo juntam-se os machos .aos machos. As 
leis da natureza nascem do costume, pois 
todos veneram interiormente as opiniões e os 
usos aprovados e aceitos pela sua sociedade; a 
eles não desobedecem sem remorso, e em os 
adotando recebem aplausos. Quando na anti- 


ENSAIOS—I 65 


guidade queriam os cretenses amaldiçoar al- 
guém, suplicavam aos deuses que o fizesse 
contrair algum mau hábito. 

O principal efeito da força do hábito reside 
em que se apodera de nós a tal ponto que já 
quase não está em nós recuperarmo-nos e 
refletirmos sobre os atos a que nos impele. Em 
verdade, como ingerimos com o primeiro leite 
hábitos e costumes, e o mundo nos aparece sob 
certo aspecto quando o percebemos pela pri- 
meira vez, parece-nos não termos nascido 
senão com a condição de nos submetermos 
também aos costumes; e imaginamos que as 
idéias aceitas em torno de nós, e infundidas em 
nós por nossos pais, são absolutas e ditadas 
pela natureza. Daí pensarmos que o que estã 
fora dos costumes está igualmente fora da 
razão, e Deus sabe como as mais das vezes 
erramos. Se, como nós que estudamos, apren- 
demos a fazê-lo, todos, ao ouvirem judiciosa 
observação, aplicassem o ensinamento no que 
lhes diz respeito, veriam, incontinenti, que não 


constitui simples frase bonita, mas é uma ver-. 
dadeira chicotada na tolice habitual de nossó :- 


julgamento. Mas recebemos as advertências da 
verdade como se se endereçassem aos outros e 
não a nós mesmos, e, em vez de aproveitá-las a 
fim de melhorar os nossos costumes, nós nos 
contentamos, muito tola e inutilmente, em a 
catalogar na memória. Voltemos porém ao 
imperativo dos costumes. 

Os povos, afeitos à liberdade e a se governa- 
rem por si mesmos, encaram qualquer outra 
forma de governo como monstruosa e contrá- 
ria à natureza. Os que estão acostumados à 
monarquia o mesmo pensam de seu sistema. 
Estes últimos, quaisquer que sejam as oportu- 
nidades que se lhes oferecem de mudar, e ainda 
que tenham tido grandes dificuldades de se 
desembaraçarem de um. chefe indesejável, 
“apressam-se em buscar outro, com o qual terão 
dificuldades idênticas, porque são incapazes de 
odiar a dominação de um senhor. E em conse- 
quência do hábito que nos mostramos satis- 
feitos com o país onde nascemos, e os selva- 
gens da Escócia desprezam a Touraine como 
os citas a Tessália. 

Perguntando Dario aos gregos se desejavam 
adotar o costume indiano de comer o cadáver 
do próprio pai (pois estimavam não haver 
sepultura mais honrosa do que o seu corpo), 
ouviu deles que por nada no mundo o fariam; 
mas tentando persuadir os hindus de abarido- 
narem seu ritual e seguirem o da Grécia, que 
era de queimar o corpo dos progenitores, mais 
horror causou ainda. Assim agimos todos, 
tanto mais quanto o costume nos esconde a 
verdade essencial das coisas: “Não há nada 


tão grande nem tão agradável à primeira vista 
que aos poucos não nos cause menos admira- 
ção”2º3 Tendo precisado outrora justificar al- 
guns de nossos costumes, aceitos como certos 
entre nós e nas regiões circunvizinhas, e não 
desejando invocar apenas a força das leis e dos 


«exemplos, fui às origens deles e lhes descobri 


fundamentos tão fracos, que mal me contive 
para não me desgostar nem ter de os refutar 
em lugar de convencer os outros de sua valia. 
Resta o meio a que recorria Platão a fim de 
fazer cessarem os amores contra a natureza, 
que. se praticavam em seu tempo: conseguir 
que a opinião pública os condenasse, incitando 
os poetas a combatê-los, e estigmatizá-los em 
suas narrativas. Desse modo esperava evitar 
que uma rapariga, por mais bela que fosse, ins- 
pirasse amor a seu pai, e que as irmãs não 
aspirassem às carícias dos irmãos, ainda que 
de admirável beleza. Valia-se das lendas de 
Tiestes, Edipo, Macaréus, as quais cantadas às 
crianças ao mesmo tempo as divertiam e gra- 
vavam em seu espírito úteis lições de moral. 
Sem dúvida o pudor é uma bela virtude e nin- 
guém lhe contesta a utilidade; é entretanto 
mais difícil valorizá-la de acordo com a natu- 
reza do que a justificando pelo costume, as leis 
e os preceitos. As causas primeiras que levam 
a se adotarem tais ou quais maneiras de ser, 
com dificuldade se descobrem, por minuciosas 
que sejam as pesquisas; e quem a estas se dedi- 
ca, mal se réfere a elas não ousando sequer 
elucidá-las. Volta-se antes de tudo para o cos- 
tume, estendendo-se longamente a respeito e 
assim triunfa sem percalços. Os que não que- 
rem obviar a tais pesquisas erram mais ainda € 
chegam a conclusões extravagantes. Testemu- 
nha-o Crisipo, o qual em mais de um trecho de 
seus escritos demonstra a nenhuma impor- 
tância que empresta a quaisquer uniões inces- 


tuosas. 


Quem desejar desfazer-se da influência exa- 
gerada de certos costumes, verá que indubita- 
velmente alguns. de muita autoridade são 
suscetíveis de abandono e assentam apenas na 
sua antiguidade decrépita; mas arrancando- 
lhes a máscara hirsuta e enrugada, e os exami- 
nando do ponto de vista da razão e da verdade, 
o que descobrir o espantará a ponto de indagar 
de si mesmo se está na plena posse de seu 
bom-senso, o qual nunca lhe terá entretanto 
falhado menos. Eu lhe perguntarei então se 
pode haver algo mais extraordinário do que 
um povo submetido a leis de que jamais ouviu 
falar; adstrito, nas questões relativas a seus 
negócios privados, casamentos, doações, testa- 


203 Tucrécio. 


66 MONTAIGNE 


mentos, compras e vendas, a regras que não 
conhece; que nunca foram publicadas em sua 
língua e cuja tradução e interpretação só pode 
obter por alto preço, e não nas condições que 
engenhosamente propunha Isócrates (o qual 
aconselhava aos reis que isentassem de taxas o 
comércio e as atividades de seus súditos de 
maneira a serem assaz remuneradores, tornan- 
do-lhes ao contrário muito onerosos os proces- 
sos de demandas), mas nas condições incríveis 
que nos regem, em que tudo se vende, mesmo 
os conselhos, e em que o recurso à lei é merca- 
dejado. Rendo graças ao destino do fato de, 
segundo os historiadores, ter sido um fidalgo 
gascão quem primeiro protestou quando Car- 
los Magno quis estender à Gália as leis do 
Império Romano. 

Haverá algo mais contrário às condições 
naturais da sociedade do que ver uma nação 
onde é costume — e sancionado por lei — ser 
venal a profissão de juiz, e serem as sentenças 
pagas à vista em boa moeda; onde é legal que 
quem não possa pagar não possa tampouco 
apelar para a justiça e que esta mercadoria es- 
teja tão valorizada que as pessoas encarre- 
gadas- de instruir e juigar os processos consti- 
tuam dentro do Estado uma quarta ordem se 
acrescentando às três outras já existentes: o 
clero, a nobreza e o povo? Cabendo a essa 
quarta ordem a aplicação e a feitura das leis e 


autoridade soberana sobre nossos bens e nos- 
sas vidas, e formando ela uma classe distinta 


da nobreza, ocorre a existência de uma dupla 
legislação, compreendendo por um lado as leis 
que regem as questões de honra e por outro as 
relativas à administração da justiça, as quais 
em certos casos se opõem umas às outras. 
Condenam as primeiras tão severamente quem 
experimenta um desmentido público quanto 
punem as segundas aquele que por isso castiga 
o autor. Pela lei militar é degradado de honra e 
nobreza quem recebe um insulto e pela lei civil 
quem deste se vinga incorre em pena de morte. 
(Desonra-se quem recorre à lei para a conde- 
nação de uma ofensa à sua honra; e quem a ela 
não recorre para castigar é punido pela lei.) 
Que pensar dessas duas partes de um só todo e 
no entanto tão diferentes? A uns incumbe zelar 
pela paz, a outros pela guerra; uns têm o lucro 
como prêmio, outros a honra; aqueles a ciên- 
cia, a estes a virtude; aqueles a palavra. a estes 
a ação; âqueles a justiça, a estes a intrepidez; 
àqueles a razão, a estes a força; e usam uns a 
toga e outros o uniforme??º 4. 


204 No texto: “ceux-lã la robe longue, ceux-cy la 
ccurte en partage” — o que não teria sentido em 
linguagem atual dado que não corresponde às dife- 
renças de indumentária de clérigos e militares. (N. 
do T.) 


Quanto às coisas indiferentes, como as 
vestimentas, a quem as quisesse adaptar ao seu 
objetivo verdadeiro, que é serem cômodas e 
úteis e bem adequadas ao corpo, o que lhes dá 
graça e atende às conveniências, eu assinalaria 
como atingindo, a meu ver, O limite do grotes- 
co, os nossos bonés quadrados e essa longa 
cauda de veludo pregueado e de enfeites varie- 
gados que pende da cabeça de nossas mulhe- 
res; e também os nossos calções que, tola e 
inutilmente, nos amoldam um membro de que 
mal podemos falar honestamente e que assim 
acabamos como que exibindo em público. 

- Essas considerações não devem entretanto 
desviar um homem sensato do estilo comum; 
parece-me ao contrário que toda originalidade 
e extravagância provêm mais da loucura e afe- 
tação ambiciosa que da verdadeira razão. O 
sábio precisa concentrar-se e deixar a seu espí- 
rito toda liberdade e faculdade de julgar as coi- 
sas com serenidade, mas quanto ao aspecto 


exterior delas cabe-lhe conformar-se sem dis- 
crepância com as maneiras geralmente aceitas. 


A opinião pública nada tem a ver com o nosso 
pensamento, mas O resto, nossas ações, nosso 


trabalho, nossas fortunas, e nossa própria 
vida, cumpre-nos colocá-lo a serviço da coleti- 
vidade e submetê-lo à sua aprovação. Por isso, 


o bom e grande Sócrates recusou salvar a vida 
pela fuga, pois seria desobedecer ao magis- 


trado que o condenava, embora fosse este 
possivelmente injusto e iníquo. Observar as 
leis. do país em que nos encontramos é a pri- 
meira das regras, é uma lei que prima sobre as 
demais: “é belo obedecer às leis de seu 
país”29 5, 5 

Encaremos a questão de outro ponto de 
vista. É duvidoso que a vantagem que pode 
haver em modificar uma lei por todos acatada, 
seja incontestavelmente maior do que o mal 
resultante da mudança; tanto mais quanto os 
usos e costumes de um povo são como um edi- 
fício constituído de peças diversas de tal 
maneira juntadas que é impossível abalar uma 
sem que o abalo se comunique ao conjunto. O 
legislador dos Thuriens ordenara que quem 
quisesse propor a abolição de uma lei existen- 
te, ou a adoção de uma nova, se apresentasse 
diante do povo, corda ao pescoço, a fim de 
que, em não sendo aprovada a inovação, fosse 
imediatamente enforcado. O de Lacedemônia 
sacrificou a vida para obter de seus concida- 
dãos a promessa de não modificarem nenhuma 
de suas ordenações. O éforo que cortou brutal- 
mente as duas cordas acrescentadas por Frinis 
à citara, não se deu ao trabalho de indagar se o 


- instrumento éra melhor ou não, se seus acor- 


des eram mais perfeitos; 


205 Grotius. 


bastou-lhe; para 


ENSAIOS —I 67 


condená-las que constituíssem uma modifica- 
ção ao que desde muito existia. A mesma 
significação tinha a espada enferrujada que, 
em Marselha, representava a justiça. 

A novidade, qualquer forma que assuma, 
me aborrece profundamente e creio ter razão, 
pois vi os seus efeitos altamente desastrosos. 
Essa que nos atormenta há tantos anos?º 8, 
não produziu ainda todas as suas conse- 
quências e no entanto podemos dizer que dire- 
ta ou indiretamente tudo atingiu e foi a causa 
primeira de muitas desgraças; os dramas e ruí- 
nas que se acumulam desde o seu apareci- 
mento são sua obra ou contra ela se engendra- 
ram; a ela, somente a ela se deve culpar: “Ah, 
de mim vem todo o mal que experimento” 2º ?, 
Os que subvertem um Estado são em geral as 
primeiras vítimas da subversão; raramente se 
aproveita da perturbação quem ergue o estan- 
darte da rebeldia; ele simplesmente agita e 
turva a água para outros pescadores. A Refor- 
ma abalou e desmantelou as velhas instituições 


de nossa monarquia. Com ela, esse grande edi-: 


fício perdeu o equilíbrio e vem rachando na 
velhice e dando acesso, através das fendas, a 
todas as calamidades. A majestade real oferece 
no início, diz um autor antigo, maior resis- 
tência do que depois de abalada. Sua queda se 
acelera então. Se o mal é principalmente impu- 
tável aos inventores?º8 do movimento, mais 
criminosos ainda são seus imitadores?ºº que 
se entregam aos mesmos excessos cujo horror 
presenciaram e de cuja repressão participaram. 
Se o mal como a honra se gradua, têm os 
huguenotes sobre os outros da liga a primazia 
da invenção e de terem tido a coragem de en- 
trar na liça antes dos outros. Os fautores de 
perturbações desejosos de introduzir a desor- 
dem no Estado podem facilmente escolher seus 
modelos nuns como noutros; oferecem-lhos, 
ambos, de toda espécie. As nossas próprias 
leis, feitas para remediar o mal inicial, forne- 
cem meios e desculpas a todos os maus 
empreendimentos. Acontece-nos hoje o que diz 
Tucídides das guerras civis de sua época; 
empregam eufemismos para qualificar as pio- 
res paixões políticas, para apresentá-las de um 
ângulo favorável, desculpar-lhes os atos, alte- 
rar e atenuar as idéias que teriam despertado 
se usassem seus verdadeiros nomes. E tudo 
isso a pretexto de reformar nossas consciên- 


cias e nossas crenças: “o pretexto é hones- 
to”210, 


206 A Reiorma. 
207 Ovídio. 

208 Os huguenotes. 
208 A Liga. 

219 Terêncio. 


Entretanto, por melhor que seja, o pretexto 
da novidade ê muito perigoso: “e por isso 
nunca deveriamos aprovar qualquer modifica- 
ção nos costumes antigos”211. E direi franca- 
mente que me parece sinal de excessivo amor- 
próprio e grande presunção valorizar alguém 
sua opinião a ponto de tentar, a fim de vê-la 
triunfante, subverter a paz pública em seu pró- 


prio país, facilitando o advento dos males 


inevitáveis inerentes à guerra civil, sem falar 
na horrível corrupção da moral e nas mutações 
políticas que podem ocorrer. Não será mal cal- 
cular ir ao encontro de tantas desgraças certas 
e esperadas para combater erros contestáveis e 
discutíveis? Haverá vício pior do que esse que 
choca a própria consciência e o conhecimento 
natural?212 O Senado romano, em oposição 
ao povo quanto ao exercício da religião, ob- 
viou à dificuldade respondendo que “isso inte- 
ressava mais aos deuses do que a eles mesmos, 
e que os deuses saberiam como impedir qual- 
quer profanação”2?'3. Resposta análoga à do 
oráculo de Delfos no momento das guerras pú- 
nicas. Temendo a invasão dos persas pergun- 
taram ao deus se deviam esconder os tesouros 
do templo ou carregá-los. E lhes foi respon- 
dido que deixassem tudo como estava e pen- 
sassem neles mesmos, pois era capaz de prover 
sozinho suas necessidades próprias. 


A religião cristã é concebida dentro de um 
espírito eminentemente justo e utilitário: nada 
recomenda mais, e, de maneira expressa, quan- 
to a inteira obediência dos magistrados e 
conservação do governo. Que maravilhoso 
exemplo nos deu a sabedoria divina quando, 
para assegurar a salvação do gênero humano e 
essa sua gloriosa vitória contra a morte e o 
pecado, quis que isso somente ocorresse dentro 
da ordem política estabelecida! E submeteu 
seu progresso e a realização de um objetivo tão 
elevado e salutar à cegueira e à injustiça de 
nossas instituições e nossos costumes! E admi- 
tiu que corresse o sangue de seus eleitos e pas- 
sassem longos anos até que amadurecesse o 
inestimável fruto! 

Haverá muito que dizer se se quiser compa- 
rar aquele que respeita as leis e a torma de 
governo de seu país com quem empreende 
sujeitá-las à sua opinião e modificá-las. Tem 
por ele, o primeiro, ser a sua linha de conduta 
simples, de obediência e acatamento ao exem- 
plo. Pode fazer o que fizer não agirá por mal-: 


241 Tito Lívio. 

212 Texto confuso que Michaut interpreta dema- 
siado livremente como: “esse que vai de encontro à 
nossa própria consciência e a uma ordem de coisas 
estabelecida e aceita”. (N. do T.) 

213 Tito Lívio. 


68 MONTAIGNE 


dade e o pior que lhe pode acontecer é sua infe- 
licidade pessoal: “quem não se comove ante 
uma antiguidade atestada e conservada através 
de tantos brilhantes testemunhos?”2!4 Além 
do que diz Isócrates que as falhas participam 
mais da moderação que do excesso. Quanto ao 
segundo, sua Situação é bem mais dificil. Pois 
quem se mete a escolher e modificar usurpa a 


autoridade do juiz e precisa demonstrar:o erro. 


do que elimina e o bem do que introduz. Essa 
vulgar consideração me reteve, e freou minha 
própria mocidade temerária. E me impediu 
carregar aos ombros tão pesado fardo como o 
de defender uma ciência dessa importância e 
ousar para com ela o que em verdade não 
ousaria nem mesmo em relação à mais fácil 
das que me ensinaram, e acerca das quais a 
temeridade de um julgamento teria menos 
alcance. Considero com efeito soberanamente 
iníquo querer subordinar as instituições e os 
costumes públicos, que são fixos, às opiniões 
variáveis de cada um de nós (a razão privada 
tem jurisdição privada) 'e empreender contra as 
leis divinas o que nenhum governo toleraria 
contra as leis civis. 

Embora a razão humana tenha sobre estas 
últimas maior ação, não deixam elas de reger 
- aqueles mesmos que as pretendem julgar; e 
nossa inteligência, por grande que seja, não 
serve senão para explicà-las e inová-las. Se por 
vezes a providência divina ignora essas regras 
a que nos obriga, não o faz para nos eximir de 
obedecê-las.. São efeitos da vontade divina que 
devemos admirar sem procurar imitar. E os 
exemplos extraordinários que nos outorga de 
seu poder, assinalados pelas marcas especi- 
ficas e manifestas do milagre, estão de tal 
modo acima do que podemos fazer e ordenar 
que é loucura e impiedade tentar reproduzi-los. 
Não os devemos experimentar, e sim contem- 
plá-los com espanto; são atos de sua alçada e 
não da nossa, e Cotta fala com sabedoria 
quando diz: “em matéria de religião ouço T. 
Coruncanus, P. Scipion, P. Scevola, soberanos 
pontífices e não Zenão, Cleante ou Crisi- 

Q”21 5. 

No que diz respeito à grande querela que 
nos divide atualmente, em que há cem artigos 
a suprimir ou a introduzir e todos de primeira 
importância, só Deus sabe quantas pessoas 
podem vangloriar-se de terem estudado - as 
razões essenciais, a favor ou contra, de cada 
partido. O número de indivíduos escrupulosos 
é limitado, se é que existem; e não foram eles 
feitos para nos perturbar. Mas fora deles, toda 
essa multidão para onde vai? de que lado se 


214 Cícero. 
215 Cícero. 


alinha? A Reforma produz o efeito de todo 
remédio pouco eficiente e mal ministrado: os 
humores de que procura livrar-nos, ele os exci- 
ta e os amargura; e eles continuam em nós. 
Não nos pôde purgar na sua fraqueza, e nos 
enfraquecem entretanto; e de sua ação tiramos 
apenas infinitas dores internas. 


Como quer que seja, a sorte, em fazendo 
com que falhe por vezes o nosso julgamento, 
põe-nos não raro diante de necessidades tão 
absolutas que cumpre às leis ponderâ-las; e 
recusar-se a admitir uma inovação que acaba 
por se impor pela violência é obrigação dolo- 


rosa para quem deseja, em tudo e por tudo, 


manter-se fiel ao dever e obediente à regra. Ela 
o coloca em situação desvantajosa em relação 
a quem se outorga toda liberdade de ação e 
considera permitido tudo o «que pode servir 
seus intentos, não conhecendo obstáculos ao 
que imagina útil a seu ponto de vista: “confiar 
no pérfido é instigá-lo ao mal”21! 8, Tanto mais 
quanto as leis ordinárias de um governo nor- 
mal não prevêem esses acidentes extraordi- 
nários. Feitas para um corpo cujos membros 
principais executam seus deveres, elas supõem 
que todos, de comum acordo, estão dispostos a 
respeitá-los; seu funcionamento natural apli- 
ca-se a uma ordem de coisas calma, serena, em 
que todos se acatam; nada podem elas lá onde 
reimam a licença e a violência. 


Censuram ainda agora a esses grandes 
personagens de Roma, Otávio e Catão, terem, 
durante as guerras civis suscitadas por Sila e 
César, exposto sua pátria às últimas extremi- 
dades, de preferência a socorrê-la em detri- 
mento das leis, nada fazendo para mudá-las. 
Nesses casos de absoluta necessidade, em que 


nada resta a fazer?"?, seria com efeito por 
vezes mais sábio baixar a cabeça e ceder um 
pouco às circunstâncias do que se obstinar em 
não outorgar nenhuma concessão. Declarando 
qualquer concessão impossível, dá-se à violên- 


cia a oportunidade de tudo esmagar. Quando 
as leis não podem obter o que têm'o direito de 
exigir, mais vale que exijam somente o que 


podem obter. Foi o que fez aquele que ordenou 
dormissem elas vinte e quatro horas; e o outro 


que préscreveu fosse, por uma vez, declarado 


não ocorrido tal dia do calendário; e também 
aquele que do mês de junho fez um segundo 
mês de maio. Os próprios lacedemônios, tão 
obedientes entretanto às leis de seu país, impe- 


218 Sêneca. 

217. No texto: “oú il ny a plus que tenir”, no caso 
ir à guerra civil para manter um estado de coisas 
superado. (N. do T.) 


ENSAIOS — 1 69 


didos de eleger duas vezes seguidas ao cargo 
de almirante o mesmo personagem, e exigindo 
a situação se mantivesse Lisandro nesse posto, 
elegeram Aracus almirante mas nomearam 
Lisandro superintendente da marinha. Valen- 
do-se de semelhante sutileza, um de seus 
embaixadores, enviado a Atenas a fim de obter 
a modificação de certa ordenação, e a quem 
Péricles objetava ser proibido retirar, depois 


da inscrição, o quadro?'º que promulgava 
uma lei, disse que nada o impedia de virá-lo do 
outro lado. E Plutarco louva Filopemen por- 
que, nascido para comandar, sabia não somen- 
te comandar de acordo com a lei, mas também 
comandar a própria lei quando o requeria a 
necessidade pública. 


218 As leis eram afixadas em quadros colocados 


nos recintos públicos. 


CAPÍTULO XXIV 


Uma mesma linha de conduta pode levar-a resultados diversos 


Jacques Amyot, grande esmoler de França, 
contou-me um dia o seguinte fato muito honro- 
so para um dos nossos príncipes, e da mais 
alta posição, embora de origem estrangeira. 
No início de nossas agitações, no sítio de 
Ruão, foi ele advertido pela rainha, mãe do rei, 
de uma conjura contra sua vida. As cartas da 
rainha mencionavam expressamente o chefe da 
conspiração, fidalgo angevino ou de Nantes, o 
qual fregiientava então, a fim de alcançar seu 
objetivo, a casa do príncipe. Este não comuni- 
cou a ninguém a advertência. No dia seguinte, 
passeando na colina Santa Catarina, onde se 
achavam instalados os canhões que domina- 
vam a cidade sitiada, e tendo à seu lado o 
grande esmoler e outro bispo, viu o fidalgo que 
lhe fora assihalado e o mandou chamar. Quan- 
do este se achou em sua presença, vendo-o 
empalidecer e tremer porque não tinha a cons- 
ciência tranquila, disse-lhe o príncipe: “Senhor 
Fulano, deveis 'imaginar o que quero de vós; 
vossa expressão o indica. Não procureis ocul- 
tar-me o que quer que seja; estou a par de vos- 
sas intenções; em buscando um paliativo não 
farieis senão piorar o vosso caso. Conheceis 
isto (o conteúdo das peças mais secretas da 
conjura); pela vossa vida confessai tudo, pois, 
sem reticências.” Quando o pobre homem se 
viu descoberto, e diante de provas irrecusáveis 
(pois tudo fora revelado à rainha por um dos 
cúmplices) não pôde senão implorar de mãos 
postas a misericórdia do principe a cujos pés 
quis jogar-se. Impediu-o o principe, conti- 
nuando: “Vejamos. Vos causei outrora, em 
qualquer circunstância, alguma pena? Ofendi 
algum dos vossos por ódio pessoal? Não vos 


conheço há mais de três semanas, qual o moti- 
vo que tendes para quererdes assassinar-me?” 


* Respornideu-lhe o fidalgo com voz trêmula que 


não era por animosidade particular contra ele 
mas no interesse geral de seu partido; que O 
haviam persuadido de que seria obra pia 
desembaraçar-se de qualquer maneira de tão 
poderoso inimigo de sua religiao?!º. “Pois 


“bem”, prosseguiu o príncipe, “vou mostrar-vos 


quanto a minha religião é mais tolerante do 
que aquela que praticais; induziu-vos a vossa a 
matar-me, sem me ouvir e sem que vos tivesse 
ofendido; a minha manda que vos perdoe, em- 


- bora se haja provado que querieis atentar, sem 


motivo, contra a minha vida. Ide, retirai-vos, 
que eu não vos veja mais aqui; e será prudente 
de vossa parte.não ouvirdes mais conselho, em 
vossas empresas, senão de gente melhor do que 
aquela a quem vos dirigistes desta feita.” 
Estando o Imperador Augusto na Gália, foi 
avisado de uma conspiração que contra ele tra- 
mava L. Cina. Resolveu punir e convocou seus 
amigos para um conselho no dia seguinte. 
Durante a noite foi tomado de intensa agitação 
ao pensar que deveria condenar à morte um 
jovem de bóa família, sobrinho do grande 
Pompeu, e refletiam-se as suas perplexidades 
nos pensamentos que o assaltavam: “Viverei 


- constantemente temeroso e continuamente 


alerta, enquanto meu assassino poderá loco- 
mover-se à vontade? E, no momento em que 
estabeleço a paz no mundo, deixarei de punir 
quem atenta contra estes meus dias que tantas 
vezes escaparam aos perigos das guerras civis 


219 O protestantismo. 


70 MONTAIGNE 


e das batalhas dadas em terra e mar? Posso 
absolvê-lo, quando não somente desejou assas- 
sinar-me mas ainda sacrificar-me (os conjura- 
dos haviam projetado matá-lo durante um 
sacrifício)?” E continuou em aita voz, após uns 
minutos de silêncio: “Por que vives, se tanta 
gente se interessa pela tua morte? Vale tua 
vida tanto rigor para defendê-la?”* Vendo-lhe a 
angústia, Lívia, sua mulher, lhe disse: 
“Aceitarás o conselho de uma mulher? Por que 
não fazes como os médicos que, em não 
colhendo bons resultados de seus remédios, 
indicam os remédios contrários? Até agora a 
severidade não produziu efeito. Sucedem-se 
umas às outras as conjurações: Lépido se- 
guiu-se a Savidiniano, Murena a Lépido, 
Cepião a Murena, Inácio a Cepião. Experi- 
menta a doçura e a clemência. Provou-se a 
culpabilidade de Cina, perdoa-lhe; ser-lhe-á 
impossível prejudicar-te e teu gesto se acres- 
centará à tua glória.” Augusto, satisfeito com 
encontrar na mulher um eco dos próprios 
sentimentos, agradeceu-lhe, desencomendou o 
conselho e ordenou que Cina viesse sozinho. 
Quando este se apresentou, Augusto mandou 
que saíssem todos de seu aposento, ofereceu- 
lhe um assento e assim falou: “Antes de mais 
nada, Cina, eu te pedirei que silencies. Ouve- 
me sem interromper. Dar-te-ei depois o tempo 
que quiseres para a resposta. Tu o sabes, Cina, 
foste aprisionado no campo de meus inimigos 
e eu te poupei a vida, embora não somente 
tivesses abraçado a causa deles mas ainda por 
pertenceres, em virtude de teu nascimento, à 
mesma gente. Devolvi teus bens, e tão bem te 
tratei e tão alto te coloquei que os vencedores 
invejam a sorte do vencido. O cargo de sacer- 
dote, que solicitaste, eu te concedi, quando o 
recusara a outros cujos pais sempre lutaram 
por mim; e devendo-me tais obrigações proje- 
taste assassinar-me.” Protestou -Cina afir- 
mando não ter alimentado esses maus pensa- 
mentos e Augusto prosseguiu: “Não estás 
cumprindo tua promessa, Cina; comprometer- 
te-âs a não me interromper. Sim, pensaste 
matar-me tal dia, em tal lugar, em tal compa- 
nhia, e de tai maneira.” E, vendo-o aterrado e 
em silêncio, ante informações tão precisas e 
não por causa da promessa mas sob o efeito do 
remorso: “Qual o teu móvel? Ser imperador? 
Seria realmente uma infelicidade para os negó- 
cios públicos se só eu constituísse um obstá- 
culo à tua ascensão ao trono; não consegues 
sequer defender tua própria casa, e ultima- 


mente ainda perdeste um processo contra um- 


simples liberto. Tornar-se César ! É então isso 
tudo o que sabes fazer? Se eu, somente, impeço 
a realização de tuas esperanças, estou disposto 
a abdicar. Mas acreditas que Paulo, Fábio, os 


cosseanos e os servilianos te aceitem, eles e 
esses nobres todos, nobres pelo nome e pelas 
virtudes que lhes realçam a nobreza?” E, após 
outros propósitos acerca da situação (pois se 
entretiveram por mais de duas horas), concluiu 
Augusto: “Vai, Cina, dou-te novamente essa 
vida que, como traidor e parricida, mereces 
perder; dou-a como a dei outrora, quando, em 
sendo tu meu inimigo, eu a tinha nas mãos. À 
partir de hoje, sejamos amigos e vejamos quem 
de nós terá tido mais boa-fé, eu que te perdôo 
ou tu que és perdoado.” Com estas palavras 
despediu-o. Tempos depois, deu-lhe o consula- 
do, censurando-lhe por não o ter solicitado. 
Augusto recebeu a justa recompensa: de sua 
clemência. Cina permaneceu-lhe profunda- 
mente dedicado e ao morrer tornou-o herdeiro 
de todos os seus bens. A partir desse aconteci- 
mento que lhe ocorreu aos quarenta anos, 
nenhuma conjuração mais houve contra ele. O 
mesmo não aconteceu com o principe a que 
aludimos anteriormente: sua magnanimidade 
não impediu que sucumbisse mais tarde a um 
atentado semelhante ao que escapara da pri- 
meira vez. De como é coisa vã a prudência 
humana! Quaisquer que sejam nossos projetos 
e os conselhos a que recorremos, e as precau- 
ções tomadas, o destino aí está de posse dos 
sucessos ! 

Dizemos dos médicos que são felizes quan- 
do obtêm bons resultados. Como se somente a 
sua arte não pudesse bastar-se a si mesma; 
como se fosse a única cujas bases frágeis de- 
mais não a pudessem sustentar; como, enfim, 
se não houvesse senão ela incapaz de êxito sem 
a assistência da sorte. 

Acerca da Medicina penso todo o bem e 
todo o mal que dizem, pois graças a Deus rara- 
mente apelo para ela. Trato-a ao contrário dos 
outros; não me preocupo nunca com ela e 
quando adoeço, em vez de confiar-me a ela, 
ponho-me a hostilizá-la, e a temo. Aos que co- 
migo insistem para que recorra a suas drogas, 
respondo que esperem até eu recobrar minhas 
forças e restabelecer-me a fim de melhor 
suportar seus efeitos e o risco que me couber 
correr. Prefiro deixar atuar a natureza, certo 
de que ela tem bico e unhas para se defender 
dos assaltos que a visam e proteger nosso 
organismo. Receio que eu, desejando ajudá-la 
no momento em que ela luta contra os golpes 
imediatos da doença, venha beneficiar esta e 
dar à Medicina maior trabalho ainda. 

Creio que a parte da sorte é grande, não 
somente no caso da Medicina mas também no 
de numerosos outros ramos do conhecimento 
humano que parecem mais independentes. 


“Assim a inspiração poética que se assenhora 


de um autor e o arrebata, por que não a atri- 


ENSAIOS —I 7 


buir à sorte? Ele próprio confessa que ela 
ultrapassa sua capacidade, que não vem dele, 
que ele não poderia atingir tais alturas. Da 
mesma forma os oradores, quando lhes ocor- 
rem esses movimentos de alma e esses trans- 
portes extraordinários que os fazem alçar-se 
muito além de seus intentos. Da mesma forma 
na pintura em que o pintor obtém por vezes 
efeitos muito superiores aos que sua imagina- 
ção e seu saber conceberam, e espantam a eles 
próprios. Mas a sorte manifesta-se ainda mais 
nitidamente pelas graças e belezas que põe nes- 
sas obras, não apenas independentemente da 
intenção do autor mas igualmente sem que ele 
o perceba. Um leitor culto descobre amiúde 
nos escritos alheios perfeições diferentes das 
que o autor pensou ter alcançado, e assim enri- 
quecem o sentido e a forma da obra. 

Quanto aos empreendimentos militares, não 
há quem ignore qual a parte da sorte. Mesmo 
em nossos conselhos e nossas deliberações, 
introduzem-se sorte e azar, pois o que pode a 
nossa sabedoria não é muito. E quanto mais 
perspicaz e viva, mais fraca é; e tem razões 
para desconfiar de si mesma. Sou da opinião 
de Sila: quando examino atentamente os feitos 
de guerra mais gloriosos, parece-me que os que 
os realizaram, tão-somente por desencargo de 
consciência se aconselharam e deliberaram 
acerca da conduta necessária. Ao entrar na 
luta, abandonaram-se principalmente à sua 
sorte; confiantes em que ela lhes seria propícia, 
em mais de uma circunstância deixaram-se 
arrastar além dos limites do razoável. Suas 
resoluções revelam não raro a marca de uma 
confiança excessiva ou de um desespero inex- 
plicável que os impelem o mais das vezes a 
tomar o partido menos racional e lhes aumen- 
tam a coragem de maneira sobrenatural. Daí 
ter ocorrido a vários grandes capitães da anti- 
guidade a idéia de espalhar a crença entre seus 
soldados de que suas temeridades obedeciam a 
alguma inspiração, a um sinal ou prognóstico. 

Eis por que na incerteza e na perplexidade 
infundidas pela impossibilidade em que nos 
achamos de discernir e escolher o melhor, em 
virtude das dificuldades é acidentes inerentes a 
todas as coisas, o mais seguro, a meu ver, 
quando outras considerações a tanto não nos 
levam, é adotar o partido aparentemente mais 
honesto e justo; e se há dúvida acerca do cami- 
nho mais curto, seguir a linha reta. Assim, nes- 
tes dois exemplos que dei, não há dúvida que 
perdoar a ofensa recebida é mais belo e gene- 
roso do que agir de outro modo. Se isso não 
deu certo cam o primeiro não se culpe a sua 
nobre conduta; pode-se lá saber se, em toman- 
do o partido contrário, escaparia à morte que 
lhe reservava o destino? Em todo caso teria 


perdido a glória que lhe valeu seu ato de 
bondade. 
Menciona a história numerosas pessoas que, 
receando atentados contra sua vida, se empe- 
nharam em desfazê-los mediante vinditas e 


“suplícios. Muito poucos tiveram êxito, ao que 


sei e como testemunham tantos imperadores 
romanos. Quem se sente ameaçado por seme- 
lhante perigo não deve contar demasiado com 
seu poder nem com sua vigilância, pois é difícil 
garantir-se contra um inimigo que se dissimula 
sob a máscara do melhor amigo. E como 
conhecer as intenções e os pensamentos ínti- 
mos daqueles que nos cercam? Pode mandar 
vir soldados estrangeiros e cercar-se sempre de 
homens armados: quem não faz questão da 
própria vida é sempre senhor da vida alheia. 
Ademais essa contínua suspeição que leva a 
desconfiar de todos é tormento excessivo! 
Dion, avisado de que Calipso procurava 
uma oportunidade para atingi-lo, não teve 
coragem de esclarecer a coisa, preferindo mor- 
rer, disse, a aceitar a triste obrigação de ter que 
se proteger não somente contra os inimigos 
mas também contra os amigos. Alexandre fez 
mais: avisado, por carta de Parmênion, de que 
Filipe, seu médico preferido, fora subornado 
por Dario a fim de envenená-lo, ao mesmo 
tempo que dava a carta a ler a Filipe, tomou a 
bebida que este lhe apresentava. Talvez qui- 


* Ssesse assim mostrar que, se seus amigos pre- 


tendiam atentar contra sua vida, a ela renun- 
ciava. Ninguém confiou mais na sorte do que 
esse príncipe, mas nada sei de sua existência 
que testemunhe melhor sua firmeza de caráter, 
nem nada conheço mais belo do que esse ato, 
por qualquer ângulo que se encare. 

Os que recomendam aos principes uma 
constante desconfiança, a pretexto de necessi- 
dade de segurança, pregam-lhes a ruína e a 
desonra, pois nada de nobre se faz sem riscos. 
Conheço um?2º, valente e ousado de natureza, 
ac qual fizeram que perdesse todas as oportu- 
nidades de se ilustrar, repetindo-lhe sem cessar 
que permanecesse no aconchego dos seus, não 
tentasse reconciliar-se com seus inimigos, se 


isolasse, não confiasse em mais poderoso do 


que ele, quaisquer promessas ou vantagens que 
lhe parecesse apresentar. E conheço outro que, 
seguindo caminho inverso, conquistou sua gló- 
ria de maneira inesperada???. 

A ousadia que outorga essa glória de que 
são ávidos os príncipes, provamo-la magnifi- 
camente tanto de gibão vestido como de arma 
na mão, tanto no gabinete como no campo de 
batalha, tanto com serenidade como com 


220 Henrique de Navarra. 
221 Henrique de Guise. 


72 MONTAIGNE 


ameaças. A prudência, tão cuidadosa, tão 
circunspecta é inimiga dos grandes feitos. 
Cipião, a fim de alcançar a boa vontade de 
Sífax, não hesitou em deixar o exército, aban- 
donando a Espanha recém- conquistada e cuja 
submissão podia ser ainda duvidosá, para pas- 
sar à África, com dois navios apenas, e entre- 
gar-se em país inimigo a um rei bárbaro cuja 
boa-fé desconhecia. E isso sem garantia, sem 
reféns, confiando unicamente na sua própria 
coragem, na sua boa estrela e no pensamento 
de ver realizar-se os grandes projetos concebi- 
dos: “a confiança que depositamos em outrem, 
nós a temos não raro em paga?222, 

Quem tem ambição e aspira à celebridade 
deve, ao contrário, evitar uma prudência exa- 
gerada, não prestar atenção às suspeitas nem a 
elas se entregar. O medo e a desconfiança dão 
origem à ofensa e a provocam. O mais descon- 
fiado de nossos reis recompôs sua situação, 
confiando-se espontâneamente a seus inimigos, 
com risco de perder a vida e a liberdade e mos- 
trando plena confiança neles a fim de induzi- 
los a nele confiarem. Contra suas legiões 
amotinadas, César opôs apenas a autoridade 
de seu semblante e a altivez de suas palavras. 
Tinha tal confiança em si próprio e na sua 
estrela que não hesitou em se abandonar a uma 
tropa sediciosa: “surgiu sobre um outeiro, de 
pé, rosto impassível; sem temor próprio soube 
inspirâ-lo aos outros???, 

É evidente que semelhante segúrança, e que 
outorga tão grande ascendência, só é natural e 
provoca todos os seus efeitos naqueles a quem 
a perspectiva da morte e do que pode aconte- 
cer de pior não cause temor. Receosa, hesitan- 
te, incerta do resultado, a atitude de quem visa 
acalmar não dará nada em uma situação 


grave. É excelente maneira de conquistar os. 


corações e a boa vontade das gentes apresen- 
tar-se altivo e confiante, conquanto assim se 
faça espontaneamente e não constrangidô pela 
necessidade. E que o sentimento que nos 
anima seja sincero e franco; e que nosso sem- 
blante não revele inquietação. 

Vi na minha infância um fidalgo, coman- 
dando uma cidade importante, às voltas com 
violento movimento de efervescência popular. 
Para acalmar os descontentes tomou, a princi- 
pio, a resolução de abandonar o lugar em que 
se encontrava em segurança e ir ao encontro 
dos amotinados; triste idéia, a meu ver! Não 
foi porém a de sair do abrigo, como em geral 
lho censuram, mas foi a de entrar pelo cami- 
nho das concessões e carecer de energia; foi a 
de ter tentado calmar os alucinados antes os 


222 Tito Lívio. 
223 Tucano. 


seguindo, a reboque, do que os esclarecendo 
acerca de suas faltas; foi a de os ter suplicado 
em lugar de admoestá-los. Considero que uma 
severidade mitigada, unida a uma decisão 
segura, apoiada nas tropas sob suas ordens, 
convinha melhor à sua condição e aos deveres 
de seu cargo, e teria dado melhor resultado e 
fora mais digna para ele; e o houvera honrado. 
Contra o furor popular nada se há de esperar 
do emprego da humanidade e da doçura; o que 
inspira respeito e medo tem mais probabili- 
dades de êxito. Censuraria igualmente a esse 
fidalgo — que considero corajoso mais do que 
temerário em ir sem armas nem escolta sufi- 
ciente jogar-se em pleno mar encapelado pela 
tempestade, em cheio entre homens tomados 
de loucura — o fato de não ter levado até o 
fim sua resolução. Percebendo o perigo, fra- 
quejou. E sua atitude, de pacífica e concilia- 
dora que era, passou a ressentir-se do pavor 
que se apoderou dele. Sua voz alterou-se, em 
seu olhar refletiram-se o terror e o arrependi- 
mento de se haver impensadamente arriscado: 
procurou afastar-se e desaparecer. Esse espetà- 
culo sobreexcitou ainda mais a multidão em 
delírio. 

Deliberava-se de uma feita acerca de uma 
grande parada de tropas de toda natureza — 
oportunidade não raro escolhida pelos que 
meditam vinganças, pois então se executam 
com menor perigo. Havia fortes indícios de 
que tentativas desse gênero ocorreriam, o que 
não era muito tranquilizante para os mantene- 
dores da ordem. Várias opiniões foram emiti- 
das a respeito, como acontece em casos difi- 
ceis, e entre elas algumas muito sensatas que 
mereciam ser apreciadas. Quanto a mim, opi-. 
nei que se devia evitar tudo o que pudesse 
demonstrar receio. Que participássemos da 
parada, que nos misturássemos à tropa de ca- 
beça erguida, rosto sereno, sem apreensão visi- 
vel, e que em vez de restringi-la (como outros 
propunham) a ampliássemos; ao contrário, 
dando a essa manifestação todo o desenvolvi- 
mento possível, recomendando aos oficiais que 
ordenassem a seus soldados darem as salvas 
de mosquetões bem nutridas, em conjunto e 
sem economizar pólvora, em honra do perso- 
nagem que os passasse em revista. Assim se 
fez. E essas tropas de cuja fidelidade suspeitã- 
vamos, sentiram-se encorajadas a uma mútua 
e vantajosa confiança. 

A conduta de Júlio César em circunstâncias 
semelhantes parece bela a ponto de não poder 
sobreexceder-se. Pela sua clemência e sua ame- 
nidade, procurou antes de mais nada conquis- 
tar a afeição de seus inimigos, contentando-se, 
ao lhe serem anunciadas as conjurações, com 
se declarar ciente delas. -Em seguida, cheio de 


ENSAIOS — I 73 


nobreza, aguardou sem medo e sem maiores 
preocupações o que pudesse acontecer, entre- 
gando-se à proteção dos deuses e de sua estre- 
la. Estava certamente nesse estado de alma ao 
ser assassinado. 


Tendo um estrangeiro propalado que era 


capaz, mediante certa importância em dinhei- 
ro, de indicar a Dionísio, de Siracusa, um meio 
infalível de descobrir as conjurações porven- 
tura organizadas contra o tirano, este, a quem 
se comunicara tal propósito, mandou chamá- 
lo a fim de se informar acerca de tão útil pro- 


cesso. Disse-lhe o estrangeiro que bastava lhe 


desse um talento e espalhasse por toda parte: 


haver comprado o segredo. Dionísio achou a 
idéia boa e mandou dar-lhe seis escudos. Aos 
olhos de todos era pouco verossímil houvesse 


o tirano gratificado tão generosamente o 
estrangeiro sem que este lhe prestasse relevante 
serviço; e essa crença contribuiu para tornar 
seus inimigos mais prudentes. Efetivamente, os 
príncipes que divulgam os avisos de conjuras 
contra eles preparadas agem sabiamente. 
Fazem crer que sua polícia é eficiente e que 
nada se pode empreender contra eles, que não 
saibam. 


O Duque de Atenas cometeu vários erros 
em seu recente governo de Florença. E o maior 


consistiu em que, ao ser notificado de conciliá- 


bulos havidos contra sua pessoa, mandou 
matar Matteo di Morozzo (o qual lhos comu- 
nicara) na esperança de que desse modo nin- 
guém viria a saber das reuniões nem poderia 
imaginar suportassem tão dificilmente a sua 
tirania. 

Lembro de ter lido outrora a história de um 
alto personagem romano que, proscrito pelos 
triúnviros, fora bastante hábil para escapar vá- 
rias vezes aos seus perseguidores. Um dia, um 
grupo de cavaleiros enviados à sua procura, 
passou, sem o perceber, junto a uma capoeira 
onde ele se escondera. Mas, nesse momento, 
pensando nas penas e dificuldades que vinha 
tendo há tanto tempo para fugir a essas conti- 
nuas e minuciosas batidas e ao desprazer de 
semelhante vida, considerou o fugitivo que era 
preferível acabar com isso uma vez por todas. 
E saindo de seu esconderijo chamou os cava- 
leiros e se entregou voluntariamente, livrando 
a todos de uma boa maçada. Entregar-se a 
seus inimigos é resolução um tanto excessiva. 
Creio entretanto ser ainda melhor isso do que 
viver constantemente na apreensão febril de 
um acidente inevitável. E, estando a inquieta- 
ção € a incerteza no fundo de todas as precau- 
ções que tomamos, mais vale preparar-se cora- 
josamente para o que der e vier e tirar algum 
consolo daquilo que não temos certeza venha a 
ocorrer. 


CAPÍTULO XX V 
Pedantismo 


Sofri muitas vezes, em criança, com sempre 
ver nas comédias italianas o mestre-escola no 
papel de parvo, sem ter a designação de magis- 
ter, com muito mais honroso sentido entre nós. 
Entregues que somos à sua orientação, não 
tinha eu outra alternativa senão aborrecer-me 
com tal reputação. Bem procurava explicá-la a 
mim mesmo pela desigualdade natural que 
existe entré o vulgo e as raras pessoas que se 
distinguem pelo bom-senso e o saber. Tanto 
mais quanto os hábitos de uns e outros. são 
inteiramente diversos: Mas, perturbava-me 
verificar que os homens mais esclarecidos são 
exatamente os que menos estimam os professo- 
res, haja vista o nosso bom Du Bellay: “Odeio 
sobretudo um saber doutoral.” E isso vem de 
longe, pois Plutarco (“Vida de Cicero”) nos 
diz que entre os romanos “grego” e 
“escolástico” eram palavras pejorativas que se 


empregavam como censura. Com a idade 
achei que se justificava essa opinião e que os 
mais sábios não são os mais perspicazes. 
“Magis magnos clericos non sunt magis mãg- 
nus sapientes”22 4. 

Mas como pode ocorrer: que uma alma enri- 
quecida de tantos conhecimentos não se torne 
mais viva e esperta, e que um cérebro vulgar e 
grosseiro armazene, sem se apurar, as obras € 
Juízos dos maiores espíritos que o mundo pro-- 
duziu? Ainda não o entendi muito bem. 

Para abrigar tantos e tão grandes pensa- 
mentos dos outros cérebros, é necessário, 
dizia-me uma senhorita que ocupava O pri- 
meiro lugar entre as nossas princésas, que O 
próprio cérebro se contraia, se restrinja, se 
comprima para dar espaço ao que recebe de 


224 Palavras de Frei João em Rabelais. 


74 MONTAIGNE 


outrem. Imagino, dizia ela, que assim como as 
plantas morrem por excesso de seiva e as can- 
deias se apagam com abundância de azeite, os 
espíritos curvam-se e se ancilosam sob o peso 
dos estudos e das matérias com que os enche- 
ram e que eles não puderam deslindar. Parece- 
me entretanto que outra é a razão, porque mais 
se enche nossa alma e mais ela se enriquece, e 
a antiguidade nos fornece exemplos de homens 
hábeis no governo da coisa pública, grandes 
capitães e grandes estadistas igualmente gran- 
des sábios. Quanto aos filósofos, desinteres- 
sados dos negócios públicos, foram outrora em 
verdade muitas vezes escamecidos pela liber- 
dade de expressão dos autores cômicos de seu 
tempo, porquanto suas opiniões e suás atitudes 
os tornavam ridículos. Quereis fazê-los juízes 
dos direitos de um processo, das ações de um 
homem? Confiai neles! Andam ainda a inves- 
tigar se a vida e o movimento existem realmen- 
te; se não são, homem e boi, uma só coisa; que 
significa agir; que se deve entender por sofri- 
mento; que espécie de bichos são as leis e a 
Justiça! Falam de um magistrado ou com ele 
conversam? Mostram-se irreverentes e descor- 
teses. Ouvem louvar o príncipe ou o rei? Não 
passam para eles de pastores, ociosos como os 
pastores e ocupados apenas em ordenhar e tos- 
quiar seus animais; mais duramente, porém. 
Estimais alguém porque possui duas mil jeiras 
de terra? Riem-se, acostumados que estão a 
encarar o mundo como propriedade pessoal. 
Orgulhais-vos de vossa nobreza por terdes sete 
avós ricos de glórias? Eles os desprezam, pois, 
atentando unicamente para o universal, com- 
putam o número de antepassados que teve 
cada um de nós entre ricos e pobres, reis e ser- 
vos, gregos e bárbaros, e ainda que fósseis 
descendentes de Hércules achariam vaidade 
que vos ufanásseis desse presente da sorte?? *. 
Por isso os desprezava o vulgo como ignoran- 
tes das coisas essenciais da vida, que todos 
apreciavam e os tachavam de presunçosos e 
insolentes. Mas esta pintura, tirada de Platão, 
estã longe de retratar os professores. Inveja- 
vam-se os filósofos porque pairavam acima do 
homem comum, desdenhavam os negócios pú- 
blicos e levavam uma vida especial que não es- 
tava ao alcance de qualquer pessoa e se regu- 
lava por princípios superiores que não são os 


que se aplicam normalmente. Quanto aos. 


professores, Julgam-nos abaixo do homem 
comum, incapazes de funções públicas e levan- 
do uma vida miserável, de costumes baixos e 
vis que os coloca no último degrau da socieda- 


225 0 trecho é obscuro no original, mas o 
comentarista Michaut assim o êntendeu. (N. 
do T.) 


de: “Odeio esses homens incapazes de agir e 
cuja filosofia consiste unicamente em pala- 


ras SA 
Ora, os filósofos, grandes pelo saber, maio- 


res ainda o foram quando passaram à ação. 
Assim aquele geômetra de Siracusa que, arran- 
cado da vida contemplativa a fim de empregar 
seu gênio inventivo na defesa de seu país, ima- 
ginou imediatamente engenhos espantosos 
cujos efeitos ultrapassavam tudo o que podia 
conceber o espírito humano. No entanto os 
desprezava considerando ele próprio que com 
tais invenções, simples jogos de sua sabedoria, 
corrompia a dignidade de sua arte. Daí o fato 
de, cada vez que tiveram os filósofos de passar 
da teoria à prática, se elevarem tão alto que se 
diria terem enriquecido prodigiosamente, sua 
alma e coração, no estudo das coisas. Alguns 
houve que vendo a direção de sua terra nas 
mãos de incompetentes, destes se afastaram, 
calando. Prova-o a resposta de Crates??” a 
alguém que lhe perguntava até que momento 
cumpria filosofar: “Até que não haja mais 
burriqueiros à frente dos nossos exércitos.” 
Heráclito abdicou a realeza em favor de seu 
irmão, e, aos efésios, que o censuravam por 
passar o tempo a brincar cóm as crianças 
diante do templo, observou: “não será melhor 
agir assim do que gerir os negócios públicos 
em vossa companhia?” Outros, que tinham o 
espirito acima da fortuna e do mundo, acha- 
vam as cadeiras dos magistrados e atê os tro- 
nos dos reis baixos e vis, e Empédocles recu- 


sou a realeza que lhe ofereciam os 
agrigentinos. Condenando Tales seus concida- 


dãos por se preocuparem demasiado com seus 
interesses pessoais e com se enriquecerem, eles 
atalharam que assim falava como a raposa da 
fábula, por ser incapaz de fazer o mesmo. Em 
vista do que teve ele a idéia de tentar a aventu- 
ra, por desfastio. E, rebaixando o seu saber, a 
serviço do proveito e do dinheiro, organizou 
uma empresa que em um ano lhe deu lucro tão 
grande que dificilmente os mais experimen- 
tados no ofício poderiam ganhar em toda vida. 
Conta Aristóteles que alguhns' diziam desses 
Tales, Anaxágoras e semelhantes, que eram sá- 
bios mas não prudentes, pois não se ocupavam 


o bastante com as coisas úteis. Além de não, 
perceber muito bem qualquer diferença entre 


tais palavras, creio que erravam os que assim 
se exprimiam e, em se atentando para a fortu- 
na tão penosamente adquirida e módica com 
que se satisfaziam esses críticos, seríamos 
antes induzidos a admitir que não são nem sá- 
bios nem prudentes, usando as mesmas expres- 
sões. 


226 Pacuvio. 
227 Filósofo cínico do século IV.a.C. 


ENSAIOS — 1 15 


Abandono essa primeira razão e creio ser 


preferível dizer que o mal provém da maneira 
por que tratam a ciência. Pelo modo como a 
aprendemos não é de estranhar que nem alu- 
nos nem mestres se tornem mais capazes em- 
bora se façam mais doutos. Em verdade, os 
cuidados e despesas de nossos pais visam ape- 
nas encher-nos a cabeça de ciência; de bom- 
senso e virtude não se fala. Mostrai ao povo 
alguém que passa e dizei “um sábio” e a outro 
qualificai de bom; ninguém deixará de atentar 
com respeito para o primeiro. Não mereceria 
essa gente que também a apontassem gritando: 
“cabeças de pote!” Indagamos sempre se o 
indivíduo sabe grego e latim, se escreve em 
verso ou prosa, mas perguntar se se tornou me- 
lhor e se seu espírito se desenvolveu — o que 
de fato importa — não nos passa pela mente. 
Cumpre entretanto indagar quem sabe melhor 
e não quem sabe mais. 


Só nos esforçamos por guarnecer a memó- 
ria, deixando de lado, e vazios, juízo e cons- 
ciência. Assim como os pássaros vão às vezes 
em busca de grão que trazem aos filhotes sem 
sequer sentir-lhe o gosto, vão nossos mestres 
pilhando a ciência nos livros e a trazendo na 
ponta da língua tão-somente para vomitá-lã e 
lançá-la ao vento. E é admirável que se encón- 
tre tal tolice em meu próprio exemplo! Não 
faço o mesmo na maior parte deste escrito? 
Vou filando aqui e além, deste e daquele livro, 

as sentenças que me agradam, não para 
armazená-las, que não possuo armazém, mas a 
fim de transportá-las para este livro no qual 
não se tornam por certo mais minhas do que lá 
onde se achavam. Nossa ciência, creio eu, é a 
do presente; a do passado nós a ignoramos 
tanto quanto a do futuro?2º. E o que é pior, os 
estudantes, e aqueles a quem por sua vez ensi- 
narão, recebem dos mestres, sem assimilar 
melhor, uma ciência que passa assim de mão 
em mão, como pretexto a exibição, assunto de 
conversa, usada tal qual a moeda que por ter 
sido recolhida serve apenas de ficha para cal- 
cular: “aprenderam a falar com os outros, e 
não consigo”22º. “Não se trata de falar, trata- 
se de governar o barco”23º, 

A natureza, para mostrar que não há nada 
selvagem em sua obra, permite que surjam nos 
países onde as artes se acham menos desenvol- 
vidas produções do espírito que ombreiam 
com as mais admiráveis. Vem a calhar o pro- 
vérbio gascão tirado dos tocadores de gaitajde 


228 QOtrecho presta-se a interpretações contraditó- 
rias. Adotamos a que propõe Michaut. (N. do Th 
229 Cícero. ii 
230 Sêneca. 


jr 
a 
i 
à 


fole: “Bonha prou bonha, mas à remuda los 
dits qu'em” (pouco importa se sopras pouco 
ou muito, conquanto mexas os dedos). Sabem 
dizer “como observa Cícero”, “eis o que fazia 
Platão”, “são palavras de Aristóteles”, mas 
que dizemos nós próprios? Que pensamos? 
Que fazemos? Um papagaio poderia substi- 
tuir-nos. Lembra-me isso aquele rico romano 
que, à força de dinheiro, se aplicara a recrutar 
homens versados em todos os ramos da ciência 
e os tinha sempre à sua volta; e quando, com 
seus amigos, tinha a oportunidade de falar de 
qualquer coisa eles o supriam em sabedoria, 
um lhe soprando uma réplica, outro citando 
um verso de Horácio, cada qual segundo sua 
especialidade. Com o tempo chegara a acredi- 
tar que o saber era seu porquanto o tirava de 
“seus” homens, agindo, assim, como aqueles 
cujos conhecimentos moram nas bibliotecas 
suntuosas de sua propriedade. E conheço um 
que ao ser indagado acerca do que lhe cumpre 
saber, vai logo buscar um livro para mostrar e 
jamais ousaria dizer que tem o traseiro. sar- 
nento sem previamente procurar em dicionário 
a significação de sarna e de traseiro. 


Cuidamos das opiniões e do saber alheios e 
pronto; é preciso torná-los nossos. Nisso nos 
parecemos com quem, necessitando de lume, o 
fosse pedir ao vizinho e dando lá com um 
esplêndido braseiro ficasse a se aquecer sem 
pensar em levar um pouco para casa. Que 
adianta ter a barriga cheia de comida se não a 
digerimos? Se não a assimilamos, se não nos 
fortalece e faz crescer! Imaginaremos, acaso, 
que Luculo, que as letras formaram e torna- 
ram, sem experiência, tão grande capitão, as 
tenha aprendido à nossa moda? Tanto nos 
apoiamos nos outros que acabamos por perder 
as forças. Quero fortalecer-me contra o temor 
da morte? Recorro a Sêneca. Tenho a intenção 
de arranjar consolo para mim e para outros? 
Vou a Cicero. Entretanto tudo houvera tirado 
de mim mesmo se a tanto me tivessem acostu- 
mado. Não aprecio esse saber relativo e que 
mendigamos. Ainda que possamos ser sábios 
com o saber alheio não seremos avisados 
senão com a própria sabedoria: “Detesto o 
sábio que não é sabio por si próprio”?º1.E diz 
Enio?º2 igualmente: “Vã é a sabedoria que 
não é útil ao sábio”; “se é ambicioso, vaidoso 
e mais mole do que o anho recém-nascido da 
Euganea?2º8 ; é “não basta adquirir sabedoria, é 
preciso tirar proveito dela”23 4. 


231 Eurípides. 

232 Cícero — Dos deveres. 
233 Juvenal. 

234 Cicero. 


16 | | MONTAIGNE 


Dionísio caçoava dos astrólogos?* * que 
cuidavam de -saber das desgraças de Ulisses 
mas ignoravam as próprias; dos músicos que 
afinam suas flautas mas não os seus costumes; 
dos oradores que estudam para discutir a justi- 
ça mas não a praticam. Se a sua alma não se 
aperfeiçoa, se seus juízos não se tornam mais 
lúcidos, melhor fora que o estudante gastasse o 
tempo a jogar péla, pois ao menos o corpo ele 
o teria mais ágil. Observai-o de volta após 
quinze ou dezesseis anos: nada se fará dele; o 
que trouxe a mais é o grego e o latim, que o 
fizeram mais tolo e presunçoso do que quando 
deixou a casa paterna. Devia voltar com o 
espírito cheio, e voltou balofo; incharam-no e 
continuou vazio. 


Tais mestres, como os sofistas seus parentes 
próximos a que alude Platão, são de todos os 
homens os que parecem mais úteis à humani- 
dade. No entanto são os únicos que não 
somente não melhoram a matéria-prima que se 
lhes confiou, como fazem o carpinteiro e o 
pedreiro, mas a estragam e ainda cobram por 
tê-la estragado. 


Se meus pedagogos concordassem com a lei 
proposta por -Protágoras a seus discípulos 
(pagarem o preço pedido ou irem ao templo e 
declararem sob juramento em quanto avalia- 


vam o proveito tirado das lições recebidas. 


pagando-o de acordo com o trabalho), por 
certo se decepcionariam com o juramento que 


me dita a experiência adquirida. No meu diale- 
to perigordino a esses sábios de pacotilha dá- 
se por brincadeira o apelido de “Lettreferits”, 


o que quer dizer “lettresferus”2º 8, isto é, indi- 
víduo que as ietras atordoaram à maneira de 
uma martelada. E, de fato, as mais das vezes 


parecem ter descido tão baixo que nem mais 
possuem o senso comum. O camponês e o 
sapateiro vão vivendo simples e ingenuamente, 
falando do que conhecem; enquanto os outros 
por se quererem elevar e envaidecer de um 
saber todo superficial, que não lhes entrou se- 
quer no cérebro, vão-se embaraçando e chafur- 
dando sem cessar. Sabem discursar mas é pre- 
ciso que outros o apliquem; conhecem bem 
Galeno, porém não conhecem o doente, e o 
estonteiam com textos de lei antes de terem 
ciência da causa. Nada ignoram da teoria, mas 
não achareis um que a possa pôr em prática. 


235 No texto gramáticos — mas o dicionário de 
Godefroy da língua francesa arcaica dá também os 
sentidos de sábio e astrólogo, citando Renaud e 
Montauban. — Pareceu-nos dentro do espírito da 
frase preferível empregar astrólogo. (N. do T.) 

236 Ferido, golpeado, abalado pelas letras. (N. do 
T. 


Vi em minha casa um de meus amigos que, 
a lidar com um indivíduo dessa espécie, se pôs, 
por passatempo, a recitar-lhe, em uma trapa- 
lhada de frases, citações sem nexo embora 
entremeadas de palavras relativas ao proble- 
ma; e assim se divertiu um dia inteiro com o 
tolo que tomara a coisa a sério e dava tratos à 
bola para responder às objeções. No entanto o 
tal indivíduo era homem de letras, gozava de 
certa reputação e de boa posição social: “E 
vós, patrícios, que não tendes o poder de ver o 
que se passa atrás de vós, cuidai qué aqueles a: 
quem virais as costas não se riam de vós?? 7.” 


Quem olhar de perto essa espécie de gente, 
por toda parte encontradiça, achará como eu 
que as mais das vezes ela própria não se enten- 
de como não entende os outros. Tem a memó- 
ria bem guarnecida, mas o juízo absolutamente 
vazio, salvo quando, pelas suas qualidades 
naturais, faz exceção. Entre essas exceções 
incluirei Adriano Tourmnebceuf 238, que conhe- 
ci. Nunca exercera outra profissão senão a de 
homem de letras, e na minha opinião em mil 
anos ninguém melhor do que ele mereceu lugar 
entre os primeiros. No entanto, nada tinha de 
professoral, a não ser a maneira de trajar e cer- 
tos modos de conduzir-se na sociedade, que. 
não revelavam o requinte praticado na Corte, 
o que não importa em verdade. Pois detesto as 
pessoas que suportam mais dificilmente um 
terno malfeito do que uma alma e'julgam a 
qualidade do homem pelas reverências, as ati- 
tudes, e as botas. Adriano Tourneboceuf era 
dono da mais bela alma e eu o trouxe a assun- 
tos alheios aos de seu comércio habitual. Via- 
os tão lucidamente e os apreciava tão judicio- 
samente que se diria não ter ele jamais se 
ocupado senão de guerra e de negócios públi- 
cos. São naturezas: fortes e retas — as quais . 
Prometeu formou com mais benevolência e 
melhor argila — e que assim se mantêm ape- 
sar das instituições defeituosas. Ora, não basta 
queas instituições.não nos tornem piores, é prt 
ciso que nos façam melhores. 


Em nossos tribunais, quando lhes cabe pro- 
ver os cargos de sua alçada, só julgam os can- 
didatos pelo saber que pôssuem. Outros os 
apreciam também pelo bom-senso, dando-lhes: 
questões a resolver. Estes últimos me parecem 
estar com a razão. Ambas as coisas são neces- 
sárias, embora em realidade valha menos o 
saber que a inteligência, porquanto esta pode 
prescindir daquele e o contrário não seja exato. 
Porque, como diz Stroben, “de que serve o 
saber sem a inteligência”? | 


237 Pérsio. 
238 Professor no Colégio de França (1512-1565). 


E 
ki 

Prouvera a Deus que para o bem de nossa 
Justiça fossem os nossos tribunais tão ricos de 
bom-senso € de consciência quanto de ciência. 
Infelizmente, “não aprendemos a viver, mas a 
discutir”239, Não cabe justapor o saber à 
alma, cumpre incorporá-lo a ela. Não se trata 
de negá-la mas sim de impregná-la com ele. Se 
não modifica nem melhora o estado de imper- 
feição, fora certamente preferível não adquiri- 
ló. E uma arma perigosa que embaraça e fere o 
dono, caso não esteja em mão forte e lhe igno- 
re a maneira de usar: “melhor seria não ter 
aprendido nada”2“º. Talvez por esse motivo 
não exijamos das mulheres maior saber, e 
François, Duque de Bretanha, filho de Jean V, 
ao se tratar de seu casamento com Isabeau, da 
casa real escocesa, respondeu a quem lhe dizia 
ter ela sido educada simplesmente sem nenhu- 
ma noção das letras, que a preferia assim, pois 
uma mulher já sabe o bastante quando é capaz 
de diferenciar uma camisa do gibão do marido. 
Nada tem, portanto, de extraordinário que 
nossos antepassados não se hajam preocupado 
com as letras e que hoje ainda só excepcional- 
mente as encontremos cultivadas mesmo pelos 
que participam dos conselhos de nossos reis. 
Se não lhes desse bom crédito o fim — preci- 
puo em nosso tempo — de ganhar dinheiro, na 
Jurisprudência, na medicina, na teologia, nós 
as veríamos tão desprezadas quanto antes. E 
que prejuízo decorreria disso, posto que não 
nos ensinam nem a bem pensar nem a “agir? 
“Desde que se vêem tantos sábios não se acha 
mais gente de bem”2 41. A quem não possui a 
ciência do mérito qualquer outra é prejudicial. 
Mas talvez divisemos aí a explicação que pro- 
curava há pouco: não tendo o estudo em Fran- 
ça quase outro fim senão o lucro, se desfal- 
camos os que a elas se entregam por 
temperamento e por preferirem os cargos 
honoríficos aos lucrativos, e os que a elas 
renunciam antes de tomarem gosto a fim de 
exercer uma profissão sem parentesco com 6 
livro, sobram apenas para tratar das letras os 
que, sem fortuna, buscam nelas um meio de 
existência. Ora, estes que tanto por natureza 
como pela educação têm uma alma de baixo 
quilate empregam mal o seu saber, o qual não 
pode nem iluminar um incapaz, nem devolver 
a vista a quem não vê. Seu objetivo não é dar 
vista ao cego e sim corrigi- -la, e ensinar a andar 
se as pernas ainda são direitas e capazes, ide 
esforço. O saber é uma boa droga, mas não há 
droga suficientemente' forte para resistir àsifa- 
lhas do recipiente. Há quem'tenha vista boa e 


240 Cícero. 


E 
23º Sêneca. | 
1 
241 Sêneca. : 


ENSAIOS— 1 e 7 


seja vesgo: vê o bem mas não o faz, e vê O 
saber e não sabe servir-se dele. A principal lei 
de Platão em sua República é repartir os car- 
gos entre os cidadãos segundo a capacidade de 
cada um. À natureza tudo pode e tudo faz. Os. 
coxos não servem para os exercícios do corpo; 
aos exercícios do espírito não se adaptam as 
almas mancas. A filosofia é inacessível às 
almas bastardas e vulgares. Se vemos um 
homem mal calçado não nos espantamos que 
seja sapateiro, pois vemos frequentemente mê- - 
dicos que, enfermos, seguem tratamentos in-. 
convenientes, e teólogos de costumes censurá- 

veis, e, o que é corriqueiro, sábios mais 

ignorantes do que o homem comum. 

Tinha razão Aristo, de. Quios, ao dizer 
outrora que os filósofos são nocivos aos que os 
ouvem, porquanto em sua maioria não são as 
pessoas suscetíveis de tirar proveito de seus 
ensinamentos, os quais quando não fazem bem 
fazem mal:“Da escola de Aristipo saem devas- 
sos, da de Zenão saem selvagens”? 42, 

No método de educação que Xenofonte atri- 
bui aos persas, é dito que ensinavam a virtude 
aos filhos como nos outros países se ensina- 
vam as letras. Afirma Platão que o filho do rei, 
herdeiro do trono, era educado da seguinte 
maneirá: ao nascer não o entregavam às 
mulheres, mas aos eunucos, ocupantes dos 


mais altos cargos na Corte por caúsa de sua 


virtude. Cabia-lhes desenvolver nele as quali- 


" dades físicas que o pudessem tornar belo e 


sadio. Com sete anos, ensinavam-lhe a montar 
a cavalo e a caçar. Aos catorze anos, confia- 
vam-no a outros personagens: o mais avisado, 
o mais justo, o mais virtuoso e o mais valente 
da nação. Ensinava-lhe o primeiro a religião; O 
segundo a ser sincero; O terceiro a dominar as 
paixões; o quarto a nada recear. 

É de notar-se que na excelente legislação de 
Licurgo, tão extraordinária pela sua perfeição 
e particularmente atenta à educação das crian- 
ças, considerada como devendo passar antes 
de tudo na própria pátria das Musas, tão 
pouco se cuidasse da erudição. Parece que a 
essa generosa mocidade, que tudo desprezava 
à exceção da virtude, deviam dar em lugar de 


professores de ciências, como ocorre em nosso 
caso, mestres de valentia, prudência e justiça, 
exemplo que Platão adotou. Sua educação 
consistia como entre os persas em pedir às 
crianças julgamento sobre os homens e suas 
ações. E cumpria-lhes justificar sua maneira de 
ver, de modo que a um tempo exerciam a inte- 
ligência e aprendiam Direito. 

Astiages, em Xenofonte, interroga Ciro 
acerca de sua última lição. Consistiu, responde 


242 Cícero. 


78 MONTAIGNE 


este, no seguinte: na escola um aluno que pos- 
suía um capote curto demais deu-o a seu 
camarada menor e tomou o deste que era mais 
comprido. O mestre fez-me juiz da contenda. 
Eu achei que se devia deixar as coisas como 
estavam, porquanto parecia que cada qual 
assim se via possuidor de um capote a seu fei- 
tio. Meu mestre mostrou-me então que assim 
julgando eu não consultara senão a conve- 
niência e que fora preciso antes atentar para a 
Justiça, a qual estabelece que ninguém seja des- 
pojado à força daquilo que lhe pertence. E 
Ciro acrescentou que por esse erro de aprecia- 
ção fora chicoteado tal qual o somos em Fran- 
ça, nas nossas aldeias, quando nos enganamos 
quanto ao tempo de um verbo grego. Meu pro- 
fessor poderia fazer-me um inteiro discurso — 
“in. genere demonstrativo” — sem conseguir 
persuadir-me da superioridade de sua escola 
sobre essa. Os lacedemônios quiseram encur- 
tar o caminho e como as ciências, ainda que se 
estudem seriamente só nos podem oferecer teo- 
rias acerca da prudência, da sabedoria na con- 
duta e do espírito de decisão, sem nos levar à 
sua prática, procuraram colocar desde cedo as 
crianças em contato com a realidade, instruin- 
do-as não por palavras mas pela ação, forman- 
do-as e as moldando rigorosamente, por pre- 
ceitos e frases sem dúvida, mas também e 
principalmente por exemplos e obras, a fim de 
que o saber não lhes enchesse apenas a alma 
mas a ela se incorporasse, tornando-se com- 
pleição e hábito; e que não fosse uma aquisi- 
ção mas uma propriedade natural. A propó- 
sito, perguntou-se a Agesilau que deviam, na 
sua opinião, as crianças aprender, ao que ele 
respondeu: o que terão de fazer quando cresce- 
rem. Não ê& de estranhar que semelhante educa- 
ção tenha produzido tão admiráveis efeitos. 
Conta-se que se iam buscar em outras cidades 
da Grécia retóricos, pintores, músicos e na 
Lacedemônia os legisladores, os magistrados e 
comandantes dos exércitos. Em Atenas apren- 
dia-se a bem falar; lá, a bem fazer. Numa a 
discutir nas controvérsias dos sofistas e a 
penetrar o verdadeiro sentido das frases artifi- 
cialmente constituídas; noutra, a defender-se 
contra as tentações da volúpia e a encarrar 
com coragem os reveses da sorte ou a morte 
que nos ameaça. Aqueles a discorrer, estes a 
agir; contínuo exercício de lingua de umlado; e, 


de outro, da alma. Não admira portanto que a 
Antípater, que exigia cinquenta crianças como 
reféns, lhe respondessem, ao contrário do que 
teriamos feito, que preferiam dar o dobro de 
homens feitos, de tal modo temiam que perdes- 
sem a educação da terra. Quando Agesilau 
convida Xenofonte a mandar os filhos para 
Esparta, a fim de aí serem educados, não pre- 
tendia ensinar-lhes a dialética e a retórica, mas 
o fazia para que aprendessem a mais bela das 
ciências, a do saber obedecer e mandar. 

É divertido ver Sócrates caçoar, a seu modo, 
de Hípias, o qual lhe conta como ganhou 
dinheiro com o ensino, sobretudo em certas 
aldeias da Gália, enquanto em Esparta não 
pegou um vintém. “Esses espartanos”, diz Hi- 
pias, “são uns broncos, incapazes de medir e 
contar, ignorantes da gramática e dos ritmos, 
interessados apenas na cronologia dos reis, na 
fundação e decadência dos Estados e outras 
tolices que tais.” Quando terminou, Sócrates 
convenceu-o a pouco e pouco da excelência de 
sua forma de governo, da felicidade e da virtu- 
de de sua vida privada e sugeriu-lhe como con- 
clusão a inutilidade das artes. 

Ensinam-nos os exemplos do que se verifi- 
cou nesse governo e nos do mesmo tipo, que o 
estudo das ciências amolece e efemina as cora- 
gens mais do que as robustece e as torna 
aguerridas. À nação mais poderosa que existe 
neste momento é a dos turcos, povo que igual- 
mente estima as armas e despreza as letras. 
Roma foi mais valente antes de se tornar sábia. 
Os países mais belicosos de nossos dias são 
aqueles em que o povo é mais grosseiro e igno- 
rante. Tem-se a prova nos citas, nos persas, em 
Tamerlão. Quando os godos saquearam a Gré- 
cia, O que evitou se incendiassem as bibliotecas 
foi ter tido um deles a idéia de deixar os livros 
intatos a fim de que seus inimigos com eles se 
distraíssem e neles encontrassem uma ocupa- 
ção sedentária e ociosa, capaz de afastá-los do 
serviço militar. Quando nosso Rei Carlos VIII 
se apoderou, quase sem desembainhar a espa- 
da, do reino de Nápoles e de boa parte da Tos- 
cana, os fidalgos de seu séquito atribuíram a 
inesperada facilidade da conquista ao fato de 
os príncipes e a nobreza da Itália passarem o 
tempo antes nos trabalhos do espírito e no es- 
tudo da ciência que em se esforçando por se 
tornarem vigorosos e guerreiros. 


ENSAIOS —I 79 


po 


E: 


CAPÍTULO XXVI 
Da educação das crianças 


À Sra. Dianade Foix, Condessa de Gurson 


] 

Nunca vi pai, por corcunda ou tinhoso que 
fosse o filho, deixar de dá-lo por seu. Não, 
eritretanto, por estar cego pela afeição e não se 
aperceber do defeito, mas tão-somente porque 
é seu. Assim eu vejo melhor do que outro não 
haver aqui senão devaneios de homem que das 
ciências só provou a casca em sua infância e 
apenas reteve delas um aspecto geral e infor- 
me; um pouco de tudo e até nada de nada, à 
francesa. Porque, em suma, sei que há uma 
medicina, uma jurisprudência, quatro partes 
na matemática, e, grosseiramente, o que visam 
elas. Porventura saberei ainda, de um modo 
geral, qual seu objetivo e sua utilidade em 
nossa vida. Mas, ir além, queimar as pestanás 
no estudo de Aristóteles, soberano da doutrina 
moderna, ou me obstinar em qualquer ciência, 
não o fiz nunca. Nem há arte de que eu possa 
sequer expor as mais elementares noções. :E 
qualquer menino das classes médias pode 
dizer-se mais erudito do que eu que não tenho 
capacidade para examiná-lo sobre as primeiras 
lições; dessa natureza pelo menos. Se me for- 
çam a fazê-lo, vejo-me obrigado, assaz inepta- 
mente, a tratar de algum assunto de caráter 
geral pelo qual julgo sua inteligência natural, 
matéria tão alheia a ele quanto a sua me é 
estranha. 

Não me enfronhei em nenhum livro sólido 
senão nos de Plutarco e Sêneca em cuja obra, a 
exemplo das Danaides, busco sem cessar aqui- 
lo que logo entrego alhures. Em meus escritos 
aíguma coisa fica; em mim quase nada. À his- 
tória é mais de minha predileção, ou a poesia 
que tenho em particular estima. Pois, como 
dizia Cleantes, assim como o som, prensado 
no estreito canal de uma trombeta, sai mais 
agudo e forte, assim se me afigura que o pensa- 
mento, constringido pelas regras da poesia, se 
arremete mais vivamente e me impressiona 
com maior intensidade. 

Quanto as faculdades naturais que aqui 
ponho à prova, sinto-as vergar sob a carga. 
Minhas concepções e meus pensamentos só 
avançam as apalpadelas, cambaleantes, a 
escorregar entre tropeços; e por mais longe que 
vá, não fico satisfeito; vejo terras ainda além, 


desses escritos: 


mas turvas e enevoadas e não as posso distin- 
guir. E, se me proponho falar à vontade de 
tudo o que se apresenta à minha fantasia, não 
empregando nisso senão os meus recursos 
naturais, acontece-me não raro encontrar por 
acaso nos bons autores os mesmos assuntos 
que procuro comentar, como vem de me suce- 
der com Plutarco acerca da força da imagina- 
ção; e ao reconhecer-me diante deles tão fraco 
e insignificante, tão pesado e sem vida, tenho 
piedade de mim mesmo, e desdém. Todavia 
sinto prazer em verificar que minhas opiniões 
têm a honra de ir ao encontro das deles, às 
vezes, e, embora de longe, sigo-lhes as pega- 
das. E também tenho esta vantagem que nem 
todos têm, que é conhecer a profunda diferença 
que há entre mim e eles. E, no entanto, deixo 
os meus pensamentos correrem assim fracos e 
pequenos, como os concebi, sem rebocar nem 
tapar os buracos que a comparação me reve- 
lou. É preciso ter rins sólidos para andar em 
companhia dessa gente? **, Os escritores sem 
discernimento de nosso tempo, e que em seus 
livros sem valor vão semeando trechos inteiros 
dos autores antigos?** para se enfeitarem, 
fazem o contrário; porque a infinita desseme- 
lhança de brilho entre o que lhes é próprio e o 
que tomam de empréstimo dá um aspecto tão 
pálido, desbotado e feio ao que é deles que per- 
dem muito mais do que ganham. 

Eis dois sistemas diferentes: Crisipo mistu- 
rava aos seus livros não somente trechos mas 
também obras inteiras de outros autores, e em 
um desses seus trabalhos se acha reproduzida 
“in extenso” a “Medeia” de Eurípides; e dizia 
Apolodoro que se lhe cortassem o alheio fica- 
va o papel em branco. Epicuro, ao contrário, 
nos trezentos volumes que deixou nunca pôs 
uma só citação. 

Aconteceu-me um dia destes dar com um 
tinha-me arrastado penosa- 
mente até o fim de uma prosa francesa tão 


243 Michaut interpreta: é preciso estar seguro de si 
para ombrear com essa gente. (N. do T.) 

244 Observe-se que Montaigne não se priva de 
fazê-lo. 


80 MONTAIGNE 


exangue, tão descarnada, tão vazia de subs- 
tância e de sentido que não era, em verdade, 
mais do que palavras em francês, eis que após 
tão longa e aborrecida leitura deparei com um 
trecho elevado, rico, erguendo-se às nuvens. Se 
tivesse achado a subida suave e a rampa fácil, 
tudo se desculparia, mas era um precipício tão 
abrupto, inesperado, que logo às seis primeiras 
palavras verifiquei andar por outro caminho. 
Dali descortinei o tremedal de onde vinha, tão 
* baixo e profundo que não mais me animei a 
descer de novo. Se recheasse com esses ricos 
despojos um dos meus trabalhos, com eles ilu- 
- minaria por demais a tolice dos outros. 
Censurar nos outros os meus próprios erros 
não me parece mais inconsegliente do que rele- 
var, como faço amiúde, os dos outros em mim. 


E preciso apontá-los onde quer que estejam e 


não lhes dar asilo. Bem sei com que ousadia eu 
próprio tento igualar-me por todos os meios 
aos -meus furtos e ir de par com eles, não sem 
a terherária esperança de poder enganar os juí- 
zes que os examinam; mas não é tanto pelo 
proveito que tiro de tais confrontações quanto 
pelo que pode resultar de vantajoso para as 
idéias propugnadas e de força para pô-las em 
evidência. Ademais não procuro lutar corpo a 
corpo com esses velhos campeões; luto por 
assaltos, ataques repetidos e rápidos. Não me 
obstino, não faço senão tocá-los e nunca vou 
até onde desejaria ir. Se pudesse medir-me com 
eles seria homem de bem, pois só procuro imi- 
tá-los no que têm de melhor? * 8. Fazer o que vi 
fazerem alguns que se revestem da couraça de 
outrem, de forma a nem sequer mostrarem a 
ponta dos dedos, e conduzir seu plano — 
como se permite aos cientistas em assunto 
comum — à sombra das invenções antigas 
pilhadas aqui e acolá, procurando-as dissimu- 
lar e tornar suas, é desonestidade e covardia 
antes de tudo, porquanto não tendo em si nada 


que os realce pretendem valer pelo que é. 


alheio. Ademais, contentam-se em conquistar 
por trapaças a ignorante aprovação do vulgo e 
são mal vistos pelos entendidos, que torcem o 
nariz a esse trabalho, verdadeiro mosaico de 
peças e trechos tomados de empréstimo. Ora, o 
louvor destes é que pesa. Por minha parte, evi- 
to-o fazer. E se cito os outros é para melhor 
dizer de mim. Isto não diz respeito aos centões 
que se publicam como centões? * 8. Vi-os muito 
engenhosos outrora, entre outros um de Capi- 
lupus, sem contar os antigos. São espíritos que 
se distinguem nisso como em outras coisas, 
como Lípsio na douta e laboriosa composição 
de sua “Política”. 


245 No texto: — só os ataco pelo seu lado mais: 
forte. (N. do T.) 

2+*8 Composição poética formada de diferentes ver- 
sos de diversos autores. 


Como quer que seja e quaisquer que sejam 
as inépcias que me passam pela mente, não as 
esconderei, como não esconderia meu relato se 
em vez de jovem e belo me representasse calvo 
e grisalho como o sou, em verdade. Exponho 
aqui meus sentimentos e opiniões, dou-os 


como os concebo e não como os concebem os 
outros; meu único objetivo é analisar a mim 
mesmo e o resultado dessa análise pode, ama- 
nha, ser bem diferente do de hoje, se novas 
experiências me mudarem. Não tenho autori- 
dade para impor minha maneira de ver, nem o 
desejo, sabendo-me demasiado mal instruído 
para instruir os outros. 

Alguém, depois de ler o ensaio precedente, 
dizia há tempos em minha casa que eu me 
devia ter alongado um pouco mais sobre a edu- 
cação das crianças. Mas, Senhora, se eu tives- 
se alguns conhecimentos do assunto não os 
empregaria melhor do que em fazendo presente 
deles a esse rapazinho que ameaça sair de vós 
(sois generosa demais para não começardes 
por um varão), pois tendo tomado tão grande 
parte na preparação de vosso casamento, 
tenho algum direito de me interessar pela gran- 
deza e prosperidade de tudo o que dele provier. 
Por outro lado, os antigos privilégios que ten- 
des sobre mim, levam-me naturalmente a dese- 
jar honras, bens e melhorias em tudo o que vos 
diz respeito. Mas na realidade disso só entendo 
que a-maior e mais importante dificuldade da 
ciência humana parece residir no que concerne 
à instrução e à educação da criança. 

O mesmo acontece na agricultura: o que 
precede à semeadura é certo e fácil; e também 
plantar. Mas depois de brotar o que se plantou, 
dificeis e variadas são as maneiras de tratá-lo. 
Assim os homens: pouco custa semeá-los, mas 


. depois de nascidos, educá-los e instruí-los é ta- 


refa complexa, trabalhosa e temível. O que se 
revela de suas tendências é tão tênue e obscuro 
nos primeiros anos, e as promessas tão incer- 
tas e enganadoras que se faz dificil assentar | 
um juízo seguro. 

Vede como Cíimon e Temístocles, e tantos - 
outros se desmentiram a si próprios. Os filho- 
tes de ursos e de cães mostram sua tendência 
natural; os homens, porém, metendo-se desde 
logo em hábitos, preconceitos, leis, mudam ou 
se mascaram facilmente. 


Certamente é muito dificil modificar as 
propensões naturais. Daí provém que, em não 
se tendo escolhido bem o caminho a seguir, 
trabalha-se inutilmente muitas vezes e se preci- 
sam anos para instruir as crianças acerca de 
coisas em que não chegam a tomar pé. Em 
todo caso nessa dificuldade a minha opinião é 
que as encaminhemos sempre para as coisas 
melhores e mais proveitosas, sem levar dema- 
siado.em consideração as vagas indicações e. 


ENSAIOS —I 81 


prognósticos que tiramos da infância. Platão 


em sua República parece dar-lhes importância 


excessiva. 
É a ciência, Senhora, um grande ornamento 
e ferramenta de admirável préstimo, em parti- 


cular para as pessoas de vossa condição social. 
Não tem em verdade seu melhor emprego nas 
mãos humildes e baixas. Orgulha-se muito 
mais em prestar Os seus serviços na direção de 
uma guerra, no governo de um povo, na ami- 
zade de um príncipe, ou de um país estrangeiro 
do que em enunciar uma argumentação dialé- 
tica, em arrazoar um recurso ou receitar um 


punhado "de pílulas. Eis por que vos quero . 


expor, sobre o assunto, idéias.contrárias-à opi- 
nião vulgar. É tudo o que posso para vos servir 
neste caso. E o faço porque estou convencido 
de que não esquecereis a ciência na educação 
“dos vossos, vós que já lhe saboreástes a doçura 
e pertenceis.a uma família de letrados — pois 
temos ainda os escritos dos antigos condes de 


Foix, de que descendeis, vós e o conde; e vosso. 


tio Francisco de Candale continua a produzir 
outros que levarão aos séculos futuros o 
conhecimento dessa qualidade de vossa fami- 
lia. 


A tarefa do preceptor que lhe dareis, e da 
escolha do qual depende todo o efeito da sua 
educação, comporta vários aspectos importan- 
tes; mas não toco nas outras partes por não 

saber dizer nada que valha a pena. Quanto ao 
ponto em que proponho meus conselhos, ele 
me acreditará no que quiser. Para um filho de 
família que procura as letras, não pelo lucro 
(pois um fim tão abjeto é indigno da graça e do 
favor das musas e, por outro lado, não depende 
de nós) nem tanto pelas vantagens exteriores 
que os oferece como pelas suas próprias, e 
para se enriquecer e adornar por dentro para 
um rapaz que mais desejariamos honesto do 
que sábio, seria útil que se escolhesse um guia 
com cabeça bem formada mais do que exage- 
radamente cheia e que, embora se exigissem as 
duas coisas, tivesse melhores costumes e inteli- 
gência do que ciência. Mais ainda: que exer- 
cesse suas funções de maneira nova. 

Não cessam de nos gritar aos ouvidos, como 
que por meio de um funil, o que nos querem 
ensinar, e o nosso trabalho consiste em repetir. 
Gostaria que ele corrigisse este erro, e desde 
logo, segundo a inteligência dã criança, come- 
çasse a indicar-lhe o caminho, fazendo-lhe pro- 
var as coisas, e as escolher e discernir por si 
próprio, indicando-lhe por vezes-o caminho 
certo ou lho permitindo escolher. Não quero 
que fale sozinho e sim que deixe também o dis- 
cípulo falar por seu tumo. 

Sócrates, e posteriormente Agesilau, obriga- 
vam os discípulos a falarem primeiro e somen- 
te depois falavam eles próprios. .“Na maior 


parte das vezes a autoridade dos que ensinam é 
nociva aos que desejam aprender”? * 7. É bom 
que faça trotar essa inteligência à sua frente 
para lhe apreciar o desenvolvimento e ver até 
que ponto deve moderar o próprio andar, pois 
em não sabendo regular a nossa marcha tudo 
estragamos. É uma das mais árduas tarefas 


- que conheço colocar-se a gente no nível da 


criança; € é característico de um espírito bem 
formado e-forte condescender em tornar suas 
as idéias infantis, a fim de melhor guiar a 
criança. Anda-se com mais segurança e firme- 
za nas subidas do que nas descidas. 


Quanto aos que, segundo o costume, encar- 
regados de .instruir. vários espíritos natural- 
mente diferentes uns dos outros pela inteli- 
gência e pelo : temperamento, a todos 
ministram igual lição e disciplina, não é de 
estranhar que dificilmente encontrem em uma 
multidão de crianças somente duas qu três que 
tirem do ensino o devido fruto. Que não lhe 
peça conta apenas das palavras da lição, mas 
também do seu sentido e substância, julgando 
do proveito, não pelo testemunho da memória 
e sim pelo da vida. É preciso que o obrigue a 
expor de mil maneiras e acomodar a outros 
tantos assuntos o que aprender, a fim de verifi- 
car se o aprendeu e assimilou bem, aferindo 
assim o progresso feito segundo os preceitos 
pedagógicos de Platão. É indício de azia e 
indigestão vomitar a carne tal qual foi engoli- 
da. O estômago não faz seu trabalho enquanto 
não mudam o aspecto e a forma daquilo que se 
lhe deu a digerir. 


Nosso espirito, no sistema que condeno, não 
procede senão por crença e adstrito às fanta- 
sias de outrem, servo e cativo de ensinamentos 
estranhos. Tanto nos oprimiram com as anda- 
deiras que já não temos movimentos livres. 


Vigor e liberdade extinguiram-se em nós: 
“nunca se dirigem por si próprios”? “8. Tratei 
intimamente em Pisa com um homem bom, 
mas tão aristotélico que o mais geral de seus 
dogmas é que a pedra de toque e a regrá de 
toda inteligência sólida e de toda verdade estão 
na doutrina de Aristóteles, fora da qual só há 
quimeras e inanidade, pois tudo ele viu e disse. 
Essa afirmação, por ter sido interpretada com 
certa amplitude e malícia, comprometeu du- 
rante muito tempo e muito seriamente seu 
autor junto à Inquisição em Roma. 


Tudo se submeterá ao exame da criança e 
nada se lhe enfiará na cabeça por simples auto- 
ridade e crédito. Que nenhum princípio, de 
Aristóteles, dos -estóicos ou dos epicuristas, 
seja-seu princípio. Apresentem-se-lhe todos em 
sua diversidade e que ele escolha se puder. E se 


247 Cícero. 
248 Sêneca. 


82 MONTAIGNE 


não o puder fique na dúvida, pois só os loucos 


têm certeza absoluta em sua opinião. 

“Nao menos que saber, duvidar me 
apraz? *ºº Porque se por reflexão própria abra- 
çar as opiniões de Xenofonte e Platão, elas dei- 
xarão de ser deles e se tornarão suas. Quem 
segue outrem não segue coisa nenhuma; nem 
nada encontra, mesmo porque não procura. 
“Não estamos sob o domínio de um rei; que 
cada qual se governe a si próprio”? *º, Que ele 
tenha ao menos consciência de que sabe. Não 
se trata de aprender os preceitos desses filóso- 
fos, e sim de lhes entender o espírito. Que os 
esqueça à vontade, mas que os saiba assimilar. 
A verdade e a razão são comuns a todos e não 
pertencem mais a quem as diz primeiro do que 
ao que as diz depois. Não é mais segundo Pla- 
tão, do que segundo eu mesmo, que tal coisa se 
enuncia, desde que a compreendamos e a veja- 
mos da mesma maneira. As abelhas libam flo- 
res de toda espécie, mas depois fazem o mél 
que é unicamente seu e não do tomilho ou da 
manjerona. Da mesma forma os elementos 
tirados de outrem, ele os terá de transformar e 
misturar para com eles fazer obra própria, isto 
é, para forjar sua inteligência. Educação, tra- 
balho e estudo não visam senão a formá-la. 
Que ponha de lado tudo aquilo de que se 
socorreu e mostre apenas o que produziú. Os 
ladrões e os que vivem de empréstimos, fazem 
alarde de suas casas, de suas compras, não do 
que tomam aos outros. Não se conhecem os 
ganhos de um magistrado, vêem-se os casa- 
mentos e as honrarias que arranjou para os 
seus.-Ninguém publica suas receitas e sim suas 
despesas. O proveito de nosso estudo está em 
nos tornarmos melhores e mais avisados. E a 
inteligência, dizia Epicarmo, que vê e ouve; é a 
inteligência que tudo aproveita, tudo dispõe, 
age, domina e reina. Tudo o mais é cego, surdo 
e sem alma. Certamente tornaremos a criança 
servil e tímida se não lhe dermos a oportuni- 
dade de fazer algo por si. Quem jamais pergun- 
tou a seu discípulo que opinião tem da retóri- 


ca, da gramática ou de tal ou qual sentença de- 


Cicero? Metem-nas em sua memória bem 
arranjadinhas, como oráculos que devem ser 
repetidos ao pé da letra. Saber de cor não é 
saber: é conservar o que se entregou à memó- 
ria para guardar. Do que sabemos efetiva- 
mente, dispomos sem olhar para o modelo, 
sem voltar os olhos para o livro. Triste ciência 
a ciência puramente livresca !2 8? Que sirva de 
ornamento mas não de fundamento, como 
pensa Platão, o qual afirma que a firmeza, a 


2*º Dante: Che non men che saper dubbiar 
m'aggrada. 

280 Sêneca. 

281º No texto “suffisance” que parece pejorativo, 


mas significava então, como interpreta Michaut, 
saber ou ciência. (N. do T) 


boa-fé, a sinceridade, são a verdadeira filoso- 
fia, e que as outras ciências, com outros fins, 
não são mais do que brilho enganoso. Queria 
ver se Palnel e Pompeio, esses belos dançari- 
nos de nosso tempo, seriam capazes de nos 
ensinar suas cabriolas pela vista, sem nos fazer 
mudar de lugar, como cs que querem desen- 
volver nossa inteligência sem a excitarem; e se 
podem ensinar-nos a montar a cavalo, manejar 
uma alabarda ou um alaúde, cantar, sem exer- 
cício, como nos querem ensinar a bem julgar e 
bem falar sem nos exercitar nem a uma coisa 
nem a outra. Ora, para exercitar a inteligência, 
tudo o que se oferece aos nossos olhos serve 
suficientemente de livro: a malícia de um 
pajem, a estupidez de um criado, uma con- 
versa à mesa, são, como outros tantos, novos 


assuntos. ; 
Por isso, o comércio dos homens é de evi- 


dente utilidade, assim como a visita a países 
estrangeiros; não para.nos informar, como o 
fazem nossos fidalgos franceses, acerca das 
dimensões da Santa Rotonda, ou da riqueza 
das calças da Signora Lívia, dizer-nos se a ca- 
beça de Nero em uma velha ruína qualquer é 
mais comprida ou mais larga do que em certas 
medalhas, mas para, observar os costumes e O 
espírito dessas nações e para limar e polir 
nosso cérebro ao contato dos outros. Gostaria 
que fizessem a criança viajar desde pequena e 
em primeiro lugar pelos países vizinhos cuja 
língua se afasta mais da nossa, pois se não a 
habituarmos a ela desde cedo, a ela não se 


acostumará. , ; 
Admite-se também geralmente que a criança 


não deve ser educada junto aos pais. A sua 
afeição natural enternece-os e relaxa-os dema- 
siado, mesmo aos mais precavidos. Não são 


“capazes de lhes castigar as maldades nem de a 


verem educada algo severamente como con- 
vém, preparando-a para as aventuras da vida. 
Não suportariam vê-la chegar do exercício, em 
suor e coberta de pó, ou vê-la montada em ca- 
valo bravo ou de florete em punho, contra um 
hábil esgrimista, ou dar pela primeira vez um 
tiro de arcabuz. E no entanto não há outro 
caminho: quem quiser fazer do menino um 
homem não o deve poupar na juventude nem 
deixar de infringir amiúde os preceitos dos mé- 
dicos: “que viva ao ar livre e no meio dos peri- 


gos”? 82, Não basta fortalecer-lhe a alma, é 
preciso também desenvolver-lhe os músculos. 


Terá de se esforçar demasiado se, sozinha, lhe 
couber dupla tarefa. Sei quanto custa à minha 
a companhia de corpo tão frágil, tão sensível e 
que nela confia excessivamente. E vejo muitas 
vezes, nas minhas leituras, que meus mestres 
em seus escritos poem em evidência feitos de 
valentia e firmeza de ânimo que decorrem 
muito mais da espessura da pele e da dureza 


252 Horácio. 


ENSAIOS— 1 83 


dos ossos. Vi homens, mulheres e crianças de 
tal modo conformados que uma bastonada 
lhes dói menos do que a mim um piparote; e 
não tugem nem mugem quando apanham. 
Quando os atletas imitam os filósofos em 
paciência, é de se atribuir a coisa mais ao 
vigor dos nervos que ao da alma. O hábito do 
trabalho leva ao hábito da dor:“O trabalho ca- 
leja para a dor”2º3. É preciso acostumar o 
jovem à fadiga e à aspereza dos exercícios a 
fim de que se prepare para o que comportam 
de penoso as dores físicas, a luxação, as cóli- 
cas, Os cautérios, e até a prisão e a tortura, que 
nestas ele também pode vir a cair nos tempos 
que correm, em que tanto atingem os bons 
como os maus. Estamos arriscados a elas. 
Todos os que combatem as leis ameaçam os 
homens de bem com o chicote e a corda. Por 
outro lado, a presença dos pais é nociva à 
autoridade do preceptor, a qual deve ser sobe- 
rana; e o respeito que lhe têm os familiares, o 
conhecimento da situação e da influência de 
sua família, são a meu ver de muita inconve- 
niência na infância. 

Nessa escola do comércio dos homens, notei 
amiúde um defeito: em vez de procurarmos 
tomar conhecimento dos outros, esforçamo- 
nos por nos tornarmos conhecidos e mais nos 
cansamos em colocar a nossa mercadoria do 
que em adquirir outras novas. O silêncio e a 
modéstia são qualidades muito apreciáveis na 
conversação. Educar-se-á o menino a mos- 
trar-se parcimonioso de seu saber, quando O 
tiver adquirido; a não se formalizar com toli- 


ces e mentiras que se digam em sua presença,: 


pois é incrível e impertinente aborrecer-se com 
o que não agrada. Que se contente com corri- 
gir-se a si próprio e não pareça censurar aos 
outros o que deixa de fazer; e que não contra- 
rie os usos e costumes: “pode-se ser avisado 
sem arrogância”? 5*. Que evite essas atitudes 
indelicadas de dono do mundo, e a ambição 
pueril de querer parecer mais fino por ser dife- 
rente; e não procure (o que não oferece dificul- 
dade) mostrar seu valor pelas suas críticas € 
originalidades. As licenças poéticas não são 
permitidas senão aos grandes poetas; assim 
também somente as almas superiores e ilusires 
têm o privilégio de se alçarem acima dos cos- 
tumes: “se Sócrates e Aristipo nem sempre 
respeitaram os usos e costumes de seu país, 
não julgue que possa agir do mesmo modo; 
grandes e divinos méritos lhes autorizaram tais 
licenças”? 5 8. Ensinar-lhe-ão a somente discor- 
rer e discutir quando encontrar alguém capaz 
de responder, e ainda assim a não empregar 
todos os meios de que disponha mas apenas os 


253 Cícero. 
254 Sêneca. 
255 Cicero. 


mais apropriados a seu assunto. Que o tornem 
exigente na escolha e peneiramento de suas 
razões, amigo da exatidão e, portanto, da bre- 
vidade. Que lhe ensinem sobretudo a ceder e 
sustar a discussão ante a verdade, logo que a 
enxergue, surja ela dos argumentos do adver- 
sário ou de sua própria reflexão, pois não lhe 
cabe desempenhar um papel prescrito e falar 
de cátedra; e se defende uma causa é porque a 
aprova; e não fará como aqueles que vendem 
em moeda sonante a liberdade de poder refletir 
e reconhecer o erro: “ Nenhuma necessidade o 
obriga a defender o que lhe prescrevem e 
ordenam”?2 8 8. 

Se seu preceptor for como eu, formar-lhe-á a 
vontade para que sirva seu príncipe com leal- 
dade, afeição e coragem; mas o desviará de se 
prender a ele senãc por dever cívico. Além de 
vários outros inconvenientes dessas obrigações 
particulares que ferem a nossa liberdade, a opi- 
nião de um homem salariado a serviço de 
outro ou é menos íntegra e livre, ou tachada de 
imprudente e ingrata. Um cortesão não tem 
direito nem vontade de pensar senão bem do 
senhor que, entre tantos milhares de súditos o 
escolhe, atende a suas necessidades e o 
engrandece? *? por suas próprias mãos. Os 
favores € o interesse corrompem-lhe, não sem 
razão, a franqueza. E o deslumbram. Por isso é 
a linguagem dessas pessoas em geral diferente 
das outras linguagens, e pouco digna de fé. 

Que a consciência e a virtude brilhem em 
suas palavras e que só a razão tenha por guia. 
Ensinar-lhe-ão a compreender que confessar o 
erro que descobriu em seu raciocínio, ainda 
que ninguém o perceba, é prova de discerni- 
mento e sinceridade, qualidades principais a 
que deve aspirar. Teimar e contestar obstina- 
damente são defeitos peculiares às almas vul- 
gares, ao passo que voltar atrás, corrigir-se, 
abandonar sua opinião errada no ardor da 
discussão, são qualidades raras, das almas for- 
tes e dos espíritos filosóficos. 

Ensinar-lhe-ão que em sociedade deve pres- 
tar atenção a tudo, pois verifico que os primei- 
ros lugares são muitas vezes ocupados pelos 
menos capazes e o bafejo da sorte quase nunca 
atinge os competentes. Tenho observado que, 
não rarc, enquanto conversam à cabeceira da 
mesa acerca da beleza de uma tapeçaria ou do 


sabor do malvasia, bons ditos se perdem do 


outro lado. Terá de sondar o valor de cada um: 
boiadeiro, pedreiro ou viandante. Cada qual 
em seu domínio pode revelar-nos coisas inte- 
ressantes e tudo é útil para nosso governo. As 


28:68 “Td. 

257 “fever”, não no sentido de educar como pen- 
saram alguns comentaristas, dado o tema do capítu- 
lo, e sim de elevar na posição social. (N. do T.) 


84 MONTAIGNE 


próprias.tolices e fraquezas dos outros nos ins- 
truem. Observando as graças e maneiras de 
todos, será levado a imitar as boas e desprezar 
as más. 

Que lhe incutam no espírito uma honesta 
curiosidade por todas as coisas; que registre 
tudo o que haja de singular à sua volta: um 
edifício, uma fonte, um homem, um antigo 
campo de batalha ou o lugar por onde passa- 
ram César ou Carlos Magno:“Qualo solo que 
enrija com o frio, qual o que se queima ao sol; 
qual o vento marítimo que conduz à Itá- 
lia”2 58. Que se instrua acerca dos costumes, 
dos recursos e alianças de tal ou qual principe. 
É agradável aprender essas coisas, e muito útil 
sabê-las. 

Nessa prática: dos homens, entendo que se 
inclua também, como 'extremamente impor- 
tante, a frequentação daqueles que só vivem na 
memória dos livros. Pela história, entrará na 
intimidade dos grandes homens dos mais belos 
séculos. Pode ser estudo vão, mas pode ser 
igualmente estudo de fruto inestimável, e diz 


Platão que era o único estudo que admitiam os 


lacedemônios. Que proveito não tirarã neste 
assunto da leitura das vidas de Plutarco? Mas 
que-o guia desse menino se lembre do objetivo 
de sua missão e que procure gravar menos no 
seu discípulo a data da destruição de Cartago 
que os costumes de Aníbal ou Cipião; e menos 
o lugar em que morreu Marcelo do que o fato 
de aí ter morrido porque faltou a seu dever. 
Que lhe ensine a apreciar os fatos mais do que 


os registrar. E a meu ver a matéria a que o 


espírito se aplica de mais diferentes maneiras. 
Li em Tito Lívio cem coisas que outros não 
perceberam, e Plutarco leu outras cem que eu 
não vi e talvez diversas das que concebeu o 
autor. Uns estudam a história como um 
gramático? $º, outros como um filósofo que 
analisa e põe em evidência as partes mais difi- 
ceis de penetrar em nossa natureza. Há em 
Plutarco muitos trechos, e extensos, dignos de 
serem lidos, pois o considero mestre na maté- 
ria. Mas há mil assuntos em que apenas tocou 
de leve e simplesmente aponta onde devemos 
ir, se nos apetecer, contentando-se algumas 
vezes em fazer uma alusão no texto palpitante 
de uma narrativa. É preciso tirá-la e realçá-la. 
Assim o que nos diz dos habitantes da Ásia, 
que sempre serviram a um só senhor por não 
saberem pronunciar a palavra “não”, foi sem 
dúvida o que inspirou a La Boétie sua obra “A 
Servidão Voluntária”. Mesmo quando cita 
apenas uma palavra, um ato sem importância 
da vida de alguém, valem suas reflexões um 


258 Propércio. 
259 Decorando. 


tratado. É pena que as pessoas inteligentes 
gostem tanto da brevidade; por certo com isso 
se valoriza sua reputação, mas nós perdemos, 
não aproveitamos tanto. Plutarco prefere que 
em lugar do saber lhe louvem o discernimento; 
gosta mais de nos deixar desejosos do que 
saciados. Sabia que mesmo quando tratamos: 
de assuntos admiráveis em si podemos falar 
demais e que Alexandridas censurou justa- 
mente alguém que dava aos éforos conselhos 
bons mas demasiado longos: “ Ó estrangeiro, 
dizes o que é preciso, mas não como é preci- 
so”. Os que são magros de corpo, engrossam- 
no com enchimentos; os que têm assunto frá- 
gil, incham-no de palavras. 

Da freqientação da sociedade tira-se mara- 
vilhosa clarividência para julgar os homens. 
Vivemos todos apertados, dentro de nós mes- 
mos, e não vemos um palmo diante do nariz. 
Perguntaram a Sócrates de onde era e ele não 


- respondeu: de Atenas, mas: do mundo. Para 


ele, cuja inteligência mais vasta e aberta que a 
de outrem abarcava o universo e dele fazia sua 
cidade, o objeto de sua afeição era o gênero 
humano; e não agia como nós que apenas 


“olhamos em torno de nós. Quando a vinha se - 


queima sob a geada em minha aldeia, o cura 
imagina que a cólera divina ameaça a humani- 


dade e crê que já andam os canibais mortos de 


sede. Ao ver nossas guerras civis, quem não 
grita que toda esta máquina se subverte, que o 
dia do juizo está iminente; sem refletir que já 
se viram coisas piores e que, no entanto, o 
resto do: mundo continua a divertir-se? Eu, em 
sabendo que ponto alcançam neste momento a 
licença e a impunidade, admiro-me de as ver 
tão suaves e brandas. Quem sente sobre a ca- 
beça cair chuva de pedra, logo supõe que todo 


O hemisfério sofre tormenta e tempestade. Pois 


não dizia o camponês saboiano que “se esse 
tolo. rei de França tivesse sabido governar o 


barco era homem para chegar a mordomo do 


duque”? Sua imaginação não bastava para que 


concebesse grandeza mais elevada que a de seu 


senhor. Todos caímos nesse mesmo erro, de 
consegiências grandes e perigosas. Só mede as 
coisas segundo sua verdadeira grandeza, quem 
se representa, como num quadro, essa grande 
imagem da madre natureza na plenitude de sua 
majestade; quem lê em sua face uma variedade 
infinita de formas em. constante transforma- 
ção; quem nela vê, não sua ínfima pessoa mas, 
um reino inteiro..ocupar o espaço de um risco 
de alfinete. 

Este mundo tão grande, que alguns ampliam 
ainda, como as espécies de um gênero, é o 
espelho em que nos devemos mirar para nos 
conhecermos de maneira exata. Em suma, 
quero que seja esse o livro do nosso aluno. A 


ENSAIOS — IT 85 


infinita diversidade de costumes, seitas, juízos, 
opiniões, leis ensina-nos a apreciar sadiamente 
os nossos, a reconhecer suas imperfeições e 
fraquezas naturais, o que já não é pouco. Tan- 
tas revoluções nos diferentes países, tantas 
mudanças nos destinos públicos, induzem-nos 
a não encarar como extraordinários os nossos. 
Tantos nomes, tantas vitórias e conquistas 
enterradas no esquecimento tornam ridícula a 
esperança de eternizar o nosso nome pela cap- 
tura de dez archeiros e de uma piolheira? ºº 
conhecida tão-somente pelos que dela se 
assenhorearam. O fausto orgulhoso de tantas 
cerimônias estrangeiras, a exagerada majes- 
tade de tantas cortes e grandezas fazem-nos cé- 


ticos e permitem à nossa vista sustentar o bri- 


lho das nossas sem nos deslumbrarmos. 
Tantos milhares de homens que nos precede- 
ram no túmulo encorajam-nos a não temer ir 
ao encontro de tão boa companhia no outro 
mundo. E assim o resto. 


Nossa vida, dizia Pitágoras, assemelha-se à 
grande e populosa assembléia dos jogos olim- 
picos. Uns se exercitam para conquistar a gló- 


ria; outros levam sua mercadoria para vender 
e ganhar. Outros, e não são os piores, nada 
querem senão ver o porquê e o como de cada 
coisa e ser espectadores da vida dos outros 
para assim julgarem e regularem a sua. Aos 
exemplos se poderão sempre adaptar as mais 
proveitosas reflexões da filosofia, em cujas re- 
“gras devem inspirar-se as ações humanas. 
Dirão ao jovem: “o que se deve desejar, que 
utilidade tem o dinheiro dificil de ganhar, o 
que exigem de nós a pátria e a família, o que 
quis Deus fosse o homem sobre a terra, que 
lugar lhe assinalou na sociedade, o que somos 
e para que nascemos”? 81, o que significam 
saber e ignorar (objetivo de nosso estudo), o 
que são valentia, moderação, justiça, servidão 
e sujeição, licença e liberdade, como se reco- 
nhece a verdadeira e duradoura alegria, até 
que ponto cumpre temer a morte, a dor e a ver- 
gonha, “e como evitar e suportar as afli- 
ções”2 82, que móveis nos impelem e a causa 
de tantos impulsos diferentes em nós. Porque 
me parece que Os primeiros raciocínios de que 
lhe devem embeber o espírito são os que deve- 
rão regular-nos os costumes e Os juízos, Os que 
lhe ensinarão a conhecer-se, a saber viver e 
morrer bem. 

Entre as artes liberais comecemos pela que 
nos faz livres. Todas contribuem em verdade 
para a nossa instrução e a satisfação de nossas 


2680 No texto “pouillier”” — piolheira, ninho de pio- 
lhos. No caso, lugar ou fortificação de nenhum inte- 
resse ou importância. (N. do T.) 

261 Pérsio. 

262 Virgílio. 


necessidades, como aliás todas as coisas em 
certa medida. Mas ela? 8º passa antes das 
demais, porquanto influi mais diretamente em 
nossa vida e ajuda-nos a orientá-la. 

Se soubéssemos restringir as necessidades 
de nossa existência a justos e naturais limites, 
veriamos que a maior parte das ciências em 
uso é sem utilidade para nós. E mesmo nas que 
nos são proveitosas existem pontos supérfluos 
ou obscuros que fora melhor abandonarmos, 
atendo-nos, como queria Sócrates, ao que 
comportam de útil: “Ousa ser avisado; quem 
adia a hora de viver é como o camponês que 
espera que o rio acabe de correr; mas ele 
passa, e passará rolando eternamente? º 4? 

E de um grande simplismo ensinar aos 
meninos “o sentido dos Peixes, do Leão 


resplendente, ou Capricórnio que se banha nas 


águas da Hespéria”2 85, a ciência dos astros e 
os movimentos da oitava esfera antes de lhes 
abrir os olhos para os próprios sentidos: “que 
tenho a ver com a Plêiade, e a estrela 
boleira?? 8 8” 

Anaximenes escrevia a Pitágoras: “Como 
posso preocupar-me com o segredo das estre- 
las, quando tenho sempre presente a meus 
olhos a morte ou a escravidão?” (Preparavam 
então os reis da Pérsia a guerra contra a sua 
pátcia.) Cada um deve dizer a mesma coisa: 
“assaltado pela ambição, a avareza, a temeri- 
dade, a superstição, e com tantos outros inimi- 
gos dentro de mim, como hei de pensar no 
movimento dos mundos?” 

Depois que lhe tiverem dito o que convém 
para o tornar mais avisado e melhor, falar- 
lhe-ão da Lógica, da Física, da Geometria, da 
Retórica; e como. já terá a inteligência forma- 
da, logo aprenderá a ciência que escolher. O 
ensino deverá ser ministrado ora por conver- 
sas, ora por leituras; ora O preceptor lhe apre- 
sentará o próprio texto do autor mais ade- 
quado ao fim da educação, ora lhe fornecerá 
somente o miolo, a substância. E se, de si 
mesmo, esse preceptor não for tão familiar 
com os livros para neles descobrir o material 
necessário à sua missão, poderão juntar-lhe 
algum letrado que, no momento certo, lhe for- 
neça os alimentos precisos que depois lhe 
caberá distribuir ao seu aluno. O ensino assim 
dado serã mais fácil e natural do que com o 
método preconizado por Gaza. Este enuncia 


preceitos em excesso, prenhes de dificuldades e 
pouco compreensíveis; emprega palavras so- 
noras e vazias que não se entendem e não sus- 
citam nenhuma idéia; no nosso método a alma 


2683 Montaigne, como se induz do trecho que prece- 
de imediatamente, refere-se à filosofia. 

284 Horácio. 

265 Propércio. 

286 Anacreonte. 


86 MONTAIGNE | 


acha a que se apegar, com que se alimentar. O 
que dele tirar o jovem será maior e mais 
depressa amadurecerá. 

É estranho que em nosso tempo a filosofia 
não seja, até para gente inteligente, mais do 
que um nome vão e fantástico, sem utilidade 
nem valor, na teoria como na prática. Creio 
que isso se deve aos raciocínios capciosos e 
embrulhados com que lhe atopetaram o cami- 
nho. Faz-se muito mal em a pintar como 
inacessível aos jovens, e em lhe emprestar uma 
fisionomia severa, carrancuda e temível. Quem 
lhe pôs tal máscara falsa, lívida, hedionda? 
Pois não há nada mais alegre, mais vivo e diria 
quase mais divertido. Tem ar de festa e folgue- 
do. Não habita onde haja caras tristes e 
enrugadas. 

Demétrio, o gramático, encontrando um 
grupo de filósofos sentados junto ao templo de 
Delfos, disse-lhes: “Ou muito me engano, ou 
discorreis de assunto elevado, tanto vos mos- 
trais calmos e alegres.” Ao que lhe respondeu 
Heracleu de Mégara: “São os que sabem se o 
verbo iançar? 8.7 se escreve com s ou cem ç, € 
deblateram acerca da etimologia dos superia- 
tivos pior e melhor que franzem a testa em se 
entretendo de sua ciência predileta. Os estudos 
filosóficos alegram e satisfazem quem os 
empreende, e não o entristecem nem o põem 
carrancudo: “pelo rosto que os reflete igual- 
mente percebem-se os prazeres e os tormen- 
tos'2 88 A alma em que se aloja, a filosofia 
faz com que o corpo participe de sua saúde. 
Leva ao exterior o brilho de seu repouso e de 
sua serenidade; modela o aspecto do corpo e o 
reveste de graciosa segurança, dá-lhe um 
aspecto ativo e alegre, um ar de satisfação e 
bonomia. O mais visível sinal de sabedoria é 
uma alegria constante. O sábio é sempre sere- 
no. São o Barroco e o Baralipton? *º que tor- 
nam seus adeptos sujos e ressequidos; não a 
filosofia, pois mal a conhecem de oitiva. Mas o 
ofício da filosofia é serenar as tempestades da 


alma e ensinar a rir da fome e da febre, não ' 


mediante um epiciclo imaginário qualquer, 
mas por meio de razões naturais e sólidas. 
Tem por fim a virtude, a qual não está, como 
quer a Escolástica, colocada no cimo de algum 
monte alcantilado, abrupto e inacessível. Os 
que dela se aproximaram afirmam-na ao 
contrário, alojada em bela planície, fértil e flo- 
rida, de onde se descortinam todas as coisas. 
Pode-se ir até lá em se conhecendo o local, por 
caminhos ensombrados, cobertos de relva e 


267 Em grego no texto. Não se traduziu literal- 
mente, optou-se por uma equivalência. (N. do T.) 
268 Juvenal. 

269 Yocábulos que então designavam duas das 
dezenove formas de silogismo. 


suavemente floridos, sem esforço e por uma 
subida fácil e lisa como a da 'abóbada celeste. 

Por não terem fregientado essa virtude 
suprema, bela, triunfante, amorosa, tão deli- 
ciosa quanto corajosa, inimiga declarada e 
inconciliável do mau humor, do desprazer, do 
temor e do constrangimento, e que tem por 
guia a natureza e por companheiros a felici- 
dade e a volúpia, foi por não a frequentarem 
que, na sua ignorância, a julgaram tola, triste, 
disputadora, aborrecida, ameaçadora e a colo- 
caram sobre um rochedo afastado, dentro do 
mato, a fim de espantar as gentes como um 
fantasma. 

Meu preceptor, que sabe dever criar no espi- 
rito de seu discípulo mais afeto do que respeito 
pela virtude, dir-ihe-á que os poetas seguem as 
opiniões vulgares e tornar-lhe-à evidente que 
os deuses puseram maiores obstáculos no 
caminho de Vênus que no de Palas. E ao des- 
pertar para o amor, apresentar-lhe-á, para que 
escolha amante, Bradamante ou Angélica, 
aquela, beleza natural, ativa, generosa, vigo- 
rosa mas não machona; esta, beleza mole, afe- 
tada, delicada, artificial. Uma fantasiada de 
rapaz, com brilhante capacete à cabeça; outra 
vestida de rapariga, penteado alto guarnecido 
de pérolas. E verá se o amor confirma a educa- 
ção viril, em sendo a escolha contrária à do 
efeminado pastor da Frígia. E lhe dirá também 
que a recompensa € a grandeza da verdadeira 
virtude estão na facilidade, utilidade e prazer 
do seu exercício; que ela apresenta tão poucas 
dificuldades que nela são igualmente fortes as 
crianças e os homens, os simples e sutis; e faz- 
se pela moderação e não pela força. Sócrates, 
seu adepto favorito, propositadamente recu- 
sou-se a impô-la pela força, e passou a contar 
com a simplicidade e a brandura para fazê-la 
vencedora. É a fonte dos prazeres humanos. 
Tornando-os legítimos, torna-os seguros e 
belos; moderando-os, conserva-lhes a disposi- 
ção; cortando os*que recusa aguça-nos para os 
que nos permite; e deixa-nos com largueza 
todos os prazeres naturais, até à saciedade, 
maternalmente, mas não até o cansaço, pois a 
moderação, que faz parar o bebedor antes da 
embriaguez, o comedor antes da indigestão e o 
lascivo antes do esgotamento, nunca foi inimi- 
ga do prazer. Se não tem a fortuna vulgar, dis- 
pensa-a e fabrica outra inteiramente sua nem 
flutuante nem rodante? 7º. Sabe ser rica, pode- 
rosa e sábia e deitar-se em colchões almiscara- 
dos. Ama a vida, a beleza, a glória, a saúde. 
Mas sua função própria é saber usar esses bens 
moderadamente e perdê-los sem fraquejar, fun- 


270 Alusão à imagem da Fortuna, sobre uma roda 
alada. 


ENSAIOS — I “587 


ção bem mais nobre do que penosa, sem a qual 
decorre a existência fora das regras da natu- 
reza na agitação e na confusão. E então pode- 
sé falar de escolhos, sarças e monstros com 
que depara quem não a conhece. 

Se o aluno for de tão estranho tempera- 
mento que prefira ouvir histórias à narrativa 
de uma bela viagem ou à de sábios propósitos; 
que, ao som do tambor que excita o jovem 
entusiasmo de seus camaradas, se volte para 
quem o convida a ver histriões; que não ache 
mais agradável e reconfortante regressar, em- 
poeirado e vitorioso de um combate do que 
vencedor na péla ou na dança, não vejo outro 
remédio senão que o preceptcr o estrangule 
logo, em não havendo testemunhas, ou que o 
coloque como pasteleiro — ainda que seja 
filho de duque — em qualquer das nossas boas 
cidades, pois ensina Platão que é preciso colo- 
car as crianças, não de acordo com as posses 
dos pais mas segundo as faculdades de seu 
próprio espírito. 

Posto que a filosofia é a ciência que nos en- 
sina a viver e que a infância como as outras 
idades dela pode tirar ensinamentos, por que 
motivo não lha comunicaremos? “Enquanto 
úmida, a argila é mole; apressemo-nos, e que a 
roda ágil em girando a modele? 71.” 

Ensinam-nos a viver quando passada a vida. 
Centenas de estudantes contraem doenças 
venéreas antes de chegarem a aprender o que 
Aristóteles diz da temperança. Cícero afir- 
mava que, embora vivesse duas vidas de 
homem, não gastaria tempo em ler os poetas lí- 
ricos; os disputadores de nossos dias são 
muito mais desoladoramente inúteis. Nosso 
jovem tem mais pressa: não deve ficar entregue 
aos pedagogos senão até aos quinze ou dezes- 
seis anos; o resto é da ação. Empregue-se, pois, 
esse tempo que é curto no ensino do necessá- 
rio. Deixem-se de lado todas as árduas sutile- 
zas da dialética, ilusórias e sem efeito sobre a 
vida; tomem-se os mais singelos preceitos da 


filosofia, escolham-nos com cuidado e tratem- 
nos bem: são mais simples de entender que um 


conto de Boccaccio. Uma criança os aprende, 
ao sair da ama, mais facilmente do que a ler e 
escrever. A filosofia tem regras para os recêm- 


nascidos como para os decrépitos. ; 
Estou de acordo com Plutarco quando diz 


que Aristóteles ocupou menos seu aluno??? 
com a arte do silogismo ou com os princípios 
da geometria do que com bons preceitos sobre 
a valentia, a coragem, a magnanimidade, a 
moderação e o destemor. E com este cabedal o 
enviou, ainda moço, à conquista do império do 
mundo, apoiado apenas em trinta mil infantes, 
quatro mil cavalos e quarenta e dois mil escu- 


271 Pérsio. 
272 Alexandre, o Grande. 


dos. As outras artes e ciências, acrescenta Plu- 
tarco, honrava-as Alexandre e reconhecia O 
que nelas havia de bom e agradável, mas o 
pouco prazer que delas tirava não nos permite 
crer que as quisesse exercer. 

“Buscai nela? 72, jovens e velhos, um obje- 
tivo para vosso espírito; um viático para quan- 
do tiverdes encanecido? 7 *.” 

E o que diz Epicuro no início de sua carta a 
Meniceus: “Por moço que seja, que ninguém se 
recuse a praticar a filosofia, e que os velhos 
não se cansem dela.” Quem procede de outro 
modo parece dizer que ainda não é tempo de 
viver feliz, ou que já o não é. Mas para tais 
ensinamentos não quero que prendam o jovem: 
não quero que o abandonem ao mau humor e à 
cólera de um mestre-escola furioso; não quero 
corromper-lhe o espírito torturando-o com tra- 
balho, como o fazem a outros, catorze a quin- 
ze horas por dia, a exemplo de um carregador. 
Não acharia bom tampouco se, inclinado por 
temperamento para a solidão e a melancolia, e 
manifestando demasiado amor aos livros, lhe 
incentivassem esse gosto; isso os torna inaptos 
para a vida da sociedade e os afasta de melho- 
res ocupações. Quantos homens de meu tempo 
tenho visto embrutecidos por uma temerária 
avidez de ciência! 

Carnéades andava tão obcecado por ela que 
mal tinha tempo para cortar o cabelo e as 
unhas. Não quero estragar suas generosas 
disposições com os processos bárbaros de 
outrem. Dizia-se outrora que a sabedoria fran- 
cesa começava cedo mas durava pouco tempo. 
Convenhamos em que ainda agora não hã 
nada mais interessante do que as crianças fran- 
cesas; mas, em geral, não realizam o que delas 
se espera e depois de grandes não revelam 
excelência nenhuma. Ouvi dizer por pessoas 
sensatas que é porque as mandamos para os 
colégios, que temos em tão grande número; e 
que assim se atoleimam. 

Para nosso jovem, um gabinete, um jardim, 
a mesa e a cama, a manhã e a tarde, todas as 
horas e lugares lhe servirão; em toda parte 
estudará pois a filosofia, que será sua principal 
matéria de estudo; como formadora da inteli- 
gência e dos costumes, tem o previlégio de se 
misturar a tudo. 

Pedindo-se a Isócrates, o orador, que falasse 
de sua arte em um banquete, assim se houve 
com aplauso geral: “Não é hora de fazer o que 
sei, e não sei fazer o que cumpre se faça no 
momento.” Com efeito, discorrer ou divagar 
acerca de temas de retórica em uma assem- 
bléia que se reúne para rir e comer seria mistu- 
ra de má inspiração. E o mesmo se dirá de 
qualquer arte ou ciência. Só a filosofia, na 


273 A filosofia. 
274 Pérsio. 


88 -  MONTAIGNE 


parte em que trata do homem, seus deveres e 
obrigações; não deveria ser recusada nem nos 
festins nem nos jogos como assunto de conver- 
sação. E essa é a opinião de muitos sábios. 
Convidou-a Platão ao seu Banquete e vemos 
como ela entretém os convivas de maneira 
suave, adequada ao tempo e ao lugar, embora 
suas teses figurem entre as mais salutares e de 
maior alcance desse filósofo: “igualmente 
útil aos pobres e aos ricos; desprezá-la preju- 
dica igualmente jovens e velhos”2 7 5, 

É provável que nessas condições nosso 
Jovem ficará menos inútil do que os outros. 
Mas como os passos que damos quando pas- 
seamos numa galeria não nos cansam tanto 
quanto em um caminho determinado, ainda 
que sejam três vezes mais, assim também nos- 
sas lições, dadas ao acaso do momento e do 
lugar, e de entremeio com nossas ações, decor- 
rerão sem que se sintam. Os exercícios e até os 
Jogos, as corridas, a luta, a música, a dança, a 
caça, a equitação, a esgrima constituirão boa 
parte do estudo. Quero que a delicadeza, a 
civilidade, as boas maneiras se modelem ao 
mesmo tempo que o espírito, pois não é uma 
alma somente que se educa, nem um corpo, é 
um homem: cabe não separar as duas parcelas 
do todo. Como diz Platão, é preciso não edu- 
car uma sem a outra e sim conduzi-las de par, 
como uma parelha de cavalos atrelados ao 
mesmo carro. E parece até dar mais tempo e 
cuidado aos exercícios do corpo, achando que 
o espírito se exercita ao mesmo tempo, e não 
ao contrário. 


Seja como for, a essa educação deve proce-: 


der-se com firmeza e brandura e não como é de 
praxe, pois, como o fazem atualmente, em 
lugar de interessarem os jovens nas letras, 
desgostam-nos pela tolice e a crueldade. Dei- 
xem-se de lado a violência e a força: nada a 
meu ver abastarda mais e mais embrutece uma 
natureza generosa. Se quereis que o jovem 
tema a vergonha e o castigo não o calejeis nele. 
Habituai-o ao suor e ao frio, ao vento, ao sol, 
aos acasos que precisa desprezar; tirai-lhe a 


moleza e o requinte no vestir, no dormir, no: 


comer e no beber: acostumai-o a tudo. Que 
não seja rapaz bonito e efeminado, mas sadio € 
vigoroso. Menino, homem velho, sempre tive a 
mesma maneira de pensar a esse respeito. A 
disciplina rigorosa da maior parte de .nossos 
colégios sempre me desagradou. Menos preju- 
diciais seriam talvez se a inclinassem para a 
indulgência. São verdadeiras prisões para cati- 
veiro da juventude, e a tornam cínica e debo- 
chada antes de o ser. Ide ver esses colégios nas 
horas de estudo: só ouvireis gritos de crianças 
martirizadas e de mestres furibundos. Linda 


275 Horácio. 


maneira de acordar o interesse pelas lições 
nessas almas tenras e tímidas, essa de minis- 
trá-las carrancudo e de chicote nas mãos! Que 
método iníquo e pernicioso! E observa muito 
bem Quintiliano que uma autoridade que se 
exerce de modo tão tirânico comporta as mais 
nefastas consequências, em particular pelos 
castigos. Como seriam melhores as classes se 
juncadas de flores e folhas e não de varas 
sanguinolentas! Gostaria que fossem atapeta- 
das de imagens da alegria, do júbilo, de Flora 
e das Graças, como mandou fazer em sua es- 
cola o filósofo Espeusipo. Onde esteja O pro- 
veito esteja também a diversão. Há que pôr 
açúcar nos alimentos úteis à criança e fel nos 
nocivos. É admirável como Platão se mostra 
atento em suas “Leis” à alegria e aos diverti- 
mentos da juventude da cidade e como se atar- 
da na recomendação das corridas, dos jogos, 
das canções, dos saltos e das danças cujo 
patrocínio e orientação se confiaram aos pró- 
prios deuses: Apolo, as Musas, Minerva. Alon- 
ga-se em mil preceitos sobre os ginásios, 
enquanto pouco discorre acerca das letras e 
parece não recomendar particularmente a poe- 
sia, a não ser musicada. 

É preciso evitar, como inimigas da socieda- 
de, todas -as particularidades e originalidades 
de nossos usos é costumes. Quem não se 
espantaria com a compleição de Demofonte, 
mordomo de Alexandre, que suava a.sombra e 
tiritava ao sol? Já vi quem fugisse do cheiro de 
maçã mais do que de tiros de arcabuz; e quem 
sé amedrontasse com um rato ou vomitasse à 
vista de nata; e quem ao ver revolverem um 
colchão de penas sentia náuseas. E Germânico 
não podia suportar nem a vista nem o canto 
dos galos. Tais fenômenos podem provir de al- 
guma predisposição natural que ignoramos, 
mas a meu ver obviariamos a esses males em 
os atacando desde cedo. Assim o consegui em 
mim pela educação, com dificuldades certo, 
mas atualmente, à exceção da cerveja, meu 
paladar acomoda-se indiferentemente a tudo o 
que se come e bebe. Enquanto o corpo é ainda 
maleável, cumpre habituá-lo a toda espécie de 
usos e costumes. E desde que permaneça se- 
nhor de seus apetites e de sua vontade, não se 
hesite em tornar o jovem capaz de fregiientar 
qualquer sociedade, no estrangeiro como jem 
sua terra; e que mesmo, se necessário, saiba 
suportar desregramentos e excessos. Que sua 
conduta se acomode aos costumes e que possa 
fazer todas as coisas mas só goste de fazer as 
boas. Os próprios filósofos não aprovam 
Calístenes que caiu em desgraça por não ter 
querido acompanhar seu senhor, Alexandre, o 
Grande, na bebida. O nosso jovem deverá rir e 
brincar e dar-se a excessos com o seu principe; 


ENSAIOS —I 89 


quero que até na devassidão suplante seus 
companheiros e que não faça o mal por falta 
de vontade e não por carência de forças ou 
informação, pois “é muito diferente não querer 
fazer o mal e não saber fazê-lo”? 7 8. Foi pen- 
sando em prestar homenagem a um senhor (o 
mais afastado, em França, desses excessos) 
que perguntei em certa reunião quantas vezes 
se embriagara na Alemanha por conveniência 
dos negócios do rei. Tomou nesse sentido a 
pergunta e respondeu que o fizera três vezes e 
as contou. Conheço quem se tenha visto emba- 
raçado no trato dos negócios com esse país, 
por não ter igual qualidade. Muitas vezes notei 
com grande admiração a maravilhosa natureza 
de Alcebiades, a qual lhe permitia adaptar-se 
facilmente a tudo, sem prejuízo da saúde, ora 
ultrapassando a suntuosidade dos persas, ora a 
austeridade e a frugalidade dos lacedemônios; 

“tão puritano em Esparta como licencioso em 
Jônia. “Aristipo soube satisfazer-se com todas 
as situações e fortunas”? 7 7. 

Assim desejaria formar o nosso jovem: 
“Admiraria quem não se envergonhe de seus 
trapos nem se espante com a riqueza e desem- 
penhe ambos os papéis de bom grado”? 72. 

Eis as minhas lições. Aproveita-as melhor 
quem as pratica do que quem apenas as sabe. 
Para aquele, ver é ouvir e ouvir é ver. “Graças 
a Deus”, diz alguém em Platão, “filosofar não 
é nem muito aprender nem tratar das artes.” 
“Foi muito mais nos costumes do que nos 
escritos que os filósofos aprenderam a maior 
de todas as artes: a de bem viver”? 7º. 

Leão, príncipe dos fliásios, perguntou a 
Heraclides do Ponto, que ciência ou arte 
professava, ao que ele respondeu: não conheço 
arte nem ciência, sou filósofo. Censuraram 
Diógenes pelo fato de que se metesse a filoso- 
far, ignorante como era; e ele respondeu: mais 
uma razão para isso. E pediu-lhe Hegésias que 
lhe lesse um livro. “Sois divertido”, disse o 
filósofo, “quando tendes figos por escolher, 
escolheis os verdadeiros, os naturais e não os 
pintados; por que não escolheis igualmente 
para discutirdes os assuntos reais, da natureza, 


e não os escritos?” e ' 
Estas lições, o jovem as traduzirá em ações, 


e as aplicará aos atos de sua vida. Ver-se-á 
assim se é prudente em seus cometimentos, se é 
bondoso e justo no seu proceder; se é sensato e 
gracioso no seu falar; se tem ânimo na doença, 
modéstia nos jogos, moderação nos prazeres, O 
gosto fácil no que concerne aos manjares, seja 
carne ou peixe, e no que respeite às bebidas, 


276 Sêneca. 

277 Horácio. 

278 Td. 

279 Cicero. E 


seja vinho ou água; “se seus conhecimentos lhe 
servem, não para mostrar o que sabe mas para 
ordenar seus hábitos; se se domina e obedece a 
si próprio”28º. O verdadeiro espelho de nosso 
pensamento é a maneira de vivermos. 
Zeuxidamo, a alguém que lhe perguntava 
por que os lacedemônios não punham por 


escrito o regulamento da valentia e o davam a 


ler aos jovens, respondeu que era porque que- 
riam antes acostumá-los aos feitos do que às 
palavras. ; 

Ao fim de quinze a dezesseis anos compa- 
re-se o nosso jovem a um desses latinistas de 
colégio que terá levado o mesmo tempo a 
aprender a falar! O mundo é apenas tagarelice 
e nunca vi homem que não dissesse antes mais 
do que menos do que devia. E nisto gastamos 
metade da vida. Obrigam-nos durante quatro 
ou cinco anos a aprender palavras e a juntá-las 
em frases, e outros tantos a compor um longo 
discurso em quatro ou cinco partes; e mais 
cinco pelo menos a aprender a misturâ-las e a 
combiná-las de maneira rápida e mais ou 
menos sutil. Deixe-se isso a quem o faz por 


profissão. 5 k Ma! 
Indo um dia a Orleães encontrei na planície, 


aquém de Clery, dois professores de colégio 
que se dirigiam a Bordéus e marchavam a 
cefca de cinquenta passos um do outro. Pouco 
atrás deles percebi uma comitiva, à frente da 
qual ia o falecido Conde de La Rochefoucauld.' 
Um de meus criados indagou'do primeiro pro- 
fessor quem era o fidalgo que vinha atrás. O 


. professor, que não vira a comitiva e pensava 


aludissem a seu companheiro, deu-nos esta res- 
posta divertida: “Não é um fidalgo, é um 
gramático; quanto a mim, sou um logicista.” 
Nós que não queremos formar nem um gramá- 
tico, nem um logicista, mas um fidalgo, deixe- 
mo-lo a seus lazeres; temos o que fazer 
alhures. 

Se nosso jovem estiver bem provido de 
conhecimentos reais, não lhe faltarão palavras; 
e virão por mal se não quiserem vir por bem. 
Há quem se desculpe por não poder exprimir 
as coisas belas que pretende ter na cabeça e 
lastime sua falta de eloquência para as revelar: 
é mistificação. Quereis saber o que isso signifi- 
ca, a meu ver? É que entrevê algumas vagas 
concepções que não tomaram corpo, que não 
pode destrinçar, e esclarecer, e por conseguinte 
expressar. Não se compreende a si próprio. 
Contemplai-o a gaguejar, incapaz de parir, ve- 
reis logo que sua dificuldade não está no parto 
mas na concepção, e anda ainda a lamber um 
embrião. Acredito, e Sócrates o diz formal- 
mente, que quem tem no espírito uma idéia 
clara e precisa sempre a pode exprimir, quer de 


280 Cícero. 


90 MONTAIGNE . 


um modo quer de outro, por mímica até, se fôr 
mudo: “Não falham as palavras para o que se 
concebe bem”281. Ora, como diz um outro, de 
modo igualmente poético embora em prosa: 
“Quando as coisas se assenhoram do espírito 
as palavras ocorrem”282. ou ainda:“As coisas 
atraem as palavras”?28º. Pode ignorar ablati- 
vos, conjuntivos, substantivos e gramáticas, 
quem é dono de sua idéia; é o que se verifica 
com um lacaio qualquer ou rapariga do “Petit 
Pont”, que são capazes de nos entreter do que 
quisermos sem se desviarem muito mais das 


regras da língua que um bacharel de França.. 


Não sabem retórica nem começam por captar 
a benevolência do leitor ingênuo e nem se 
preocupam com isso. Em verdade, todos esses 
belos adornos se apagam ante o brilho de uma 
verdade simples e natural. Esses requebros ser- 
vem apenas para divertir o vulgo incapaz de 
escolher alimento mais substancial e fino, 
como Afer o demonstra claramente em Tácito. 

Os embaixadores de Samos tinham-se apre- 
sentado a Cleômenes, rei de Esparta, com uma 
bela e longa arenga a fim de convencê-lo a ir à 
guerra contra o tirano Polícrates. Depois de os 
ter deixado falar à vontade, ele respondeu: “De 
vosso exórdio já não me lembro, nem me 
recordo do meio. Quanto à conclusão, não me 
interessa.” Eis, parece-me, uma boa resposta 
aos discursadores bem documentados. 

Há outra: os atenienses deviam escolher 
entre dois arquitetos um para a construção de 
um grande edifício. Apresentou-se o primeiro, 
muito afetado, com um belo discurso cuidado- 
samente preparado acerca do trabalho que ia 
executar, e já O povo se manifestava a seu 
favor quando o segundo pronunciou apenas 
estas palavras: “Senhores atenienses, o que 
este acaba de dizer eu o farei.” 

Pasmavam-se muitos ante a eloglência de 
Cícero no auge de sua força. Catão ria-se tão- 
somente: “Temos”, dizia, “um cônsul diverti- 
do.” Antes ou depois, uma sentença útil, uma 
frase bonita vem a calhar: ainda que não se 
enquadrem no que precede nem no que segue, 
valem por si. Não sou dos que pensam que o 
bom ritmo faz o bom poema; alonguem se 
assim o entenderem uma sílaba breve, se as 
idéias são nele agradáveis, se há espírito e 
inteligência, direi que o poeta é bom, embora 
possa acrescentar que é também mau versifica- 

- dor: “Seus versos são duros mas seu gosto é 
sutil?28 4. Tirem-se de uma obra, diz Horácio, 
todas as suas ligações e medidas (“Trocai o 
ritmo e a medida, invertei a ordem das pala- 
vras, encontrareis o poeta nesses trechos 


281 Horácio. 
282 Sêneca. 
283 Cícero. 
284 Horácio. 


dispersos”28 5), não se destruirá com isso: os 
próprios fragmentos continuarão belos. Foi 
nesse sentido que respondeu Menandro a quem 
“repreenderam porque não começara ainda uma 
comédia prometida para tal dia: “Está com- 
posta e pronta, falta só juntar os versos.” 
Desde que Ronsard e Du Bellay deram relevo 
a nossa poesia francesa, não há aprendiz que 
não se inche de palavras e as cadencie à moda 
deles: “em tudo isso há mais ruído do que 
sentido”28 8, Para o vulgo nunca houve tantos 
poetas. Mas se lhes foi fácil copiar o ritmo 
daqueles mestres, incapazes se mostraram de 
imitar as ricas descrições do primeiro e a deli- 
cada fantasia do segundo. 

Mas que fará o nosso jovem se o apertarem 
com a sofística sutil de algum silogismo, como 
este, por exemplo: o presunto faz beber, beber 
estanca a sede, logo o presunto estanca a sede? 
Rir-se-á, que mais vale rir que responder. Pode 
ainda tirar de Aristipo a divertida resposta 
dada em semelhante ocorrência: “por que o 
resolverei, se não resolvido já me embaraça?” 
A alguém que propunha a Cleantes essas finu- 
ras dialéticas, disse ele: “Vai divertir as crian- 
ças com essas peloticas, não desvies de seus 
pensamentos um homem sério.” Se essas tolas 
argúcias — sofismas retorcidos e espinho- 
sos28 7? — tiverem por fim convencê-lo de uma: 
mentira serão perigosas; mas não terão conse- 
qiências se forem simples farsas, e não vejo 
por que devam preocupá-lo. Há tolos capazes 
de se desviarem do caminho por um bom dito: 
uns “não aplicam as palavras às coisas a que 
pertencem e vão buscar coisas a que possam 
aplicar as palavras”288. outros, “a fim de 
colocar uma frase, embicam por assuntos de 
que não pensavam tratar”2ºº. Prefiro amoldar 
a frase a meu pensamento a modificar minha 
idéia para a engastar. Cabe às palavras se 
adaptarem ao que se quer exprimir e se o fran- 
cês não o pode fazer, empregue-se O gascão. 
Quero que o pensamento a ser comunicado do- 
mine e penetre a imaginação de quem ouve, a 
ponto de que não mais se lembre das palavras. 
Gosto de uma linguagem simples e pura, a 
escrita como a falada, e suculenta, e nervosa, 
breve e concisa, não delicada e louçã, mas vee- 
mente e brusca: “ Que a expressão impressione 
e será certa”2ºº. Uma linguagem antes difícil 
do que aborrecida, sem afetação, ousada, 
desregrada, descosida, expressiva em todos os 
seus aspectos, não uma linguagem pedante, 
fradesca, ou de advogado, mas de preferência 


285 Id. 

286 Sêneca. 
287 Cicero. 
288 Quintiliano. 
289 Sêneca. 
290 Tucano. 


ENSAIOS —I 91 


soldadesca como Suetônio qualifica a de Júlio 
César, embora eu não perceba muito bem por 
quê. 

De bom grado tenho imitado a maneira 
excêntrica de se trajarem os jovens de hoje: 
manto de banda, capa ao ombro, mal esticada 
a meia, pois assim se dão ares de altivo des- 
dém pelas modas estrangeiras e seus artifícios. 
Semelhante atitude no modo de falar me agra- 
da ainda mais. Qualquer afetação, sobretudo 
com a alegria e a liberdade francesas, vai mal 
ao homem de corte, e em uma monarquia 
todos devem ser educados como cortesãos, 
sendo portanto recomendável que nos incline- 
mos um pouco para o natural e o desdenhoso. 

Não aprecio os tecidos em que aparecem a 
trama e as costuras, e em um corpo bem feito 
não se devem ver Os ossos e as veias; “a verda- 
de precisa falar uma linguagem simples, sem 
artifícios; e quem fala com afetação, quem fala 
com artifícios senao aquele que pretende falar 
afetadamente?”2º1 A eloquência que atrai por 
si mesma prejudica as coisas. Assim como é 
pequenez de espírito querer-se distinguir por 
maneiras estranhas de trajar, na linguagem o 
rebuscamento, a procura de expressões origi- 
nais e de vocábulos pouco conhecidos decor- 
rem de uma ambição escolástica e pueril. 
Pudesse eu usar sempre e unicamente a lingua- 
gem que se emprega nos mercados de Paris! 
Errava o gramático Aristófanes em criticar 
Epicuro por causa da simplicidade das pala- 
vras, bem como em seus discursos a perfeita 
clareza da expressão. Imitar alguém em sua 
maneira de falar é fácil, qualquer pessoa o faz 
sem esforço; mais árdua é a imitação da inteli- 
gência e da imaginação. Em geral quem encon- 
tra vestimenta igual pensa erroneamente que 
tem o mesmo corpo; no qual se engana muito. 
A força e os nervos não se tomam de emprés- 
timo: enfeites e capas, sim. A maior parte das 
pessoas que frequento fala como eu nos 
Ensaios, mas não sei se pensa do mesmo 
modo. Os atenienses, diz Platão, falam abun- 
dantemente e com elegância: os lacedemônios 
são lacônicos; os cretenses têm a imaginação 
mais fecunda do que a linguagem; e são os 
privilegiados. Zenão dizia que tinha duas espé- 
cies de discípulos: uns, a que chamava 
“filólogos”, gostavam de aprender as coisas 
por si e eram seus preferidos; aos outros cha- 
mava “logófilos”, e não se importavam senão 
com as palavras. Não é que o bem falar não 
seja bonito e bom, mas não é tanto como o 
apregoam, e lamento que toda a vida se passe 
nisso. Desejaria em primeiro lugar conhecer 
bem a minha lingua e em seguida as dos vizi- 
nhos com quem tenho mais relações. O latim e 


291 Sêneca — reuniram-se as duas citações por 
comodidade tipográfica. 


o grego são sem dúvida belos ornamentos mas 
custam caro demais. Pois direi aqui o modo de 
adquiri-los mais barato que de costume, modo 
esse experimentado por mim mesmo. Quem 
quiser que o adote. 

Meu falecido pai, tendo procurado por 
todos os meios, entre homens de saber e inteli- 
gência, a melhor forma de educação, percebia 
os inconvenientes do método então em uso. 
Disseram-lhe que o tempo que levávamos a 
aprender as linguas que a gregos e romanos 
nada haviam custado era o único motivo por 
que não podíamos alcançar a grandeza de 
alma e os conhecimentos dos antigos. Não 
creio que essa seja a única causa, mas o que 
importa no caso é a solução que meu pai 
encontrou. Logo que desmamei, antes que se 
me destravasse a língua, confiou-me a um ale- 
mão, que morreu médico famoso em França e 
que ignorava completamente. o francês mas 
possuía perfeitamente o latim. Esse alemão, 
que meu pai mandara vir de propósito e paga- 
va muito caro, ocupava-se continuamente de 
mim. Dois outros menos sábios do que ele 
acompanhavam-me sem cessar quando folgava 
o primeiro. Os três só me falavam em latim. 
Quanto aos outros de casa, era regra inviolável 
que nem meu pai, nem minha mãe, nem cria- 
dos ou criadas, dissessem em minha presença 
senão as palavras latinas que haviam apren- 
dido para se entenderem comigo. Excelente foi 
o resultado. Meu pai e minha mãe adquiriram 
conhecimento suficiente dessa língua para um 
caso de necessidade e o mesmo aconteceu com 
as outras pessoas que lidavam comigo. Em 
suma, tanto nos latinizamos que a coisa se 


“estendeu às aldeias circunvizinhas onde ainda 


hoje se conservam, pelo uso, vários nomes lati- 
nos de artífices e ferramentas. Quanto a mim, 
aos seis anos não compreendia mais o francês 
ou o dialeto da terra do que o árabe. Mas sem 
método, sem livros, sem gramática, sem 
regras, sem chicote nem lágrimas, aprendera 
um latim tão puro quanto o do meu professor, 
porquanto nenhuma noção de outra língua o 
podia perturbar. Se por exemplo queriam dar- 
me um tema, à moda dos colégios, tinham que 
o dar em mau latim, a fim de que o vertesse 
para o bom. E Nicolau Gronchi, que escreveu 
“De comitatis romanorum”, Guilherme Gue- 
rente, que comentou Aristóteles, Georges Bu- 
chanan, o grande poeta escocês, Marc Antoine 
Muret, reconhecido na França e na JItália 
como o melhor orador da época, e que foram 
todos meus preceptores, dizem todos que eu 
sabia tão bem o meu latim que temiam discutir 
comigo. Buchanan, que vi mais tarde no sé- 
quito do falecido Marechal de Brissac, disse- 
me que estava escrevendo sobre a educação 


92 MONTAIGNE 


das crianças e que tomava a minha como 
exemplo. Estava então encarregado da educa- 
ção do Conde de Brissac, que depois vimos tão 
valoroso e bravo. 

Quanto ao grego quase não o compreendo. 
Meu pai tentou ensinar-me com método mas 
não como habitualmente, antes sob forma de 
jogo e folguedo. Inscrevíamos as declinações 
em pedacinhos de papel que dobrávamos e 
pregávamos ao acaso, à maneira dos que 
aprendem aritmética ou geometria. Porque 
entre outras coisas lhe tinham aconselhado que 
me levasse a amar as ciências e o dever não 
pela força, mas por minha própria vontade, e 
que me educasse pela doçura e sem rigor nem 
constrangimento, dando-me inteira liberdade. 
E isso até a superstição, porquanto em susten- 
tando alguns que perturba o cérebro tenro da 
criança acordá-la em sobressalto e arrancá-la 
ao sono, mais profundo nelas do que em nós, 
de repente, bruscamente, mandou que me acor- 
dassem ao som de algum instrumento, e nunca 
faltou quem o fizesse. 

Este exemplo basta para julgar do resto, e 
para pôr em evidência, também, a prudência e 
a afeição de meu pai, tão bom e que não-teve 
culpa de não colher fruto que correspondesse a 
tão requintada cultura. Duas foram as causas: 
a primeira, o campo estéril, e impróprio, pois 
embora tivesse boa saúde e fosse de tempera- 
mento brando e fácil, era tão lerdo, mole e apá- 
tico que não me podiam arrancar da ociosi- 
. dade nem para brincar. O que eu via, via bem. 
E sob o aspecto pesado nutria pensamentos 
ousados e opiniões acima de minha idade. Mas 
tinha o espírito lento e que só trabalhava quan- 
do o excitavam. Minha compreensão era tar- 
dia, a inspiração sem vigor, e sobretudo care- 
cia por completo de memória. Com tudo isso, 
não há como espantar não obtivesse meu pai 
algo que valesse a pena. Por outro lado, como 
aqueles que têm um ardente desejo de se curar 
seguem toda espécie de conselhos, esse exce- 
lente homem, temeroso de não poder levar a 
cabo a coisa que tanto desejava, acabou por se 
deixar influenciar -pela opinião comum que 
segue sempre os que vão na frente, como os 
grous, e obedecer ao costume, por já não ter a 
seu lado os que lhe tinham dado as primeiras 
indicações na Itália. E por volta dos seis anos 
mandou-me para o Colégio de Guyenne, o me- 
lhor então em França. Não fora possível juntar 
mais cuidados aos que meu pai teve em dar-me 
professores particulares e atentar para minha 
alimentação em mais de um pormenor contra 
as regras do colégio. Contudo era um colégio. 
Meu latim, do qual perdi o hábito por falta de 
exercício, abastardou-se logo. E o modo inê- 
dito que haviam empregado para mo ensinar 


serviu apenas para me fazer pular as primeiras 
classes. De maneira que com treze anos tinha 
concluído o meu curso, como dizem, mas na 
verdade sem qualquer fruto que seja agora de 
utilidade. 

Meu gosto pelos livros nasceu do prazer que 
tive à leitura das fábulas das “Metamorfoses” 
de Ovídio. Aos sete ou oito anos mais ou 
menos fugia para as ler, desprezando quais- 
quer outros divertimentos; e como a língua era 
minha língua materna?º2, era o livro mais 
fácil que eu conhecia e o mais adequado pelo 
assunto à minha idade. Quanto aos Lançarotes 
do Lago, aos Amadis, aos Huôes de Bordéus, e 
outras obras do mesmo gênero, com que diver- 
tem as crianças, não as conhecia sequer pelos 
títulos e não lhes conheço ainda o conteúdo, 
tao forte foi a minha obediência às proibições 
que me eram impostas. Com essa paixão me 
tornava mais descuidado no estudo das outras | 
matérias, mas felizmente encontrei um homem 
inteligente e cônscio de seu dever de preceptor 
que soube tirar partido desses excessos e de 
outros semelhantes. De modo que devorei de 
fio a pavio a “Eneida”, e Terêncio e Plauto, e 
as comédias italianas, sempre levado pelo que 
essas obras têm de agradável. Se tivesse tido a 
mania de mo impedir, creio que só houvera 
trazido do colégio ódio aos livros, como acon- 
tece com quase toda a nossa nobreza. Proce- 
deu com inteligência, fingindo nada ver, 
aguçando-me a curiosidade com deixar-me ler 
tão-somente às escondidas tais livros e obri- 
gando-me a trabalhar, quanto ao resto, sem 
exagerada autoridade, pois as principais quali- 
dades que buscava meu pai naqueles a quem 
me confiava eram a benevolência e a bondade 
de'espírito. Por isso mesmo não tinha eu outro 
defeito senão indolência e preguiça. Não corria 
o risco de fazer mal, e sim o de não fazer nada. 
Ninguém presumia que me pudesse tornar 
mau; mas inútil, sim. Previam em mim a ocio- 
sidade, não a maldade. Reconheço que foi o 
que sucedeu. As queixas com que me enchem 
os ouvidos são deste gênero: preguiçoso; frio 
nas relações de amizade e parentesco; desinte- 
ressado dos negócios públicos. Os mais maldo- 
sos não dizem: por que tomou? por que não 
pagou? mas sim: por que não faz | tal 
concessão? por que não dá isso ou aquilo? 

Agradeceria muito que não me pedissem 
mais do que devo, mas exigem injustamente o 
que não devo e com bem maior rigor do que 
empregam em exigir deles próprios o que 
devem. Com tais exigências apagam todo o 
mérito da ação e a gratidão que pudera ganhar 


292 O latim, posto que o aprendera, como explica, 


ainda no berço. 


— es = 


ENSAIOS —I 93 


e que devera ser tanto maior quanto o que 
faço, faço-o de boa vontade, não tendo nenhu- 
ma obrigação de fazê-lo. Tenho tanto maior 
liberdade de dispor de minha fortuna quanto 
não a devo a ninguém; e de mim, porquanto 
sou independente. Entreianto, se quisesse enca- 
recer o que faço, ser-me-ija fácil responder a 
essas censuras. E a muitos mostraria que 
cedem à inveja e se ofuscam mencs com que 
não faça bastante do que com a possibilidade 
minha de fazer mais. 

Contudo, meu espírito não deixava ao 
mesmo tempo de ter resoluções firmes, juízos 
seguros e claros sobre objetos de seu conheci- 
mento; e digeria-os sozinho, sem influência 
alheia, e era incapaz de me submeter à força e 
à violência. 

Direi ainda desta qualidade que tinha em 
criança: uma segurança na expressão, uma voz 
e um gesto flexíveis que me permitiam desem- 
penhar qualquer papel? Antes da idade normal 
(“mal entrava eu então no ano doze”?º2), 
representei as primeiras personagens das tragé- 
dias de Buchanan, de Guerente e de Muret 
que dignamente se montaram no Colégio de 
Guyenne. Nisto, como nas demais funções de 
seu cargo, foi André de Gouveia?º*, nosso 
diretor, o maior diretor de França; e era eu seu 
melhor intérprete. É este um exercício que não 
deixo de louvar nos jovens de boa família; vi 


283 Virgílio. 
294 Humanista português (1497-1555). 


depois príncipes nossos entregarem-se a ele, a 
exemplo dos antigos, e o fazerem muito bem. 
Na Grécia até as pessoas de categoria o po- 
diam fazer como profissionais: “revela seu 
plano ao ator trágico Ariston, homem de berço 
e fortuna; sua profissão em nada o diminuia 


posto que nada tinha de desonroso na Gré- 
Gral ra 


Sempre acusei de impertinência os que con- 


- denam tais distrações, e de injustiça os que 


recusam a entrada de nossas cidades aos 
comediantes dignos, privando o povo de um 
prazer público. Os bons governos tratam de 
unir os cidadãos, de os juntar, tanto nos deve- 
res sérios da devoção como nas festividades e 
Jogos; assim se aumentam a solidariedade e a 
amizade. E não se poderia ademais conceder- 
lhes passatempos preferíveis a esses a que 
todos assistem na presença do magistrado. 
Acharia razoável que este e o príncipe, à sua 
custa, o dessem algumas vezes ao povo, com 
afeição e bondade paternal, e que nas cidades 
maiores houvesse lugares destinados a tais 
espetáculos que, por vezes, poderiam desviar 
de más ações para cuja execução se escondem 


os homens. sa Ee 
Para voltar ao assunto, direi que o melhor é 


atrair a vontade e a afeição, sem o que se con- 
seguem apenas asnos carregados de livros. 
Dao-lhes a guardar, com chicotadas, um saco 
de. ciência, a qual, para que seja de proveito, 
não basta ter em casa: cabe desposar. 


295 Tito Lívio 


CAPÍTULO XXVII 


Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso 
unicamente de acordo com a razão 


Não é sem motivo que atribuímos à simpli- 
cidade e à ignorância a facilidade com que cer- 
tas pessoas-acreditam é se deixam persuadir, 
pois penso ter aprendido outrora que acreditar 
é por assim dizer o resultado de uma espécie 
de impressão sobre a nossa alma, a qual a re- 
cebe tanto melhor quantô mais tenra e de 
menor resistência: “Assim como o peso faz 
pender a balança, assim a evidência determina 
o espírito” 2º 8. Quanto mais a alma é vazia e 
nada tem como contrapeso, tanto mais ela 
cede facilmente à carga das primeiras impres- 
sões. Eis por que as crianças, O povo, as 
mulheres e os enfermos são sujeitos a serem 


296 Cícero. 


conduzidos pela sugestão? º 7. Por outro lado, é 
tola presunção desdenhar ou condenar como 
Falso tudo o que não nos parece verossímil, 
defeito comum aos que estimam ser mais dota- 
dos de razão que o homem normal. Esse defei- 
to eu o-tive outrora. Se ouvia falar de almas do 
outro mundo, presságios, encantamentos, feiti- 
çaria, ou de outra coisa em que não acredi- 
tasse: “sonhos, visões mágicas, milagres, feiti- 
ceiras, aparições noturnas e outros prodígios 
de Tessália”2º8, sentia pena desse pobre povo 
de que abusavam com tais fantasias. 


297 No texto “par les oreilles”, pelo que ouvem. 
(N.do T). 
298 Horácio. 


94 MONTAIGNE 


Acho agora que eu também merecia pieda- 
de. Não porque, desde então, a experiência 
haja acrescentado algo a minhas primeiras 
convicções, embora eu tenha procurado verifi- 
car as crenças que recusava, mas minha razão 
me impeliu a reconhecer que condenar uma 
coisa de maneita absoluta é ultrapassar os 
limites que podem atingir a vontade de Deus e 
a força de nossa mãe, a natureza; e que O 
maior sintoma de loucura no mundo é reduzir 
essa vontade e essa força à medida de nossa 
capacidade e de nossa inteligência. Chamemos 
ou não monstros ou milagres às coisas que não 
podemos explicar, não se apresentarão elas em 
menor número à nossa vista. Por certo obser- 
varemos que é mais o hábito do que a ciência 
que nos faz considerá-las naturais: “cansados, 
saciados do espetáculo dos céus, nós não nos 
dignamos mais erguer nosscs olhos para esses 
templos de luz?2ºº. e essas mesmas coisas, se 
com elas deparássemos de novo, nós as acha- 
riamos tão incríveis quanto quaisquer outras: 
“se agora, em virtude de uma aparição repenti- 
na, essas maravilhas se nos oferecessem pela 
primeira vez, que achariamos para as compa- 
rar?” Quem nunca viu um riacho, ao deparar 
com o primeiro, pensou que fosse o oceano; as 
coisas maiores entre as que conhecemos, nós 
as estimamos as maiores em seu gênero: “um 
rio que não é muito extenso parece imenso a 
quem não viu maior; do mesmo modo uma ár- 
vore, e um homem, e qualquer objeto quando 
nada se viu maior na  espécie”390; 
“familiarizados com as coisas que cotidiana- 
mente vemos, não as admiramos mais e não 
procuramos entender as tausas disso”*º1. A 
novidade de uma coisa, mais do que sua 
importância, incita-nos a procurar-lhe a ori- 
gem. O infinito poder da natureza deve ser jul- 
gado com mais deferência e tendo em conta 
nossa ignorância e nossa fraqueza. Quantas 
coisas pouco verossímeis são afirmadas -por 
gente digna de fé! Se seus testemunhos não 
bastam para nos convencer, sejamos ao menos 
prudentes em nosso julgamento, pois conside- 
rá-las impossíveis é vangloriar-se de saber até 
onde vão a possibilidade e a impossibilidade, o 
que, sem dúvida, é presunção exagerada. Se 
aprendêssemos com exatidão a diferença entre 
uma coisa e outra, entre o que está contra a 
ordem e a natureza, e o que se situa simples- 
mente fora do que admitimos comumente, 
entre não acreditar cegamente e não duvidar 
com - facilidade, observariamos fielmente a 
regra do “nada de mais” que Quilon tanto 
recomenda. 


299 Tucrécio. 
300 Td. 
301 Cicero. 


t 

Quando lemos em Froissart que o Conde de 
Foix soube no Béarn da derrota do Rei João de 
Castela, em Jubera, no dia seguinte ao aconte- 
cimento, é as explicações que dá, podemos 
duvidar; o mesmo pode acontecer quando 
vemos nos “Anais” que, no próprio dia da 
morte do Rei Filipe de Nantes, o Papa Hono- 
rato mandou fazer-lhe funerais públicos, orde- 
nando que assim procedessem em toda a Itália. 
Esses testemunhos não terão talvez autoridade 
bastante para nos convencer. Entretanto, se 
entre numerosos exemplos que cita dos anti- 
gos, Plutarco diz saber de fonte fidedigna que, 
no tempo de Domício, a notícia da batalha 
perdida por Antônio, na Alemanha (a várias 
Jornadas de Roma), foi publicada e espalhada 
no mundo inteiro no mesmo dia de sua ocor- 
rência; se César admite que a nova de um 
acontecimento mais de uma vez o precedeu, 
não diremos deles que são pobres de espírito, 
que se deixaram ludibriar como o vulgo ou que 
não são tão clarividentes quanto nós. Pode-se 
exprimir uma opinião com maior delicadeza, 
nitidez e espirito do que Plínio, quando o 
quer? Impossível encontrar juízos mais bem 
fundamentados; nesses pontos não poderíamos 
excedê-lo, e não falo aqui de seu saber tão 
extenso, que entretanto me interessa menos. 
Contudo, não há estudante que o não tache de 
inexatidão e não pretenda ensinar-lhe alguma 
coisa acerca do progresso das obras da 
natureza. 

Quando lemos em Bouchet os milagres das 
relíquias de Santo Hilário, vá ainda que seja- 
mos incrédulos, pcis não tem o autor autori- 
dade suficiente para que o aceitemos sem 
prova. Mas condenar ao mesmo tempo. todos 
os fatos semelhantes que nos são referidos, 
parece-me singular presunção. Santo Agosti- 
nho, esse grande doutor da Igreja, afirma ter 
presenciado em Milão uma criança cega recu- 
perar a vista ao tocar nas relíquias de São Ger- 
vásio e São Protásio: e diz que uma mulher 
cancerosa foi curada em Cartago com o sinal- 
da-cruz que lhe fez uma recém-batizada; e que 
Hespério, um de seus familiares, expulsou os 
espíritos que frequentavam sua casa com um 
pouco de terra trazida do Santo Sepulcro; e 
que essa terra, conduzida mais tarde a Igreja, 
devolveu subitamente o uso de seus membros a 
um paralítico; e que uma mulher, durante uma 
procissão, em levando aos olhos o ramalhete 
com o qual tocara a urna de Santo Estêvão, 
recobrou a vista de há muito perdida; e cita 
outros casos milagrosos a que pessoalmente 
assistiu. Que diremos dele, que os afirma; e dos 
Santos Aurélio e Maximino cujos testemunhos 
invoca? Diremos que se trata de ignorantes e 
de simples de espírito, ou de perversos e 
impostores? Haverá em nosso século alguém 


ENSAIOS — 95 


assaz imprudente para se comparar a ele, tanto 
quanto à virtude e à piedade como quanto à 
inteligência e à capacidade? “Ainda que não 
trouxessem nenhum argumento razoável, eles 
me persuadiriam com a sua autoridade”302 É 
ousadia perigosa e de possíveis conseqiiências 
sérias, fora mesmo do que tem de temerário e 
absurdo, desprezar o que não compreendemos. 
Que após terdes acertado, com vosso julga- 
mento impecávei, os limites entre o verdadeiro 


e o falso, sobrevenham, como é inevitável, 


fatos inegáveis, ultrapassando ainda mais em 
sobrenatural os que recusais, e eis-vos obri- 
gado a vos desmentirdes. 

A meu ver O que acarreta tanta confusão em 
nossas consciências, nestes tempos de pertur- 
bações religiosas, é esse abandono parcial que 
fazem os católicos de sua fé. Imaginam que 
são moderados e sensatos cedendo aos adver- 
sários no que diz respeito a certos pontos em 
litígio; não vêem a vantagem que lhes dão em 
bater em retirada, e quanto essa desistência in- 
cita os outros a prosseguirem, pois os pontos 


302 Cicero. 


em que cedem os católicos e que lhes parecem 
de nonada podem ao contrário ser de grande 
importância. Ora, é necessário, em tudo, 
submetermo-nos aos poderes eclesiásticos que 
reconhecemos; ou tudo lhes recusarmos. Não 
cabe a nós determinar no que lhes devemos ou 
não obediência. Mais ainda (e posso dizê-lo 
porque o experimentei, tendo outrora usado 
essa liberdade de eliminar certas práticas em 
relação às quais julgava não dever observar os 
deveres impostos pela Igreja, porque os achava 
demasiado inúteis ou demasiado singulares, e 
entretendo-me com homens que sabiam a 
fundo a ciência teológica me foi demonstrado 
repousarem eles sobre fundamentos de pri- 
meira ordem e seriedade): é unicamente por to- 
lice e ignorância que os tratamos com menos 
deferência do que o resto. Lembremos em 
quantas contradições tem caído o nosso juiga- 
mento! Quantas coisas que ontem considerá- 
vamos artigos de fé, hoje julgamos fábulas! A 
glória e a curiosidade sao dois flagelos de 
nossa alma; esta nos impele a meter o nariz em 
tudo; aquela nos proíbe deixar seja o que for 
sem decisão ou solução. 


CapítTuLO XXVIII 
Da amizade 


Contemnplando o trabalho de um pintor que 
tinha em casa, tive vontade dê ver como proce- 
dia. Escolheu primeiro o melhor lugar no cen- 
tro de cada parede para pintar um tema com 
toda a habilidade de que era capaz. Em .segui- 
da encheu os vazios em volta com arabescos, 
pinturas fantasistas que só agradam pela varie- 
dade e originalidade. O mesmo ocorre neste 
livro, composto unicamente de assuntos estra- 
nhos, fora do que se vê comumente, formado 
de pedaços juntados sem caráter definido, sem 
ordem, sem lógica e que só se adaptam por 
acaso uns aos outros: “o corpo de uma bela 
mulher com uma cauda de peixe”*ºº. Quanto 
ao segundo ponto fiz, pois, como o pintor, mas 
em relação à outra parte do trabalho, a 
melhor, hesito. Meu talento não vai tão longe, 
e não ouso empreender uma obra rica, polida e 
constituída em obediência as regras da arte. 
Eis por que me veio à idéia tomar de emprés- 
timo a Etienne de la Rcétie algo que honrará, 


303 Horácio. 


em suma, o restante. É um ensaio a que deu o 
título de “Servidão Voluntária”, mas que 
outros, ignorando-o, batizaram mais tarde, e 
com razão, “Contra Um”. Escreveu-o La Boé- 
tie em sua adolescência, a fim de se exercitar 
em favor da liberdade e contra a tirania. Há 
muito circula esse ensaio em mãos de gente 
séria, entre a qual goza de grande e merecida 
reputação, pois é cheio de nobreza e de argu- 
mentação tão sólida quanto possível. E não é 
porque q autor não pudesse ter escrito melhor 
ainda. Se na idade, já mais madura, em que o 
conheci, tivesse, como eu, concebido a inten- 
ção de escrever seus pensamentos, houvera 
deixado coisas notáveis, bem próximas daque- 
las de que se orgulha a antiguidade, pois, em 


* particular quanto a isso, era dotado como nin- 


guém. Esse ensaio, que nunca reviu, creio, de- 
pois de composto, é a única coisa que sobra 
dele; e por efeito do acaso, juntamente com al- 
guns cornentários acerca desse edito de janeiro 
tão famoso na história de nossas guerras civis, 
comentários que encontrarão talvez lugar 


96 /MONTAIGNE 


E 
, 


alhures. Eis tudo o que, além do catálogo das 


obras que possuía e que publiquei /pude reco- 
lher — eu a quem, por afetuosa /atenção, ao 
render o último suspiro, entregou sua biblio- 
teca e seus papéis. Por isso sou Muito apegado 
a esse ensaio, tanto mais quanto foi o ponto de 
partida de nossas relações. Fora-me comuni- 
cado muito antes que conhecesse o autor cujo 
nome só então me foi revelado, e assim se pre- 
parou essa amizade que nos uniu e durou 
quanto Deus o permitiu, tão inteira e completa 
que por certo não se encontrará igual entre os 
homens de nosso tempo. Tantas circunstâncias 
se fazem necessárias para que esse sentimento 
se edifique, que já é muito vê-lo uma vez cada 
três séculos. 

A natureza parece muito particularmente 
interessada em implantar em nós a necessidade 
das relações de amizade e Aristóteles afirma 
que os bons. legisladores se preocupam mais 
com essas relações do que com a, justiça. E 
verdade que a amizade assinala o mais alto 
ponto de perfeição na sociedade. Em geral 
sentimentos a que damos o nome de amizade, 
nascidos da satisfação de nossos prazeres, das 
vantagens que usufruímos, ou de associações 
formadas em vista de interesses públicos ou 
privados, são menos belos, menos generosos, e 
participam tanto menos da amizade, a qual 
tem outras causas, visa a outros fins. Essas 
afeições, que se classificavam outrora em qua- 
tro categorias, segundo fossem ditadas pela 
natureza, a sociedade, a. hospitalidade ou as 
exigências dos sentidos, nem em conjunto nem 
isoladamente atingem o ideal. 7 

Nas relações entre pais e filhos é mais o res- 
peito que domina. A amizade nutre-se de 
comunicação, a qual não pode estabelecer-se 
nesse domínio em virtude da grande diferença 
que entre eles existe, de todos os pontos de 
vista; e esse intercâmbio de idéias e emoções 
poderia por vezes chocar os deveres recíprocos 
que a natureza lhes impôs, pois, se todos os 
pensamentos íntimos dos pais se comuni- 
cassem aos filhos, ocorreriam entre eles fami- 
liaridades inconvenientes. Mais ainda: não 
podem os filhos dar conselhos ou formular 
censuras a seus pais, o que é entretanto uma 
das primeiras obrigações da amizade. 

Entre certos povos é costume que os filhos 
matem os pais; entre outros são os' pais que 
matam os filhos, a fim de evitar, como acon- 
tece às vezes, que se constituam em obstáculos 
recíprocos, porque a natureza pela eliminação 
de um libera o outro. Houve filósofos que afe- 
taram não levar em consideração os laços de 
família. Aristipo, por exemplo, a quem fala- 
vam da afeição que devia aos filhos, saídos 
dele, pôs-se a cuspir dizendo que isso também 
saía dele. E acrescentava que se engendramos 


filhos engendramos igualmente piolhos e ver- 


- mes. Outro, que Plutarco procurava reconci- 


liar com o irmão, respondeu: “Não o estimo 
mais, apenas porque saiu do mesmo buraco”. 


É, em verdade, um belo nome e digno da 
maior afeição o nome de irmão; e por isso La 
Boétie e eu o empregamos quando nos torna- 
mos amigos; mas na realidade, a comunidade 
de interesses, a partilha dos bens, a pobreza de 
um como consequência da riqueza de outro, 
destemperam consideravelmente a união for- 
mal. Em devendo os irmãos, para vencer neste 
mundo, seguir o mesmo caminho, andar com 
passo igual, inevitável se torna que se choquem 
amiúde. Mais ainda: é a correspondência dos 
gostos que engendra essas verdadeiras e perfei- 
tas amizades e não há razão para que ela se 
verifique, entre pai e filho, ou entre irmãos, os 
guais podem ter gostos totalmente diferentes. 
E meu filho, meu parente, mas isso não impede 
que se trate de um indivíduo pouco sociável, 
um mau, um tolo. Nas amizades que nos 
impõem a lei e as obrigações naturais, nossa . 
vontade não se exerce livremente; elas não 
resultam de uma escolha, e nada depende mais 
de nosso livre arbítrio que a amizade e a afei- 
ção. E não digo isso porque não tenha tido a 
oportunidade de conhecer o que de melhor 
pode haver como amizade familiar, porquanto 
meu pai foi o melhor dos pais, o mais indul- 
gente; e assim permaneceu até a mais avan- 
çada velhice. Nossa família era reputada pela 
excelência das relações entre pais e filhos, e a 
concórdia entre irmãos era nela exemplar: 
“conhecido eu mesmo pelo amor paternal que 
dediquei a-meus irmãos”3º *. ; 

Nossa afeição pelas mulheres, embora pro- 
veniente de nossa escolha, não poderia compa- 
rar-se à amizade nem substituí-la. Nos seus 
impulsos, confesso-o: “pois somos também 
conhecidos da deusa que mistura um doce 
amargor às suas preecupaçõés”*º 8, ela é mais 
ativa, mais aguda, mais áspera; é uma chama 
temerária e volúvel, agitada e versátil; cnama 
febril, sujeita a intermitências de temperatura e 
que só nos prende por uma parte de nós. O 
calor da amizade estende-se a todo o nosso 
ser; é geral e igual; temperada e serena; sobe- ' 
ranamente suave e delicada, nada tendo de às- 
pero nem de excessivo. O amor é antes de mais 
nada um desejo violento do que nos escapa: 
“— como o caçador perseguindo a lebre, no 
frio e no calor, por montanhas e vales; desde- 
nha-a ao alcançá-la e só a deseja enquanto a 
persegue na fuga” “0 8, 


304 Horácio. 
305 Catulo. 
306 Ariosto. 


ENSAIOS —I 97 


Quando o amor reveste as formas da amiza- 
de, o que ocorre quando se estabelece uma 
concordância- das vontades, ele se esvai ou 
definha. O gozo apaga-o, porque seu objetivo é 
carnal, e a saciedade o extingue. A amizade, 
ao contrário, cresce com o desejo que dela 
temos; eleva-se, desenvolve-se e se amplia na 
frequentação, porque é de essência espiritual e 
a sua prática apura a alma. Juntamente com 
essa perfeita amizade, conheci outrora essas 
afeições passageiras acerca das quais não fala- 
rei porquanto as descrevem demasiado bem 
estes versos*º?. Estas duas paixões, eu as 
experimentei simultaneamente, sem “as escon- 
der uma da outra, mas sem que jamais tam- 
pouco houvesse competição entre elas: cheia 
de nobreza, manteve-se sempre a primeira nas 
regiões elevadas, olhando desdenhosamente 
para a outra, que, quase invisível, pairava 
muito mais. baixo. 

Quanto ao casamento, além de ser um negó- 
cio em que nossa liberdade se restringe às pri- 
meiras gestões e cuja duração indeterminada 
nos é imposta, conclui-se geralmente em vista 
de outros objetivos e mil e um incidentes estra- 
nhos e imprevisíveis se misturam a ele, o que 
basta para perturbar o curso da mais viva afei- 
ção e romper o fio a que ela se prende. Ao 
passo que, quando se trata de amizade, nada 
intervém senão ela e ela unicamente. A tanto 
se acrescenta não estarem, em geral, as mulhe- 
res em condições de participar de conversas e 
trocas de idéias, por assim dizer necessárias à 
prática dessas relações de ordem tão elevada 
que a amizade cria; a alma delas parece care- 
cer do vigor indispensável para sustentar O 
abraço apertado desse sentimento de duração 
ilimitada e que tão fortemente nos une. 

Por certo, se se pudesse formar com uma 
mulher, livre e voluntariamente, . semelhante 
ligação, em que não apenas a alma provasse 
plena satisfação mas também o corpo encon- 
trasse seu prazer, em que cada qual assim se 
entregasse por inteiro, a amizade seria mais 
perfeita e total; mas não há exemplo de mulher 
que a tanto tenha chegado e, de comum acor- 
do, todas as escolas filosóficas da antiguidade 
concluíram ser isso impossível. 

Esse outro gênero de licenciosidade contra a 
natureza que era permitida entre os gregos, 
mas que nossos costumes reprovam com 
razão, exigindo como exigia certa diferença de 


307 O periodo é confuso. Thibaudet anota: 
“sonetos de La Boétie”, mas Michaut interpreta: 
“estes versos que acabo de citar” e que seriam por- 
tanto os de Ariosto. Na impossibilidade de um 
esclarecimento preciso, respeitamos a letra do texto. 
(N. do T.) 


idade e papéis diferentes, não atendia muito 
mais ao entendimento perfeito e à conformi- 
dade de sentimentos a que a amizade aspira: 
“ Que significa afinal esse amor de amizade? 
Por que não se ama de amor nem um adoles- 
cente feio nem um belo ancião?”?*ºº E não me 
desmentirão os filosófos da Academia, pois 
tomo de empréstimo sua própria descrição: 
esse delírio, dizem eles, inspirado pelo filho de 
Vênus, que desde logo se apodera do amante e 
faz com que se entregue, sobre a flor de moci- 
dade a que se afeiçoou, aos gestos mais extra- 
vagantes e apaixonados que pode insuflar um 
ardor excessivo, era simplesmente provocado 
pela beleza das formas exteriores e uma falsa 
semelhança com o ato do amor. Não era pelo 
espírito que o adolescente, objeto dessa paixão, 
podia inspirá-lo, não estava em condições de 
mostrá-lo, porque jovem demais e em vias de 
desenvolvimento. Se esses transportes tinham 
por objeto um indivíduo de sentimentos vulga- 
res, dinheiro, presentes, honrarias, e outros 
favores igualmente pouco recomendáveis e 
que, de resto, tais filósofos condenavam, eram 
os meios postos em prática para vencer quais- 
quer resistências; se o indivíduo era de caráter 
mais elevado, faziam-se também os meios mais 
honrosos: ensinamentos filosóficos que pro- 
pugnavam respeito à religião, a obediência às 
leis, o devotamento à pátria até o sacrifício da 
vida, a coragem, a sabedoria, a justiça. Era 
então pelas graças do espírito e a elevação da 
alma, compensando a beleza física já gasta, 
que o amante procurava ser aceito por aquele 
a quem propunha uma espécie de associação 
mental na esperança de acordo mais sério e 
duradouro. Realizada a ligação, ocorria um 
momento em que O espirito acordava no ser 
amado sob a influência das qualidades morais 
do amante. Um tal resultado não era imediato, 
pois nossos filósofos não impunham ao aman- 
te nenhum limite de tempo e lhe deixavam toda 
latitude para alcançar seus fins, admitindo que 
tais condições eram ainda mais normais no ob- 
jeto da afeição, porquanto descobrir naquele 
com quem se ligava essas qualidades que cons- 
tituiam uma beleza escondida e ser por elas 
seduzido era coisa longa e dificil. O desejo de 
uma concepção espiritual devia ser o princi- 
pal: a beleza física não passaria de acidente. 
No amante o contrário era o certo e por isso 
davam os filósofos preferência ao papel do 
amado e pensavam que assim quisessem os 
deuses. Daí a censura ao poeta Ésquilo que 
invertera esses papéis nos amores de Aquiles e 
Pátrocio, dando o papel de amante a Aquiles, 
o qual imberbe e adolescente fora o mais belo 


PO É CCO. 


98 MONTAIGNE 


dos gregos. Desta ligação moral e física, e da 
afeição dela decorrente, elemento essencial e 
confessável, diziam eles que resultavam conse- 
quências muito úteis tanto para os interessados 
como para o país. Que contribuíam antes de 
mais nada para o fortalecimento da nação que 
aceitava o costume, e se constituta em princi- 
pal defesa da justiça e da liberdade, como o 
testemunhavam os salutares amores de Har- 
módio e Aristogiton. Daí, tacharem-na de divi- 
na, não tendo sido hostilizada senão pelos tira- 
nos e a covardia do povo. 

Todavia, pode-se alegar em favor da Acade- 
mia o fato de que tais amores acabavam por se 
tornar amizades, o que se adapta bastante bem 
à definição que os estóicos dão do amor:“O 
amor é o desejo de alcançar a amizade de uma 
pessoa que nos atrai pela beleza”*º.º. 


Volto à minha tese que diz respeito a uma 
amizade mais natural e estimável: “A amizade 
atinge sua irradiação total na maturidade da 
idade e do espírito”? 1º. 

Em suma, isso a que chamamos comumente 
amigo e amizade não passam de ligações fami- 
liares, travadas ao sabor da oportunidade e do 
interesse e por meio das quais nossas almas se 
entretêm. Na amizade a que me refiro? "1, as 
almas entrosam-se e se confundem em uma 
única alma, tão unidas uma à outra que não se 
distinguem, não se lhes percebendo sequer a 
linha de demarcação. Se insistirem para que eu 
diga por que o amava, sinto que o não saberia 
expressar senão respondendo: porque era ele; 
porque era eu. 

E mais do que poderia dizer, de uma manei- 
ra geral e no caso em apreço, intervém em tiga- 
ções dessa natureza uma força inexplicável e 
fatal que eu não saberia definir. Nós nos 
procurávamos antes de nos termos visto, pelo 
que ouvíamos um acerca do outro, e nascia em 
nós uma afeição em verdade fora de propor- 
ções com o que nos era relatado, no que vejo 
como que um decreto da Providência. Abraça- 
vamo-nos pelos nossos nomes e em nosso pri- 
meiro encontro casual em Bordéus, por oca- 
sião de uma festa pública e em numerosa 
companhia, sentimo-nos tão atraídos um pelo 
outro, já tão próximos, já tão íntimos que 
desde então não se viram outros tão íntimos 
como nós. La Boétie escreveu em latim uma 
sátira que se publicou, na qual justifica e expli- 
ca como nossa amizade tão repentina alcançou 
tão rapidamente esse grau de perfeição. Devia 
durar tão pouco, formara-se tão tarde (éramos 
ambos homens feitos e ele um pouco mais 


308 Cicero. 


310 Cicero. 
311 A amizade com La Boétie. 


velho do que eu) que não havia tempo a perder 
e não podia essa amizade tomar por modelo 
outras amizades banais e moles que são neces- 
sariamente precedidas de frequentação mais 
ou menos prolongada. A nossa foi única no gê- 
nero e deve-se tão-somente a si própria. Não 
ocorreu em consequência de um fato especi- 


“fico, ou de dois, de três ou de mil; a ela fomos 


levados por não sei que atração total, a qual 
em se assenhoreando de nossas vontades as 
impeliu a um impulso simultâneo e irresistível 
de se perderem uma na outra, de se fundirem 
em uma só. E digo “perderem-se” porque na 
verdade essa associação de nossas almas se 
efetuou sem reserva de espécie alguma; nada 
tinhamos mais que nos pertencesse pessoal- 
mente, que fosse dele ou meu. 

Quando, após a condenação de Tibério 
Graco, em presença dos cônsules romanos que 
intentavam processo contra os que o haviam 
acompanhado, perguntou Lélio a Caio Blós- 
sio, o mais intimo amigo do condenado, até 
que ponto teria acedido às solicitações de 
Graco, respondeu-lhe Blóssio: — “Até o fim.” 
— “Como até o fim? E se houvesse mandado 
incendiar os templos?” — “Jamais o houvera 
feito.” — “Mas se o fizesse?” — “Eu obedece- 
ria.” Amigo de Graco em toda a força do 
termo, como no-lo dizem os historiadores, não 
temia ofender os cônsules com uma resposta 
tão ousada e não queria que pensassem não ter 
ele absoluta certeza da vontade de seu amigo. 
Os que consideram essa resposta sediciosa não 
compreendem o ascendente que ele exercia 
sobre tal vontade, o conhecimento que dela 
tinha e a segurança do que podia ser. Não con- 
seguem entender esse mistério: Graco e ele 
eram amigos e mais amigos do que cidadãos, e 
mais do que amigos ou inimigos de seu país. 
Sua ambição, seus projetos subversivos vi- 
nham depois da amizade; tinham-se dado 
inteiramente um ao outro, suas vontades mar- 
chavam lado a lado, Imaginai-os guiados pela 
virtude e a razão — e não poderia ser de outro 
Jeito — e convireis em que a resposta de Blós- 
sio foi a que devia ser. Se tivessem divergido 
em suas ações, não teriam sido amigos um do 
outro, da maneira por que compreendo a ami- 
zade. Ademais, essa resposta não significa 
muito mais do que se eu afirmasse que, em me 
vindo a mim mesmo vontade de matar minha 
filha, eu o faria. Isso não quer dizer que seme- 
lhante idéia esteja nas minhas intenções, pois 
não duvido um só instante de meu- domínio 
sobre a minha vontade, como não ponho em 
dúvida a deste meu amigo. Todos os argumen- 
tos do mundo não me tirarão a certeza que 
tenho de suas intenções e de sua maneira de 
pensar. Nenhuma de suas ações poderia ser-me 


ENSAIOS — I 99 


apresentada sem que de imediato lhe perce- 
besse o móvel. Nossas almas caminharam tão 
completamente unidas, tomadas uma pela 
outra de tão ardente afeição, essa afeição que 
penetra e lê no fundo de nós mesmos, que não 
somente eu conhecia a sua como a minha, mas 
teria, nas questões de meu interesse pessoal, 
mais confiança nele do que em mim mesmo. 

Não se ponham no mesmo plano as amiza- 
des comuns; conheço-as tão bem quanto qual- 
quer outro e algumas das mais perfeitas no gê- 
nero, mas seria um erro confundir-lhes as 
regras. Nessas outras amizades há sempre que 
segurar as rédeas e caminhar com prudência; o 
nó da união não é de tal solidez que não se 
deva desconfiar dele. “Amai”?, dizia Quilon, 
“como se tivésseis um dia que odiar, odiai 
como se tivésseis de amar.” Este princípio, 
abominável no caso de uma amizade exclusiva 
que nos possua por inteiro, é salutar quando se 
trata dessas amizades verificáveis no curso 
habitual da existência e às quais se aplicam 
estas palavras de Aristóteles: “Ô meus amigos, 
um amigo é coisa que não existe.” 

Entre amigos, unidos por esse nobre senti- 
mento, Os serviços e favores, elementos essen- 
ciais às outras amizades, não entram em linha 
de conta e isso porque as vontades intima- 
mente fundidas são uma só vontade. Assim 
como a afeição que tenho por mim não se am- 
plia com um serviço que preste a mim mesmo 
(embora os estóicos afirmem o contrário); 
assim como não sou grato a mim mesmo do 
serviço prestado por mim mesmo, assim tam- 
bém a união de tais amigos atinge tal perfeição 
que os leva a perder a idéia de se deverem al- 
guma coisa, e odiar e rechaçar todas essas 
palavras que tendem a estabelecer uma divisão 
ou diferença, como o favor, obrigação, reco- 
nhecimento, pedido, agradecimento e outras. 
Efetivamente, em tudo lhes sendo comum, von- 
tade, pensamento, maneira de ver, bens, mu- 
lheres, filhos, honra e até a vida, e em procu- 
rando ser apenas uma alma em dois corpos, na 
expressão muito certa de Aristóteles, nada se 
podem pedir ou dar. Eis por que os legislado- 
res, com o fito de emprestar ao casamento uma 
vaga semelhança com essa ligação de essência 
divina, proíbem as doações entre marido e 
mulher, tentando assim levar-nos a entender 
que o que é de cada um deve ser de ambos e 
que nada do que lhes pertence se pode dividir 
ou atribuir pessoalmente a um dos cônjuges. 

Se nessa amizade a que me refiro, um ptdes- 
se dar alguma coisa ao outro, o benfeitor é que 
seria o favorecido. Colocando ambos acima de 
tudo a felicidade de obsequiar o outro, quem 
dá a seu amigo a oportunidade de fazê-lo é 
quem se mostra mais generoso, pois lhe outor- 


ga a satisfação de realizar o que mais lhe 
apraz. Quando o filósofo Diógenes precisava 
de dinheiro dizia que ia reclamá-lo dos amigos, 
e não que lhes ia pedir. À fim de exemplificar 
com um fato esse estado de alma, vou apelar 
para os antigos. O corintiano Eudaâmidas tinha 
dois amigos: Charixênio de Licíon e Areteu de 
Corinto. Era pobre e eles ricos. Às vésperas de 
morrer, assim redigiu seu testamento: “Lego a 
Áreteu o cuidado de tomar conta de minha 
mãe e suprir-lhe as necessidades durante a 
velhice; a Charixênio a obrigação de desposar 
minha filha e constituir-lhe um dote tão eleva- 
do quanto possível. No caso em que um deles 
venha a morrer, lego sua parte ao outro.” Os 
primeiros que viram o testamento muito 
caçoaram dele, mas os herdeiros o aceitaram 
com uma alegria espantosa. Vindo a falecer 
Charixênio cinco dias depois, Areteu substi- 
tuiu-o na parte que lhe cabia e tratou cuidado- 
samente do sustento da mãe;.e, elevando-se seu 
patrimônio a cinco talentos, deu dois e meio à 
sua própria filha, que era filha única, e dois e 
meio de dote à filha de Eudâmidas. E as casou 
ambas no mesmo dia. 

Este exemplo seria perfeito sem o número de 
amigos, pois essa perfeita amizade é indivisi- 
vel. Cada qual se entrega tão inteiramente ao 
outro que nada resta por dividir. Ao contrário, 
lamenta não ser duplo ou triplo ou múltiplo e 
não ter várias almas para as entregar todas ao 
mesmo. As amizades comuns podem dividir- 
se: pode-se apreciar a beleza em certo amigo, e 
noutro o bom gênio. Num a liberalidade, nou- 
tro o modo pcr que se conduz como pai, e em 
outro ainda sua afeição fraternal, etc. Mas 
essa amizade que nos enche a alma e a domina 
não pode subdividir-se. Se temos dois amigos e 
ambos ao mesmo tempo pedem socorro, a 
quem acudiremos? Se solicitam favores anta- 
gônicos, qual deles atenderemos? Se um nos 
exige silêncio acerca de alguma coisa que inte- 
ressa ao outro, que faremos? Com um amigo 
único que ocupe em nossa vida lugar prepon- 
derante estamos desobrigados de tudo. O 
segredo que jurei não comunicar a ninguém, 
posso, sem ser perjuro, comunicá-lo a quem 
não é outro senão eu mesmo. Já é grande mila- 
gre dobrar-se assim. Os que falam de triplicar- 
se não lhe percebem a grandeza. Nada que 
possui seu semelhante é extremo. Quem supõe 
que, tendo dois amigos ama tanto um quanto o 
outro, e tanto quanto se amam entre si e quan- 
to o amam igualmente, imagina ser possível 
multiplicar e transformar em confraria essa 
coisa única e homogênea tão dificil de encon- 
trar no mundo. À história de Eudâmidas o 
confirma: emprega seus amigos segundo suas 
necessidades e com isso lhes outorga um favor 


100 


que testemunha sua amizade para com eles; 
dá-lhes generosamente os meios de lhe serem 
úteis e a afeição que lhes dedica é muito maior 
ainda que a de Areteu. 

Em suma, trata-se de sensações incompreen- 
síveis a quem não as sentiu e que fazem com 
que eu aprecie tanto a resposta daquele jovem 
soldado a quem Ciro perguntava quanto que- 
ria pelo cavalo com o qual acabara de ganhar 
uma corrida, e se o trocaria por um reino: 
“Seguramente não, senhor, e no entanto eu o 
daria de bom grado se com isso obtivesse a 
amizade de um homem que eu considerasse 
digno de ser meu amigo.” E estava certo ao 
dizer “se”, pois se encontramos facilmente ho- 
mens aptos a travar conosco relações superfi- 
ciais, O mesmo não se verifica quando procura- 
mos uma intimidade sem reservas. É preciso 
então que tudo seja límpido e ofereça segu- 
rança total. 

No que concerne às ligações que se susten- 
tam por um só ponto, basta atentar para.o que 
é suscetível de comprometer a solidez desse 
ponto. Não me importa a religião de meu mé- 
dico ou de meu advogado, porquanto nada tem 
a ver com os serviços que deles espero. Assim 


penso em relação à minha criadagem. Não me 


informo acerca da castidade de um lacaio, 
quero saber somente se é eficiente; se preciso 
de um palafreneiro não me preocupo em verifi- 
car se é jogador e sim se não é imbecil; pouco 
se me dá seja meu cozinheiro um desbocado, 
conquanto saiba cozinhar; aliás, não me meto 
a ensinar às gentes o que devem fazer; outros 
se encarregam disso. Digo simplesmente o que 
faço: “Assim procedo; quanto a vós, fazei 
como entenderdes” 312. 

A farniliaridade da mesa associo a pessoa 
agradável, não o sábio; para o leito procuro a 
beleza e não a bondade; para conversar, O 
homem competente, ainda que careça de 


nobreza de alma. E em tudo penso da mesma 
maneira. y 
Assim como aquele que foi encontrado 


montado a cavalo numa vassoura brincando 
com os filhos, pedia a quem o surpreendera 
que nada dissesse a ninguém antes de ser pai, 
na convicção de que os sentimentos, que uma 
tal qualidade faria nascer nele, o tornariam 
mais apto a entender a infantilidade, gostaria 
de me dirigir aqui somente a pessoas que te- 
nham conhecido aquilo de que falo, não igno- 
rando eu, embora, que uma tal amizade é rara 
e nao esperando portanto deparar com um 
bom juiz. As próprias obras que a esse respeito 
nos legou a antiguidade parecem-me insossas, 
se comparadas com os sentimentos que experi- 
mento e cujos efeitos ultrapassam até os pre- 


312 Terêncio. 


MONTAIGNE 


ceitos dos filósofos: “Enquanto for clarividente, 
não encontrarei nada comparável a um terno 
amigo” 13, 

Dizia Menandro que podia estimar-se feliz 
quem tivesse encontrado a sombra de um 
amigo. E tinha por certo razão de o dizer 
mesmo que houvesse conhecido tal felicidade. 
Se, com efeito, comparo o resto de minha vida, 
a qual graças a Deus me foi suave e fácil, isen- 
ta de aflições penosas (à exceção da perda de 
meu amigo), cheia de tranquilidade de espírito, 
tendo-me contentado com as vantagens que 
devo à natureza e a minha condição social sem 
procurar outras; se comparo minha vida intei- 
ra aos quatro anos durante os quais me foi 
dado gozar a companhia tão amena de La 
Boétie, ela não passa de fumaça. É uma noite 
escura e aborrecida. Desde o dia em que o 
perdi, “dia infeliz, mas que honrarei sempre, 
porquanto tal foi a vontade dos Deuses”?! *, 
não faço senão me arrastar melancolicamente. 
Os próprios prazeres que se me oferecem, em 
vez de me consolar ampliam a tristeza que 
sinto da perda, pois éramos de metade em tudo 
e parece, hoje, que lhe sonego a sua parte: 
“assim decidi não mais participar de nenhum 
prazer, agora que já não tenho aquele com 
quem tudo dividia”3 18. 

Já me acostumara tão bem a ser sempre dois 
que me parece não ser mais senão meio: 
“como uma morte prematura roubou-me a me- 
lhor parte de minha alma, que fazer com a 
outra? Um só e mesmo dia causou a perda de 
ambos”??? 8. Nada fazia, nem um só pensa- 
mento tinha que não lhe percebesse a ausência, 
como certamente, em caso semelhante, eu lhe 
faltaria. Porque se me ultrapassava em méritos 
de toda espécie e em virtude, também me 
sobreexcedia nos deveres da amizade: “Por 
que se envergonhar? Por que deixar de chorar 
tão querida alma?”3*? “Ó irmão, como sou 
infeliz por te haver perdido! Contigo perece- 
ram de um só goipe todas as nossas alegrias e 
esse encanto que tua suave amizade deitava em 
minha vida. Ao morrer, irmão, despedagaste 
toda a minha felicidade; minha alma desceu ao 
túmulo com a tua. Desde que não és mais, 
disse adeus ao estudo e a todas as coisas da 
inteligência”318. “Não poderei mais falar-te e 
ouvir-te? Nunca mais te verei, então, ó irmão 
mais caro do que a vida! Ah, ao menos amar- 
te-ei sempre”*1º, 


313 Horácio. 
314 Virgílio. 
315 Terêncio. 
316 Horácio. 
317 Td. 

318 Catulo. 
219 Td. 


ENSAIOS—I 101 


Projetara incluir aqui seu “Discurso sobre a 
Servidão Voluntária”; mas esse escrito foi 
posteriormente publicado. Os que o publica- 
ram, indivíduos que procuram perturbar nossa 
situação política atual, e modificá-la, sem 
saber se a melhorarão, fizeram-no de má fé, 
intercalando-o entre outros escritos de autoria 
alheia e concebidos dentro de um mau espírito, 
razão pela qual desisti de meu intento. Não 
querendo entretanto que sobre a memória do 
autor pese a opinião desfavorável de quem não 
o viu de perto nas suas opiniões e ações, advir- 
to que este ensaio, que foi composto na sua 
juventude e tão-somente a título de exercício, 
ventila um tema frequentemente tratado nos 
livros. Não ponho em dúvida que La Boétie 
pensasse O que escrevia, pois era demasiado 
consciencioso para mentir, mesmo em se diver- 
tindo. E sei também que se pudesse escolher 
teria preferido nascer em Veneza a nascer em 


CAPÍTULO 


Este capítulo comporta os vinte e nove sone- 
tos de La Boétie, que Montaigne dedica a Mme 
de Grammont, Condessa de Guiche. Não figu- 
ra — salvo a dedicatória, de nenhum interesse 
sem os sonetos — na edição de La Pléiade, 


Sarlac; e com razão. Mas obedecer e subme- 
ter-se às leis sob as quais vivia era um princi- 
pio que, para ele, primava entre os demais. 
Nunca houve melhor cidadão; ninguém dese- 
Jou mais a tranqiilidade de seu país, nem foi 
mais inimigo das perturbações e das idéias 
novas que ocorreram em seu tempo. Muito 
mais se devotara a extingui-las do que a fornecer 
argumentos que lhes favorecessem a propaga- 
ção. Seu espírito era moldado sobre o modelo 
de séculos diferentes dos nossos. 

Em troca dessa obra apresentarei outra, 
mais livre e leve, elaborada nessa mesma fase 
de sua vida?2º, 


320 Os sonetos de La Boétie, que Montaigne apre- 
senta no capítulo seguinte, podem ser lidos em algu- 
mas edições dos “Ensaios”. Não os reproduz a edi- 
ção de La Pléiade. (N. do T.) . 


RXIX 


organizada e anotada por Thibaudet, e de cujo 
texto, por ser o mais fiel, nos vimos valendo 
nesta tradução. Deixamos, portanto, igual- 


mente, de incluí-lo. 
N. do T. 


CAPÍTULO XXX 


Da moderação 


Como se tivéssemos infeccioso o tato, ecor- 
re-nos corromper em as manuseando, as coisas 
que, em si, são belas e boas. A virtude pode 
tornar-se vício se ao seu exercício nos dedica- 
mos com demasiada avides e violência. E 
jogam com as palavras os que dizem não haver 
excesso na virtude porque não há virtude onde 
há excesso: “Não é sábio o sábio, nem justo o 
Justo, se seu amor à virtude é exagerado?? 1.” 

Trata-se de uma sutileza filosófica. Pode-se 
dedicar imoderado amor à virtude e ser exces- 
sivo em uma causa justa. Preconiza o apósto- 


321 Horácio. 


lo, a esse respeito, um equilíbrio razoável: 
“Não sejais mais comportados do que o neces- 
sário; ponde alguma sobriedade no bom 
comportamento” 22. Vi um dos grandes deste 
mundo prejudicar a religião por se entregar a 
práticas religiosas incompatíveis com a sua 
condição social. Aprecio os caracteres mode- 
rados e prudentes: ultrapassar a medida, ainda 
que no sentido do bem, é coisa que me espanta, 
se não me incomoda, e a que não sei como 
chamar. Mais estranha do que justa se me afi- 
gura a conduta da mãe de Pausânias que foi a 


322 São Paulo. 


102 MONTAIGNE 


primeira a denunciá-lo e a contribuir com a 
primeira pedra para a morte do filho?2º; nem 
tampouco aprovo a atitude do ditador Postú- 
mio mandando matar o filho que, no entu- 
siasmo da mocidade, saíra das fileiras para 
atacar O inimigo, com felicidade aliás. Não me 
sinto propenso nem a aconselhar nem a imitar 
tão bárbara virtude, e tão cara. Falha o 
archeiro que ultrapassa o alvo da mesma 
maneira que aquele que o não alcança. Minha 
vista se perturba se de repente enfrenta uma 
luz violenta, e então vejo tão pouco como na 
escuridão. 

Calicles diz, em Platão, que a filosofia leva- 
da ao extremo é prejudicial e aconselha que 
não nos dediquemos a ela além dos limites de 
sua utilidade. Praticada com moderação é 
agradável e cômoda; mas se ultrapassa tais 
limites, ela acaba tornando o homem inso- 
ciável e viciado, desdenhoso da religião e das 
leis que nos governam, inimigo da boa conver- 
sação, dos prazeres permitidos, incapaz de 
exercer funções públicas, de prestar socorro a 
alguém e a si próprio, bom para ser impune- 
mente esbofeteado. Calicles tem razão: levada 
ao exagero, a filosofia escraviza nossa fran- 
queza natural e, mediante sutilezas importu- 
nas, nos desvia do belo caminhe que a natu- 
reza nos traça. 

A sa que dedicamos às nossas mulhe- 
res é legítima. Não deixa entretanto a teologia 
de freá-la e de restringi-la. Creio ter lido outro- 
ra em Santo Tomás um trecho em que, entre 
outras razões alegadas contra o casamento de 
parentes próximos, havia esta: a possibilidade 
de ser a amizade, por uma mulher nessas 
condições, imoderada. Porque se à afeição 
inteira, perfeita e natural do marido pela mu- 
lher se acrescenta ainda a do parentesco, é de 
se temer que a sobrecarga arraste o homem 
para além do razoável. 

As ciências que regem os costumes, como a 
teologia e a filosofia, tudo controlam. Não hã 
ato privado e secreto que não conheçam e que 
escape à sua jurisdição. Errados os que lhe 
censuram tal ingerência, pois nisso se asseme- 
lham às mulheres que se entregam a todas as 
fantasias mas se envergonham de se mostrar 
ao médico. Que os maridos — se ainda exis- 
tem demasiado propensos às relações conju- 
gais — saibam que esses prazeres são reprova- 
dos quando não há moderação e que assim 
também podem pecar por licenciosidade e 
desregramento tal qual nos casos de relações 


323 A mae de Pausânias depositara um tijolo dian- 


te do templo de Minerva onde se refugiara o rei seu. 


filho. Os lacedemônios, aprovando-lhe o julgamento 
simbólico, ergueram muros em torno do refúgio e 
assim forçaram o prisioneiro a morrer de fome. 


ilegitimas. Ag carícias vergonhosas a que a 
paixão pode impelir no ardor dos primeiros 
transportes, em se tratando de nossas mulhe- 
res, são não apenas indecentes mas ainda 
prejudiciais. Que não seja, ao menos, por 


nosso intermédio que aprendam o despudor. 


Para as nossas necessidades não precisam ser 
mais sabidas do que são. Quanto a mim, nunca 
agi senão de maneira mais simples e natural. 

G casamento é uma ligação consagrada pela 
religião e o respeito; eis por. que o prazer que 
dele auferimos deve ser um prazer recatado, 
sério, até certo ponto austero; deve ser um ato 
de volúpia particularmente discreto e conscien- 
cioso. Sendo o seu objetivo essencial a procria- 
ção, há quem duvide de sua legitimidade se 
não tivermos a esperança de um fruto, como 
no caso de estar a mulher grávida ou ser dema- 
siado idosa. Trata-se então de um homicídio, 
segundo Platão. 

Em certos povos, em particular entre os 
muçulmanos, é abominável ter relações se- 
xuais com uma mulher grávida. E há quem 
reprove igualmente qualquer aproximação 
com a mulher nas épocas de suas regras. Zenó- 
bia somente dava satisfação ao marido em 
vista da concepção. Deixava-o em seguida 
divertir-se com outras durante a gravidez e só 
9 aceitava novamente depois do parto. Eis um 
belo exemplo de casamento. 

É provável que Platão tenha colhido em 
algum poeta esfaimado de prazeres a seguinte 
história: Júpiter, de uma feita, andava em tal 
estado de excitação que, sem esperar que sua 
mulher alcançasse o leito, a possuiu no chão 
mesmo, e com a violência do prazer esqueceu 
as grandes e importantes resoluções que aca- 
bara de tomar em sua corte celeste, de acordo 
com os outros deuses; e vangloriava-se do fato 
dizendo que a sensação de então fora tão gran- 
de quanto a que tivera ao desvirginá-la às 
escondidas dos pais. 

Os reis da Pérsia admitiam que suas mulhe- 
res lhes fizessem companhia nos festins, mas 
quando o vinho começava a esquentar os espí- 
ritos e que não podiam mais conter-se, manda- 
vam-nas de volta a seus apartamentos a fim de 
que não compartilhassem dos apetites imode- 
rados, e determinavam que fossem substituídas 
por cortesãs, às quais não deviam o mesmo 
respeito. 

Não são decentes para todas as pessoas os 
mesmos prazeres. Epaminondas mandara en- 
carcerar um jovem debochado; pediu-lhe Peló- 
pidas que o soltasse. Epaminondas recusou-o; 
cedeu entretanto à solicitação da jovem aman- 
te do rapaz, dizendo que tal satisfação se dava 
a uma amiga e não a um capitão. Sófccles, 
quando pretor juntamente com Péricles, disse 


ENSAIOS — 103 


ao ver passar um belo rapaz: Oh! que lindo 
jovem! Ao que Péricles atalhou: uma tal 
exclamação seria permitida a qualquer um 
menos a um pretor, pois o magistrado deve ser 
casto e não só nas ações como nos olhares. 

O Imperador Élio Vero respondeu à sua 
mulher, que se queixava de que ele a abando- 
nasse para ter relações alhures: que o fazia 
porque era consciencioso, porquanto o casa- 
mento é ato digno e honroso e não de lasciva 
concupiscência. Nossa história eclesiástica 
conservou e honrou a memória daquela mulher 
que repudiou o marido não querendo prestar- 
se a suas carícias insolentes e desregradas. 

Em suma, não há prazer, por mais legítimo, 
que não seja censurável em seus excessos. A 
bem dizer o homem é um pobre animal. Tem 
apenas um prazer, um único cujo gozo pleno e 
-puro a natureza lhe concede, e sua razão reco- 
menda que não abuse dele. Não se acha bas- 
tante miserável, é preciso ainda que pelo racio- 
cinio e o estudo aumente sua miséria: 
“esforçamo-nos nós mesmos por agravar a 
miséria de nossa condição”32 *. 

A sabedoria humana tolamente se empenha 
em restringir o número e o sabor dos nossos 
prazeres, ao passo que se mostra judiciosa- 
mente engenhosa em dissimular ou embelezar 
os males da existência, atenuando-lhes os efei- 
tos. Se estivesse em mimº? 8, houvera seguido 
caminho mais natural, isto é, verdadeiro, cô- 
modo e perfeito? 2 º, e talvez tivesse conseguido 
contê-la, embora nossos médicos, tanto os do 
espírito como os do corpo, e como que de 
comum acordo, só considerem capazes de 
curar ou mitigar nossas enfermidades fisicas e 
morais, OS tormentos, a dor, o esforço penoso. 
Para tanto, inventaram-se as vigílias, Os jejuns, 
os cilícios, os exílios longínquos e voluntários, 
a prisão perpétua, as vergas e outras aflições, 
mas aflições reais de que resultem tristes 
mortificações e não como ocorreu com um tal 
Gálio, o qual, exilado em Lesbos, aí levava 
uma vida airosa. Souberam em Roma que o 
que lhe haviam imposto como castigo se trans- 
formara em prazer. Voltaram atrás então e o 
chamaram para junto da mulher e da família, 
com ordem de não se deslocar, regulando 
assim a natureza do castigo pelos seus efeitos. 
Em verdade, não seria O jejum regime salutar 
para quem com ele se sentisse mais alegre e 
saudável; ou o peixe para quem o preferisse à 
carne. Da mesma forma, na outra terapêutica 


324 Propércio. 

328 No texto: “si J'eusse été chef de part” — Se 
fosse chefe de seita — que Thibaudet interpreta 
como “se tivesse autoridade para”... (N. do T.) 
326 “Saincte” — santo, perfeito. (N. do T.) 


são as drogas sem efeito para quem as toma 
com prazer, pois O amargor e o suplício de 
tomá-las ajuda a cura. O ruibarbo perderia sua 
eficiência em quem o aceitasse de bom grado; 
para que opere é preciso que o remédio excitê 
o estômago e a regra que determina que cada 
coisa seja curada pela coisa contrária falha 
aqui: o mal é que cura o mal. 

Esta impressão tem alguma relação com 
essa outra mui antiga, de conciliar o céu e a 
natureza mediante sacrifícios humanos, e que 
tiveram universalmente todas as religiões. 
Ainda em épocas mais ou menos recentes 
Amurat, por ocasião da tomada do istmo de 
Corinto, imolou seiscentos jovens gregos à 
alma de seu pai, a fim de que o sangue redi- 
misse os pecados do defunto. 

Nessas regiões ultimamente descobertas, 
ainda puras e virgens comparativamente às 
nossas, é costume sejam os ídolos embebidos 
de sangue humano, o que por vez ocorre em 
meio a horríveis requintes de crueldade. As vi- 
timas são queimadas vivas e retiradas da 
fogueira semi-assadas, para que lhes arran- 
quem o coração e as entranhas. Alhures esfo- 
lam-nas vivas e com a pele sanguinolenta 
revestem outras pessoas, ou as mascaram, e 
assim procedem mesmo quando as vítimas são 
do sexo feminino. Isto dá azo por vezes a 
exemplos notáveis de firmeza de ânimo e de 
resolução. Esses infelizes, velhos, mulheres e 
crianças, destinados ao sacrificio, vão eles pró- 
prios esmolar oferendas para a cerimônia e se 
apresentam ao massacre dançando e cantando 
junto com os espectadores. 

Os embaixadores do rei do México, que- 
rendo dar a Cortez uma alta idéia do poder de 
seu senhor, após afirmar que tinha trinta vas- 
salos, cada qual com um exército de cem mil 
guerreiros, e que ele residia na cidade mais 
bela e forte do mundo, acrescentaram que lhe 
cumpria sacrificar aos deuses cinquenta mil 
homens anualmente. E disseram ainda que se 
mantinha em estado de guerra contra alguns 
grandes povos vizinhos, não somente a fim de 
exercitar a juventude do império mas ainda 
para suprir com prisioneiros a cerimônia. Com 
esse mesmo Cortez aconteceu em certa aldeia 
sacrificarem em sua honra cinquenta homens. 
E mais um fato: alguns desses povos, vencidos 
por ele, enviaram-lhe uma delegação a fim de 
reconhecer sua autoridade e obter sua amiza- 
de. E os mensageiros ofereceram-lhe presentes 
de três espécies, dizendo: “Senhor, eis cinco 
escravos. Se és um deus altivo, que se alimente 
de carne e sangue, come-os; mais ainda te 
amaremos. Se és um deus complacente, aqui 
estão incenso e plumas. Se és um homem, 
toma estes pássaros e estes frutos.” 


104 MONTAIGNE 


CAPÍTULO XXXI 


Dos canibais 


Quando o Rei Pirro entrou na Itália, e veri- 
ficou a formação de combate do exército 
romano, disse: “ Não sei que espécie de bárba- 
ros são estes (pois os gregos assim chamavam 
a todas as nações estrangeiras), mas.a forma- 
ção de combate, que os vejo realizar, nada tem 
de bárbaro”.. A mesma coisa diziam os gregos 
do exército que a seu país Flamínio conduziu. 
E Filipe assim falou igualmente, ao perceber 
do alto de um outeiro a bela ordenação do 
acampamento daquele que, sob Públio Sulpt- 
cio Galba, acabava de entrar em seu reino. 
Isso mostra a que ponto devemos desconfiar 
da opinião pública. Nossa razão, e não o que 
dizem, deve influir em nosso julgamento. 

Durante muito tempo tive a meu lado um 
homem que permanecera dez ou doze anos 
nessa parte do Novo Mundo descoberto neste 
século, no lugar em que tomou pé Villegaignon 
e a que deu o nome de “França Antártica”. 
Essa descoberta de um imenso país parece de 
grande alcance e presta-se a sérias reflexões. 
Tantos personagens eminentes se enganaram 
acerca desse descobrimento que não saberei 
dizer se o futuro nos reserva outros de igual 
importância. Seja como for, receio que tenha- 
mos os olhos maiores do que a barriga, mais 
curiosidade do que meios de ação. Tudo abra- 
çamos mas não apertamos senão .vento?? 7. 

Platão mostra-nos Sólon afirmando ter ou- 
vido dos Sacerdotes de Saís, no Egito, que 


antes do dilúvio existia em frente de Gibraltar 
uma grande ilha chamada Atlantida, mais 


extensa do que a África e a Ásia reunidas e 
que os reis déssa região não possuíam apenas a 
ilha mas exerciam igualmente sua autoridade 
tao longe, em terra firme, que ocupavam a 
África até o Egito e a Europa até a Toscana. 
Que haviam empreendido ir até a Ásia e subju- 
gar as nações do Mediterrâneo até o golfo for- 
mado pelo mar Negro; que para tanto haviam 


atravessado a Espanha, a Gália, a Itália e che- 
gado à Grécia onde os atenienses sustaram a 


arremetida; que algum tempo depois sobre- 
viera o dilúvio que os afogara juntamente com 
os atenienses e sua ilha. 


327 Quem tudo aharca nada aperta. (N. do T.) 


É muito provável que nesse cataclismo hor- 
rível as águas tenham provocado modificações 
inimagináveis em todos os países habitados da 
terra. Assim é que se atribui à ação das águas 
do mar a separação da Sicília com a Itália: 
“Dizem que essas regiões, outrora um só conti- 
nente, foram violentamente separadas pela 
força das águas”*?2º. e a da ilha de Chipre 
com a Síria e a da de Negroponto com a terra 
firme da Beócia. Em compensação, alhures, o 
mar teria juntado terras separadas por estrei- 
tos que foram aterrados por limo e areia: “um 
pantanal há muito estéril, e que percorriam a 
remo, alimenta hoje as cidades vizinhas e 
conhece o arado fecundo do lavrador”*2º. 

Não hã muitos indícios entretanto de que 
seja a Atlântida o Novo Mundo que acabamos 
de descobrir, pois quase tocava a Espanha e 
seria efeito incrível da inundação tê-la trans- 
portado à distância, em que se encontra, de 
mais de mil e duzentas léguas. Ademais os 
navegadores modernos já verificaram não tra- 
tar-se de uma ilha, mas de um continente con- 
tíguo às Índias Orientais, por um lado, e por 
outro às terras dos pólos; e se destes se acha 
separada é por tão pequeno estreito que não se 
deve tampouco considerá-la uma ilha. 

Creio que ocorreram nessas grandes massas 
movimentos semelhantes aos que se constatam 
em nossas regiões, naturais uns, acidentais e 
violentos outros. Quando observo a ação exer- 
cida pelo rio Dordonha, no decurso de minha 
existência, abaixo de casa, na margem direita; 
quando vejo quanto em vinte anos conquistou 
de terras, e o que solapou de alicerces das 
construções erguidas à sua margem, concluo 
que não se trata de um fato normal. Se, com 
efeito, assim tivesse sido sempre, ou que isso 
devesse continuar, a configuração do mundo 
acabaria por mudar. Mas esses movimentos 
não são constantes: ora as âguas se expandem 
por um lado, ora por outro; e ora param. Não 
falo aqui das cheias súbitas cujas causas 
conhecemos. Na região de Médoc, junto ao 
mar, item meu irmão, Sr. de Arzac, uma de 


328 Virgilio. 
329 Horácio. 


ENSAIOS —I 


suas terras enterradas sob as areias que o mar 
lhe vai jogando em cima. Os telhados de algu- 
mas habitações se vêem ainda e essa proprie- 
dade e suas culturas transformaram-se em bem 
magras pastagens. Dizem os habitantes que de 
uns tempos para cá avança o mar tão rapida- 
mente que já perderam quatro léguas de terras. 
Essas areias são seus arautos; como uma espé- 
cie de dunas movediças precedem-no de cerca 
de meia légua e conquistam insensivelmente a 
região. 

Outro testemunho da antiguidade, que se 
quer aplicar a esse descobrimento, se encon- 
traria em Aristóteles, se for de sua autoria a 
obra intitulada “Maravilhas Extraordinárias”. 
Nela se conta que alguns cartagineses, tendo- 
se aventurado pelo Atlântico afora, alêm do 
estreito de Gibraltar, teriam acabado, após 
uma longa navegação, por descobrir uma 
grande ilha férti!, coberta de bosques, regada 
por grandes e profundos rios, e muito afastada 
da terra firme. E que atraídos, eles e outros 
mais tarde, pela qualidade e fertilidade do solo, 
para ali teriam transportado suas mulheres e 
filhos, nela se fixando. De tal amplitude se 
revestira essa migração que as autoridades de 
Cartago teriam proibido expressamente e sob 
pena de morte que emigrassem quaisquer 
outros. E teriam expulso da ilha cs que ali já 
residiam, com receio de que se multiplicassem 
a ponto de suplantar e arruinar o domínio da 
metrópole. Esta narrativa de Aristóteles, tal 
qual a de Sólon, não deve referir-se às nossas 
novas terras. 


O homem que tinha a meu serviço, e que 
voltava do Novo Mundo, era simples e gros- 
seiro de espírito, o que dá mais valor a seu 
testemunho. As pessoas dotadas de finura 
observam melhor e com mais cuidado as coi- 
sas, mas comentam o que vêem e, a fim de 
valorizar sua interpretação e persuadir, não 
podem deixar de alterar um pouco a verdade. 
Nunca relatam pura e simplesmente o que 
viram, e para dar crédito à sua maneira de 
apreciar, deformam e ampliam os fatos. A 
informação objetiva nós a temos das pessoas 


muito escrupulosas ou muito simples, que não 
tenham imaginação para inventar e justificar 
suas invenções e igualmente que não sejam 
sectárias. Assim era o meu informante, o qual, 
ademais, me apresentou marinheiros e comer- 
ciantes que conhecera na viagem, o que me 
induz a acreditar em suas informações sem me 
preocupar demasiado com a opinião dos 
cosmógtrafos. Fora preciso encontrar topógra- 
fos**ºque nos falassem em particular dos 


330 Exploradores. 


105 


lugares por onde andaram. Mas, porque levam 
sobre nós a vantagem de ter visto a Palestina, 
reivindicam o privilégio de contar o que se 
passa no resto do mundo. Gostaria que cada 
qual escrevesse o que sabe e sem ultrapassar os 
limites de seus conhecimentos; e isso não só na 
matéria em apreço mas em todas as matérias. 
Há quem tenha algum conhecimento especial 
ou experiência do curso de um riacho, sem 
saber de resto mais do que qualquer um, e no 
entanto para valorizar sua pitada de erudição 
atira-se à tarefa de escrever um tratado acerca 
da configuração do mundo. Este defeito muito 
comum acarreta graves inconvenientes. 


Mas, voltando ao assunto, não vejo nada de 
bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles 
povos; e, na verdade, cada qual considera bár- 
baro o que não se pratica em sua terra. E é 
natural, porque só podemos julgar da verdade 
e da razão de ser das coisas pelo exemplo e. 
pela idéia dos usos e costumes do país em que 
vivemos. Neste a religião é sempre a melhor, a 
administração excelente, e tudo o mais perfei- 
to. A essa gente chamamos selvagens como 
denominamos selvagens os frutos que a natu- 
reza produz sem intervenção do homem. No 
entanto aos outros, àqueles que alteramos por 
processos de cultura e cujo desenvolvimento 
natural modificamos, é que deveríamos aplicar 
o epíteto. As qualidades e propriedades dos 
primeiros são vivas, vigorosas, autênticas, 
úteis e naturais; não fazemos senão abastar- 
dá-las nos outros a fim de melhor as adaptar a 
nosso gosto corrompido. Entretanto, em certas: 
espécies de frutos dessas regiões, achamos um. 
sabor e uma delicadeza sem par e que os torna 
dignos de rivalizar com os nossos. Não há 
razão para que a arte sobrepuje em suas obras 
a natureza, nossa grande e poderosa mãe. 
Sobrecarregamos de tal modo a beleza e rique- 
za de seus produtos com as nossas invenções, 


que a abafamos completamente. Mas, onde 
permaneceu intata: e se mostra como é real- 
mente, ela ridiculariza nossos vãos e frívolos 
empreendimentos: “a hera cresce ainda melhor 
sem cuidados; o medronheiro nunca se apre- 
senta tão belo como nos antros solitários e o 
canto dos pássaros é assim tão suave porque 


natural?3º1. Nem apelando para todas as nos- 
sas forças e os nossos talentos seriamos capa- 
zes de reproduzir o ninho do pássaro mais 
insignificante, com sua contextura e sua bele- 
za, nem de o tornar adequado ao uso a que se 
destina; e não saberíamos tampouco tecer a 
teia de uma mirrada aranha. Todas as coisas, 
disse Platão, produzem-nas a natureza ou o 


331 Propércio. 


106 MONTAIGNE 


acaso, ou a arte. As mais belas e grandes são 
frutos das duas primeiras causas; as menores € 
mais imperfeitas, da última. 

Esses povos não me parecem, pois, merecer 
o qualificativo de selvagens somente por não 
terem sido senão muito pouco modificados 
pela ingerência do espírito humano e não have- 
rem quase nada perdido de sua simplicidade 
primitiva. As leis da natureza, não ainda 
pervertidas pela imisção dos nossos, regem- 
nos até agora e mantiveram-se tão puras que 
lamento por vezes não as tenha o nosso mundo 
conhecido antes, quando havia homens capa- 
zes de apreciá-las. Lamento que Licurgo e Pla- 
tão não tenham ouvido falar delas, pois sou de 
“opinião que o que vemos praticarem esses 
povos, não somente ultrapassa as magníficas 
descrições que nos deu a poesia da idade de 
ouro, é tudo o que imaginou como suscetível 
de realizar a felicidade perfeita sobre a terra, 
mas também as concepções e aspirações da 
filosofia. Ninguém concebeu jamais uma sim- 
plicidade natural elevada a tal grau, nem nin- 
guém jamais acreditou pudesse a sociedade 
subsistir com tão poucos artifícios. É um país, 
diria eu a Platão, onde não há comércio de 
qualquer natureza, nem literatura, nem mate- 
máticas; onde não se conhece sequer de nome 
um magistrado; onde não existe hierarquia 
política, nem domesticidade, nem ricos e 
pobres. Contratos, sucessão, partilhas aí são 
desconhecidos; em matéria de trabalho só 
sabem da ociosidade; o respeito aos parentes é 
o mesmo que dedicam a todos; o vestuário, a 
agricultura, o trabalho dos metais aí se igno- 
ram; não usam vinho nem trigo; as próprias 
palavras que exprimem a mentira, a traição, a 
dissimulação, a avareza, a inveja, a calúnia, O 
perdão, só excepcionalmente se ouvem. Quan- 
to a República que imaginava lhe pareceria 
longe de tamanha perfeição ! “São homens que 
saem das mãos dos deuses” 332, “Como essas, 
foram as primeiras leis da natureza” 23. 


A região em que esses povos habitam é de 
resto muito agradável. O clima é temperado a 
ponto de, segundo minhas testemunhas, rara- 
mente se encontrar um enfermo. Afirmaram 
mesmo nunca terem visto algum epiléptico?* 4, 
remeloso, desdentado ou curvado pela idade. 
A região estende-se à beira-mar e é limitada do 
lado da terra por platôs e altas montanhas, a 
cerca de cem léguas, o que representa a 
profundidade de seus territórios. Têm peixe e 
carne em abundância, e de excelente qualida- 


332 Sêneca. 

333 Virgílio. 

334 No texto “aucun tremblant”, o que supomos 
referir-se à epilepsia. (N. do T.) 


de, contentando-se com os grelhar para os 
comer. O primeiro indivíduo que viram a cava- 
lo inspirou-lhes tal pavor que embora já hou- 
vessem estado com ele de outras feitas, o mata- 
ram a flechadas e só então o reconheceram. 
Suas residências constituem-se de barracões: 
com capacidade para duzentas a trezentas pes- 
soas, e são edificadas com troncos e galhos** 8 
de grandes árvores enfiados no solo e se 
apoiando uns nos outros na cumeada, à seme- 
lhança de certos celeiros nossos cujos tetos 
descem até o chão fechando os lados. Possuem 
madeiras tão duras que com elas fabricam 
espadas e espetos para grelhar os alimentos. 
Seus leitos, formados de cordinhas de algodao, 
suspendem-se ao teto, como nos nossos navios. 
Cada qual tem o seu, dormindo as mulheres 
separadas dos maridos. Levantam-se-com o sol 
e logo merendam, não fazendo outra refeição 
durante o resto do dia. Não bebem ao se 
alimentarem, agindo nesse ponto, segundo Sui- 
das, como outros povos. Fora das refeições, 
bebem quanto e quando querem. Sua bebida 
extrai-se de certa raiz; tem a cor de nossos cla- 
retes e só a tomam morna. Conserva-se apenas 
dois ou três dias, com um gosto algo picante, 
sem espuma. É digestiva e laxativa para os que 
não estão acostumados e muito agradável para 
quem se habitua a ela. Em lugar de pão, 
comem uma substância branca parecida com o 
coentro cozido. Experimentei, é doce e algo 
insosso. Passam o dia a dançar; os jovens vão 
à caça de animais grandes contra os quais 
empregam o arco unicamente. Enquanto isso, 
uma parte das mulheres diverte-se com prepa- 
rar a bebida, o que constitui sua principal 
ocupação. 

Todas as manhãs, antes que iniciem a refei- 
ção, um ancião percorre o barracão, que tem 
bem cem passos de comprimento, e prega aos 
ocupantes sem cessar as mesmas coisas: valen- 
tia diante do inimigo e amizade a suas mulhe- 
res. E nunca esquêcem, ao fazer esta última 
recomendação, de lhes lembrar que são elas 
que fabricam a bebida e a conservam morna. 
Podem ver-se em muitos lugares, em particular 
em minha casa, esses leitos, cordas, espadas, 
pulseiras de madeira que lhes protegem o pulso 
no combate, e longos caniços furados dé um 
lado que tocam para ritmar suas danças. Cor- 
tam os pêlos'todos e se escanhoam melhor do 
que nós, usando apenas navalhas de madeira 
ou pedra. Acreditam na imortalidade da alma. 
As que mereceram aprovação dos deuses alo- 
jam-se no céu do lado do nascente; as amaldi- 
çõadas do lado do poente. 


335 O texto diz “écorses”, mas deve tratar-se, pela 
descrição, de troncos. (N. do T.) 


ENSAIOS— 107 


Têm não sei que tipos de sacerdotes ou pro- 
fetas que aparecem rararnente e moram nas 
montanhas. Quando surgem, há grandes festas 
e realiza-se úma assembléia solene a que se 
apresentam todas as aldeias. Cada uma das 
habitações a que me referi forma uma al- 
deia?3 * e distam uma da outra cerca de uma 
légua de França. O profeta fala-lhes em públi- 
co, exortando-os à virtude, e ao dever. Sua 
moral resume-se em dois pontos: valentia na 
guerra e afeição por suas mulheres. Prediz 
também o futuro e o que devem esperar de seus 
empreendimentos, incitando à guerra ou a 
desaconselhando. Mas importa que diga certo, 
pois do contrário, se o pegam, é condenado 
como falso profeta e esquartejado. Por isso 
não se revê jamais quem uma vez errou. Adivi- 
nhar é dom de Deus, enganar é uma imposiura 
merecedora de castigo. Entre os citas, pcr 
“exemplo, quando os adivinhos se enganavam 
em suas previsões, jogavam-nos, pês e mãos 
algemados, dentro de um carro de boi cheio de 
gravetos a que deitavam fogo. Os que têm a 
seu cargo dirigir os fatos cometidos à sagaci- 
dade humana, são desculpáveis se recorrerem 
a todos os meios a seu alcance. Mas não 
devem ser punidos os outros, pela sua impostu- 
ra, Os que nos iludem apresentando-se como 
donos de uma faculdade extraordinária e fora 
do nosso conhecimento? a 

Esses povos guerreiam os que se encontram 
além das montanhas, na terra firme. Fazem-no 
inteiramente nus, tendão como armas apenas 
seus arcos e suas espadas de madeira, pontia- 
gudas como as nossas lanças. E é admirável a 
resolução com que agem nesses combates que 
sempre terminam com efusão de sangue e mor- 
tes, pois ignoram a fuga e o medo. Como tro- 
féu, traz cada qual a cabeça do inimigo truci- 
dado, a qual penduram à entrada de suas 


residências. Quanto aos prisioneiros, guar-. 


dam-nos durante algum tempo, tratando-os 
bem e fornecendo-lhes tudo de que precisam 
até o dia em que resolvem acabar com eles. 
Aquele a quem pertence o prisioneiro convoca 
todos os seus amigos. No momento propício, 
amarra a um dos braços da vítima uma corda 
cuja outra extremidade ele segura nas mãos, O 
mesmo fazendo com o outro braço que fica 
entregue a seu melhor amigo, de modo a man- 
ter o condenado afastado de alguns passos e 
incapaz de reação. Isso feito, ambos o moem 
de bordoadas às vistas da assistência, assan- 
do-o em seguida, comendo-o e presenteando os 
amigos ausentes com pedaços da vitima. Não 
o fazem entretanto para se alimentarem, como 
o faziam os antigos citas, mas sim em sinal de 


336 Taba, sem dúvida. (N. do T.) 


vingança, e a prova está em que, tendo visto os 
portugueses, aliados de seus inimigos, empre- 
garem para com eles, quando os aprisionavam, 
outro gênero de morte, que consistia em enter- 
rá-los até a cintura, crivando de flechas a parte 
fora da terra e enforcando-os depois, imagina- 
ram que essa gente da mesma origem daqueles 
seus vizinhos que haviam espalhado o conheci- 
mento de tantos vícios, que essa gente, muito 
superior a eles no mal, não devia ter escolhido 
sem razão um tal processo de vingança, o qual 
por isso adotaram, porque o acreditavam mais 
cruel, e abandonaram seu sistema tradicional. 

Não me parece excessivo julgar bárbaros 
tais atos de crueldade, mas que o fato de con- 
denar tais defeitos não nos leve à cegueira 
acerca dos nossos. Estimo que é mais bárbaro 
comer um homem vivo do que o comer depois 
de morto; e é pior esquartejar um homem entre 
suplícios e tormentos e o queimar aos poucos, 
ou entregá-lo a cães e porcos, a pretexto de 
devoção e fé, como não somente o lemos mas 
vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterra- 
neos; e isso em verdade é bem mais grave do 
que assar e comer um homem previamente 
executado. 


Crisipo e Zenão, chefes da escola estóica, 
admitiam não haver mal em tirar partido de 
nossos cadáveres se necessário, nem mesmo 
em nos alimentarmos deles como o fizeram 
nossos antepassados que, assediados por 
César em Alésia, resolveram, a fim de prosse- 
guir resistindo, matar a fome comendo os 


“velhos, as mulheres e todos os que não fossem 


úteis 2o combate: “dizem que os gascões 
prolongaram a vida valendo-se de semelhantes 
alimentos?*2 7. E os médicos não temem 
empregá-los em toda espécie de usos internos e 
externos em benefício de nossa saúde. Mas não 
se ouviu iamais ninguém que tivesse o julga- 
mento moral assaz pervertido para desculpar a 
traição, a deslealdade, a tirania, a crueldade, 
nossos defeitos habituais. Podemos portanto 
qualificar esses povos como bárbaros em 
dando apenas ouvidos à inteligência, mas 
nunca se Os compararmos a nós mesmos, que 
os excedemos em toda sorte de barbaridades. 
Fazem a guerra de um modo nobre e gene- 
roso e ela é neles desculpável e bela na medida 
em que pode ser desculpável e bela essa doen- 
ça da humanidade, pois não tem entre eles 
outra causa senão a da inveja da virtude?*8. 
Não entram em conflito a fim de conquistar 
novos territórios, porquanto gozam ainda de 
uma uberdade natural que sem trabalhos nem 
fadigas lhes fornece tudo de que necessitam e 


337 Juvenal. 
338 No caso, a virtude da valentia. 


108 


em tal abundância que não teriam motivo para 
desejar ampliar suas terras. Têm ademais a 
felicidade de limitar seus desejos ao que exige 
a satisfação de suas necessidades naturais, 
tudo o que as excede lhes parecendo supérfluo. 
Tratam-se mutuamente por irmãos quando são 
da mesma idade, e aos mais jovens chamam 
filhos; e pais aos velhos, indistintamente. 
Quando morrem estes, passam os seus bens 
aos herdeiros naturais; as heranças não são 
divididas, conservando todos os participantes 
a posse do todo, sem outro título que o que 
lhes dá a natureza ao criá-los. Se Os povos vizi- 
nhos descem das montanhas para os atacar € 
- são vitoriosos, o benefício de sua vitória con- 
siste unicamente na glória que auferem dela e 
na vantagem de se terem mostrado superiores 
em valentia e coragem, pois não saberiam que 
fazer dos bens dos vencidos. Voltam para suas 
terras onde nada lhes falta e onde podem gozar 
a felicidade de saber contentar-se com sua con- 
dição. Se são vencidos, seus inimigos proce- 
dem de igual maneira. Aos prisioneiros não se 
exige senão que se confessem vencidos. Mas 
não se encontra um só, em um século, que não 
prefira a morte a assumir uma atitude ou a 
proferir uma palavra suscetíveis de desmen- 
tirem uma coragem que timbram em ostentar 
acima de tudo. Não se vê nenhum que não pre- 
fira ser matado e comido a pedir mercê. Dão- 
lhes inteira liberdade, a fim de que a vida lhes 
seja mais cara, e não cessam de entretê-los 
acerca da morte que os espera brevemente, das 


torturas que experimentarão, dos preparativos, 


para o suplício, de seus membros decepados e 
do festim que farão com eles. Tudo isso no 
intuito de lhes arrancar alguma palavra de 
queixa ou fraqueza, ou de os levar à fuga, com 
o que mostram tê-los apavorado e triunfado de 
sua firmeza de ânimo. Nisso, em verdade, e só 
nisso consiste a vitória: “A vitória verdadeira 
é a que constrange O inimigo a confessar-se 
vencido”33º. 

Os: húngaros, que são muito belicosos, não 
prosseguiam na guerra senão até que o inimigo 
se rendesse; logo que se confessava vencido, 
deixavam-no ir sem o molestar, nem exigir res- 
gate. Apenas queriam que prometesse não 
mais pegar em armas contra eles. Quando ven- 
cemos nossos inimigos, devemo-lo antes a van- 
tagens ocasionais e não a nosso mérito exclusi- 
vo. Ter braços e pernas sólidos é apanágio do 
carregador e não da virtude; independe de nós, 
e é cóisa toda física, ter boa saúde. E é golpe 
de sorte abalar o inimigo ou conseguir com 
que tenha o sol nos olhos e se ofusque. E é 
tão-somente prova de habilidade e treino, que 


338 Cláudio. 


MONTAIGNE 


pode oferecer igualmente um covarde ou um 
plebeu, saber manejar o florete. O valor de um 
homem, e a estima que nos inspira, medem-se 
pelo seu caráter e força de vontade. A valentia 
não decorre do vigor físico e sim da firmeza de 
ânimo e da coragem; não consiste na superio- 
ridade de nossa montaria e de nossas armas, 
mas na nossa. Quem sucumbe sem que sua 
coragem se abata; “quem, se cai, combate de 
joelho”3 *º: «quem, apesar das ameaças de 
morte não perde sua altivez; quem, agonizante, 
permanece impassível é com o olhar desafia 
ainda O inimigo, não é por nós abatido e sim 
pelo destino. Morre mas sem ser vencido. Os 
mais valentes são por vezes os mais infelizes, O 
que faz com que haja derrotas mais gloriosas 
do que as vitórias. As quatro brilhantes vitó-. 
rias de Salamina, Platéia, Micale e Sicília, as 
mais belas que testemunhou o sol, serão mais 
gloriosas do que a que conquistou o Rei Leôni- 
das nas Termópilas? Quem jamais preparou a 
vitória com mais cuidado da glória e mais 
ardente desejo de vencer, do que Ischolas sua 
derrota? Quem preparou a sua salvação mais 
engenhosa e estranhamente do que ele a sua 
perda? Fora encarregado de defender uma pas- 
sagem do Peloponeso contra os árcades. 
Compreendendo que os não poderia rechaçar, 
em virtude da topografia local e da inferiori- 
dade numérica de suas forças; certo de que 
tudo o que se opusesse ao inimigo seria 
destruído; julgando por outro lado indigno de 
sua própria coragem e de sua grandeza de 
alma, tanto quanto de um lacedemônio, faltar 
ao dever, entre duas resoluções extremas esco- 
lheu uma que as conciliasse: dispensou os mais 
jovens e vigorosos da tropa, a fim de os con- 
servar para a defesa do país, e, com os que 
menos falta deviam fazer, resolveu defender a 
passagem entregue a sua guarda, cobrando 
com a morte dos defensores o mais caro possi- 
vel a vitória do inimigo. Foi o que aconteceu: 
logo cercados de todos os lados pelos árcades, 
Ischolas e os seus sucumbiram e foram levados 
ao fio de espada após verdadeira carnificina. 
Que troféu assinalado aos vencedores não fora 
antes devido a vencidos dessa ordem? À ver- 
dadeira vitória reside na maneira por que com- 
batemos e não no resultado final. E não con- 
siste a honra em vencer mas em combater.. 


Voltemos à nossa história. Com tudo! isso 
que lhes fazem, não conseguem nem de longe 
que os prisioneiros cedam; ao contrário, 
durante os dois ou três meses que permanecem 
prescs, afetam alegria e incitam seus senhores 
a se apressarem em submetê-los às provações 
com que os ameaçam. Desafiam-nos e os inju- 


340 Sêneca. 


ENSAIOS —i 109 


riam, censurando-lhes a covardia e lhes recor- 
dando os combates que perderam em outras 
ocasiões. Tenho em meu poder o canto de um 
desses prisioneiros. Eis o que diz: “Que se 
aproximem todos com coragem e se juntem 
para comê-lo; em o fazendo comerão seus pais 
e seus avós que já serviram de alimento a ele 
próprio e deles seu corpo se constituiu. Estes 
músculos, esta carne, estas veias, diz-lhes, são 
vossas, pobres loucos. Não reconheceis a subs- 
tância dos membros de vossos antepassados 
que no entanto ainda se encontram em mim? 
Saboreai-os atentamente, sentireis o gosto de 
vossa própria carne.” Haverá algo bárbaro 
nesta composição? Os que lhes descrevem os 
suplícios e os representam no momento em que 
são esbordoados, pintam-nos cuspindo no 
rosto dos que os trucidam em meio a caretas. 
E, com efeito, até exalarem o último suspiro, 
não param de desafiar os inimigos tanto pelas 
atitudes como pelos propósitos. Por certo, em 
relação a nós são realmente selvagens, pois 
entre suas maneiras e as nossas há tão grande 
diferença que ou o são ou o somos nós. 

Os homens têm várias mulheres, em tanto 
maior número quanto mais famosos e valentes. 
Particularidade que não carece de beleza, nes- 
ses lares o ciúme, que entre nós impele nossas 
esposas a impedir que busquemos a amizade € 
as boas graças de outras mulheres, entre eles 
as induz a arranjarem outras para seus mari- 
dos. A honra deste primando entre todas as de- 
mais considerações, pôem elas todo o cuidado 
em ter o maior número possível de companhei- 
ras, pois esse número comprova a coragem do 
esposo. Entre nós falariam de milagre. Não se 
trata disso e sim da virtude matrimonial eleva- 
da ao máximo. Não nos mostra a Bíblia, 
Sara? *'e as mulheres de Jacó, Lia e Raquel, 
pondo suas serventes à disposição de “seus 
maridos? Não auxiliou Lívia, contra seu inte- 
resse, a satisfação dos desejos de Augusto? E 
Estratonice, mulher de Dejótarc, não somente 
emprestou ao marido uma de suas mais belas 
serventes, para que a usasse como entendesse, 
mas ainda educou os filhos da concubina e os 
ajudou a suceder ao pai. E não se imagine que 
se trate da observação servil de um costume, 
imposta pela autoridade dos costumes tradi- 
cionais, e que se aplique sem maior discussão, 
porquanto são os selvagens demasiado estúpi- 
dos para se rebelarem. Eis alguns traços que 
demonstram o contrário. Transcrevi aqui um 
de seus cantos guerreiros: pois tenho também 
uma canção de amor: “Serpente, pára; pára, 


341 No texto: “Lia, Rachel e Sarah, femmes de 
Jacob”, mas há confusão porquanto Sara era mu- 
lher de Abraão. (N. do T.) 


serpente, a fim de que minha irmã copie as 
cores com que te enfeitas; a fim de que eu faça 
um colar para dar à minha amante; que tua be- 
leza e tua elegância sejam sempre preferidas 
entre as das demais serpentes.” E a primeira 
estrofe e o estribilho da canção; ora, eu conhe- 
ço bastante a poesia para julgar que este pro- 
duto de sua imaginação nada tem de bárbaro, 
antes me parece de espírito anacreôntico. Aliás 
a lingua que falam não carece de doçura. Os 
sons são agradáveis e as desinências das pala- 
vras aproximam-se das gregas. 

Três dentre eles (e como lastimo que se te- 
nham deixado tentar pela novidade e trocado 
seu clima suave pelo nosso !), ignorando quan- 
to lhes custará de trangiúilidade e felicidade o 
conhecimento de nossos costumes corrompi- 
dos, e quãó rápida será a sua perda, que supo- 
nho já iniciada, estiveram em Ruão quando ali 
se encontrava Carlos IX. Entreteve-se o rei 
com eles, iongamente: mostraram-lhes como 
viviamos no cotidiano; ofereceram-lhes gran- 
des festas; ensinaram-lhes como era uma cida- 
de grande. Alguém lhes havendo perguntado 
mais tarde o que pensavam da cidade e o que 
ela lhes tinha revelado, citaram três coisas. 
Esqueci a terceira, e o lamento, mas lembro- 
me das duas outras. Disseram antes de tudo 
que lhes parecia estranho tão grande número 
de homens de alta estatura e barba na cara, 
robustos e armados €e que se achavam junto do 
rei (provavelmente se referiam aos suíços da 
guarda) se sujeitassem em obedecer a uma 
criança e que fora mais natural se escolhessem 
um deles para o comando. Em segundo lugar 
observaram que há entre nós gente bem 
alimentada, gozando as comodidades da vida, 
enquanto metades de homens emagrecidos, 
esfaimados, miseráveis mendigam às portas 
dos outros (em sua linguagem metafórica a tais 
infelizes chamam metades”); e acham ex- 
traordinário que essas metades de homens 
suportem tanta injustiça sem se revoltarem e 
incendiarem as casas dos demais. 

Conversei longamente com um deles, mas 
meu intérprete compreendia tão mal e se mos- 
trava tão embaraçado com as perguntas que, 
graças à sua estupidez, não pude obter algo 
mais sério de meu interlocutor. Tendo-lhe per- 
guntado de onde provinha sua ascendência 
sobre os seus (era um chefe e nossos mari- 
nheiros o tratavam como rei), respondeu-me 
que tinha o privilégio de marchar à frente dos 
outros quando iam para a guerra. À minha 
pergunta: quantos homens o acompanhavam? 
mostrou um terreno como para dizer: o que 
cabia naquele espaço, cerca de cinco mil 
homens. Indaguei ainda se nas épocas de paz 


110 MONTAIGNE 


ele conservava alguma autoridade,e disse-me: 
“Quando visito as aldeias que dependem de 


mim, abrem-me caminhos no mato para que eu 


possa passar sem incômodo.” Tudo isso é, em 
verdade, interessante, mas, que diabo, essa 
gente não usa calças! 


CapíTULO XXXII 


De como é preciso prudência no julgar 
os desígnios da Providência 


No desconhecido situa-se o verdadeiro 
campo de ação da impostura; já porque a pró- 
pria extravagância a favorece e lhe dá crédito, 
já porque, escapando à razão comum, não 
temos meios para a combater. Eis por que, diz 
Platão, é mais fácil ser acreditado quando se 
fala de coisas da natureza divina do que de 
coisas de natureza humana; pois a ignorância 
dos ouvintes abre bela carreira aos argumentos 
inverificáveis. Daí resulta nada encontrar mais 
credulidade do que o que menos se conhece; e 
não haver quem fale com mais segurança do 
que os que nos contam fábulas, os alquimistas, 
os profetas, os astrólogos? *2, os quiromantes, 
os médicos, e gente da mesma espécie, a que eu 
juntaria de bom grado, se ousasse, um punha- 
do de sujeitos que se metem constantemente a 
interpretar e controlar? *º os desígnios de 
Deus, pretendendo penetrar as causas de tudo, 
os segredos da vontade divina e as razões 
insondáveis de suas obras. E apesar dos 
desmentidos contínuos que lhes infligem os 
acontecimentos, e embcra se vejam jogados de 
um lado para outro, não cessam de se entregar 
à sua mania? *4, de pintar com o mesmo car- 
vão o preto e o branco. 

Entre certos índios, há uma prática digna de 
elogios. Se lhes ocorre algum malogro em 
duelo ou combate, pedem publicamente perdão 
ao sol, seu Deus, como se o houvessem ofendi- 
do, reconhecendo assim auferirem felicidade e 
desgraça da divindade, juiz de seus projetos e 
ações. Ao cristão basta-lhe crer que tudo di- 


342 “Tudiciaire”, já arcaico no tempo de Mon- 
taigne com esse significado. (N. do T.) 

343 Montaigne emprega exatamente a palavra 
“contreoller”, de que saiu “contrôler”, a qual não é 
inglesismo como muitos pensam. Ver a propósito o 
dicionário de Oxford. (N. do T.) 

344 No texto “suivre son esteuf”. Não se encontrou 
explicação clara para a expressão. Godefroy dá 
para esteuf o significado de “peixe” migratório. — 
Seguir seu peixe, sua mania, “son dada”, Michaut 
interpreta: “praticar o mesmo jogo”. Thibaudet diz: 
“seguir a bola”. (N. do T.) 


mana de Deus, aceitar e agradecer conformado 
o bem e o mal que, em sua infinita sabedoria, 
Ele lhe oferece sem que possamos penetrar- 
lhes os móveis. O que eu reprovo é que se apele 
para OS nossos sucessos felizes como meio de 
exaltar e consolidar nossa religião. Nossa fé 
assenta em outros alicerces, e não lhe é neces- 
sária a ajuda dos acontecimentos. Habituar o 
povo a semelhantes argumentos, aos quais ja é 
por demais levado, apresenta um perigo: se 
uma reviravolta se opera nos favores da sorte, 
se esta nos é contrária, .a fé pode abalar-se. É o 
que ocorre neste momento em nossas guerras 
religosas: os que levaram vantagem na batalha 
de Roche-Abeille argumentaram com seu 
êxito, como se decorresse de uma aquiescência 
divina; posteriormente explicaram as derrotas 
de Montcontour e Jarnac como um castigo, a 
exemplo do que um pai administra por vezes 
aos filhos. Mas se o povo, a quem assim fala- 
mos, não nos é inteiramente devotado, sem difi- 
culdade compreende que procuramos tirar 
duplo benefício de uma só coisa, que com a 
mesma boca sopramos calor e frio. Melhor 
fora entretê-lo acerca daquilo que na realidade 
constitui os princípios fundamentais da verda- 
de. À 
Bela foi a batalha naval que ultimamente 
vencemos contra os turcos e sob o comando de 
D. João da Austria; mas Deus permitiu que em 
idênticas circunstâncias perdêssemos batalhas 
não menos importantes. Em suma, é-nos dificil 
pesar as coisas divinas, sem as diminuir, uni- 
camente com a nossa balança. Quem quisesse 
tirar uma conclusão do fato que Ário e o Papa 
Leão, principais chefes da heresia a que O pri- 
meiro deu o nome, tenham morrido em épocas 
diferentes mas em condições idênticas e parti- 
culares (tomados de dores e obrigados a aban- 
donar a discussão para irem à privada e aí 
sucumbirem repentinamente) e levasse o exa- 
géro a ver na circunstância de lugar mais uma 


prova da vingança divina, poderia citar ainda 
em abono de sua tese a morte de Heliogábalo 


ENSAIOS — I. 111 


também ocorrida na retrete. Mas como expli- 
car por que teve Irineu igual fim? 

Deus quer mostrar assim que os bons têm 
outra coisa a esperar e os maus outra a temer, 
que não as graças e desgraças deste mundo. 
Delas dispõe, segundo seus desígnios impene- 
tráveis, e nos tira desse medo os meios de nos 
vangloriarmos ou de as explorarmos. Enga- 
nam-se contudo os que se prevalecem disso 
para justificar atos humanos; não invocam 
uma só prova a favor que não se apresentem 
imediatamente duas contra, e Santo Agostinho 


o demonstra vitoriosamente a seus contradi- 
tores. E uma questão que foge ao domínio da 
razão. Somos obrigados a nos contentarmos 
com a luz que apetece ao sol comunicar-nos, e 
quem tente fixá-la, a fim de absorver maior 
quantidade em seu corpo, não se espante se 
com sua temeridade presunçosa perder a vista: 
“Porquanto que homem pode saber o conselho 
de Deus? Quem pode alcançar o querer do 
Senhor ts 


345 “Sabedoria”, IX, 13. 


CAPÍTULO XXXIII 


Devemos fugir da volúpia ainda que nos custe a vida 


Sempre vi convirem as escolas antigas em 
que é chegada a hora de morrer quando nos 
cabe esperar da vida mais males do que bens; e 
conservá-la quando só nos causa tormentos e 
nos pesa, é ir de encontro ao que a própria 
natureza determina, como dizem estas senten- 
ças de outrora: 


Ou uma vida trangúila ou uma morte 
feliz; 

é belo morrer quando a vida é opróbrio; 
não viver é melhor do que viver desgra- 
çado? * 8. 


Mas levar o desprezo à morte a ponto de recor- 
rer a ela a fim de evitar honrarias, riquezas, 
grandezas e outros bens que aos nossos olhos 
constituem a fortuna, como se não nos bas- 
tasse apelar para a razão a fim de os abando- 
nar, nunca o vira ainda, quando me caiu entre 
as mãos um trecho em que Sêneca aconselha 
Lucífio, poderoso personagem da Corte do 
imperador, junto ao qual gozava de grande 
prestígio, a renunciar à vida de prazeres e 
luxos que levava, a renunciar à ambição e 
substituir a tais desordens uma existência soli- 
tária, trangúila, dedicada à filosofia. Lucílio 
objetou alegando certas dificuldades, ao que 
Sêneca respondeu: “Estimo que é preciso 
renunciar a esse gênero de vida ou à própria 
vida. Embora te aconselhe o meio mais suave, 
que é o de desfazeres o que tão mal amarraste 
em lugar de cortares o nó, só to aconselho sob 


346 -Crispino de Heracléia, segundo Thibaudet; 
Strobeu, segundo Michaut. 


a condição de o cortares se não puderes desfa- 
zê-lo de outro modo. Não há homem, por mais 
covarde, que não prefira cair uma vez por 
todas a viver constantemente sob a ameaça de 
uma queda iminente.” “Teria achado acertado 
um tal conselho na boca dos estóicos; sur- 
preendeu-me que fosse tirado de Epicuro, o 
qual escreve, a propósito, coisas idênticas a 
Idomeneu. Parece-me ter observado em certos 
fatos de nossa época essa mesma tendência, 
embora mitigada pela moderação crista. . 

Santo Hilário, bispo de Poitiers, inimigo 
declarado da heresia ariana, soube, na Síria, 
que Abra, a filha única que deixara na Gália 
com a mãe, era pedida em casamento por 
grandes senhores do país, por ser bem educa- 
da, bela, rica e jovem. Escreveu-lhe o santo, 
como sabemos, que não atentasse para esses 
pedidos, por vantajosos e desejáveis que lhe 
parecessem, porquanto em sua viagem lhe 
havia encontrado partido melhor e mais digno, 
um marido poderoso e magnífico que lhe faria 
presente de jóias e vestidos de valor incalcu- 
lável. Na realidade, aspirava a levá-la a des- 
prezar Os prazeres mundanos para que se dedi- 
casse a Deus. Pensando, depois, que a morte 
da filha era ainda o meio mais rápido e certo 
de atingir esse objetivo, não cessou de pedir a 
Deus, mediante preces e promessas, que a 
fizesse sair do mundo e a chamasse a si, O que 
aconteceu. Pouco depois de sua volta ela mor- 
reu, do que tirou ele singular alegria. 

Santo Hilário parece sobreexceder aos ou- 
tros porque apela antes de mais nada para a 
morte, o que os outros só fazem como último 
recurso, e-também porque se trata de sua filha 


es ea a is We D0 = = Sa] 


LIZ 


única. Mas a história tem uma continuação 
que não quero omitir, embora não se prenda 
precisamente a meu assunto. A mulher de 
Santo Hilário sabendo, dele, que a morte da 
filha fora premeditada e solicitada, e quanto 
mais feliz seria longe deste mundo, tomou-se 


MONTAIGNE 


de tão ardente desejo de ir para o céu gozar a 
eterna beatitude, que suplicou ao marido a 
mesma graça. E Deus, acedendo às preces 
comuns, chamou-a a si logo depois. E essa 
morte, acolhida com entusiasmo, causou a 
ambos excepcional satisfação. 


CAPÍTULO XXXIV 


Não raro a sorte na razão se apóia 


A inconstância da sorte faz que se apresente 
necessariamente a nós sob os mais diversos 
aspectos. 

Haverá algo mais justo do que o seguinte 
fato? O Duque de Valentinois resolvera enve- 
nenar Adriano, cardeal de Cornete, em casa de 
quem seu pai, o Papa Alexandre VI, e ele pró- 
prio deviam cear. Mandou-lhe por isso com 
antecedência uma garrafa de vinho envene- 
nado, recomendando ao despenseiro que a 
guardasse cuidadosamente. O papa chegou 
antes de seu filho e pediu algo para beber. O 
despenseiro, imaginando que lhe haviam espe- 
cialmente recomendado o tal vinho porque era 
particularmente bom, serviu-o ao papa. Che- 
gando o duque naquele momento, e certo de 
que não era a sua garrafa, bebeu também. O 
pai teve morte imediata; quanto ao filho, ficou 
gravements e durante muito tempo doente. Um 
fim mais desgraçado lhe estava reservado. 

A sorte parece por vezes brincar conosco. 
Embora de partidos opostos, como acontece 
entre.vizinhos de um e outro lado da fronteira, 
o Sr. d'Estrée, então porta-estandarte do Sr. de 
Vendôme, e o Sr. de Liques, tenente do Duque 
d'Ascot, eram ambos pretendentes à mão da 
irmã do Sr. de Foungueselles. Venceu o Sr. de 
Liques. No próprio dia do casamento, e o que 
é pior, antes de a possuir, teve ele a idéia fanta- 
sista de romper uma lança em honra da jovem 
esposa e foi duelar perto de St. Oner. O Sr. 
dºEstrée ganhou e fê-lo prisioneiro. E aguardou 
que a jovem, “forçada a renunciar ao amor de 
seu novo esposo antes que as longas noites de 
um ou dois invernos saciassem a avidez de seu 
desejp”* * 7, lhe requeresse em pessoa a Jiber- 
dade do marido, ao que ele aquiesceu, pois a 
nobreza de França nada recusa às senhoras. 

E parece por vezes que a sorte aja também 


347 Catulo. 


com arte. Constantino, filho de Helena, funda 
o Império de Constantinopla, o qual: séculos 
depois termina outro Constantino filho de 
outra Helena. De outras feitas ela se compraz 
em exceder nossos milagres. Assim é, dizem, 
que o Rei Clóvis, que assediava Angoulême, 
viu caírem as fortificações da cidade por efeito 
de divina proteção. Conta também Bouchet 
que o Rei Roberto, que sitiava certa cidade, 
dela se afastou para ir a Orleães tomar parte 
nas festividades de Santo Agnan. A certo 
momento da missa, ruíram os baluartes da ci- 
dade assediada, sem terem sido objeto-de ne- 
nhum assalto. Nas guerras da região milanesa, 
idêntico prodígio se verificou, porém contra 
nós: sitiando por nossa conta a cidade de 
Arona, mandou o Capitão Rense colocarem 
uma mina sob um grande trecho das muralhas, 
o qual se ergueu da terra subitamente mas tor- 
nou a cair no mesmo lugar, verticalmente, de 
modo que os sitiados continuaram tão protegi- 
dos quanto antes. 

Por vezes a sorte cura. Jason de Pheres, com 
um abscesso no peito, fora desenganado pelos 
médicos. Resolvido a libertar-se da dor, ainda 
que lhe custasse a vida, jogou-se de corpo € 
alma no combate. Traspassado por um golpe 
de lança, teve o abscesso vazado e sarou. 

Não se mostrou ela, com o pintor Protóge- 
nes, mais talentosa do que ele na mesma arte? 
Protógenes pintara, e muito bem, um cão 
exausto e agonizante, e andava muito contente 
com sua obra, salvo quanto à espuma e à baba 
que não conseguia representar com perfeição. 
Despeitado, tomou de uma esponja impreg- 
nada das diversas cores e lançou-a contra a 
tela no intuito de a destruir. À sorte tão bem 
orientou o golpe que a esponja deu na goela do 
cão e fez o que o artista não pudera fazer. 

Vemo-la não raro retificar e corrigir-os nos- 
sos projetos. Isabel, rainha da Inglaterra, vol- 


ENSAIOS — 113 


tava a seu reino, vinda da Zelândia, e conduzia 
um exército em socorro do filho contra o mari- 
do. Estava perdida se entrasse no porto como 
pretendia, porquanto seus inimigos aí a espera- 
vam. Quis a sorte, contra a sua vontade, jogá- 
la em outro ponto da costa onde desembarcou 
em segurança. E não estava com a verdade 
aquele personagem da antiguidade que, que- 
rendo jogar uma pedra em um cachorro, atin- 
gira a sogra e a matara? E dizia: “A sorte é 
mais sábia do que nós”? 4º. 

Hiícetas subornara dois soldados a fim de 
que assassinassem Timoleão durante sua esta- 
da em Ádrana, na Sicília. Combinaram os 
conjurados que agiriam durante um sacrifício 
que a vítima devia oferecer. Misturados à mul- 
tidão, faziam-se reciprocamente sinais de que 
o momento era propício, quando alguém 
assentou um golpe de espada na cabeça de um 
deles, matando-o e fugindo a seguir. Acredi- 
tando-se descoberto e perdido, o segundo cor- 
reu ao altar pedindo mercê e prometendo tudo 
revelar. E enquanto contava a verdade, eis que 
surge o agressor, arrastado, pelo povo que o 
pretendia linchar, até aos pés de Timoleão e 
outros personagens importantes. Aí pede ele 
perdão e narra como com razão matara o 


348 Menandro. 


assassino de seu pai. Comprovando-se com 
testemunhas, por acaso presentes, que dizia a 
verdade, que seu progenitor fora realmente 
assassinado na cidade dos leontinos por aquele 
de quem agora se vingava, teve, como recom- 


pensa por ter salvo assim ao se vingar aquele a 
quem os sicilianos chamavam “Pai do Povo”, 
dez minas áticas? *º. Não ultrapassa qualquer 
previsão humana um tal golpe de sorte? 


Terminarei com um fato que nos mostra a 
sorte revelando particular favor, bondade e 
devoção sem iguais. Inácio e seu filho, proscri- 
tos de Roma pelos triúnviros, resolveram 


matar-se mutuamente, a fim de escapar à 


crueldade dos tiranos. De espada em mãos 


precipitam-se um contra o outro e a sorte diri- 
ge tão bem os golpes que eles se ferem mortal- 
mente. Mas como homenagem a tão bela ami- 
zade permite ela que tenham ainda força de 
retirar Os ferros dos ferimentos, caindo ensan- 
guentados nos braços um do outro. E assim 
morrem tão estreitamente abraçados, que os 
carrascos lhes cortam as cabeças deixando os 
corpos nobremente ligados e afetuosamente 
aspirando pelos seus ferimentos o sangue €e as 
últimas manifestações vitais de cada um. 


349 Mina, moeda grega. 


CAPÍTULO XXXV 


Uma lacuna de nossa administração 


Meu falecido pai, homem de juizo sadio, 
formado unicamente pela experiência e têndên- 
cia natural, disse-me de uma feita que pensara 
outrora em fazer com que nas cidades hou- 
vesse um [lugar onde o cidadão necessitado de 
alguma coisa pudesse levar seu pedido a um 
funcionário, o qual o registraria mais ou 
menos da seguinte maneira: “Fulano procura 


vender pérolas; — Sicrano deseja companhia 
para ir a Paris; — Beltrano precisa de um 
lacaio; — X. quer colocação; pede um operá- 


rio; etc.” Parece-me que esse modo de infor- 
mação seria de grande comodidade para o pú- 
blico, pois a todo instante há necessidades que 
exigem satisfação e em se ignorando não se 
acertam. 

Considero extremamente vergonhoso para 
nosso século que dois homens de grande saber, 
Lílio Gregório Giraldi, na itália, e Sebastião 


Chasteillon, na Alemanha, tenham morrido de 
fome. Penso que pelo menos umas mil pessoas 
os houveram socorrido ou oferecido condições 
vantajosas de trabalho se tivessem tido notícia 
de sua miséria. O mundo não está assim tão 
corrompido que não se encontre ninguém 
capaz de dispor com satisfação de seu patri- 
mônio (enquanto a sorte lho permite) a fim de 
colocar ao abrigo da necessidade personagens 
excepcionais, que se distinguiram por qualquer 
motivo e que a infelicidade levou não raro às 
mais lamentáveis situações. E os poriam em 
estado que, a menos de serem insensatos, os 
contentaria. 

Na direção econômica da casa, tinha meu 
pai um hábito que louvo assaz mas que não 
soube imitar. Além do registro das transações 
cotidianas, em que se inscrevem as pequenas 
contas, os pagamentos que não passam pelo 


114 MONTAIGNE 


tabelião, registro esse que mantinha em dia 
nosso homem de negócios, meu pai exigia de 
seu secretário que anotasse em um' diário todas 
as informações de alguma utilidade para a his- 
tória da família, o que é muito curioso de se 
ver quando o tempo começa a apagar a lem- 
brança dos fatos, e o que nos pode tirar de cer- 
tas dificuldades, pois por esse diário sabemos 
quando se iniciou ou terminou tal tarefa, quem 


nos veio visitar, com quantas pessoas em seu 
séguito, quanto durou a sua estada; e sabemos 
quando viajamos, quais as nossas ausências, 
os casamentos e falecimentos, as boas e mãs 
notícias, as modificações verificadas entre nos- 
sos principais servidores, etc. Acho conve- 
niente lembrar esse uso antigo que nos permite 
reviver o passado, e considero-me um tolo por 
não o ter seguido. 


CAPÍTULO XXXVI 


Do hábito de se vestir 


Qualquer que seja o assunto que deseje ven- 
tilar, choco-me com a barreira dos costumes 
aceitos e que nos governam. Nesta estação 
fria, ponho-me a meditar acerca do hábito que 
faz com que esses povos recém-descobertos 
andem nus, e pergunto a mim mesmo se o 
fazem por causa da temperatura elevada 
(como o dizem, no que respeita aos índios e 
aos mouros) ou porque originalmente assim 


andaram os homens. Estando tudo o que existe : 


sob os céus submetido às mesmas leis, como 
diz a Bíblia, admitem as pessoas sensatas que 
nas questões dessa ordem, para distinguir as 
leis naturais das por nós inventadas, é preciso 
que nos reportemos as regras gerais que presi- 
dem ao trabalho da natureza neste mundo e 
que não sofrem alteração. Ora, tudo, à exceção 
do homem, se acha naturalmente provido do 
que é necessário à própria conservação; não é 
portanto admissível que somente nós tenhamos 
sido criados em condições tão miseráveis e 
defeituosas que não possamos prescindir de 
socorro estranho. Eis por que considero que, 
assim como as plantas, as árvores, os animais 
e tudo o que vive foram naturalmente providos 
de meios para se defenderem contra as injúrias 
do clima, “razão por que todos os seres se co- 
brem de couro, de pêlo, de carapaças, calosi- 
dades ou casca”? 8º, assim nos ocorreu igual- 
mente. Mas assim como há quem use a luz 
artificial que enfraquece a luz do dia, enfraque- 
cemos a eficiência dos meios naturais que nos 
protegem substituindo-os por outros artificiais. 

É fácil de se compreender que é o costume 
que nos faz parecer natural o que não o é, pois, 
entre os povos que não usam roupa, alguns 
habitam em climas semelhantes ao nosso e ou- 


350 Tucano. 


tros bem mais rudes. Nós mesmos trazemos 
sempre descobertas as partes mais sensíveis de 
nosso corpo: olhos, boca, nariz e orelhas, 
enquanto nossos camponeses — tal qual nos- 
sos antepassados — ainda andam de peito e 
ventre descobertos. Se tivêssemos nascido com 
saias e calças, sem dúvida teria a natureza do- 
tado de pele mais espessa as partes de nosso 
corpo expostas às intempéries das estações, 
como os dedos e a planta do pé. Por que isso 
nos hã de parecer inverossimil? Entre minha 
maneira de vestir e a de um camponês de mi- 
nhas terras, hã maior diferença do que entre a 
do camponês e a de quem só tem a pele por 
vestimenta. Quantas pessoas, particularmente 
na Turquia, não andam inteiramente nuas por 
simples devoção? 

Não sei quem perguntava a um mendigo, em 
pleno inverno vestido de uma só camisa e que 
no entanto se mostrava alegre como se esti- 
vesse envolvido em peles até as orelhas, como 
podia andar de bom humor sendo assim tão 
miserável, ao que lhe respondeu o mendigo: 
“Tendes o rosto descoberto, senhor, pois eu 
dos pés à cabeça sou inteiro cara.” Contam os 


-stalianos, creio eu, que o bobo do rei de Flo- 


rença a quem seu senhor perguntava como, tão 
mal vestido, suportava um frio que, a ele rei, 
incomodava e muito, respondeu: “Fazei como 
eu, carregai convosco todas as vossas roupas € 
não sentireis mais frio do que eu.” O Rei Masi- 
nissa até a mais avançada velhice não pôde 
acostumar-se a cobrir a cabeça e assim andava 
no frio, na borrasca e na chuva. O mesmo 
dizem do Imperador Severo. Heródoto relata 
que, examinando com outros os mortos. após 
as batalhas dos egípcios contra os persas, veri- 
ficou terem aqueles o crânio sem dúvida muito 
mais duro, o que explica o fato de os persas 


ENSAIOS —I 115 


usarem toucas e turbantes, enquanto os egip- 
cios desde criança raspam a cabeça e jamais a 
cobrem. O Rei Agesilau, até o momento em 
que se viu abalado pelas enfermidades, usava a 
mesma roupa tanto no inverno como no verão. 
César, diz Suetônio, marchava à frente de seus 
exércitos quase sempre a pé e de cabeça desco- 
berta, chovesse ou fizesse sol. O mesmo dizem 
de Aníbal: “enfrentando a chuva e o desaba- 
mento dos céus”? 81. Um veneziano, que esteve 
muito tempo no reino de Pegu, de onde acaba 
de voltar, conta que nessa região homens e 
mulheres cobrem o corpo todc menos os pés, 
que têm descalços mesmo a cavalo. Platão 
aconselha como muito saudável não cobrir pés 
nem cabeça senão com aquilo que lhes deu a 
natureza. O fidalgo que os poloneses escolhe- 
ram como rei, em substituição aquele-que lhes 
havíamos dado, é seguramente um dos maiores 
príncipes de nosso século; nunca usou luvas. 
No inverno, e qualquer que seja o tempo, sai 
com o boné que costuma pôr dentro de casa. 
Não suporto andar desabotoado, com roupas 
folgadas; os campeneses da minha vizinhança 
se sentiriam entrevados em se abotoando. 
Varro acredita que a obrigação de nos desco- 
brirmos na presença dos deuses ou de um 
magistrado foi criada mais em vista da nossa 
saúde, a fim de que nos fortalecêssemos contra 
as intempéries, do que em sinal de respeito. 
Como falamos de frio, e em França gostam 
de cores variegadas no vestuário (não no que 
me diz respeito, porquanto só me visto de 
branco e de preto, como o fazia meu pai), 
variando o meu assunto, direi que o Capitão 
Du Bellay relata ter experimentado em sua via- 
gem ao Luxemburgo um frio tão intenso que o 
vinho destinado aos soidados se cortava com 
machadinhas e machados e era servido a peso 
à tropa que o levava em cestas. Aliás, Ovídio 
afirma que “o vinho gelado conserva a forma 
do recipiente que o continha; não o bebem li- 


351 Sílio Itálico. 


quido e o distribuem em pedaços”. As geadas 
são tão fortes à entrada do Palus Méotides* *2, 
que no mesmo local em que batera a pé o ini- 
migo, o lugar-tenente de Mitridates ganhou, no 
verão seguinte, uma batalha naval contra os. 
mesmos adversários. Os romanos acharam-se 
em estado de grande inferioridade por ocasião 
do combate de Placência contra os cartagine- 
ses, porque lutaram gelados até o sangue e 
com os membros retesados pelo frio. Ao passo 
que Aníbal tivera o cuidado de acender gran- 
des fogueiras ao longo de suas linhas, para.que 
seus soldados pudessem aquecer-se; e a seus 
diversos corpos de exército mandara distribuir 
azeite, a fim de que esfregassem pernas e bra- 
ços, tornando-os não somente mais elásticos 
mas ainda protegendo os poros da pele contra 
o vento glacial que então soprava. 

A retirada dos gregos da Babilônia em 
demanda da pátria ficou famosa pelos sofri- 
mentos e obstáculos que tiveram de vencer. 
Foram, entre outras desventuras, assaltados 
nas montanhas de Armênia por forte tempes- 
tade de neve, a qual os fez perder momentanea- 
mente o caminho, impedindo-os de reconhe- 
cerem a região. Constrangidos a permanecer 
no lugar, aí passaram um dia e uma noite sem 
comer nem beber; e houve alguns que, embora 
perfeitamente conscientes, foram tomados pelo 
frio, e para sempre paralisados. Alexandre 
conheceu um país onde enterravam no inverno 
as árvores frutíferas para protegê-las da geada; 
podemos, aliás, observar por vezes a mesma 
coisa em nossa terra. 

Voltemos ao vestiário. O imperador do Mé- 
xico mudava de roupa quatro vezes por dia e 
nunca punha duas vezes a mesma. As que des- 
pia serviam para suas liberalidades: dava-as de 
presente, como recompensa. Assim também 
fazia com os vasos, os trapos e os utensílios de 
sua cozinha, pois deste modo não podiam ser- 
vir duas vezes. 


352 Mar de Azov. 


CapíTULO XXXVII 


Catão, o Jovem 


Não cometo esse erro tão comum de julgar 
os outros por mim. Acredito de bom grado que 
o que está rros outros possa divergir. essencial- 
mente daquilo que está em mim. Não obrigo 


ninguém a agir como ajo e concebo mil e uma 
maneiras diferentes de viver; e, contrariamente 
ao que ocorre em geral, espantam-me bem 
menos as diferenças entre nós do que as seme- 


116 MONTAIGNE 


lhanças. Não imponho a outrem nem meu 
modo de vida nem meus princípios; encaro-o 
tal qual é, sem estabelecer comparações. O 
fato de não ser continente não me impede de 
admirar e aprovar os Feuillants? *º e os capu- 
chinhos que o são; pela imaginação ponho-me 
muito bem em sua pele e os estimo e honro 
tanto mais quanto divergem de mim. Aspiro 
particularmente a que julguem cada qual como 
é, sem estabelecer paralelos com modelos tira- 
dos do comum. Minha fraqueza não altera 
absolutamente o apreço em que deva ter quem 
possui força e vigor. “Hã pessoas que só acon- 


selham aquilo que imaginam poder imitar”? 8 *. 


Embora me arraste ao nível do solo, não deixo 
-de perceber nas nuvens, por mais alto que se 
elevem, certas almas que se distinguem pelo 
heroísmo. Já é muito para mim ter o julga- 
mento justo, ainda que não o acompanhem mi- 
nhas ações, e manter ao menos assim incorrup- 
tivel essa qualidade. Já é muito ter boa 
vontade, mesmo quando as pernas fraquejam. 

Nosso século, pelo menos no meio em que 
vivemos, é tão viciado que não somente não 
pratica a virtude como ainda não a concebe 
sequer. Dir-se-ia que já não passa ela de jargão 
acadêmico: “Pensam que a virtude é apenas 
uma palavra, e em um bosque sagrado não 
vêem senão madeira para queimar”? 85. “A 
virtude que deveriam respeitar ainda que não 
possam entender”? 8 8, À virtude tornou-se um 
penduricalho bom para se pendurar no gabine- 
te, uma palavra solta na ponta da língua, um 
simples enfeite, como um brinco. 

Não se verificam mais atos de virtude. Os 
que assumem esse aspecto não lhe têm a essên- 
cia. São o lucro, a glória, o hábito e o medo 
que nos levam a praticá-los. Os atos de justiça, 
coragem ou bondade que emanam de nós 
podem ser considerados pelos outros como 
provocados pela virtude, mas não é a virtude 
que no-los inspira. Têm outro objetivo, provêm 
de outras causas e a virtude só admite o que se 
faz por ela e para ela. 

Após a grande batalha de Platéia, vencida 
pelos gregos sob as ordens de Pausânias con- 
tra os persas comandados por Mardônio, 
tendo os vencedores que determinar, segundo o 
costume, a quem competia a glória do êxito, 
atribuíram-na aos espartanos pelo valor excep- 
cional que haviam demonstrado durante o 
combate. Quando estes, excelentes juízes em 
matéria de virtude, tiveram de decidir a qual 
deles em particular cabia a honra de ser pro- 
clamado o melhor, reconheceram que Aristo- 


353 Ordem religiosa. 
354 Cícero. 

355 Horácio. 

35€ Cicero. 


demo fora quem enfrentara o perigo com 
maior coragem. Não lhe deram entretanto o 
prêmio, porque sua coragem fora sobreexci- 
tada pelo desejo de apagar a censura que lhe 
valera sua conduta nas Termópilas e de se 
redimir, por morte digna, do passadc vergo- 
nhoso. 

Nossos julgamentos estão longe de ser jus- 
tos, porquanto se ressentem da depravação dos 
nossos costumes. Vejo a maioria dos belos 
espíritos de nosso tempo esforçar-se por dimi- 
nuir a glória das belas e generosas ações que 
nos revela a antiguidade, depreciando-as e 
inventando circunstâncias e causas inexis- 
tentes para as explicar. Grandes sutileza em 
verdade! Dêem-me a ação mais bela, mais 
pura, e conseguirei sem dificuldade atribuir-ihe 
as piores intenções por móvel. Deus sabe 
quanto nossa vontade íntima pode ser diversa- 
mente interpretada? 7. A má língua dos esper- 
tos mostra-os menos maliciosos do que gros- 
seiros e estúpidos. 

Sinto-me tentado a empregar na defesa e 
Icuvor dos grandes homens os mesmos proces- 


"sos abusivos de que usam para os diminuir. 


Pois não hesitaria em engrandecer ainda mais, 
e quanto possível, essas admiráveis figuras, tão 
raras e escolhidas entre as demais pelos pró- 
prios sábios, para servirem de exemplo ao 


“mundo. Não hesitaria em ampliar ainda, quan- 


to pudesse, a sua glória por meio de interpreta- 
ções e de circunstâncias favoráveis a meu 
ponto de vista, que conseguiria inventar. E 
creio que o resultado da imaginação se situaria 
bem abaixo de seus méritos. É dever do 
homem de bem representar a virtude sob as 
mais belas formas e não teria nada a criticar se 
a paixão nos induzisse a exagerar os elogios a 
essas manifestações dignas de nosso respeito. 
O que fazem os detratores, fazem-no ou por 
maldade ou porque são impelidos a colocar os 
fatos da história ao seu alcance, ou, melhor, 
porque sua inteligência carece da força e clari- 
vidência necessárias à concepção do esplendor 
da virtude em toda a sua pureza. Assim, diz 
Plutarco que em seu tempo havia quem atri- 
buísse a morte de Catão, o jovem, ao medo que 
tivera de César, o que o irritava mui justa- 
mente. E pode-se imaginar quanto mais sé irri- 
taria se ouvisse o que depois se disse, a saber, 
que essa morte tivera por causa a ambição. 
Que tolice! Pois Catão teria muito mais facil- 
mente perpetrado uma ação generosa e justa 
pondo as aparências contra si do que se 
vangloriando. Esse grande homem foi real- 


357 A frase é confusa. Michaut diz “influenciada”. 
Optamos por “interpretada”, mais condizente com 
o texto. “Deturpada” também exprimiria o pensa- 
mento do autor. (N. do T.) 


ENSAIOS —I 117 


mente um modelo que a natureza escolheu 
para nos mostrar a que ponto podem chegar, 
no homem, a virtude e a resolução. 

Não me cabe aqui comentar tema tão rico 
em' ensinamentos. Quero apenas estabelecer 
um paralelo (a fim de realçar sua glória e 
incidentemente a deles) entre cinco trechos de 
poetas latinos consagrados ao elogio de Catão. 
Creio que uma simples criança culta verá logo 
serem os dois primeiros fracos em relação aos 
outros. O terceiro, o mais comovente, perde-se 
pelo exagero; entre este e os dois precedentes 
há lugar para um ou mais trechos de valor 
intermediário. Diante do quarto não poderá 
deixar de cair de mãos postas, de admiração. 
Mas o primeiro lugar dará ao último trecho 
que se distancia de todos os outros sem que o 
intervalo que o separa dos demais possa ser 
preenchido por nenhum espírito humano. Ma- 
ravilhar-se-á e ficará tomado de intensa emo- 
ção. 


Coisa espantosa: temos muito mais poetas 
do que pessoas aptas a julgar e interpretar a 
poesia. É mais fácil fazê-la do que compreen- 
dê-la. A não considerarmos senão a questão . 
secundária da forma, pcederemos julgá-la pela 
aplicação dos preceitos, pela arte com que foi 
composta; mas no que tem de bom, de subli- 
me, de divino, está acima de todas as régraste 
de todos os raciocínios. Quem procura, com. 
calma e reflexão, analisar-lhe a beleza não o 
consegue, como não consegue analisar o 
esplendor de um relâmpago. Ela não seduz 
nossa inteligência; encanta-a e a devasta. O êx- 


tase de quem a sabe penetrar se repercute 
sobre quem a ouve recitar e interpretar. Assim 
o imã não somente atrai a agulha mas também 
lhe infunde a propriedade de atrair outras agu- 
ihas. E o que se vê melhor no teatro; a inspira- 
ção sagrada das musas, que se apodera do 
poeta e o enche de cólera, de tristeza, de ódio, 
contagia o ator e, por este, o público. É o caso 
das agulhas presas umas às outras. 

esde a infância, a poesia produziu em mim 
o efeito de me penetrar e comover profunda- 
mente; mas esse sentimento poético muito vivo 
e natural em mim foi: influenciado de modo 
diferente segundo a forma, não na sua maior 
ou menor elevação, porquanto só conheci o 
que havia de melhor em cada gênero, mas pelo 
próprio tom da poesia: em primeiro lugar a 
fluidez graciosa e engenhosa, em seguida a 
sutileza aguda e nobre; finalmente a força viril 
e madura. Os nomes de Ovídio, Lucano, Virgi- 
lio, que encarnam esses gêneros, são exemplos 
do que afirmo. 

Diz um dos poetas, Marcial, que “assim foi 
Catão, maior ra vida do que o próprio César”. 
E outro, Manílio, observa: “que Catão, indo- 
mável, triunfou da morte”. Outro, Lucano, 
referindo-se às guerras civis entre César e 
Pompeu, comenta: “Os deuses abraçam a 
causa do vencedor, Catão defende a do venci- 
do.” Diz o quarto, Horácio, elogiando a 
César: “Todos estão a seus pés, sé o altivo 
Catão faz exceção.” Eis afinal Virgílio, o cori- 
feu, que, após haver enumerado os nomes dos 
maiores homens de Roma, assim termina: 
“Enfim Catão, que a todos dita as leis.” 


CAPÍTULO XXX VIII 


Como uma mesma coisa nos faz rir e chorar 


Mosira-nos a história Antigônio muito 
descontente com o filho que lhe apresenta a ca- 
beça do Rei Pirro, seu inimigo, morto momen- 
tos antes em combate contra ele. E tendo-a 
visto põe-se a chorar. O Duque René de Lore- 
na, que lamentou igualmente a morte de Car- 
los de Borgonha, na derrota que acabava de 
sofrer, pôs luto no enterro do inimigo. OQ 
Conde de Montfort na batalha de Auray, 
ganha contra Carlos de Blois que lhe dispu- 
tava o ducado de Bretanha, mandou procurar 
o corpo do morto e o acompanhou ao túmulo. 

Tais fatos não nos autorizam entretanto a 


concluir sem hesitação que: “assim a alma 
esconde sob um véu enganoso as paixões 
contrárias que a perturbam; não raro estã ela 
triste quando seu rosto irradia alegria, e alegre 
quando parece triste”3 58. 

Dizem os historiadores que quando lhe 
apresentaram a cabeça de Pompeu, César 
virou o rosto, desviando o olhar, como o faria 
diante de um triste e feio espetáculo. Tinham 
estado tanto tempo de acordo e associados na 
gestão dos negócios públicos, seus destinos se 


358 Petrarca. 


118 


haviam ligado tão amiúde, haviam prestado 
mútuos serviços tantas vezes, e tantos interes- 
ses lhes tinham sido comuns, que não se dirá 
fosse hipócrita a atitude de César ou contrária 
a seus sentimentos íntimos, como insinua 
Lucano: “Logo que pensou poder enternecer- 
se, sem riscos, sobre o genro, fingiu chorar € 
arrancou alguns gemidos de um coração trans- 
bordante de alegria.” Sem dúvida nossas 
ações, em sua maioria, são máscara € artifício, 
e é verdade por vezes que “as lágrimas do her- 
deiro se fazern risos sob a máscara”? 8º. Cabe, 
porém, a fim de emitir um juízo em seme- 
lhantes circunstâncias, considerar a que ponto 
sornos por vezes agitados por paixões diversas. 


Em nosso corpo, dizem os médicos, pro- 
duz-se um conjunto de humores diferentes; um 
deles domina, aquele que segundo oc nosso 
temperamento atua mais comumente sobre 


nós. Da mesma forma, entre os múltiplos senti- 
mentos que agitam nossa alma um prevalece, 
mas não a ponto de impedir que, em virtude da 
facilidade e flexibilidade que tem a alma de 
modificar o curso de suas impressões, os mais 
fracos sejam capazes, ocasionalmente, de 


sobrepujar o mais forte durante alguns mo- 
mentos. É o que explica por que as crianças, 
ingênuas, naturais nas suas expansões, riem e 
choram muitas vezes pelo mesmo motivo. E 
nenhum de nós pode vangloriar-se de não ter, 
não obstante o prazer que pensa auferir de 
uma bela viagem, sentido faltar-lhe a coragem 
de deixar família e amigos; e, se não chegou a 
derramar lágrimas de verdade, não foi nunca 
sem um” aperto no coração que pôs o pé no 
estribo. 

Por bela que seja a chama que aquece o 
coração da jovem de boa família, no momento 
de entregá-la ao esposo cumpre arrancá-la ao 
pescoço de sua mãe; em que pesem as palavras 
do cético jovial: “Será Vênus odiosa às jovens 
esposas, ou caçoam elas da alegria dos pais 
com todas as lágrimas derramadas à entrada 
do quarto nupcial? Que eu morra, se tais lágri- 
mas são sinceras!”S 8º Eis por que não há 
como estranhar que lamentemos a morte de 
quem não gostaríamos que vivesse. 

Quando admoesto meu criado, faço-o tão 
severamente quanto possível; minhas impreca- 
ções são reais, minha cólera não é fingida; 
mas, passada a borrasca, viro a página. E se 
precisa de mim vou-lhe em socorro de bom 
grado. Quando o trato de tonto ou de animal, 
não o faço para marcá-lo definitivamente, 


359 Públio Siro. 
360 Catulo. 


MONTAIGNE 


porém não penso desdizer-me se acho, pouco 


depois, que é um bom sujeito. Nenhum adje- 
tivo nos é aplicável sem restrição. Se não fosse 
próprio de um louco falar sozinho, não houve- 
ra dia em que não me ouvissem gritar comigo 
mesmo e dizer-me: espécie de idiota! embora 
com isso não quisesse em absoluto definir-me. 


Quem me vê emburrado diante de uma mulher 
e logo em seguida sorridente, e pensa que em 
um caso ou noutro não sou sincero, é um 
imbecil. Nero, dizendo adeus à sua mãe, que ia 
ser afogada por sua ordem, mostrou-se como- 
vido, cheio de horror e piedade. 


Dizem que a luz do sol não nos atinge de 
um jato; que o sol nos envia raios sucessivos 
mas com uma tal rapidez e em tal profusão 
que não lhes podemos apreender a intermi- 
tência: “fonte fecunda de luz, o sol brilhante 
inunda sern descontinuidade o céu de uma cla- 


ridade renascente, substituindo sem cessar seus 
raios por outros raios novos”? 8!. Da mesma 
forma, lançam-se de nossa alma, sem que nos 
apercebamos, mil e uma manifestações. 


Xerxes, às margens do Helesponto, conside- 
rava quanto seus exércitos que atravessavam o 
estreito estavam fora de proporção com a Gré- 
cia contra a qual os conduzia. Experimentando 
a princípio um sentimento de bem-estar diante 
de tantos milhares de homens de que era 


senhor, satisfação e alegria lhe vieram ao 
rosto. Mas eis que se põe a pensar que todas 
essas vidas terão terminado dentro de um sécu- 
lo ao mais tardar e ante essa idéia sua fronte se 
enruga e a tristeza arranca-lhe lágrimas, o que 
lhe censura Artábano, seu tio e testemunha da 
súbita mudança de atitude. 


Com absoluta resolução chegamos a vin- 
gar-nos de uma injúria e sentimos um conten- 
tamento singular por termos alcançado o obje- 
tivo; no entanto choramos por vezes. Não é, 
porém, porque atingimos a meta que chora- 
mos; desse ponto de vista não mudamos, mas 
nossa alma vê a coisa com outros olhos, enca- 
ra-a por outro ângulo, pois tudo pode ser enca- 
rado de diferentes lados e apresentar aspectos 
diversos. 


O parentesco, as relações antigas, a amizade 
do passado voltam-nos ao espírito e a passa- 
gem de um aspecto a outro é tão brusca que se 
torna imperceptível: “nada há tão rápido 
quanto o espírito quando concebe ou age; a 
alma é móvel por isso, e mais do que tudo o 
que nos apresenta a natureza”? 92, E erramos 


361 Lucrécio. 
362 TLucrécio. 


ENSAIOS —I 


quando com esses movimentos todos quere- 
mos constituir um conjunto a desenrolar-se de 
maneira seguida. 

Quando Timoleão chora a morte que, em 
conseguência de madura e generosa resolução, 


119 


acaba de cometer, não é sobre a liberdade 
devolvida à sua pátria que derrama lágrimas, 
nem sobre o tirano que imolou; é o irmão que 
ele chora. Cumpriu uma parte de seu dever; 
deixemo-lo desempenhar a outra. 


CAPÍTULO XXXIX 
Da solidao 


Deixemos de lado qualquer comparação, 
por demasiado longa, entre a vida solitária e a 
vida mundana; e quanto a esta bela frase que 
dissimula a ambição e a avareza: não nasce- 
mos para nossa própria satisfação e sim para a 
de todos, apelemos para os que estão na dança 
e que após cuidadoso exame de consciência 
nos respondam se os trabalhos, os encargos e 
os aborrecimentos da vida na coletividade são 
procurados e aceitos por outros motivos que 
não o proveito pessoal ambicionado. Os meios 
pouco confessáveis que empregamos em nosso 
século para avançar, bem demonstram o ne- 
nhum valor do objetivo fixado. Se para comba- 
ter nossa tendência para a solidão a atribuírem 
à ambição, responderemos que é precisamente 
esta que nos inspira, pois quem mais do que a 
ambição foge da sociedade, e que deseja mais 
senão a inteira liberdade? 

Praticar o bem ou o mal é possível em toda 
parte, entretanto se o que diz Bias é certo, “que 
a maioria dos homens é também a pior”, ou o 
que se escreve no Eclesiastes, “que sobre mil 
não Há um que preste”, ou ainda o poeta, 
“raros são os bons, apenas se achariam tantos 
quantas as portas de Tebas ou as embocaduras 
do Nilo”? 8º, grande é o contágio do mal para 
quem vive na sociedade. É preciso imitar os 
viciados ou odiá-los, alternativas igualmente 
perigosas. Imitá-los porque são muitos; odiá- 
Jos porque são diversos. Por isso os nego- 
ciantes que viajam por mar evitam que subam 
a seus navios pessoas dissolutas, blasfema- 
doras ou mãàs, porquanto um tal aglomerado 
de gente só pode ter péssimas conseguências. 
Por isso, também, dizia Bias aqueles em cuja 
companhia enfrentava violenta tempestade e 
que invocavam a proteção divina: “Calai, que 
Deus não perceba que estais aqui comigo.” O 
exemplo de Albuquerque, vice-rei da Índia, é 
mais típico ainda. Correndo o risco de morrer 
em acidente marítimo, tomou uma criança 


383 Juvenal. 


pequena aos ombros, a fim de que, no perigo 
comum, sua inocência lhe servisse de garantia. 

Não é que o homem sábio não possa viver 
satisfeito onde quer que seja e isolar-se no 
meio dos cortesãos que entopem o palácio; 
mas se lhe for dado escolher, evitará até o sim- 
ples espetáculo deles, dizem os filósofos. Se 
necessário resignar-se-à a ficar; se puder, esco- 
lherá outra situação. Não lhe parecerá sufi- 
ciente libertar-se dos próprios vícios, se tiver 
ainda de lutar contra os dos outros. Charondas 
punia como maus os que comprovadamente 
andavam em más companhias. Não há ser 
mais sociável ou menos sociável do que o 
homem; é ele uma coisa pela sua própria natu- 
reza € outra em consequência de seus vícios. 
Antístenes não foi a meu ver judicioso quando, 
a alguém que lhe censurava as más compa- 
nhias, respondeu: “os médicos também vivem 
com os doentes”. Em verdade os médicos cui- 
dam da saúde dos doentes, mas comprometem 
a sua, pelo contágio e a influência perniciosa 
da presença continua da doença. 

O fim que visamos quando procuramos a 
solidão é, creio, viver mais à vontade e como 
nos agrada; mas nem sempre acertamos com o 
caminho. Amiúde imaginamos ter abandonado 
quaisquer ocupações e não fazemos senão 
mudar de atividade. O governo de uma família 
não causa menos aborrecimentos que o de um 
Estado. Ao que quer que se entregue, o espírito 
entrega-se por inteiro, e em sendo as ocupa- 
ções domésticas menos importantes nem por 
isso são menos importunas. Mais ainda: pode- 
mos retirar-ncs da Corte, renunciar aos negó- 
cios, não estaremos contudo ao abrigo dos 
principais tormentos da vida: “são a razão e a 
prudência, e não essas praias de onde se vê a 
imensidade do mar, que dissipam a triste- 
za”3 84%. A ambição, a avareza, a indecisão, O 
medo, a concupiscência não nos abandonam 


ce 


tão-somente porque mudamos de lugar: “a 


364 Torácio. 


120 


preocupação monta na garupa e galopa com 
eles”3 85. Acompanham-nos até nos claustros e 
nas escolas de filosofia. Não há desertos, 
cavernas nos rochedos, mortificações e jejuns 
que nos libertem: “a seta mortal continua 
presa a seus flancos”* 8 8. 

Diziam a Sócrates de alguém que de ne- 
nhum defeito se corrigira durante a longa via- 
gem que realizara: “bem o creio”, retrucou o 
filósofo, “ele se levara a si mesmo em sua 
companhia”. “Por que procurar países ilumi- 
nados por outros sóis? Bastaria então fugir da 
pátria para fugir de si mesmo??? 8? Se prelimi- 
narmente não descarregamos a alma do peso 
que a oprime, mais se machucará com o movi- 
mento; assim o navio se estraga menos se a 
carga é bem distribuída. Mais mal do que bem 
faz-se ao doente em o mudando de lugar. Com 
o movimento, o mal acumula-se no fundo dele, 
como o conteúdo de um saco quando sacudi- 
do, e como a estaca afunda e se solidifica 
quanto mais a tentam abalar. Não basta pois 
deslocar-se, evitar a multidão, é preciso ainda 
afastar de nós as idéias que nos são comuns, a 
ela e a nós. É preciso que nos seqiestremos e 
tomemos posse de nós mesmos: “quebrei os 
ferros, dizeis? Sim, o cão, depois de ter puxado 
a corrente e a ter partido, foge mas arrastando 
uma parte ao pescoço”? 88, Carregamos nos- 
sos ferros conosco, nossa liberdade não é com- 
pleta, volvemos o olhar para o que deixamos € 
que nos emprenha a imaginação: “Se a alma 
não é pura, quantos riscos corremos! Quantas 
lutas sem proveito contra nós mesmos! Quan- 
tas preocupações amargas, quantos temores, 
quantas inquietações roem o homem prisio- 
neiro de paixões! Que devastações produzem 
em nosso espírito o orgulho, a luxúria, a cóle- 
ra, O luxo, a moleza, a preguiça !?3 89 

“Nosso mal está dentro da alma e esta não 
pode fugir de si mesma”37º, E necessário, 
pois, extirpá-lo dela e então nos concentrarmos 
em nós mesmos. Nisso consiste a verdadeira 
solidão, a que podemos gozar na cidade e na 
Corte, mas que gozamos melhor no isola- 
mento. Se projetamos viver sozinhos, longe de 


todos, façamos com que nossa satisfação só 
dependa de nós; destruamos tudo o que nos 


amarra aos outros, arranjemo- nos de maneira 


a viver efetivamente sós, e, nesta condição,. 


sem mais preocupações. 
Estilpon escapara do incêndio de sua cidade 


365 Worácio — Esse “eles” refere-se a 
“tormentos”. (N. do T.) 

388 Virgílio. 

387 Horácio. 

368 Pérsio. 

369 Tucrécio. 


370 Horácio. 


MONTAIGNE 


natal, mas perdera a mulher, os filhos e tudo o 
que possuía. Vendo-o sereno em tão sombria 
situação, perguntou-lhe Demétrio Poliorcetes 
se não tivera prejuizos. “Ao que ele respondeu 
que, mercê de Deus, nada perdera de seu.” É o 
que exprimia de modo jocoso o filósofo Antís- 
tenes: “O homem deve abastecer-se de provi- 
sões suscetíveis de flutuar, a fim de que possa, 
em caso de naufrágio, salvá-las a nado.” E, 
com efeito, o sábio nada perde em conser- 
vando a posse de si mesmo. 


Quando a cidade de Nola foi saqueada pelos 
bárbaros, Paulino, bispo do lugar, perdeu 
todos os seus bens e foi feito prisioneiro. Nem 
por isso deixou de endereçar diariamente a 
Deus esta prece: “Preservai-me, Senhor, de 
sentir esta desgraça, pois o que está em mim, 
bem o sabeis, não foi até agora atingido.” As 
riquezas que o faziam realmente rico, os bens 
que o faziam bom, continuavam intatos. Cum- 
pre, pois, selecionar os tesouros que podem ser 
preservados de quaisquer danos e escondidos 
em lugar fora do alcance de qualquer um e que 
só nós mesmos podemos revelar. É preciso ter, 
se possível, mulher, filhos, fortuna e principal: 
mente saúde, mas não se prender a isso a 
ponto de prejudicar nossa felicidade. É preciso 
ter como reserva um recanto pessoal, indepen- 
dente, em que sejamos livres em toda a acep- 
ção da palavra, que seja nosso principal retiro 
e onde estejamos absolutamente sozinhos. Aí 
nos entreteremos de nós com nós mesmos, e a 
essa conversa, que não versará nenhum outro 
assunto, ninguém será admitido. Aí nos aban- 
donaremos a nossos pensamentos sérios ou 
divertidos, como se não tivéssemos mulher 
nem filhos, nem bens, nem casa, nem criada- 
gem, de maneira que se um dia eles nos falta- 
rem não nos custe demasiado a carência. 
Temos uma alma suscetível de se recolher, de 
se bastar em sua própria companhia, de atacar 
e defender-se, de dar e receber; não nos arre- 
ceemos, portanto, nesse diálogo com nós mes- 
mos, de vegetar em uma aborrecida ociosi- 
dade. “Na tua solidão, sê para ti mesmo o 
mundo”3 71. A virtude satisfaz-se com ser, sem 
necessidade de regras, palavras, consegliên- 
cias. 

Em nossas ocupações habituais não há uma 
entre mil que nos diga respeito. Este, ve vês 
furioso e fora de si, escalar as ruínas do forte, 
em meio à fuzilaria; e o outro que, cadavérico, 
esfomeado, coberto de cicatrizes e decidido 
antes a morrer do que a deixar passar o inimi- 
go, imaginas que agem por conta própria? 
Pois é por conta de fulano e beltrano, que 


371 Tibulo. 


ENSAIOS —I 121 


nunca viram, fulano e beltrano que não se 
preocupam sequer com seus feitos e mergu- 
lham no ócio e nos prazeres enquanto eles se 
matam. Aquele que vês sair depois da meia- 
noite de seu gabinete de estudo, tomado de 
pituíta, olhos doentes, miseravelmente vestido, 
pensas que passou seu tempo a buscar nos li- 
vros o que lhe cumpre fazer para se aperfeiçoar 
no bem, para se satisfazer com a sorte e pro- 
gredir em sabedoria? Nada disso! Morrerã na 
tarefa ou acabará revelando à posteridade o 
ritmo em que se escreveram os versos de Plau- 
to ou a verdadeira ortografia de certa palavra 
latina. Quem não troca deliberadamente a 
saúde, o repouso, a vida, pela reputação e a 
glória, as mais inúteis e vas, e falsas, das moe- 
das correntes? Como se nossa própria morte já 
não nos inspirasse suficiente terror, interessa- 
mo-nos pela de nossas mulheres, filhos e servi- 
dores! Como se não tivéssemos bastantes 
aborrecimentos, acrescentamos aos nossos os 
dos nossos vizinhos e amigos! “Como pode 
um homem .pretender amar mais a alguma 
coisa do que a si mesmo?” 3 72 


A solidão parece-me em particular indicada, 
e necessária, aqueles que consagraram à 
humanidade a mais bela parte de sua vida, a 


mais ativa e produtiva, como o fez Tales. Já. 


vivemos bastante para os outros, vivamos para 
nós ao menos durante o pouco tempo que nos 
resta. Isolemo-nos, e na calma, rememoremos 
nossos pensamentos e nossas intenções. Não é 
nada fácil um retiro consciencioso; isso nos 
preocupará suficientemente para que não pro- 
curemos atrelar-nos a outros empreendi- 
mentos. Desde que Deus nos dá lazeres a fim 
de nos prepararmos para deixar este mundo, 
mãos à obra, arrumemos nossas bagagens. 
Com antecedência digamos adeus a todos; 
libertemo-nos desses compromissos que nos 
amarram a outrem e nos distraem de nós 
mesmos. 


É preciso romper com quaisquer obrigações 
imperativas. Talvez ainda gostemos disto ou 
daquilo, mas só a nós mesmos poderemos des- 
posar. Em outras palavras, o que está fora de 
nós pode não nos ser indiferente, mas não a 


ponto de se colar a nós de modo que não se. 


arranque sem nos esfolar e sem levar alguma 
parcela de nós. A coisa mais importante do 
mundo é saber pertencermo-nos. 

Já é tempo de nos retirarmos da sociedade, 
porquanto nada mais lhe podemos dar e quem 
não está em condições de emprestar não deve 
pedir emprestado. Se nos faltam forças, recue- 
mos e nos recolhamos. Quem puder então 


372 Terêncio. 


emprestar a si próprio os serviços que de cos- 
tume se esperam da amizade e da sociedade, 
preste-os. Mas nessa queda que o torna inútil, 
importuno e pesado a outrem, evite tornar-se 
inútil, importuno e pesado a si próprio. Que se 
elogie e se trate, mas se domine; que respeite e 
tema sua razão e sua consciência para que não 
dê, sem se envergonhar, um passo em falso 
diante delas: “E raro, com efeito, que alguém 
saiba respeitar-se suficientemente” 73. 

Diz Sócrates que os jóvens devem instruir- 
se; os homens feitos procurar agir acertada- 
mente; os velhos abandonar toda ocupação 
civil ou militar e viver para sua idéia, sem obri- 
gações precisas. Há temperamentos mais ou 
menos predispostos a se conformarem com 
tais princípios. Os tímidos, os fracos, cujos 
sentimentos e vontade não se dobram (e sou 
desses tanto por tendência natural como pelo 
raciocínio) aceitam-nos mais facilmente do 
que aqueles cuja atividade e necessidade de 
ação levam a se meter em tudo, a se apaixonar 
por tudo, aqueles que se oferecem, se apresen- 
tam e se dão em quaisquer circunstâncias. 

É preciso valermo-nos das vantagens que 
porventura encontramos em torno de nós, mas 
na medida em que nos convêm e sem fazer 
delas um alicerce essencial. Não o seriam, pois 
a razão € a natureza não o aprovam. Por que, 
desobedecendo às suas leis, nos colocaríiamos, 
no que respeita à nossa comodidade, sob a 
dependência de outrem? Antecipar-se aos aci- 
dentes que pode provocar a má sorte, não é 
coisa de se fazer. Privar-se voluntariamente 
das satisfações ao nosso alcance, como o 


fazem alguns por devoção e certos filósofos 
por convicção; dispensar criados; dormir ao 
relento; vazar os próprios olhos; deitar fora 
riquezas; procurar a dor, como o fazem muitos 
na: esperança de que os sofrimentos em vida 
lhe acarretem a eterna beatitude no outro 
mundo; ou como fazem outros que pensam, 
em descendo ao degrau mais baixo da socieda- 
de, garantir-se contra queda maior, são coisas 
que resultam de exagerada virtude. Que as 
naturezas particularmente severas e resolutas 
assim se defendam contra os vendavais deste 
mundo é coisa que as honra e vale como exem- 
plo: “Quanto a mim, se não posso ter muito, 
contento-me com pouco e. louvo a possível 
mediocridade; se minha fortuna melhora, pro- 
clamo que não há sábios e homens felizes 
senão entre aqueles cuja renda provém de boas 
terras”? 74. Creio que muito se pode fazer sem 
ir tão longe. Basta-me a mim, quando a sorte 


373 Quintiliano. 
374 Horácio. 


122 


me sorri, preparar-me para suas infidelidades, 
e representar-me, enquanto tenho o espírito 
livre, o mal que me pode ocorrer; assim em 
plena paz nos entregamos às justas e aos tor- 
neios, a fim de nos exercitarmos para a guerra. 
Não considero o filósofo Agesilau menos 
digno, só porque usava baixela de ouro e prata, 
de acordo com sua fortuna; estimo-o mais por 
tê-la usado com moderação e liberalidadé do 
que se dela se houvesse desfeito. 

Procuro verificar até onde podem ir as 
necessidades a que estamos expostos. Quando 
vejo um pobre mendigar à minha porta, tento 
fazer com que meu pensamento se amolde ao 
seu. E passando dele a outros em idênticas 
condições, sou impelido a pensar na morte, na 
pobreza, na perda de consideração, na doença, 
que podem ocasionalmente acontecer-me. A 
apreensão que experimento atenua-se à idéia 
da paciência com que outros, em piores situa- 
ções, acatam suas desventuías, pois não posso 
acreditar que a fraqueza de espírito seja, em 
semelhante ocorrência, mais eficiente que a fir- 
meza de ânimo, ou que a razão não possa con- 
duzir aos mesmos resultados que o hábito. 
Sabendo quanto essas comodidades da vida, 
tão supérfluas, são frágeis, ao gozá-las não 
deixo de pedir a Deus a mercê de fazer com 
que me sinta satisfeito comigo mesmo e com o 
que possuo. Vejo pessoas ainda jovens e em 
perfeita saúde ter sempre em casa quantidade 
de pílulas para o caso de sobrevir um resfria- 
do, o qual tanto menos receiam quanto imagi- 
nam ter o remédio à mão. É preciso agir de 
maneira idêntica; e se nos sentimos expostos a 
alguma doença séria devemos prover-nos de 
drogas que acalmem e adormeçam o órgão 
ameaçado. 


A ocupação que cumpre escolher quem pro- 
cura a solidão, não deverá ser nem cansativa 
nem aborrecida, pois de outro modo não vale- 
ria a pena isolar-se no intuito de encontrar o 
repouso. Depende ela da predileção natural de 
cada um. A minha tendência não me induz a 
valorizar minhas propriedades; os que apre- 
ciam uma tal atividade a ela se entreguem pois, 
mas com moderação: “que busquem colocar- 
se acima das coisas, em vez de se sujeitar a 
elas”? 7º, sem o que a ocupação se transfor- 
mará em servidão, como diz Salústio. 

Entre as ocupações que comporta a explora- 
ção de uma propriedade, algumas hã que eu 


compreendo e desculpo. Cuidar:do jardim, por - 


exemplo, o que, segundo Xenofonte, fazia 
Ciro. E é possível encontrar um meio-termo 
entre o trabalho grosseiro, pesado, exigente de 


375 Horácio. 


MONTAIGNE : 


atenção que se impõe a quem se dedica por 
inteiro a ele e a displicência profunda, exces- 
siva dos que deixam tudo ao abandono: “O 
gado dos vizinhos vinha comer as colheitas de 
Demócrito enguanto, liberto do corpo, seu 
espírito viajava pelo espaço”? 7 8 


Ouçamos o conselho de Plínio, o Jovem, a 
seu amigo Canínio Rufo a respeito da vida 
solitária: “No retiro absoluto que criaste, e 
onde tens a possibilidade de viver como enten- 
des, aconselho-te abandonares a teus servido- 
res as tarefas penosas e humilhantes, e te entre- 
gares ao estudo das letras, a fim de chegares a 
produzir alguma coisa pessoal.” Plínio quer 
dizer com isso que aplicasse seus lazeres em 
criar um nome. É o que pensava Cicero, que 
dizia querer empregar a solidão e o repouso 
que lhe deixariam os negócios públicos em 
conquistar com seus escritos uma glória imor- 
tal: “Teu saber nada valerá se não souberem 
que tens saber”? 7? Seria normal, a meu ver, 
que olhasse para fora do mundo quem dele 
quer retirar-se. Plínio e Cicero só o fazem 
entretanto por metade; tudo dispõem para o 
momento em que se hão de retirar, mas por 
uma ridícula contradição, embora separados 
do mundo, deste é que pretendem tirar sua 
satisfação. 


Os que por devoção procuram a solidão, e 
se animam na certeza de outra vida acenada 
pelas promessas divinas, são mais coerentes. 
Aspiram a Deus, infinitamente bom e podero- 
so, e sua alma, livre, encontra à saciedade a 
satisfação dos desejos que concebe no retiro. 
Aflições e dores são-lhes vantajosas, por- 
quanto constituem créditos a mais para um dia 
possuírem a saúde e a felicidade eternas. A 
morte se lhes afigura desejável porque os intro- 
duzirã na perfeição. O rigor das regras que se 
impõem é atenuado desde o início pelo hábito, 
e os apetites da carne, repelidos sem cessar, 
adormecem afinal, pois nada os entretém me- 
lhor do que o uso e os exercícios. Essa outra 
vida feliz e imortal que se lhes promete, mere- 
ce, sozinha, que renunciem sem restrições às 
comodidades e doçuras da nossa. Quem pode 
abrasar a alma com a chama dessa fé que nada 
abala e dessa esperança que engendra uma 
convicção real e constante, leva na solidão 
uma existência cheia de volúpias e de delícias, 
que deixa muito distantes todas as satisfações 


outorgadas por qualquer outro gênero de vida. 


Nem o objetivo que aponta Plínio, nem o 
meio que propõe satisfazem portanto. Vamos 
assim de mal a pior. Dedicar-se às letras é tra- 


376 Td. 
377 Pérsio. 


ENSAIOS —1I 123 


balho tão penoso como outro quaiquer e igual- 
mênte perigoso para a saúde, o que é o ponto 
essencial a ser considerado. E não nos deve- 
mos deixar encantar pelo prazer que tiramos 
dele, pois é sempre o prazer excessivo, que o 
homem aufere da satisfação do que mais apre- 
cia, que o perde, seja ele avarento, voluptuoso 
cu ambicioso. Os sábios advertem-nos assaz 
contra a traição de nossos apetites; ensinam- 
nos a discernir, entre os prazeres que se nos 
oferecem, os verdadeiros e não suscetíveis de 
amargor dos que não são sem mistura e dos 
quais cumpre esperar mais fadiga do que satis- 
fação. À maior parte dos prazeres, dizem, 
acaricia-nos e nos abraça para nos estrangular, 
como faziam os bandidos a que os egípcios 
chamavam filistas. Se a dor de cabeça da 
embriaguez ocorresse antes e não depois, 
evitariamos beber demais; pois a volúpia age 
como a embriaguez: para melhor nos enganar 
vai à frente, escondendo-nos as consegiiências 
que acarreta. As letras são um agradável 
passatempo, mas se nos devemos absorver 
nelas a ponto de perdermos a alegria e a saúde, 
o que em suma nos é mais precioso, renuncie- 
mos. Sou de opinião que as vantagens que elas 
nos oferecem não compensam tais prejuízos. 
Os homens enfraquecidos por alguma enfermi- 
dade prolongada acabam por se entregar ao 
médico e se submetem a determinadas regras 
de vida a que não devem desobedecer; ora, 
quem, por desgosto ou aborrecimento, se retira 
da vida na sociedade deve guiar-se pelas regras 
da razão, e ordenar a nova existência com pru- 


'* dência e sensatez. 


Deverá renunciar a qualquer trabalho, como 
quer: que se apresente, e também de um modo 
geral evitar as paixões que perturbam a 
tranquilidade do corpo e do espírito, e 
“escolher o caminho mais adequado a seu 
temperamento”? 78. 


Que se dedique ao governo da casa, ao estu- 
do, à caça ou a outro exercício se nisso se 
compraz, mas que não vá além do prazer por- 
que então começa a fadiga. É preciso não 
inventar tarefas nem ocupações senão dentro 
dos jimites em que se impõem para nos manter 
em forma e preservar dos incômodos que acar- 


reta o exagero contrário, a ociosidade que 
amolece e embota. Há ciências estéreis e ár- 
duas que em sua maioria interessam principal- 


mente a sociedade. Que as estudem os que 
estão a serviço desta. Quanto a mim, só apre- 
cio os livros agradáveis e fáceis, que me dis- 
traem, cuja leitura é agradável, ou então os que 
me consolam e me fornecem regras para orien- 


378 Propércio. 


tar a vida e preparar-me para a morte, 
“passeando em silêncio pelos bosques e ocu- 
pando-me de tudo o que é digno de um homem 
bem ordenado e virtuoso”? 7º. 

As pessoas mais sábias do que eu, de alma 
mais forte e elevada, podem criar para si um 
repouso inteiramente espiritual. Eu, que a 
tenho como todo mundo, preciso que as como- 
didades do corpo me ajudem. E, tendo chegado 
a idade de perder as que mais me apeteciam, 
procuro as que me permite ainda esta época da 
vida, e arranjo-me para as aproveitar. É preci- 
so, por todos os meios possíveis, inclusive 
unhas e dentes se necessário, que conservemos 
o gozo das satisfações da vida que os anos nos 
arrancam aos poucos, umas após outras, das 
mãos: “gozemos; somente os dias que damos 
ao prazer são nossos; brevemente não serás 
mais que cinza, sombra, fábula”380. 

Plínio e Cícero sugerem-nos como objetivo 
a glória. Não me interessa nem de longe. A 
disposição de espírito mais contrária à vida 
solitária está na ambição**1, Glória e repouso 
são incompatíveis entre si. Plínio e Cícero 
somente livraram o corpo da muitidão; mais 
do que nunca a ela se prenderam pelo espírito 
e a intenção: “velho pândego, então só traba- 
lhas para divertir o povo???82: recuaram para 
melhor saltar e mediante violento impulso caí- 
ram em cheio no rebanho. 

Quereis ver a que ponto estão errados? 
Comparemos sua opinião com as de Epicuro e 
Sêneca, filósofos pertencentes a escolas diver- 
sas e escrevendo um a Idomeneu e outro a 
Lucílio, seus amigos, a fim de induzi-ios a 
abandonarem a vida pública, com suas grande- 
zas, e a se retirarem: “Vivestes até agora — 
dizem eles — nadando e flutuando pelos 
mares; voltai ao porto para morrerdes. Passas- 
tes a vida em plena luz, vivei à sombra o 
tempo que vos resta. Não vos libertarieis de 
vossas ocupações se ao mesmo tempo não 
renunciásseis aos benefícios que vos outor- 
gam; eis por que é preciso que abandoneis 
qualquer idéia de glória e renome. Seria preju- 
dicial para vosso repouso que a irradiação de 
vossos feitos do passado vos acompanhasse 
em vosso refúgio, pondo-vos demasiado em 
evidência. Com os outros prazeres renunciai 


379 Horacio. 

380 Pérsio. 

381 No início do capítulo diz Montaigne exata- 
mente o contrário: que a ambição inspira o gosto 
peta solidão. Tais contradições são comuns em 
Montaigne, muitas vezes mais interessado em' bri- 
lhar na defesa da tese do que em dizer exatamente o 
que pensa. (N. do T.) 

282 Pérsio. 


124 


ao que emana do aplauso dos homens. Quanto 
a vosso saber e a vossas capacidades, não vos 
preocupeis; não estarão perdidos se vós mes- 
mos valerdes mais. Lembrai-vos daquele sujei- 
to a quem perguntavam por que se esforçava 
tanto por adquirir um saber de que poucas pes- 
soas teriam conhecimento; respondeu ele: 
*'Contento-me com poucos; contento-me com 
um; contento-me com nenhum.” Estava certo. 
Vós e mais um já vos bastareis neste teatro da 
vida, em vos servindo mutuamente de público; 
e se estais só, sede a um tempo ator e especta- 
dor. Que o público seja para vós uma só pes- 
soa e que uma só pessoa tenha a importância 
de um grande público. É covarde ambição que- 
rer auferir glória e renome da ociosidade e da 
solidão; fazei como os animais que apagam 
suas pegadas à entrada de seu covil. Não vos 
deveis esforçar para que o mundo fale de vós; 
só vos deveis preocupar com o que dizeis a vós 
mesmos. Recolhei-vos em vós, mas antes 
preparai-vos para vos receber. Pois seria lou- 
cura confiardes em vós se não sabeis gover- 
nar-vos. Pode-se errar na vida solitária como 


MONTAIGNE 


quando se vive na sociedade. Enquanto não 
puderdes mostrar uma atitude irrepreensível, 
enquanto não inspirardes a vós mesmos res- 
peito e pudor, “oferecei a vosso espírito nobres 
imagens”28?. tende sempre presentes à imagi- 
nação Catão, Fócion, Aristides, diante dos 
quais os próprios loucos esconderiam seus 
erros; € fazei-vos juízes de vossas intenções. Se 
estas não forem o que deveriam ser, a defe- 
rência que por eles tendes vos indicará o cami- 
nho certo. Eles vos ajudarão a vos bastardes, a 
nada pedirdes senão a vós mesmos, a fazerdes 
com que vosso espirito se atenha às medita- 
ções em que possa comprazer-se. Assim 
compreendereis quais os verdadeiros bens, de 
que gozamos na medida em que os vamos 
entendendo, e assim sereis felizes, sem desejar 
que vossa vida se prolongue e vosso nome se 
torne famoso.” 

Eis um conselho de verdadeira e natural 
filosofia, e não de uma filosofia de ostentação 
e verborragia como a de Plínio e Cícero. 


383 Cicero. 


CaPpíTULO XL 


Considerações acerca de Cícero 


Mais um fato que ressaltará a diferença 
entre Epicuro e Sêneca de um lado e Cícero e 
Plínio de outro?8*: os escritos deste, que se 
assemelham bem pouco aos de seu tio38 5 e os 
de Cícero são testemunhos irrecusáveis de 
naturezas ambiciosas. Pois, entre outras coi- 
sas, não solicitam eles abertamente aos histo- 
riadores de seu tempo que não os esqueçam em 
suas obras? O destino, como que para zombar, 
fez que nos chegassem às mãos esses vaidosos 
apelos quando de hã muito perdidas as obras 
em que se fala deles. 

Mas o que revela a mesquinhez de senti- 
mentos desses personagens de alto coturno é 
terem querido tirar renome e glória de sua 
intemperança e futilidade de linguagem, e até 
guardando para a posteridade as cartas que 
escreviam a parentes e amigos, indo ao cúmulo 


384 O texto diz: “Encore un fait à la comperaison 
de ces couples.” A frase refere-se visivelmente ao 
capítulo precedente em que à atitude de Plínio e Cí- 
cero opõe Montaigne a de Epicuro e Sêneca. (N. do 
TS 

388 O naturalista Plínio 


de publicar algumas que não chegaram a ser 
enviadas, sob a alegação de não desejarem per- 
der seu trabalho e suas vigílias. Não ime parece 
decente que dois cônsules. romanos, primeiros 
magistrados de uma república que governava o 
mundo, empregassem seus lazeres em preparar 
e adornar belas missivas no intuito de adquirir 
a reputação de bem. escreverem a língua de 
suas amas-de-leite. Faria pior um simples 
mestre-escola que com isso ganhasse a vida? 


Se os feitos de Xenofonte e César não houves-. 


sem ultrapassado de muito sua eloguência, du- 
vido que os tivessem escrito. O que procura- 
ram tornar conhecido foi sua conduta nos 
acontecimentos de que participaram e não sua 
maneira de os contar. Se a perfeição da lingua- 
gem pudesse granjear uma glória de bom qui- 
late, Cipião e Lélio não teriam por certo cedi- 
do a um escravo africano a honra que podiam 
auferir de suas comédias e outros escritos em 
que ressaltam as mais deliciosas sutilezas da 
lingua latina, pois é indiscutível ser deles a 
obra de Terêncio, coisa que o próprio autor 
confessa e se evidencia em sua beleza e perfei- 


AY 


ENSAIOS — 1 125 


ção. E lamentaria muito que me provassem o 
contrário. 

E grotesco e injurioso procurar valorizar 
alguém em lhe atribuindo qualidades, por mais 
louváveis que sejam em si, que não convenham 
à sua condição social; ou que não devam figu- 
rar em primeiro plano. É como se elogiassem 
um rei por ser bom pintor, ou bom arquiteto, 
ou bom atirador, ou bom corredor de argo- 
las38 8, Tais elogios somente são honrosos 
quando se acrescentam aos que a pessoa mere- 
ce pelas qualidades adequadas à situação que 
ocupa. No caso tomado como exemplo, o espí- 
rito de justiça do príncipe, a habilidade com 
que governa na paz como na guerra. Assim é 
que seus conhecimentos de agricultura honra- 
ram Ciro; que sua eloquência e sua cultura 
literária honraram Carlos Magno. Vi outrora 
personagens, que deviam seus títulos e sua 
situação a seu talento caligráfico, renegarem 
seu aprendizado, exibirem uma letra ruim, afe- 
tarem profunda ignorância de tão vulgar saber 
que o povo acredita não se encontrar entre as 
pessoas de certa classe, e tentarem recomen- 
dar-se por qualidades mais importantes. Os 
companheiros de Demóstenes, enviado em 
missão junto a Filipe, elogiavam o principe 
por ser belo, eloquente e grande bebedor. Tais 
qualidades, atalhou Demóstenes, honrariam 
mais uma mulher, um advogado e uma espon- 
Ja, do que um rei. Este deve “comandar, esma- 
gar o inimigo que resiste, mostrar-se clemente 
em relação aos que reduz à impotência”** 7. 
Não é profissão real dançar bem ou caçar 
bem: “Que outros discursem com eloqiuência; 
que outros, armados de compassos, descrevam 
os movimentos dos céus, predigam o curso dos 
astros. Seu papel consiste em saber gover- 


marta, 
Plutarco vai mais longe e acha que, mos- 


trar-se alguém superior nas coisas acessórias, é 
prova de que não aproveitou seu tempo, não o 
empregou quanto devia no estudo do neces- 
sário e do útil. É o que levava Filipe, rei da 
Macedônia, a dizer a seu filho Alexandre, o 
Grande, o qual cantava em um festim exibindo 
um talento suscetível de infundir inveja aos 
melhores músicos: “Não tens vergonha de can- 
tar assim tão bem?” E idêntico sentimento fez 
que um músico, com o qual o mesmo Filipe 
discutia arte, respondesse: “Deus vos preserve, 
senhor, de experimentardes algum dia desas- 
tres de tal monta que possais chegar a ser mais 
perito do que eu nessa matéria.” Um rei deve 


3º 6 Jogo da época, espécie de cavalhada, em que 
competia ao gavaleiro arrancar a argola com a 
lança. (N. do T.) 

387 Horácio. 

388 Virgílio. 


poder responder como o fez de uma feita Ifi- 
crates a um orador que em sua arenga o apos- 
trofara nestes termos: “Quem és, para te mos- 
trares tão bravo? Guerreiro, archeiro, 
lanceiro?” — “Não sou nada disso, mas sou 
aquele que sabe comandar toda essa gente.” 
Antístenes viu um indício da mediocridade de 
Ismênias no fato de o louvarem por ser exce- 
lente tocador de flauta. 


Quando ouço alguém se referir ao estilo dos 
“Ensaios”, preferiria que calasse. Pois não são 
tanto as expressões que relevam; são as idéias 
que denigram e com tanto maior mordacidade 
quanto o fazem de maneira indireta. Pude 
enganar-me, mas quantos outros se prestam 
mais ainda à critica no mesmo gênero! O fato 
é que, bem ou mal, nenhum escritor ventilou 
maior número de assuntos, nenhum, em todo o 
caso, os deitou no papel. Para que aí se agru- 
pem mais e mais, enuncio-os apenas; se os 
desenvolvesse, muitos voiumes mais seriam 
necessários e não apenas um. Muitos fatos aí 
se mencionam que nada dizem. Quem os qui- 
ser analisar engenhosamente fará longos en- 
saios. Nem eles nem minhas alegações servem 
sempre simplesmente de exemplo ou se apre- 
sentam para dar autoridade ao texto, e maior 
interesse à obra. Não os encaro apenas do 
ponto de vista do partido que deles tiro: com- 
portam por vezes, independentemente de 
minha intenção, a semente de uma matéria 
mais rica e ousada e revelam, indiretamente, 
algo mais requintado, tanto para mim, que não 
quero exprimir mais, como para os que se 
encontrarem comigo. 


Voltando à questão do talento literário, 
acho que entre só saber exprimir-se defeituosa- 
mente e saber unicamente falar bem, não há 
muito que escolher. “A elegância não é adorno 
para o homem? 8º, 


Dizem os sábios que, do ponto de vista do 


“saber, só a filosofia, e, do ponto de vista dos 


atos, só a virtude se acertam a todas as idades 
e condições sociais. 

Encontramos em Epicuro e Sêneca alguma 
coisa semelhante às idéias de Plínio e Cícero: 
eles também dizem que as cartas que escrevem 
a seus amigos viverão eternamente. Mas é de 
outro modo e se adaptando, em vista de um 
fim útil, à vaidade dos outros. Explicam-lhes 
que se é o desejo de renome e fama que os 
amarra ainda às funções públicas e os induz a 
temerem a solidao, suscetível de prejudicar tal 
resultado, podem tranquilizar-se: eles, Epicuro 
e Sêneca, gozam de suficiente crédito sobre a 
posteridade para lhes assegurar, ainda que tão 


389 Sêneca 


126 MONTAIGNE 


somente pelas cartas que lhes enviam, que seus 
nomes serão conhecidos e mais famosos do 
que o seriam pelos atos de sua vida pública. 

Além dessa diferença, as cartas de nossos 
dois filósofos não são dessas cartas vazias e 
sem consistência que apenas se salientam por 
alguma delicadeza de expressão, algum ritmo 
harmônico; são substanciais, cheias de sabedo- 
ria, e quem as lê não se faz mais eloquente e 
sim mais avisado; não nos ensinam a bem 
dizer, e sim a bem fazer. Abaixo a eloguência 
que atrai nossa atenção para ela mesma e não 
para seus temas. Observemos, entretanto, que 
a de Cícero, de tão perfeita adquiriu valor pró- 
prio. A propósito, contarei uma anedota que 
põe em evidência a sua natureza. Tinha de 
falar em público e não lhe sobrara tempo para 
preparar convenientemente seu discurso. Eros, 
um de seus escravos, veio preveni-lo de que o 
comício fora adiado para o dia seguinte. Pois 
Cícero ficou tão contente com a notícia que o 
forrou. 

Uma palavra acerca desse gênero epistolar 
em que meus amigos julgam que eu poderia 
alcançar algum êxito e que de bom grado teria 
escolhido para publicar meus devaneios se 
soubesse a quem endereçar as cartas. Para 
tanto fora preciso que tivesse hoje, como tinha 
outrora, uma pessoa com a qual mantivesse 
relações contínuas, que me agradassem, me 
animassem e me inspirassem. Pois raciocinar 
ao léu como fazem outros, só o faria em sonho. 
Inimigo declarado de tudo que é falso, não 
poderia entreter-me de coisas sérias com 
correspondentes imaginários. Fora mais atento 
e claro no que escrevo se me dirigisse a um 
amigo, de cuja inteligência e caráter tivesse 
idéia precisa, do que me dirigindo a um pú- 
blico formado de toda espécie de gente. E 
estou certo de que me teria dado muito bem. 
Meu estilo, espontâneo e familiar, não convém 
ao trato dos negócios públicos, mas é bem 
meu, de acordo com minha maneira de falar, 
que é substancial? ºº, desordenada, sincopada, 
de um tipo muito particular. 

Não sei escrever cartas cerimoniosas, que 
são no fundo 'uria seguência de belas frases 
amáveis. Os longos protestos de afeição e de 
dedicação não estão em minhas forças nem 
são de meu gosto. Não acredito nisso e não sei 
dizer o que não penso. Eis-me bem longe dos 
hábitos de hoje, que comportam um esbanja- 
mento de fórmulas obsequiosas e servis, real- 
mente de uma prolixidade jamais vista, e em 
que se abusa nas relações comuns de palavras 
como vida, alma, devoção, servo, escravo, de 


PRA 
380 No texto: “touffue” = densa. (N. do T.) 


modo que, se desejamos acentuar uma simpa- 
tia especial e respeitosa, os termos para fazê-lo 
nos faltam. 

Aborrece-me parecer adulador, e como 
tenho naturalmente a expressão concisa, dire- 
ta, sem adornos, considera-me algo desde- 
nhoso quem não me conhece por outros aspec- 
tos. Os que eu mais admiro € respeito são os 
que menos demonstro admirar e respeitar, e 
quando me sinto particularmente feliz esqueço 
as convenções mundanas. Em relação às pes- 
soas de que dependo, mostro-me pouco solícito 
e algo altivo; e agrado ainda menos os que me 
são mais caros. Parece-me que devem ler em 
meu coração e que minhas palavras trairiam a 
expressão certa de meus sentimentos. Trate-se 
de dar boas-vindas, de dizer adeus, de agrade- 
cer, de oferecer meus préstimos, ou de quais- 
quer outros cumprimentos enfáticos que deter- 
mina o cerimonial da boa sociedade, não 
conheço ninguém que se sinta tão inibido 
quanto eu. Nunca escrevi uma carta de reco- 
mendação que o destinatário não achasse seca 
ou mole. 

Os italianos gostam de editar correspon- 
dências. Possuo cerca de cem volumes de car- 
tas, entre as quais as de Aníbal Caro se me afi- 
guram as melhores. Se possuísse todas as 
cartas que escrevi às mulheres, na mocidade, 
quando minha pena traduzia os impulsos de 
meu coração, talvez nelas se encontrassem pá- 
ginas dignas de ser divulgadas entre os jovens 
ociosos e atormentados com idênticas paixões. 

Escrevo sempre minhas cartas às pressas, 
tão precipitadamente que embora tenha uma 
péssima caligrafia prefiro ainda escrevê-las eu 
mesmo a recorrer a alguém, pois não acho 
quem possa acompanhar-me quando dito. 
Ademais não recopio nunca. Habituei os altos 
personagens que me conhecem a admitirem 
minhas rasuras e correções, bem como meu 
papel sem dobra nem margens. As cartas que 
mais exigem de mim são as que menos impor- 
tam; quando demoro em redigi-las é sinal de 
que não me sinto disposto a enviá-las. Começo 
em geral sem plano predeterminado; uma frase 
puxa a outra. Hoje os preâmbulos e os enfeites 
ocupam mais espaço do que o próprio assunto. 
Escrever duas cartas custa-me tanto quanto 
dobrar e lacrar uma única, por isso deixo a ou- 
trem esse cuidado. Não menos alegremente 
outorgaria a alguém, ao encerrar meu assunto, 
a tarefa de acrescentar essas longas arengas, 
esses protestos e cumprimentos com que termi- 
namos nossas cartas e que espero ver abolidos 
algum dia por alguma nova moda. Da mesma 
forma, aborrece-me transcrever a teoria de ti- 
tulos e qualidades do destinatário, o que mui- 
tas vezes, de medo de me enganar, me levou a 


ENSAIOS— I 


não escrever, principalmente a homens de 
finanças e de leis. Inventaram-se tantos cargos 
novos, proliferaram a tal ponto as distinções 
honoríficas e de tal ordem é sua hierarquia 
que, além da dificuldade em diferençá-las, nos 


127 


arrissamos a confusões e ofensas tanto mais 
graves quanto custaram muito caro a seus 
donos. Sobrecarregar as páginas de rosto de 
nossos livros com dedicatórias e louvações 
parece-me igualmente de muito mau gosto. 


CaríTULO XLI. 


O homem não cede a outrem a glória que conquistou 


De todas as quimeras?º* do mundo, a mais 
admitida e universalmente espalhada é a do 
cuidado com nossa reputação e nossa glória, 
que apreciamos a ponto de, em troca de tão vã 
imagem, de uma simples voz sem corpo, 
renunciarmos às riquezas, ao repouso, à saúde, 
à vida, bens efetivos e substanciais. “A fama, 
que com a doçura de sua voz vos encanta, 
arrogantes mortais, e vos parece tão bela, não 
passa de um eco, um sonho ou, antes, a som- 
bra de um sonho que se dissipa e se esvai com 
o vento”3º2. De todas as idéias desproposi- 
tadas que podem passar pela mente dos ho- 
mens é ela a mais indomável e tenaz, “porque 
não cessa de tentar os espiritos mais avança- 
dos na virtude”3º3. Parece, com efeito, que 
dela mais do que de quaisquer outras se liber- 


tam com maior dificuldade os filósofos. 
Não há nenhuma cuja futilidade seja mais 


claramente demonstrada pela razão, mas ela 
tem raízes tão vivas dentro de nós que não sei 
se jamais alguém conseguiu livrar-se inteira- 
mente dela. Depois de tudo dito a fim de a evj- 
tar, quando o pensamos ter conseguido, provo- 
ca ela em nós uma tal reação contra os 
argumentos emitidos que estes não mais se 
sustentam. Pois, como afirma Cicero, exata- 
mente os que mais a combatem querem que 
seus nomes figurem nos livros que escreveram 
a respeito e que o seu desprezo pela glória os 
glorifique.. 

Com tudo negociamos. Emprestamos se 
necessário nossos bens e nossas vidas aos ami- 
gos, mas despojarmo-nos de honrarias em 
benefício de outrem ou lhes cedermos um 
pouco de glória são gestos que ainda não se 
viram. 

Durante a guerra contra os cimbros, Lutá- 


381 No texto “rêveries”, sonhos vãos, devaneios, 
etc. Godefroy consigna o significado de quimera 
que parece melhor. (N. do T.) 

392 Tasso. 

383 Santo Agostinho. 


cio Catulo desenvolveu mil esforços a fim de 
sustar a debandada de seus soldados diante do 
inimigo. Nada conseguindo, misturou-se a 
eles, simulando covardia, para que parecessem 
segui-lo, e não fugir; sacrificava assim sua 
reputação para salvar a honra do exército. 
Quando, em 1537, Carlos Quinto invadiu a 
Provença, dizem que Antônio de Leve, vendo 
que o imperador estava decidido e conside- 
rando que o resultado da invasão seria infinita- 
mente glorioso, opinou entretanto em sentido 
contrário e o desaconselhou a fim de que toda 
a glória e a honra da empresa coubessem intei- 
râmente ao monarca e que se proclamasse que 
graças à segurança de suas concepções e à sua 
previdência tinha, em oposição a todos, levado 
a cabo e com grande êxito o empreendimento. 
Glorificava-o deste modo em detrimento pró- 
prio. 

Tendo dito os embaixadores da Trácia, ao 
apresentar suas condolências a Arquileônidas, 
por ocasião da morte de seu filho, que o jovem 
não tivera quem o igualasse, refutou o elogio a 
mãe de Brásidas, endereçando-o a todos: “não 
faleis assim; Esparta, a meu ver, possui nume- 


rosos cidadãos maiores e mais valentes”. Na 
batalha de Crécy o Principe de Gales, ainda 
jovem, comandava a vanguarda. O principal 
peso do ataque fora dirigido contra ele. Os 
fidalgos que o acompanhavam, considerando 
que a situação era crítica, chamaram em seu 
socorro o Rei Eduardo. Este perguntou pelo 
filho e, ao ser informado de que estava vivo e a 
cavalo, observou: “Poderia roubar-lhe a honra 
de um combate em que se empenhou durante 
tanto tempo; qualquer que seja o destino, o 
mérito há de caber-lhe. E não quis ir nem man- 
dar socorro, certo de que se lá fosse teriam dito 
que tudo se perderia sem ele e lhe houveram 
atribuído o resultado da jornada” 3º *. Certas 


pessoas pensavam em Roma, e isso se dizia 
Va 
384 Tito Lívio. 


128 MONTAIGNE 


comumente, que os altos feitos de Cipião eram 
em parte da autcria de Lélio, o qual, entre- 
tanto, jamais cessou de exaltar a grandeza e a 
glória de seu general e de ajudá-lo sem cuidar 
em absoluto de sua própria fama. A alguém 
que dizia a Teopompo, rei de Esparta, que se 
og negócios púbiicos iam tão bem era porque 
ele sabia comandar, respondeu o monarca: 
“Digam, antes, que o povo sabe obedecer.” 

As mulheres que herdavam o título de par, 
tinham, apesar do sexo, o direito de assistir e 
opinar nas causas de sua jurisdição; e Os pares 
eciesiásticos, apesar de seu caráter religioso, 
eram obrigados a assistir nossos reis quando 
em guerra, não somente enviando seus amigos 
e servidores mas tambêm em pessoa. Em virtu- 
de disso é que vimos o Bispo de Beauvais ao 


lado de Filipe Augusto na batalha de Bouvi- 
nes, em que tomou parte e na qual se conduziu 
com bravura, sem contudo tirar proveito e gló- 
ria de exercício tão sangrento e brutal, Pôs 
nesse dia vários inimigos fora de combate, 
entregando-os sempre ao primeiro fidalgo que 
encontrava para que os degolasse cu os 
conservasse prisioneiros. Entre outros; assim 
entregou Guilherme, Conde de Salisbury, nas 
mãos do Sr. Jean de Nesle. Por sutil desen- 
cargo de consciência consentia em espancar 
mas não em derramar sangue; e por isso com- 
batia unicamente armado de maça. Há tempos, 
alguém que era censurado pelo rei por ter 
erguido a mão contra um padre, negou o crime 
com segurança afirmando que apenas o batera 
e espezinhara... 


CarítTuLO XLII 


Da desigualdade entre os homens 


Disse algures Plutarco que a diferença entre 
um animal e outro é menor do que a que vai de 
um a outro homem. Referia-se à alma e às qua- 
lidades intelectuais. Por mim, acho que há 
uma tal desproporção entre Epaminondas, tal 
qual o imagino, e certa pessoa muito minha 
conhecida, que não hesitaria em ser mais 
peremptório, dizendo que a diferença entre tal 
e tal homem é maior do que entre tal homem e 
tal bicho. “Ah, como pode um homem ser 
superior a outro !3º 8 O espírito humano com- 
porta tantos graus quantas braças vão daqui 
ao céu. 

No que concerne à apreciação das coisas, é 
espantoso que tudo julgando pelas suas quali- 
dades específicas não nos encaremos da 
mesma maneira. Elogiamos um cavalo por ser 
vigoroso e ágil: “Apreciamo-lo por sua rapi- 
dez, pelos numerosos prêmios que ganhou em 
circos sob os aplausos de bulhenta multi- 
dao”*º 8, e não por causa do arreio; elogiamos 
o galgo pela velocidade e não peia coleira; o 
falcão pela potência de vôo e não pela correia 
e a sineta; por que, pois, não apreciarmos o 
homem pelas suas qualidades específicas? 
Tem um belo trem de vida, um magnífico palá- 
cio, tanto de rendimento, comentamos; e tudo 
isso lhe diz respeito evidentemente, mas não é 


395 Terêncio. 
396 Juvenal. 


ele. Ninguém compra nabos em sacos. Se que- 
remos adquirir um cavalo de justa começamos 
por lhe tirar a manta a fim de examiná-lo nu. E 
se permanece coberto, como o apresentavam 
outrora aos príncipes, são as partes menos 
importantes que se sonegam a vista para que 
não fiquemos a admirar o pêlo e as ancas, € 
nos atardemos na apreciação das pernas, dos 
olhos, e dos pés, coisas essenciais no cavalo: 
“têm os reis por costume quando compram 
cavalos examiná-los cobertos, com receio de se 
o cavalo tem a cabeça bonita e os pés cansa- 
dos, o comprador se deixe seduzir pelo aspecto 
de um traseiro bem-feito, de uma certa elegân- 
cia”397, Por que, portanto, antes de julgar um 
homem o encaramos já todo empacotado? 
Nada do que nos mostra é dele e ele esconde 
tudo o que pode esclarecer-nos a seu respeito. 
0) que precisamos saber é quanto vale a espada 
e não a bainha, porquanto talvez não demos 
grande coisa por ela. É necessário juigar o 


- homem em si e não pelos seus adornos. Como 


diz espirituosamente um filósofo do passado: 
“Sabeis por que o achais grande? Porque o 
medis com o pedestal.” O pedestal de uma 
estátua não é parte integrante dela. Devemos 
medi-lo sem pernas de pau, nem riquezas, nem 
dignidades: em mangas de camisa. É o seu físi- 
co adequado a suas funções? É ele sadio e ale- 


397 Horácio. 


ENSAIOS — 1 


gre? Como tem a alma? Bela, capaz, bem do- 
tada sob todos os aspectos? Tem a fortuna 
influência sobre ela? Perturba-se ante um peri- 
go iminente? É indiferente ac tipo de mcrte 
que, a cada instante, a pode atingir? É calma, 
igual, satisfeita com a sorte? Eis o que é preci- 
so procurar saber € nos permite avaliar as dife- 
renças existentes entre os homens: “É sábio e 
sabe dominar-se? É capaz de resistir às .pai- 
xões e desprezar as honrarias? Fechado por 
inteiro dentro de si mesmo, semelhante a uma 
bola perfeita que nenhuma aspereza impede de 
rodar, é influenciado pela fortuna?” 3º* Um tal 
homem estã quinhentas braças acima dos rei- 
nos e ducados; é ele próprio o seu império. “O 
sábio é o artesão de sua própria felicida- 
de!3º9 Que tem ainda a desejar? “Não esta- 
mos vendo que a natureza só exige de nós um 
corpo sadio e uma alma serena, isenta de preo- 
cupações e receios?” 4ºº Comparemos com ele 
a turba de homens estúpidos, de alma vil, ser- 
vil, inconstante, joguetes de toda espécie de 
paixões tormentosas, dependentes, todos, de 
ouirem; dele a eles a distância é maior que do 
céu à terra. Entretanto, nossa cegueira é de tal 
ordem que pouca ou nenhuma atenção damos 
a esse homem. Quando consideramos um cam- 
ponês e um rei, um nobre e um plebeu, um 
magistrado e um simples particular, um rico € 
um pobre, uma enorme diferença nos salta aos 
olhos, mas essa diferença não consiste por 
assim dizer senão na diversidade de calçado 
que usam uns e outros. Na Trácia o rei distin- 
guia-se do povo de modo singular, muito mais 
do que podemos imaginar: tinha uma religião 
própria, um deus particular, Mercúrio, que 
seus súditos não deviam adorar. Aos deuses do 
povo, Marte, Baco, Diana, não rendia homena- 
gem. 

Tudo isso, em suma, não passa de cenário, 
não constitui diferença essencial entre os 
homens. Assim, esses atores de comédia que 
vemos exibirem-se no palco com atitudes dé 
duques e imperadores para logo depois volta- 
rem a ser lacaios ou carregadores, suas profis- 
sões originais. 

fisse imperador, por exemplo, cuja pompa 
em público nos ofusca, “porque brilham neje, 
engastadas em ouro, grandes esmeraldas da 
mais linda água, vestido de magníficos trajes 
verde-mar que não tardará em sujar nas orgias 
e nos baixos prazeres” *º1, ide espiá-lo atrás 
da cortina: é apenas um homem vulgar, por 
vezes mais vil do que a maioria dos outros. “O 
sábio encontra sua felicidade em si mesmo; os 


398 Horácio. 


39º Piauto.. 
400 Tucrécio. 


401 Td. 


129 


demais não possuem senão uma felicidade 
superficial” “02, A covardia, a indecisão, a 
ambição, o despeito, a inveja perturbam o 
potentado como qualquer outro homem. “Nem 
Os tesouros, nem os fachos consulares, afugen- 
tam as inquietações e preocupações que ade- 
Jam sob os tetos dourados” *º3, Mesmo junto 
de seus exêrcitos não escapa a elas: “a apreen- 
são, as preocupações peculiares ao homem, 
não se espantam nem com o ruido das armas 
nem com os golpes cruéis; frequentam ousada- 
mente as cortes dos reis, e não respeitam o 
esplendor que envolve os tronos”“º*. Pou- 
pam-no, por acaso, mais do que a nós, a febre, 
a enxaqueca, a gota? Quando a velhice pesar 
sobre seus ombros, virão aliviá-los os archei- 
ros de sua guarda? Quando tremer com receio 
da morte, acalmar-se-á com a presença dos 
seus fidalgos camareiros? Quando o ciúme ou 
o desejo o atingirem, reconfortá-lo-ão os nos- 
sos cumprimentos? Esse dossel recamado de 
ouro e pérolas não tem o poder de atenuar as 
dores de uma cólica: “deitado sobre a púrpura, 
sobre tapetes caros ou na esteira do plebeu, a 


febre ardente não vos deixará mais cedo” *º 8. 
Os aduladores de Alexandre, o Grande, 


repetiam-lhe sem descontinuar que era filho de 
Júpiter. De uma feita, olhando o sangue que 
lhe escorria de um ferimento, disse ele: “Então, 
que"vos parece? Não achais que é um sangue 
vermelho como o de qualquer ser humano? Ou 
é ele da cor do sangue que Homero põe nos 
ferimentos dos deuses?” O poeta Hermodoro 
compusera em honra de Antígono uns versos 
em que o denominava filho do sol. “Quem 
limpa a minha retrete bem sabe que não é ver- 
dade”, observou-lhe Antígono agastado com a 


"bajulação. 


Esse homem não passa afinal de um 
homem. Se não tiver valor próprio não lho 
dará o império do mundo. “Que as jovens o 
disputem, que por toda parte as rosas nasçam 
sob os seus pés ”*º 8, de que servirá tudo isso se 
tem a aima grosseira e o espírito lerdo? Sem 
vigor e sem espírito não se chega a sentir a feli- 
cidade e nem mesmo a volúpia. “O valor das 
coisas depende de quem as possui: boas para 
os que sabem utilizá-las, são más para os que 
as empregam mal?*º?7. Para saborear os bens 
quaisquer que sejam, que nos outorga a fortu- 
na, cumpre ter o sentimento que a sensação 
cria. É pelo gozo e não pela posse que somos 
felizes: “não são essas terras, esses palácios, 


402 Sêneca. 
“03 Horácio. 


+04 Tucrécio. 
s0s 


308 Pérsio. 
467 Terêncio. 


130 


esses montes de ouro e prata, que hão de curar 
a febre de quem os possui ou lhe purgar a 
angústia da alma. O gozo exige a saúde do 
corpo e da alma. Para quem deseja ou teme, 
que significam tais riquezas? São quadros para 
olhos remelentos, estufas para paralíticos” “º8. 
Se se trata de um tolo seu gosto estragado 
nada apreende; não pode apreciar, como um 
endefluxado não aprecia a suavidade do vinho 
grego; como um cavalo permanece indiferente 
à riqueza de seus arreios. Por isso diz Platão 
que a saúde, a beleza, a força, as riquezas e 
tudo o que consideramos felicidade são males 
para quem tem um juízo errado, enquanto 
quem possui um espirito bem formado os enca- 
ra como o que realmente são. E essa diver- 
gência verifica-se igualmente em sentido inver- 
so. Ademais, para corpo e alma em mau 
estado, de que servem essas vantagens exterio- 
res? A menor picada basta para tirar todo o 
prazer que poderia ter em governar o mundo. 
A primeira pontada da gota, seja senhor e 
majestade, “coberto de ouro e prata” *ºº, perde 
ele a lembrança dos palácios e grandezas. E 
por ser principe deixará de corar, de empalide- 
cer, de ranger os dentes quando tomado de 
cólera? 

Se se trata de homem inteligente e bem nas- 
cido pouco acrescenta a realeza à sua felici- 
dade: “se tens bom estômago, válidos os pés e 
os pulmões, as riquezas dos reis nada te darão 
a mais” ?1º. Percebe que tudo isso é aparência 
e trapaça. Será talvez da opinião do Rei Seleu- 
co que dizia que “quem soubesse quanto pesa 
um cetro não se daria o trabalho de o erguer se 
encontrasse um no chão”, e com essas pala- 
vras queria mostrar como são grandes e peno- 
sos os encargos de um bom rei. E sem dúvida 
não é fácil lidar com os negócios alheios, se os 
nossos já nos custam tanto suor. Quanto a 
mandar, o que se afigura sumamente agradá- 
vel, em considerando a fraqueza da razão hu- 
mana e quanto é dificil escolher quando se 
duvida, sou de opinião que é mais cômodo se- 
guir do que guiar; e repousa o espírito não 
andar senão por caminhos já abertos e não res- 
ponder senão por si próprio: “mais vale obede- 
cer tranquilamente que levar a mão ao leme do 
Estado” *!1. Acrescente-se a isso o que afir- 
mava Ciro, a saber, que o comando só deve 
caber a quem valha mais que os comandados. 

Segundo Xenofonte, o Rei Híeron pretendia 
que quanto ao gozo das volúpias íntimas estão 
os soberanos em piores condições que os parti- 
culares, pois a facilidade com qué as satisfa- 


“08 Horácio. 
40º Tibulo. 

“10 Horácio. 
“11 Lucrécio. 


MONTAIGNE 


zem tira-lhes algo desse sabor agro-doce que 
lhes empresta a dificuldade. “Amor demais 
enjoa, como perturba o estômago um prato 
agradável comido com exagêro”*12. Imagi- 
nam que às religiosas do coro apeteça a músi- 
ca? A saciedade torna-a aborrecida. Os festins, 
as danças, as mascaradas, Os torneios divertem 
quem não os vê amiudadamente e os deseja 
ver, mas para quem os tem como espetáculo 
comum são insossos e nada atraentes. Assim 
também não são as mulheres excitantes para 
quem delas goza à saciedade. Quem não tem 
tempo de ter sede, não tem prazer em beber. 
As peloticas dos prestidigitadores divertem- 
nos, mas para eles são corvéias. Por isso gos- 
tam os príncipes de por vezes se fantasiar e 
viver nas baixas classes da sociedade: “alguma 
mudança não desagrada aos grandes; às vezes 
uma refeição frugal, sem tapetes nem púrpuras 
sob o teto do pobre, lhes desanuvia a fron- 
te? 413. Nada incomoda mais do que a abun- 
dância. Que desejo não se amortecerá diante 
de trezentas mulheres, como as tem o sultão 
em seu harém? Que prazer de caçar teria quem 
o fizesse com sete mil falcões? 

Além disso o brilho da grandeza comporta a 
meu ver inconvenientes dos mais incômodos, 
quando os grandes se dispõem a gozar os pra- 
zeres mais doces. Estão por demais visados, 
gente demais se preocupa cem eles, tanto que 
não compreendo que não exijam deles que 
escondam melhor e dissimulem seus erros. 
Pois o que é para nós indiscrição neles consi- 
dera o povo tirania, desprezo, desobediência à 
lei. Além da inclinação para o vício, dir-se-ia 
que juntam a seus desmandos o prazer de vio- 
lar e espezinhar as ordenações. Platão está 
certo quando em seu “Górgias” define como 
tirano aquele que na cidade tem licença de 
fazer o que bem entende e acrescenta que o 
espetáculo e a publicidade dos abusos chocam 
mais, por vezes, do que os próprios abusos. 
Todos receiam ser espionados e controlados; 
eles o são até em suas atitudes e pensamentos, 
porquanto todos pretendem ter o direito de os 
Julgar e interesse em fazê-lo. Sem contar que as 
manchas são tanto mais visíveis quanto o 
lugar em que se encontram é mais aparente e 
iluminado. Um sinal ou verruga na fronte 
vêem-se melhor do que uma cicatriz alhures. É 
por esse motivo que os poetas sempre repre- 
sentem Júpiter, em suas aventuras galantes, 
sob um aspecto diferente do verdadeiro, e que, 
entre as muitas cenas do gênero que lhe atri- 
buem, em uma só, ao que me parece, é ele 
apresentado em toda a sua majestade. 


412 Ovídio. 
413 Horácio. 


ENSAIOS —T 


. 


Hieron conta igualmente quanto o inco- 
moda a realeza, impedindo-o de viajar livre- 
mente, mantendo-o por assim dizer prisioneiro, 


sem poder ultrapassar as fronteiras do país e 


cercando-o por toda parte de uma importuna 
multidão. E preciso convir em que, as mais das 
vezes, vendo nossos reis à mesa, assediados 
por desconhecidos faladores e curiosos, tenho 
sentido mais dó do que inveja. Dizia o Rei 
Afonso, a propósito, que a sorte dos asnos era 
preferível à sua; deixam-nos ao menos pastar à 
vontade, o que os reis não conseguem de seus 
servidores. Nunca admiti que pudesse ser agra- 
dável para um homem sensato e normal supor- 
tar os olhares de dezenas de pessoas quando 
precisa ir à retrete. Tampouco compreendo 
que se acomode melhor um rei com os serviços 
de alguém que possui dez mil libras de rendi- 
mento, que tomou Casal ou defendeu Siena, do 
que com os de um bom e experiente criado de 
quarto. As vantagens do príncipe são em sua 
maioria puramente imaginárias e cada camada 
social tem seus príncipes. César chamava rei- 
zinhos aos senhores que, na Gália de seu 
tempo, tinham o direito de julgar. 

Salvo o título de Sire*"*, vai-se longe atual- 
mente na imitação dos nossos reis. Nas províin- 
cias afastadas da Corte, na Bretanha por 
exemplo, onde o senhor vive em permanência 
em seu feudo, a administração da casa, as rela- 
ções com seus súditos, os oficiais que o cer- 
cam, o gênero de vida que leva, as ocupações, 
o protocolo seguido, sua vida íntima no meio 
dos servidores, até as próprias idéias, tudo se 
assemelha e se ajusta ao que se faz na Corte. 
Ouve falar do rei uma vez por ano, como ouve 
falar do rei da Pérsia; e se o reconhece é em 
virtude de algum parentesco longínquo assina- 
lado em seus arquivos. Em verdade, nossas leis 
dão-nos grande liberdade, O peso da autori- 
dade real não se faz sentir mais do que duas 
vezes na vida de um fidalgo francês. A sujei- 
ção completa e efetiva só se impõe âqueles que 
a consideram vantajosa porque a trocam por 
proventos e honrarias. Quem permanece sosse- 
gado em suas terras e sabe dirigir seus negó- 
cios sem querelas nem processos é tão livre 
quanto o doge de Veneza: “Poucos homens 
são atados à servidão, inúmeros a ela se 
amarram ”*158. 

Mas o que Híeron coloca entre os maiores 
inconvenientes da realeza é a carência de ami- 
zades e relações cordiais que constituem o 
"mais doce e perfeito encanto da existência 


414 Corresponde a Senhor e por Senhor se traduz, 
mas somente se emprega em relação ao rei. 

(N. do T.) 

*15 Sêneca. 


131 


humana. “Pois que prova de afeição posso 
alcançar de quem, queira ele ou não, me deve 
tudo o que possui? Posso levar em conta a 
humildade de suas palavras e a sua respeitosa 
cortesia, se não tem a possibilidade de se con- 
duzir diferentemente? As homenagens que me 
prestam os que me temem não me honram, são 
prestadas à realeza e não a mim pessoalmente. 
Como diz Sêneca, a maior vantagem da reale- 
za estã em que o povo é não somente obrigado 
a sofrer mas ainda a louvar os gestos do 


senhor. E não vejo que o bom como o mau rei, 


o que detestam como o que amam, são trata- 
dos da mesma maneira? De igual modo, com o 
mesmo cerimonial trataram o meu predecessor 
e assim tratarão o meu sucessor. O fato de 
meus súditos não me ofenderem não significa 
afeição; nem o poderia assim considerar, por- 
quanto ainda que o quisessem não estaria em 
suas possibilidades ofender-me. Ninguém me 
freguenta por amizade, porque esse sentimento 
não pode existir quando as relações e as trocas 
de idéias são tão raras; a altura de minha posi- 
ção afasta-me de qualquer intimidade. Entre 
mim e os outros homens há demasiada desi- 
gualdade e desproporção. Seguem-me porque é 
bonito ou por costume; e mais do que a mim à 
minha fortuna, a fim de aumentar a deles pró- 
prios. Tudo o que me dizem e fazem não passa 
de dissimulação, estando sua liberdade contro- 
lada pelo grande poder que tenho sobre eles. 
Nada vejo em torno de mim que não se escon- 
da sob uma máscara.” 

Os cortesãos elogiavam de uma feita o 
Imperador Juliano porque se esforçava por ser 
Justo. “Orgulhar-me-ia de vossas louvações — 
disse — se viessem de pessoas que ousassem 
denunciar e censurar meus atos, caso me con- 
duzisse de outra maneira.” 

Todas as verdadeiras vantagens de que 
gozam os principes são comuns aos homens de 
fortuna média (somente os deuses cavalgam 
animais alados e se alimentam de ambrosia); 
não diferem de nós quanto ao sono e ao apeti- 
te; o aço de suas armaduras não é mais bem 
temperado do que o das nossas; suas coroas 
não os abrigam do sol e da chuva. 

Diocleciano, elevado aos pincaros da fortu- 
na, tudo abandonou um dia para gozar Os pra- 
zeres de um simples cidadão. Tempos depois, 
exigindo os negócios públicos que assumisse 
novamente a direção do Estado, respondeu aos 
que lhe foram solicitar que aceitasse o cargo: 
“não procuraríieis persuadir-me se vísseis o 
belo renque de árvores que eu mesmo plantei 
em minhas terras, e os melões que semeej?. 

Anacársis é de opinião que o Estado mais 
feliz seria aquele em que, dadas as condições 
iguais de tudo e de todos, a preeminência se 


132 


medisse pela virtude e fosse o vício relegado 
para o último lugar. 

Quando o Rei Pirro quis entrar na Itália, Ci- 
neas, seu avisado conselheiro, lhe disse, que- 
rendo mostrar-lhe a inanidade de sua ambição: 
“Com que fim, Senhor, concebeis semelhante 
empreendimento? — Com o fim de me tornar 
senhor da Itália. — E feito isso? — Passarei à 
Gália e à Espanha. — E depois? — Irei subju- 
gar a África, e quando afinal for senhor do 
mundo irei repousar €e viver satisfeito e tran- 
quilo. — Por Deus, Senhor, dizei o que vos 
impede de fazê-lo desde logo se tal é vossa 


MONTAIGNE 


vontade? Por que não gozar imediatamente 
esse repouso a que aspirais e vos poupar assim 
tantas dificuldades, tantos acasos a que vos 
ides aventurar?” “E sem dúvida porque não 
conhecia os limites que devemos opor aos nos- 
sos desejos, limites além dos quais cessa o pra- 
zer verdadeiro” *1 8. Termino com esta máxima 
de Cornélio Nepos; que acho singularmente 
ajustada ao nosso assunto: “E com seus costu- 
mes que cada um constrói o seu destino.” 


416 Lucrécio. 


CapíTULO XLIII 


Das leis suntuárias 


A maneira pela qual nossas leis procuram 
regular as nossas despesas extravagantes e 
ostensivas com a mesa e o vestuário parece 
contrária ao fim visado. O verdadeiro modo de 
atingir um tal objetivo seria infundir no 
homem o desprezo pelo ouro e a seda, como 
coisas vãs e inúteis; e em vez disso, nós as 
valorizamos ainda mais, o que é maneira bem 
toia de os desgostar delas. Dizer, como o 
temos feito, que só os príncipes poderão comer 
chernote, usar veludo e tecidos de ouro, proi- 
bindo-o ao povo, é dar importância a essas 
coisas e aumentar em todos o desejo de as ter. 
Que os reis renunciem corajosamente a esses 
sinais de grandeza, pois não carecem de 
outros; semelhantes excessos são mais descul- 
páveis em particulares do que nos príncipes. O 
que vemos em certos países mostra-nos que 
não faltam meios melhores de estabelecer 
distinções exteriores nos graus de hierarquia 
social (o que considero aliás medida inteligente 
em um governo), sem que se recorra a um 
exibicionismo suscetível de desenvolver a cor- 
rupção e que comporte inconvenientes tão 
visíveis. 

É realmente admirável ver como, nessas coi- 
sas de nonada, impõe o costume com facili- 
dade e rapidez a sua autoridade. Mal decorrera 
um ano que, em virtude do luto pela morte de 
Henrique II, se usava tecido de lã, e ja a seda 
tanto se desacreditara que, vendo alguém 
assim vestido, logo se imaginava fosse algum 
burguês da cidade. Tornara-se peculiar aos 
médicos e cirurgiões. E embora em todas as 
classes da sociedade todos se vestissem de 


igual modo, a elegância natural de cada um 
bastava para revelar a que classe pertencia. Da 
mesma forma, rapidamente se fez moda no 
exército o uso de usar sujos gibões de camurça 
ou tecido ordinário; e logo se abandonaram as 

elas e ricas vestimentas, que passaram 
mesnio a ser criticadas. Dêem o exemplo ós 
reis, renunciando a tais despesas: em menos de 
um mês, sem decreto nem ordenação, será 
coisa feita; todos os seguiremos. Ao contrário 
do que diz hoje, deveria a lei determinar que 
ninguém, à exceção dos funânbulos e prostitu- 
tas, teria o direito de usar tecidos de cores 
vivas e jóias. 

Foi assim que Seleuco corrigiu os costumes 
corruptos dos lócrios. Determinavam suas 
ordenações que as mulheres de condição livre 
não podiarn fazer-se acompanhar de mais de 
uma criada, a menos que estivessem embriaga- 
das. Que somente as mulheres públicas e de 
vida airada pudessem sair à noite, usar jóias de 
ouro e-vestidos bordados. Que à exceção dos 
que, por profissão, prostituem mulher e filhas, 
nenhum homem tivesse anéis de ouro ou roupa: 
de tecido fino, no gênero do tecido fabricado 
em Mileto. Com essas exceções, que estigmati- 
zavam quem delas se beneficiava, desviou 
engenhosamente seus concidadãos das futili- 
dades e dos prazeres perniciosos. Foi um 
modo muito eficiente de chamar os homens ao 
dever e à obediência, incentivando neles o sen- 
timento de honra e a ambição. 

Nossos reis tudo podem nessas reformas 
exteriores. Seu gosto faz a lei: “tudo o que 
fazem os príncipes, dir-se-ja que o prescre- 


ENSAIOS — 1 


vem?*17. O resto da França acomparha a 
Corte. Que abandonem essas braguilhas tão 
feias que exibem as partes ocultas do corpo; e 
esses gibões tão amplos e pesados que nos 
deformam e incomodam quando precisamos 
armar-nos; e esses cabelos efeminados; e esse 
habito de beijar os que saudamos, no rosto ou 
nas mãos, gesto que só aos príncipes era outro- 
ra devido; e que condenem esse hábitê de, em 
lugar de respeito, se apresentar o fidalgo sem 
espada, desbragado como se saísse da retrete; 
e mais esse outro costume (contrário ao privi- 
légio que sempre teve a nobreza francesa) de 
manter a cabeça descoberta em torno deles, 
ainda que longe, e não somente deles mas de 
cem outros, pois temos numerosos terços e 
quartos de rei que exigem a mesma coisa. Que 
o queiram realmente, e essas inovações é ou- 
tras muitas do mesmo gênero igualmente 


*17 Quintiliano 


133 


lamentáveis, logo serão desprezadas e desapa- 
recerão. Trata-se de erros superficiais rnas de 
mau prognóstico: quando vemos rachar o re- 
boco da parede temos aviso de que a estrutura 
se desconjunta. 

Platão em suas leis acha que não há no 
mundo calamidade mais nefasta para a Repú- 
biica do que permitir que a mocidade intro- 
duza modificações no vestuário, nos gestos, 
nas danças, nos exercicios e nas canções, em 
obediência a impressões instáveis; e que cor- 
ra atrás das novidades e aplauda os inven- 
tores. Pois com isso se corrompem os costu- 


mes e se tornam as antigas instituições objeto 
de desprezo. Em tudo, com exceção do que é 
ruim, devem-se temer as mudanças: das esta- 
ções, dos ventos, des alimentos e dos humcres. 
Nenhuma lei tem vaior efetivo, fora daquelas a 
que Deus deu uma duração tal que ninguém 
lhes conhece a origem nem as viu diferentes. 


CapítruLO XLIV 


Do sono 


Ordena-nos'a razão que sigamos sempre o 
mesmo caminho, mas não nos diz que o faça- 
mos sempre com o mesmo passo. E embora O 
sábio não deva permitir que as paixões huma- 
nas o desviem do caminho certo, pode ele 
muito bem ponderá-las a fim de apressar ou 
retardar a própria marcha, em vez de se man- 
ter no meio delas como um gigante imóvel e 
impassível. Se a própria virtude fosse encarna- 
da, o pulso bater-lhe-ia mais rapidamente, 
segundo fosse ela jantar ou se: lançasse ao 
assalto. Há mesmo circunstâncias em que é 
necessário que se inflame e se exalte. 

Eis por que observei como coisa rara que 
por vezes os grandes personagens em seus 
mais importantes empreendimentos se conser- 
vam tão serenos que nem sequer perdem o 
sono. 

No dia da batalha que travou contra Dario, 
Alexandre, o Grande, dormiu 1au profunda- 
mente e até ja manhã alta, que, em sendo quase 
hora de combater, Parmênion foi obrigado a 
entrar-lhe no quarto a fim de acordá-lo, cha- 
mando-o duas ou três vezes pelo nome. Na 
noite em que resolveu suicidar-se, o Imperador 
Otão, depois de pôr em ordem seus negócios 
domésticos, dividir seu dinheiro entre seus 


servidores, afiar a espada com a qual se ia 
matar, já tão-somente à espera de saber se seus 
amigos estavam em segurança, adormeceu tão 
profundamente que seus criados o ouviam ron- 
car. A morte desse imperador apresenta certa 
analogia com a do grande Catão. Este, às vês- 
peras de se suicidar e à espera da notícia de 
que os senadores que afastava de si tinham 
embarcado em Útica, pôs-se a dormir tão bem 
que do quarto vizinho lhe ouviam o ruído da 
respiração. À pessoa que mandara ao porto 
tendo-o acordado para dizer que a tempestade 
perturbava consideravelmente a manobra das 
velas, enviou ele outro e se enfiando nova- 
mente no leito voltou a adormecer; e assim 
ficou a dormir até a volta do segundo mensa- 
geiro com a notícia de que a partida se 
efetuara. 

Encontramos ainda em Catão certa simili- 
tude com o que contamos de Alexandre. Quan- 
de da grande e perigosa borrasca que por 
pouco não fez vingar a sedição do tribuno 
Metelo, o qual, a propósito da conjuração de 
Catilina, queria publicar o decreto chamando 
a Roma Pompeu e seu exército, ao que somnen- 
te Catão se opusera, graves palavras e pesadas 
ameaças tinham sido trocadas no Senado entre 


134 


Metelo e ele. No dia seguinte, devia efetuar-se 
a publicação no Forum. Os dois adversários 
iam encontrar-se. Metelo apoiado pelo povo e 
por César, então favorável a Pompeu, devia 
apresentar-se acompanhado de numerosos es- 
cravos estrangeiros e de espadachins dispostos 
a todas as violências; Catão tinha por si ape- 
nas sua indomável coragem. Por isso, seus 
parentes, servidores e muita gente boa estavam 
preocupadíssimos. Pensando no perigo que ia 
correr, houve muitos que passaram a noite em 
casa dele, mas não puderam descansar nem 
comer. Sua mulher e filhas não paravam de 
chorar. Ele, ao contrário, reconfortava todo 
mundo. Depois de haver ceado como de costu- 
me, foi deitar-se e dormiu um sono tão pro- 
fundo que pela manhã um de seus colegas do 
tribunato teve que ir acordá-lo a fim de que 
chegasse até o tribunal onde os partidos se 
defrontariam. Conhecendo, pelos atos de sua 
vida, quanto era grande sua coragem, podemos 
sem receio de nos enganarmos atribuir essa 
calma em tais circunstâncias ao fato de estar 
sua alma muito acima de semelhantes aciden- 
tes, os quais para ele não eram motivo de 
maior preocupação que os incidentes habituais 
da vida. 

Na batalha naval que ganhou na Sicília con- 
tra Sexto Pompeu, Augusto, no momento de 


MONTAIGNE 


iniciar o combate, dormia tão profundamente 
que foi preciso que seus amigos o acordassem. 
Isso deu ensejo a que Marco Antônio mais 
tarde alegasse não ter tido ele a coragem se- 
quer de assistir às evoluções de seus navios e 
de não se ter mostrado a seus soldados senão 
depois que Agripa lhe veio anunciar que -a 
vitória era sua. Mário, o Jovem, fez pior ainda: 
no dia de seu último esforço contra Sila, após 
haver ordenado a tropa, dado a palavra de 
ordem e o sinal de combate, deitou-se à som- 
bra de uma árvore para descansar e dormiu, 
tão profundamente que só acordou quando 
seus homens em fuga passaram por ele; nada 
tinha visto da luta. Atribuem o fato a uma fa- 
diga excessiva provocada por exagerado traba- 
lho e falta de sono. Não podia mais consigo. 
Cabe aos médicos dizer-nos se o sono é tão 
necessário ao homem que sua vida dele depen- 
da. Em apoio dessa asserção temos em Roma 


o caso de Perseu, rei da Macedônia, que fize- 
ram morrer impedindo-o de dormir. Mas, por 


outro lado, Plínio relata casos de pessoas que 
viveram durante muito tempo sem dormir. 
Heródoto fala de povos que dormem a metade 
do ano e velam os outros seis meses. E os bió- 
grafos de Epimênides contam que esse.sábio 
dormiu durante cinquenta e sete anos seguidos. 


CAPÍTULO XLV 
A batalha de Dreux 


Houve em nossa batalha de Dreux particu- 
laridades raramente vistas. Os que não são 
favoráveis ao Duque de Guise observam que 
não há desculpas para o fato de ter ele sustado 
a ação de sua tropa e contemporizado en- 
quanto O inimigo esmagava o Sr. Condestável, 
comandante dos exércitos, e lhe arrebatava a 
artilharia. E dizem que ele teria feito melhor, a 
fim de evitar as perdas consideráveis que se 
verificaram, atacando o adversário pelo flanco 
em lugar de aguardar a possibilidade de fazê-lo 
pela retaguarda. Além do que demonstra o 
resultado da batalha, devemos convir, sem 
sectarismo, em que não somente os chefes mas 
também cada soldado deve ter em vista unica- 
mente .o êxito final, e que nenhum incidente 
particular por mais interessante que seja deve 
desviá-los desse objetivo. 

Filopêmen, em um encontro com Macâni- 


das, fizera-se preceder de numeroso grupo de 
archeiros e lanceiros. O inimigo, depois de os 
ter rechaçado, divertiu-se em os perseguir a ga- 
lope e se encontrou assim desfilando ao longo 
do corpo de batalha de Filopêmen. Este, ape- 
sar da emoção provocada em seus soldados, 
não julgou conveniente mexer-se para ir em 
socorro dos seus. Deixou que a cavalaria os 
perseguisse e os liquidasse sob suas vistas e só 
atacou os infantes inimigos quando os viu sem 
possibilidade de serem apoiados pelos cavaléi- 
ros. E embora se tratasse de lacedemônios, 
derrotou-os facilmente tanto mais quanto os 
atacou quando imaginavam ter ganho e come- 
çavam a debandar. Isso feito, lançou-se contra 
Macânidas. É este um caso que tem grande 
analogia com o do Duque de Guise. 

Na batalha, tão vivamente disputada, de 
Agesilau contra os beócios, batalha a que 


ENSAIOS — 1 


Xenofonte assistiu e declara ter sido a mais 
encarniçada que jamais presenciou, Agesilau 
não quis aproveitar a vantagem que a sorte lhe 
oferecia, de deixar desfilar o corpo principal 
do exército inimigo e atacá-lo pela retaguarda, 
muito embora não duvidasse da vitória. Acha- 
va que assim agindo daria prova antes de habi- 
lidade que de valentia. Para demonstrar seu 
valor e sua coragem excepcional, preferiu ata- 
car de frente. E errou, pois sofreu sério malo- 
gro e foi gravemente ferido. Obrigado a reunir 


135 


de novo sua gente, tomou então o partido que 
recusara antes. Abriu uma brecha na tropa 


para dar passagem aos ardorosos beócios e de- 
pois que estes passaram e já marchavam em 
desordem como gente que se acredita fora de 
perigo, perseguiu-os carregando contra eles 
pelos flancos. Não conseguiu, entretanio, rom- 
per suas fileiras nem apressar-lhes a retirada. 


Foram-se devagar, sempre agressivos, até se 
porem a salvo. 


CapíruLO XLVI 


Dos nomes 


Por grande que seja a diversidade das ervas, 
chamam a tudo salada. Vou fazer o mesmo e, 
-a propósito de nomes, apresentar aqui uma sal- 
galhada de coisas. Cada país tem, não sei por 
quê, nomes que são levados a mal. Assim, em 
nossa terra, João, Guilherme, Benedito. Dir- 
se-ia igualmente que na genealogia dos prínci- 
pes certos nomes se reproduzem fatalmente: 
Ptolomeu, no Egito; Henrique, na Inglaterra; 
Carlos, em França; Baudouin, nas Flandres; e 
em nossa velha Aquitânia, os Guilhermes, de 
que dizem derivar o nome atual de Guyenne, 
etimologia que não se aceitaria facilmente se 
outras tão pouco admissíveis não se encon- 
trassem no próprio Platão. 

E coisa de nonada e no entanto digna de 
nota, em virtude de sua singularidade, o que 
relata uma testemunha ocular: Henrique, 
Duque da Normandia, filho de Henrique, 
segundo rei da Inglaterra, deu em França um 
festim no qual o número de nobres convidados 
era tão considerável que, por divertimento, 
sendo os mesmos divididos em: grupos de pes- 
soas de nomes idênticos, o mais numeroso foi 
o dos Guilhermes, pois cento e dez cavalheiros 
assim batizados tomaram lugar à mesa. E.não 
se contaram os simples fidalgos nem os 
serviçais. 

Não é mais singular agrupar à mesa os con- 
vivas pelos nomes do que servir os pratos na 
ordem de suas iniciais, como o fez o Impera- 
dor Geta. Serviram em primeiro lugar os que 
começavam por m*'2.e em seguida os outros. 


218 Não se traduziram esses nomes porque em por- 
tuguês começam com letras diferentes. No texto 
diz-se: “moutons, marcassin, merluche, marsouin”. 
EN. do T.) 


Dizem que é vantajoso ter bom nome ou 
renome, isto é, ter crédito e reputação. Há 
igualmente utilidade em ter um nome bonito e 
que seja fácil de se pronunciar e reter na 
memória. Nós mesmos, entre nossos serviçais, 
chamamos de preferência os que nos vêm mais 
facilmente aos lábios: 

Vi o Rei Henrique II não poder pronunciar 
exatamente o nome de um fidalgo daqui da 
Gasconha e esse mesmo principe opinar que se 
desse a uma das camareiras da rainha o nome 
de sua terra natal, porquanto considerava que 
o nome de sua família era por demais vulgar. 
Sócrates considera que dar belos nomes a seus 
filhos é um cuidado que os pais não devem 
esquecer. 


Conta-se que a fundação de Notre Dame La 
Grande, em Poitiers, é devida ao fato de um 
jovem debochado, que morava no local, haver 
encontrado uma prostituta à qual indagou do 
nome. Em lhe respondendo que era Maria, 
acordou nele repentinamente seus sentimentos 
religiosos. Tomado então de respeito pelo 
santo nome da Virgem, não só expulsou 
imediatamente a mulher como se corrigiu em 
definitivo. Em vista desse milagre, ali se cons- 
truiu uma capela a Nossa Senhora e mais tarde 
a igreja que conhecemos. Foi pela voz e o ou- 
vido que a devoção, atuando diretamente sobre 
a alma, provocou essa reviravolta no jovem. 

O fato seguinte, do mesmo gênero, verifi- 
cou-se em consequência de ação imediata 
sobre os sentidos: Pitágoras, em companhia de 
alguns jovens, em uma festa, percebeu que, em 
se esquentando os espíritos, se propunham 
penetrar violentamente em uma casa respeitá- 
vel. Determinou então à orquestra que tocasse 


136 MONTAIGNE 


outras músicas, graves, severas, monótonas, as 
quais adormeceram pouco a pouco os entu- 
siasmos. 

E não dirá a posteridade que essa Reforma 
que surgiu em nossos dias não foi exata € vigi- 
lante, pois se aplicou não apenas em combater 
os erros e os vícios, em encher o mundo de 
devoção, humildade, obediência, paz e toda 
sorte de virtudes, mas também em proscrever 
nossos nomes de batismo, Carlos, Luís, Fran- 
cisco, substituindo-os por Matusalém, Eze- 
quiel, Malaquias, muito mais de acordo com 
os dogmas da fé? *1º 

Um fidalgo da minha vizinhança, suputando 
a superioridade do passado sobre os tempos 
atuais, não esquecia de levar em conta o sabor 
e a elegância dos nomes da nobreza antiga: 
Grumedan, Quedragan, Agesilau. Só em os 
ouvir já se sentia que eram de gente bem dife- 
rente dos Pedros e Miguéis! 

Agrada-me que Jacques Amyottenha conser- 
vado em seus escritos em francês os nomes 
latinos em latim. Agrada-me que não os tenha 
alterado e modificado, a fim de lhes emprestar 
um feitio francês. A princípio isso me pareceu 
algo estranho, mas já sua tradução, tão conhe- 
cida, de Plutarco contribuira para que o estra- 
nhasse menos. Muitas vezes desejei que os que 
escrevem crônicas em latim, transcrevessem os 
nomes próprios como são; metamorfoseando- 
os em grego ou romano para os tornar mais 
graciosos, fazendo de Vandemont, Vallemon- 
tanus”, acabam confundindo-nos. Não sabe- 
mos mais onde estamos. 

Encerrando nossas reflexões sobre os 
nomes, digamos que é mau hábito e de péssi- 
mas consequências chamar cada qual pelo 
nome de suas terras ou de seu castelo. Isso, 
mais do que tudo, faz que se misturem as raças 
e não mais possam distinguir-se uma da outra. 
Um caçula de boa família que recebeu uma 
terra cujo nome tomou de empréstimo, e com 
ele se tornou conhecido e respeitado, não o 
pode honestamente abandonar. Em falecendo, 
dez anos após, passa a terra as mãos de um 
estranho que faz a mesma coisa. Como será 
possível deslindar tal embrulhada? A esse res- 
peito, aliás, não é necessário procurar exem- 
plos fora de nossa casa real, em que há tantos 
nomes quantas partilhas houve, a ponto de não 
mais sabermos sua origem. Com tal liberdade 
e fantasia procedem nesse sentido em nossos 
dias, que não sei de pessoa elevada pela fortu- 
na a uma situação qualquer, que não lhe des- 
cubram logo títulos genealógicos ignorados de 
seu progenitor, enxertando-o em alguma ilustre 


+18 Montaigne iroriza o sectarismo dos reforma- 
dores. 


linhagem. E são as mais obscuras famílias que 
melhor se prestam a tais falsificações. Quantos 
fidalgos não temos nós.em França que, pelo 
que dizem (mais do que pelo que dizem os 
outros), são de raça real! Isso foi observado 
um dia muito espirituosamente por um de 
meus amigos nas seguintes circunstâncias: em 
certa reunião, tendo-se verificado uma desa- 
vença entre dois senhores, um dos quais, pelos 
seus títulos e alianças, tinha preeminência 
incontestável sobre a nobreza comum, procu- 
rava cada um dos presentes igualar-se ao mais 
ilustre alegando sua origem, a semelhança do 
nome, velhos títulos familiares, o brasão, 
sendo que o que menos podia alegar se dizia 
tataraneto de um rei de além-mar. Quando 
passaram à sala de comer, meu amigo, em vez 
de se dirigir para seu lugar, começou a recuar, 
multiplicando as reverências e suplicando à 
assistência que lhe desculpasse a temeridade 
que tivera de se manter até então em pé de 
igualdade com tão eminentes fidalgos. Só 
agora porém estava sendo informado de suas 
qualidades e privilégios e solicitava que lhe 
permitissem desde já prestar homenagem à sua 
condição social, e que não lhe cabia sentar-se 
junto a tão numerosa coorte de príncipes. E 
terminando a brincadeira com mil sarcasmos 
disse: “Contentemo-nos, por Deus, com aquilo 
com que se contentaram nossos pais e com o 
que somos. Que nossa condição nos baste, e 
nos bastará se soubermos honrá-la; não negue- 
mos a fortuna e a condição de nossos antepas- 
sados. Evitemos essas ridículas invencionices 
que não podem senão confundir quem quer 
que tenha a impudência de as alegar.” 


Como os ncmes, nada provam os brasões. E 
o meu “de blau semeado de trevos de ouro, 


com uma pata de leão do mesmo, armada de 
goles e posta de frente”. Quem me garante que 
não sairá de minha família? Não poderá um 
genro transportá-lo alhures? E talvez um novo 
rico se apodere dele em não tendo outre. Não 
há coisa mais sujeita a freqlentes mudanças € 
confusões. 


Estas reflexões acarretam outras de ordem 
diferente. Examinemos sobre que assenta essa 
glória e essa reputação pelas quais revolvemos 
céu e terra; em que consiste essa fama que 
tanto nos esforçamos por conquistar?! Em 
suma é a Pedro ou a Guilherme que se aplica, 
a eles cabe guardá-la, a eles interessa. Admirã- 
vel faculdade a da esperança! Em um simples 
mortal ela abarca o infinito, a imensidade, a 
eternidade, e, como por efeito de uma mira- 
gem, substitui à indigência absoluta tudo o que 
pode imaginar e desejar! Com ela, deu-nos a 
natureza um brinquedo maravilhoso. Mas, afi- 


ENSAIOS —I 


nal de contas, que são Pedro ou Guilherme 
senão um som ou três ou quatro rabiscos de 
pena, e em verdade tão pouco precisos que 
podemos por vezes indagar, perplexos, a quem 
cabe a honra de tantas vitórias: Guesquin, 
Glesquin ou Gueaquin?*2º. O problema pode- 
ria dar azo a uma polêmica ainda mais espi- 
nhosa do que a que Luciano imaginou entre as 
letras sigma e tau. O prêmio, no caso atual, 
não é de valor desprezível, pois a coisa tem sua 
importância, tratando-se, como se trata, de 
determinar a qual dos nomes diversamente 
ortografados se devem atribuir tantos assédios 
empreendidos e sustentados, tantas batalhas 
travadas, ferimentos recebidos, cativeiro su- 
portado, serviços prestados à coroa real pelo 
famoso condestável. 

Nicolas Denisot ocupou-se unicamente com 
as letras de seu nome, cujo arranjo modificou 
para fazer “Conde d'Alsinois”, tornando esse 
nome ilustre com suas poesias e sua pintura. 
Suetônio, historiador, apreciava o significado 
do seu: não podendo chamar-se Lenis (doce) 
que era o sobrenome de seu pai, adotou o de 
Tranquilo ao qual fez herdeiro da reputação de 
seus escritos. Quem sabe que o Capitão Ba- 
yard tirou sua fama dos feitos perpretados por 
Pierre Terrail? E que Antoine Escalin deixou 
que o Capitão Paulin e o Barão de La Garde 
lhe roubassem a glória de tantas viagens mari- 
timas e de funções exercidas em terra e mar? 

Além das variações que sofrem, esses rabis- 
cos de pena são comuns a milhares de pessoas. 
Quantos em um país não têm os mesmos 
420 Nos documentos antigos, o nome de Du Gues- 
clin figura mais de uma vez deturpado, conhecen- 
do-se numerosas variantes. 


137 


nomes e sobrenomes? E quantos outros em 
países e raças diferentes, atravês dos séculos? 
A história conservou os nomes de três Sócra- 
tes, cinco Platões, oito Aristóteles, sete Xeno- 
fontes, vinte Demétrios, vinte Teodoros; e 
quantos mais não permaneceram ignorados? 
Nada impede que meu palafreneiro se chame 
Pompeu, o Grande; e nada se opõe a que final- 
mente a ele, depois de morto, e não ao homem 
que foi executado no Egito, se atribua a glória 
do nome. E qual dos dois a aproveitará? 
“Acreditais que com isso se preocupem as cin- 
zas e os manes dos mortos? “21, 

Que podem sentir Epaminondas e Cipião, o 
Africano, esses dois êmulos pelo valor que os 
eleva acima dos outros homens, o primeiro 
diante de tão belo verso gravado no pedestal 
de sua estátua há tantos séculos: “Por mim 
Lacedemônia perdeu seu esplendor”; e o 
segundo ante o dístico escrito em seu louvor: 
“Do levante ao poente não há guerreiros cujas 
frontes cinjam tão nobres louros” “22. 

Tais testemunhos impressionam de modo 
agradável os sobreviventes, excitando neles a 


inveja e a ambição; e, sem refletir, estes 
emprestam aos mortos suas próprias sensa- 


ções, iludindo-se ao mesmo tempo acerca de 
sua capacidade de conquistar a celebridade. Só 


Deus sabe entretanto. Contudo: “essa espe- 
rança incitou gregos, romanos e bárbaros. 
Nela está a razão de seus trabalhos, dos peri- 
gos que correram, pois mais que de virtude 


têm os homens sede de renome” “23, 
421 Virgílio. 
Cicero. 

Juvenal. 


422 
423 


CapíTULO XLVII 


Da incerteza dos nossos juízos 


De qualquer coisa é fácil falar: pró ou con- 
tra, diz Homero com muita razão. Eis, por 
exemplo, o que afirma Plutarco: “Aníbal ven- 
ceu os romanos mas.não soube aproveitar a 
vitória.” Quem assim pensasse e considerasse 
um erro, como é comum entre nós“? *, não ter 
o partido católico explorado o êxito que alcan- 
çamos em Montcontour, ou censurasse ao rei 
da Espanha não haver aproveitado a vantagem 


424 Os católicos. 


conseguida contra os franceses em St. Quentin, 
poderia, em apoio de sua tese, apresentar os 
seguintes argumentos: semelhantes erros pro- 
cedem de uma alma embriagada pelo êxito ini- 
cial e cuja coragem limitada, satisfeita com um 
princípio de sorte, perde a vontade de prosse- 
guir, já embaraçada com o resuitado obtido; 
seus braços nãc podem abarcar mais. Seme- 
lhante chefe não merece o bem que o destino 
lhe pôs nas mãos, pois dá ao inimigo a possibi- 
lidade de se refazer. Poder-se-á esperar dele 


138 MONTAIGNE 


que ouse renovar seu ataque contra um adver- 
sário recuperado, e armado, já agora, de des- 
peito e ansioso por se vingar, se não ousou ou 
não soube persegui-lo em desordem e tomados 
de pavor? “Quando a sorte já se decidira e que 
ao terror tudo cedia?” *2 5 Mesmo porque, que 
hã de esperar melhor do que o que deixou esca- 
par? A guerra não é como. a esgrima em que 
quem consegue maior número de toques 
ganha; se continua de pé cumpre recomeçar, 
sempre com mais resolução, não havendo vitó- 
ria enquanto não terminem as hostilidades. Em 
seguida àquela batalha perto de Oricum, em 
que correu os maiores riscos, César criticou os 
soldados de Pompeu por terem perdido a opor- 
tunidade de ganhar se houvessem sabido ven- 
cer. E ele próprio agiu de outra maneira quan- 
do lhe coube persegui-los. 

Em apoio da tese contrária, pode-se dizer 
que não opor limites a seus desejos é caracte- 
rístico dos espíritos impacientes e insaciáveis; 
que querer ultrapassar as medidas em que nos 
é concedida a proteção divina constitui um 
abuso; que se expor a um malogro após uma 
vitória é entregá-la novamente à mercê da 
sorte; que um dos princípios mais sábios da 
arte militar consiste em não impelir o inimigo 
ao desespero. Sila e Mário durante a guerra 
civil haviam batido os marses; vendo um 
punhado deles retomar a ofensiva, como que 
furiosos, porque desesperados, acharam que 
não deviam enfrentá-los. Se o Sr. de Foix não 
se tivesse deixado levar pelo entusiasmo a per- 
seguir encarniçadamente o inimigo depois de 
sua vitória em Ravena, não a houvera estra- 
gado com sua morte. Seu exemplo, ainda 
recente, serviu, de resto, de lição ao Sr. de Eng- 
hien, em Cerisolles, preservando-o de igual 
desventura. 

É perigoso assaltar um homem ao qual se 
tirou toda possibilidade de salvação fora da 
luta, pois a necessidade é um mestre-escola 
violento: “terríveis são as mordidas da necessi- 
dade excitada” “2 é e “quem desafia a morte só 
é vencido com danos para o vencedor” “27. Foi 
o que fez com que Pharax impedisse que o rei 
da Lacedemônia, que acabava de vencer os 
mantineanos, se atirasse contra um milhar de 
argensianos, os quais, ainda intatos, haviam 
escapado ao desastre. E persuadiu-o a que os 
deixasse se retirarem sossegadamente, a fim de 
não ter de guerrear com homens valentes e 
despeitados, estimulados pela desgraça. Clo- 
domiro, rei da Aquitânia, depois de sua vitória 
contra Gondemar, rei da Borgonha, perse- 
guiu-o tão ardorosamente que o obrigou a vol- 


*25 Tucano. 
426 Pórcio Latro. 
“27 Lucano. 


tar-se contra o perseguidor. No combate que se 
seguiu foi ele morto e perdeu assim por causa 
de sua obstinação o fruto da vitória. 

Serã preferível ter soldados abundante e 
suntuosamente armados ou será melhor armá- 
los tão-somente de acordo com as necessida- 
des? Sertório, Filopêmen, Bruto, César e ou- 
tros são favoráveis à primeira alternativa 
alegam que a honra -e a vaidade estimulam o 
soldado; que, ademais, em devendo salvar 
armas que, pelo seu valor venal, constituem 
uma espécie de fortuna e um como que legado, 
tanto mais tenaz se mostra na luta. E diz 
Xenofonte que por esse motivo os povos da 
Ásia levavam para a guerra com seus exércitos 
suas mulheres e concubinas, com suas jóias e O 
que possuíam de mais precioso. 

Quanto ao segundo método, pode-se alegar 
que mais vale desviar do soldado a idéia de 
conservação do que o induzir a pensar nisso, 
pois assim dobraremos seu desprezo aos peri- 
gos. Fazer exibição de luxo é, também, excitar 
no inimigo o desejo de vencer para se apro- 
priar de ricos despojos, como se observou mais 
de uma vez, e o que constituiu o móvel dos 
romanos contra os salamitas. Antíoco mos- 
trava com orgulho a Aníbal o exército que reu- 
nia contra Roma, faustoso e magnífico em 
toda espécie de equipamentos, e lhe pergun- 
tava: “Achais que este exército será suficiente 
para os romanos? — Será sem dúvida sufi- 
ciente, respondeu Aníbal, por cobiçosos que 
sejam 28. 

Licurgo proibira aos seus concidadãos não 
somente qualquer luxo no equipamento de 
guerra mas ainda que despojassem o inimigo 
vencido, querendo desse modo que se honras- 
sem de sua pebresar e frugalidade tanto quanto 
da vitória. 

Nos assédios e outras circunstâncias que 
nos põem ao alcance do inimigo, permitimos 
em geral a nossos soldados que lhe dirijam 
bravatas e insultos. Não sem razão aliás. E de 
certa importância afastar da tropa qualquer 
esperança de mercê ou entendimento, mostran- 
do-lhe que nada devem esperar de um inimigo 
que de tal modo insultou e que só lhe resta por- 
tanto vencê-lo. Vitélio fez a experiência mas 
em seu detrimento. Achando-se em presença 
de Otão cujo exército se compunha de solda- 
dos de reduzido valor, desacostumados de há 
muito à guerra, amolecidos pelos prazeres da 
cidade, de tal modo os agastou com ditos vene- 
nosos, censurando-lhes a pusilanimidade, a 


*28 No texto “contenter” com os sentidos de bas- 
tar, ser suficiente na pergunta, e de dar satisfação, 
na resposta. Quanto a cobiçosos, a palavra usada 
no texto é “avarento”, mas no seu sentido de ávidos, 
cobiçosos, cúpidos. (N. do T.) 


ENSAIOS— 1 


saudade das mulheres belas e das festas deixa- 
das em Roma, que acabou por fazer-lhes das 
tripas coração e jogá-los contra si, o que 
nenhuma exortação conseguira. E em verdade 
as ofensas graves podem facilmente fazer com 
que os que, de má vontade, combatem a servi- 
ço de seu rei, lutem com outra disposição a seu 
próprio serviço. 

Considerando-se a importância da preserva- 
ção do chefe em um exército, e que a sua cabe- 
ça, de que dependem as demais, é a mais visa- 
da, parece não se deva desprezar essa 
determinação, seguida por numerosos grandes 
chefes, de se fantasiar ou camuflar ao entrarem 
em combate. Entretanto, o inconveniente dessa 
tática não é menor do que as vantagens, pois, 
em não sendo reconhecido pelos seus, a cora- 
gem que lhes inspira com seu exemplo e pre- 
sença pode faltar. Não percebendo as marcas 
distintivas que de hábito o assinalam, imagi- 
nam que tenha morrido ou que, desesperando 
do êxito, se haja retirado do campo de batalha. 
Quanto aos fatos, vemo-los corroborar ora um 
ora outro desses métodos. O que ocorreu com 
Pirro na batalha travada na Itália contra o 
cônsul Levínio depõe a um tempo a favor e 
contra. Tornara-se irreconhecível, tomando 
para lutar as armas de Demogacles a quem 
dera as suas. Salvou-lhe por certo a vida essa 
idéia, mas quase foi vítima do referido incon- 
veniente e quase perdeu a batalha. Alexandre, 
César, Luculo gostavam de ir para o combate 
com vestimentas e armas luxuosas, de cores 
vivas, reveladoras de suas personalidades; 
Agis, Agesilau, o grande Gilipo, ao contrário, 
iam para a guerra com costumes severos que 
não denunciavam sua condição de chefes. 


Entre as críticas que fizeram a Pompeu, 
relativas à batalha de Farsália, figura a de ter 
aguardado firmemente o ataque do inimigo. 
Eis o que a propósito diz Plutarco, mais 
conhecedor do assunto do que eu: “isso, além 
de atenuar a violência com que se dão os pri- 
meiros golpes ao fim de uma carga, priva OS 
combatentes do entusiasmo que, quando se 
lançam aos berros uns contra os outros, como 
ocorre habitualmente, com impetuosidade e 
excitação, lhes aumenta a coragem no momen- 
to do choque decisivo. Ao passo que, em 
permanecendo imóveis no lugar, em vez de se 
esquentarem como que 'se lhes coalha o 
sangue”. ; 

Mas se César houvesse perdido não se diria, 
de maneira igualmente sensata, que uma posi- 
ção é tanto mais forte e difícil de se tomar 
quanto nela nos mantemos firmemente? E que 
quem suspende a marcha, se concentra e 
poupa suas forças para o momento decisivo, 
leva vantagem sobre quem já se acha abalado 


139 


por uma carga que quase lhe esgotou o fôlego? 


Por outro lado, um exército compõe-se de tan- 


tas frações diversas que não pode, ao se atirar 
com fúria. contra o adversário, fazê-lo com pre- 
cisão suficiente para que sua ordem de batalha 
não se perturbe e rompa, e para que os mais 
entusiastas não se empenhem antes de contar 
com o apoio dos companheiros de armas. 

Na batalha, tão contrária às leis da moral, 
em que dois irmãos disputaram o império 
persa, o lacedemônio. Clearco que comandava 
os gregos (os quais haviam abraçado o partido 
de Ciro) conduziu-os tranquilamente, sem se 
apressar, ao combate, e ao chegar a cinquenta 
passos do inimigo mandou-os que acelerassem. 
Diminuindo assim o espaço a ser transposto 
com rapidez, poupava-lhes as forças, e con- 
quanto os conservasse em formação, dava-lhes 
a vantagem da impetuosidade que aumentava 
sua potência de choque e a precisão das armas 
de arremesso. Outros, nos exércitos sob suas 
ordens, assim resolveram esse ponto contro- 
vertido: “Se o inimigo vos ataca, aguardai-o de 
pé firme; se ele assim vos espera, atacai-o.” 

Quando da invasão da Provença por Carlos 
Quinto, o Rei Francisco I teve que escolher 
entre ir ao encontro dele na Itália, ou o esperar 
em seus Estados. Optou por esta decisão, em- 
bora soubesse da vantagem que consiste em 
levar a guerra para fora de suas fronteiras, de 
maneira a ter intatos os recursos do país em 
homens e dinheiro. Ademais, as necessidades 
da guerra acarretam devastações a que de bom 
grado não podemos expor o que nos pertence, 
tanto mais quanto o habitante se resigna 
menos a elas quando são causadas pelos seus, 
o que pode levar a sedições e motins, do que 
quando provocadas pelo inimigo. Finalmente, 
a licença de roubar e pilhar, que atenua gran- 
demente as misérias da guerra para o soldado, 
não se pode exercer em seu próprio país; e 
como, então, não há mais nenhum benefício a 
esperar senão o soldo, dificil se faz segurá-lo, 
tão perto de sua mulher e de seu lar. Acrescen- 
temos que quem põe a toalha paga as despesas 
da festa; que é mais agradável atacar do que se 
defender; que o abalo provocado pela perda de 
uma batalha é tão violento que, em ocorrendo 
ela em nosso solo, é raro que o país inteiro não 
seja atingido, pois nada é tão contagioso quan- 
to o medo, nada se espalha mais depressa, 
sendo de temer que as cidades a cujas portas a 
borrasca se abate, que recolham chefes e sol- 
dados ainda pasmos e tremendo de pavor, 
tomem, sob a emoção, qualquer resolução 
perniciosa. Todas essas considerações não 
impediram que o rei chamasse suas forças de 
além Alpes e resolvesse aguardar O inimigo. 
Na verdade, apoiava-se em razões de outra 


140 


ordem: imaginou que estando em seu próprio 
território, no meio de populações amigas, teria 
todas as facilidades. Rios e meios de comuni- 
cação estando em sua posse, os comboios de 
víveres e de dinheiro se efetuariam com segu- 
rança e sem escolta. Seus súditos se mostra- 
riam tanto mais dedicados quanto mais pró- 
ximo o perigo. Dispondo de numerosas 
cidades e pontos de resistência seguros, pode- 
ria combater quando quisesse e somente quan- 
do achasse oportuno e vantajoso. Em lhe con- 
vindo contemporizar, fá-lo-ia sem riscos, 
deixando que o inimigo se consumisse na espe- 
ra e se desagregasse sozinho em virtude das 
dificuldades que teria de vencer em uma região 
onde tudo seria contra ele; onde tudo, em fren- 
te, atrás, nos flancos, lhe seria hostil e onde 
estaria na impossibilidade de dar repouso a 
seus homens, de acampar em caso de epide- 
mias; onde não encontraria com que proteger 
seus feridos; onde não poderia obter dinheiro e 
víveres senão pela força; onde não teria a 
oportunidade de se refazer e tomar fôlego; 
onde, não conhecendo a região nem em con- 
Junto nem em seus pormenores, não se defen- 
deria contra as emboscadas e os ataques de 
surpresa; e onde finalmente, em perdendo uma 
batalha, veria sua situação irremediavelmente 
comprometida, não tendo onde reunir os des- 
troços de seu exército. Em suma, não faltariam 
exemplos que se invocassem em prol de uma 
ou outra resolução. 

Cipião considerou — e com razão — muito 
mais vantajoso levar a guerra ao território de 


MONTAIGNE 


seu inimigo na África do que defender sua pró- 
pria terra e combater na Itália um adversário 
que aí já se encontrava. Aníbal, ao contrário, 
perdeu-se por abandonar suas conquistas em 
país estrangeiro a fim de ir defender o seu. À 
sorte foi contrária aos atenienses que deixando 
O inimigo em seu próprio território invadiram 
a Sicília. Mostrou-se entretanto favorável a 
Agátocles, rei de Siracusa, o qual, desprezando 
O inimigo às portas de sua capital, fo: atacá-lo 
na África. 

Temos por hábito dizer, c com justeza, que 
os acontecimentos e suas consequências 
decorrem — particularmente na guerra — da 


sorte que não quer sujeitar-se às regras de 
nossa inteligência e de nossa razão, o que 
assim exprime um posta latino: “muitas vezes 


a imprevidência acerta e a prudência engana: a 
sorte não está forçosamente com os mais dig- 
nos; sempre inconstante, como cega, joga-se de 
qualquer lado. Uma força superior nos domi- 
na, dita nossos atos e mantém a ordem mortal 
sob suas leis?*2º. Dir-se-ja que essa in- 
fluência se exerce sobre nossos projetos **º e 
deliberações; e que até os nossos raciocínios se 
ressentem da incerteza da sorte. Raciocinamos 


ao acaso e inconsideradamente, diz o Timeu de 
Platão, porque, como nós mesmos, é a nossa 
razao grandemente influenciada pelo acaso. 


“29 Manílio. 
“30 “Conseils” no 
“projetos”. (N. do T.) 


caso, segundo Godefroy, 


CapíTULO XLVIII 


Dos cavalos de guerra **' 


Eis-me agora gramático, eu que nunca 
aprendi nenhuma língua senão pela prática e 
que não sei ainda o que seja adjetivo, subjun- 
tivo ou ablativo. Parece-me ter cuvido dizer 
que os romanos tinham cavaios a que chama- 
vam Jfunales (de tiro) e outros que denomi- 
navam dexirarios, os quais se conduziam à 
direita ou se empregavam nas postas fora das 
diligências *32. Daí chamarmos “destriers” aos 


“31 Destriers — do provençal; cavalo que o guer- 
reiro conduzia à direita quando não o montava — 
cavalo de guerra. (N. do T.) 

“32 A frase é extremamente confusa. Interpreta-a. 
ainda mais confusa e prolixamente Michaut. Thi- 
baudet não diz nada a respeito. (N. do T.) 


cavalos de sela. E os nossos autores que escre- 
vem em romano“? dizem comumente “ades- 
trer? para acompanhar. Tinham também os 
romanos os desultorios equos, cavalos adestra- 
dos para que, sem freio nem sela, galopassem 
com igual rapidez um ao lado do outro, sem se 
afastar, de modo que ao sentir o cavaleiro a fa- 
diga de seu animal pudesse pular no outro sem 
diminuir ou atenuar a corrida. E isso inteira- 
mente armado. Os guerreiros númidas tinham 


+33 Thibaudet anota: romances de cavalaria. Mi- 
chaut diz: “autores que eserevem em romano”, 
latim de transição para o provençal, o que parece 
mais certo. Littré dá como definição —- latim vulgar 
de após a queda do Império. (N. do T.) 


- 


ENSAIOS —I l41 


igualmente à mão um segundo cavalo para tro- 
car de montaria no meio do combate: “como 
nossos cavaleiros que pulam de um cavalo 


para o outro, os númidas costumavam ter sem- 
pre dois cavalos, e por vezes, no auge da luta, 
lançavam-se armados do cavalo cansado ao 
cavalo fresco, tão grande era sua agilidade e 
tão dóceis seus cavalos” “3 4 


Há cavalos ensinados a defender o cavalei- 
ro, a jogar-se contra quem lhes apresenta uma 
espada nua, a precipitar-se com coices e mor- 
didas contra os que os atacam e os enfrentam. 


Mas ocorre que, assim, mais mal fazem aos 
amigos do que aos inimigos. Sem contar com o 
fato de que não podeis dominá-lo à vontade € 


que uma vez na batalha ficareis à mercê do 
que acontecer. 


Tal desgraça aconteceu a Artíbio, que 
comandava os persas contra Onesilo, rei de 
Salamina, e montava um cavalo desse. Empe- 


nhara-se em combate singular com ÔOnesilo, do 
que se aproveitou o escudeiro deste último 
para lhe cravar uma foice entre as espáduas. 


Contam os italianos que na batalha de For- 
nuovo o cavalo de Carlos VIII se desvencilhou 
com coices e corcovos de bom número de ini- 
migos seus, os quais de outro modo o teriam 
desacatado. Se a coisa é exata, eis um bem 
feliz acaso. Vangloriam-se os mamelucos de 


terem os cavalos de guerra mais hábeis e bem 
ensinados do mundo, os quais, por instinto ou 
por educação, são adestrados a distinguir e 


reconhecer o inimigo contra o qual, a um sinal 
do dono, se precipitam com dentadas e coices. 
E chegam a pegar no solo lanças e dardos com 
a boca para os entregar ao cavaleiro, a seu 
pedido. 


Dizem de César, e também do grande Pom- 
peu, que entre outros talentos de primeira 
ordem possuiam o de ser cavaleiros eméritos. 


César na mocidade montava a cavalo sem sela 
nem freio e, mãos às costas, entregava-se ao 
galope do animal. A natureza, que fez dele e de 
Alexandre dois prodígios da arte militar, pare- 
ce tê-los igualmente dotado de montarias 
excepcionais. Todos sabem que Bucéfalo, o ca- 
valo de Alexandre, tinha a cabeça à seme- 
lhança de um touro, que não se deixava caval- 
gar por ninguém senão por seu dono e só por 
este fora adestrado; que depois de morto hon- 
ras divinas lhe foram rendidas e que seu nome 
foi dado a uma cidade construída a fim de lhe 
perpetuar a memória. César possuía também 
um cavalo cujas patas dianteiras tinham a 
forma semelhante à do pé humano. O casco 


234 Tito Lívio. 


era cortado como dedos. Somente César fora 
capaz de adestrá-lo e só ele o montava. Ao 
morrer o animal, mandou ele colocar sua ima- 
gem no templo de Vênus. 

Quando monto a cavalo, não tenho pressa 
em largar a montaria, pois doente ou com 
saúde é o meu meio de locomoção preferido. 
Platão recomenda a equitação como favorável 
ao físico e Plínio diz que ela convém ao estô- 
mago e conserva a flexibilidade das articula- 
ções. Mas continuemos nossos comentários. 


Xenofonte cita uma lei proibindo que via- 
jasse a pé quem possuísse um cavalo. Trogo- 
Pompeu e Justino relatam que os partos ti- 
nham por costume não somente combater a 
cavalo mas ainda do mesmo modo tratar de 
seus negócios públicos ou particulares, fazer 
suas compras, discutir, conversar, passear; e 
que entre eles a diferença entre homens livres e 
servos consistia em andarem estes a pé e aque- 
les a cavalo. Tal instituição remontaria a Ciro. 


Dá-nos a história romana — e Suetônio o 
observa em César particularmente — exem- 
plos de capitães que prescreviam a seus guer- 
reiros a cavalo que abandonassem suas monta- 
rias nos momentos críticos, tanto para tirar do 
soldado toda a esperança de fuga, como por 
causa das vantagens que pensavam auferir 
desse gênero de combate “em que, sem dúvida, 


excele o romano”, diz Tito Lívio. Como quer 
que fosse, a primeira precaução tomada para 
dominar as revoltas dos povos que iam subju- 
gado consistia em lhes confiscar as armas e 
os cavalos. Por isso, lemos comumente em 
César: “manda que entreguem as armas, tra- 
gam os cavalos e dêem os reféns”. O sultão 
não permite até hoje em todo o seu império 
que judeu ou cristão possua um cavalo. 

Nossos antepassados, em particular durante 
a guerra contra os ingleses, combatiam a pé 
nos combates de certa importância e nas bata- 
lhas campais, não confiando senão na força, 
na coragem e no vigor pessoais para defender 
tão preciosas coisas quanto a honra e a vida. 
Em que pese a opinião de Crisanto, em Xeno- 
fonte, quando combatemos a cavalo temos 
nossa sorte ligada à do cavalo; os ferimentos e 
a morte que os podem atingir podem também 
provocar a nossa desgraça; que não o possa- 
mos segurar ou tocar para a frente, e eis nossa 
honra entregue ao acaso. Por isso não acho 
estranho que os combates que nossos antepas- 
sados travaram a pé tenham sido mais sérios 
do que os travados a cavalo: “vencedores e 
vencidos precipitavam-se uns contra Os outros, 
massacrando-se. Ninguém pensava em 
fugir” “258, A vitória era outrora muito mais 


435 Virgílio. 


142 MONTAIGNE 


disputada, enquanto hoje a derrota é imediata: 
“os primeiros berros e a primeira carga deci- 
dem do êxito” “* 8. 

Em uma questão em que o acaso contribui 
com tão grande parte, é preciso pôr de nosso 
lado as maiores probabilidades de êxito. Por 
isso aconselharia o emprego das armas de mão 
as mais curtas possíveis, porquanto são aque- 
las que mais dependem de nós em seus efeitos. 
E evidente que temos muito mais certeza da 
eficiência de nossa espada que de uma bala de 
arcabuz, o qual compreende elementos diver- 
sos como a pólvora, a pedra, a roda** 7; que 
falhe um só deles e eis comprometida a sorte. 
Mais seguro é o golpe dado pessoalmente que 
aquele que mandamos pelos ares: “os golpes 
cuja direção se subordina ao vento são incer- 
tos; a espada é a força do soldado. Todas as 
nações guerreiras combatem com a espa- 
da” 43 8. 

Quanto às armas de fogo de nossa época, 
falarei mais pormenorizadamente quando as 
comparar com as da antiguidade. Salvo o 
ruído da detonação, que surpreende mas a que 
já estamos habituados, são elas, creio, pouco 
eficazes e espero que um dia renunciem ao seu 
emprego. A arma que os italianos usavam 
outrora era muito mais terrível: era a um 
tempo uma arma de arremesso e uma arma de 
fogo: denominavam-na falárica e era uma 
espécie de azagaia com uma ponta de ferro de 
três pés, capaz de traspassar um homem com 
sua armadura. Arremessava-se à mão em cam- 
panha rasa ou com máquinas nos sítios, quan- 
do a empregavam como arma de defesa. A 
haste revestia-se de estopa embebida de pez e 
óleo e se inflamava no ar; em penetrando o 
corpo ou o escudo impedia que a vítima se 
valesse de suas armas, imobilizando-lhe braços 
e pernas. Contudo, parece que quando chega- 
vam ao corpo-a-corpo, ela se tornava um 
transtorno para o atacante e o solo juncado 
desses troços incandescentes a todos pertur- 
bava: “semelhante ao raio a falárica fendeu o 
ar com um horrível assobio” **º. 


Possuíam ainda outros meios de ação que, 
em virtude do hábito, eram de grande eficácia 
e supriam a ausência de pólvora e canhão, mas 
nos quais mal podemos acreditar com nossa 
inexperiência. Arremessavam o dardo com 
tamanha violência que por vezes traspassavam 
dois homens com seus escudos e os pregavam 
um no outro. Suas fundas alcançavam tão 


33 6 Tito Lívio. 

*37 A engrenagem do arcabuz que, movimentada 
pelo gatilho, faz que a pedra produza a faísca. 

“38 Tucano. 


439 Virgílio. 


longe e com tanta precisão quanto nossas 
armas atuais: “Arremessando seixos ao mar 
com suas fundas, adestrados em acertar em 
círculos de pequenas dimensões, atingiam seus 
inimigos não somente na cabeça como em 
qualquer parte do rosto que visassem ?* *º. As 
máquinas que empregavam para derrubar as 
muralhas produziam resultados e estrépito 
idênticos aos das nossas. “Ao ruído terrível 
que repercutia nas muralhas sob os golpes dos 
sitiantes, a inquietação e o pavor apoderaram- 
se dos sitiados”4 “1. Os gauleses da Ásia, da 
mesma origem que a dos nossos, adestrados no 
combate com armas de mão, mais exigentes de 
coragem, detestavam essas armas traiçoeiras 
que atingem à distância: “a amplitude dos feri- 
mentos não os amedronta; e quando são mais 
largos do que profundos até se vangloriam 
deles, como provas de valentia. Mas se, ao 
contrário, uma ponta de flecha, ou uma bala 
de chumbo arremessada com a funda, lhes 
penetra profundamente a carne, deixando ape- 
nas um leve vestígio à superfície da pele, furio- 
sos por morrer de uma simples picada, rolam 
no chão de raiva e vergonha” * *2. Não se apli- 
cam essas palavras quase textualmente aos 


nossos arcabuzes? PR 
Os gregos, na tão longa e dificil retirada dos 


“Dez mil”, depararam com um povo que lhes 
causou graves perdas, atirando com grandes e 
fortes arcos flechas de tal comprimento que 
arremessadas mesmo com a mão, à maneira de 
um dardo, atravessavam um escudo e com este 
o homem que o usava. As catapultas que Dio- 
nísio inventou em Siracusa para arremessar 
troncos e pedras enormes com tamanha violên- 
cia correspondem ou se assemelham os nossos 


recentes inventos. : 
Não hã como esquecer tampouco a graciosa 


atitude, em sua mula, de um tal Sr. Pedro Pol, 
doutor em teologia, e que Monstrelet nos des- 
creve como tendo por hábito passear pela cida- 
de de Paris sentado de lado como as mulheres. 
Esse mesmo historiador escreve, em outro tre- 
cho de suas crônicas, que os gascões possuiam 


cavalos terríveis acostumados a dar meia volta 
a galope, sem parar, o que maravilhava os 


franceses, picardos, flamengos e brabantinos, 
os quais “não estavam habituados a vê-los”, 
como diz. César observou a propósito dos sue- 
vos: “nos encontros a cavalo, saltam muitas 
vezes à terra e combatem a pé; seus cavalos, 


o | 
estando acostumados a não se mover do lugar 
em que os deixam, correm a eles em caso de 


necessidade. A seu ver nada é menos honroso 
nem mais efeminado que usar selas e armadu- 


440 Tito Lívio. 
aa1 Td. 
442 Tito Lívio. 


ENSAIOS —I 


ras para as montarias, e desprezam os que as 
têm. Graças a esses métodos não temem, ainda 
que em pequeno grupo, atacar um inimigo 
superior em número.” 

O que muito admirei há tempos ao ver um 
cavalo que com uma simples vareta e sem 
auxílio de rédeas tudo fazia como se queria, 
era comum entre os massilianos: “Os massilia- 
nos, montando. seus cavalos em pêlo e sem 
freios, conduziam-nos com uma vareta” * 43, 
“Os númidas guiavam seus cavalos sem 
freio” * 4º. “Desprovidos de freios, seus cavalos 
são disformes, têm o pescoço rígido e a cabeça 
esticada” * 48, 


O Rei Afonso, fundador da ordem dos 
Cavaleiros da Lista, ou da Banda, estabeleceu, 
entre outras ordenações, que não se montasse 
mula nem besta sob pena de um marco de 
prata de multa, segundo se consigna nas cartas 
de Guevara, às quais deram, alguns, o quaiifi- 
cativo de douradas, tendo delas melhor juízo 
do que eu. Lê-se em “O Cortesão” que, antes 
da época em que foi escrito o livro, incorria em 
censura o fidalgo que cavalgasse uma mula. 
Ao contrário, entre os abissínios, quanto mais 
perto do príncipe pela condição social, maior 
dignidade e luxo consideram montar uma bela 
mula. Xenofonte conta que os assírios manti- 
nham seus cavalos sempre amarrados em suas 
casas, a tal ponto eram fogosos e selvagens; e 
precisavam de tanto tempo para os arrear e 
desamarrar que, a fim de que isso não lhes 
acarretasse prejuízos, caso fossem colhidos 
desprevenidos, jamais acampavam sem cerca- 
rem o campo de fossos e estacadas. Ciro, seu 
rei, grande conhecedor de cavalos, só dava 
repouso e comida aos seus depois que os sujei- 
tava mediante um bom e rude exercício. Os 
citas na guerra, quando a necessidade os força- 
va a tanto, sangravam seus cavalos e usavam o 
sangue como alimento: “nutre-se assim o sár- 
mata com sangue de seus cavalos” * * *. 

Oscretenses, sitiados por Metelo e semoutro 
meio de estancar a sede, recorreram a urina de 
seus cavalos. Para provar que os exércitos tur- 
cos se sustentam com menos do que os nossos, 
dizem que além de só beberem água e come- 
rem arroz com farinha de carne salgada, de 
que cada qual leva consigo o suficiente para 
um mês, vivem, se preciso, como os tártaros e 
os moscovitas do sangue de seus cavalos, que 
salgam para conservar. 

Esses povos novos da Índia**7 imagina- 


443 Tucano. 
444 Virgílio. 
445 Tito Lívio. 
4146 Marcial. 
447 América. 


143 


vam, ao chegarem os espanhóis, que homens e 
cavalos fossem deuses ou pelo menos seres de 
natureza superior à sua. Alguns, depois de ven- 
cidos, vinham implorar perdão e pedir paz e, 
depois de oferecer ouro e viandas aos homens, 
o mesmo faziam aos cavalos com idênticas 
palavras, interpretando os relinchos como 
assentimento dado às propostas de trégua. 


Nas Índias Orientais, montar um elefante 
era outrora a maior das honras, reservada 
exclusivamente aos reis; vinha em seguida 
andar em carro puxado por quatro cavalos; em 
terceiro lugar montar um camelo; em último 
valer-se de veículo puxado por um só cavalo. 
Um contemporâneo nosso escreve ter visto, 
nessas mesmas regiões, lugares onde cavalgam 
bois com. cangalha, estribo e rédeas; e dão-se 
bem com a montaria. 


- Vendo Quinto Fábio Máximo Rutiliano, na 
guerra contra os samnitas, que seus cavaleiros 
não tinham conseguido romper as fileiras ini- 
migas após duas ou três cargas, mandou que 
tirassem os freios dos cavalos e os espo- 
reassem com energia, de modo que nada os 
podendo deter, por cima de armas e homens 
derrubados abriram passagem para a infanta- 
ria, O que completou a sangrenta derrota dos 
adversários. Igual conduta teve Quinto Fúlvio 
Flaco contra os celtiberos: “A fim de se tornar 
mais impetuoso o choque, tirai os freios aos 
cavalos e lançai-os contra o inimigo; é uma 
manobra que não raro favoreceu a cavalaria 
romana e muito a honra (...). Arrancam os 
freios, rompem as fileiras inimigas, e voltam 
em seguida, atravessando-as novamente, par- 
tem todas as lanças e fazem enorme carnifici- 
na 

O Duque de Moscóvia devia outrora, como 
sinal de respeito, ir a pé ao encontro dos 
embaixadores tártaros e oferecer-lhes um copo 
de leite de jumenta (o que muito apreciavam); 
se, em o bebendo, algumas gotas caíssem sobre 
o pêlo de seus cavalos, cabia-lhes lambê-las. O 
exército que Bajazet enviou à Rússia foi assal- 
tado por tamanha tempestade de neve que para 
se abrigar e preservar do frio inventaram al- 
guns soldados destripar seus cavalos e se meter 
dentro deles para aproveitarem o calor vital. 
Bajazet, após essa violenta batalha em que foi 
derrotado por Tamerlão, fugiu a toda veloci- 
dade num jumento árabe; teria escapado ao 
inimigo se ao atravessar um riacho não tivesse 
deixado o animal beber à saciedade, o que, em 
lhe tirando o vigor, o tornou tão lerdo que foi 
facilmente alcançado pelos perseguidores. 
Dizem que os deixar urinar lhes diminui as for- 


448 Tito Lívio. 


144 MONTAIGNE 


ças; mas quanto a beber eu imaginava, ao 
contrário, que os reanimasse. 

Ao atravessar a cidade de Sardes, Creso 
encontrou uma grande pastagem onde havia 
quantidade de serpentes que os cavalos come- 
ram com apetite; o que, diz Heródoto, foi de 
mau augúrio para seus empreendimentos. 

Chamamos cavalosinteiros aos quetêm crina 
e orelhas; os outros não são admitidos nas 
paradas. Os lacedemônios, vencedores dos ate- 
nienses na Sicília, ao entrar em Siracusa fize- 
ram entre outras bravatas tosar os cavalos dos 
vencidos e os agregar a seu desfile triunfal. 
Alexandre teve de lutar contra um povo, os 
daas, que iam à guerra com dois soldados para 
cada cavalo; na refrega um descia e combatia 
a pé, enquanto o outro continuava a lutar a 
cavalo; e nisso se revezavam. 

Não creio que nenhuma nação ganhe da 
nossa em equitação. E em nossa maneira de 
falar, a expressão bom cavaleiro diz antes res- 


peito à coragem do que à destreza. O homem .. 


mais hábil, firme e gracioso a cavalo, que eu 
conheci, foi o Sr. de Carnavalet, que era escu- 
deiro do Rei Henrique IJ. Ocorreu-me ver um 
cavaleiro de pé sobre a sela, afrouxá-la, tirá-la, 


substituí-la e tornar a sentar-se com o cavalo 
sempre a galope; pular por cima de um chapéu 
no chão e crivá-lo de flechas de costas; pegar 
ao solo o que queria, um pé no estribo e o 
outro solto; e realizar outras tantas proezas 
para ganhar a vida. 


Em meu tempo viram-se em Constantinopla 
dois homens montados no mesmo cavalo e que 
no mais forte da galopada se atiravam ao chão 


alternativamente e tornavam a pular em cima 
do animal; outro que com os dentes unica- 
mente arreava o seu. Outro que a todo galope 
cavalgava dois cavalos ao mesmo tempo, um 


pé em cada um e carregava sobre os ombros 
um segundo homem. Este, de cima do primei- 
ro, e sem que se reduzisse a velocidade da 
montaria, atirava flechas certeiras com seu 
arco. Outros corriam de pernas para o ar, a ca- 
beça sobre a sela entre lâminas de alfanges 
amarrados aos arreios. 

Naminha infânciao Principe de Sulmone em 
Nápoles obtinha o que queria de seu rude 
cavalo, sustentando sob os joelhos e os pés 
peças de moeda que não se moviam sequer, a 
fim de mostrar a firmeza com que montava. 


CAPÍTULO XLIX 


Dos costumes antigos 


Desculparia de bom grado em nosso povo a 
tendência para não admitir como modelo e 
regra de perfeição senão os próprios usos e 
costumes, pois é defeito generalizado, não 
somente no homem comum como em quase 
todos os homens, ver e seguir apenas o que se 
praticou desde o berço. Não me aborrece que o 
povo se surpreenda com Lélio ou Fabrício e os 
considere bárbaros porque não se vestem 
como nós e não têm boas maneiras. Mas 
lamento encontrar em meus compatriotas essa 
inconsegiência que faz que se deixem tão 
cegamente influenciar e iludir pela moda do 
momento, que são capazes de mudar de opi- 
nião tantas vezes quantas ela própria muda, 
isto é, de mês em mês, e forjando cada vez 
novas razões para justificar a seus próprios 
olhos seus juízos mais díspares. Quando se 
usavam barbatanas no gibão até o meio do 
peito, à altura dos seios, todos descobriam 
excelentes argumentos para achar que assim 


- 


devia ser. Anos depois, a moda fe-las descerem 
ao nível das ancas e cada qual moteja agora a 
moda anterior e a declara absurda tanto quan- 
to insuportável. A maneira de hoje se vestir 
acarreta crítica imediata à de se vestir ontem, 
crítica que se exerce tão precisamente e de 
comum acordo que se diria estarmos, quanto a 
isso, dominados por uma mania perturbadora 
de nossa inteligência. E sendo essa mudança 
tão repentina e rápida, não pode a imaginação 
de todos os alfaiates do mundo criar novidades 
em número suficiente, ocorrendo então, o que 
se verifica amiúde, reaparecerem ao fim de 
algum tempo as modas abandonadas, ' en- 
quanto outras, ainda recentes, deixam de agra- 
dar. E assim chegamos a emitir sobre uma 
mesma coisa, em espaço de tempo de quinze a 
vinte anos, duas ou três opiniões não apenas 
diferentes mas, por vezes, absolutamente con- 
trárias, revelando uma inconstância e uma 
leviandade incríveis. Os mais espertos dentre 


ENSAIOS —I 


nós não evitam essas contradições e insensivel- 
mente não mais as percebem. 

Proponho-me colecionar aqui certos costu- 
mes antigos que me vêm à memória. Entre 
eles, alguns nós os conservamos; outros diver- 
gem dos nossos. Ante o espetáculo dessas 
mudanças continuas das coisas humanas, 
nossa inteligência talvez se aclare e nosso jul- 
gamento se torne mais estável. 

Dizemos combater com capa e espada. Isso 
Já se praticava no tempo dos romanos, e César 
diz: “envolvem a mão esquerda no saio e 
puxam a espada”. Assinala ele igualmente essa 
feia brincadeira, ainda em voga entre nós, de 
fazer parar os transeuntes, obrigando-os a 
declinar nome e qualidades nara em seguida os 
injuriar e/ou Os provocar, se se recusam a 
responder. a 

Os antigos tomavam banhos cotidianos, 
antes das refeições e os tomavam tão seguida- 
mente quanto nós lavamos as mãos. À princi- 
pio lavavam apenas os braços e as pernas. 
Mais tarde porém (e isso durou Séculos e se 
propagou por toda parte) mergulhavam com- 
pletamente nus em banhos acrescidos de suds- 
tâncias perfumadas. Empregar água natural 
era prova de grande simplicidade. As pessoas 
particularmente delicadas e requintadas perfu- 
mavam o corpo todo ao menos três ou quatro 
vezes por dia. Arrancavam todos os pêlos 
como nossas mulheres se acostumaram a fazer 
com os da fronte, de algum tempo para cá: 
“tens o peito, as pernas e os braços depila- 
dos” *“*º e os arrancavam, embora possuissem 
ungientos para o mesmo fim: “Unta a pele de 
unguento depilatório ou a embebe de giz derre- 
tido no vinagre? 4 5º. Gostavam de deitar-se em 
leitos muito moles e consideravam prova de 
austeridade fazê-lo em colchões. Comiam 
reclinados sobre camas mais ou menos como 
os turcos atualmente: “Então, de cima do leito, 
assim falou Enéias” * 51, Dizem que desde a 
batalha de Farsália, em sinal de luto pelo pés- 
simo estado dos negócios públicos, Catão, o 
Jovem, comeu sempre sentado, adotando uma 
vida austera. 

Beijavam as mãos dos grandes para os 
homeriagear e adular. E beijavam-se entre ami- 
gos, como os venezianos: “e eu te saudarei 
com. palavras e beijos” * 2. E tocavam os joe- 
lhos dos grandes a quem saudavam ou de 
quem solicitavam alguma coisa. Pásicles, filó- 
sofo, irmão de Crates, em vez de levar a mão 
ao joelho de alguém a quem se dirigia, levou-a 
as partes genitais. Repelindo-o brutalmente o 


+28 Marcial. 
250 Td. 

451 Virgílio. 
452 Ovídio. 


145 


outrc, disse-lhe Pásicles: “Pois não achas que 
esta parte do corpo vale tanto quanto qualquer 
outra?” Comiam frutas no fim da refeição 
como o fazemos também. Limpavam o cu 
(deixemos às mulheres a vã superstição das 
palavras) com uma esponja; eis por que o 
vocábulo spongia é obsceno em latim. Essa 
esponja era fixada na extremidade de um bas- 
tão, como o prova a história do indivíduo que 
levado às arenas a fim de ser entregue às feras 
pediu para satisfazer suas necessidades e, não 
tendo outro meio de suicídio, enfiou a esponja 
e o bastão na garganta, asfixiando-se. Enxuga- 
vam o membro * *º com tecido de lã perfumado 
depois de usá-lo: “não te farei nada senão te 
lavar com esta toalha de lã”, diz Marcial. 
Havia nos cruzamentos das ruas em Roma 
recipientes e meias-tinas para que os passantes 
urinassem dentro: “Não raro os meninos em 
sonho pensam erguer suas vestimentas diante 
da tina em que se urina”? * 84, 

Faziam colação entre as refeições. No verão 
vendia-se neve para refrescar o vinho; algumas 
pessoas também a usavam no inverno, não 
achando ainda bastante fresca a bebida. Ti- 
nham os ricos trinchantes e copeiros para os 
servir à mesa, bem como histriões para os 
divertir. No inverno serviam a carne sobre 
pequenos braseiros. Possuíiam cozinhas portá- 
teis, como vi algumas, nas quais quando viaja- 
vam carregavam todo o serviço: “guardai 
esses pratos para vós, riccs voluptuosos, não 
gostamos da cozinha ambulante” * 38, 

No verão, em suas salas baixas, faziam cor- 
rer água fresca e límpida em canaletes junto ao 
chão e nos quais colocavam peixes vivos que o 
conviva podia pegar e mandar preparar a seu 


“gosto. O peixe sempre teve esse privilégio, que 


ainda tem, de pretenderem os ricos saber 
prepará-lo a seu modo; e a meu paladar sabe 
mais deliciosamente do que a carne. 

Em matéria de magnificência, festins, inven- 
ções voluptuosas, lazer e luxo, fazemos o pos- 
sível para ombrear com eles, pois nossas von- 
tades são igualmente pervertidas, mas não 


temos o talento necessário para alcançar o seu 
nível, trate-se de vícios ou virtudes, porque em 


ambos os casos o ponto de partida é um vigor 
de espírito que era sem dúvida muito maior 
neles do que em nós. E, também, porque as 
almas, na medida em que são menos fortes, 
contam com menos meios de realizar o bem 
em grande ou de executar o mal na mesma 
proporção. 


453 Montaigne emprega a palavra “catze” que não 
encontramos em nenhum dicionário. Trata-se sem 
dúvida de reminiscência italiana. (N. do T.) 

2454 [ucrécio. 

455 Marcial. 


146 MONTAIGNE 


O lugar de honra para eles era o do meio. 
Citar alguém antes ou depois, em escrevendo 
ou falando, não significava em absoluto 
preeminência, como se vê de sua literatura. Di- 
ziam Ópio e César, mas também César e Ópio, 
e indiferentemente eu e tu e tu e eu. Observei 
de uma feita, na tradução francesa da vida de 
Flamínio, por Plutarco, um trecho em que, 
falando da rivalidade que se desenvolvera 
entre os italianos e os romanos, acerca do 
direito à maior parte da vitória que juntos ha- 
viam obtido, o tradutor, no intuito de resolver 
a questão, deu importância ao fato de serem 
citados os etolianos antes dos romanos, nos 
cantos gregos em que se alude ao aconteci- 
mento. .Penso que nessa apreciação ele foi 
influenciado pelas regras da língua francesa. 

Mesmo quando estavam nas salas em que 
tomavam seus banhos de vapor, as mulheres 
recebiam as visitas dos homens. E aí se entre- 


gavam aos cuidados de seus criados que lhes | 


faziam massagens e as untavam: “um escravo, 
com um avental de couro preto, aguarda tuas 
ordens, quando, nua, tomas teu banho quen- 
te? 4586. Tinham certos pós para absorver o 
suor. 

Os antigos gauleses, diz Sidônio Apolinário, 
usavam os cabelos compridos na frente e cur- 
tos atrás, moda que vem sendo novamente 
seguida neste século de costumes efeminados e 
relaxados. 


456 Marcial. 


Os romanos pagavam aos barqueiros o 
preço de sua passagem ao embarcar, o que nós 
só fazemos depois da chegada: “hora inteira 
decorre em pagar passagens e em jungir os ani- 
mais de tiro”*87. As mulheres dormiam no 


leito do lado do beco entre a cama e a parede; 
daí o apelido dado a César: “o beco do Rei 
Nicodemo” * 88, 


Tomavam alento ao beber e batizavam o 
vinho: “que escravo irá temperar depressa o 
falerno com a água viva que corre aqui 
perto??*59 


Encontramos igualmente nessa época as ati- 
tudes impudentes dos lacaios de nosso tempo: 
“S Jano, ninguém te põe cornos por trás, nem 
orelhas de asno; nem a língua, como o faria 
um cão sedento das Apúlias”* 89, 


Para as senhoras de Argos e Roma, o bran- 
co era a cor do luto, como entre nós até há 
bem pouco tempo, costume que não se devia 
ter abandonado, a meu ver. 

Mas há livros inteiros sobre estes assuntos. 


*57 Horácio. 

+58 Suetônio. Em francês esse lado do leito cha- 
ma-se “rnelle?. O que dá para a “ruelle”, o espaço 
entre a cama e a parede. O trocadilho não é traduzi- 
vel, porque “ruelle” é também ruela, ou viela, ou 
beco. “O beco do Rei Nicodemo” pareceu-nos mais 
no espírito da piada sarcástica. (N. do T.) 

*5s Horácio. Falerno — vinho dos arredores de 
Falerno. 

260 Pérsio. 


CapítTULO L 


Sobre Demócrito e Heráclito 


É o juízo * º' um instrumento útil em tudo. 
Estes ensaios me fornecem amiúde a oportuni- 
dade de empregá-lo. Se não entendo de algum 
tema, recorro a ele e o ponho à prova, com ele 
sondando o vau. E se verifico ser este dema- 
siado profundo, fico na margem. E o reconhe- 
cimento de que não posso ir além é a um dos 
serviços que me presta e de que mais se orgu- 
lha. Por vezes, quando o assunto é fútil procu- 
ro ver a que ponto lhe dará consistencia, 
apoio e alicerce. E se ventilo coisa importante 
e já batida, ele me ajuda a descobrir o melhor 


461 Aquino sentido de bom-senso. (N. do T.) 


desses caminhos, tão frequentados que não há 
como o evitar. E entre mil veredas diferentes 
indica a que devo seguir. Ao acaso escolho vm 
assunto, pois todos me são igualmente bons e 
não pretendo esgotar nenhum, porquanto; de 
nenhum chego a ver o fundo. E Os que nos pro- 
metem mostrá-lo não cumprem suas promes- 
sas. 

Entre cem aspectos da mesma coisa, tomo 
um. E ora o debico apenas, ora o mordisco, 
ora vou até O Osso. Escruto-o, não em larga 
superfície, mas tão profundamente quanto mo 
permite o meu saber, e as-mais das vezes me 
comprazo em o encarar por um ângulo dife- 


ENSAIOS —I 147 


rente do habitual. Gostaria de tratar a fundo 
um tema qualquer, mas me conheço demais 
para me iludir acerca de minha incapacidade. 
Agindo como ajo, arriscando uma palavra 
aqui, outra acolã, amostras tiradas do todo, 
isoladas, sem intenção preestabelecida, e nada 
prometendo, não tenho por obrigação realizar 
uma obra de real valor, nem sequer me acho 
comprometido em relação a mim mesmo e 
conservo a liberdade de variar, quanto me ape- 
teça, os assuntos de que trato e a maneira de 
fazê-lo, sem que me retenham dúvidas ou 
incertezas ou (o que acima de tudo me domina) 
a ignorância. 

Qualquer ato nosso revela o que somos. A 
personalidade de César tanto se manifesta na 
preparação da batalha de Farsália, e na manei- 
ra por que a conduziu, quanto nas reuniões de 
prazeres e galanteios que organizava. Julga-se 
um cavalo não apenas pelo galope, mas ainda 
pelo passo natural e até em seu descanso na 
estrebaria. 


Entre as funções da alma algumas há que 
são mesquinhas; quem não a julga também por 
esse prisma não a conhece senão imperfeita- 
mente. É em geral quando está calma que me- 
lhor se observa. O vento das paixões não a 
atinge na serenidade, tanto mais quanto ela se 
dá por inteiro em cada caso, nunca se preocu- 
pando com duas coisas ao mesmo tempo, e 
tratando do que a ocupa, não segundo o seu 


temperamento e sim segundo o nosso. As coi- 
sas em si mesmas podem ter peso, medida, 
condições intrínsecas; dentro de nós, a alma as 
trahsforma como entende. A morte é coisa ter- 
rível para Cícero, desejável para Catão, indife- 
rente para Sócrates. A saúde, a consciência, a 
autoridade, a ciência, a riqueza, a beleza e seus 
contrários, em se incorporando a nós, despo- 
jam-se do que lhes é peculiar e, graças à nossa 
alma, recebem nova vestimenta, da aparência 
que ela lhes empresta: marrom, clara, verde, 
preta, ácida, doce, profunda, superficial, a que 
- mais em harmonia esteja com cada uma, pois 
as almas não se puseram de acordo acerca de 
seus estilos, regras e formas. Cada uma delas é 
soberana em seu domínio. Portanto não nos. 


desculpemos com as qualidades externas das: 


coisas; cabe-nos, a nós, determiná-las. Nosso 
bem como nosso mal só dependem de nós. A 
nós mesmos e não à fortuna devemos endere- 
çar as nossas preces e a expressão de nossos 
desejos; ela nada pode sobre nossos costumes 
de- que é, ao contrário, a consequência. São 
eles que a arrastam e a fazem tal qual é. 

Por que não julgar Alexandre à mesa, 
conversando, bebendo, ou jogando xadrez? 
Qual a fibra de seu espírito que não vibre e não 


se movimente nesse jogo tolo e pueril que 
detesto e evito porque é um jogo que não é 
jogo, um passatempo demasiado sério e exi- 
gente de uma atenção que lamentaria dar-lhe, 
porquanto tenho para ela melhor aplicação. A 
preparação e a conquista das Índias não solici- 
taram maior trabalho desse herói macedônio, 
como de tal outro não o exigiu a interpretação 
de um texto essencial à salvação do 
homem * $2. Vede como nossa alma amplia e 
engrandece esse jogo ridículo: vede como ele 
absorve todas as suas faculdades, a ponto de 
dar a cada um a possibilidade de se conhecer 
tal qual é. Nunca me vejo e me'sinto melhordo que 
quando jogo xadrez. Todas as minhas paixões 
se expandem: a cólera, o despeito, o Ódio, a 
impaciência e também a ambição de vencer em 
uma coisa em que fora preferível ser vencido, 
pois não é de um homem de honra buscar em 
coisas fúteis, como em partidas de xadrez, uma 
superioridade excepcional. E o exemplo apli- 
ca-se às demais circunstâncias da vida. Todo. 


“pormenor da existência do homem, toda ocu- 
. pação a que se entregue, o revelam e o mos- 


tram com suas qualidades e defeitos. 

Demócrito e Heráclito eram dois filósofos. 
O primeiro, achando que a condição humana é 
vã e ridícula, apresentava-se sempre em pú- 
blico a rir e motejar. Heráclito, tomado de pie- 
dade por essa mesma humanidade, andava 
permanentemente triste e de lágrimas nos 
olhos: “Logo que punham o pé fora de casa, 
um ria e 'o outro chorava ”* 83. Prefiro o pri- 
meiro, não porque seja mais agradável rir do 
que chorar, mas porque sua atitude é testemu- 
nha de seu desdém, porque ela nos condena 
mais do que a outra e acho que nunca pode- 
mos ser desprezados quanto o merecemos. Pie- 
dade e comiseração misturam-se a alguma esti- 
ma por aquilo de que temos dó; o de que se 
caçoa, consideramo-lo sem valor. Penso que 
há em nós mais vaidade do que infelicidade, 
mais tolice do que malícia, mais vazio do que 
maldade, mais vileza do que miséria. 

Diógenes, em seu tonel, divertindo-se com 
seus botões em zombar das vaidades humanas, 
escarnecendo de Aiexandre, encarando os ho- 
mens como moscas ou bexigas cheias de vento, 
foi um crítico mais acerbo e agudo, e por 
conseguinte mais de meu agrado, do que 
Timão, a quem chamavam o Misantropo por- 
que odiava os homens. O que odiamos, por 
algum aspecto nos interessa e preocupa. 
Timão desejava o nosso mal, aspirava à nossa 
ruína, fugia da nossa conversação que achava 


462 Um texto da Bíblia. 
483 Juvenal. 


148 MONTAIGNE 


perigosa porque de gente ruim e depravada. 
Diógenes estimava-nos tão pouco que não 
supunha sequer que nossa fregientação o 
pudesse perturbar ou lhe alterar o humor. Se 
não desejava nossa companhia, não era por 
temor de contágio, mas por desprezo. Não nos 
acreditava capazes nem de fazer o bem nem de 
fazer o mal. 

A resposta de Estatílio a Bruto, que procu- 
rava filiá-lo à conspiração contra César, está 
impregnada da mesma idéia: “Era justo em- 


preendimento, a seu ver, mas os homens para 
os quais o tentavam não eram dignos de qual- 
quer esforço em seu favor.” Dentro do mesmo 
espirito Hegésias afirmava como regra que “o 
sábio nada deve fazer senão para si próprio, 
porque só ele merece o que por ele fazem”. E 
Teodoro estabeleceu que “não é justo que o 
sábio se arrisque pelo bem de seu país e corm- 
prometa a sua sabedoria em favor da loucura”. 
Nossa condição própria é tão ridícula quão 
risível. 


CarítTuLO LI 


Vas são as palavras 


Dizia um retórico do passado que sua pro- 
fissão consistia em “fazer com que as coisas 
pequenas parecessem grandes e como tal se 
aceitassem”. O que equivale a dizer um sapa- 
teiro fazendo sapatos grandes para pés peque- 
nos. Em Esparta tê-lo-iam fustigado por exer- 
cer ofício tão mentiroso e enganador. E penso 
que foi sem espanto que Arquimedes, um de 
seus reis, ouviu esta resposta de Tucídides, a 
quem indagava qual o mais forte na luta: Péri- 
cles ou ele. “E difícil verificá-lo, porque quan- 
do o derrubo ele persuade os espectadores de 
que não caiu, e ganha.” Os que maquilam as 
mulheres causam menor mal (porquanto 
pouco se perde com não as ver ac natural) do 
que os que têm por profissão abusar, não de 
nossos olhos, mas da nossa inteligência, abas- 
tardando e corrompendo a própria essência 
das coisas. 

As repúblicas bem organizadas e adminis- 
tradas não deram muita importância aos ora- 
dores. Assim foi em Creta e na Lacedemônia. 
Ariston diz com sabedoria que a oratória é a 
ciência de persuadir o povo. Sócrates e Platão 
a definem como a arte de enganar e adular. E 
os que se erguem contra esta definição geral, 
comprovam-na em seus preceitos. Os maome- 
tanos proibem-lhe o ensino às crianças, por 
inútil. E os atenienses, entre'os quais ela fora 
tão apreciada, ordenaram a-supressão de suas 
partes mais importantes e que mais atuam 
sobre os sentimentos: o exórdio e a conclusão, 
ao verificarem quanto lhes era prejudicial. 

Trata-se de um instrumento muito adequado 
a excitar ou acalmar o populacho alvoroçado e 
que, como a medicina, só se aplica aos Estados 


enfermos. Naqueles em que o vulgo ou os igno- 
rantes tiveram todo o poder, como em Atenas, 
Rodes e Roma, e onde a coisa pública sofreu 
continua agitação, proliferaram os oradores. 
Em verdade não se vêem muitos personagens 
adquirir grande influência nessas repúblicas, 
sem ajuda da eloquência. Para Pompeu, César, 
Crasso, Lúculo, Lêntulo, Metelo, foi ela o 
principal fator de sua grandeza e de seu poder. 
Auxiliou-os mais do que a sorte das armas, o 
que não aconteceria em tempos melhores. L. 
Volúmnio, falando em público a favor da elei- 
ção de A. Fábio e P. Décio, ao consulado, 
dizia: “São: homens que se fizeram na guerra, 
homens de ação pouco afeitos às justas orató- 
rias, caracteres como devemos exigir dos que 
elevamos ao Consulado; os de espírito manho- 
so, eloquentes e eruditos, são bons para os car- 
gos que se exercem sem sair de Roma, cargos 
de pretores, por exemplo, encarregados de apli- 
car as leis.” Foi quando os negócios andavam 
pior, quando a tempestade das guerras civis 
abalava a cidade, que a eloquência floresceu 
em Roma; assim as ervas daninhas em um 
campo abandonado ou não roteado ainda cres- 
cem com mais vigor. Pode-se concluir daí que 
os governos dependentes de um monarca têm 
menos do que os outros necessidade de 
eloquência, pois a tolice e a credulidade da 
maioria, impelindo-a a ser manejada e orien- 
tada pelo ouvido ao doce som daquela música, 
sem que possa pesar nem conhecer a verdade 
das coisas pela força da razão, não se encon- 
tram tão facilmente em um só homem, o qual é 
possível assegurar contra os efeitos de tal vene- 
no, mediante uma boa educação e bons conse- 


ENSAIOS— I 149 


lhos. Nem a Macedônia nem a Pérsia tiveram 
oradores famosos. 

Uma palavra acerca de um italiano com o 
qual acabo de me entreter e que serviu junto ao 
falecido Cardeal Caraffa na qualidade de mes- 
tre de hotel, cargo que exerceu até a morte do 
prelado. Falamos de seu cargo e, a respeito da 
ciência gastronômica, deu-me eie verdadeir 
preleção com gravidade e atitude de professor 
como se desenvolvesse um ponto da teologia. 
Enumerou-me as diversas espécies de apetites: 
o que se tem em jejum; os que se experi- 
mentam depois do segundo e terceiro pratos; 
os meios de os satisfazer simplesmente ou de 
os excitar; a técnica dos molhos, a princípio de 
um modo geral e em seguida pormenorizada- 
mente, entrando na minúcia dos ingredientes e 
de seus efeitos; a variedade de saladas segundo 
a estação, as que devem ser servidas cozidas e 
as que devem ser servidas frias, a maneira de 
as apresentar agradavelmente. Entrou depois 
em considerações acerca da ordem com que 
convém servir os pratos: “pois não é coisa de 
pouco saber como cortar uma lebre ou trin- 
char um frango” * 84. E tudo isso ornamentado 
de belas palavras como as que se usam para 
falar de um governo, de um império, o que me 
lembrou este trecho de Terêncio: “Salgado 
" demais! queimado demais! insosso! estã 
bom! repita isso outra vez! Dou-lhes meus 
melhores conselhos, de acordo com o pouco 
que sei. Finalmente insisto. Demea, para que 
tenham por espelho sua baixela. E ensino-lhes 
tudo.” Observe-se que os próprios gregos elo- 
giaram, e muito, o banquete que lhes ofereceu 
Paulo Emílio de volta da Macedônia. Mas não 
me ocupo aqui de fatos e sim das palavras que 
se usam para os relatar. 

Não sei se outros sentem o que sinto, mas 


364 Tuvenal. 


quando ouço nossos arquitetos lançar estas 
palavras pretensiosas: pilares, arquitraves, cor- 
nijas, ordem coríntia ou ordem dórica, e outras 
de seu jargão, não posso impedir-me de pensar 
imediatamente no palácio de Apolidon e, por 
comparação, o que citam com tanta ênfase não 
me parece muito superior às mesquinhas peças 
da porta de minha cezinha. Quando ouvis 
falar de metonímia, metáfora, alegoria e outras 
expressões da gramática não vos parece que 
sejam locuções de uma língua rara e peregri- 
na? Pois se aplicam muito simplesmente às 
formas de linguagem que vossa criada de quar- 
to emprega na sua tagarelice. É erro seme- 
lhante aplicar aos cargos de nosso Estado poli- 
tico os pomposos títulos que usavam os 
rcmanos, pois não há nenhuma relação nem 
quanto às funções, nem no que concerne à 
autoridade e ao poder. E é erro igualmente, 
que nos censurará a posteridade, atribuir a 
quem bem entendemos — e não são dignos 
deles — esses gloriosos cognomes com que a 
antiguidade honrou um cu dois personagens 
apenas em sua longa sequência de séculos. Pla- 
tao foi chamado “divino” por universal con- 
senso e sem que ninguém pensasse em contes- 


tar-lhe o título, e eis que os italianos, que no 
entanto se vangloriam, com alguma razão, de 
ter o espírito mais vivo e o juízo mais equili- 
brado do que os demais povos, acabam de gra- 
tificar o Aretino com igual apelido, esse Areti- 
no que, salvo pelo falar empolado, marchetado 
de saídas em verdade espirituosas, porém 
demasiado requintadas e rebuscadas, nada tem 
a meu ver, afora a eloquência, que o coloque 
acima dos autores comuns deste século e que o 
aproxime, ainda que de longe, daquele que os 
antigos divinizaram. Quanto ao epíteto 
“grande? a quantos príncipes não o concede- 
ram, que em nada ultrapassam os outros? 


CAPÍTULO LII 


Parcimônia dos antigos 


Atílio Régulo, que comandava o exército ro- 
mano na África, no auge de sua glória pelas 
vitórias contra Os cartagineses, comunicou ao 
soverno de Roma que um agricultor que deixa- 
ra em sua fazenda, a qual tinha apenas três 


hectares * 8º, fugira com seus instrumentos de 


465 No texto “sept arpents”; valendo cada 
“arpent” quarenta e dois ares e pouco, têm-se mais 
ou menos três hectares. (N. do T.) 


150 MONTAIGNE 


trabalho. Em consequência do que pedia licen- 
ça para voltar a seu lar a fim de resolver o 
assunto, pois temia que sua mulher e seus fi- 
lhos viessem a sofrer. O Senado encarregou-se 
de colocar outro agricultor no lugar do desa- 
parecido, entregou-lhe outros instrumentos de 
trabalho e ordenou que a mulher e os filhos 
fossem sustentados pelo Estado. 

Catão, o Velho, ao voltar da Espanha onde 
exercera o cargo de cônsul, vendeu seu cavalo 
a fim de economizar o dinheiro que lhe teria 
custado o transporte por mar, para a Itália. O 
governador da Sardenha fazia suas inspeções a 
pé, levando em sua companhia unicamente um 
oficial que lhe carregava a toga e um vaso des- 
tinado à cerimônia dos sacrifícios. As mais das 


vezes carregava ele próprio a sua maleta. 
Vangloriava-se de nunca haver possuído toga 
de mais de dez escudos, de não gastar mais do 
que dez soldos por dia na feira e de não ser 
nenhuma de suas casas de campo rebocada e 
caiada. 

Cipião Emiliano depois de duas vitórias e 
dois consulados foi como legado para uma 
província somente com sete servidores. Dizem, 
que Homero nunca teve mais de um, Platão 
três e que Zenão, o chefe dos estóicos, não 
tinha nenhum. A Tibério Graco não se conce- 
deram senão cinco soldos e meio por dia quan- 
do desempenhou missão especial da Repú- 
blica, e era o personagem mais importante de 
Roma. j 


CapíruLo LIII 


De uma sentença de César 


Se nos divertissemos com nos examinar e 
se o tempo que empregamos em observar os 
outros e em nos informar acerca do que não é 
de nossa conta nós o consagrássemos a ver 
dentro de nós mesmos, compreenderíamos 
logo quão frágeis e insignificantes são as peças 
de que somos feitos. Não constitui, com efeito, 
prova de imperfeição o fato de que nada nos dê 
inteira satisfação? E que nossa própria imagi- 
nação e nossos próprios desejos nos impeçam 
de escolher o que nos convém? E a evidência 
dessa impossibilidade está na grave questão 
pendente entre os filósofos de saber em que 
consiste o soberano bem dos homens, questão 
que continua sem resposta e assim continuará 
eternamente, sem que jamais se chegue a um 
acordo: “O bem que não temos parece prefe- 
rível ao resto; quando obtemos a coisa dese- 
jada logo queremos outra, e nossa sede é 
inestancável” * 88, 

Por grandes que sejam os conhecimentos 
que adquirimos e os bens de que podemos usu- 
fruir, sentimos que-algo nos falta e suspiramos 
pelo futurô desconhecido, tanto mais quanto 
não nos sacia o presente. E isso, a meu ver, 


466 Tucano. 


não porque nos ofereça com que nos embria- 
garmos, mas porque só RE o que nos 
apresenta com  reticência | prevenção: 
“quando viu que os mortais já is pGemi de 
quase tudo o que lhes é necessário; que apesar 


das riquezas, das honrarias, da glória, dos fi- 
lhos bem formados, não escapam à angústia 
nem aos dolorosos conflitos interiores, Epicu- 
ro compreendeu que o mal vem do próprio 
continente, o qual, por se haver corrompido, 
estraga o bem que se derrame dentro dleje nEscr 


Nossos desejos carecem de resolução e 
convicção. Não sabemos conservar nem des- 
frutar convenientemente. Obcecado pela idéia 
de que o que possui é imperfeito, o homem 
entrega-se por inteiro e pela imaginação às coi- 
sas que não tem e'não conhece, nelas concen- 
tra seu desejo e sua esperança e as encara com 
respeito e amor; o que César assim exprime: 


“Em consequência de um vício de nossa natu- 
reza, e comum a todos os seres, tememos 
sobretudo as coisas que não conhecemos 6 se 
nos ocultam, ao mesmo tempo que nelas con- 
fiamos de preferência.” 


467 Lucrécio. 


CapítruLO LIV 


Das vas sutilezas 


Os homens recorrem por vezes a sutilezas 
fúteis e vãs para atrair nossa atenção. Assim, 
Os que escrevem poemas inteiros em que todos 
os versos começam pela mesma letra. Na anti- 
ga literatura grega deparamos com poemas em 
forma de ovo, de bola, de asa, de machadinha, 
obtidos mediante a variação das medidas dos 
versos que se encurtam ou alongam para, em 
conjunto, representar tal ou qual imagem. A 
ciência de Fulano que se divertiu com calcular 
de quantas maneiras se combinavam as letras 
do alfabeto, e achou esse número incrível que 
Plutarco menciona, também participa desse 
gênero de singularidades. Aprovo a atitude 
daquele personagem a quem apresentaram um 
homem que com tamanha habilidade atirava 
um grão de alpiste que o fazia passar pelo bu- 
raco de uma agulha sem jamais errar o golpe. 
Tendo pedido ao outro que lhe desse uma 
recompensa por essa habilidade excepcional, 
atendeu o solicitado, de maneira prazenteira e 
justa a meu ver, mandando entregar-lhe três 
medidas de alpiste a fim de que pudesse conti- 
nuar a exercer tão nobre arte. E prova irrefu- 
tável da fraqueza de nosso julgamento apaixo- 
narmo-nos pelas coisas só porque são raras e 
inéditas, ou ainda porque apresentam alguma 
dificuldade, muito embora não sejam nem 
boas nem úteis em si. 

Ultimamente jogamos em minha casa um 
jogo que consiste em achar o maior número de 
palavras que se liguem pelos extremos em suas 
aplicações. Por exemplo: “Sire? é um título 
que se dã ao mais alto personagem do Estado, 
o rei; mas se aplica igualmente ao vulgo, aos 
comerciantes, sem jamais se empregar entre- 
tanto em relação às pessoas de classe média. 
Às senhoras da classe alta chamam “dames” ; 


às da classe média “demoiselles”; e às da clas- 


se mais baixa “dames” também. Os dados só 
se jogam nos palácios dos principes e nas 
tavernas. Demócrito dizia que os deuses e os 
bichos tinham sentimentos mais delicados do 
que os homens, os quais estão no meio da 
escala. Os romanos usavam vestimentas idên- 
ticas nos dias de luto e de festa. 

É sabido que o medo desesperado e a extre- 
ma coragem atuam sobre o organismo, pertur- 


bam os intestinos e os relaxam. O apelido de 
“trêmulo” dado a D. Sancho, décimo segundo 
rei de Navarra, mostra que a valentia, tal qual 
o medo, provoca tremores no corpo. Os que 
lhe vestiam a armadura procuravam tranquúili- 
zá-lo, atenuando o perigo a que se ia expor: 
“Conheceis-me bem mal”, respondeu ele, “se 
minha carne soubesse onde meu arrojo vai 
conduzi-la ficaria absolutamente transida.” Se 
a repugnância e a indiferença ocasionam a 
impotência nos jogos de Vênus, à mesma fra- 
queza levam o desejo violento e o imoderado 
ardor. O frio intenso e o exagerado calor quei- 
mam e assam igualmente. Diz Aristóteles que 
as barras de chumbo, que fundem à tempera- 
tura elevada, fundem também e escorrem 
quando o frio é excessivo. O desejo e a sacie- 


dade machucam igualmente os nossos órgãos 


antes e depois de nos satisfazermos. A estupi- 
dez e a sabedoria comportam-se de maneira 
análoga na dor; os sábios a dominam e os ou- 
tros ignoram. Estes ficam, por assim dizer, 
aquém do sofrimento; os outros vão além. O 
filósofo, depois de ter pesado e considerado as 
coisas, depois de as ter medido e analisado, 
coloca-se acima delas mercê de um corajoso 
esforço, despreza-as e as rechaça, porque pos- 
sui uma alma forte e sólida, contra a qual se 
partem, sem a penetrar, as flechas da fortuna. 
Os homens em sua maioria situam-se entre 
estes extremos: percebem o mal, sentem-no e 
não o podem suportar. À infância e a decrepi- 
tude têm em comum a simplicidade de espírito. 
A avareza e a prodigalidade mostram idêntico 
desejo de adquirir e acaparar. Parece haver 
motivos para afirmar que existe uma igno- 
rância inicial que precede a ciência e uma 
ignorância doutoral que a segue. A ciência faz 
e engendra esta última, assim como desfaz e 
destrói a primeira. Fazem-se bons cristãos 
com espíritos simples, pouco curiosos e pouco 
instruídos e que tanto por respeito como por 
obediência acreditam singelamente e observam 
os mandamentos. É entre as pessoas de espi- 
rito e capacidade médios que nascem as opi- 
niões errôneas; adotam pela simples aparência 
uma qualquer interpretação primária das Escri- 
turas e se imaginam autorizadas a considerar 


152 MONTAIGNE 


tolice e estupidez continuarmos fiéis à antiga 
crença, alegando não assentar a nossa opinião 
em nenhum estudo prévio. Os grandes espiri- 
tos, mais sérios e clarividentes, fornecem outra 
espécie de bons crentes. Mediante longas e 
minuciosas investigações alcançaram um co- 
nhecimento aprofundado dos textos sagrados, 
penetraram-lhes e sentiram-lhes o segredo mis- 
terioso e divino que regula o governo dos negó- 
cios eclesiásticos. Vemos entretanto alguns, da 
categoria intermediária, que chegaram com 
maravilhoso resultado e fé ao extremo limite 
da inteligência cristã e gozam sua vitória sobre 
a ignorância entre ações de graças. Reformam 
seus costumes e demonstram resignada modês- 
tia. Não incluo porém entre estes os que, a fim 
de afastar de st a suspeita de terem abraçado o 
erro que hoje renegam e na esperança de dar 
provas de sua convicção, se revelam extrema- 
dos e indiscretos na defesa de nossa causa, 
manchando-a com inúmeras violências. Os 
camponeses simples são gente honrada; e o 
são também os filósofos ou, como se diz hoje, 
os espíritos fortes e esclarecidos que possuem, 
sobre as ciências úteis, conhecimentos exten- 
sos. Os* 8º que não são sábios nem tampouco 
ignorantes, venceram a primeira etapa no estu- 
do das letras mas não puderam alcançar o 
grau superior que completa a nossa instrução. 
Ássim, com o traseiro entre duas selas, são 
perigosos, absurdos e incômodos. São pessoas, 


+88 No texto “métis” = mestiço. (N. do T.) 


como eu e tantas outras, que perturbam o 
mundo. No entanto, no que me diz respeito, 
procuro agarrar-me como posso áquilo que 
constitui naturalmente minha primeira crença 
e da qual, de uma feita, tentei em vão 
desprender-me. 

Da mesma forma, a poesia, quando eclode 
no seio do povo, revela uma pureza e uma 
graça que rivalizam com o que de mais belo 
oferece quando, por cfeito da arte, atinge a 
perfeição. É o que podemos observar em nos 
reportando aos vilancetes de Gasconha e às 
canções que se conservaram de nações a que 
era estranha a ciência e não conheciam sequer 
a escrita. Entre esses dois gêneros temos a poe- 
sia medíocre, pouco apreciada e de nenhum 
valor. 

Observei que quando o espírito dá seus pri- 
meiros passos, consideramos — como ocorre 
comumente — dificil e raro o que muitas vezes 
não possui absolutamente esse caráter; e logo 
que nossa fantasia descobre o caminho da 
inspiração, enconira um número infinito de 
exemplos como aqueles a que aludo neste capi- 
tulo. Aos quais acrescentarei apenas o seguin- 
te: se estes Ensaios fossem dignos de ser julga- 
dos, não agradariam muito aos espíritos 
comuns €e vulgares, nem às inteligências supe- 
riores que constituem a exceção. Os primeiros 
não os achariam assaz compreensíveis, e Os 
segundos os compreenderiam de sobra. Talvez 
os aceitassem as pessoas de mediana enverga- 
dura. 


CapíruLo LV 


Dos odores 


Conta-se de alguns homens, como de Ale- 
xandre, o Grande, que seu suor, em virtude de 
uma compleição especial, tinha um cheiro 
bom. Plutarco e outros autores procuram 
explicar o fenômeno. Mas em geral ocorre o 
contrário, e a melhor qualidade que podem ter 
é não cheirar. O hálito mais puro é tanto mais 
doce quanto sem cheiro nenhum, como no 
caso das crianças saudáveis. Eis por que Plau- 
to diz: “o mais delicioso perfume de uma mu- 
lher está na ausência de qualquer odor”. Quan- 
to aos bons odores provenientes dos perfumes 
agregados ao corpo há que desconfiar de quem 
os usa, pois é de se temer que sirvam a disfar- 
çar algum defeito natural dessa espécie, o que 


deu aliás origem a estes aforismos de poetas 
antigos: “é sinal de fedor o bom odor”. 
“Caçoas de nós, Coracino, porque não nos 
perfumamos, mas prefiro não ter cheiro ne- 
nhum a cheirar bem”*8º. Ou ainda: “Quem 
sempre cheira bem, póstumo, cheira imal.” 
Entretanto gosto muito de um ambiente que 
exale bons odores e tenho horror aos maus que 
sinto de mais longe que qualquer outro: “Meu 
olfato distingue os miaus cheiros mais sutil- 
mente do que um excelente cão sente o lameiro 
do javali” * 7º. E os perfumes mais simples e 


+69 Marcial. 
“27º Horácio. 


ENSAIOS —I 153 


naturais são para mim os mais agradáveis. 

O uso de perfumes é principalmente reser- 
vado às mulheres. As mulheres da Cítia, região 
em que a barbárie imperava de maneira abso- 
iuta, cobriam o rosto e o corpo depois do 
banho com uma certa droga odorifera de sua 
terra. E quando se aproximavam dos homens, 
tiravam a crosta ficando com a pele mais lisa e 
cheirosa. 

É espantoso a que ponto um cheiro qualquer 
se impregna em mim facilmente. Quem se 
queixava de que a natureza não dotara o 
homem de instrumento capaz de levar os odo- 
res ao nariz, laborava um erro, porquanto os 
próprios odores sabem encontrar seu caminho. 
A mim, em particular, serve-me de veículo o 
espesso bigode. Se aproximo as luvas ou o 
lenço, o cheiro nele permanece o dia todo; daí 
estar ele sempre a denunciar por onde andei. 
Os beijos apaixonados da juventude, saboro- 
sos, gulosos e úmidos, nele deixavam outrora 
vestígios que se percebiam muitas horas mais 
tarde. Sou no entanto pouco propenso às epi- 
demias provenientes de um ar contaminado e 
que se transmitem até pela simples conversa- 
ção. Permaneci imune a todas as que em nos- 
sas cidades como em nossos exércitos se verifi- 
caram em meu tempo; e que foram de toda 
espécie. Lê-se, a propósito de Sócrates, que 
nunca deixou Atenas durante a peste que a 
dizimou mais de uma vez, e jamais se 
contagiou. 

Os médicos, creio, poderiam tirar melhor 
partido de que tiram dos odores, pois verifiquei 


amiúde que atuam sobre mim, segundo sua 
natureza, e impressionam meu espírito de 
diversas maneiras; O que me induz a conside- 
rar exato o que dizem a respeito do incenso e 
dos perfumes usados nas igrejas, a saber, que 
esse costume tão antigo, e tão encontradiço 
nas diferentes nações e religiões, tem por obje- 
tivo acordar, purificar e tornar eufóricos os 
nossos sentidos, a fim de melhor nos predispor 
à contemplação. 

Gostaria de ter tido a oportunidade de sabo- 
rear a obra desses cozinheiros que sabem tem- 
perar o sabor das viandas mediante perfumes 
escolhidos, o que se pôde ver e foi muito nota- 
do quando dos jantares oferecidos pelo rei de 
Túnis em Nápoles, onde desembarcou para se 
entender com o Imperador Carlos Quinto. 
Recheavam-se essas viandas com plantas 
odoríferas e com tamanha abundância que um 
pavão e dois faisões assim guarnecidos vinham 
a custar cem ducados. Ao se trincharem, exa- 
lavam um aroma dos mais deliciosos, que se 
espalhava não somente pela sala mas ainda 
por todos os aposentos do palácio e até nas 
ruas da vizinhança, persistindo durante algum 
tempo. 

Meu principal cuidado, quando tenho de me 
hospedar, é evitar os bairros onde o ar é pesa- 
do e empestado. Apesar de sua beleza, Veneza 
e Paris perdem muito de seu encanto a meus 
olhos, por causa do mau cheiro. Na primeira 
dessas cidades são causa disso os canais e as 
lagunas que a cercam; na outra a lama das 
ruas. 


CapítuLo LVI 


Das orações 


À semelhança do que fazem nas escolas os 
que poem em discussão questões controver- 
tidas, enuncio idéias fantasistas e mal defini- 
das: não a fim de provar a verdade pois não 
tenho tal pretensão mas para a procurar. É 
essas idéias, eu as submeto ao juízo daqueles a 
quem cabe não somente orientar meus atos e 
meus escritos mas ainda meus próprios pensa- 
mentos. Que me aprovem ou me condenem, 
igualmente útil me será a sentença, e a aceito 
de antemão, reconhecendo desde já como 
absurdo e ímpio tudo o que, por ignorância ou 
inadvertência de minha parte, possa, nesta 


compilação, imiscuir-se de contrário às deci- 
sões e prescrições da Santa Jgreja Católica, 
Apostólica e Romana, na qual nasci e na qual 
morrerei. Embora muito temerariamente me 
meta, como faço aqui, a tudo discutir, confor- 
mo-me inteiramente com sua censura, diante 
da qual me inclino de maneira integral. 

Não sei se me engano, mas posto que por 
favor especial da bondade divina uma oração 
nos foi prescrita e ditada palavra por palavra 
pela boca de Deus, sempre me pareceu que a 
ela deviamos recorrer mais do que o fazemos. 
Se minha opinião pesasse no assunto, nós a 


154 MONTAIGNE : 


diríamos no início e no fim das refeições, ao 
“deitar e ao levantar. Em todos os momentos 
em que é costume rezar, gostariamos que fosse 
o padre-nosso a oração de todos os cristãos. 
Pode a Igreja aumentar o número de orações e 
modificá-las segundo nossas necessidades e os 
fins a que ela visa, e bem sei que o espírito e o 
fundo são sempre os mesmos, essa é a oração 
por excelência e ela diz incontestavelmente 
tudo o que há para se dizer, convém a todas as 
circunstâncias em que nos podemos encontrar 
e portanto justificaria o privilégio de a ter sem- 
pre nos lábios o povo. É a única oração de que 
me valho sempre e sempre a repito em vez de 
variar, porquanto nenhuma tanto se gravou em 
minha memória. 


Estava a pensar de onde nos vem o erro de 
recorrer a Deus a propósito de todos os nossos 
projetos, de todos os nossos empreendimentos; 
de para ele apeiar em todas as ocasiões, qual- 
quer que seja a nossa preocupação, cada vez 
que nossa fraqueza precisa de auxílio, sem 
mesmo ponderarmos se temos ou não razão, 
invocando assim o seu nome e o seu poder em 
qualquer situação, sejam ou não repreensíveis 
os nossos atos. Ele é por certo o nosso único 
protetor e tudo pode quando nos ajuda. Mas, 
ainda que nos honrando com seu apoio pater- 
nal e benevolente, não deixa de ser justo na 
medida em que é bom e poderoso. E como cos- 
tuma empregar mais comumente a justiça do 
que o poder, é-nos favorável enquanto ela o 
permite e não segundo o que pedimos. 


Em suas “Leis”, Platão admite três casos 
em que nossas crenças se revelam injuriosas 
aos deuses: quando lhes negamos a existência; 
quando negamos sua intervenção em nossas 
vidas; e quando afirmamos que não rechaçam 
jamais nossas súplicas, nossas oferendas e nos- 
sos sacrifícios. A primeira dessas crenças, a 
seu ver, não é imutável no homem, o qual pode 


mudar de idéia no decurso de sua. existência; . 


as outras duas podem ser mantidas indefinida- 
mente. 


A justiça e o poder de Deus estão insepara- 
velmente ligados; em vão apelaremos para Ele 
se nossa causa é mà. É preciso, quando lhe 
suplicamos, que esteja nossa alma em estado 
de pureza e que pelo menos nesse momento 
não estejamos animados de maus sentimentos, 
sem o que Lhe damos nós mesmos o látego 
para que nos castigue. Em vez de nos redimir- 
mos, agravamos os nossos pecados em nos 
apresentando, a quem deveríamos pedir per- 
dão, com o coração cheio de Ódio e irreve- 
rência. Eis por que não admiro em absoluto 
aqueles que vejo orar a Deus amiudada e regu- 
larmente, sem que os atos que acompanham 


suas preces testemunhem arrependimento ou 
intenção de se corrigirem: “Para te entregares, 
à noite, ao adultério, cobres a cabeça com um 
embuço gaulês” 471. 

A conduta de um homem que associa à 
devoção uma vida execrável parece-me até 
certo ponto mais condenável que a de quem, 
coerente consigo mesmo, se mostra dissoluto 
sob todos os aspectos. No entanto, vemos a 
Igreja recusar diariamente licença, para que 
penetrem em sua sociedade, às pessoas que se 
obstinam em palmilhar caminhos particular- 
mente irrepreensíveis * 72. 


Rezamos por hábito e costume. Ou antes: 
lendo e murmurando preces fingimos rezar. 
E-me penoso ver persignarem-se ao “Benedici- 
te? * 73 pessoas que durante as demais horas do 
dia praticam o ódio, a avareza, a injustiça. 
Isso me desagrada tanto mais quanto tenho 
esse sinal em grande veneração e o emprego 
continuadamente, até mesmo quando me pego 
bocejando. Os vícios têm sua hora, Deus a 
dele; como por compensação ou composição. 
E espantoso ver sucederem-se ações tão diver- 
sas, tão bem ligadas umas às outras que não se 
lhes percebem interrupções e mudanças, quan- 
do da passagem de uma a outra, nem se vê 
quando uma termina e outra começa. Que pro- 
digiosa consciência, essa cuja calma não se 
desmente conquanto abrigue o criminoso e o 
Juiz numa tranqúila vida em comum. 

Um homem que tem sempre na cabeça 
idéias libidinosas e consciência da reprovação 
divina que elas lhe acarretam, que pode dizer a 
Deus quando com Ele se entretém? Que se 
arrepende? Mas se logo em seguida volta ao 
vício? Se estivesse compenetrado de sua justi- 
ça e de sua presença, como o diz, e se sua alma 
as sentisse, por curto que fosse o momento de 
penitência, o simples temor o haveria de preo- 
cupar tão seguidamente que acabaria por 
triunfar de seus vícios habituais, por mais 
arraigados que se achassem. E que dizer dessa 
gente que passa a vida inteira a gozar e benefi- 
ciar-se do que sabe constituir pecado mortal? 
E, no entanto, quantas profissões e quantos 
divertimentos admitidos e que vivem do vício, 
não temos nós? Confessando-se a mim, disse- 
me certo individuo que passara a vida a prati- 
car uma religião que acreditava lhe compro- 

| 


*71 Juvenal. | 
+72 Montaigne parece endereçar uma censura à 
Igreja pela desigualdade de tratamento dado aos 
hipócritas e aos dissolutos. Aliás, como observa 
Michaut, o capítulo todo é dos mais difíceis de 
entender. (N. do T.) 


+73 Fórmula de ação de graças usada na liturgia 
católica. (N. do E.) 


ENSAIOS — I 155 


metesse a salvação eterna e contrária à que 
tinha no coração, a fim tão-somente de não 
perder prestígio e honrarias. Quanto não lhe 
devia custar semelhante atitude? Como esses 
indivíduos justificarão sua conduta ante a jus- 
tiça divina? Seu arrependimento os obrigaria a 
uma reparação efetiva e manifesta; em não a 
satisfazendo, não a podem alegar perante Deus 
nem perante os homens. E que ousadia, essa 
deles, de pedir perdão sem repararem nem se 
arrependerem? 

A meu ver, OS primeiros, os que misturam a 
devoção à má conduta, são iguais aos outros, 
os que vivem na devassidão; mas é menos fácil 
ainda reconduzilos ao bom caminho. As 
variações incessantes e súbitas de opinião, que 
vão de um extremo ao outro, são para mim 
incompreensíveis: elas revelam um espírito to- 
mado de insopitável angústia. Como me pare- 
ce absurda a imaginação daqueles que, nestes 
últimos anos, tinham por hábito tachar de 
hipócrita quem quer que tivesse a inteligência 
um pouco mais lúcida e praticasse a religião 
católica, indo até a afirmar que no intimo esta- 
va de acordo com a Reforma. Triste enfermi- 
dade essa desses indivíduos, de se acreditarem 
tão fortes a ponto de se persuadirem de que os 
outros não podem crer o contrário do que eles 
próprios crêem. Pior ainda, pois essa gente 
prefere os benefícios imediatos auferidos de 
uma religião, em que no fundo não acreditam, 
às esperanças da vida eterna. Podem crer-me: 
se algo devesse tentar-me na mocidade, o risco 
e os obstáculos inerentes à Reforma teriam 
influído por certo, na decisão * 7 *. 

Não é sem razão séria, parece-me, que a 
Igreja proíbe que quem quer seja, sem distin- 
ção de pessoa, idade e sexo, se arrogue o direi- 
to temerário e indiscreto de comentar e salmo- 
diar esses divinos cantos que o Santo Espírito 
inspirou a Davi. Não se deve imiscuir Deus em 
nossas ações, senão com reverência e aten- 
cioso respeito. Esses cantos, pela sua origem 
divina, têm outra finalidade que não a de 
desenvolver nossos pulmões e encantar nossos 
ouvidos. É da consciência e não da boca que 
devem emanar. Não é admissível que permi- 
tam a um caixeiro qualquer falar disso e com 


274 A frase, como ocorre muitas vezes em Mon- 
taigne, quando ele procura não se comprometer em 
matéria de religião, presta-se a interpretações dife- 
rentes. Michaut desenvolve, a propósito, explicação 
quase oposta à nossa. A seu ver os riscos e as difi- 
culdades da Reforma é que teriam impedido Mon- 
taigne de se decidir pelo protestantismo. Reza o 
texto: “Si rien eút du tenter ma jeunesse Pambition 
du hasard et difficultê qui suivaient cette récente 
entreprise, y eút eu bonne part.” Preferimos ficar 
mais fiéis ao original. (N. do T.) 


isso se divertir enquanto enche, concomitante- 
mente, a cabeça com idéias fúteis e tolas. Não 
é, tampouco, razoável ver o Livro Santo, em 
que se descrevem os sagrados mistérios de 
nossa fé, serem lidos e comentados na copa € 
na cozinha. Tais textos eram outrora misté- 
rios; hoje não passam de pretexto para debates 
e divertimentos. 

Não é de passagem e em tumultuosas 
assembléias que cumpre atentar para assunto 
tão sério e tão digno de veneração. Deve ser 
um ato meditado e sereno, e que sempre deverá 
ser precedido de um “Sursum corda” * 78. essa 
introdução ao ofício divino. E que nossa atitu- 
de seja de particular atenção, evidenciando 
nosso respeito. 

Um tal estudo não é da alçada de qualquer 
um; a ele só se entregarão os que a ele se dedi- 
cam e que por Deus foram escolhidos; maus, 
os ignorantes tornam-se piores do que antes. 
Não é história a ser contada e sim a ser vene- 
rada, temida, adorada. Ingênua gente, em ver- 
dade, essa que a imagina ter colocado ao 
alcance do povo, somente porque a traduziu 
em linguagem popular! Será unicamente ques- 
tão de palavras e bastará mudá-las para que a 
entenda o vulgo? Direi mais: em assim fazen- 
do, afastam-no de Deus em vez de o aproxi- 
mar. A ignorância total e que confia em ou- 
trem é mais salutar e avisada do que essa 
ciência verbosa e va, alimentada de presunção 
e ousadia. 


Creio também que a liberdade dada a todos 
de propagar, traduzida em tantos idiomas 
diversos, a palavra sagrada, de tão conside- 
rável importância, é muito mais perigosa do 
que útil. Os judeus, os muçulmanos, e quase 


. todos Os povos de outras religiões, conservam, 


com veneração e devoção, seus mistérios 
sagrados na língua original em que lhes foram 
comunicados. E não é sem razões de sobra que 
se proíbe a introdução neles de quaisquer 
modificações. Haverá, por exemplo, entre os 
bascos e os bretões gente bastante categori- 
zada para dar autoridade a uma tradução des- 
ses textos em sua língua”? Nada, na Igreja Uni- 
versal, é mais árduo e de maior alcance. 
Faladas ou pregadas, as interpretações perma- 
necem vagas, não se impõem, podem ser modi- 
ficadas e somente dizem respeito a pontos par- 
ciais. O 'mesmo não acontece com as 
traduções. 

Um historiador grego, que era cristão, criti- 
ca com razão o seu século porque então se 
divulgaram os segredos de nossa religião e se 
permitiu ao mais insignificante artesão que os 


275 Elevai os corações. 


sta 


156 MONTAIGNE 


comentasse à vontade. Nós que, por graça de 
Deus, temos o privilégio de conhecer os mais 
puros mistérios confiados à nossa devoção, 
deveriamos envergonhar-nos de os ver profa- 
nados na boca das pessoas ignorantes do povo, 
quando os gentios proibiam a Sócrates, a Pla- 
tão — e aos demais sábios — se interessarem 
pelas coisas entregues a discrição dos sacerdo- 
tes de Delfos. Esse mesmo historiador diz tam- 
bém que a intervenção dos príncipes em maté- 
ria de teologia não é ditada pelo zelo mas pela 


cólera. O zelo procede da razão divina e da 
Justiça e sua ação é equilibrada e moderada; 
transformando-se, sob a influência da paixão, 
em ódio e inveja, em vez de trigo e uva produz 
joio e urtigas. Outro historiador conduziu-se 
de maneira igualmente certa quando, dando 
um conselho a Teodoro, lhe disse que as 
discussões não só não evitam os cismas da 
Igreja mas ainda os suscitam, engendrando as 
heresias; que, conseguintemente, era preciso 
evitar qualquer debate, toda argumentação 
metódica e ater-se unicamente às prescrições £ 
às fórmulas da lei, tais como as estabeleceram 
os antigos. O Imperador Andronico, encon- 
trando em seu palácio dois grandes persona- 
gens discutindo com Lapódio acerca dos pon- 
tos mais importantes de nossa religião, 
admoestou-os vivamente, chegando a ameaçã- 
los de os jogar no rio se continuassem. Em 
nossos dias, as mulheres e as crianças querem 
saber mais de leis eclesiásticas que os velhos 
mais experimentados. Entretanto, a primeira 
das prescrições de Platão os proibia de se ccu- 
parem sequer das razões das leis civis, que 
substituem as divinas. E, ao permitir aos ve- 
lhos que falassem a respeito com os magistra- 
dos, acrescentava: “mas sempre longe dos jo- 
vens e dos profanos”. 

Escreveu certo bispo que no outro lado do 
mundo há uma ilha, por nome Dioscórida, 
notável pela sua fertilidade em árvores de toda 
espécie, suas frutas e clima. O povo é cristão; 
tem igrejas e altares de que a cruz, com exclu- 
são de qualquer outra imagem, constitui o 
único ornamento. Observa com regularidade 
os jejuns e as festas, paga o dizimo ao clero, e 
tal é a sua pureza de costumes que ninguém 
tem mais de uma mulher em sua vida. Ade- 
mais, satisfeito com sua sorte a ponto de não 
conhecer o uso dos navios, embora isolado no 
meio do mar, é tão simples que, apesar de 
estrito observador da religião, dela não sabe 
uma só palavra; o que há de parecer incrível a 
quem ignorar que os pagãos, tão devotos em 
sua idolatria, só conhecem de seus deuses o 
nome e a estátua. “Menalipe”, uma das antigas 
tragédias de Eurípides, assim começava: “Ô 
Júpiter, de quem conheço apenas o nome!” 


Tenho visto também, ultimamente, queixa- 
rem-se de que certas obras tratam de assuntos 
exclusivamente literários ou filosóficos sem 
intromissão de teologia. Isso pode entretanto 
defender-se; pois é preferível que a doutrina 
divina, como soberana que tudo domina, tenha 
seu lugar à parte. Convém que onde entre 
constitua o assunto principal, e não se relegue 
para o segundo plano, como que em apoio 
simplesmente da tese que se desenvolve. Se nos 
ocorre ter necessidade de exemplos, podemos 
antes colhê-los na gramática, na retórica, na 
lógica, ou nas peças representadas nos teatros, 
nos jogos, nos espetáculos públicos, do que 
ncs textos sagrados. Há mais respeito e vene- 
ração em tratar separadamente, em estilo ade- 
quado, os assuntos referentes à religião do que 
incidentemente em obras profanas. Escrever 
sobre as coisas sagradas no estilo de todo 
mundo, como fazem certos teólogos, é erro 
mais comum do que o dos homens de letras 
que abusam da teologia. À filosofia, diz São 
Crisóstomo, foi de há muito banida da teolo- 
gia, como acessório inútil. Consideram-na 
indigna até de lançar, de passagem, um olhar 
no santuário em que se guardam os dogmas 
sagrados da doutrina celeste. A linguagem 
comum a todo mundo tem formas menos esco- 
lhidas, o que faz que não possa ser empregada 
na expressão de uma maneira assaz digna da 
majestade real da palavra sagrada. No que me 
diz respeito, consinto em que se qualifiquem 
como “verbis indisciplinatis”? 78 os termos 
fortuna, destino, felicidade, desgraça, deuses é 
outros que costumo empregar. É verdade que 
os assuntos fantasistas de que trato, eu os con- 
sidero isoladamente e os encaro unicamente do 
ponto de vista deste mundo, a meu modo, e 
não como fixados e já regulados pela lei divi- 
na, caso em que nem dúvidas nem discussões 
me foram permitidas. É minha maneira de ver 
que exprimo e não um artigo de fé que contes- 
to; raciocino de acordo com o que me vem ao 
espírito e não acerca do que participa de 
minha crença religiosa; falo como um leigo e 
não como um clérigo, sem que jamais, entre- 
tanto, venha a ferir a religião. Assim como as 
crianças que executam lições úteis à sua ins- 
trução e não à dos que as instruem. Talvez 
observem, e com razão, que seria útil e perfei- 
tamente justificável proibir, a quem não) o 
tenha por profissão, que escreva acerca da réli- 
gião, embora discretamente. E talvez digam 
que, pessoalmente, faria melhor calando. 

Disseram-me que os que se separaram da 
Igreja proíbem, eles também, que se invoque 
em vão o nome de Deus nos fatos da vida 


+78 Termos pouco ortodoxos. 


ENSAIOS —1 157 


comum. Que não querem tampouco que o 
usem como interjeição ou exclamação; que se 
lhe invoque o testemunho ou que o tomem por 
termo de comparação. Acho que nisso têm 
razão e cada vez que invocamos a Deus em 
nossos propósitos e negócios devemos fazê-lo 
seriamente, e por devoção. 

Há, parece-me, em Xenofonte, um trecho 
em que se expõe como deveriamos apelar 
menos para Deus, tanto mais quanto não é 
fácil fazer com que nossa alma se encontre 
tantas vezes nesse estado de calma, pureza é 
devoção que se exige em tais casos e sem o que 
nossas preces não somente são inúteis mas 
ainda viciadas: “Perdoai-nos as nossas ofensas 
assim como nós perdoamos aos que nos ofen- 
deram”, dizemos. Que significará isso senão 
que oferecemos a Deus uma aima isenta de 
rancor e de desejo de vingança? E, no entanto, 
quantas vezes não invocamos a Deus e não lhe 
pedimos que nos ajude, associando-o a nossos 
erros e .convidando-o a praticar injustiças? 
“Pedindo coisas que não podeis confiar aos 
deuses senão em segredo” * 77.0 avarento reza 
para a conservação ilusória e supérflua de seus 
tesouros; o ambicioso para que a vitória e a 
sorte lhe sejam fiéis; o ladrão para vencer os 
riscos que lhe perturbam as mãs intenções ou 
para agradecer a facilidade com que pôde 
degolar um transeunte. Rezam ao pé da casa 
que vão assaltar, com o espírito prenhe de 
crueldade, de luxúria e cobiça: “Dize a Staius 
o que desejarias obter de Júpiter, e Staius 
exclamará: ó Júpiter, é bom Júpiter! Pode-se 
pedir-vos tais coisas? — Quanto a Júpiter, não 
te responderá ele do mesmo modo?” * 78 

Margarida, rainha de Navarra, conta de um 
Jovem príncipe, que ela não nomeia mas cujos 
feitos tornaram famoso, que para se encontrar 
amorosamente com a mulher de um advogado 
de Paris tinha que atravessar uma igreja pela 
qual não passava nunca, nem na ida nem na 
volta, sem parar para uma oração. Deixo-vos 
imaginar o que podia pedir a Deus, com o 
espírito tomado pela sua aventura. Cita entre- 
tanto a rainha esse fato como testemunho de 
grande devoção. Eis uma prova (e não é a 
única) de que às mulheres não cabe tratar de 
coisas da religião. 

Uma verdadeira oração e uma reconciliação 
com Deus não podem provir de uma alma 
impura, e portanto sob c domínio do demônio. 
Quem apela para a ajuda de Deus em palmi- 
lhando o caminho do vício, faz como o bandi- 
do que apelasse para a justiça ou como quem 
invocasse o nome de Deus para cometer falso 
testemunho. “Murmuramos em voz baixa cri- 


477 Pérsio. 
478 ld. 


minosas orações” *7º. Poucos homens ousa- 
riam repetir publicamente as súplicas que em 
segredo endereçam a Deus: “Não seria fácil 
expulsar do templo as preces feitas em voz 
baixa; pouco numerosos são os capazes de 
exprimir seus anseios em voz alta” “8º, Por 
essa razão queriam os pitagóricos que as pre- 
ces fossem públicas, ouvidas de todos, a fim de 
que não se solicitassem coisas indecentes e 
injustas como fazia aquele que “dizia distinta- 
mente em voz alta: Apolo! e acrescentava 
mexendo apenas com os lábios de medo de ser 
ouvido: bela Laverna“8?, dá-me os meios de 
enganar e passar por homem de bem; cobre 
meus erros com o véu da noite e meus furtos 
com uma nuvem” “82, 

Os deuses puniram severamente os iníquos 
desejos de Edipo, fazendo com que se realizas- 
sem. Pedira em suas preces que a sorte das 
armas decidisse qual de seus filhos deveria 
suceder-lhe no trono de Tebas, e foi suficiente- 
mente infeliz para se ver atendido. Não deve- 
mos pedir que as coisas aconteçam de acordo 
com o que queremos, e sim de conformidade 
com o que manda a prudência. 

Parece, efetivamente, que usamos as orações 
e preces como uma espécie de linguagem caba- 
lística, como fazem os que abusam da sagrada 
palavra de Deus nas suas feitiçarias e mágicas, 
como se acreditássemos dependerem seus efei- 
tos do contexto, da inflexão da voz ou de nossa 
atitude. Mergulhada a alma na concupis- 
cência, sem arrependimento nem desejo de 
reconciliação com Deus, aproximamo-nos 
d'Ele repetindo palavras que nossa memória 
dita à nossa língua e vemos nisso expiação 
suficiente para nossos erros. 

Nada é mais suave, fácil, acessivel do que a 
lei divina. Atrai-nos, por mais inclinados que 
nos mostremos a cometer pecados, por mais 
detestáveis que sejamos. Ela nos estende os 
braços e nos recebe em seu seio, por mais vis € 
impuros que nos revelemos e possamos nos 
tornar, mas ainda assim cumpre sermos gratos 
ao perdão recebido e, pelo menos na hora em 
que dela necessitamos, estarmos realmente 
arrependidos, aborrecermos de fato as paixões 
que nos impeliram a ofender a Deus. Nem os 
deuses, nem os homens de bem aceitam O pre- 
sente do tratante: “A mão inocente que toca o 
altar aplaca mais seguramente acólera dos deu- 
ses com um simples bolo de farinha e alguns 
grãos de sal do que imolando vítimas suntuã- 
rias Ses, 


479 Tucano. 

380 Pérsio. 

*81 Divindade romana protetora dos ladrões. 
482 Horácio. 

483 Td. 


158 MONTAIGNE 


CaríruLO LVII 


Da idade 


Não posso aprovar a maneira por que enten- 
demos a duração da vida. Vejo que os filósofos 
lhe assinam um limite bem menor do que o 
fazemos comumente. “Como podem alegar 
que renuncio prematuramente à vida?”, disse 
Catão, o Jovem, aos que procuravam evitar 
que se suicidasse. Tinha apenas quarenta e oito 
anos e considerava essa idade já avançada, 
dado o reduzido número de homens que a atin- 
gem. Os que falam de uma certa duração nor- 
mal da vida, estabelecem-na pouco além. Tais 
idéias seriam admissíveis se existisse algum 
privilégio capaz de os colocar fora do alcance 
dos acidentes, tão numerosos, a que estamos 
todos expostos e que podem interromper essa 
duração com que nos acenam. E é pura fanta- 
sia imaginar que podemos morrer de esgota- 
mento em virtude de uma extrema velhice, e 
assim fixar a duração da vida, pois esse gênero 
de morte ê o mais raro de todos. E a isso cha- 
mamos morte natural como se fosse contrário 
à natureza um homem quebrar a cabeça numa 
queda, afogar-se em algum naufrágio, morrer 
de peste ou de pleurisia; como se na vida 
comum não esbarrássemos a todo instante 
com esses acidentes. Não nos iludamos com 
belas palavras; não denominemos natural o 
que é apenas exceção e guardemos o qualifica- 
tivo para o comum, o geral, O universal. 

Morrer de velhice é coisa que se vê raramen- 
te, singular e extraordinária e portanto menos 
natural do que qualquer outra. É a morte que 
nos espera ao fim da existência, e quanto mais 
longe de nós menos direito temos de a esperar. 
Constitui efetivamente o limite além do qual 
não iremos, que a natureza nos fixou como 
não devendo ser ultrapassado; mas é um privi- 
légio viver até esse limite, privilégio que só é 
concedido em dois a três séculos a um de nós, 
preservando-o das aflições e dos percalços tão 
abundantemente espalhados em tão longo per- 
curso. Por isso, minha opinião é que se consi- 
dere a idade a que cheguei como ao alcance de 
poucos. Desde que em condições normais o 
homem não vive tanto, já estamos além do fim 
fixado. E, ultrapassados esses limites habituais 
que dão a medida exata da vida, não devemos 
esperar ir adiante. Pelo próprio fato de termos 


escapado de morrer em tantas-ocasiões fatais a 
tanta gente, devemos reconhecer que uma sorte 
tão extraordinária, que nos mantém vivos a 
despeito da regra comum, não se há de prolon- 
gar demasiado. 

É um erro da lei imaginar que um homem 
não é capaz de gerir seus bens antes dos vinte 
e cinco anos e que só então pode orientar sua 
vida como bem entende. Augusto reduziu para 
trinta anos, diminuindo assim de cinco, a idade 
em que o acesso à magistratura era permitido 
pelas ordenações romanas. Sérvio Túlio dis- 
pensara do serviço militar os cavaleiros que ti- 
nham ultrapassado quarenta e sete anos; 
Augusto liberou-os aos quarenta e cinco. Apo- 
sentar os homens antes de cinqiienta e cinco ou 
sessenta anos não me parece muito acerta- 
do*8*. A meu ver deveriam manter-nos em 
nossos cargos e empregos tanto tempo quanto 
possível, enquanto com isso não se comprome- 
tesse o interesse geral; mas acho, por outro 
lado, um erro não nos aproveitarem mais cedo. 
E Augusto que, com dezenove anos, presidia 
ao destino do mundo considerava necessário 
que tivesse trinta anos o encarregado de con- 
sertar uma goteira. 

Sou de opinião que aos vinte anos nosso 
espírito já se desenvolveu completamente, já é 
o que será e mostra o de que é capaz. O espí- 
rito que até cessa idade não deu demonstração 
evidente de sua fortaleza, nunca o dará mais 
tarde. As qualidades e virtudes de nossa natu- 
reza já revelaram, então, o que têm de vigoroso 
e belo — ou nunca o revelarão: “Se o espinho 
não pica ao nascer, bem pouco ou nada pica- 
rá”, dizem no Delfinado. 

Penso que, em sua maioria, as mais belas 
ações que conheço, deste século ou dos séculos 


*84 Há divergências na interpretação da frase. Pejo 
contexto cremos ter interpretado certo, embora 
Michaut julgue que Montaigne continue a referir-se 
a Augusto nesta reflexão, e a traduz um tantolivre- 
mente: “não me parece que tenha posto os outros 
em disponibilidade antes dos cinquenta e cinco ou 
sessenta”. — No texto original porém não se fala 
em “outros” — mas diz-se: “De renvoyer les hom- 
mes au séjour (ao repouso) avant (...) il me semble 
nºy avoir grande apparence (razão).” 


ENSAIOS —I 159 


passados, foram praticadas antes dos trinta 
anos e não depois; e isso às vezes pelo mesmo 
individuo. Não o podemos assegurar, por 
exemplo, quanto as de Aníbal e Cipião, seu 
grande inimigo? Viveram ambos a mais bela 
metade da vida da glória que granjearam na 
juventude. Posteriormente, se os comparamos 
aos outros, ainda são grandes homens; não, 
porém, se os comparamos a eles mesmos. 
Quanto a mim, creio ser evidente que. meu 
espírito e meu físico antes diminuíram, depois 
dessa idade, do que aumentaram em forças e 
lucidez; antes retrocederam do que progredi- 
ram. É possível que o saber e a experiência 
cresçam com os anos em quem emprega bem 
seu tempo; mas a vivacidade, a rapidez, a fir- 
meza de ânimo e as demais partes físicas ou 
morais, integrantes de nós mesmos, as mais 
importantes e essenciais se desgastam e se 
atrofiam: “quando o corpo se abate ao peso 


dos anos, e as molas da máquina estão 
usadas, oblitera-se a inteligência, obscurece- -se 
o espírito, delira a língua” Pia 

Ora é o corpo que primeiro cede diante da 
velhice, ora a alma. Muitos vi cuia mente fra- 
quejou antes do estômago e das pernas, mal 
tanto mais perigoso quanto não o percebe a vi- 
tima. É o que me leva a considerar desajus- 
tadas as nossas leis, não porque nos deixam 
trabalhar até uma idade demasiado avançada, 
mas por não o permitirem suficientemente 
cedo. Parece-me que, dado o enfraquecimento 
que nos pode atingir e os numerosos escolhos 
com que deparamos naturalmente no decurso 
de uma vida comum, não se deveria dar tanta 
importância ao ano de nosso nascimento, nem 
nos deixar tanto tempo entregues | a ociosidade 
ou presos ao aprendizado. 


285 T[ucrécio. 


LIVRO TI 


Pa 


CAPÍTULO I 


Da incoerência de nossas ações 


Os que se dedicam à crítica das ações huma- 
nas jamais se sentem tão embaraçados como 
quando procuram agrupar e harmonizar sob 
uma mesma luz todos os atos dos homens, pois 
estes se contradizem comumente e a tal ponto 
que não parecem provir de um mesmo indivi- 
duo. Mário, o Jovem, ora parece filho de 
Marte ora filho de Vênus. Dizem que o Papa 
Bonifácio VIII assumiu o papado como uma 
raposa, conduziu-se como um leão e morreu 
como um cão. E quem diria que Nero, essa 
verdadeira imagem da crueldade, como lhe 
apresentassem para ser assinada, de acordo 
com a lei, a sentença contra um criminoso, 
observou: — Prouvera a Deus que eu não sou- 
besse escrever! — tanto lhe apertava o cora- 
ção condenar um homem à morte. Há tantos 
exemplos semelhantes, e tão facilmente os 
encontrará sozinho quem quiser, que estranho 
ver por vezes gente de bom senso procurando 
juntar tais contradições, mesmo porque a irre- 
solução me parecê ser o vício mais comum e 
evidente de nossa natureza, como o atesta este 
verso de Públio, o satírico: “Má opinião, a de 
que não se pode mais mudar.” 

É aparentemente possível julgar um homem 
pelos fatos mais comuns de sua vida; mas, 
dada a instabilidade natural de nossos costu- 
mes e opiniões, pareceu-me muitas vezes que 
os melhores autores erravam em se obstinar a 
dar de alguém uma idéia bem assentada e lógi- 
ca. Adotam um princípio geral e de acordo 
com este ordenam e interpretam as ações, 


tomando o partido de as dissimular quando. 


não as deformam para que entrem dentro do 
molde preconcebido. O Imperador Augusto 
escapou-lhes; deparamos nesse homem com 
uma tal flagrante diversidade de ações, tão 
inesperada e contínua no decurso de sua exis- 
tência, que os mais ousados juízes, renun- 
ciando a julgá-lo em seu conjunto, tiveram de 
deixá-lo assim indefinido. Acredito que a cons- 
tância seja a qualidade mais difícil de se 
encontrar no homem, e a mais fácil a incons- 
tância. Quem os julgasse pormenorizadamente 
de acordo com seus atos, um por um, estaria 
mais apto a dizer a verdade a seu respeito. 
Fora dificil encontrar em toda a antiguidade 


uma dúzia de homens que tenham orientado 
sua vida em obediência a determinados princi- 
pios, o que é o fim principal da sabedoria. A 
qual, segundo um autor antigo”, se resume em 
uma frase que enfeixa, em uma só, todas as re- 
gras da vida: “querer e não querer são sempre 
a mesma e única coisa”. E poderia acrescen- 
tar: à condição de que o que queremos ou não 
queremos seja justo, pois, se não o é, impos- 
sivel se faz que permaneça constantemente a 
mesma coisa. Efetivamente, sei de hã muito 
que o vício nada mais é senão desregramento e 
falta de medida e por conseguinte não o pode- 
mos imaginar constante. Atribui-se a Demós- 
tenes a seguinte máxima: a virtude, qualquer 
que seja, consiste de início em recolhimento e 
deliberação; a constância, a seguir, compro- 
va-lhe a perfeição. Em refletindo seguimos 
sempre o melhor caminho, mas ninguém pensa 
antes de agir. “Desdenha o que pediu, volta ao 
que largou e, sempre hesitante, contradiz-se 


sem cessar”2. . Senda : 
Nossa maneira habitual de fazer está em se- 
guir os nossos impulsos instintivos para a 


direita ou para a esquerda, para cima ou para 
baixo, segundo as circunstâncias. Só pensamos 
no que queremos no próprio instante em que o 
queremos, e mudamos de vontade como muda 
de cor o camaleão. O que nos propomos em 
dado momento, mudamos em seguida e volta- 
mos atrás, e tudo-não passa de oscilação e 
inconstância. “Somos conduzidos como titeres 
que um fio manobra”. 

Não vamos, somos levados como os objetos 


-que flutuam, ora devagar, ora com violência, 


segundo o vento: “Acaso não vemos todo 
mundo indeciso; uns procurando sem desconti- 
nuar, outros mudando de lugar, como para lar- 
gar uma carga pesada demais?” * Cada dia 
nova fantasia, e movem-se as nossas paixões 
de acordo com o tempo: “o pensamento dos 
homens assemelha-se na terra aos cambiantes 
raios de luz com que Júpiter a fecunda ”5. 

1 Sêneca. 

2 Horácio. 
3 Td. 

* Lucrécio. 
5 Cícero. 


164 


Hesitamos em tomar partido; nada decidi- 
mos livremente, de maneira absoluta, coerente. 
Se alguém traçasse e estabelecesse determi- 
nadas leis de conduta e regime político de vida, 
veriamos brilhar em seus atos e atitudes uma 
harmonia cabal e em seus costumes uma 
ordem e uma correlação evidentes. Empédo- 
cles observa a seguinte contradição entre os 
agrigentinos: alguns se entregam aos prazeres 
como se devessem morrer no dia seguinte e ou- 
tros edificam como se a vida não tivesse de 
acabar jamais. O plano de vida fora entretanto 
fácil de se estabelecer, como se vê em Catão, o 
Jovem: quem nele toca uma tecla, toca todas, 
pois há nele uma harmonia de sons bem afina- 
dos que nunca se entrechocam. Não seguimos, 
nós outros, tão sábio exemplo e cada uma de 
nossas ações decorre de um juízo específico. E 
na minha opinião seria até melhor procurar- 
lhes as causas nas circunstâncias do momento 
sem mais aprofundada pesquisa e sem tirar 
delas quaisquer conseglências. 


Durante as desordens que agitaram nosso 
pobre país, disseram-me que uma jovem, bem 
perto do local onde eu me encontrava, se joga- 
ra pela janela a fim de escapar à brutalidade de 
um soldado que hospedava. Não teve morte 
instantânea e para se acabar tentou cortar o 
pescoço com uma faca, o que não a deixaram 
fazer. Nesse triste estado, confessou que o sol- 
dado nada mais fizera do que lhe declarar seu 
amor, solicitá-la e presenteá-la, mas ela temera 


que chegasse a violentá-la. Daí seus gritos, sua 
atitude, o sangue derramado, como se se tra- 
tasse de uma nova Lucrécia. Entretanto, eu 
soube que antes e depois dessa ocorrência sem- 
pre se mostrou muito menos arisca. Como 
dizem por aí, “por mais belo e decente que 
sejas, se não és aceito pela tua amada, não 
concluas, sem mais amplas informações, ser 
ela de uma castidade a toda prova; isso não 
impede que o arrieiro tenha a sua possibilida- 
de”. 

Antígono, que se afeiçoara a um de seus sol- 
dados por causa de sua valentia e coragem, 
mandou que o médico tratasse de uma doença 
que o atormentava havia muito. Observando, 
após a cura, que o homem se expunha muito 
menos nos combates, perguntou qual a razão 
dessa mudança que o tornara poltrão: “Vós 
mesmo, Sire, porquanto me libertastes dos 
males que faziam com que eu não apreciasse a 
vida.” 


Um soldado de Luculo fora roubado pelo 
inimigo. Para se vingar executou contra ele um 
golpe de mão notável, amplamente compen- 
sador de seus prejuízos. Luculo que ficara com 
excelente opinião dele quis empregá-lo em uma 


MONTAIGNE 


arriscada expedição e, a fim de decidi-lo, usava 
todos os meios de persuasão, “com palavras 
capazes de entusiasmar os mais tímidos”. 
Mas o soldado atalhou: “Mandai algum solda- 
do miserável que tenha sido roubado.” E recu- 
sou peremptoriamente. Como diz Horácio: 
“Irá quem tiver perdido a bolsa.” 

Maomé II admoestara violentamente Cha- 
san, chefe de seus janízaros cuja tropa fora 
desfeita pelos húngaros, sendo que se condu- 
zira ele próprio covardemente durante o com- 
bate. Como única resposta, Chasan, sozinho, 
sem precisar de ninguém, precipitou-se furioso, 
espada na mão, contra o primeiro pelotão ini- 
migo que percebeu e desapareceu em poucos 
instantes como se fora por ele tragado. Nesse 
ato, parece que foi movido menos pelo desejo 
de se reabilitar do que em virtude de uma revi- 
ravolta em seus sentimentos: não agia sob o 
impulso da coragem moral e sim por despeito. 
Quem ontem vistes tão temerário, não vos 
espanteis em vê-lo poltrão no dia seguinte. A 
cólera, a necessidade, a companhia ou o vinho, 
ou o som de uma trombeta, terão feito de suas 
tripas coração. Não foi o raciocínio que lhe 
deu coragem: foram as circunstâncias. Não 
nos espantemos, pois, de ver que mudou ao 
mudarem elas. Essa variação e essa contradi- 
ção, tão comuns em nós, levaram muitas pes- 
soas a pensar que possuímos duas almas, ou 
duas forças que atuam cada qual num sentido, 
uma no sentido do bem e outra no do mal. 
Uma só alma e uma só força não poderiam 
conciliar-se com tão repentinas variações de 
sentimentos. 


Não somente o vento dos acontecimentos 
me agita conforme o rumo de onde vem, como 
eu mesmo me agito e perturbo em conse- 
quência da instabilidade da posição em que 
esteja. Quem se examina de perto raramente se 
vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha 
alma ora um aspecto, ora outro, segundo o 
lado para o qual me volto. Se falo de mim de 
diversas maneiras é porque me olho de diferen- 
tes modos. Todas as contradições em mim se 
deparam, no fundo como na forma. Envergo- 
nhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, 
taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, 
tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sin- 
cero, sábio, ignorante, libera! e avarento, e.pró- 
digo, assim me vejo de acordo com tada 
mudança que se opera em mim. E quem quer 
que se estude atentamente reconhecerã igual- 
mente em si, e até em seu julgamento, essa 
mesma volubilidade, essa mesma discordância. 
Não posso aplicar a mim mesmo um juízo 


* Horácio. 


ENSAIOS — II 165 


completo, simples, sólido, sem confusão nem 
mistura, nem o exprimir com uma só palavra. 
“Distinguo” é o termo mais encontradiço em 
meu raciocínio. 

Embora acredite sempre que é preciso falar 
bem do que é justo e interpretar com simpatia 
o que a tal juízo se presta, nossa condição é 
tão singular que não raro o próprio vício nos 
impele a bem fazer (se o bem não se julgasse 
unicamente pela intenção que o determina). 
Daí não se dever tirar de um ato corajoso a 
conclusão de que um valente o praticou. 
Valente será efetivamente quem o for sempre 
em todas as ocasiões. Se fosse um hábito e não 
um gesto imprevisto, a virtude faria que um 
homem mostrasse sempre igual resolução; 
seria o mesmo, só ou acompanhado, na justa 
como em campo raso; pois, diga-se o que se 
disser, a coragem não é uma na rua e outra no 
campo de batalha. Suportaria esse homem 
com igual atitude uma enfermidade em seu 
leito e um ferimento na guerra e não temeria 
mais a morte em seu lar do que em um assalto. 
Não o veríamos lançar-se através de uma bre- 
cha com insopitável bravura e em seguida cho- 
rar como uma mulher a perda de um processo 
ou de um filho; ser covarde diante da infâmia e 
resoluto na miséria, ter medo da navalha do 
barbeiro e desafiar a espada do adversário. Em 
tais casos, a ação é louvável, não o homem. 
Há gregos, diz Cícero, que tremem à vista do 
inimigo e se mostram tenazes quando enfer- 
mos, e tem-se o inverso nos cimbros e nos 


celtiberos: “Nada pode ser estável se não parte: 


de um princípio sólido””. 


Não há maior valentia, no gênero, dc que a 
de Alexandre, o Grande, e no entanto não se 
verifica em tudo. Por incomparável que seja, 
tem suas falhas, o que o faz perturbar-se à 
mais insignificante suspeita de conjuras e O 
leva a incrível e absurda crueldade na repres- 
são e a temores em nada compatíveis com sua 
apreciação habitual das coisas. A superstição 
que lhe era peculiar participa também da 
pusilanimidade, e a exagerada penitência que 
se impõe a si mesmo após o assassínio de Clito 
prova igualmente a desigualdade de sua cora- 
gem. Somos um amontoado de peças juntadas 
inarmonicamente e queremos que nos honrem 
quando não o merecemos. À virtude vale por si 
mesma; se para outro fim tomamos a sua más- 
cara, logo ela no-la arranca da cara. Quando 
nossa alma se impregna dela, forma ela uma 
espécie de verniz fortemente adesivo que só se 
tira com a própria pele. Eis por que para julgar 
um homem é preciso seguir suas pegadas, 


? Cicero. 


penetrar sua vida, e se não deparamos com a 
constância alicerçando os seus atos, “com um 
plano de vida bem ponderado e previsto” º , se 
sua marcha, ou antes, seu caminho (pois é líci- 
to acelerar ou diminuir o passo) se modifica 
segundo as circunstâncias, abandcnemo-lo. 
Como a ventoinha gira de acordo com o vento, 
assim reza a divisa de nosso Talbotº. 

Não é de espantar, diz um autor antigo, que 
o acaso tenha tanta força sobre nós, pois por 
causa dele é que existimos. Quem não orientou 
sua vida, de um modo geral, em determinado 
sentido, não pode tampouco dirigir suas ações. 
Não tendo tido nunca uma linha de conduta, 
não lhe será possível coordenar e ligar uns aos 
outros os atos de sua existência. De que serve 
fazer provisão de tintas se não se sabe que pin- 
tar? Ninguém determina do princípio ao fim o 
caminho que pretende seguir na vida; só nos 
decidimos por trechos, na medida em que 
vamos avançando. O archeiro precisa antes 
escolher o alvo; só então prepara o arco e a fle- 
cha e executa os movimentos necessários; nos- 
sas resoluções se perdem porque não temos um 
objetivo predeterminado. O vento nunca é 
favorável a quem não tem um porto de chega- 
da previsto. Não estou de acordo com o juizo 
que se fez, ao assistir a uma tragédia de Sófo- 
cles, declarando-o, contra a opinião de seu 
filho, capaz de administrar seus bens. Não 
acho tampouco muito mais lógico o que fize- 
ram os párias enviados com a missão de refor- 
mar o governo dos milésios. Depois de visitar 
a ilha, observando o cultivo cuidadoso da 
terra, a boa ordem das propriedades, e regis- 
trando os nomes dos proprietários, reuniram 
em assembléia os cidadãos e entregaram o 
governo a esses proprietários, considerando 
que a atenção e a eficiência demonstradas na 
administração de seus negócios particulares 
eram uma garantia de que de igual modo iam 
gerir os negócios do Estado. 


Somos todos constituídos de peças e peda- 
ços juntados de maneira casual e diversa, e 
cada peça funciona independentemente das 
demais. Daí ser-tão grande a diferença entre 
nós e nós mesmos quanto entre nós e outrem: 
“Crede-me, não é coisa fácil conduzir-se como 
um só homem ?1º, Se a ambição pode impelir 
o homem a ser valente, sóbrio, liberal e mesmo 
justo; se a avareza pode dar coragem a um cai- 
xeiro criado no ócio e na indolência e infun- 


8 Id. 

º General inglês que lutou contra os franceses c se 
tornou muito querido dos camponeses pelo seu espi- 
rito de justiça e seu grande caráter. Montaigne alude 
provavelmente ao brasão de armas. 

1º Sêneca. 


166 


dir-lhe bastante confiança para que se lance à 
aventura em frágil navio, à mercê de Netuno, e 
lhe ensina a discrição e a prudência; se a pró- 


pria Vênus arma de resolução e audácia o. 


jovem ainda sob a autoridade paterna, e faz 
com que se mostre impudica a virgem de cora- 
ção terno ainda sob a égide de sua mãe: 


“Passando furtivamente entre 
os guardas que dormem, prote- 
gida por Vênus, vai a jovem sozi- 


MONTAIGNE 


nha, dentro da noite, juntar-se a 
seu amante” 11, 


se assim é, não deve um espírito refletido jul- 
gar-nos pelos nossos atos exteriores; cumpre- 
lhe sondar as nossas consciências e ver os mó- 
veis a que obedecemos. É uma tarefa elevada e 
difícil e desejaria por isso mesmo que menor 
número de pessoas se dedicassem a ela. 


1 Tibulo. 


CapíTULO II 


Da embriaguez 


O mundo não é senão variedade e desseme- 
lhança. Os vícios têm entretanto em comum o 
fato de serem vícios. Contudo, acrescentam os 
estóicos, embora igualmente vícios não são os 
vícios iguais entre si. Assim, quem ultrapassou 
de cem passos esse limite “além e aquém do 
qual o direito não mais existe”*2, é sem dúvida 
mais culpado do que aquele que apenas deu 
dez passos. Nem se dirá que o sacrilégio não é 
pior do que o roubo de um repolho de nossa 
horta: “Nunca se poderá provar gue seja igual- 
mente condenável surripiar repolhos da horta 
alheia e roubar, à noite, no templo dos 
deuses” '3. Há tanta diversidade no vício quan- 
to em qualquer outra coisa. 

Não levar em consideração a escala de gra- 
vidade dos pecados, confundindo-os, é por 
certo perigoso, pois disso tirarão vantagem os 
assassinos, os traidores e os tiranos. Não é 
justo que sua consciência se alivie com a idéia 
de que Fulano é preguiçoso, lascivo ou pouco 
assíduo à missa. Todos têm tendência para 
agravar o pecado de outrem e atenuar o pró- 
prio. E não raro até as próprias pessoas encar- 
regadas de os esclarecer os classificam mal, a 
meu ver. 

Assim tomo para Sócrates o principal papel 
da sabedoria consiste em ensinar a distinguir O 
bem do mal, para nós, em quem c melhor 
ainda é vício, esse papel deveria consistir em 
estabelecer as diferenças existentes entre os 
diversos vícios, pois em não havendo exatidão 
confundem-se virtuosos e maus. 

Entre outros vícios, o da embriaguez pare- 


'2 Horácio. 
13 Id 


' 


«embaixador enviado por 


ce-me grosseiro e brutal. O espírito entra por 
alguma coisa nos demais vícios, alguns há que 
têm mesmo algo generoso; outros estão liga- 
dos à habilidade, à esperteza, à coragem, à 
prudência, à finura: a embriaguez é bestial e 
avilta tão-somente. Por isso mesmo é na nação 
menos civilizada! * que em nossos dias é esse 
vício mais comum. Os outros vícios alteram o 
nosso bom senso; esse o aniquila, perturban- 
do-nos igualmente o físico: “Quando o vinho 
nos penetra, os membros tornam-se pesados, 
as pernas vacilam, a língua engrola, embota-se - 
o espírito, os olhos amortecem; em seguida 
vêm os berros, os soluços, os insultos”! E 
pior das condições humanas é aquela em que o 
homem, não tem mais consciência de si, não 


mais se domina. E dizem que assim como o 


mosto a ferver faz subir à superfície do tonel 
tudo o que estava no fundo, o vinho faz trans- 
bordar os mais íntimos segredos de quem o 
bebeu exageradamente: “Gs Baco, é teu alegre 
vinho que arranca aos sábios seus mais secre- 
tos pensamentos”" *. Conta Josefo que, em o 
fazendo beber além da medida, induziu certo 
seus inimigos a 
confiar-lhe tudo o que tinha interesse em saber. 
Entretanto Augusto, que se abrira com Lúcio 
Piso, o conquistador da Trácia, nunca teve a 
oportunidade de se arrepender; nem Tibério foi 
jamais traído por Cássio a quem tudo contava; 
e sabemos de fonte segura que Piso € Cássio 
gostavam tanto de beber que mais de uma vez 
foi preciso retirá-los do Senado por estarem 


14 Segundo Michaut, Montaigne aludiria à Fica 
nha. Thibaudet é da mesma opinião. 

15 Lucrécio. 

Ea fa 


espírito: “dizem mesmo que nessa nobre justa 


ENSAIOS — II 167 


inteiramente embriagados: “inchados, como de cita entre outras provas de superioridade sobre 
costume, pelo vinho bebido na véspera”'?. seu irmão Artaxerxes, O fato de suportar me- 
Com igual confiança Cássio, bebedor de água, lhor a bebida. Nas nações mais bem adminis- 
comunicou a Amber, que se embebedava  tradas e governadas era habitual exercitar-se 
continuamente, sua intenção de acabar com em beber. E ouvi de Sílvio, excelente médico 
César. Ao que respondeu o bêbedo: “como | parisiense, que a fim de conservar a eficiência 
queres que vença o tirano quem não pode se- do estômago é útil acordâ-lo e estimulá-lo uma 
quer vencer o vinho?” E vemos os alemães vez por mês com excessos dessa natureza. 
saturados de vinho lembrarem-se de seus quar- - Diz-se ainda que os persas discutiam seus 
téis, da palavra de ordem e de seus lugares nas negócios depois de beber. 
fileiras: “e não é fácil vencê-los, ainda que Mais por gosto e temperamento do que pela 
embriagados, gaguejantes e titubeantes” 18. razão, sou inimigo de tais excessos, pois, con- 
Nunca acreditara que pudesse haver embria- quanto de bom grado acomode minhas opi- 
guez tão profunda e aniquiladora, se não hou- | niões à autoridade dos antigos e considere a 
vesse lido na história que Átalo convidou Pau- embriaguez um vício vergonhoso e estúpido, 
sânias a cear, no intuito de cometer com ele 'acredito-o menos perverso e nefasto do que os 
grave indignidade, esse mesmo Pausânias que outros, os quais prejudicam diretamente a 
pelo mesmo motivo matou mais tarde Filipe sociedade. Se, como afirmam, não há prazer 
da Macedônia, notável pela educação que que não nos custe algum sacrifício, é esse vício 
recebeu de Epaminondas e de sua família. o menos pesado à nossa consciência; é, por 
Átalo deu tanta bebida a seu conviva que pôde outro lado, o de mais fácil realização, o que 
converter-lhe insensivelmente o corpo nc de precisa ser ponderado. Um senhor já de idade 
uma prostituta de baixa extração a entregar-se e de certa condição social dizia-me contá-lo 
aos criados e mais abjetos arrieiros da casa. entre os três prazeres principais de que ainda 
Da mesma ordem de idéias é o fato que me foi podia gozar na vida. E, de fato, onde encontrar 
referido por uma senhora que muito honro e satisfações preferíveis às que a própria natu- 
aprecio: perto de Bordéus, para o lado de Cas- reza nos oferece? Mas essa pessoa não agia 
tres onde tem propriedade, uma viúva da com bom senso, pois o requinte não é de rigor 
aldeia, de uma castidade a toda prova, sen- em tais circunstâncias e é supérfluo escolher 
tindo alguns sintomas estranhos dizia a sua Vinhos finos para tanto. Se gostais de saborear 
vizinha que se fosse casada acreditaria estar O que bebeis, experimentareis no caso em apre- 
grávida. Os sintomas, dia a dia mais precisos, SO O desgosto de beber em condições diferen- 
tornaram-se afinal evidentes, levando-a a de- tes, porquanto para ser beberrão é necessário 
clarar ao cura do lugar que a quem se confes- um paladar mais grosseiro, menos requintado. 
sasse culpado de a ter posto naquele estado, Os alemães bebem qualquer vinho com igual 
não somente ela perdoaria como o desposaria . prazer, não pensam senão em engolir. Tém-no 
se concordasse. Um de seus lacaios, encora- assim mais barato, mais copioso e fácil. : 
jado pela proclamação, confessou então que de - Beber como os franceses somente às refei- 
uma feita, ao vê-la bêbada e profundamente ções e moderadamente é restringir demasiado 
adormecida, e em posição indecorosa, dela OS favores de Baco. A tal exercício cumpre 
abusara sem a acordar-Casaram-e c continuam-” consagrar mais Tempo e constância. Os antigos 
casados. e : consagravam-lhe noites inteiras e às vezes os 
É sabidó que na antiguidade esse vício não dias também; é preciso, pois, dar-lhé lugar 
—erarmuito condenado. Chegam mesmo alguns mais importante na vida “cotidiana. Conheci 


"filósofos a referir-se com muita indulgência à um grande senhor ao qual missões de TEspon- 
embriaguez; e entre os próprios estóicos houve sabilidade foram confiadas e cujos êxitos são 


quems resômendasse beber-de-vez-em Pquandorã conhecidosequesiCaia. regula mente E Rod 
vontade, até a embriáguez, a fim de alegrar O S us cinco lots?" de 


trava menos clarividente e precavido nos nos negô- 
cios, o que nos foi dado comprovar em nosso 
detrimento. É necessário dedicar-se mais a esse 
prazer, se se deseja que conte na vida; é neces- 

sário fazer como esses caixeiros e operários 
que nunca recusam uma oportunidade de 
beber e têm esse desejo sempre em mente. 


venceu por vezes o grande Sócrates”!º. Ao se- 


vero Catão, censor dos demais, censurou-se a 
tendência para este vício: “conta-se também 
que Catão, o Ancião, aquecia sua virtude no 
vinho”2º. Ciro, príncipe de tão grande renome, 


7 Virgílio. Dir-se-ia que o prazer da mesa vai dimi- 
18 Juvenal. 
1º Pseudo Galo. 
20º Horácio. 21 Aproximadamente 20 litros. (N. do T.) 
q 
is 


vinho“e.que ao levantar da Mm AQuSCemas-<————=" 


168 


nuindo dia a dia em nossa terra; parece-me que 
no meu tempo de infância os almoços, os jan- 
tares, as ceias, eram mais frequentes e mais co- 
muns do que hoje. Estaremos, em algo pelo 
menos, nos corrigindo? Por certo que não, mas 
talvez nos inclinemos mais do que nossos pais 
para a libertinagem, e o vinho e as mulheres 
são coisas que levadas ao exagero se prejudi- 
cam mutuamente. A libertinagem debilita o 
estômago. Por outro lado a sobriedade faz-nos 
mais galantes, mais requintados no amor. 

É admirável o que ouvi de meu pai acerca 
da castidade de seu século. E cabia-lhe dizê-lo 
pois tudo tinha, por natureza e educação, para 
ser muito querido das mulheres. Falava pouco 
e bem, e entremeava sua conversação com 
reminiscências dos livros mais afamados, 
principalmente espanhóis, entre os quais 


“Marco Aurélio” 22 era o que mais prezava. 
Era de uma gravidade suave, discreto, muito 
modesto, de uma polidez esquisita, sempre 
bem vestido e cuidado, a pé como a cavalo. 
Escravo de sua palavra, e tão devoto em matê- 
ria religiosa que tendia para a superstição. De 
estatura pequena, bem proporcionado, andava 
sempre bem aprumado e era muito vigoroso. 
Agradável de rosto, moreno de pele, era hábil e 


sobressaia em todos os exercícios a que se 
entregam as pessoas de categoria. Para fortale- 
cer os braços fazia esgrima, lançava pedras e 
erguia barras de ferro. Ainda cheguei a ver os 
bastões chumbados que serviam para o treina- 
mento e os sapatos de solas de chumbo com 
que se exercitava na corrida e no salto. A esse 
respeito deixou a lembrança de feitos espanto- 
sos. Vi-o aos sessenta anos, desafiando nossa 
agilidade, saltar num cavalo com suas vesti- 
mentas forradas de pele e fazer a volta da mesa 
sobre as mãos. Quando se retirava para seus 


aposentos, amiúde subia a escada-de-trêS êem==. 


três degraus. Quanto à boa opinião que tinha 
das— mulheres, dizia que em -uma província 
inteira havia apênas umã senhora distinta de 
reputação duvidosa, e: narrava também casos 
singulares de galanteria, Seus em geral, em que 


andara na companhia « Quia Cosmulheres- honestas, 
sem se compromefter-dê “modo algum.* Eur 


LC 
EI a 
que-seé casara virgem, embora muito depôis de 


ter tomado parte nas guerras além Alpes, guer- 
ras a respeito das quais deixou um diário em 
que relata ponto por ponto tudo o que ocorreu 
e que testemunhou. No entanto tinha trinta e 
três anos em 1528 quando em voltando da Itá- 
lia se casou. 

Tornemos agora às nossas garrafas... 

Os incômodos da velhice, que exigem de nós 


2? De Antônio de Guevara. 


MONTAIGNE 


algum alívio, podiam com razão excitar em 
mim o desejo de beber, último dos prazeres de 
que nos privam os anos. O calor natural, 
dizem os galhofeiros, sente-se primeiramente 
nos pés, durante a infância; daí sobe para a 
parte média do corpo onde permanece longo 
tempo, dando-nos os únicos verdadeiros praze- 
res da vida animal e ao lado dos quais os ou- 
tros são insignificantes; finalmente, como o 
vapor que sobe sempre e se exala, chega à gar- 
ganta onde faz a última parada. 


Não consigo, entretanto, compreender como 
se encontra ainda satisfação em beber sem ter 
sede e a criar pela imaginação um desejo artifi- 


cial contrário à natureza. Meu estômago não, 


! 
resistiria, pois já tem dificuldade em dar cabo 
do que toma dentro dos limites de suas necessi- 
dades. Minha constituição faz que só tenha 
vontade de beber depois de comer, por isso 


mesmo é o gole final o mais copioso. Na velhi- 
ce o nosso paladar se vicia com defluxos e 
corrompe-se com outras deficiências de nosso 


organismo; parece-nos então melhor o vinho 
na medida em que vai desobstruindo e lavando 
os nossos poros; é pelo menos a sensação que 
tenho e raramente percebo o gosto do vinho 
quando começo a bebê-lo. Anacáârsis espanta- 
va-se com ver os gregos beberem ao fim da 
refeição em copos maiores do que no início. 
Creio que isso provém da mesma causa que 
leva os alemães a agirem da mesma maneira, 
porque é no fim que se pôem a ver quem bebe 
mais. 


Platão determina que não bebam as crian- 
ças antes dos dezoito anos; e aos homens que 


- não se embriaguem senão aos quarenta. Aos 


que ultrapassam esta idade admite que se com- 
prazam nisso e que reservem maior parte a 
Baco em suas, refeições, essa boa divindade 
Sque de devolve-a-alêgria-ao: «homem, e ao ancião, a 
mocidade; que suaviza as paixões da alma, 
tira-lhes a agudeza como o fogo “amolece o 
ferro. Em suas leis, concorda em que reunir= 
para beber tem sua utilidade, conquanto sejam 
as reuniões des presididas por alguém” que as regu- 


“vel, sendo a embriaguez; diz cióúma maneira 
eficiente de ressaltar a natureza do indivíduo, e 
também eminentemente adequada a dar às pes- 
soas idosas a coragem de participar dos praze- 
res da dança e da música, recreações úteis que 
não ousarão buscar se não estiverem algo exci- 
tadas. Platão reconhece igualmente a virtude 
que tem o vinho de temperar as agitações da 
alma e conservar a saúde do corpo. Aprova 
contudo as seguintes restrições copiadas em 
parte dos cartagineses: proibição de vinho aos 
soldados na guerra ou em expedição; aos 


sze-as-mantenhasdentro dos limitessdo Ti TAZOÁ-S.. 


“. 


a E E 
DT 


7 


ENSAIOS — TI 169 


magistrados quando no exercício de seus car- 
gos; durante o dia a todo mundo, bem como 
nas noites em que pretendam unir-se a suas 
mulheres no intuito de procriar. Dizem que o 
filósofo Estilpon, acabrunhado pela velhice, 
apressou voluntariamente seu fim bebendo 
vinho puro. Agindo de igual maneira, embora 
não deliberadamente, o filósofo Arcesilau viu 
abaladas as poucas forças que ainda lhe 
restavam. 

E antiga e graciosa pergunta a que indaga se 
o espirito do sábio é capaz de resistir à força 
do vinho, “no caso em que o vinho ataque o 
sábio”23. A vaidade incita-nos por demais a 
ter boa opinião de nós mesmos. À alma mais 
ponderada, mais perfeita, já precisa esforçar-se 
muito para se sustentar de pé e evitar de ser 
derrubada pela sua própria fraqueza. Não hã 
uma só em mil que durante um minuto de sua 
existência se mantenha estável e a prumo; a 
julgar pela nossa própria natureza, podemos 
duvidar de que isso aconteça; e se acontecesse, 
e de modo constante, seria o supremo grau de 
perfeição. Mas para tanto fora necessário que 
nenhum choque a abalasse, coisa que mil aci- 
dentes podem provocar. Que adiantou a Lucré- 
cio, esse grande poeta, filosofar e observar-se? 
Um filtro amoroso enlouquece-o. A apoplexia 
tanto pode atingir um carregador como Sócra- 
tes. Há quem esqueça o próprio nome em 
consequência de uma doença, outros em virtu- 
de de um ferimento perdem a razão, Por mais 
sábio que seja, O sábio não passa afinal de um 
homem; e haverá algo mais caduco, mais mise- 
rável, mais insignificante do que um homem? 
Não é capaz a sabedoria de melhorar nossas 
condições naturais: “sob a influência do medo 
o corpo torna-se lívido e molhado de suor, a 
lingua embaraçada; extingue-se a voz, pertur- 
ba-se a vista, zumbem os ouvidos, todo o orga- 
nismo se relaxa e desmantela”? *. Não pode o 
sábio, mais do que qualquer um, impedir que 
instintivamente se fechem os olhos à ameaça 
de um golpe, nem que lhe tremam as pernas à 
beira de um precipício, tal qual ocorreria com 
uma criança. A natureza quis reservar para si 
esses pequenos sinais de seu poder a que não 
escapam nossa razão nem a virtude dos estói- 
cos, e assim o quis porque nos lembra que 
somos mortais, e pouco pesamos. O medo fá- 
lo empalidecer, a vergonha corar, a cólica 
gemer ao menos em surdina, senão desespera- 
damente: “jamais poderia imaginar que está 
livre de qualquer acidente”2º. Os poetas que 
tudo acomodam à sua fantasia não ousam can- 


23 Horácio. 


24 Lucrécio. 
25 Terêncio. 


tar heróis incapazes de chorar: “Assim falava 
Enéias debulhado em lágrimas enquanto a 
frota vogava a toda vela” 28. Que o sábio se 
contente, pois, com conter e moderar seus ins- 
tintos; aniquilá-los não está em seu poder. 

O próprio Plutarco, juiz perspicaz, ao consi- 
derar que Bruto e Torquato mandaram matar 
os próprios filhos, duvida que a virtude possa 
levar a tanto e pergunta se alguma paixão não 
os terá movido. Todos os atos humanos que 
sáem fora do comum prestam-se a más inter- 
pretações, tanto mais quanto não admitimos 
nem o que se acha acima nem o que se coloca 
abaixo do que aprovamos. 

Sem buscar nossos exemplos nessa seita que 
professa expressamente a altivez? 7, atentemos 
para a outra que dizem mais fraca?º e ouça- 
mos as fanfarronadas de Metrodoro:“Domi- 
nei-te, ó destino, e te reduzi à impotência, bar- 
rei todas as avenidas pelas quais podias chegar 
a mim.” Quando Anaxarco, por ordem de 
Nicocreonte, tirano de Chipre, deitado em leito 
de pedra, esmagado a marteladas repete sem 
cessar: “Batei, quebrai, não é Anaxarco que 
estais macetando, é seu invólucro”; quando 
vemos os mártires proclamar na fogueira: 
“este lado já está bem assado, passemos ao 
outro agora”; quando Josefo assinala aquela 
criança que, com o corpo rasgado pelas tor- 
queses e traspassado pela sovela de Antíoco, o 
desafiava ainda clamando com voz firme: 
“Tirano, perdes o teu tempo; sinto-me à vonta- 
de. Onde essa dor de que me ameaçavas? Onde 
os tormentos? E tudo o que sabes fazer? 
Minha tenacidade aborrece-te mais do que me 
causa pena a tua crueldade. Covarde imbecil! 
Cansas-te e eu estou cada vez mais decidido. 
Faze com que me queixe, me lamente, me 
renda, se o podes. Reanima a coragem de teus 
satélites e de teus carrascos. Não podem mais. 
Carecem de nervos. Dá-lhes novos instru- 
mentos de tortura e que se encarnicem”; quan- 
do vemos semelhantes fatos, somos por certo 
levados a reconhecer que essas almas têm algo 
errado e estão presas de uma espécie de frene- 
si, O qual, por santo que seja, continua sendo 
frenesi. 

Quando deparamos com essas saídas da es- 
cola estóica: “prefiro ser louco furioso a ser 
voluptuoso”, como diz Antístenes, ou como 
observa Sêxtio: “prefiro o abraço da dor ao 
abraço da volúpia”; quando Epicuro parece 
deleitar-se com a gota e recusando alegremente 
repouso e saúde desafia o mal que pode atin- 
gi-lo, e desdenhando as dores que suporta não 


26 Virgilio. 
27 Os estóicos. 
28 Osepicuristas. 


170 


as combate, antes as conclama maiores e mais 
dignas dele, “não se preocupando com esses 
animais tímidos, desejaria que um javali furio- 
so o atacasse ou que um leão de ruiva juba 
descesse das montanhas” 2º, logo percebemos 
que tais invectivas provêm de uma coragem 
exasperada pela própria superexcitação. 

Nossa alma em condições normais não 
poderia erguer-se tão alto. É preciso que ela 
saia de seu estado habitual, que se eleve e, 
tomando o freio nos dentes, arraste o seu 
homem tão longe que, em voltando a si, ele 
próprio se espante do que fez. É o que ocorre 
na guerra onde o calor do combate empurra os 
valentes soldados a tão ousadas aventuras que, 
voltando a si, são os primeiros a tremer de 
susto. Fato análogo se observa nos poetas que, 


28 Virgílio. 


MONTAIGNE 


transportados de admiração por suas próprias 


. obras, não compreendem como puderam pro- 


duzi-las, o que se denomina neles estro e entu- 
siasmo poéticos. Um homem sério, diz Platão, 
baterá em vão à porta da poesia. Por seu lado 
Aristóteles pretende que; por perfeita que seja, 
a alma não está isenta de uma pitada de loucu- 
ra, € chama com razão loucura a esses vôos 
que, embora louváveis, ultrapassam nossa inte- 
ligência e nossa razão. A sabedoria não é 
outra coisa senao uma orientação regular dada 
à nossa alma, a fim de a conduzir com medida 
e equilíbrio. E assim sustenta Platão a sua 
tese: “Sendo a faculdade de profetizar superior 
as nossas luzes, necessário se faz que nos 
encontremos fora de nós quando a praticamos; 
o sono, a doença, paralisam então nossa inteli- 
gência ou uma inspiração divina a domina.” 


CaPpíTULO III 


A propósito de um costume da ilha de Ceos 


Dizem que filosofar é duvidar. Com maior 
razão ainda fantasiar e divagar. Cabe porêm 
aos aprendizes inquirir e indagar; e só aos 
mestres resolver. O meu mestre é a autoridade 
da vontade divina, a qual sem contestação pos- 
sível nos rege, pairando acima das vãs indaga- 
ções humanas. 

Tendo Filipe entrado no Peloponeso com 
seu exército, disse alguém a Damidas que os 
lacedemônios muito iriam sofrer se não pedis- 
sem mercê. “Poltrão”, exclamou Damidas, 

“que podem sofrer os que não temem a 
morte?” Perguntaram a Ágis como devia fazer 
um homem para viver livre: “desprezando a 
morte”, respondeu. Tais palavras, e outras 
semelhantes, que se ouvem a esse respeito, 
implicam evidentemente outra coisa que não 
apenas aguardar a chegada da morte, pois há 
na vida numerosos acidentes que fazem sofrer 
mais do que a morte. Haja vista aquele menino 
da Lacedemônia feito prisioneiro por Anti- 
gono e vendido como escravo. Instado a um 
trabalho abjeto, respondeu: “Vais ver quem 
compraste; seria uma vergonha fazê-lo, tendo 
a liberdade a meu alcance.” E precipitou-se do 
alto da casa. Antíipatro ameaçava duramente 
os lacedemônios a fim de os obrigar a atender 
a uma de suas exigências: “Se tu nos amea- 


ças”, responderam eles, “com Coisas piores do 
que a morte, preferimos morrer.” A Filipe, que 
os advertia de que faria malograr tudo o que 
empreendessem, observaram: “Quererás impe- 
dir-nos de morrer?” Eis por que se diz que o 
sábio vive quanto deve e não quanto o poderia; 
e o que de melhor recebemos da natureza e que 
nos tira todo direito de queixa, foi a possibili- 
dade de desaparecer quando bem quisermos. 
Criou ela um só meio de entrar na vida, mas 
cem de sair. Podemos carecer de terras para 
viver; não faltam para morrer, como diz Boio- 
catus em sua resposta aos romanos: “Por que 
te queixas deste mundo? Não te convém? 
Vives infeliz? Culpa apenas a tua covardia. 
Para morrer basta desejá-lo; a morte está em 
toda parte, devemo-la à bondade dos deuses; 


“podem tirar a vida a um homem: não lhe 


podem tirar a morte. Mil caminhos abertos a 
ela conduzem”*º. | 

E não se trata dE receita para uma só doen- 
ça. A morte é um remédio para todos os males, 
é um porto de inteira segurança que não é de se 
temer jamais e sim de se procurar não raro. 
Tudo consiste nisto: que o homem decida aca- 


bar, que corra à frente de seu fim ou o aguarde, 


3º Sêneca. 


agees 


ENSAIOS — II 171 


é sempre ele que está em causa: em qualquer 
ponto que se rompa o fio, ei-lo fora do jogo. É 
a extremidade do rojão que arrebenta ao ser 
atingida pelo fogo. A morte voluntária é a 
mais bela.Nossa vida depende da vontade de 
outrem; nossa morte, da nossa. Em nenhuma 
coisa, mais do que nesta, temos liberdade para 
agir. A reputação não atinge tal empresa, é to- 
lice pois qualquer respeito. Viver é ser escravo, 
sem a liberdade de morrer. 


De costume a cura só se obtém em detri- 
mento da vida; fazem-nos incisões, cauteri- 
zam-nos, privam-nos de alimento, tiram-nos 
sangue; um passo a mais e eis-nos curados 


para sempre. Por que não teríamos a liberdade 
de nos cortar a garganta, como temos a de pro- 
ceder a uma sangria? Quanto mais grave a 
doença tanto mais exigente de remédio enérgi- 
co. Sérvio; o gramático, sofrendo de gota não 


achou solução melhor do que tomar um vene- 
no que lhe paralisou as pernas. Conquanto se 
tornassem insensíveis, pouco lhe importava 
ficassem impotentes. Deus muito faz por nós 
em nos dando a possibilidade de agir como 
entendemos desde que julguemos ser a vida 
pior do que a morte. Ceder ao mal é sinal de 
fraqueza, mas entretê-lo é loucura. Conside- 
ram os estóicos que o sábio obra de acordo 
com a natureza quando abandona a vida, 
ainda que se sinta feliz, desde que a deixe no 
momento oportuno; e é próprio do louco afer- 
rar-se à existência quando ela é insuportável. 
Assim como não violo as leis contra os ladrões 


quando carrego meus haveres e tomo minha. 


bolsa a mim mesmo; nem as leis contra os 
incendiários quando queimo a minha lenha; 
não desobedeço tampouco às que punem o 
assassínio quando me tiro a vida. Hegésias 
dizia que, dependendo de nós as condições de 


nossa vida, devemos dispor igualmente das 


condições de nossa morte. Diógenes, ao encon- 
trar de liteira o filósofo Espeusipo de há muito 
atacado de hidropisia, exclamou: “Não te de- 


sejo nada, já que desejas viver no estado em . 


que estás.” Algum tempo depois, cansado de 
tão penosa existência, Espeusipo suicidou-se. 


Mas quantas objeções a isso ! Alguns consi-- 


deram que não podemos abandonar este 
mundo em que estamos aquartelados, sem 
ordem expressa de quem nele nos colocou; e a 
Deus, que para cá nos enviou não apenas para 
nosso prazer mas para-.sua glória e serviço de 
nossos semelhantes, cabe despedir-nos quando 
Lhe agradar e não quando nós o desejarmos. 
Não nascemos apenas para nós, mas também 
para a nossa terra. As leis, em seu próprio inte- 
resse, exigem que prestemos contas de nós e 
podem punir-nos como homicidas; por outro 


y 


lado, no outro mundo seremos castigados por 
deserção: “além, mantêm-se acabrunhados de 
tristeza os que, embora não hajam cometido 
crime nenhum, se deram a morte por ódio à luz 
e para rejeitar o fardo da vida ” 31, 


Há mais coragem em esperar que caiam por 
aí, roídos peio uso, os ferros de nosso cativei- 
ro, do que em os quebrar nós mesmos. Régulo 
foi mais forte de ânimo que Catão. São a falta 
de discrição-e a impaciência que nos induzem 
a apressar o momento fatal. A virtude real- 
mente digna desse nome não cede ante nenhum 
acidente, qualquer que seja; males e doenças 
são por assim dizer seu alimento; ela os procu- 
ra. As ameaças dos tiranos, os tormentos, os 


“carrascos animam-na e a fortalecem: “Assim o 


carvalho nas negras florestas do Álgido; des- 
bastado pelo machado, apesar de suas perdas e 
chagas, recobra novo vigor sob o ferro que o 
talha”*2, Pode-se ainda dizer com esses auto- 
res: “a virtude, meu pai, não consiste como 
pensas em temer a vida, mas em nunca fugir 
dela e em enfrentar a adversidade”33. “Na des- 
graça é fácil desprezar a morte; e há mais 
coragem em saber ser infeliz”? *. 

É sinal de covardia, e não de virtude, ir aga- 
char-se em um buraco sob o túmulo maciço, a 
fim de escapar aos golpes do destino. Por 
maior que seja a tempestade, a virtude não 
modifica seu caminho nem seu passo: “que o 
universo partido se desmantele, sem temor ela 
ficará sob as ruínas”3 5. O mais comum é que 
cheguemos à morte para fugir de outros incon- 
venientes; por vezes mesmo é para fugir desta 
que vamos a ela: “Digam-me, peço, morrer de 
medo de morrer não será loucura?”* * Assim 
fazem os que com receio do precipício nele se 
atiram: “O pavor do perigo faz que nos atire- 
mos ao perigo. O homem corajoso é o que 
enfrenta o perigo se preciso e o evita se possi- 
vel?º 7. “O homem temeroso da morte desgos- 
ta-se da vida, fica com horror à luz; mata-se 
ele próprio, esquecido de que a fonte dos males 
é o medo de morrer” 38. À 

Platão em suas leis ordena que uma sepul- 
tura ignominiosa se reserve a quem prive da 
vida seu parente mais próximo e seu melhor 
amigo, em outras palavras, ele próprio, e assim 
interrompa o curso do destino, sem a tanto ser 
constrangido pela opinião pública, por algum 


31 Virgílio. 
*2 Horácio. 
33 Sêneca. 

34 Marcial. 
35 Horácio. 
368 Marcial. 
37 Lucano. 
38 TLucrécio. 


192 


triste e inevitável acidente da sorte, por uma 
insuportável vergonha, tendo tido apenas 
como móvel a covardia ou a fraqueza de um 
espírito temeroso. Desdenhar a vida é ridículo, 
porque afinal de contas a vida é nosso ser, 
nosso tudo. As coisas de essência mais rica e 
nobre podem acusar nossa vida; é porém ir de 
encontro à natureza desprezar-se a si mesmo e 
odiar-se; é uma doença de gênero especial que 
não se depara em nenhuma outra criatura 
senão o homem. É também vaidade desejar- 
mos ser diferentes do que sornos; um tal desejo 
não leva a nada: contradiz-se e traz em si o 
obstáculo à sua realização. Quem deseja que o 
homem se faça anjo, não trabalha por si; se 
seu desejo se realizasse, não o aproveitaria, 
pois não mais existindo não poderia regozijar- 
se com a transformação e sentir-lhe os efeitos. 
“Nada há que temer de um mal futuro, se não 
devemos existir quando esse mal ocorrer”3º.A 
segurança, a indolência, a impassibilidade, a 
isenção dos males da vida, que compramos 
pelo preço da morte, não se nos tornam de 
nenhuma vantagem. É por nada que evita a 
guerra quem não pode gozar a paz; por nada 
que foge da pena quem não pode saborear o 
repouso. 


Entre os que pensam seja lícito suicidar-se, 
um ponto é controvertido: quando as circuns- 
tâncias justificam suficientemente que um 
homem se mate? Embora admitam que causas 
insignificantes possam muitas vezes motivar 
semelhante resolução, tendo tudo na vida 
importância relativa, cabe estabelecer uma 
medida. Há disposições de espírito inteira- 
mente desprovidas de sentido e lógica que 
levaram não somente homens, mas também 
povos, à autodestruição. Citei exemplos, mas 
eis mais outro: em seguida a um entendimento 
nascido de loucura furiosa, as jovens de Mileto 
puseram-se a enforcar-se umas após outras, O 
que só terminou quando o magistrado, inter- 
vindo, determinou que arrastassem pela cida- 
de, inteiramente nuas e com a corda ao pesco- 
ço, as que assim haviam morrido. 


Tericião instava junto a Cleômenes para 
que se matasse, dado o mau estado de seus 
negócios. Visto que escapara a uma morte hon- 
rosa no combate perdido, aceitasse outra, a 
qual, embora o sendo menos, privaria o vence- 
dor de lhe impor uma morte — ou uma vida 
— vergonhosa. Cleômenes, com uma coragem 
bem lacedemônia e realmente estóica, recusou 
o conselho por considerá-lo covarde e efemina- 
do: “eis ” disse “um recurso que não me falta- 
rã nunca e de que não me valerei enquanto 


3º Lucrécio. 


MONTAIGNE 


houver a menor parcela de esperança; viver é 
por vezes dar prova de ânimo e valentia; quero 
que minha própria morte seja útil a meu país, 
seja um ato que testemunhe minha coragem e 
me honre”. Tericião, coerente com suas idéias, 
matou-se. Cleômenes também, mais tarde, mas 
somente depois de ter tentado até o fim vencer 
a sorte. Nenhum dos males da vida justifica 
que nos suicidemos para o evitar. Ademais, as 
coisas humanas estão sujeitas a tais reviravol- 
tas, que se faz dificil julgar em que momento 
nos cumpre renunciar a qualquer esperança: 
“Estendido na arena, o gladiador vencido espe- 
ra ainda viver, quando já a multidão ameaça- 
dora faz o gesto da morte” *º. 


O homem tem o direito de tudo esquecer 
enquanto vive, diz um aforismo antigo. Sim, 
atalha Sêneca, mas por que dizer que a sorte 
tudo pode para quem estã vivo, em vez de afir- 
mar que ela nada pode contra quem sabe mor- 
rer? Conhecido é o caso de Josefo que, achan- 
do-se em grave perigo por se haver sublevado 
o povo inteiro contra ele, não podia, razoavel- 
mente, esperar qualquer salvação; aconselhado 
por alguns de seus amigos a matar-se, seguiu o 
caminho de se obstinar na esperança. Contra 
toda previsão humana, a sorte mudou e Josefo 
se viu salvo sem ter sofrido dano algum. Não 
perderam Cássio e Bruto os últimos restos da 
liberdade romana, de que eram os sustentá- 
culos, pela precipitação que mostraram em se 
matar antes que as circunstâncias o exigissem 
realmente? 


Na batalha de Cérisoles, o Sr. de Enghien 
tentou por duas vezes atravessar a garganta 
com sua espada, nc desespero de ver o comba- 
te perder-se no lugar em que se encontrava. E 
com essa precipitação quase deixou de gozar 
uma bela vitória. Vi cem lebres fugirem quan- 
do estavam quase nos dentes dos cães. “Há 
quem tenha sobrevivido ao seu carrasco” *!. 
“O tempo, os diversos acontecimentos podem 
acarretar mudanças felizes; não raro em seus 
jogos a sorte caprichosa volta àqueles que 
enganou e os eleva” 42. 


Plínio disse que há três espécies de doença 
em virtude das quais temos. o direito de nos 
matar para as evitar, e cita como a mais dolo- 
rosa de todas a pedra quando obstrui a bexiga 
e ocasiona retenções de urina. Sêneca só admi- 
te as que comprometem durante muito tempo 
as funções do espírito. Outros são de parecer 
que para abreviar uma morte dolorosa pode- 
mos matar-nos quando o julgamos conve- 


10º Pentádio. 
41 Sêneca. 
42 Virgílio. 


ENSAIOS -— II 173 


niente. Demócrito, chefe dos etólicos, levado 
em cativeiro para Roma, descobriu certa noite 
um meio de fugir; perseguido pelos guardas e a 
ponto de lhes cair nas mãos, atravessou o pró- 
prio corpo com a espada. Antinoo e Teódoto, 
cidadãos do Epiro, vendo sua cidade prestes a 
ser destruída pelos romanos, aconselharam a 
todos que se matassem. Tendo vencido a idéia 
da rendição, decidiram-se eles pela morte e, a 
fim de a buscar, atiraram-se contra O inimigo, 
esforçando-se unicamente por atacar, sem se 
preocuparem com a própria segurança. Quan- 
do há poucos anos a ilha de Gozo caiu em 
poder dos turcos, um siciliano que aí se achava 
e tinha duas belas filhas em idade de casar, 
matou-as com as próprias mãos, bem como a 
mulher que acorrera para as socorrer; isso 
feito, saiu à rua com uma besta e um arcabuz 
e, ao se aproximarem os turcos, descarregou 
suas armas matando os dois primeiros. Em 
seguida, de espada na mão, precipitou-se con- 
tra os outros. Imediatamente cercado, foi pica- 
do em pedaços, escapando da escravidão de- 
pois de haver livrado os seus do mesmo risco. 
As mulheres judias, a fim de fugir à crueldade 
de Anúoco, jogavam-se em um precipício com 
os filhos depois de os mandar circuncidar. 
Contaram-me que estando na prisão certo se- 
nhor de elevada condição social, seus parentes, 
avisados de que seria seguramente condenado 


à morte, para obviar a vergonha do suplício 
pediram a um padre que lhe transmitisse o 
meio certo de se libertar: que se recomendasse 
a tal ou qual santo com tal ou qual promessa e 
que ficasse oito dias sem tomar o menor aii- 
mento, por mais fraco que se sentisse. Acredi- 
tou ele nisso e assim, sem pensar, libertou-se 
da vida e do perigo em perspectiva. Escribônia 


aconselhou seu sobrinho a suicidar-se antes 
que se desse a intervenção da justiça, mos- 
trando que era precisamente ir ao encontro da 
vontade dos outros conservar a vida para a 
entregar nas mãos dos que dentro de três ou 
quatro dias o viriam buscar. E que guardar seu 
sangue para que o bebessem seus inimigos era 
em verdade servi-los. 


Lê-se na Bíblia que Nicanor, perseguindo os 
fiéis, mandou alguns guardas se apoderarem 
de Razias, ancião de grande virtude, por todos 
respeitado e apelidado o “Pai dos judeus”. 
Vendo-se perdido, queimada a sua casa e 
quase em mãos do inimigo, esse homem de 
bem procurou matar-se com sua espada, prefe- 
rindo morrer nobremente a sofrer um trata- 
mento indigno de sua condição. Com a pressa 
o golpe falhou e ele correu a jogar-se de cima 
de um muro sobre os assaltantes e, em tendo 
estes se afastado, caiu de ponta cabeça. 


Conservando entretanto um resto de vida, 
mediante terrível esforço levantou-se e, ensan- 
guentado e ferido, forçou o cerco a fim de 
alcançar um rochedo a pique. Mas exausto, 
obrigado a parar, arrancou com as mãos as 
entranhas por um dos ferimentos, despedaçan- 
do-as e as jogando à cara dos perseguidores. E 
invocava o testemunho dos céus para a justiça 
de sua causa, apelando para a vingança divina. 

Entre as violências perpetradas contra a 
consciência, as que mais se devem evitar, a 
meu ver, são as que dizem respeito à castidade 
das mulheres, tanto mais quanto envolvem o 
prazer físico, razão pela qual a resistência não 
pode ser total, unindo-se necessariamente à 
força certa aquiescência inconsciente da viti- 
ma. À história eclesiástica venera a memória 
de muitas santas que preferiram a morte aos 
ultrajes que os tiranos infligiram à sua religião 
e à sua consciência. Pelágia e Sofrônia, ambas 
canonizadas, mataram-se, a primeira jogan- 
do-se ao rio com sua mãe e suas irmas a fim de 
evitar a brutalidade dos soldados, e a segunda, 
para escapar à insistência do Imperador 
Maxêncio. 

Talvez os séculos vindouros venham a lou- 
var esse sábio parisiense“? que se esforça por 
persuadir as mulheres de não tomarem tão 
desesperada resolução em casos análogos. 
Lamento que esse autor não tenha conhecido, 
a fim de reforçar sua argumentação, as pala- 
vras que ouvi de uma senhora de Tolosa, a 
qual passara pelas mãos de alguns soldados: 
“Louvado seja Deus, pois ao menos uma vez 
em minha vida me fartei sem pecar.” Matar-se 
por causa de semelhante aventura é, em verda- 
de, uma crueldade indigna da doçura dos cos- 
tumes franceses. Graças a Deus, depois de tais 
conselhos vemo-nos vingados dessas cruelda- 
des, pois basta que as mulheres digam “não” 
enquanto sofrem a violência, segundo a regra 
do bom Marot* *. 

A história está cheia de exemplos de pessoas 
que trocaram pela morte uma vida difícil de se 
suportar. Lúcio Arúncio matou-se, dizem, “a 
fim de fugir do passado tanto quanto do futu- 
ro”. Grânio Silvano e Estácio Próximo a quem 
Nero perdoara, mataram-se para não dever a 
vida a um homem tão cruel, e não se expor a 
um segundo perdão, em virtude da facilidade 
com que esse indivíduo desconfiado ouvia as 
acusações aos homens de bem. Spargapizes, 
filho da Rainha Tômiris, feito prisioneiro por 


f 


*3 Na opinião de Thibaudet: Henri Estienne, autor 
de “Apologia de Heródoto”. (N. do T.) 

4º Clement Marot, poeta francês contemporâneo 
de Montaigne, autor de epístolas muito espirituosas. 
(N. do T.) 


174 


Ciro, aproveitou a primeira oportunidade que 
lhe deu o monarca, para se matar, pois da 
liberdade não queria senão a possibilidade de 
punir-se pelo fato de se ter deixado aprisionar. 
Boges, governador de Eijone, no tempo de Xer- 
xes, estando sitiado pelos atenienses sob as or- 
dens de Cimon, recusou as propostas de reti- 
rada em segurança, não podendo resignar-se a 
sobreviver à perda daquilo que seu senhor lhe 
confiara. Depois de defender a cidade até esgo- 
tar os últimos recursos, e já sem víveres, man- 
dou jogar no rio Estruma o ouro e tudo o que 
pudesse ser aproveitado pelo inimigo. Acendeu 
em seguida imensa fogueira em que jogou suas 
mulheres, seus filhos, suas concubinas e seus 
servidores previamente degolados e na qual se 
precipitou então ele próprio. 

Ninachetuen, senhor indiano, tendo ouvido 
que o vice-rei português, sem motivo aparente, 
premeditava destituí-lo do cargo que ocupava 
em Malaca a fim de dá-lo ao rei de Campar, 
tomou a seguinte resolução: mandou erguer 
um palanque mais comprido do que largo, sus- 
tentado por colunas, ricamente atapetado, 
ornamentado de flores e impregnado de perfu- 
mes. Vestiu uma túnica bordada de ouro, guar- 
necida de pedras preciosas, saiu à rua e subiu 
ao tablado a uma das extremidades do qual 
ardia uma fogueira de madeiras aromáticas. 


Acudiu o povo para ver a que se destinavam 
tais preparativos inesperados, e Ninachetuen 
expôs então, com semblante corajoso, mas sem 
esconder seu ressentimento, Os serviços presta- 
dos por ele à nação portuguesa. Disse da 
eficiência com que desempenhara os cargos 
que tivera e acrescentou que tendo demons- 
trado sempre de armas na mão ser para ele a 
honra mais preciosa do que a vida, não falha- 
ria agora. E tendo-lhe a sorte recusado qual- 
quer outro meio de se opor à injúria que lhe 
era feita, sua coragem ordenava-lhe não sobre- 
viver à desonra, não constituir motivo de mofa 
para O povo nem colaborar para o triunfo de 
gente de pouco valor. E, assim dizendo, preci- 
pitou-se na fogueira. 


Sextília, mulher de Escauro, e Páxea, mu- 
lher de Labeo, a fim de encorajar os maridos a 
evitar, com a morte, OS perigos que os ameaça- 
vam e cujas conseguências elas só sentiriam 
como esposas, sacrificaram voluntariamente a 
vida, querendo com isso não somente dar o 
exemplo, mas ainda acompanhâ-los. O que 
essas heroínas fizeram com seus consortes, fê- 
lo por sua pátria Coceio Nerva, menos util- 
mente por certo mas com igual determinação. 
Esse grande jurisconsulto, que tinha saúde, 
riqueza, reputação e prestígio junto ao impera- 
dor, matou-se unicamente por considerar la- 


MONTAIGNE 


mentável a situação do governo de Roma. 
Nada porêm pode ultrapassar em estranheza a 
morte da mulher de Fúlvio, que era amigo de 
Augusto. Tendo este percebido qué Fúlvio 
divulgara um segredo importante, acolheu-o 
muito mal certa manhã. Fúlvio voltou para 
casa desesperado e disse à mulher que ante tão 
grande desgraça estava resolvido a suicidar-se, 
ao que ela respondeu de imediato: “Fazes bem, 
pois já tendo verificado várias vezes que eu 
não sei calar, não tomaste nenhuma precau- 
ção; mas deixa que me mate em primeiro 
lugar.” E sem nada acrescentar mergulhou 
uma adaga no seio. 


Quando do cerco de Cápua pelos romanos, 
Víbio Viro, descrente de salvar a cidade bem 
como da generosidade do inimigo, depois de 
discutir longamente no Senado as medidas 
possíveis de defesa, chegou à conclusão de que 
a morte era o melhor meio de lutar contra a 
má sorte; que os inimigos os respeitariam mais 
e Aníbal compreenderia melhor quão fiéis 
eram os amigos que abandonara. Convidou os 
que o aprovavam para um festim em sua casa, 
onde, depois de lauto banquete, beberiam algo 
que livraria seus corpos dos tormentos físicos, 
suas almas das aflições, seus olhos e ouvidos 


do espetáculo que aos vencidos seria imposto 
por vencedores cruéis e despeitados“Providen- 
ciei, acrescentou, para que logo depois de 
nossa morte nossos corpos sejam queimados 
diante de minha residência.” Muitos concor- 
daram com essa resolução de um grande cará- 
ter, mas poucos a seguiram. Vinte e sete sena- 
dores somente juntaram-se a ele, os quais, após 
buscarem no vinho o esquecimento, acabaram 
por tomar a bebida fatal. Abraçando-se então, 
e lamentando o destino do país, retiraram-se 
alguns e ficaram os demais com o anfitrião a 
fim de serem incinerados. A morte de todos foi 
lenta, pois o vinho perturbou o efeito do vene- 
no e muitos correram o risco de ver o inimigo 
entrar em Cápua, no dia seguinte, e de supor- 
tar as misérias que procuravam evitar. 
Voltando o Cônsul Fúlvio da terrível carni- 
ficina em que por sua causa pereceram duzen- 
tos e vinte e cinco senadores, foi orgulhosa- 
mente interpelado por Táurea Jubélio, cidadão 
de Cápua, o qual lhe disse: “manda trucidar- 
me como os demais, e depois poderás vanglo- 
riar-te de teres matado alguém mais valente do 
que tu?. Fúlvio desdenhou essas palavras que 
se lhe afiguravam de um louco, e também por- 
que acabava de receber de Roma uma censura 
à sua crueldade ordenando que sustasse a 
matança. Mas Jubélio continuou: “Visto que 
meu país já estã vencido, que meus amigos 
morreram, que matei minha mulher e meus fi- 


ENSAIOS — II 175 


lhos para lhes evitar as calamidades que acar- 
reta a nossa ruína, e que não posso morrer 
como meus concidadãos, que a coragem me 
ajude a deixar esta vida odiosa.”? E puxando a 
espada que escondera enfiou-a no peito, vindo 
a morrer aos pés do cônsul. 

Assediava Alexandre uma cidade indiana. 


Vendo-se sem mais recursos, os sitiados resol-- 


veram privá-lo do prazer da vitória mediante 
um gesto viril. Incendiaram a cidade e perece- 
ram todos nas chamas, apesar do sentimento 
de humanidade que reconheciam no vencedor. 
E viu-se o fato inédito de uma batalha em que 
os assaltantes se esforçavam por salvar os 
sitiados, os quais para não serem salvos tudo 
puseram em prática como se lutassem pela 
vida. 

Não tendo a cidade de Ástapa, na Espanha, 
fortificações sólidas nem meios de defesa con- 
tra os romanos, juntaram os habitantes os seus 
móveis e riquezas na praça pública, colocaram 
em cima suas mulheres e filhos, cercando tudo 
de lenha e outros materiais combustíveis. 
Encarregando cinquenta jovens da execução 
de seus projetos, saíram todos para o ataque, 
jurando morrer desde que não lhes era possível 
vencer. Enquanto isso os cinquenta jovens pro- 
cediam à matança dos seres vivos que encon- 
travam, precipitando-se em seguida no fogo. 
Sua liberdade chegava ao fim e assim não se 
impressionavam com essa perspectiva, graças 
ao ato generoso que lhes poupava a dor e a 
vergonha de perdê-la, ato pelo qual mostravam 
que, se a sorte não lhes tivesse sido contrária, 
poderiam ter tido a coragem de tirar-lhes a 
vitória, como também torná-la frustrada e hor- 
renda, e até mortal, pois numerosos eram os 
adversários que, atraídos pela isca do ouro em 
fusão, se aproximavam demasiado das chamas 
sufocando-se é se queimando, porquanto não 
podiam recuar sob a pressão dos outros que vi- 
nham atrás. 


Os habitantes de Abido, em idêntica situa- 
ção, tomaram igual resolução. Tarde demais, 
porém. O Rei Filipe, a quem repugnava assis- 
tir a tão cruel e precipitada carnificina, depois 
de apreender todos os tesouros e móveis que 
queriam queimar ou deitar ao mar, retirou seus 
soldados e concedeu-lhes três dias para qué 
pudessem pôr em execução com mais ordem e 
serenidade o projeto de matança em massa. 
Durante esses três dias o sangue correu e 
verificaram-se cenas que ultrapassaram tudo o 
que o mais cruel inimigo poderia cometer. 
Ninguém sobreviveu. 


A história relata bom número de resoluções 
análogas, tomadas por populações inteiras. 
Impressionam tanto mais quanto atingem 


todos sem exceção, e no entanto são menos 
dificeis de ocorrer com multidões do que com 
indivíduos isolados, pois o raciocínio que não 
fariam sozinhos aceitam-no quando coletivo. 
A febre que nos agita, reunidos, obnubila a 
razão de cada um em particular. 

No tempo de Tibério os condenados à 
morte, quando executados pelo carrasco, per- 
diam seus bens e eram privados de sepultura. 
Os que se adiantavam e se matavam a si pró- 
prios, eram inumados e podiam, mediante 
testamento, dispor de suas riquezas. 


Deseja-se as vezes a morte, na esperança de 
um bem futuro: o desejo de morrer, disse São 
Paulo, “para estar com Jesus no outro 
mundo”. E de outra feita: “quem me romperá 
os laços que aqui me retêm?” Tendo lido o 
“Fedon”, de Platão, Cleômbroto de Ambrácia 
viu-se presa de tal desejo da vida futura que, 
sem motivo, se precipitou no mar. Vemos por 
esses exemplos quanto erramos em atribuir ao 
desespero certas mortes voluntárias, a que nos 
induz por vezes uma esperança radiosa e que 
também são, não raro, consequência de deter- 
minações tomadas com calma, maduramente 
refletidas. 


Jacques de Chatel, Bispo de Soissons, que 
acompanhara São Luís em uma de suas expe- 
dições de além-mar, vendo que a volta do rei 
com seu exército era coisa decidida, quando os 
interesses religiosos que a fizeram empreender 
não tinham sido ainda atendidos, resolveu 
apressar sua entrada no Paraíso. Disse adeus 
aos amigos e sozinho, às vistas de todos, cami- 
nhou contra o inimigo, sucumbindo. Em um 
reino desse continente recém-descoberto, em 
certos dias de procissão solene o ídolo que 
adoram é levado em triunfo sobre enorme 
carro. Durante a procissão numerosas pessoas. 
cortam pedaços de sua carne para Os oferecer 
em homenagem, enquanto outras, prosternan- 
do-se, deixam-se esmagar sob as rodas, a fim 
de conquistar uma reputação de santidade que 
as torne veneradas depois da morte. A morte 
desse bispo comparada a tais sacrifícios 
demonstra mais grandeza, porém o sentimento 
religioso parece menor, mascarado em parte 
pelo entusiasmo na luta. 


Houve governos que estabeleceram os casos 
em que a morte voluntária era justificável e 
oportuna. Em nosso país mesmo, em Marse- 
lha, conservava-se outrora à custa do tesouro e 
sempre à disposição do público um pouco de 
cicuta para os que quisessem abreviar seu fim. 
Era necessário que antes o conselho dos seis- 
centos, que representavam o Senado, apro- 
vasse as razões do suicida, Não era permitido 
matar-se sem a autorização do magistrado ou 


LG a MONTAIGNE 


sem motivos legais. Esta lei existiu também 
alhures. : 

Sexto Pompeu, a caminho da Ásia, passava 
pela ilha de Ceos no Negroponto. Aí, relata 
um membro de seu séquito, aconteceu que uma 
senhora da alta sociedade, que advertira seus 
concidadãos de seu suicídio, explicando-lhes 
os motivos, solicitou de Pompeu que a hon- 
rasse com sua presença. Ele aceitou o convite € 
depois de ter longamente e em vão tentado 
demovê-la, empregando todos os recursos de 
sua maravilhosa eloqtência, consentiu em que 
ela agisse como decidira. Tinha ela mais de 
noventa anos e se achava em pleno gozo de 
suas faculdades físicas e mentais. Estendida 
sobre um leito magnificamente ornamentado, 
apoiando-se sobre o cotovelo, assim falou: “O 
Sexto Pompeu, que os deuses, antes os que 
deixo nesta terra do que os que vou encontrar, 
te protejam por não teres desdenhado ser meu 
conselheiro dos últimos instantes e testemunha 
de minha morte. Sempre fui favorecida pela 
fortuna, mas com receio de que me abandone 
em se prolongando demasiado a minha vida, 
renuncio em circunstâncias felizes aos poucos 
dias que ainda poderia viver; e parto, deixando 


duas filhas e uma legião de sobrinhos!” Isso 
dito, deu alguns conselhos aos seus, exortan- 
do-os a viverem unidos e em paz, procedeu à 
partilha de seus bens, recomendou seus deuses 
domésticos à sua filha mais velha, e, segu- 
rando com mão firme a taça, solicitou de Mer- 
cúrio que a conduzisse a algum lugar agradá- 
vel do outro mundo e, de uma só vez, engoliu o 
veneno. A partir de então, não cessou de se 
entreter com os presentes acerca da marcha da 
intoxicação, indicando as diferentes partes do 
corpo que se iam finando até o momento em 
que, sentindo os efeitos nas entranhas e no 
coração, chamou suas filhas para os derra- 
deiros ritos e a fim de lhe cerrarem os olhos. 

Conta Plínio que em certa nação hiperbórea 
o clima é tão ameno que a vida dos habitantes 
só termina por vontade própria. Cansados de 
viver, fartos da existência, ao alcançar uma 
idade avançada, depois de um bom jantar, 
arrojam-se ao mar do alto de um rochedo des- 
tinado a esse uso. 

Somente a insuportável dor ou a certeza de 
uma morte pior do que o suicídio se me afigu- 
ram motivos justificáveis para abandonar a 
vida. 


CaPpíTULO IV 


Fiquem para amanhã os negócios 


Entre todos os nossos escritores franceses, 
coloco em primeiro lugar, e com razão, creio, 
Jacques Amyot. Não somente pela simplici- 
dade e clareza de seu estilo (no que ultrapassa 
os demais), não apenas pela persistência que 
precisou ter para levar a cabo tão longo traba- 
lho como a tradução de Plutarco, mas também 
pelos conhecimentos aprofundados que lhe 
permitiram, com tamanha felicidade, exprimir 
um amor tão difícil e conciso, pois digam o 
que disserem, embora eu nada entenda de 
grego, vejo sua tradução apresentar um sentido 
tão adequado e seguro, que sou impelido a 
concluir que, ou ele lhe apreendeu admiravel- 
mente as idéias ou praticou tão amiudada- 
mente o autor que delas se impregnou — e tão 
fortemente — que nada lhe acrescenta susce- 
tível de o desmentir ou contradizer. E lhe sou 
grato ainda por ter escolhido, entre muitas, 
uma obra de tal mérito e atualidade. 

Nós outros, ignorantes, estaríamos perdidos 
se esse livro não nos houvesse arrancado do 


tremedal em que andávamos mergulhados. 
Graças a ele, ousamos hoje falar e escrever, € 
até as mulheres podem dar lições aos mestres- 
escola. É nosso breviário. Se esse excelente 
homem ainda vivesse, eu lhe indicaria Xeno- 
fonte como igualmente digno de ser traduzido. 
Seria tarefa mais fácil e mais adequada à sua 
idade avançada. E depois, parece-me que, ape- 
sar da facilidade e da precisão que evidencia 


nos trechos difíceis, seu estilo é mais pessoal e. 


natural quando não tem pressa e escreve a 
vontade * 8. 

Estava naquele trecho em que Plutarco, 
falando de si mesmo, conta que Rústico, assis- 
tindo em Roma a uma de suas conferências, 
recebeu uma mensagem do imperador e aguar- 
dou o fim da palestra para abri-la, discrição 


que valeu a esse personagem a calorosa apro- 


“5 A frase é confusa, porquanto não se esclareceu 
bem se Montaigne se refere a Amyot ou a Xenofon- 
te. Não se encontraram notas arespeito. (N. do T.) 


ENSAIOS — II 


vação da assistência. A anedota é contada a 
propósito da curiosidade, essa paixão ávida e 
insaciável de notícias, de novidades, que nos 
impele a tudo abandonar com indiscrição e 
impaciência, para nos entretermos com o 
recém-chegado; e que nos induz a abrir sem 


mais demora as cartas recebidas, onde quer 
que estejamos. Plutarco tem razão em louvar a 
reserva de Rústico; podia ter acrescentado o 
elogio de sua polidez e cortesia, porquanto 


assim agiu com o fim de não perturbar o 
conferencista. Não creio, porém, que lhe 
devesse elogiar a prudência, pois quando se 
recebem cartas inesperadas e em particular do 
imperador, diferir a leitura talvez se torne real- 
mente grave. 


O defeito contrário é a displicência, a que 
me inclino por temperamento, e conheci quem 
a levasse a ponto de guardar no bolso, sem 
abrir, as cartas que recebera três ou quatro 
dias antes. Quanto a mim, nunca abri as que 
me confiaram nem as que o acaso me pôs nas 
mãos, e perturba-me a consciência deitar sem 
querer o olhar sobre algum escrito de impor- 
tância que porventura alguém leia perto de 
mim. Nunca houve quem se preocupasse 
menos com as coisas alheias. 


No tempo de nossos pais, M. de Boutiêres 
quase perdeu Turim porque, jantando em boa 
companhia, adiou a leitura de uma advertência 
que lhe entregaram acerca da traição tramada 
na cidade sob seu comando. Plutarco afirma 
que Júlio César se houvera salvo se, a caminho 


JF. 


do Senado, no dia em que foi morto pelos 


- conjurados, tivesse lido o relatório que lhe 


apresentaram. O mesmo autor nos conta que 
na noite em que se executou o projeto arquite- 
tado por Pelópidas para matar Árquias, tirano 
de Tebas, e devolver a liberdade à sua pátria, 
um ateniense homônimo lhe escreveu uma mis- 
siva relatando o que se tramava. Árquias rece- 
beu a carta durante a ceia e deixou de abri-la, 
dizendo estas palavras que se tornaram prover- 
biais em Atenas: fiquem para amanhã os 
negócios. 

A meu ver um homem prudente, por educa- 
ção, a fim de não cometer uma descortesia 
para com as pessoas em cuja companhia se 
encontra, como fez Rústico, ou a fim de não 
interromper algo importante de que se ocupe 
no momento, pode adiar para mais tarde o 
conhecimento de uma notícia que lhe enviam. 
Mas será indesculpável se não o fizer por inte- 
resse ou prazer pessoal, principalmente quan- 
do ocupa um cargo público, caso em que lhe 
cabe até interromper seu repouso e seu sono. 
Outrora em Roma, havia, à mesa, o lugar dito 
consular, considerado o mais honroso, e era o 
de mais fácil acesso ou retirada, o que bem 
demonstra que, embora à mesa, não se desinte- 
ressava o seu ocupante dos demais negócios 
nem dos acontecimentos que pudessem ocor- 
rer. Mas pode-se ter dito tudo acerca das ações 
humanas, sempre será dificil traçar uma regra 
de conduta que obvie às surpresas do acaso, 
por mais justa que pareça do ponto de vista da 
razão. 


CAPÍTULO V 


Da consciência 


" RE ca ed 


Achando-nos certa vez em viagem durante == 
“as“nossãs guerras civis, meu irmão, Sr. de la. 
Broóusse, e eu, encontramos um fidalgo de boa 
aparência. Era do partido contrário mas eu 
não o sabia, porquanto simulava ser dos nos- 
sos. Ai está um dos maiores percalços dessas 
guerras: as cartas tanto se misturaram que o 
inimigo não se distingue do amigo de um 
modo visível, nem pela lingua nem pela condu- 
ta; condicionam-se a idênticos costumes e leis, 
têm igual aparência, sendo assim difícil evitar 
a confusão e a desordem. Isso me levava 
mesmo ao receio de encontrar os nossos exér- 


DES 


os 
> Feitogcem um lugar Ermque.eu não fosse conhe- 


“cido, do que resultaria ter” dificuldade.emzpro=* = 
var minha identidade e-expor-me assim aos 
piores vexames, como me aconteceu de uma 
feita, quando perdi homens e cavalos e um 
pajem, morto estupidamente, fidalgo italiano 
que eu vinha educando cuidadosamente e 
muito prometia. 

Nosso companheiro de jornada estava tão 
apavorado, eu o via tão desnorteado cada vez 
que deparávamos com alguns grupos de cava- 
leiros ou que atravessávamos cidades do parti- 
do do rei, que acabei por adivinhar que seus 


SEA 


178 | MONTAIGNE. 


temores provinham de uma consciência intran- 
quila. Parecia-lhe que, em sua fisionomia e 
através das cruzes que trazia ao casaco, se 
liam seus mais íntimos pensamentos, tal o efei- 
to maravilhoso e irresistível da consciência. 
Obriga-nos a nos denunciarmos, a combater- 
mo-nos a nós mesmos e, na ausência de qutra 
testemunha, depõe contra nós: “servindo ela 
própria de carrasco e fustigando-nos com láte- 
go invisível?“ 8. 

Eis uma anedota que está sempre na boca 
das crianças: um Sr. Besso, da Peônia, a quem 
censuravam por ter destruído, sem motivo 
plausível, um ninho de pardais e matado os 
filhotes, respondeu que não o fizera semi razão, 
pois as avezinhas não cessavam de acusá-lo 
erroneamente do assassínio de seu pai. Esse 
parricida permanecera até então ignorado, mas 
as fúrias vingadoras da consciência fizeram 
que fosse denunciado por quem devia arcar 
com a punição, isto é, por ele mesmo. Diz Pla- 
tão que o castigo segue de perto o pecado. 
Hesíodo assim retifica o aforismo: nasce o cas- 
tigo no momento mesmo em que nasce o peca- 
do. Quem quer que receie o castigo já o está 
recebendo. E quem o merece o apreende. A 
maldade engendra os próprios. tormentos: “o 
mal recai em quem o faz”*??. Assim a vespa, 
ao picar, perde o ferrão e com este as suas for- 
ças, para sempre: “deixa a vida no ferimento 
que provoca”*8. As cantáridas trazem em si o 
contraveneno de seu veneno. É o que também 
ocorre com quem se compraz no vício; engen- 
dra um desprazer que lhe atormenta a cons- 
ciência, na vigília como no sono: “numerosos 
culpados revelam durante o sono ou o delírio 
da febre, crimes de há muito escondidos”*º. 
Apolodoro via em sonhos os citas esfolarem- 
no, jogarem-no dentro de uma ' marmita, 
enquanto sua alma murmurava: sou a causa 
desses suplícios. O mau, diz Epicuro, não tem 
onde se esconder, porque não tem certeza de 
estar escondido, pois que sua consciência o 
denuncia a si próprio: 'o primeiro castigo do 
culpado estã em não poder absolver-se a-Seus 
próprios olhos ”*º. san Sae 

Se a consciênciaznõs inspira temor, dá-nos” 
iBudihtente-segirânça e confiança. Posso afir- -. 
mar que me conduzir em várias circunstâncias 
difíceis com muito maior decisão em virtude 
da convicção intima em que estava da pureza 
de minhas intenções e de minha vontade de 
não desistir: “Enche-se a alma de esperança ou 


“8 Juvenal. 
37 Aulo Gélio. 
48 Virgílio. 
48 TLucrécio. 
5º Juvenal. 


temor segundo o testemunho que damos de nós 
a nós mesmos”*1. E há mil exemplos disso. 
Contentar-me-ei com três. 

Estava Cipião certa vez sob grave acusação 
contra ele lançada diante do povo romano. Em 
vez de se desculpar ou procurar enternecer os 
Juízes, disse-lhes: “Não vos cabe, em verdade, 
Julgar uma acusação capital contra quem vos 
deu o poder de julgar o mundo inteiro.” Outra 
vez, em lugar de se defender contra as imputa- 
ções de que era alvo por parte de um tribuno 
do povo, exclamou: “Cidadãos, como respos- 
ta, iremos render graças aos deuses pela vitória 
que me deram contra os cartagineses e cujo 
aniversário se festeja hoje.” Tendo Catão inci- 
tado Petílio a pedir-lhe que prestasse contas 


. dos dinheiros postos à sua disposição para 


administrar a província de Antioquia, Cipião, 
no Senado, apresentou seu caderno de notas 
afirmando que receita e despesas aí se inscre- 
viam com fidelidade. E como o instassem para 
que o depositasse no arquivo, recusou obser- 
vando que não desejava impor a si mesmo 
semelhante humilhação; e o rasgou em peda- 
ços. Não penso que alguém com a consciência. 
suja pudesse demonstrar igual confiança em si. 
Cipião tinha naturalmente um belo caráter e 
estava habituado à fortuna, escreve Tito Lívio, 
para se rebaixar à defesa de sua inocência. 

A tortura é uma invenção perigosa que pare- 
ce antes pôr à prova a resistência à dor do que 
a sinceridade. Quem a não pode suportar 
esconde a verdade tanto quanto quem a supor- 
ta; pois por que a dor o levaria a confessar o 
que é mais do que o que não é? E, inversa- 
mente, se quem não cometeu o que lhe recrimi- 
nam é bastante resistente para suportar a tor- 
tura, por que não o há de ser o culpado que em 
tal circunstância joga a vida? Penso que o 
emprego desse processo tem sua origem na 
ação da consciência; dir-se-ia que no culpado 
em a enfraquecendo ela colabora com a tortu- 
ra e o induz à confissão, enquanto fortalece a . 
determinação do inocente. Em verdade, tráta- Ee 
se de um meio cheio. de incertezas &-perigos,| a 
poisa «querray se ha de dizer é fazer à fim de ob- 
viar a tais suplícios? “A “dor obrnigadspróprio — 
inocente a mentir ”52. Daí ocorre que aqueles a 
quem o juiz inflige a tortura para não se expor 
a condenar um inocente, na realidade morre 
inocente e torturado. Mil e muitos acusados 
sob os efeitos da tortura confessam o que não 
fizeram. Entre esses incluo Filotas, a julgar 
pelas circunstâncias do processo que lhe 
moveu Alexandre e os resultados das torturas 
a que foi submetido. Como quer que seja e em- 


51 Ovídio. 
82 Públio Siro. 


ENSAIOS — II 


bora se diga que é o que de menos falho encon- 
trou o homem em sua fraqueza, para chegar à 
verdade, considero a tortura um processo inu- 
mano e bem pouco útil. 

Muitos povos, menos bárbaros a esse res- 
peito do que os gregos e os romanos que assim 
os chamavam, achavam horrível e cruel tortu- 
rar alguém cuja culpabilidade não estivesse 
estabelecida. Que culpa terá ele de nossa igno- 
rância? Não somos injustos em obrigâá-lo a 
suportar coisa pior do que a morte, a fim de 
não matá-lo sem razão? E não se negará que 
assim seja, pois vemos muitos inocentes prefe- 
rirem a morte a submeter-se a tal meio de 
informação mais penoso do que a execução e 
que pela sua violência não raro acarreta de 


179 


antemão a morte. Não me lembro onde deparei 
com este caso; mas ele mostra bem como enca- 
rar esse processo justiceiro: diante de um gene- 
ral de exército muito rigoroso, uma camponesa 
acusava um soldado de ter roubado a seus fi- 
lhos o pouco de sopa que lhes restava. Não 
havia prova. O general depois de advertir a 
mulher acerca do alcance do que dizia e de 
chamar sua atenção para a responsabilidade 
que assumia, mandou abrir o ventre do solda- 
do a fim de verificar o fundamento da acusa- 
ção. E aconteceu que a camponesa tinha 
razão. Condenação instrutiva *3. 


83 Que instrufa ao mesmo tempo o processo. (N. 
do T.) 


CapíTULO VI 


Do exercício 


É dificil que o raciocínio e o conhecimento, 
se bem que nossa convicção nos ajude, sejam 
assaz poderosos para nos levar à ação se, ade- 
mais, não nos exercitamos, e pela prática não 
adaptamos a alma ao que queremos. De outro 
modo, no próprio momento de agir ela se 
encontrará em dificuldade. Eis por que os filó- 
sofos que visaram à perfeição não se conten- 
taram com aguardar na serenidade do repouso 
os rigores da sorte. De medo de que ela nos 
achasse desprevenidos e inexperientes para a 
luta, foram-lhe ao encontro, enfrentando riscos 
e tormentos de moto próprio, renunciando uns 
a suas riquezas, a fim de se acostumarem a 
uma pobreza voluntária, exercitando-se outros 
por meio das mais duras tarefas e austeridades 
de uma vida de privações, em se calejarem. 
Outros ainda se mutilaram, privando-se de 
seus órgãos mais preciosos, Como os olhos ou 
as partes genitais, com receio de que, sentindo 
exagerado prazer em seu uso, tivessem enfra- 
quecido a alma. 

Mas não nos é possível exercitar-nos a mor- 
rer, o que constitui entretanto a mais árdua ta- 
refa que nos cumpre enfrentar. Podemos, pelo 
hábito e a experiência, fortalecer-nos contra a 
dor, a vergonha, a indigência, etc. No que con- 
cerne à morte só a podemos experimentar uma 
vez, e quando chega não passamos todos nós 
de aprendizes. 

Houve outrora homens tão ciosos de bem 
empregar seu tempo, que procuraram, ao pas- 


sarem da vida à morte, fixar suas impressões € 
analisá-las. Mas nenhum deles voltou para nos 
comunicar o que pôde aprender: “Jamais acor- 
da quem, uma vez, adormeceu no frio repouso 
da morte” 8 *, 

Um nobre romano, Cânio Júlio, dotado de 
notável coragem e caráter, entre outras provas 
espantosas de sua resolução, deu a seguinte: 
condenado à morte por esse monstro que se 
chamou Calígula, ao ser executado pelo car- 
rasco e ouvindo de um filósofo seu amigo: 


"* “Então, Cânio, qual o teu estado de alma neste 


momento? Em que pensas?”, respondeu: 
“Penso. em estar preparado para morrer e em 
procurar com todas as minhas forças, neste 
instante tão curto, verificar o que sentirá 
minha alma, se experimentará algum tremor 
ao separar-se do corpo, e se eu conseguir algo 
hei de voltar, em podendo, para dizê-lo a meus 
amigos.” Eis um filósofo que continuou filó- 
sofo até durante a morte. Quanta coragem, 
quanta firmeza de ânimo em desejar que ela 
servisse de lição, em conservar uma tal liber- 
dade de espírito, em poder pensar assim noutra 
coisa em semelhante ocasião! “Que domínio 
tinha sobre a alma na hora da própria 
morte !?8 8 

Parece-me contudo que haja possibilidade 
de nos familiarizarmos com a morte, de apre- 


54 Lucrécio. 
85 Lucano. 


180 


ciá-la de perto. Podemos tentar a experiência, 
se não inteira e perfeita, ao menos em condi- 
ções em que nos seja proveitosa, fortalecendo 
nossa coragem e dando-nos alguma segurança. 
Se não podemos alcançá-la, podemos aproxi- 
mar-nos dela, reconhecê-la. Se não podemos 
penetrar no edifício, podemos palmilhar as 
avenidas de acesso. Não sem razão, compa- 
ram-na ao sono, que mui parecidos são. Com 
que facilidade adormecemos, perdemos a 
noção da luz e de nós mesmos, quase sem nos 
apercebermos. Talvez esse sono que nos priva 
momentaneamente de movimento e sensação, 
se nos afigurasse inútil e inexplicável se não 
víssemos nisso uma lição da natureza, a de que 
estamos destinados tanto a morrer como a 
viver. Para que nos acostumemos e não tenha- 
mos receio, ela nos mostra no decurso da vida 
o estado que nos reserva para quando deixar- 
mos a existência. 


Quem, em consequência de algum acidente, 
desmaiou e perdeu por completo o conheci- 
mento das coisas, esteve, imagino, bem perto 
da morte natural. Quanto ao instante preciso 
da passagem da vida à morte não há como 
temer que comporte esforço ou dor. Pois nada 
podemos sentir sem a presença do tempo. Nos- 
sas sensações precisam de tempo para serem 
sentidas e o tempo é demasiado curto no 
momento da morte. É a aproximação da morte 
que cabe temer, e essa aproximação é passível 
de estudo. 


Muitas coisas parecem maiores quando pen- 
samos nelas do que quando com elas depara- 
mos. Passei boa parte de minha existência em 
perfeita saúde, não somente ignorando a doen- 
ça, mas ainda cheio de vida e atividade. Esse 
estado de verdor e alegria fazia-me temer a tal 
ponto a enfermidade que, ao experimentá-la, a 
achei menos horrivel do que imaginara. Eis um 
fato que se repete cotidianamente comigo: se 
me encontro comodamente aquecido no meu 
quarto durante uma noite de tempestade, 
tremo pelos outros e me apiado deles. No 
entanto, se me acho eu próprio na tempestade 
não procuro sequer um refúgio. Estar constan- 
temente fechado dentro de um quarto; pare- 
cia-me insuportável. Uma doença que muito 
me aborreceu, mudou-me e me enfraqueceu a 
ponto de me obrigar a guardar o leito durante 
cinco semanas. Verifiquei então que, quando 
estava com saúde, os doentes me pareciam 
muito mais dignos de pena do que eu em idên- 
tica circunstância e que minha apreensão 
dobrava quase a desgraça real. Espero que 
ocorra o mesmo quanto à morte e que ela não 
valha em verdade todo o esforço que faço para 
me preparar a recebê-la dignamente, nem 


MONTAIGNE 


todos os recursos que tento juntar a fim de 
resistir a seu ataque. Em todo caso não con- 
vém negligenciar nenhum de seus aspectos. 

Quando da terceira, ou segunda (não me 
lembro exatamente) guerra de religião, estando 
um dia a passear a uma légua de minha casa 
situada no centro do teatro das guerras civis € 
julgando-me em segurança, pensei não me ser 
necessário mais do que um cavalo ágil mas 
pouco resistente. Ao voltar, uma circunstância 
inesperada fez que me visse forçado a exigir 
dele mais do que podia dar. Procurando auxi- 
liar-me, um de meus homens, grande e forte e 
que cavalgava um atlético rocim duro de boca, 
quis mostrar sua habilidade e chegar antes de 
seus companheiros, de modo que se precipitou 
a todo galope diante de mim e caiu com seu 
peso colossal sobre o homenzinho e o cavali- 
nho que éramos nós, jogando-nos ambos de 
pernas para o ar. Assim ficou o cavalo ator- 
doado e eu sem sentidos, a doze passos, de cos- 
tas para o chão, todo machucado e esfolado, a 
espada ao longe, a cinta em pedaços. Foi, até 
agora, o único desfalecimento que tive. Os que 
me acompanhavam, depois de tudo fazer para 
que voltasse a mim, acreditaram-me morto. 
Tomando-me então nos braços, transporta- 
ram-me com muita dificuldade durante cerca 
de meia légua francesa até a minha casa. No 
caminho, após duas horas durante as quais es- 
tive como morto, comecei a fazer alguns movi- 
mentos e a respirar. Tamanha quantidade de 
sangue se expandira em meu estômago que a 
fim de aliviá-lo teve a natureza de provocar 
uma reação. Puseram-me em pé e eu expeli em 
grandes golfadas um balde cheio de sangue 
puro. Várias vezes durante o caminho o fato 
ocorreu. Graças a isso comecei a recuperar mi- 
nhas forças, mas aos poucos, e tanto tempo foi 
preciso que a princípio o que eu sentia partici- 
pava mais da morte que da vida: “porque 
ainda incerta de sua volta, a alma atônita não 
pode afirmar-se 5 8. 


Essa recordação, que se gravou fundamente 
em meu espírito, de um acidente em que a 
morte me apareceu por assim dizer com o 
aspecto que deve realmente ter, causando-me a 
impressão que devemos sentir, essa recordação 
reconcilia-me até certo ponto com ela. Quando 
comecei a ver de novo, minha vista estava tão 
turva, tão fraca, extinta, que não discerni a 
princípio senão um pouco de luz: “cómo 
alguém que, meio acordado meio dormindo, 
ora abre os olhos e ora os fecha ”º 7. Quanto às 
funções do espírito, voltavam à vida junta- 


56 Tasso. 
57 Td. 


ENSAIOS — TI 181 


mente com o corpo. Vi-me ensangientado, 
com o gibão empapado de sangue perdido. O 
meu primeiro pensamento foi o de haver rece- 
bido um tiro de arcabuz ra cabeça, pois 
ouviam-se tiros de quando em quando nos 
arredores. Parecia-me que a vida estava sus- 
pensa a meus lábios e eu fechava os olhos a 
fim de ajudá-la a desprender-se de mim, 
comprazendo-me nesse estado de langor e tam- 
bém em me sentir esvair. Em meu espírito 
ocorria a sensação vaga da volta da faculdade 
de pensar, mal definida ainda, mais suspeitada 
do que percebida, sensação terna e doce como 
tudo o que experimentava, não somente isenta 
de desprazer mas ainda lembrando a quietude 
que se apodera de nós ao sermos dominados 
pelo sono. Creio que é nesse estado que se 
devem sentir os que na agonia desfalecem de 
fraqueza. E julgo que deles nos apiedamos sem 
razão, pois imaginamos erroneamente que sua 
agitação provém de dores excessivas ou de 
pensamentos penosos. Sempre fui de opinião, 
contrariamente a outros, inclusive La Boétie, 
que os vemos assim perturbados e acabru- 
nhados nos seus últimos instantes, seja em 
consequência de longa enfermidade, seja de 
ferimentos, de apoplexia ou epilepsia. 

“Muitas vezes um infeliz tomado de mal sú- 
bito cai repentinamente diante de nós como 
que fulminado: a boca espuma, o peito geme, 
os membros tremem; fora de si, retesa-se, tor- 
ce-se ofegante, exaure-se em toda espécie de 
movimentos convulsivos”58. Fui sempre de 
opinião que os que vemos engrolar as palavras 
suspirando fundamente, sem que nada indique 
que ainda estão conscientes nem que estejam 
privados de qualquer movimento, já tinham 
então a alma e o corpo adormecidos e como 
que amortalhados: “vivem sem ter consciência 
de que estão vivos” ºº. E não creio que, dada a 
fraqueza dos membros, o embotamento dos 
sentidos, possa o nosso espirito conservar 
força suficiente para sentir o que quer que seja. 
Portanto, esses moribundos não estão sujeitos 
a pensamentos que os atormentem e lhes reve- 
lem a triste condição em que se acham. Por 
conseguinte não nos devem inspirar piedade. 


Quanto a mim, não sei de nada tão insupor- 
tável e horrível como ter uma alma aflita sem 
poder expressá-lo; assim os que são enviados 
ao suplício após se lhes cortar a língua (se bem 
que nesse gênero de morte uma atitude silen- 
ciosa e uma fisionomia severa e grave sejam o 
que melhor convém), e do mesmo modo os que 
caem nas mãos dos soldados transformados 


8 Lucrécio. 
5º Ovídio. 


em carrascos e que são torturados cruelmente 
a fim de pagarem um resgate impossível, e que 
enquanto não o fazem permanscem presos em 
condições e locais ignóbeis, sem possibilidade 
de tornarem conhecidos os seus pensamentos. 
Os poetas inventaram alguns deuses favoráveis 
à liberação dos que arrastam desse modo uma 
morte lenta: “executo as ordens que recebi”, 
diz Íris, “e liberto o teu corpo cortando o fio de 
cabelo louro consagrado ao deus dos infer- 
nos 2ºº, Às palavras, as respostas breves e sem 
nexo que lhes arrancam em lhes gritando aos 
ouvidos, os movimentos que fazem e parecem 
ter alguma relação com o que se lhes pergunta, 
não são provas de que vivem. Acontece o que 
se verifica quando adormecemos e que o sono 
ainda indeciso não se assenhoreou completa- 
mente de nós: temos, como em sonho, alguma 
idéia do que ocorre em torno de nós, acompa- 
nhamos o que se diz, mas o percebemos ape- 
nas vagamente e de maneira imperfeita que 
mal toca o espírito. Assim as nossas respostas 
participam mais do acaso que da lógica. 

Agora que tive uma experiência, não duvido 
da exatidão de minhas idéias. Antes de mais 
nada, embora desmaiado trabalhava com as 
unhas (pois estava desarmado) para abrir o 
meu gibão e no entanto não tinha a impressão 
de haver sido ferido. Mas temos muitas vezes 
movimentos inconscientes: “os dedos agoni- 
zantes contraem-se e se cerram sobre a lâmina 
que lhes escapa ?º!. Quando caímos, estende- 
mos os braços, em um impuiso natural de nos- 
sos membros que se prestam mútuos serviços € 
se movimentam com autonomia: “dizem que, 
nos combates, os carros armados de foices 
decepam com tamanha rapidez os membros 
dos combatentes que os vemos ainda palpi- 
tantes no chão, antes que a dor de tão súbito 
golpe lhes atinja a alma 2. 

Estava com o estômago oprimido por esse 
sangue coalhado. Minhas mãos o procuravam 
espontaneamente como fazem, sem interven- 
ção de nossa vontade, quando sentimos cocei- 
ras. Há animais — e isso também se vê entre 
os homens — cujos músculos se contraem e 
mexem mesmo depois da morte. E todos 
sabem que certas partes do nosso corpo se agi- 
tam, se retesam e se relaxam sem que haja 
qualquer intenção de nossa parte. Ora, esses 
sofrimentos que mal nos roçam não nos per- 
tencem; para que fossem nossos seria neces- 
sário que nos tomassem por inteiro. Assim, as 
dores que enquanto dormimos nos tomam o pé 
ou a mão, não nos pertencem. 


80 Virgílio. 
81 Virgílio. 
82 Lucrécio. 


182 MONTAIGNE | 


Quando me acerquei de casa, onde já chega- 
ra a notícia do acidente e minha família me 
acolhia com os gritos comuns a tais circuns- 
tâncias, não somente respondi com algumas 
palavras, mas ainda, ao que soube depois, dei 
ordens também para que arranjassem um ca- 
valo para minha mulher que eu via em dificul- 
dades no caminho íngreme e penoso. Dir-se-á 
que semelhante preocupação era prova de ter 
eu recuperado a razão, mas assim não era. 
Eram rasgos de lucidez, confusos, provocados 
pelo que percebiam meus olhos e meus ouvidos 
e que não provinham de dentro de mim. Eu 
não sabia nem de onde vinha nem para onde 
ia; não podia tampouco entender o que me 
perguntavam, nem refletir; o pouco que então 
me era possível fazer ou dizer decorria de 
meus sentidos agindo maquinalmente; o espi- 
rito não participava disso. Este se encontrava 
como em um sonho, ligeiramente impulsio- 
nado pela débil impressão dos sentidos. Contu- 


do a sensação que tinha era de calma e de, 


doçura; não pensava em mim nem em nin- 
guém, estava em um estado de languidez e de 
fraqueza extremas, sem sentir dor alguma. Via 
minha casa mas não a reconheci. Quando me 
deitaram, o repouso causou-me infinito bem- 
estar. Fora terrivelmente sacudido e abalado 
pelos pobres diabos que se haviam revezado 
no transporte de meu corpo durante a longa e 
extenuante caminhada. Deram-me inúmeros 
remédios que eu recusei, certo de que estava 
mortalmente ferido na cabeça. Teria sido, sem 
mentira, uma morte muito agradável, impedin- 
do-me o enfraquecimento da razão de perceber 
o do corpo. Deixei-me ir ao léu, tão suave- 
mente, de maneira tão indolente e fácil que 
nada sei de menos penoso. 

Quando principiei a viver de novo.e a recu- 
perar minhas forças: “quando meus sentidos 
enfim recobraram algum vigor Ӽ3, o que ocor- 
reu duas ou três horas depois, senti-me tomado 
de dores por todo o corpo, com os membros 
moídos pela queda. Sofri tanto durante as noi- 
tes que se seguiram, .que pensei morrer nova- 
mente mas de morte extremamente dolorosa 
então, e até hoje me ressinto do choque causa- 
do pelo acidente. É de se observar que a última 
coisã que pude recordar foi a maneira por que 
se verificou o caso. Tive que fazer com que me 
repetissem várias vezes para onde eu ia, de 
onde vinha, a hora da ocorrência, antes de o 
conceber nitidamente. Quanto à queda mesma, 
escondiam-me os pormenores dela, inventando 
outros, por comiseração para com o culpado. 
No dia seguinte, em me voltando aos poucos a 


63 Ovídio. 


memória, quando me revi no estado em que es- 
tava ao ver o cavalo jogar-se contra mim (pois 
eu o percebera no momento em que ia cair-me 
em cima e me considerava morto, mas o pen- 
samento fora tão rápido que não tivera medo), 
essa reminiscência foi como um clarão galva- 
nizante e pareceu-me que voltava do outro 
mundo. 

Essa narrativa de acontecimento de tão 
pequena importância seria prova de vaidade, 
não fosse a lição que dele tirei, pois para se 
acomodar ao pensamento da morte creio ser 
preciso ter-se aproximado dela. Ora, como diz 
Plínio, cada qual é para si mesmo excelente 
objeto de estudo, desde que tenha qualidades 
suficientes para se observar. O que exponho 
aqui não é doutrina, mas experiência; não é 
lição dada por outrem e sim por mim a mim 
mesmo; por conseguinte não me devem censu- 
rar se a comunico, pois o que me é útil pode 
ocasionalmente ser útil aos outros. Ademais 
não prejudico ninguém e, se é tolice, somente 
em mim repercutirá; e em morrendo comigo 
não terá conseguências. Não conhecemos 
senão dois ou três filósofos antigos que assim 
tenham agido, e como os conhecemos apenas 
de nome ignoramos se o fizeram do mesmo 
modo **. Desde então ninguém os imitou. É 
mais difícil do que parece acompanhar o espi- 
rito na sua marcha insegura, penetrar-lhe as 
profundezas opacas, selecionar e fixar tantos 
incidentes miúdos e agitações diversas. É uma 
ocupação inédita e excepcional, mas das mais 
recomendáveis, que nos afasta das ocupações 
habituais a que se entrega em geral a gente. 


Hã vários anos, somente a mim mesmo 
tenho como objetivo de meus pensamentos, 
somente a mim é que observo e estudo; se aten- 
to para outra coisa logo a aplico a mim ou a 
assimilo. E não creio seguir caminho errado 
se, - como fazem com as outras ciências 
incontestavelmente menos úteis, comunico a 
outrem minhas experiências, embora me consi- 
dere pouco satisfeito com meus progressos. 
Não há descrição mais difícil do que a de si 
próprio, nem mais aproveitável, mas é neces- 
sário enfeitar-se, arranjar-se para se apresentar 
em público. Assim, enfeito-me sem desconti- 
nuar, por isso que me descrevo constante- 
mente. 


Costuma-se condenar quem fala de si; O uso. 
o proíbe de modo absoluto por causa dá ten- 
dência para nos vangloriarmos, que sempre 
parece apontar-nos testemunhos que damos de 


84 Montaigne alude a Arquilóquio e Alceu entre os 
gregos e a Lucílio e Marco Aurélio entre os autores 
latinos. 


ENSAIOS — II 


nós mesmos. É como se, para não assoar uma 
criança, lhe arrancássemos o nariz: “não raro 
o medo de um mal conduz a outro maior”*S. 
Um tal remédio se me afigura mais prejudicial 
do que eficaz. Ainda que fosse verdadeiro, que 
houvesse necessariamente presunção em entre- 
ter o público acerca de si mesmo, não poderia, 
querendo manter-me fiel à regra que me impus, 
passar em silêncio o que pode revelar em mim 
essa disposição doentia, desde que existo. É 
um erro que não devo esconder, pois, não 
somente o cometo, como escolhi por profissão 
cometê-lo. Entretanto, para dizer o que penso, 
julgo errado esse costume, pois é como se 
condenassem o vinho porque há quem se 
embriague. Só se abusa das coisas boas e não 
falar de si é uma regra que condena apenas o 
abuso em que podemos cair. São tolices que 
não embaraçaram nem os santos nem os filó- 
sofos; a mim tampouco me apoquentam, em- 
bora esteja tão longe de uns como de outros. 
Se não proclamam que falarão de si, não dei- 
xam contudo de o fazer quando se apresenta 
uma oportunidade. De que fala Sócrates mais 
abundantemente que de si próprio? Para que 
encaminha suas conversações com seus disci- 
pulos, senão para as suas pessoas? E nunca 
para uma lição dos livros mas para os movi- 
mentos da alma e do ser. Nós, católicos, nos 
confessamos a Deus € ao nosso confessor, e os 
protestantes fazem-no em público. Sim, dirão, 
mas confessamos unicamente os nossos peca- 
dos. Ora, confessando-os, tudo dizemos, pois 
até em nossa virtude podemos falhar e ter 
motivos para arrependimento. 


Meu ofício, minha arte, é viver; quem me 
censura falar disso segundo meu sentimento, a 
experiência que tenho e o emprego que dou, 


proíba a um arquiteto referir-se às suas pró- 
prias construções, obrigando-o a comentá-las 
de acordo com as de outrem. Se é vaidade falar 


das coisas que nos valorizam, por que Cícero 
não elogia a eloquência de Hortênsio e este a 
de Cicero? Talvez desejem, para me julgar, 


que eu apresente atos e não palavras. Mas são 
sobretudo os pensamentos que me agitam e, 


em sua forma mal  definida;-não podemtradui 


zir-se por atos; que procuro reproduzir. Já me 
- custa-ríúito traduzi-los pela voz, que é coisa 
aérea e sem consistência. Os homens mais sá- 


bios e prudentes, e os mais devotos, passaram 
a vida evitando qualquer ato exterior. Tais 
atos emanam mais da sorte que de mim; evi- 
denciam o seu papel e não o meu, a não ser de 
maneira conjetural e incerta; são amostras de 


85 Horácio. 


183 


uma parte do indivíduo e não de sua totali- 
dade. Eu me mostro por inteiro, como uma 
peça anatômica, cujas veias, músculos, ten- 
dões, divisamos em seus lugares ao primeiro 
golpe de vista, ao passo que a tosse indica ape- 
nas o que ocorre em certo ponto de nósso ser, 
a palidez e a pulsação o que se verifica em 
outro ponto, e tudo isso de modo duvidoso. 
Não são apenas meus gestos que escrevo, sou 
eu mesmo, é a minha essência. 


Devemos ser prudentes quando nos observa- 
mos e com a mesma consciência nos apreciar 
quanto ao bem e quanto ao mal. Se me acredi- 
tasse bom e avisado, ainda que mais ou menos, 
proclamá-lo- ia em altos brados. Colocarmo- 
nos abaixo do que realmente somos, conside- 
ro-o torpeza e não modéstia; diminuir-se é 
covardia e pusilanimidade, segundo Aristóte- 
les. Não há virtude que acompanhe a falsidade 
e a verdade jamais será objeto de terror. Dizer 
mais do que somos, nem sempre é presunção: é 
por vezes ingenuidade; comprazer-nos em 
ultrapassar a medida é cair no indiscreto amor 
a nós mesmos, O que a meu ver constitui o fun- 
damento desse vício. O único remédio consiste 
em fazer exatamente o contrário do que nos 
ordenam os que nos proíbem falar de nós. mes- 
mos e portanto pensar em nós mesmos. O 
orgulho está no pensamento, bem pequena é a 
participação da língua. 

Preocupar-se. consigo parece aos outros 
admirar-se. Consideram que observar e sondar 
a alma é amá-la exageradamente. Mas este 
excesso só se verifica naqueles que se analisam 


superficialmente, nos que se estudam após seus 
negócios, nos que denominam delírio e ociosi- 
dade a expressão das sensações próprias, nos 
que acham que trabalhar em prol do desenvol- 


vimento cultural é construir castelos na kispa- 
nha, nos que são estrangeiros e indiferentes a si 
próprios. Quem se embriaga com sua ciência 
ao olhar para baixo, erga os-olhos para cima e 


contemple os séculos passados. Baixará o tom 
vendo milhares de espíritos aos pés dos quais 
não poderia elevar-se. Se se sente envaidecido 


com a própria váléntia, pense no que realiza- 
ram-Cipião; Epaminondas e tantos exércitos e 


povos! De nenhuma cir 


se orgulhará quem tenha sempre na memória a 
debilidade, a imperfeição e a miséria inerentes 
à natureza humana. Somente Sócrates pôs em 
prática o. preceito que recebera de Apolo: 
conhece-te a ti mesmo. O que o levou ao des- 
prezo por si próprio e também a ser julgado 
pela posteridade digno do epíteto de sábio. 
Quem assim se conhecer, ouse tornar-se 
conhecido dos outros. 


târnicia C particular" 


Ta aa 
= 


o 


184 


MONTAIGNE 


CarpítuLo VII 


Das recompensas honoriíficas 


Observam os historiadores do Imperador 
Augusto que quando se tratava de serviços 
militares, tinha ele como norma ser exagerada- 
mente pródigo em presentes diversos para com 
quem os merecia, enquanto era muito mais 
parcimonioso em matéria de recompensas 
puramente honorificas. Talvez por lhe ter o seu 
tio prodigalizado todas as recompensas milita- 
res antes mesmo que conhecesse a guerra. É 
uma bela invenção que perdura na maior parte 
dos países, essa de se terem criado, a fim de 
honrar e recompensar a virtude, certas distin- 
ções visando à satisfação da vaidade e sem 
valor em si, tais como coroas de louros, de car- 
valho, de murta, vestimentas de formas parti- 
culares, privilégios de circular de carro nas 
cidades ou à noite com tochas, lugar reservado 
nas cerimônias públicas, sinais específicos nos 
brasões, e coisas semelhantes, variáveis segun- 
do o país. 

Entre nós e entre certos povos vizinhos exis- 
tem ordens de cavalaria que não têm outro 
objetivo. 

Idéia útil e boa, essa de recompensar o méri- 
to de reduzido número de homens de valor 
excepcional, contentá-los e satisfazê-los com 
prêmios que não pesam no tesouro público e 
nada custam ao príncipe. E prova a expe- 
riência que as pessoas de qualidade sempre se 
mostraram mais desejosas dessas recompensas 
que das que lhes dão proveitos pecuniários. O 
que explica e realça o amor que lhes dedicam. 
Se a um prêmio que deve ser puramente hono- 
rífico atribuem vantagens particulares, ou 
remuneração importante, essa mistura em vez 
de aumentar o apreço em que o têm, o diminui 
e o envilece. A Ordem de São Miguel, que foi 


- tão ambicionada durante-algum iémpo-ente 


e re a 4 O E e 
—-=>""n6s, tinha como mãior vantagem a de não con- 


ferir nenhúma. Por isso, outrora, não havia 
cargo ou situação a que mais aspirasse a 
nobreza; nada outorgava maior respeito e 
consideração, aceitando a virtude de prefe- 
rência uma recompensa que constitui seu apa- 
nágio exclusivo por ser mais gloriosa do que 
útil. 

Quaisquer outras recompensas são com efei- 
to menos honrosas, tanto mais quanto servem 


f 


para tudo. Com dinheiro remuneram-se os ser- 
viços de um lacaio, a diligência de um-estafeta, 
o talento de um dançarino ou de um cavaleiro, 
ou de um orador. Todos os serviços que nos 
prestam, mesmo os mais vis, mesmo os vícios, 
assim se pagam: adulação, traição, luxúria. 
Não é pois de espantar que a virtude não aceite 
de bom grado essa espécie de moeda corrente e 
opte pela outra, a que não mancha o caráter 
nobre e generoso que lhe é peculiar. Augusto 
tinha razão no poupáâ-la, tanto mais quanto a 
honra é um privilégio cuja característica essen- 
cial está na raridade, a qual é também inerente 
a virtude: “para quem não enxerga os maus 
não existem os bons” 8. Não se distingue um 
homem que se ocupa da educação de seus 
filhos; não é um título de recomendação, por 
louvável que seja o ato, pois é coisa corri- 
queira. Distingue-se uma árvore grande em 
uma floresta em que todas são iguais? Não 
creio que jamais um cidadão de Esparta se 
haja vangloriado de sua valentia, virtude prati- 
cada por todos. Nem de sua obediência as leis 
e de seu desprezo pelas riquezas. Não cabe 
recompensa para a virtude, por grande que 
seja, quando ela participa dos costumes, E não 
creio mesmo que a consideraríamos grande se 
fosse comum. 

Ássim, não tendo as recompensas honori- 
ficas significação real, senão porque são confe- 
ridas a um pequeno número de pessoas, o meio 
mais fácil de as destruir estã em as conceder 
profusamente. Ainda que houvesse hoje maior 
número de pessoas merecedoras dessa ordem 
— € reconheço que isso possa ocorrer por- 
quanto nenhuma virtude tende a expandir-se 


"mais do que a coragem militar — não é razão 


suficiente=para--que, em..a multiplicando, a 
desacreditem. Além da valentia-que-aqui quali- 


fico como virtude, empregando este vocábulo. 


em sua acepção corrente, existe a virtude 
propriamente dita, que constitui a perfeição e é 
a única que reconhecem os filósofos. De natu- 
reza mais elevada do que a valentia, ao contrá- 
rio desta estende-se a tudo. E consiste nessa 
força de caráter e nessa firmeza de ânimo que 


86 Marcial. 


ENSAIOS — II 185 


tornam a alma indiferente a todas as ocorrên- 
cias felizes ou infelizes; igual, uniforme, cons- 
tante é ela, e dela só minimamente participa a 
valentia. 

Nossos costumes, nossas tradições, os 
exemplos, fazem que a valentia nos seja fami- 
liar e acessível e a tornam bastante comum 
como se pode ver em nossas guerras civis. Se 
alguém pudesse, nesta hora, conseguir a paz e 
dirigir os esforços de todos para um mesmo 
objetivo, veriamos reflorescer com ela nosso 
renome militar. É certo que em outras épocas a 
atribuição dessa ordem não visava apenas a 
virtude da valentia; exigia-se mais e ela nunca 
foi conferida a um soldado unicamente por 
esse motivo. Outorgavam-na aos chefes que se 
tivessem particularmente distinguido. Saber 
obedecer não justificava então tão honrosa 
distinção. Eram necessários também conheci- 
mentos militares evidentes, abarcando a maior 
parte e a mais importante das disciplinas da 
carreira militar: “pois os talentos do soldado e 
do general não são os mesmos”*?. Ademais 
era imprescindível ser de uma condição social 
digna de tão alta recompensa. Como quer que 
seja, ainda que maior número de indivíduos a 
merecessem não se devia ter sido tão liberai. 
Melhor fora não a conferir a todos os que a 
mereciam que a desacreditar definitivamente, 
como aconteceu em virtude do abuso com que 
a distribuíram. Nenhum homem de bem há de 
querer ostentar o que tem em comum com tan- 
tos outros. E em nossos dias os que menos 
mereceram essa ordem honorífica são os que 
mais afetam desdenhá-la, a fim de se colocar à 
altura dos que justamente a receberam e aos 
quais a liberalidade dos que a conferem 
prejudica. 

Depois de ter suprimido essa recompensa, 
criar outra na esperança de vê-la de imediato 
apreciada, é empresa arriscada nestes tempos 
perturbados em que vivemos, e é de imaginar 
que a nova ordem esbarre desde o início nas 


687 Tito Lívio. 


dificuldades que acarretaram a desmorali- 
zação da primeira. Para que se imponha, 
devem as condições em que será atribuída ser 
muito severas e rigorosamente observadas. 
Ora, neste momento confuso não parece possi- 
vel um freio bem ajustado. Sem contar que 
antes de lhe conceder algum crédito será preci- 
so esquecer a precedente e o desprezo em que 
caiu. 

Poderia acrescentar aqui algumas conside- 
rações acerca da valentia e da diferença entre 
essa virtude e as demais. Mas é assunto de que 
Plutarco tratou mais de uma vez e não me 
caberia senão repeti-lo. É de se notar entre- 
tanto que entre nós dá-se à valentia o primeiro 
lugar como o testemunha seu nome, o qual 
vem de valor; e quando dizemos de um homem 
“que tem muito valor” ou que & um homem de 
bem, isso significa na linguagem da Corte e da 
nobreza que é um homem valente. Assim o 
entendiam igualmente os romanos. Entre eles a 
palavra virtude na sua acepção mais ampla 
queria dizer força. Em França somente o servi- 
ço militar concede título de nobreza. É condi- 
ção essencial e exclusiva. É provável que essa 
virtude que primeiro assinalou a superioridade 
de um homem sobre o outro fosse a princípio a 
que mais impressionou. Através dela os mais 
fortes e corajosos dominaram os mais fracos e 
assim granjearam reputação e situação espe- 
cial, o que lhe valeu o lugar tão elevado e hon- 
roso que ocupa em nossa língua. Pode ter 
acontecido também que nossos antepassados, 
de temperamento belicoso, tenham dado pree- 
minência a essa virtude que lhes era familiar, 
designando-a por isso por um vocábulo à altu- 
ra da estima que por ela nutriam. É um senti- 
mento análogo aó que, na nossa paixão pela 
castidade da mulher, faz que ao dizermos uma 
mulher boa, uma mulher de bem, honrada ou 
virtuosa queiramos apenas referir-nos a uma 
mulher casta, como se a fim de obrigá-la a ser 
casta pouca ou nenhuma importância désse- 
mos às outras qualidades e lhe perdoássemos 
quaisquer faltas contanto que continue pura. 


CapíruLO VIII 


Da afeição dos pais pelos filhos 


Senhora, se a originalidade e a novidade que 
em geral valorizam as coisas não me salvarem, 
nunca sairei com honra desta tola empresa. 


Mas ela é tão fantástica e se apresenta sob 
uma forma tão diferente da comum, que talvez 
por isso mesmo seja aceita: Uma melancóiica 


186 MONTAIGNE ! 


disposição de espírito, inimiga de meu tempe- 
ramento natural, mas provocada pelas triste- 
zas da solidão em que vivo sumido hã alguns 
anos, engendrou em mim a idéia de escrever. 
Achando-me inteiramente desprovido de qual- 
quer assunto específico, tomei a mim mesmo 
como objeto de análise e discussão. Concebido 
nessa ordem de idéias, extravagante e fora de 
todas as regras convencionais, meu livro tor- 
nou-se o único do mundo no gênero. À parte 
esse aspecto estranho, não merece ele atrair a 
atenção, pois a tão magro e insosso tema não 
daria relevo o melhor artesão da terra. E, 
senhora, em sendo minha intenção pintar-me 
com a possível exatidão, omitiria um fato 
importante se calasse a homenagem que sem- 
pre prestei a vossos méritos. Essa homenagem 
eu a quis confirmar de maneira especial na 
dedicatória deste capítulo, tanto mais quanto, 
entre as vossas excelsas qualidades, ocupa o 
primeiro lugar a afeição que dedicais a vossos 
filhos. Quem souber da idade em que o Sr. 
d'Estissac vos deixou viúva, dos grandes e 
honrosos partidos que se vos ofereceram, 
como grande dama de França que sois, da 
constância e da resolução com que durante 
muitos anos e em meio a dificuldades inúmeras 
administrastes os bens e negócios de vossos fi- 
lhos percorrendo sem cessar o país, bens e 
negócios que ainda agora vos absorvem, dos 
felizes resultados que alcançastes graças à 
vossa prudência e que alguns atribuirão à 
vossa sorte, quem souber disso tudo dirá comi- 
go por certo que não há entre nós nestes tem- 
pos mais admirável exemplo de afeição mater- 
na. Louvado seja Deus que consentiu fosse 
essa afeição tão bem empregada. As brilhantes 
esperanças que dá de si vosso filho são a 


garantia de que na idade certa tereis dele a gra- 
tidão e a obediência de um excelente menino. 
Por ora não pode ainda compreender os escla- 
recidos € incessantes cuidados que lhe prodiga- 
lizais. Espero que estas linhas se por acaso lhe 
cairem sob os olhos, quando minha boca se 


houver cerrado e minha palavra calado, sejam 
o testemunho desta verdade, a qual lhe será 
melhor comprovada pelos preciosos resultados 
que, se aprouver a Deus, terá então alcançado. 
Não há fidalgo em França que mais deva à sua 
mãe e ele não poderá mais tarde dar melhor 
prova de seu bom coração e de sui virtude 
senão reconhecendo o que fizestes. 

Se alguma lei natural existe, isto é; algum 
instinto que se manifeste sempre em todos, bi- 
chos e gente (embora haja quem diga o contrá- 
rio), é, a meu ver, a da afeição que quem 
engendra dedica ao engendrado, sentimento 
esse que vem logo após o cuidado que cada 


qual tem com sua conservação e com evitar o 
que lhe pode ser nocivo. À própria natureza o 


“parece ter desejado, a fim de que as diferentes 


peças da máquina por ela criada se desen- 
volvam e progridam. Daí não ser de se estra- 
nhar que a afeição da criança pelos pais se re- 
vele menor. À isso se acrescenta a afirmação 
de Aristóteles de que quem faz bem a outrem 
ama-o mais do que é por ele amado; que aque- 
le a quem devem ama mais a seu devedor do 
que este ao seu protetor. Todo operário aprecia 
mais a obra que criou do que por ela seria 
apreciado se ela fosse capaz de ter sentimento. 


O que temos de mais caro é a vida; esta con- 
siste em movimento e ação. Daí uma certa 
compensação geral. Quem dá cumpre um aàto 
belo e honesto; quem recebe apenas faz obra 
útil a si próprio. Ora, o útil agrada menos do 
que o honesto. O honesto é estável e perma- 
nente e proporciona a seu autor uma recom- 
pensa que se perpetua, enquanto o útil se perde 
e a recordação que fica é menos agradável e 
doce. As coisas boas nos são tanto mais caras 
quanto mais nos custam. E dar é mais precioso 
do que receber. 


Posto que aprouve a Deus dotar-nos de al- 
guma capacidade de raciocínio a fim de que 
não nos assemelhássemos aos animais, sujeitos 
às leis comuns, e nos foi permitido aplicá-las 
Judiciosamente de acordo com o nosso arbí- 
trio, devemos atentar para os desígnios da 
natureza, sem contudo nos escravizarmos a 
ela, pois somente a razão deve regular as nos- 
sas inclinações. 


Quanto a mim, não sinto nenhuma simpatia 
por essas inclinações que surdem em nós 
independentemente da nossa razão. Por exem- 
plo, a respeito do que estou comentando, não 
posso conceber que se beijem as crianças 
recém-nascidas ainda sem forma definida, sem 
sentimento nem expressão que as tornem dig- 
nas de amor. Por isso mesmo foi com desa- 
grado que as tive educadas ao meu lado. Uma 
afeição sincera e justificável deveria nascer do 
conhecimento que nos dão de si e com esse 
conhecimento crescer, a fim de que então, se o 
merecerem, e desenvolvendo-se de par com o 
bom senso essa disposição para as amar, che- 
guemos a uma afeição realmente paternal. Se 
não forem dignos desta, nós o perceberemos 
dando sempre ouvido à razão, apesar das 
sugestões em contrário da natureza. Amiúde é 
O inverso que ocorre. Em geral sentimo-nos 
mais comovidos com os trejeitos, os folguedos 
e as bobagens das crianças do que mais tarde 
com seus atos conscientes, e é como se delas 
gostâssemos à maneira de símios e não de 
homens. Há quem as encha então de brinque- 


ENSAIOS — TI 


dos e se neguem, quando já grandes, a efetuar 
a menor despesa em seu benefício. Dir-se-ia 
mesmo que o ciúme de as ver em boas condi- 
ções na sociedade, na hora em que já nos cabe 
abandoná-la, torna-nos mais parcimoniosos e 
avarentos; como se temêssemos tê-las aos nos- 
sos calcanhares a nos empurrarem para fora. 
Isso em verdade não nos deveria comover 


tanto, ou então não deveríamos pensar em ter 


filhos, pois estã na ordem das coisas não pode- 
rem eles existir, nem viver, senão a expensas de 
nossa própria existência. 


Acho cruel e injusto não repartirmos com 
“nossos filhos o gozo de nossos bens, não os 
associarmos aos negócios domésticos, em se 
tornando capazes, nem nada sacrificarmos das 
nossas comodidades para prover as deles 
quando para tanto é que os pomos no mundo. 
Não é justo ver um ancião alquebrado, semi- 
morto, gozar sozinho em um canto do lar os 
bens que dariam para o bem-estar de vários 
filhos, deixando-os perder-se em seus melhores 
anos de vida sem que tenham a oportunidade 
de entrar para o serviço público e de aprender 
a conhecer os homens. Forçando-os ao deses- 
pero, levam-nos a tomar qualquer caminho, 
por pior que seja, a fim de se sustentarem; e 
conheci muitos, de boa família, que se habitua- 
ram ao roubo, a ponto de não mais o abando- 
narem, mesmo sendo severamente punidos. 
Conheço um, de excelente aparência, a quem, 
a pedido do irmão, mui honesto e valente fidal- 
go, interroguei a respeito. Confessou-me fran- 
camente que fora levado a isso pela avareza de 
seu pai e já estava tão habituado a essa vida 
que não a podia mais deixar. Acabava de ser 
surpreendido roubando as jóias de uma senho- 
ra a cujo despertar assistira com outras pes- 
soas. Isso me traz à mente o que me contaram 
de outro fidalgo, tão condicionado a esse belo 
ofício que exercera na mocidade que, entrando 
na posse de seus bens e decidido a renunciar à 
paixão do roubo, não o conseguia entretanto e 
se porventura passava por algum armazém em 
que via algo desejável o roubava, mandando 
pagá-lo depois. E vi outros muitos que por 
impulso e hábito roubavam objetos das pes- 
soas de sua sociedade com a intenção de os 
devolver mais tarde. Sou gascão e no entanto é 
esse um dos vícios que menos compreendo, e o 
detesto mais ainda por temperamento do que 
por razão; mesmo em pensamento não sou ten- 
tado a tirar o que quer que seja de alguém. 
Minha terra ºº é a esse respeito um pouco mais 
desacreditada do que as outras terras de Fran- 


68 A Gasconha. Os gascões tinham fama de 
ladrões. 


187 


ça, bem o sei, e contudo temos visto ultima- 
mente nas mãos da justiça gente de condição 
elevada de outras províncias, acusada de rou- 
bos cometidos em circunstâncias abomináveis. 
Creio que essa depravação pode ser imputada, 
até certo ponto, ao vício que assinalei como 
peculiar acs pais. 


Poderão responder-me, como o fez certa vez 
um senhor de bom senso e mui correto, que me 
disse que, “se economizava, fazia-o apenas a 
fim de poder continuar a ser honrado e procu- 
rado pelos seus, pois tendo-lhe a idade sone- 
gado qualquer outro meio de ação era esse o 
único que lhe restava para conservar sua auto- 
ridade junto à família e para não ser despre- 
zado por todos”. Isso talvez se justifique, mas 
não é somente a velhice que predispõe à avare- 
za; é, principalmente, como observa Aristóte- 
les, a imbecilidade. Eis uma explicação, porém 
o mal é que convém extirpar. Infeliz será o pai 
se a afeição (se é que assim se pode chamar) de 
seus filhos se subordina à necessidade que têm 
dele. E pela virtude e a capacidade que impo- 
mos o respeito, pela bondade e a cordura dos 
costumes que somos amados. As próprias cin- 
zas de uma matéria preciosa têm valor e está 
em nossas tradições respeitar e honrar os ossos 
e os restos das pessoas que se tornaram ilus- 
tres. Por mais caduco e decrépito que se mos- 
tre na velhice, um personagem cuja vida foi 
respeitável não será menos venerável, sobre- 
tudo para seus filhos cuja alma terá sido for- 
mada no sentimento do dever, sob a égide da 
razão e não da necessidade ou do constrangi- 
mento e da autoridade: “engana-se a meu ver 
quem imagina ter sua autoridade mais solida- 
mente assegurada pela força do que pela 
afeição 78º. 

" Sou inteiramente contrário a qualquer vio- 
lência na educação de uma alma jovem que se 
deseje instruir no culto da honra e da liberda- 
de. O rigor e a opressão têm algo de servil e 
acho que o que não se pode obter pela razão, a 
prudência, ou a habilidade, não se obtém ja- 
mais pela força. Fui educado assim, dizem-me, 
desde a minha primeira infância. Só duas vezes 
me bateram e ainda assim com muito cuidado. 
Teria agido da mesma forma com meus filhos, 
mas todos morreram cedo demais. Leonor, a 
única filha que não tive a infelicidade de per- 
der em semelhantes circunstâncias, chegou à 
idade de seis anos — e mais — sem que se 
empregasse para puni-la de seus pequenos 
erros infantis (de que a mãe, na sua indulgên- 
cia, era até certo: ponto culpada), senão pala- 
vras, 6 bem anódinas. Se as esperanças que pus 


8º Terêngio. 


138 


nela viessem a ser desmentidas, a outras razões 
o poderiamos atribuir sem incriminar o meu 
sistema de educação que, estou certo disso, é 
Justo e natural. Com um menino teria obser- 
vado ainda mais fielmente tais princípios, pois 
os rapazes se destinam menos a obedecer aos 
outros e são mais livres; gostaria de desen- 
volver em seu coração a ingenuidade e a fran- 
queza. O único resultado que pude constatar 
no emprego da vara ou do chicote foi tornar as 


almas mais covardes e mais obstinadas no. 


mal. 

Queremos ser amados de nossos filhos? Evi- 
tar que sejam tentados a desejar a nossa morte, 
embora em nenhuma circunstância um tal de- 
sejo se desculpe ou justifique, pois “nenhum 
crime tem justificativa 7º”? Demo-lhes uma 
vida tão razoável quanto possível. Para tanto 
não deveriamos casar muito jovens, a fim de 
que nossa idade não se confunda quase com a 
deles, do que podem decorrer graves: inconve- 
nientes. Digo isso tendo principalmente em 
vista a nobreza que vive na ociosidade e tão- 
somente de suas rendas, pois nas outras classes 
da sociedade são forçados a trabalhar para 
viver e o número de filhos constitui uma fonte 
de rendimento, porque são verdadeiros instru- 
mentos de enriquecimento. 


Casei com trinta e três anos, mas acho que 
deveríamos fazê-lo aos trinta e cinco, como su- 
gere Aristóteles. Platão não quer tampouco 
que casemos antes dos trinta, mas caçoa com 
razão dos que contratam núpcias após os cin- 
quenta e cinco, declarando que sua progeni- 
tura é indigna de viver. Tales fixou melhor 
ainda os limites da idade. Na mocidade, à sua 
mãe, que instava para que casasse, respondeu 
que “ainda não era tempo”. Mais tarde, já 
maduro, objetou “que não era mais tempo”. 
Cada coisa tem sua hora; o que não chega no 
momento certo deve ser afastado. Os antigos 
gauleses consideravam muito repreensível ti- 
vesse o homem relações com a mulher antes 
dos vinte anos e recomendavam expressamente 
aos que queriam seguir a carreira das armas 
que se conservassem virgens durante longos 
anos, pois a energia diminui e se altera ao con- 
tato da mulher: “ele é agora o marido de uma 
jovem, e é pai, essa dupla felicidade diminui- 
lhe a coragem””!. 

Muley Hassem, rei da Tunísia, a quem Car- 
los Quinto devolveu o trono, censurava a 
memória de Maomé, seu pai, pelo abuso que fi- 
zera das mulheres e o considerava pesadão e 
efeminado, capaz tão-somente de fazer filhos. 


7º Tito Lívio. 
71 Tasso. 


MONTAIGNE 


A história grega relata que Jecus de Tarento, 
Crisson, Ástilo, Diopompo e outros, a fim de 
se manterem em boa forma para os jogos olim- 
picos, se privavam de quaisquer relações com 
as mulheres durante todo o tempo do treina- 
mento. Em certas regiões das Índias espanho- 
las não autorizavam o casamento dos homens 
antes dos quarenta anos, embora as mulheres 
pudessem casar aos dez. Um fidalgo de trinta e 
cinco anos não pode oferecer um lugar na 
sociedade a seu filho de vinte; o pai é que está 
na idade de guerrear e frequentar a Corte; pre- 
cisa de todos os seus recursos € se algo deve 
ceder não o fará em detrimento de seus interes- 
ses. E com razão dirá isso que costumam dizer 
os pais: não quero despir-me antes de ir 
dormir. 

Mas um pai acabrunhado pelos anos e as 
enfermidades, obrigado a viver afastado de 
tudo em virtude de sua saúde e da carência de 
forças estã errado, e prejudica aos seus, se con- 
serva sem a usar uma fortuna acima de suas 
necessidades. Em sendo bem-avisado e tendo 
meios, sem se despojar da própria camisa na 
hora de dormir, e conservando ainda um bom 
roupão bem quente, será levado a dar o resto, 
que só serve para uma representação fora de 
suas possibilidades, áqueles que, por direito 
naturai, o deverão herdar. É razoável que lhes 
entregue tais bens, pois que deles não pode 
gozar. Agir de outro modo é sem dúvida agir 
mal e obedecer a um sentimento mesquinho. O 
mais belo gesto de Carlos Quinto foi ter sabi- 
do, a exemplo de alguns antigos de seu quilate, 
reconhecer que a própria razão nos manda 
despojar-nos das vestimentas que pesam dema- 
siado sobre nossos ombros e deitar-nos quan- 
do as pernas fraquejam. Abdicou a glória e o 
poder, entregando-os ao filho no momento em 
que viu se enfraquecerem a tenacidade e a 
força necessárias para dirigir os negócios pú- 
blicos com a grandeza que alcançara: “Já é 
tempo de abandonares teu cavalo velho, se não 
queres vê-lo ofegante, tropeçando ao fim da 
corrida, e ridicularizado” ? 2. 

Esse erro de não saber reconhecer em tempo 
oportuno o enfraquecimento e a profunda alte- 
ração que a idade acarreta às nossas faculda- 
des fisicas e morais, e talvez mais ao espirito 
do que ao corpo, deu por terra com a reputa- 
ção de quase todos os grandes homens do 
mundo. Conheci pessoalmente personagens de 
elevada condição social que souberam con- 
quistar reputação e autoridade em seu bom 
tempo e que na decadência as perderam; para 
o brilho de sua fama houvera querido vê-los 


72 Horácio. 


ENSAIOS — II 189 


retirados em suas casas, tranquilamente, livre 
dos encargos públicos por demais pesados e 
deveres militares que já não podiam cumprir. 
Tive outrora grande intimidade com um fidal- 
go viúvo e muito idoso, mas bastante conser- 
vado. Tinha várias filhas em idade de casar e 
um filho no ponto de ingressar na sociedade. 
Isso redundava para ele em uma fonte de des- 
pesas assaz pesadas e o obrigava a receber 
muita gente, o que não lhe agradava nada, não 
só porque contrariava a sua inclinação para a 
poupança, mas ainda — e em particular — 
porque em razão da sua idade levava uma vida 
diferente da nossa. Disse-lhe um dia, o que era 
ousado de minha parte mas muito dos meus 
hábitos, que se por causa de seus filhos não 
podia evitar os aborrecimentos que lhe causá- 
vamos fora mais inteligente que entregasse a 
casa a seu filho e se retirasse em uma de suas 
propriedades onde ninguém lhe perturbaria o 
repouso. Assim fez mais tarde e não se 
arrependeu. 


Isso não quer dizer que devamos tudo aban- 
donar a nossos filhos sem possibilidade de vol- 
tar atrás. Eu lhes deixaria o gozo da casa e dos 
bens, mas com a condição de revogar essa 
disposição caso me dessem motivo para tanto. 
Dar-lhes-ia o usufruto porque me seria cômo- 


do e quanto à direção geral de meus negócios 
conservaria o que me apetecesse. Sempre pen- 
sei que deve ser grande satisfação para um pai, 
em sua velhice, ter iniciado os filhos na gestão 
de seus negócios e poder assim, ainda em vida, 
julgar sua maneira de agir, ajudando-os com 
os conselhos de sua experiência. Entregando 
ele próprio nas mãos de seus sucessores, com as 
tradições do passado, a honra e a direção de 
sua casa, verifica assim que esperanças pode 
alimentar acerca de seu destino. Não evitaria 
sua companhia € gozaria com eles, na medida 
do possível, das alegrias e festividades. Sem 


viver com eles, o que não poderia fazer sem os ' 


perturbar com o gênio melancólico decorrente 
de minha idade, e com os incômodos de mi- 
nhas enfermidades, bem como sem mudar o 
gênero de vida e regime a que estaria adstrito, 
gostaria de viver perto deles, em algum recanto 
da residência que não seria o mais em evidên- 
cia e sim o mais cômodo. Não faria como o 
decano de Saint-Hilaire de Poitiers que vi há 
tempos confinado em uma tal solidão pela 
melancolia de que fora contaminado que, 
quando entrei em seu aposento, havia vinte e 
dois anos que não saía dele, e no entanto tinha 
os movimentos livres e fáceis e somente sofria 
de um defluxo que lhe passara ao estômago. 
Estava sempre só, fechado no quarto. Uma vez 
por semana permitia que entrassem para visi- 


tá-lo; um criado trazia-lhe a refeição uma vez 
por dia, mas devia entrar € sair apenas. O resto 
do tempo passeava no quarto e lia, pois era 
versado no estudo das letras. Disposto a assim 
continuar até a morte, faleceu pouco depois. 


Com boas maneiras procuraria desenvolver 
em meus filhos uma afeição sincera e impreg- 
nada de benevolência para comigo, o que não é 
dificil conseguir com gente de bons sentimen- 
tos. Mas se fossem animais furiosos como 
nosso século produz aos milhares, trataria de 
odiá-los e fugir deles. 


Sou inimigo desse costume que proíbe às 
crianças chamarem a seus pais, “pai e mãe”, e 
impõe como mais respeitosa uma denomina- 
ção que não acentua o parentesco, como se a 
natureza não coadjuvasse nossa autoridade. 
Damos o nome de pai a Deus Todo-Poderoso 
e não queremos que nossos filhos o empre- 
guem conosco. Eis um erro que corrigi em 
casa. 


É igualmente estultice e injustiça não tratar 
os nossos filhos, quando em idade conveniente, 
com certa familiaridade, e desejar manter em 
relação a eles uma altivez austera e desde- 
nhosa, na esperança de assim os educar no res- 
peito e na obediência. E uma farsa inútil que 
torna os pais aborrecidos e, o que é pior, ridí- 
culos. Tem os filhos por si a mocidade e a 
força, por conseguinte a aprovação da socieda- 
de. As atitudes altivas e tirânicas de um velho 
já sem sangue nas veias fazem sorrir; são 
espantalhos para afugentar os pássaros do jar- 
dim. Mas ainda que me fosse possível tornar- 
me temido preferiria ser amado. Há tantos 
defeitos na velhice, tanta impotência, ela pres- 
ta-se tão bem ao desprezo, que o que de melhor 
pode juntar a seu ativo é a afeição, o amor dos 
seus. O mando e o terror já não são armas em 
suas mãos. 

Conheci alguém que foi muito autoritário na 
mocidade. Atingiu-o a idade, mas ele ainda se 
conserva em boas condições; bate, morde, 
invectiva, mostra-se o senhor mais difícil de 
França; esgota-se em cuidados e vigilância. 
Tudo isso não passa de comédia. Em torno 
dele hã uma verdadeira conjura de que parti- 
cipa sua própria família. A maior parte do que 
existe em sua adega, no seu celeiro, na sua 
bolsa é para os outros, embora ele guarde as 
chaves consigo e delas cuide mais que dos pró- 
prios olhos. Enquanto se contenta com viver 
de poupanças e com uma mesa mesquinha, em 
todos os recantos de seu lar impera o desregra- 
mento; divertem-se, esbanjam, motejam das 
quimeras que criam sua cólera vã e sua previ- 
dência. Todos estão de sentinela; se por acaso 
algum insignificante servidor se revela dedi- 


190 | MONTAIGNE | 


cado a ele, excitam contra o importuno as 
desconfianças do patrão, o que é coisa fácil, 
porquanto tendência natural dos velhos. Mui- 
tas vezes jactou-se ele junto a mim da firmeza 
com que segura as rédeas da casa, da 
obediência absoluta e do respeito que lhe devo- 
tam. Em verdade enxerga muito mal os seus 
negócios! “Só ele ignora o que ocorre em sua 
casa” 73. Não conheço ninguém com maiores 


recursos naturais e de experiência para dirigir 


uma casa e nenhum outro mais enganado; foi 
o que me fez escolhê-lo como exemplo típico 
de casos semelhantes que conheço. Será me- 
lhor assim ou não? Eis uma questão escolás- 
tica que daria margem a muito devaneio. 
Aparentemente cedem sempre, mas trata-se de 
concessão de nenhum alcance; não lhe resis- 
tem, escutam-no, temem-no, respeitam-no 
quanto quer. Despede um criado? Este arranja 
seus trapos e se vai, mas tão-somente para fora 
de sua presença. A velhice é tão vagarosa, seus 
sentidos perturbam-se tão facilmente que dito 
criado continuará a seu serviço durante um 
ano ainda sem que ele o perceba. Ao fim de um 
lapso de tempo suficiente, começam a chegar 
cartas de longe implorando mercê e prenhes de 
promessas, e ei-lo novamente nas boas graças 
do amo. Fecha algum negócio ou escreve algu- 
ma carta desagradável, suprimem-nos e poste- 
riormente se encontra uma desculpa para a 
não execução de suas ordens. Nenhuma carta 
de fora lhe é entregue de imediato; vê apenas 
as que não são de recear que tome conheci- 
mento. Se por acaso põe a mão em alguma que 
se tenha interesse em esconder, como tem por 
hábito passá-la a outrem para que a leia, 
lêem-lhe o que bem entendem. Assim é que não 
raro quem o insulta parece pedir-lhe perdão. 
Em suma, todas as coisas se oferecem a seus 
olhos sob um aspecto satisfatório, regrado de 
antemão, a fim de que não se desperte sua có- 
lera nem seu mau humor. Com variantes 
conheci muitas casas em que os negócios 
domésticos se regulavam de maneira igual- 
mente fantasista. 


As mulheres têm sempre uma tendência 
natural para contrariar os maridos; não per- 
dem uma só ocasião de fazer o contrário do 
que eles querem e a mais tola desculpa basta 
para justificá-las plenamente aos próprios 
olhos. Conheci uma que roubava quantias 
importantes para, como dizia a seu confessor, 
dar esmolas maiores. Ide confiar-vos nessas 
obras pias! Nenhum prazer se lhes afigura 
digno se com ele concorda o marido; para que 
lhes seja agradável e o considerem, é preciso 


73 Terêncio. 


que dele se apropriem com habilidade e autori- 
dade e nunca da maneira por que deveriam 
fazê-lo. Quando acontece, comô no caso acima 
citado, que a mulher tem a ver com um pobre 
ancião e age em benefício dos filhos, isso se 
torna uma verdadeira paixão de que se jacta. E 
para libertar-se ela e os seus da servidão 
comum, chega facilmente a conspirar contra o. 
domínio e a administração do marido. Se os fi- 
lhos já são grandes, não hesitam em subornar 
pela intimidação ou a corrupção o mordomo, 
o agente de negócios e os outros. Quem não 
tem nem mulher nem filhos está mais do que 
os outros ao abrigo dessas desgraças, mas, 
quando nelas cai, é de maneira mais cruel e 
indigna. Dizia Catão, de sua época: “tantos 
criados quantos inimigos”. Não pensais que, 
dada a relativa pureza de seu século, compara- 
tivamente ao nosso, ele diria hoje: “mulher, 
filhos, criados, todos inimigos?” Felizmente a 
decrepitude traz consigo um defeito de clarivi- 
dência, uma ignorância do que se passa em 
torno de nós, uma facilidade em nos deixar 
enganar que são verdadeiros favores dos deu- 
ses. Se assim não fosse e quiséssemos protes- 
tar, que nos aconteceria nestes tempos em que 
os juízes chamados a intervir nas dissensões 
tendem eles próprios a dar razão aos filhos 


interessados na questão. Se não percebo tais 
artes domésticas não quero com isso-dizer que 
me sinta livre de riscos. Por isso nunca se 
encarecerã demasiado a superioridade de um 
amigo sobre essas relações sociais. O que vejo 
na sociedade dos animais inspira-me maior 
respeito pela sua pureza” *. Se os demais me 
enganam, ao menos não me engano a mim 
mesmo, não forjo a ilusão de me acreditar tão 
forte que possa evitar uma armadilha, nem dou 
tratos à bola para alcançar esse privilégio. 
Consolo-me com meus recursos interiores, não 


com curiosidade inquieta e sempre alerta, mas 
com diversões que iríivento e resoluções que 
tomo. Quando ouço contar o que acontece à 
alguém, não me apiado: volto-me para mim 
mesmo e observo em que medida o fato pode- 
ria aplicar-se a mim. Tudo o que diz respeito 
ao próximo me diz respeito igualmente; qual- 
quer acidente que lhe ocorra é uma advertência 
para a qual atento. Todos os dias e a todas as 
horas dizemos de outrem o que mais justa- 
mente poderiamos dizer de nós, se nos, soubés- 
semos observar tão bem quanto aos outros. 
Muitos autores prejudicam sua causa entre- 
gando-se irrefletidamente a ataques contra o 


74 Todo o trecho é confuso. Houve interpolações 
assinaladas por Thibaudet e efetuadas sem dúvida 
por motivos de ordem familiar. (N. do T.) 


ENSAIOS — II 


adversário, lançando-lhe censuras e motejos 
que podem ser devolvidos. 

O falecido Marechal de Monluc tendo perdi- 
do um filho na ilha da Madeira, jovem fidalgo 
que muito prometia, contava-me sua tristeza 
insistindo principalmente sobre o fato de 
nunca ter tido maior intimidade com ele. Para 
conservar em relação a ele a gravidade e a dis- 
tância de que às mais das vezes se reveste a 
autoridade paterna, privara-se voluntariamente 
do prazer de apreciar e conhecer melhor o seu 
filho e também de lhe revelar a profunda afei- 
ção que lhe votava e a estima que lhe dedicava 
por suas qualidades: “esse pobre rapaz, dizia, 
nunca me viu senão carrancudo e aparente- 
mente desdenhoso; levou consigo a crença de 
que eu não o soube amar nem lhe apreciar os 
méritos. A quem deveria eu, senão a ele, 
demonstrar a ternura de meu coração? Com 
ele sem dúvida devia abrir-me para que tivesse 
alguma alegria e gratidão. Esforcei-me, tortu- 
rei-me para conservar essa máscara va de indi- 
ferença; isso me fez perder o prazer de sua 
companhia, bem como de sua afeição, pois 
nunca foi senão maltratado e por vezes tirani- 
camente”. Acho tais sentimentos justos e 
razoáveis. Bem Oo sei, por experiência, que 
nada suaviza mais a tristeza que sentimos com 
a perda de um amigo quanto a certeza de não 
havermos omitido o que quer que fosse do que 
cumpria dizer-lhe, e de ter estado com ele em 
comunicação perfeita de idéias e emoções. 

meu amigo, essa permuta de idéias entrê 
nós terá sido um bem para mim? Ou um mal? 
Foi um bem, sem dúvida; a saudade que con- 
servo de ti honra-me e me consola. É dever pie- 
doso e agradável de minha vida rememorar 
constantemente os fatos que passaram, mas 
cuja privação nenhum gozo compensa? 8. 

Abro-me aos meus o quanto posso e lhes 
mostro de bom grado a disposição de espírito 
em que me acho; assim faço aliás com todos. 
Apresso-me em me apresentar como sou, por- 
que não quero que se enganem. 

Lê-se em César que entre os costumes pecu- 
liares aos nossos antepassados gauleses os fi- 
lhos não se apresentavam aos pais, nem ousa- 
vam aparecer em público com eles, enquanto. 
não atingiam a idade de se armarem, como se 
com isso sugerissem que então chegara o 
momento para os pais de os receberem e se 
mostrarem familiares. 

Tenho observado ainda outro gênero de 


abuso em alguns pais de família. Não satis- 
feitos com ter privado seus filhos de sua parte 


75 Este parágrafo da edição de 1595 figura em 
nota na edição da Pléiade. Achamos melhor interca- 
lá-lo no seu lugar primeiro. (N. do T.) 


191 


na renda que naturalmente lhes devia caber — 
e isso durante longo tempo — deixam a suas 
mulheres a posse de todos os bens com o direi- 
to de disporem deles a seu bel-prazer. Conheci 
um fidalgo que ocupava um dos cargos mais 
importantes de França e que pelos seus direi- 
tos tinha a esperança de receber mais de cin- 
quenta mil escudos de renda e morreu aos cin- 
quenta anos em dificuldades, crivado de 
dívidas, com a mãe inteiramente decrépita 
desfrutando toda a fortuna por vontade do pai, 
O qual vivera cerca de oitenta anos. Isso não 
me parece razoável. E no entanto não vejo 
vantagem em que alguém, em boa situação 
financeira, procure aliar-se a uma mulher que 
lhe traga bom dote; de todas as dívidas que 
podemos ter não hã nenhuma mais suscetível 
de causar a ruína de uma casa. Meus pais 
muito judiciosamente o evitaram. E eu tam- 
bém. Contudo os que se afastam das mulheres 
ricas com receio de que sejam orgulhosas e 
dominadoras, não procedem tampouco ajuiza- 
damente, pois perdem uma vantagem real e 
tangível de medo de uma conjetura duvidosa. 
Uma mulher insensata, não a detém a fortuna 
nem a pobreza: o que gosta é de seus próprios 
erros; o mal a atrai como a virtude atrai as 
boas. As mais ricas são muitas vezes as mais 
cordatas, como não-.raro as mais belas são as 
mais castas. 


É justo que se entregue a gerência dos bens 
dos menores às mães; mas os terá muito mal 
educado o pai se na maioridade não puder 
contar mais com eles do que com a mulher, 
dada a fraqueza inerente ao sexo. Concordo 
entretanto em que é ainda mais antinatural dei- 
xar a mãe dependente dos filhos. É preciso 
provê-la de quanto necessite para manter sua 
posição social, tanto mais quanto a indigência 
é muito mais penosa para a mulher do que 


para o homem. Que sofram antes os filhos, 


portanto, que a progenitora. 

Em geral a melhor partilha que podemos 
fazer de nossos bens ao morrer consiste em 
obedecer aos costumes do país, e as leis os 
levaram em conta melhor do que o faríiamos, e 
é preferível que elas se enganem na escolha a 
incorrermos nós mesmos no erro agindo 
inconsideradamente. Nossos bens, em verdade, 
não nos pertencem, por isso que os disposi- 
tivos legais determinam, sem ponderar a nossa 
vontade, os que os devem possuir depois de 
nós. Embora tenhamos alguma liberdade de 
escolha, acho que é preciso um motivo sério, 
indiscutível, para que tiremos de alguém o que 
os fados lhe reservaram e as leis lhe autorizam 
a possuir. E é abusar dessa liberdade pô-la a 
serviço de nossas fantasias pessoais e por 


- 192 MONTAIGNE 


vezes fúteis. O destino não me deu oportuni- 
dade para que me sentisse tentado a desviar 
minha afeição daqueles a quem devia legitima- 
mente dedicá-la, mas vejo muita gente com a 
qual perdemos tempo em nos afeiçoarmos. 
Uma simples palavra mal interpretada destrói 
o mérito de dez anos. Feliz então quem tem a 
sorte de se aproveitar dos últimos momentos! 
A derradeira ação é a vencedora, não a melhor 
nem a mais constante; a mais recente e pre- 
sente é que produz efeito. Assim, pois, há pes- 
soas que usam seu testamento como se se tra- 
tasse de doces ou chicotes a fim de premiar ou 


punir os interessados nele. O testamento 
exige porém reflexão e é coisa demasiado 
importante para que se modifique ao sabor da 
hora. Os homens sensatos fixam sua vontade 
de um modo definitivo, sem que os movam 
senão a razão e a obediência às leis. Também 


nos preocupamos demais com fazer cair a 
herança nas mãos dos varões, na esperança de 
dar a nossos nomes uma eternidade ridícula. 
De igual maneira ponderamos exageradamente 
as conjeturas incertas do futuro que vislum- 
bramos nos filhos. Não fora injusto me poster- 
garem em benefício de meus irmãos por ter 
sido eu o mais lento, lerdo, e embotado na 
infância, e não somente quanto aos exercícios 
físicos mas também intelectuais? É loucura 
estabelecer distinções baseadas no que pensa- 
mos adivinhar e que raramente se confirma. Se 
podemos infringir essa lei e corrigir a sorte 
reservada a nossos herdeiros, só devemos 
fazê-lo a fim de atender a uma situação espe- 
cial, uma deformidade física, por exemplo, o 
que constitui vício insanável e para mim, gran- 
de apreciador da beleza, causa de grave 
prejuízo. é 

Aqui transcrevo, para dar maior brilho à 
minha prosa, o divertido diálogo do legislador 
de Platão com seus concidadãos: “Como, 
dizem-lhe, sentindo nosso fim próximo não 
poderemos dispor do que nos pertence em 
favor de quem nos apeteça? Ô deuses! Que 
crueldade! Tirai-nos'a possibilidade de dar 
mais ou menos, segundo a nossa vontade, 
àqueles que nos prodigalizaram seus cuidados 
quando estávamos doentes, durante a nossa 
velhice, ou que geriram nossos bens!” Ao que 
responde o legislador: “Meus amigos, sem dú- 
vida não tardareis a morrer e — assim se ins- 
creve no templo de Delfos — como vos é difi- 
cil conhecer-vos e conhecer o que é vosso, eu 
que faço as leis julgo que não vos pertenceis e 
aquilo que desfrutais tampouco vos pertence. 
Vós e vossos bens pertenceis à vossa família 
passada e futura. Mais ainda, vós, vossa fami- 
lia e vossos bens pertenceis ao povo. Eis por 


que, de medo que algum adulador esperto, 
durante a vossa velhice ou a vossa doença, ou 
alguma paixão vos inspirem um testamento 
iníquo, eu vos preservarei do risco. E como 
respeito o interesse comum da República, e de 
vossa casa, farei leis em que, como é natural, o 
interesse público primará sobre o particular. 
Ide, pois, onde o destino comum vos chama; a 
mim, que não me apaixono nem por uma coisa 
nem por outra e que na medida do possível só 
me preocupo com o interesse de todos, cabe 
cuidar do que deixardes.” 

Voltemos ao nosso tema. Parece-me, qual- 
quer que seja o nosso ponto de vista, que pou- 
cas mulheres nascem com aptidões bastantes 
para que sua autoridade se imponha ao 
homem, fora da autoridade materna e da 
influência que por sua própria natureza exer- 


cem. Somente os temperamentos fracos, os que 
são incapázes de opor um dique à febre amoro- 
sa, se submetem, para sua desgraça, volunta- 
riamente a elas; mas isso não diz respeito às 
velhas de. que aqui falamos. Por esse motivo 
certamente se estabeleceu essa lei, tão favora-. 


velmente acolhida e cujo texto nunca se viu, 
que priva as mulheres do direito à coroa. Não 
há soberania no mundo em que a questão não 
tenha sido discutida em virtude dos motivos 
que justificam o princípio, mas em verdade 
certos países a resolveram diferentemente. 

É perigoso permitir que a mulher disponha à 
vontade de seus bens, pois a escolha que faz 
entre seus filhos é sempre iníqua e fantasista, 


porquanto os apetites estranhos e os gostos 
depravados que se manifestam durante a gravi- 
dez ficam gravados em sua alma. Não raro as 
vemos dar preferência aos filhos mais doen- 
tios e aleijados ou ainda aos que trazem ao 
colo. Não possuindo uma inteligência bas- 
tante forte para apreender e compreender as 
coisas segundo seu valor próprio, entregam-se 
comumente às impressões e intuições como os 
animais que só reconhecem os filhotes en- 
quanto os amamentam. 

É de resto fácil julgar por experiência quão 
pouco profundas são as raízes dessa afeição 
natural a que outorgamos tamanha autoridade. 
Mediante ínfimo salário, arrancamo-lhes! os fi- 
lhos dos braços para que cuidem dos nossos. 
Entregam os seus a alguma desprezível compa- 
nheira, a quem não daríamos as crianças, ou a 
uma cabra, e ajnda por cima são obrigadas a 
não tratar deles a fim de empregarem todo o 
seu tempo em atender aos nossos. Vemo-las 
em sua maioria, e sem dúvida por hábito, nu- 
trir uma afeição bastarda pelos intrusos que 
aleitam, não raro mais viva do que a natural, 
demonstrar mais solicitude do que o fariam 


ENSAIOS — II 193 


com seus próprios filhos. Se falei de cabra é 
porque em nossa terra quando as mulheres não 
podem amamentar seus filhos recorrem às 
cabras. Estas acostumam-se rapidamente a 
aleitar as crianças, conhecem-nas pela voz e 
acorrem quando gritam. Se lhes apresentam 
uma estranha, recusam-na; por seu lado a 
criança aborrece um animal que não o habi- 
tual. Sei de um menino a quem retiraram a 
cabra que o pai pedira emprestada a um vizi- 
nho: não quis de jeito nenhum a substituta e 
morreu, provavelmente de fome. Entre os ani- 
mais a afeição natural se altera e se abastarda 
tão facilmente quanto entre os homens. Aquilo 
que, segundo Heródoto, se praticava em certas 
partes da Líbia onde homens e mulheres se 
uniam indiferentemente e onde a criança ao 
principiar a andar reconhecia o pai entre os de- 
mais homens e corria ao seu encontro natural- 
mente, devia provocar inúmeros enganos, a 
meu ver. 


Se consideramos como única razão de amar 
os nossos filhos o fato de os termos engen- 
drado, o que nos leva a enxergá-los como parte 
de nós mesmos, outras coisas emanam igual- 
mente de nós, que não me parecem menos dig- 
nas de ser amadas. O que nossa alma engen- 
dra, o que nasce de nosso espirito, de nossa 
coragem, de nossa capacidade, provém da 
parte mais nobre do nosso corpo e são mais 
nós mesmos do que os nossos filhos, pois são a 
um tempo pai e mãe. Essas criações custam- 
nos muito mais caro, mas também quando dão 
certo nos honram muito mais. Nossos filhos 
valem pelo que são, nossa parte neles é peque- 
na; nessas outras emanações de nós, ao contrá- 
rio, a beleza, a graça, tudo o que as valoriza é 
de nossa exclusiva autoria. Por isso nos repre- 
sentam melhor do que os filhos e mais do que 
estes chamam a atenção dos outros para nós. 
Platão acrescenta que elas é que alcançam a 
imortalidade, imortalizando seus genitores até 
fazer deuses deles: Licurgo, Sólon, Minos bem 
o exemplificam. 


Estando a história cheia de fatos que com- 
provam a afeição dos pais pelos filhos, pare- 
ce-me não ser fora de propósito citar alguns 
casos dessa afeição que devotamos às vezes às 
criações de ordem imaterial. 

Heliodoro, esse bom bispo de Trica, preferiu 
perder a dignidade, os proveitos de tão venerá- 
vel cargo, a renegar a autoria de uma novela 
de amor intitulada “Teagenes e Charicléia”, 
filha” 8 ainda viva e mui gentil mas porventura 
demasiado picante, e amorosa, para um pai 
eclesiástico. 


78 A novela. 


Em Roma houve um personagem de alto 
valor e prestígio chamado Labieno, que se dis- 
tinguia como escritor. Era, creio, filho do gran- 
de Labieno, o primeiro dos lugar-tenentes de 
César, na guerra da Gália e que posterior- 
mente abraçou o partido de Pompeu no qual se 
conduziu muito bem, sendo afinal derrotado 
pelo próprio César, na Espanha. O Labieno a 
que me refiro granjeou inúmeros invejosos, por 
causa de sua virtude, e provavelmente, tam- 
bém, muitos inimigos entre os cortesãos e 
favoritos dos imperadores, graças à sua fran- 
queza € seu espirito de oposição à tirania, que 
herdara do pai e devia transparecer em seus 
escritos. Seus adversários processaram-no e 
conseguiram que fossem alguns de seus livros, 
que o haviam tornado ilustre, queimados por 
sentença judicial. Com Labieno iniciou-se em 
Roma a destruição de escritos e obras dos 
grandes, o que ocorreu não raro posterior- 
mente. Sem dúvida era reduzido o campo de 
nossa crueldade e precisávamos levá-la às coi- 
sas que a natureza isentou de dor e sofrimento, 
como as criações de nosso espírito. Tínhamos 


necessidade de submeter aos rigores da disci- 
plina e da tortura a inspiração das musas. 
Labieno não pôde suportar a destruição de 
suas obras, nem sobreviver à perda das filhas a 
que dera vida e fez-se enterrar vivo no monu- 
mento funerário de seus antepassados, onde 
encontrou morte e sepultura. É dificil deparar 


com afeição paternal mais veemente. Cássio 
Severo, amigo de Labieno, ao ver queimarem- 
se os livros gritou que igual sorte devia ter ele 
próprio, pois conservava na memória todo o 
conteúdo das obras. Análogo acidente ocorreu 
com Cremúcio Cordo, acusado de haver elo- 
giado Bruto e Cássio. O miserável senado, ser- 
vil e corrupto, digno de um monarca pior do 
que Tibério, condenou à fogueira as suas 
obras. Cremúcio Cordo, a fim de acabar junta- 
mente com elas, deixou-se morrer de fome. 


Lucano, esse homem de bem, condenado 
pelo monstro que foi Nero, mandara cortar as 
veias pelo seu médico. Agonizava e já perdera 
quase todo o sangue, já o frio lhe invadia os 
membros e atingia os órgãos essenciais quan- 
do se pôs a recitar certos versos de seu poema 
sobre a batalha de Farsália. Extinguiu-se reci- 
tando-o. Era uma terna e paternal despedida a 
seus filhos, à semelhança dos adeuses e abra- 
ços que damos aos nossos ao abandonarmos o 
mundo, a par da tendência natural que temos 
para nos lembrarmos na hora suprema das coi- 
sas que nos foram mais caras em vida. 


Epicuro ao morrer, atormentado por terri- 
vel cólica, sentia vivo consolo à idéia da beleza 
da doutrina que dera ao mundo. Teria sentido 


194 MONTAIGNE | 


igual satisfação se houvesse deixado uma prole 
numerosa e sadia? E se tivesse de optar entre 
deixar um filho contrafeito e doentio ou um 
livro tolo e inepto, não escolheria a primeira 
desgraça? 

Se, por exemplo, houvessem proposto a 
Santo Agostinho a destruição dos escritos que 
tantos frutos deram à nossa religião cu a perda 
dos filhos que porventura tivesse, não seria 
uma impiedade sacrificar os primeiros? Não 
sei em verdade se não preferiria ter engendrado 
um filho”? perfeito, nascido de um comércio 
com as musas, a um produto das minhas rela- 
ções com minha mulher. A este que sou força- 
do a aceitar tal qual é, o que dou, dou-o 
simplesmente e de maneira irrevogável como 
tudo o que damos a nossos filhos de carne e 
osso; o bem que lhe faço deixa de imediato de 
ser meu. Ele pode saber coisas que já não sei 
mais e ter recebido de mim coisas de que não 
recordo. Se devesse emprestar-lhe algo, preci- 
saria um contrato como se fora um estranho; 
se sou mais prudente do que ele, ele é mais 

TICO. 

Poucos homens que cultivam a poesia te- 

riam preferido ser autores da “Eneida” a 


engendrar o mais belo rapaz de Roma e mais. 


sofreriam com a perda daquela, tanto mais 


7? Livro, no caso. 


quanto, segundo Aristóteles, de todos os cria- 
dores é o poeta o que mais facilmente se apai- 
xona pelas próprias obras. Dificilmente acredi- 
tariamos que Epaminondas, que se 
vangloriava de deixar como descendência ape- 
nas duas belas filhas capazes de honrar o pai 
(referia-se às vitórias contra os lacedemônios), 
consentisse em as trocar pelas mais belas 
mulheres da Grécia; ou que Alexandre e César 
tenham jamais desejado sacrificar a celebri- 
dade granjeada com suas conquistas, à vanta- 
gem de alguns filhos que lhes sucedessem, por 
perfeitos que fossem. 

Duvido também que Fídias ou qualquer 
outro escultor de gênio houvesse preferido a 
conservação dos filhos naturalmente concebi- 
dos à das obras que a força de trabalho e estu- 
do teria levado à perfeição. 

Mesmo essas paixões contrárias à natureza 
que nada detém, e que impeliram por vezes o 
pai a amar a filha e a mãe a se enamorar do 
filho, se encontram nesse parentesco espiritual. 
Assim é que Pigmalião, tendo esculpido uma 
estátua de singular beleza, por ela se apaixo- 
nou tão perdida e violentamente que, cedendo 
ante sua angústia, os deuses lhe sopraram a 
vida. “Toca o marfim e o marfim, esquecendo 
sua dureza natural, cede e amolece”” 8 


78 Ovídio. 


CAPÍTULO IX 


Às armas dos partos 


Considero um erro e um hábito efeminado o 
de não se decidir, a nobreza de nossa terra, a 
pegar em armas enquanto a tanto não a obriga 
uma necessidade urgente, e que as deponha tão 
logo se esboce a menor probabilidade de desa- 
parecer o perigo. Nasce disso grande confu- 
são: cada qual se põe a gritar e correr em 
busca de suas armas no momento mesmo da 
batalha e, enquanto alguns ainda se ocupam 
com ajustar a couraça, já outros estão derrota- 
dos. Nossos pais entregavam unicamente aos 
servidores, para que os carregassem, o capace- 
te, a lança e a manopla, conservando o resto 
do equipamento enquanto durava a guerra. 
Hoje entre as nossas tropas reina a desordem 
em consegiência da confusão das bagagens e 
dos lacaios que precisam caminhar ao lado de 
seus senhores, cujas armas transportam. Fa- 


lando de nossos antepassados, já dizia Tito 
Lívio: “incapazes de resistir à fadiga mal po- 
diam carregar suas armas aos ombros”. 
Muitos povos vão entretanto para a guerra 
— € iam na antiguidade — sem armaduras, 


“protegendo-se apenas com armas defensivas 


pouco eficientes: “cobrindo a cabeça com 
capacetes de cortiça ””º 
Alexandre, o mais ousado capitão de todos 
os tempos, quase nunca revestia a armadura. 
Os que entre nós a desdenham, não correm em 
verdade maior risco, pois se há quem morra 
por não a usar, menor não é o número dos que 
se perderam em virtude do peso da couraça € 
da dificuldade em com ela se movimentarem. 
Na realidade, ante a espessura e o peso das 


79 Virgilio. 


e 


ENSAIOS —II 


nossas couraças, dir-se-ã que com elas busca- 
mos unicamente defender-nos. O incômodo é 
maior do que a garantia que nos oferecem. E, 
tão só a fim de as carregar, já temos trabalho 
demais para as nossas forças; e é como se o 
combate se limitasse a um choque de armadu- 
ras e não tivéssemos a mesma obrigação de 
defendê-las que elas têm de nos proteger. Táci- 
to pinta de modo pitoresco os guerreiros gaule- 
ses, a tal ponto armados, que mal se manti- 
nham de pé e não podiam atacar nem ser 
atacados, e quando caiam não mais se er- 
guiam. 

Vendo Luculo os soldados medos que for- 
mavam a vanguarda do exército de Tigranes, 
pesada e incomodamente armados, e como que 
encerrados em prisões de ferro, pensou ven- 
cê-los sem dificuldade e contra eles iniciou o 
ataque, o que constituiu o prelúdio de sua vitó- 
ria. Agora que preponderam os mosqueteiros 
em nossos exércitos, inventarão sem dúvida 
uma muralha atrás da qual estaremos ao abri- 
go dos tiros, e iremos para a guerra embutidos 
em baluartes semelhantes aos que os antigos 
ajustavam a seus elefantes. 

Essa maneira de combater estã longe da que 
praticava Cipião, o jovem, o qual censurava 
amargamente a seus soldados terem semeado 
de armadilhas o fundo do fosso da cidade que 
sitiava, no lugar em que os sitiados podiam 
executar sortidas, pois, dizia, oS sitiantes 
devem preocupaf-se com atacar e não com se 
defender; e supúijlha que uma tal precaução 
pudesse enfraquecêr a vigilância. E à um sol- 
dado que lhe exibiu um belo escudo, observou: 
“Magnífico, com efeito, mas um soldado ro- 
mano deve confiar mais na mão direita do quê 
na esquerda.” 

Somente o costume de não as usar constan- 
temente faz que não lhes suportemos o peso; 
“dois dos guerreiros que aqui canto, tinham 
couraça e Capacete; nem de dia nem de noite, 
desde que haviam entrado no castelo, despiam 
essa armadura que carregavam com a mesma 
desenvoltura com que usariam suas vestimen- 
tas, a tal ponto se haviam acostumado a 
elas es 

O Imperador Caracala marchava a pé, e 
inteiramente armado, à testa de suas tropas. 
Os infantes romanos usavam não somente o 
morrião, a espada e o escudo como também vi- 
veres para quinze dias e certo número de esta- 
cas para edificar as fortificações (cerca de 
setenta libras). E diz Cicero que estavam tão 


80 Ariosto. 


195 


habituados a carregar suas armas, que eram 
para eles como braços e pernas: “dizem que as 
armas do soldado são como seus membros”. 
Assim carregados, os soldados de Mário fa- 
ziam cinco léguas em cinco horas, € até seis lé- 
guas se necessário. Sua disciplina militar era 
muito mais rude do que a nossa e os resultados 
melhores, portanto. Cipião, o jovem, ao refor- 
mar o exército em operações na Espanha, 
determinou que seus soldados só comessem de 
pé e nada cozido. Eis a propósito um fato 
espantoso: a reprimenda feita a um soldado 
lacedemônio que, estando em campanha, se 
abrigara em uma casa; que era vergonhoso 
procurasse outro refúgio senão a abóbada 
celeste, por pior que fossem as condições 
climatológicas. Nossos soldados seriam inca- 
pazes de suportar tais provações. 

Marcelino, homem afeito às guerras roma- 
nas, relata como se armavam os partos e insis- 
te tanto mais no assunto quanto a maneira por 
que o faziam diferia muitíssimo da dos roma- 
nos: “Tinham”, diz, “armaduras como que 
tecidas de pequenas plumas (provavelmente 
escamas metálicas entrosando-se umas nas 
outras, em uso entre os nossos antepassados), 
as quais não lhes tolhiam os movimentos e 
eram tão resistentes que nossos dardos não as 
penetravam e se viam rechaçados ao tocá-las.” 
Em outro trecho, comenta: “tinham cavalos 
vigorosos e calmos, com caparazões de couro 
espesso; eles próprios se armavam dos pés à 
cabeça com grossas lâminas de ferro entrela- 
çadas e flexíveis nas articulações, de maneira a 
facilitar os movimentos. Pareciam homens de 
ferro. A parte da cabeça adequava-se às for- 
mas do rosto e era tão bem ajustada que não 
havia possibilidade de se atingir a cara senão 
pelos buraquinhos redondos dos olhos, ou 
através das fendas correspondentes às narinas 
pelas quais respiravam penosamente. O metal 
flexível parete animado pelos membros que 
recobre. É horrível de se ver: dir-se-iam está- 
tuas de ferro em movimento, incorporaiido-se 
o metal ao guerreiro que o usa. Assim também 
os corcéis, testa escondida sob o ferro, flancos 
resguardados contra os ferimentos”81. Não 
lembra esta descrição o êquipamento dé um 
guerreiro nosso, com sua armadura completa? 

Plutarco conta-nos que Demétrio mandou 
fabricar para si e para Álcino, seu primeiro 
capitão, duas armaduras pesando cento e vinte 
libras cada uma. As que usavam geralmente 
não ultrapassavam sessenta. 


81 Cláudio. 


196 MONTAIGNE 


CAPÍTULO X 


Dos livros 


Bem sei que me ocorre não raro falar de coi- 
sas que são melhor e mais precisamente 
comentadas pelos mestres do ofício. O que 
escrevo resulta de minhas faculdades naturais 
e não do que se adquire pelo estudo. E quem 
apontar algum erro atribuível à minha igno- 
rância não farã grande descoberta, pois não 
posso dar a outrem garantias acerca do que 
escrevo, não estando sequer satisfeito comigo 
mesmo. Quem busca sabedoria, que a busque 
onde se aloja; não tenho a pretensão de 


possuí-la. O que aí se encontra é produto de 
minha fantasia; não viso explicar ou elucidar 
as coisas que comento, mas tão-somente mos- 
trar-me como sou. Talvez as venha a conhecer 
a fundo um dia, ou as tenha conhecido, se por 
acaso andei por onde elas se esclarecem. Mas 
já não as recordo. Embora seja capaz de tirar 
proveito do que aprendo, não o retenho na 


memória: daí não poder assegurar a exatidão 
de minhas citações. Que se veja rielas, apenas, 
o grau de meus conhecimentos atuais. 


Não se preste atenção à escolha das maté- 
rias que discuto, mas tão-somente à maneira 
por que as trato. E, no que tomo de emprés- 
-. timo aos outros, vejam unicamente se soube 
escolher algo capaz de realçar cu apoiar a 
idéia que desenvolvo, a qual, sim, é sempre 


minha. Não me inspiro nas citações; valho-me 
delas para corroborar o que digo e que não sei 
tão bem expressar, ou por insuficiência da lin- 
gua ou por fraqueza dos sentidos. Não me 


preocupo com a quantidade e sim com a quali- 
dade das citações. Se houvesse querido tivera 
reunido o dobro. Provêm todas, ou quase, dos 
autores antigos que hão de reconhecer embora 
não os mencione. Quanto às razões, às compa- 
“rações e aos argumentos que transplanto para 
meu jardim, e confundo com os meus, omiti 
muitas vezes, voluntariamente, o nome dos 
autores, a fim de pôr um freio nas ousadias 
desses críticos apressados que se espojam nas 
obras de escritores vivos e escritas na língua de 
todo mundo, o que dá a quem queira o direito 
de as atacar e insinuar que pianos e idéias 
sejam tão vulgares quanto o estilo; e eu quero 
que dêem um piparote nas ventas-de Plutarco 
pensando dar nas minhas, e que insultem Sêne- 
ca de passagem. Preciso esconder minha fra- 


queza sob essas grandes reputações, mas de 
bom grado veria alguém, clarividente e avisa- 
do, arrancar-me as plumas com que me ador- 
nei, distinguindo simplesmente pela diferença 
de força e beleza as minhas das alheias. Se por 
falta de memória não consigo deslindar-lhes as 
origens, sei reconhecer entretanto que minha 
terra é pobre demais para produzir as ricas flo- 
res que entre elas se acham desabrochadas e 
que apesar dos maiores esforços não as iguala- 
ria jamais. 

Respondo porém pela confusão e erros de 
meus escritos, quando, por mim mesmo, por 
vaidade ou insensatez, me mostro incapaz de 
corrigi-los porque não os percebo ou não os 
sinto, ainda que mos apontem. Efetivamente, 
às vezes certos erros nos escapam; o mal estã 
em não os admitir quando no-los mostram. A 
verdade e a ciência podem alojar-se em nosso 
espírito, embora sem que as saibamos julgar e 
discernir, como pode a razão nele habitar sem 
a companhia daquelas qualidades. Saber reco- 
nhecer nossa ignorância é mesmo uma dás 
mais belas e seguras garantias de que não care- 
cemos da faculdade de julgar. Só o acaso guia 
meus passos na escolha de meus assuntos. Na 
medida em que meus devaneios tomam corpo 
eu os agrupo: ora chegam aos magotes, ora de 
um em um. Quero que me contemplem ao 
natural, na atitude que assumo habitualmente, 
por desordenada que seja, sem esforço nem 
artifício. Não falo senão de coisas que nin- 
guém ignora e de que é lícito tratar com liber- 
dade e sem preparação especial. 

Gostaria por certo de possuir, acerca do que 
comento, um conhecimento completo, mas, 
para o adquirir, não quero pagar o elevado 
preço que custa. Tenho a intenção de viver 
tranquilamente, sem me aborrecer, durante o 
tempo que me resta, e não desejo quebrar a ca- 
beça com o que quer que seja, nem mesmo 
com a ciência que muito prezo. 

Não busco nos livros senão o prazer de um 
honesto passatempo; e nesse estudo não me 
prendo senão ao que possa desenvolver em 
mim o conhecimento de mim mesmo e me 
auxilie a viver e morrer bem, “essa meta para 
onde deve correr o meu corcel”*2. 


82 Propércio. 


ENSAIOS — II 197 


As dificuldades com que deparo lendo, não 
me preocupam exageradamente; deixo-as de 
lado após tentar resolvê-las uma ou duas 
vezes. Se me detivesse nelas, perder-me-ia e 
perderia meu tempo, pois meu espírito é de tal 
índole que o que não percebe de imediato 
menos entende em se obstinando. Não sou 
capaz de nada que não me dê prazer ou que 
exija esforço, e atardar-me demasiado em um 
assunto, ou nele me concentrar demorada- 
mente, perturba minha inteligência, cansa-a e 
me entristece. Embacia-se-me a vista e se 
enfraquece, de modo que tenho de interromper 
a leitura e repeti-la, como quando queremos 
perceber o brilho de certos tecidos*?, e preci- 
samos olhá-los várias vezes e de vários modos. 
Se um livro me entedia, pego outro e só me de- 


dico a leitura quando não sei que fazer; e o en- 
fado me domina. Quase não leio livros novos; 
prefiro os antigos que me parecem mais sérios 
e bem feitos; não procuro tampouco os autores 
gregos, porque meu espírito não pode tirar par- 


tido do conhecimento insignificante que tenho - 


da língua grega. 


Entre as obras de mero passatempo, agra- 
dam-me entre os modernos o “Decamerom? de 
Boccaccio, Rabelais e “Os Beijos” de Jean 
Second, se é que este último, escrito em latim, 
pode incluir-se entre os modernos. Quanto aos 
Amadis e outros romances do gênero, não me 


interessaram sequer quando os li em criança. 
Direi mesmo, o que há de parecer ousado ou 
temerário, que meu espírito envelhecido não 
aprecia mais a leitura, não somente de Ariosto 
mas ainda do bom Ovídio. Sua imaginação, 
sua facilidade, que outrora me encantavam, 
não me distraem mais agora. 


Exprimo livremente minha opinião acerca 
de tudo, mesmo daquilo que, por ultrapassar 
meus conhecimentos intelectuais, considero 
fora de minha alçada. O meu comentário tem 
entretanto por fim revelar meu ponto de vista, 
e não julgar do mérito das coisas. Se digo que 
o “Axioco” de Platão me enfada, por se tratar 
de obra fraca, dado o valor e a força do autor, 
não o faço convencido da infalibilidade de meu 
juízo; não tenho a pretensão de contestar a 
autoridade de tantos outros juízes de renome 
da antiguidade, que considero meus mestres, 
diante dos quais me inclino e com os quais 
desejara enganar-me. A mim mesmo me con- 
deno, pois; ou terei julgado superficialmente, 
não penetrando profundamente a obra, ou a 
terei encarado de mau ângulo. Contento-me 
“com não me deixar perturbar, nem ser impe- 


83 Ascarlate, no texto, o que, segundo Thibaudet, 
significaria um tecido e não uma cor. (N. do T.) 


lido ao devaneio; quanto à fraqueza de meu 
Juizo, reconheço-a e a confesso. Penso dar uma 
interpretação justa às aparências que apreen- 
do, mas como são enganosas, imperfeitas ! Em 
sua maioria as fábulas de Esopo apresentam 
vários sentidos e significações. Os que as inter- 
pretam mitologicamente palmilham por certo 
um terreno bem adequado à fábula; mas é per- 
manecer à superfície; há outra interpretação 
mais viva, essencial e interior, a que não pude- 
ram chegar os eruditos. 

Prossigamos, porém. Sempre pensei que, 
entre os poetas, Virgílio, Lucrécio, Catulo e 
Horácio se situam longe dos outros, em pri- 
meiro plano. Em particular, Virgílio, cujas 
“(Geórgicas” são a meu ver a obra poética 
mais perfeita; se a compararmos com a 
“Eneida”, percebernos que há neste poema cer- 
tos trechos que o autor houvera retocado se 


tivesse tido tempo. O livro quinto da “Eneida” 


é o que considero mais acabado. Gosto tam- 
bém de Lucano e o leio com grande prazer, 
menos pelo estilo do que pelo alcance de suas 
opiniões e juízos. Quanto ao bom Terêncio, em 
quem deparo com todas as elegâncias e as gra- 
ças da língua latina, julgo-o admirável quando 
trata dos sentimentos e descreve com vivaci- 
dade os nossos costumes. À todo instante eu o 
recordo e por mais que o leia sempre descubro 
nele alguma beleza nova. 


Lamentavam os contemporâneos de Virgílio 
que o comparassern, alguns, a Lucrécio. Tam- 
bém eu acho a comparação infeliz, mas não a 
considero tão desacertada quando me detenho 
em algum trecho mais belo de seu êmulo. Se se 
contrariavam com o paralelo, que diriam dos 
que hoje o comparam tola e ignorantemente a 
Ariosto? E que pensaria o próprio Ariosto? 
“O século grosseiro e sem gosto !8 * Sou de 
parecer que mais razão tinham ainda os anti- 
gos de lamentar os que equiparavam Plauto a 
Terêncio (este muito mais nobre). Para julgar 
do mérito de Terêncio e da preferência que lhe 
devemos dar, devemos atentar para o fato de 
Cícero, pai da elogiência romana, o citar 
constantemente, o que não faz com ninguém 
mais. E também a crítica severa que Horácio, 
o maior crítico dos poetas latinos, dirige a 
Plauto. 


Muitas vezes pude constatar quanto, em 
nossa época, os que escrevem comédias (como 
os italianos, felizes no gênero) se inspiram em 
Terêncio e Plauto, a quem tomam de emprés- 
timo três ou quatro enredos para arquitetar um 
dos seus. E assim procedem igualmente com 
Boccaccio, reunindo em uma só comédia cinco 


84 Catulo. 


198 + MONTAIGNE 


ou seis contos seus. O receio de não poder sus- 
tentar o interesse das peças com seus próprios 
recursos é que os leva a procurar algo sólido 
em que as assentar. E não o podendo tirar de si 


próprios, querem que nos divirtam as peripé- - 


cias. O contrário ocorre com Terêncio: a per- 
feição e a beleza de seu estilo nos induzem a 
esquecer o tema; sua delicadeza e sua graça 
cativam-nos em todas as cenas; é um autor tão 
agradável, “tão fluido e semelhante a uma 
água límpida”* 8, e nos seduz a tal ponto com 
seu donaire que mal percebemos o assunto de 
suas comédias. 


Estas observações levam-me ainda a notar 
que os bons poetas da antiguidade evitaram a 
afetação e o rebuscamento, não somente das 
fantasias exageradas que se encontram nos 
espanhóis e nos petrarquistas, mas também 
das graças mais atenuadas que se deparam nas 
obras poéticas dos séculos seguintes. Assim o 


critico competente lamenta observá-las por- 
ventura nos antigos, e admira mais a perfeição 
do acabado, a doçura perpétua, e a beleza flo- 
rida dos epigramas de Catulo que todos os sar- 
casmos das sátiras de Marcial. E o que disse 
acima também o disse Marcial de si próprio: 
“não era mister que se esforçasse; o assunto 
substituía o espírito”. 


Os antigos poetas, os que brilham pela 
imaginação, logram o efeito visado sem se agi- 
tar exageradamente nem se picar para se exci- 
tarem; têm com que provocar o riso sem neces- 
sidade de cócegas; os outros precisam de ajuda 
estranha; quanto menos espírito têm, mais pre- 
cisam de corpo e montam a cavalo porque não 
podem sustentar-se sobre as pernas. Assim, em 
nossos bailes públicos, esses cavalheiros de 
baixa extração e que ensinam a dançar, na 
impossibilidade de exibir uma nobre e decente 
atitude, tentam valorizar-se com saltos perigo- 


sos e outros movimentos extravagantes, à 
maneira dos acrobatas. E as damas mostram- 
se mais desenvoltas nas danças que compor- 
tam figurações e balanceios do que nas ceri- 
mônias em que lhes cumpre apenas andar, 
conservando sua atitude e graça naturais. 
Observa-se igualriente que os palhaços que 
exercem sua profissão com talento tiram todo 
partido possível de sua arte, mesmo quando 
vestidos com seis trajes cotidianos, enquanto 
os aprendizes, de menor competência, preci- 
sam enfarinhar a cara, mascarar-se, gesticular, 
e fazer caretas para nos obrigar a rir. Minha 
opinião se esclarecerá melhor se compararmos 
a “Eneida” com “Orlando Furioso”. No pri- 
meiro poema mantém-se o poeta nas alturas, 


88 Horácio. 


em vôo reto, poderoso e firme; no segundo o 
autor borboleteia saltitante, de episódio em 
episódio, como se, não confiando em suas 
asas, pulasse de galho em galho, de medo de 
perder o fôlego. de carecer de forças: “terita 
apenas pequenas corridas”, como diz Virgílio. 

Eis os autores que mais me agradam nesses 
gêneros. 

Quanto às minhas demais leituras, as que 
me instruem e deleitam ao mesmo tempo, as 
que me ensinam a pensar e a conduzir-me, 
tiro-as de Plutarco, na tradução francesa, e de 
Sêneca. Ambos apresentam a vantagem, dado 
o meu temperamento, de me oferecer os ensi- 
namentos que neles busco, de um modo frag- 
mentário e por conseguinte não exigente de lei- 
turas demoradas de que sou incapaz. Os 
opúsculos de Plutarco e as epístolas de Sêneca 
constituem a parte mais formosa de seus escri- 
tos, e também a mais proveitosa. Para em- 
preender tais leituras não se faz mister um 
grande esforço, e posso sustá-las quando 


* quero, pois nenhuma ligação existe entre os 


capítulos dessas obras. Esses dois autores, que 
concordam na maioria de suas idéias funda- 
mentais, têm ainda outros pontos em comum: 
viveram no mesmo século, foram ambos 
preceptores de imperadores romanos, nasce- 


ram ambos em países estrangeiros, foram 
ambos ricos e poderosos. Suas lições são da 
melhor filosofia e se apresentam da maneira 
mais simples, com competência. Plutarco é em 
geral mais igual, Sêneca mais variado. Este se 
esforça, se retesa, tenta defender a virtude con- 
tra a pusilanimidade, o temor, o vício; o outro 
não parece preocupar-se com esses inimigos, 


não apressa O passo para fugir do perigo. Plu- 
tarco é da escola de Platão, suas idéias estão 
isentas de exagero e se acomodam à sociedade 
tal qual é. No outro, que é da escola dos estói- 
cos e dos epicuristas, elas se afastam mais do 
que se admite na vida comum, mas são ao meu 
ver mais cômodas para o indivíduo e impreg- 
nadas de firmeza. Sêneca parece ter feito algu- 
mas concessões à tirania dos imperadores de 
sua época, pois creio que foi por imposição 
que condenou a causa desses homens genero- 
sos que mataram César. Plutarco conserva 
sempre sua independência. Sêneca abunda em 
comentários e críticas, ao passo que em Plu- 
tarco predominam os fatos. O primeiro comove 
mais e entusiasma; o segundo dá mais satisfa- 
ção e comipensa melhor o tempo que lhe consa- 
gramos; este nos guia, o outro nos empurra. 
Quanto a Cícero, as obras que mais convêm 
ao fim que me propus, são as obras filosóficas 
que tratam da moral. Mas, para dizer a verda- 
de, e por mais ousado que se afigure, sua 


ENSAIOS — II 


maneira de escrever, -bem diferente da dos 
precedentes, parece-me aborrecida. Seus prefá- 
cios, suas definições, suas classificações, suas 
etimologias, ocupam efetiva e inutilmente 
quase toda a obra; o que nesta hã de vivo e 
nervoso é abafado por esses excessos prelimi- 
nares. Se passo uma hora a lê-lo — o que já é 
demais para mim — e recapitulo tudo o que 
dele tirei de substancial e nutritivo, não encon- 
tro a maior parte das vezes senão vento, pois 
ainda não cheguei nem às razões, nem aos 
argumentos relativos ao fundo do problema. 
Para mim, que não procuro ampliar o meu 
saber ou a minha eloguência, essa exposição 
lógica, obediente às regras de Aristóteles, é 
inadequada; gostaria que começasse pelo fim. 
Sei muito bem em que consistem a morte e a 
volúpia, para que se divirtam em as analisar 
minuciosamente em minha intenção. Procuro 


de imediato as razões sérias e certas que me | 


reconfortem pelo esforço que me cabe supor- 
tar. Nem as sutilezas caras aos gramáticos, 
nem o engenhoso arranjo das frases e da argu- 
mentação me ajudam a gostar. Quero pensa- 
mentos que desde o início ataquem o ponto 
principal do problema, e os seus se arrastam 
em torno da questão. São bons para a escola, o 
tribunal, o púlpito onde temos tempo de cochi- 
lar e ainda reatar o discurso ao despertarmos 
um quarto de hora depois. Assim é que se fala 
aos magistrados quando se deseja ganhar uma 
causa, com ou sem razão; ou às crianças, ou à 
multidão, às quais é preciso tudo dizer e repe- 
tir para que entendam alguma coisa. Mas eu 
não quero que me gritem cinquenta vezes: 
“ouça bem isto”. 


Os romanos diziam em suas orações litúrgi- 
cas: “hoc age” e nós “sursum corda”. São 
palavras inúteis para quem, como eu, está dis- 
posto a escutar. Condimentos e molhos não 
me agradam pois gosto de caíne crua. E em 
vez de provocar o apetite, esses preâmbulos me 


cansam e me desencantam. Será a licença de. 


nossa época uma déstulpa para que ache 
igualmente tediosos, exaustivos os diálogos do 
próprio Platão? Lamento o tempo que perde, 
em vãs interlocuções preparatórias, um 
homem que tinha tanta coisa importante a 


dizer. Minha ignorância justificará sem dúvida 
o desprazer que me causa seu estilo. Em geral 
prefiro os livros em que me encontro com o 
conhecimento daqueles que o explanam. Plu- 


tarco, Sêneca, Plínio, o Velho, e outros não 
nos dizem “hoc age”; têm eles por leitores os 
que se advertem a si mesmos. E, se chamam 
porventura a nossa atenção, ê para pontos 
essenciais, E 

Leio de bom grado as epístolas a Ático, de 


199 


Cícero, porque nos fornecem muitos pormeno- 
res acerca da história de seu tempo e mais 
ainda porque nos esclarecem a respeito de seu 
caráter e, como disse alhures, é grande em 
mim a curiosidade pela alma e o espírito dos 
autores que leio. Somente sua capacidade, e 
não seus costumes nem ele próprio, podemos 
Julgar pela leitura de suas obras. 

Mil vezes lamentei que a obra de Bruto 
sobre a virtude não tenha chegado até nós; 
fora admirável aprender a teoria com quem tão 
bem a praticou. Contudo como quem prega, e 
o que prega, são coisas diferentes, prefiro 
ainda ver Bruto pintado por Plutarco a vê-lo 
assinalado por si mesmo, mas gostaria antes 
saber exatamente de que assuntos se entretinha 
com seus amigos íntimos, na véspera de uma 
batalha, do que os discursos feitos ao exército 
depois do combate; e antes o que fazia em seu 
quarto e em seu gabinete do que na praça pú- 
blica e no Senado. 


Quanto a Cícero, participo da opinião geral: 
fora de seu saber, seu caráter, de muitos pon- 
tos de vista, não era perfeito. Era bom cidadão, 
indulgente, como a maioria dos homens gor- 
dos e alegres, mas no fundo havia nele certa 
carência de fibra, muita vaidade e ambição. 
Não posso explicar de outro modo o apreço 


em que tinha sua poesia, pois, se não constitui 
defeito grave escrever versos maus, era fra- 
queza sua não sentir quanto os que fazia eram 
indignos de sêu renome. Sua eloquência era 
incomparável e, creio, ninguém jamais poderá 
ombrear com ele na arte de falar. Cícero, o 
Jovem, seu filho, que do pai só tinha o nome, 
comandava um exército na Ásia. De uma feita 
reuniu à sua mesa vários estrangeiros, entre os 
quais Céstio, que se achava em uma das pon- 


tas, como um intruso. Cicero indagou quem 


era; mas, distraído, não ouviu a resposta e tor- 
nou a perguntar duas ou três vezes. O criado, 
para não repetir sempre as mesmas palavras e 
a fim de fixar a atenção do anfitrião em algu- 
ma particularidade, acrescentou: “é aquele 
Céstio de quem já nos disseram que não faz 
grande caso da elogilência de vosso pai com- 
parada à dele mesmo”. Irritado, Cicero orde- 
nou qué prendessem Céstio e o açoitassem na 
presença de todos. Eis um anfitrião bem pouco 
delicado! 


Mesmo entre os que julgavam sua elo- 
quência incomparável, alguns houve que não 
deixaram de apontar certas imperfeições. O 
grande Bruto, seu amigo, dizia que era uma 
eloquência descosida e sem vigor. Os oradores 
posteriores censuraram-lhe o curioso afã de 
certa cadência exagerada no final dos perio- 
dos, bem como as palavras de “efeito” que tão 


200 MONTAIGNE 


seguidamente empregava. Apesar disso, embo- 
ra raramente, não era muito eufórico como 
pude verificar nesta frase: “em verdade, quan- 
to a mim, preferiria envelhecer durante menos 
tempo do que antes do tempo”. 


Os historiadores constituem meu passa- 
tempo predileto. Sua leitura é-me fácil e agra- 
dável. Em seus livros encontro o homem que 
procuro penetrar e conhecer, apresentado com 
maior nitidez e mais completamente do que 
alhures. Sua maneira de ser neles se projeta 
com mais relevo e verossimilhança, tanto nos 
pormenores como no conjunto. Assim, tam- 


bém, seu caráter formado por um complexo de. 


qualidades e defeitos, bem como pelos aciden- 
tes a que se expõem. Entre os historiadores, os 
que se atêm menos às ocorrências do que às 
causas, e ponderam mais os móveis a que obe- 
decem os homens do que lhes acontece, são os 
que me agradam particularmente. Eis por que, 
em todos os pontos de vista, Plutarco é meu 
autor predileto. 


Sinto muito não termos uma dúzia de Dió- 
genes Laércio ou que sua obra não seja mais 
extensa ou mais inteligentemente composta, 
pois me interesso tanto pela vida dos grandes 
educadores quanto por seus dogmas e suas 
idéias. Quando nos dedicamos a estudos histó- 
ricos desse gênero, precisamos folhear inúme- 
ros autores, velhos ou novos, escritos em bom 
ou mau francês, a fim de conhecermos os dife- 
rentes pontos de vista sob os quais cada coisa 
se apresenta. 


Mais do que os outros, César merece ser 
estudado, a meu ver, não somente pela história 
mas por si mesmo. Tão grandes são a sua per- 
feição e superioridade que o colocam acima de 
todos os outros, mesmo de Salústio. Eu o leio 
com um respeito e uma concentração de espi- 
rito maiores do que em geral se dedicam às 
obras humanas, atentando para a pureza e a 
inimitável correção de seu estilo superior ao de 
todos os demais historiadores, como diz Cíce- 
ro, e por vezes ao do próprio Cícero. 

Com tanta sinceridade julga seus adversá- 
rios que, salvo as falsas aparências de que 
reveste a causa que defende e a pestilência de 
sua ambição, só se lhe pode criticar o fato de 
não falar bastante de si mesmo, pois tão gran- 
des coisas não podiam ter sido realizadas, se 
sua parte não fosse maior do que afirma ter 
sido. 


Entre os historiadores, aprecio os que são 
muito simples — ou os excelentes. Os que são 
simples, não podendo acrescentar algo de seu 
ao que contam, recolhem com cuidado e exati- 
dão tudo o que chega a seu conhecimento, 
tudo registram de boa-fé, sem selecionar, sem 


nada fazer que possa influir no nosso julga-. 
mento, na descoberta da verdade. Assim é, por 
exemplo, o bom Froissart, o qual em sua obra 
se mostra tão franco e ingênuo que, se comete 
algum erro, não deixa de o reconhecer, retifi- 
cando o trecho assinalado. Todos os boatos 
em curso, ele os anota com as possíveis varian- 
tes: consigna todas as versões que obtém; são 
material bruto & informe que colige e servirá a 
quem lhe suceder. 


Os historiadores perfeitos têm a inteligência 
necessária para discernir o que merece passar 
a eternidade. São capazes de distinguir, entre 
dois relatos, o mais verossimil. Da situação em 
que se encontram os principes e de seu caráter, 
induzem os móveis que ditam suas determina- 
ções e pôem em sua boca as palavras adequa- 
das às circunstâncias. São levados a impor-nos 
sua maneira de ver, mas isso é peculiar tão-so- 
mente a um pequeno número deles. 

Os que ocupam um lugar intermediário — a 
maioria — estragam tudo. Querem mastigar 
os fatos para nós; pretendem julgar e falseiam 
a história de acordo com o que dela pensam; 
pois uma vez que se julgou num dado sentido 
não há como deixar de deturpar os fatos ou os 
apresentar de maneira a comprovarem a idéia 
preconcebida. Seiccionam o que imaginam se 
deva.conservar e escondem muitas vezes tal ou 
qual palavra, tal ou qual ação particular que 
esclareceriam a situação; eliminam, por incri- 
vel que pareça, o que não compreendem e 
mesmo o que não sabem exprimir em francês 
ou em latim. Que desenvolvam tão ousada e 
eloquentemente quanto puderem suas dedu- 
ções, que julguem como pensam dever fazê- 
lo, mas que nos deixem a possibilidade de tam- 
bém julgarmos depois deles! Que nada alterem 
nem suprimam a pretexto de serem concisos e 
exatos & que nos apresentem seu material sem 
falsificação, na íntegra. 


Escolhem-se, geralmente, para historió- 
grafos — sobretudo em nossa época — indivi- 
duos medíocres, somente porque sabem falar 
bonito como se fosse para aprender gramática 
que precisássemos de suas obras. Quanto a 
eles, tendo sido escolhidos unicamente por 
causa de sua tagarelice com isto se prêocu- 
pam; e, recheadas de belas frases e boatos 
ouvidos nas praças das cidades, compõem as 
suas crônicas. 


As únicas histórias valiosas são as que 
escreveram os que dirigiam os negócios por 
eles relatados, ou outros do mesmo gênero. 

o caso de quase todos os historiadores gregos 
ou romanos, pois se várias testemunhas ocula- 
res escrevem sobre o mesmo assunto (ocorria 
frequentemente, então, encontrarem-sé reuni- 


ENSAIOS — II 201 


dos altos cargos e saber) e que haja erro, este 
tem que ser de somenos ou referir-se a algum 
incidente duvidoso. Que esperar de um médico 
que fala de guérra ou de um estudante que dis- 
serta acerca dos desígnios do príncipe? Um só 
exemplo bastará para mostrar a que ponto os 
romanos eram exigentes nesse domínio. 


Asínio Pólio assinala nos próprios comentá- 
rios de César alguns erros que seriam devidos 
ao fato de não ter ele podido ver pessoalmente 
tudo o que acontecia nos exércitos, ou ter acre- 
ditado em pessoas que lhe narravam coisas 
insuficientemente verificadas, ou ainda não 
estar, no momento, a par dos relatórios de seus 
lugar-tenentes a respeito das manobras realiza- 
das durante a sua ausência. Por aí se percebe 
quanto essa procura da verdade é delicada, 
porquanto não podemos confiar sequer em 


quem dirigiu, organizou, fez, nem nos solda- 
dos, a menos de confrontar os testemunhos e 
ouvir as objeções, antes de admitir como pro- 
vados os menores detalhes de cada fato. O 
conhecimento do que se passa em nossa épóca 
é bem mais vago ainda, mas o assunto foi 
muito bem tratado por Bodin, e de acordo com 
o meu ponto de vista. 


A fim de remediar um pouco as traições de 
minha memória, tão fraca que me aconteceu 
mais de uma vez voltar, como se não os conhe- 
cesse, a livros lidos anos antes com atenção € 
anotando, habituei-me de uns tempos para cá a 
escrever, no fim dos volumes que não pretendo 
tornar a consultar, a data do término da leitu- 
ra, e, em grandes caracteres, a impressão senti- 
da, ao menos para ter a qualquer momento 
uma idéia geral do que |j. Eis algumas dessas 
anotações. 


Há dez anos mais ou menos em meu Gui- 
chardin (qualquer que seja a língua dos livros, 
eu lhes falo na minha), eu escrevia: Historió- 
grafo cuidadoso, no qual se pode, melhor do 
que em qualquer óutro, colher a verdade acer- 
ca dos negócios de seu tempo, na maior parte 
dos quais desempenhou um papel honroso. 
Não me parece que, por ódio, condescen- 
dência ou vaidade, tenha deturpado alguma 
coisa. Pode-se vê-lo pela imparcialidade de 
seus juízos sobre os grandes, particularmente 
os que, como o Papa Clemente VII, o empre- 
garam e o promoveram nos cargos que ocu- 
pou. Prevalecem em sua obra as digressões e 
os discursos, e os há muito bons e enriquecidos 
com belas tiradas, mas neles se compraz dema- 
siado. E a fim de nada esquecer, embora o 
assunto em si já seja muito amplo, ele o dilui 
anda ao infinito e seu estilo degenera em fala- 
tório escolâstico. Observei também que, embo- 
ra aprecie muito homens e coisas, aconteci- 


mentos e resoluções, nunca atribui nada à 
virtude, à religião, à consciência, como se isso 
tudo não existisse neste mundo. Todas. as 
ações, por mais belas que sejam na aparência, 
ele-as atribui sempre a alguma causa viciasa 
ou ao partido que o autor pode tirar delas. E 
entretanto impossível admitir que nessa infini- 
dade de fatos nenhum se depare cuja causa 
seja louvável. A corrupção não deve ter sido 
tao generalizada que ninguém lhe escapasse. 
Isso me induz a crer que carece de senso cri- 
tico e talvez haja julgado os outros por si 
mesmo. 

No meu Commines, escrevi: Eis uma lin- 
guagem doce e agradável e extremamente sim- 
ples. A narração vem isenta de circunlóquios, 
a boa-fé do autor é manifesta. Fala de si 
mesmo sem vaidade, e dos outros sem parciali- 
dade nem inveja. Seus relatos e comentários 
evidenciam uma autoridade e seriedade que 
demonstram tratar-se de um homem de família 
ilustre, familiarizado com negócios importan- 
tes. y 

Nas memórias dos Srs. Du Bellay: É sempre 
agradável ler coisas escritas pelas pessoas que 
por experiência viram como manejá-las. Mas é 
evidente que nesses senhores observa-se uma 
falta grande de franqueza e da liberdade que 
fora de desejar como a que brilha nos antigos 
cronistas —— em Joinville, por exemplo, da 
Corte de São Luís, Eginard, ministro de Carlos 
Magno, e mais recentemente Filipe de Commi- 
nes. A obra em questão é mais uma defesa do 
Rei Francisco I contra o Imperador Carlos 
Quinto do que uma história. Não quero crer 
que, quanto ao fundo, tenham os autores 
modificado os fatos que relatam, mas os apre- 
sentam não raro erroneamente, sob um aspecto 
favorável a nós, omitindo tudo o que há de 
particularmente delicado na vida de seu se- 
nhor. Trata-se sem dúvida alguma de trabalho 
encomendado. As desgraças dos Srs. de Mont- 
morency e de Brion não são mencionadas, nem 
se lê o nome de Madame dºEtampes. Pode-se 
admitir que se silenciem as coisas secretas, 
mas calar acerca do que todo mundo conhece, 
ignorar o que tamanha importância teve nos 
negócios públicos é indesculpável. Em suma, 
se me acreditam, convém que se dirijam a ou- 
tros se quiserem ter um completo conheci- 
mento do Rei Francisco I e das ocorrências de 
sua época. O que se lê com proveito é a nar- 
rativa das batalhas e feitos de guerra a que 
assistiram esses fidalgos, algumas palavras e 
atos da vida privada de certos príncipes, as 
gestões e negociações levadas a efeito pelo Sr. 
de Langeais em que se consignam muitas coi- 
sas que merecem divulgação e se acompanham 
de reflexões notáveis. 


202 MONTAIGNE 


CAPÍTULO XI 


Da crueldade 


Parece-me que a virtude é coisa diferente, e 
mais nobre, do que as inclinações para a bon- 
dade, que nascem em nós. As almas bem-nas- 
cidas e naturalmente bem equilibradas seguem 
caminhos idênticos e apresentam em suas 
ações fisionomia igual à das virtuosas. Mas a 
virtude revela não sei que de maior, mais ativo, 
do que deixar-se, sob a influência de uma feliz 
compleição, serenamente conduzir pela razão. 
Quem, por doçura e inclinação natural, esque- 
ce as ofensas recebidas, comete uma bela ação, 
digna de louvores; mas quem, profundamente 
ferido. & irritado, luta contra um terrível desejo 
de vingança e pela razão consegue dominar-se, 
faz melhor sem dúvida. Aquele age certo; este 
virtuosamente. O ato do primeiro é de bonda- 
de, o do segundo de virtude. Dir-se-ia que, a 
virtude pressupõe dificuldade e oposição e não 
pode existir sem luta. Talvez seja por isso que 
qualificamos Deus como bom, liberal, justo, 
mas não “virtuoso”, porquanto tudo o que faz 
é natural, não necessitando nenhum esforço 
para realizá-lo. 

Os filósofos, e não apenas os estóicos, mas 
também os epicuristas, julgam que não basta 
seja a alma animada por bons sentimentos, 
veja com justiça e se-ache predisposta à prá- 
tica da virtude, nem que por palayras e resolu- 
ções se eleve acima das vicissitudes da sorte, é 
preciso ainda que procure as oportunidades de 
prová-lo. Vão assim ao encontro da dor, da 
miséria, do desprezo a fim dé os combater, 
mantendo sua alma nas alturas: “a virtude 
consolida-se na luta” , diz Sêneca. Eu disse 
não somente os filósofos estóicos mas também 
os epicuristas, seguindo assim a opinião 
comum que coloca os primeiros acima dos 
segundos, erroneamente aliás, em que pese à 
saída espirituosa de Arcesilau respondendo a 
alguém que lhe perguntava por que tantas pes- 
soas passavam de sua escola para a de Epicu- 
ro, sem que se observasse o contrário: “muito 
simples; com galos fazemos capões, mas com 
capões não se fazem galos”. Na verdade, a 
seita dos epicuristas, pela inteireza e rigidez de 
seus princípios e preceitos, não fica atrás da 
seita de Zenão. E um estóico que discutia com 
mais seriedade do que aqueles que, para com- 


bater Epicuro, lhe emprestam palavras que ja- 
mais disse, ou as deturpam, armando-se de re- 
gras gramaticais para o interpretar de má fé e 
apontar idéias contrárias às que o filósofo pro- 
fessava e praticava, um estóico afirmava ter 
deixado de seguir Epicuro, entre outras razões, 
porque o caminho lhe parecia demasiado ele- 
vado e inacessível, pois “aqueles a quem cha- 
mamos amigos do prazer, são na realidade 
amigos da honestidade e da justiça, respei- 
tando e praticando todas as virtudes”* *. 

E porque a virtude se fortalece na luta que 
Epaminondas, adepto, entretanto, de uma ter- 
ceira seita, recusa as riquezas que muito legiti- 
mamente lhe oferecem os fados, pois quer, diz, 
lutar contra a pobreza, e a sua era grande e 
nunca o abandonou. Sócrates, parece-me, 
submetia-se a prova mais rude ainda, conser- 
vando sua mulher que era má, e se engenhava 
em o atormentar, verdadeira e permanente 
armadilha em seu caminho. Em Roma, Mete- 
lo, escutando apenas a voz da virtude, só entre 
os senadores, resistia às violências do tribuno 
do povo, Saturnino, o qual se batia pela apro- 
vação de uma lei injusta em favor da plebe. 
Tendo assim incorrido na pena de morte, que 
Saturnino estabelecera para quem se opusesse 
a seu projeto, dizia aos que o acompanhavam 
ao lugar da execução: “é fácil fazer mal; isso 
não exige muita coragem. Fazer bem sem cor- 
rer riscos é coisa vulgar. Mas fazer bem, quan- 
do há perigo em o fazer, é próprio do homem 
virtuoso”. Essas palavras comprovam o que eu 
quis demonstrar: que a virtude recusa a com- 
panhia da facilidade; e que esse caminho cô-: 
modo, de declive suave, pelo qual nos deixa- 
mos levar naturalmente, não é o da verdadeira 
virtude. O caminho desta é árduo e espinhoso. 
A virtude exige luta para se realizar, ou contra 
os obstáculos exteriores como no caso de 
Metelo, cujas penas o destino se compróuve 
em AboliE ou contra as dificuldades íntimas 
provocadas em nós por nossos desordenados 
apetites e as imperfeições da nossa natureza. 

Até aqui minha tese se defende bem, mas 
percebo de repente que, a ser justa, a alma de 


86 Cícero. 


ENSAIOS — II 


Sócrates, a mais perfeita a meu ver, não se 
recomendaria particularmente, pois não conce- 
bo que tenha sido algum dia presa de desejos 
condenáveis. Sua virtude, não creio que experi- 
mentasse jamais alguma dificuldade em prati- 
cá-la, ou tivesse para tanto que entrar em luta. 


consigo mesmo. Seu raciocínio era tão perfei-” 


to, e tal o seu domínio sobre si mesmo, que 
nunca deve ter nascido nele o menor apetite 
repreensível. Sua virtude era tão elevada que 
não posso admitir alguma coisa censurável 
tenha existido nele, e o vejo andando sempre 
com passo vitorioso e triunfante, solene, sem 


embaraço, sem nada que o detenha qu pertur- 
be. 


Se, para existir, precisa a virtude de lutas 
contra as paixões contrárias, deveremos con- 
cluir que ela não pode prescindir da colabora- 
ção do vício e que este lhe é indispensável a 
fim de que alcance a honrosa reputação em 
que é tida? Que seria então dessa corajosa e 
generosa volúpia que propugna Epicuro, a 
qual exibe sentimentos maternais pela virtude, 
essa virtude que ela embala, anima e diverte 
com os brinquedos da febre, da vergonha, da 
pobreza, da morte, das prisões? Se eu admitir 
qué a virtude perfeita se reconhece pela manei- 
ra por que combate a dor; a paciência com que 
suporta a violência da gota sem se comover; se 
a rispidez e as dificuldades são condições 
essenciais à sua existência, como se definirá 
então essa virtude elevada a um tal diapasão 
que não somente despreza o sofrimento mas 


com ele goza, deleitando-se sob o peso de uma | 


cólica extenuante? Essa virtude, em obediência 
a cujos princípios, estabelecidos por eles pró- 
prios, os epicuristas moldaram seus atos e que 
muitos outros, como Catão, ultrapassaram? 


Quando penso em Catão a arrancar-se as 
entranhas para morrer, não posso crer que o 
haja feito simplesmente porque sua alma esta- 
va isenta de medo e inquietação, nem que 
assim tenha agido unicamente para obedecer 
às regras dos estóicos, os quais exigiam que o 
ato executado o fosse deliberadamente, sem 
emoção e sem que a impassibilidade se 


desmentisse. Creio que devia haver em sua vir- 
tude um excesso de energia, que ela era de uma 
têmpera excepcional. E penso que encontrava. 
prazer e volúpia narealização de tão nobre. 
gesto, comprazendo-se nele mais do que-em: 
qualquer outro de sua existência: “saiu da 
vida, feliz por ter encontrado uma razão para 
morrer?8?. E tanto. assim o creio, que duvido 
tivesse ele desejado que tão boa oportunidade 
para um tal feito não se apresentasse. E eu 


87 Cicero. 


203 


estaria convencido disso, não fosse a elevação 
de sentimento que o levava a colocar o bem 
público acima do seu próprio; e estou persua- 
dido de que foi grato ao destino, o qual, em 
favorecendo um bandido inimigo das liberda- 
des de sua pátria, lhe reservara tão bela prova- 
ção. Parece-me ver em sua conduta, nessa 
circunstância, sua alma, a qual devia experi- 
mentar um prazer extraordinário, uma volúpia 
viril ao considerar a nobreza e a elevação do 
que ia fazer, “tanto mais orgulhosa de si quan- 
to ia morrer “88, e sustentado não pela vontade 
de conquistar glórias, como pretenderam al- 
guns que o julgaram como julgam as massas, 
pelo lado mesquinho — o que fora indigno de - 
tão generoso e escrupuloso espírito —, mas 
pela beleza do gesto, cuja sublimidade apre- 
ciava melhor do que nós, porquanto mais do 
que ninguém lhe conhecia os móveis. Os filó- 


sofos, felizmente, acharam que esse ato tão 
belo em ninguém melhor do que em Catão se 
acertaria, e que somente a ele cabia acabar 
assim. É, no entanto, teve ele igualmente razão 
em ordenar a seu filho e aqgs senadores que o 
acompanhavam resolução bem diferente: 
“Catão, que recebera da natureza uma severi- 
dade incrível; que, pela sua constância e a 
imutabilidade de seus princípios, consolidara 
ainda mais seu caráter, tinha que morrer de 
preferência a suportar a presença de um 
tirano”8º.- 


Toda'morte deve estar de acordo com a vida 
a que põe fim. No momento de morrer, não 
devemos ser diferentes do que fomos. Sempre 
julgo a morte pela vida e se aludem a alguém 
cuja morte revela energia em contraste com 
uma vida de fraqueza, penso que se trata ape- 
nas de uma aparência, que na realidade essa 
morte foi provocada por uma causa fraca € 
adequada à vida do morto. 

Diante da satisfação e da facilidade com 
que Catão suportou a morte, a que atingiu pela 
força de caráter, deveremos imaginar que em 
algo se ofusca'o brilho de sua virtude? 

Quem tem em seu cérebro algumas noções, 
embora sucintas, de filosofia, poderá represen- 
tar-se Sócrates em sua prisão, acorrentado e 
condenado, livre unicamente de seus temores? 
Quem não percebe nele, além da firmeza de 
ânimo e da tenacidade que possuía normal- 
merite, algo mais, uma espécie de contenta- 
ménto; de alegria, nas palavras que pronun- 


“Ciou e nas atitudes que teve nos últimos 


momentos? O estremecimento de prazer que 
sentiu ao passar a mão nas marcas dos ferros, 


88 Horácio. 
89 Cicero. 


204 MONTAIGNE | 


não será um reflexo da felicidade que lhe inun- 
dava a alma por se libertar dos incômodos do 
passado e por se achar tão próximo o momen- 
to em que o futuro lhe seria revelado? Catão 
há de perdoar-me, espero: sua morte é mais 
trágica e impressiona mais, mas a de Sócrates, 
não sei por que, é ainda mais bela. Aristipo, 
respondendo aos que dela se apiedavam, excla- 
mou: “Quisessem os deuses dar-me uma 
igual.” Depara-se nas almas de Catão e Sócra- 
tes, e nas dos que os imitaram (pois duvido que 
alguém os haja igualado), uma prática tão per- 
feita e constante da virtude que se diria ter ela 
se incorporado à natureza deles. Não é uma 
- virtude nascida de um esforço, nem ditada pela 
razão; a própria essência de suas almas, sua 
vida normal e cotidiana elevaram-na a tal altu- 
ra, mercê do prolongado exercício da filosofia, 
a qual encontrou neles um esplêndido e rico 
temperamento. E desse modo as paixões nefas- 
tas, que em nós germinam e crescem, não 
acharam brecha por onde penetrar seus espíri- 
tos. À rigidez e a firmeza de seus caracteres 
afogou e extinguiu a concupiscência, tão logo 
tentou inquietá-los. Ora cumpre reconhecer 
que é mais belo, em consequência de uma ele- 
vada e divina resolução, impedir as tentações 
de nascerem e edificar a virtude abafando o 
vício em embrião do que se esforçar por detê- 


lo em sua evoiução e contra ele triunfar após 
se ter entregue às suas primeiras seduções. E 
esta segunda maneira de se conduzir é por sua 
vez mais meritória do que ser senhor de um 
temperamento bondoso e fácil, por natureza 
alheio ao vício e à devassidaoºº. Nesta ter- 


ceira e última hipótese, o homem, ao que me 
parece, pode permanecer inocente, mas não 
será virtuoso. Não faz o mal, mas não tem 
energia suficiente para fazer o bem. E isso 
constitui uma condição vizinha da imperfeição 
e da fraqueza, cujos limites são tão dificeis de 
se estabelecerem quanto as próprias palavras 
“bondade” e “inocência”, as quais já então só 
despertam desprezo em nós. 

Observo que várias virtudes, como a casti- 
dade, a sobriedade, a temperança, podem 
desenvolver-se em nós em conseqglência de um 
enfraquecimento de nossas faculdades físicas. 
A energia diante do perigo (se é que se há de 
chamar energia), o desprezo pela morte, a 
resignação na desgraça podem provir — e pro- 
vêm muitas vezes — do fato de não saber o 
homem julgar os acidentes e não os conceber 
tal qual são; por isso, por não compreender ou 
por tolice, por vezes parece alguém virtuoso, e 


90 Inverteu-se a ordem do parágrafo para maior 
clareza. (N. do T.) 


vi elogiarem certas pessoas por atos que lhes 
deviam censurar. Um senhor italiano disse-me 
de uma feita o seguinte, que não depõe em 
favor de seus patrícios: “a sutileza de espirito 
dos italianos e a vivacidade de suas concep- 
ções são tão grandes, prevêem com tal antece- 
dência os perigos e acidentes, que não há como 
estranhar que, na guerra, tratem de sua segu- 
rança antes mesmo de surgir o risco”. Os fran- 
ceses e os espanhóis, acrescentava, que não 
têm tão bom olfato, o que os torna temerários, 
precisam ver o perigo e tocá-lo com as mãos 
para se atemorizarem. Quando ocorre o aci- 
dente, não o sabem enfrentar. Quanto aos ale- 
mães e aos suíços, concluia, mais grosseiros e 
embotados, nem sequer se dão conta do perigo 
antes de serem abatidos pelo golpe. Em verda- 
de ta! opinião pode não passar de piada, mas 
uma coisa é certa: na guerra os estreantes 
arriscam-se não raro com uma imprudência 
que não mais demonstram depois de escalda- 
dos: “bem sabemos quanto podem sobre um 
guerreiro a sede de glória e a docê-honra de um 
primeiro embateӼ?. Eis por que, quando se 
Julga uma ação particular, é necessário ponde- 
rar as circunstâncias em que se verificou, e, em 
seu todo, o homem que a praticou, antes de se 
pronunciar acerca de sua classificação. 


A propósito, uma palavra a meu respeito. 
Ouvi meus amigos denominarem prudência o 
que em mim era sorte, e considerarem resul- 
tante de minha coragem e de minha tenacidade 
o que decorria de minha clarividência na aná- 


lise da situação, atribuindo-me assim ao acaso 
qualidades más ou boas. Aliás estou tão longe 
daquele grau de perfeição em que a virtuds se 
torna hábito, que nunca dei provas de haver se- 


quer alcançado o grau precedente, não me 
tendo nunca esforçado de fato para conter os 
meus desejos. Minha virtude não passa de 
inocência,ou melhor, ela é acidental e fortuita. 
Se tivesse vindo ao mundo com um tempera- 
mento mais desordenado, creio que meus sofri- 
mentos houveram sido grandes, pois quase 


nunca sei opor uma vontade firme ao assalto 
das paixões. Por um pouco violentas que se 
tivessem mostrado, houvera-me rendido. Não 
sei alimentar querelas e conflitos dentro de 
mim. De sorte que nãc tenho grandes méritos 
em não exibir muito vícios: “Se minha natu- 
reza é boa, se tenho apenas uns leves defeitos, 
um belo rosto também pode ter algumas 
manchas”º2.E o devo menos à razão que ao 
destino. Este fez-me nascer de uma raça repu- 
tada por sua honradez, e de um pai excelente. 


91 Virgilio. 
92 Horácio. 


ENSAIOS — II 205 


Não sei se herdei em parte o seu caráter, se os 
exemplos de minha família, a boa educação 
que recebi na infância para isso contribuíram 
insensivelmente, ou se nasci com tais predispo- 
sições: “seja porque a Balança me viu nascer, 
ou o Escorpião temível e funesto na hora do 
nascimento, ou o Capricórnio que impera tira- 
nicamente sobre os mares do Ocidente”*?*. O 
que é certo é que aborreço os vícios. As pala- 
vras de Antiístenes, a alguém que lhe indagava 
qual o melhor aprendizado da vida, parecem 
aplicáveis a meu caso: “desaprender o mal”. À 
repulsa que sinto por ele parte de um senti- 
mento tão natural e pessoal que esse instinto, 
essa impressão que remonta aos meus primei- 
ros anos se perpetuaram sem que nenhuma 
circunstância os modificasse, embora, por não 
obedecer a princípios: rigorosos, re ocorra 
perpetrar atos que no intimo reprovo. Pode 
isso parecer uma enormidade, não é menos 
certo porêm que meus costumes são mais 
morigerados do que minha inteligência, minha 
concupiscência menos desregrada do que 
minha razão. Áristipo professava idéias tão 
ousadas em prol das riquezas e dos prazeres, 
que revoltaram todos os filósofos; era no 
entanto muito diferente na vida privada. Ten- 
do-lhe Dionísio, o Tirano, apresentado três 
belas jovens para que escolhesse, respondeu 
que as levava todas, porquanto Páris errara ao 
preferir uma às outras. Em chegando em casa, 
porém, mandou-as embora intatas. Queixava- 
se o seu criado certa vez em viagem do peso do 
dinheiro que carregava; sugeriu Aristipo que 
tirasse o excesso e o deixasse à beira do 
caminho. 


Epicuro, cujos dogmas não são religiosos e 
nos incitam a gozar a vida, viveu muito preso 
às práticas religiosas e ao trabalho. Assim é 
que escreve a um de seus amigos dizendo que 
vive somente de pão preto e àgua € pedindo-lhe 
que lhe envie um pedaço de queijo a fim de ter 
a possibilidade de uma refeição abundante. 


Será verdade que, para sermos completa- 
mente bons, tenhamos de o ser por disposição 
natural e inconsciente, independentemente de 
leis, raciocínios e exemplos? 


Meus desregramentos não foram, graças a 
Deus, dos mais repreensíveis; condenei-os 
como mereciam, porque não chegaram a per- 
turbar o meu discernimento. Reprovo-os 
mesmo mais acerbamente em mim do que em 
outrem. É tudo, porém, pois lhes oponho resis- 
tência diminuta e deixo-me levar facilmente 
por eles, conquanto saiba evitar abusos e impe- 
dir que degenerem em excessos, porque, se não 


93 Horácio. 


tomamos cuidado, novos vícios nascem dos vi- 
cios antigos e acabam por atuar simultanea- 
mente. Esforcei-me por restringir os meus, iso- 
lá-los e atenuá-los na medida do possível. 
“Afora isso, não sou viciado”* *. 

Afirmam os estóicos que, quando o sábio 
age, todas as suas virtudes participam da ação, 
embora uma delas, segundo a natureza do ato, 
pareça predominar. Vemos algo semelhante no 
corpo humano, o qual não pode, por exemplo, 
entregar-se à cólera sem que todos os humores 
se ponham em movimento. Daí a conclusão de 
que, se nos abandonamos a um vício, todos os 
outros se apossam de nós. Não creio que assim: 
aconteça, pois percebo em mim o contrário. 
São, tais coisas, sutilezas sem fundamento, em 
que se comprazem por vezes os filósofos. Se 
sou vitima de certos vícios, fujo de outros 
como fugiria um santo. 

Os peripatéticos negam essa união indisso- 
lúvel e Aristóteles é de opinião que um homem 
pode ser avisado e justo apesar de imoderado e 
incontinente. Sócrates confessava, a quem lhe 
observava que sua fisionomia revelava uma 
tendência para o vício, que, efetivamente, se 
sentia inclinado para o desregramento mas se 
corrigira por considerar um dever fazê-lo. Os 
amigos do filósofo Estílpon diziam que, tendo 
nascido com um gosto acentuado pelo vinho e 
pelas mulheres, chegara, pela força de vontade, 
a abster-se de ambas as coisas. 

Ao contrário, as boas qualidades que tenho, 
devo-as à boa estrela que presidiu ao meu 
nascimento; não as obtive por decreto, precei- 
tos ou aprendizado. Minha inocência é inata e 
ingênua; tenho pouca vontade e pouca malícia. 


Entre os vícios, um há que detesto particu- 
larmente: a crueldade. Por instinto e por refle- 
xão, considero-o o pior de todos; e cheguei 
mesmo a esta fraqueza de não poder ver mata- 
rem um frango sem que me seja desagradável, 
nem posso ouvir uma lebre gemer nos dentes 
dos cães, apesar de adorar a caça. 

Os que combatem a volúpia, a fim de mos- 
trar que é viciosa e absurda, alegam que, 
“quando levada' ao paroxismo, nos domina a 
ponto de destruir-nos a razão”; e em apoio de 
sua tese invocam o que sentimos ao nos unir- 
mos à mulher “quando, à aproximação do pra- 
zer, o sexo vai fecundar o sexoӼ 8, momento 
em que a satisfação dos sentidos como que nos 
destrói e destrói a razão enlevada pela volúpia. 

Acho que pode ocorrer coisa diferente c que 
nos é possível, em querendo, ter outros pensa- 
mentos nesse instante, mas para tanto há que 


S4 Juvenal. 
95 Lucrécio. 


206 MONTAIGNE 


fortalecer a alma. Acho, por experiência, que 
podemos conter o efeito desse prazer e não 
penso que Vênus seja uma deusa imperiosa, 
como afirmam alguns mais castos do que eu. 
Nem considero milagre, como diz a rainha de 
Navarra em um conto de seu “Heptameron” 
(livro muito agradável no gênero), nem exces- 
sivamente difícil passar noites inteiras, com 
calma e tranqlilidade, ao lado da mulher dese- 
jada durante longo tempo, cumprindo a pro- 
messa feita de nos contentarmos simplesmente 
com beijos e presença palpável. Creio que a 
caça nos dá melhor exemplo da impotência 
momentânea da razão; o prazer é menor, mas 
as surpresas são maiores, e nossa razão mara- 
vilhada perde a faculdade de agir quando, 
inopinadamente, após demorada espera, surge 
o animal onde menos o aguardamos. O inci- 
dente, os gritos, comovem-nos de tal modo que 
seria difícil, para quem aprecia a caça, dela 
desviar o pensamento. Por isso os poetas 
representaram Diana indiferente às chamas do 
amor e às flechas de Cupido: pois “como não 
esquecer então as malícias do amor 2” º & 


Volvamos ao nosso tema. Entristecem-me 
grandemente as misérias alheias. Quando, por 
uma circunstância qualquer, me encontro com 
alguém em lágrimas, choraria facilmente 
Junto, se alguma coisa me arrancasse lágrimas. 
Nada me comove mais do que ver chorar, de 
verdade ou fingidamente, e até em pintura. 
Não me apiado dos mortos; antes os invejaria, 
mas tenho dó — e muito — dos agonizantes. 


Os selvagens, que assam e comem o corpo dos 
mortos, provocam em mim uma impressão 
menos penosa do que os que os atormentam e 
torturam quando ainda em vida; não posso se- 
quer assistir calmamente às execuções capitais 
impostas pela justiça, por mais razoáveis que 
sejam. 

Alguém, querendo dar uma prova da de- 
mência de Júlio César, dizia: “era suave em 
suas vinganças. Tendo forçado alguns piratas 
a se renderem, piratas que o haviam aprisio- 
nado antes exigindo resgate, contentou-se com 
os mandar estrangular, só os crucificando de- 
pois de mortos. E tendo Filêmon, seu secretá- 
rio, tentado envenená-lo, mandou-o simples- 
mente executar, sem antes o torturar”. Sem 
dizer quem foi esse historiador latinoº 7 que se 
atreve a considerar demência o fato de apenas 
mandar matar o ofensor, fácil é adivinhar que 
estava sob a impressão dos horríveis e repug- 
nantes exemplos de crueldade que os tiranos de 
Roma puseram em voga. 


26 Horácio. 
º7 Suetônio, na biografia de César. 


, ” 


Quanto a mim, parece-me cruel, mesmo nos 
atos de justiça, tudo o que vai além da simples 
morte. É mais cruel ainda de nossa parte, a nós 
que deveriamos cuidar de fazer com que as: 
almas abandonem a terra serenamente, o que 
se torna impossível se as submêtemos a tor- 
mentos intoleráveis e atrozes suplícios. 

Ultimamente um soldado preso, percebendo 
do alto da torre em que:se achava, que a multi- 
dão se reunia e carpinteiros construiam um 
patíbulo, imaginou que se tratasse dele. Resol- 
veu então matar-se; e, como não encontrasse 
senão um prego enferrujado, vibrou dois gol- 
pes na garganta. Vendo que não obtinha o 
resultado desejado, deu novo golpe no ventre, 
deixando o prego no ferimento. O primeiro 
guarda a entrar na cela encontrou-o nesse esta- 
do, ainda vivo mas quase sem forças. Com re- 
ceio de que falecesse, sem perda de tempo — e 
às pressas — leu-lhe a sentença. Ao saber que 
estava condenado apenas a ser degolado, o 
preso como que recobrou o ânimo, aceitou o 
vinho antes recusado e louvou seus juízes pela 
brandura da pena, declarando que resolvera 
suicidar-se de medo de sofrer mais dolorosa- 
mente, pois pensara que os preparativos a que 
assistira fossem para ele. E parecia ter-se livra- 
do da morte, tão-somente porque trocara a 
maneira de morrer. 


Acho que esses exemplos de rigor, pelos 
quais procuram impor respeito ao povo, só 
deveriam ser praticados com os despojos mor- 
tais dos criminosos. Vê-los privados de sepul- 
tura, queimados, esquartejados produziria o 
mesmo efeito nas pessoas quanto os suplícios 
que lhes infligem em vida, embora na realidade 
pouco signifiquem, pois como se diz nos Evan-: 
gelhos: “matam o corpo; nada mais podem 
fazer depois” *8, 


Mas os poetas ressaltam muito bem o hor- 
ror que essas sevícias acrescentam à morte: 
“Ah! que se arrastem desonrosamente por 
terra, gotejando sangue, os restos de um rei 
semiqueimado, ossos à mostra ”*º. 

Encontrei-me um dia em Roma, no momen- 
to em que executavam Catena, ladrão famoso. 
Estrangularam-no primeiramente, sem que os 
assistentes manifestassem nenhuma emoção, 
mas quando o começaram a esquartejar, já 
não dava o carrasco um só golpe sem que o 
povo o acompanhasse com gemidos e excla- 
mações, como se cada qual atribuísse os pró- 
prios sentimentos aquela carniça. Tais atroci- 
dades devem exercer-se não no que ainda vive 
e sim na carcaça. Inspirado em pensamento 


º8 São Lucas. 
8º Enio, citado por Cicero. 


ENSAIOS — II 207 


análogo é que Artaxerxes temperava o rigor 
das antigas leis persas e determinava que os 
fidalgos que faltassem ao seu dever, em vez de 
serem açoitados, fossem despojados de suas 
roupas, as quais seriam açoitadas em lugar 
deles, e que, em vez de lhes arrancar os cabe- 
los, lhes tirassem simplesmente os chapéus. Os 
egípcios, tão devotos, achavam que atendiam 
as exigências da justiça divina, sacrificando- 
lhe porcos, vivos ou em efígie. Idéia ousada; 
essa de querer pagar com pinturas e simbolica- 
mente a Deus, que é substância essencial! 

Vivo em uma época em que, por causa de 
nossas guerras civis, abundam os exemplos de 
incrível crueldade. Não vejo na história antiga 
nada pior do que os fatos dessa natureza, que 
se verificam diariamente e aos quais não me 
acostumo. Mal podia eu conceber, antes de o 
ver, que existissem pessoas capazes de matar 
pelo simples prazer de matar; pessoas que 
esquartejam o próximo, inventam engenhosos 
e desconhecidos suplícios e novos gêneros de 
assassínios, sem ser movidos nem pelo ódio, 
nem pela cobiça, no intuito único de assistir ao 
espetáculo dos gestos, das contorções lamentá- 
veis, dos gemidos; dos gritos angustiados de 
um homem que agóniza entre torturas. É o úl- 
timo grau a que pode atingir a crueldade: “que 
um homein mate um homem, sem ser impelido 
pela cólera ou o mEão; e unicamente para o ver 
morrer”190, 

Quanto a mim, nunca pude sequer ver perse- 
guirem e matarem um inocente animal, sem 
defesa, e do qual nada temos a recear, como é 
o caso da caça ao veado, o qual, quando sem 
fôlego e sem forças, e sem mais possibilidade 
de fuga, se rende e como que implora o nosso 
perdão com lágrimas nos olhos: “gemendo, 
ensangúentado, pede mercê ”'*º', Um tal espe- 
táculo sempre me pareceu muito desagradável. 
Se pego algum animal vivo, dou-lhe liberdade. 
O mesmo fazia Pitágoras que comprava peixes 
e pássaros para os soltar: “Foi, creio, com o 
sangue dos animais que o ferro se tingiu pela 
primeira vez” *º2. Os que são sanguinários 
com os bichos, revelam uma natureza pro- 
pensa à crueldade. Quando se acostumaram 
em Roma com os espetáculos de matanças de 
animais, passaram aos homens e aos gladiado- 
res. A própria natureza, a meu ver, agrega ao 
homem certa tendência para a inumanidade: 
ninguém se compraz em ver os bichos brinca- 
rem e se acariciarem, mas todos se excitam 
ante suas lutas ferozes. Para que não riam 
desta simpatia que demonstro pelos animais, 


199 Sêneca. 
101 Virgílio. 
102 Ovídio. 


observarei que a própria teologia os reco- 


menda à nossa benevolência. Considerando 


que o Criador nos pôs na terra para servi-Lo e 
que eles são como nós da mesma família, anda 
bem a teologia em recomendar algum respeito 
e afeição pelos animais. 

Pitágoras foi buscar nos egípcios o dogma 
da metempsicose. Posteriormente essa idéia foi 
aceita por outros povos, entre os quais os nos- 
sos druidas: “as almas não 'morrem; após 
àâbandonarem suas primeiras residências pas- 
sam a outras, e assim é eternamente”193, 

A religião dos antigos gauleses admitia que 
a alma é imortal e deduzia que mudava sempre 
de lugar transportando-se de um corpo para 
outro. À esta idéia juntava-se a da justiça divi- 
na, pois, segundo a conduta da alma durante a 
sua permanência em dado corpo, Deus lhe 
designa outro em condições mais ou menos 
semelhantes: “aprisiona as almas em corpos de 
animais: a que foi cruel no urso, a do ladrão 
no lobo, a do velhaco na raposa... e depois 
de ter assim passado por mil metamorfoses, 
purificadas enfim no rio do Esquecimento, são 
devolvidas as suas primitivas formas huma- 
nas” 104 A alma valente, encarnavam-na em 
um leão: concupiscente, em um porco; covar- 
de, em um veado ou uma lebre; maliciosa, em 
uma raposa; € assim por diante, atê que, purifi- 


“cada pela penitência, voltasse para o corpo de 


um homem!º 8: “eu mesmo, recordo-me, quan- 
do da guerra de Tróia, era Eufórbio, filho de 


Pantene 
Não concordo com esse parentesco entre os 


animais e nós. Não compartilho a maneira de 
ver de certos povos, entre os mais antigos e 
civilizados, que não somente admitiam os ani- 
mais na sociedade dos homens, mas ainda os 
colocavam muito acima de si mesmos. Encara- 
vam-nos uns como familiares privilegiados dos 
deuses e por eles demonstravam maior respeito 
e consideração do que por qualquer ser huma- 
no; outros, indo mais longe, reconheciam-nos 


por deuses e não adoravam outras divindades: 
“os bárbaros divinizaram os bichos porque 


deles tiravam proveito?1º7, “Uns adoram o 
crocodilo, outros contemplam com santo ter- 
ror a íbis alimentada com serpentes. Aqui bri- 
lha no altar a imagem em ouro de um símio de 
cauda comprida. .. além, adora-se um peixe 
do Nilo; alhures, cidades inteiras prosternam- 
se diante de um cão” 198. 


103 Ta. 

194 Claudiano. 

105 A citação é repetida no texto sob essa nova 
forma. (N. do T.) 

198 Ovídio. 

107 Cícero. 

108 Juvenal. 


208 MONTAIGNE 


A interpretação muito aceitável que dá Plu- 
tarco desse erro, é também honrosa para os 
animais; não era o gato ou o boi, por exemplo, 
que os egípcios adoravam e sim os atributos 
divinos que simbolizavam: no boi a paciência; 
no gato a Vivacidade; ou como entre os borgui- 
nhões e os alemães, o gosto pela liberdade que 
eles colocavam acima de tudo o que vinha de 


Deus. 
Quando encontro em autores muito sensatos 


dissertações tendentes a provar certa seme- 
lhança entre os animais e nós, quanto partici- 
pam de nossos próprios privilégios e quanto 
temos em comum, torno-me muito menos pre- 
sunçoso e abdico sem dificuldade essa realeza 
imaginária do homem sobre as demais criatu- 


ras. 
Mas, ainda que tudo isso seja discutível, 


cumpre-nos ter certo respeito não somente 
pelos animais, mas também por tudo o que 
encerra vida e sentimento, inclusive árvores e 
plantas. Aos homens devemos justiça; às de- 
mais criaturas capazes de lhes sentir os efeitos, 
solicitude e benevolência. Entre elas e nós exis- 
tem relações que nos obrigam reciprocamente. 
Não me envergonho de confessar que sou tão 
inclinado à ternura e tão infantil a esse respeito 
que não sei recusar a meu cão-as festas iniem- 
pestivas que me faz, nem as que me pede. 


Os turcos possuem estabelecimentos em que 
recolhem cs animais e hospitais em que os tra- 
tam. Os romanos alimentavam a expensas do 
tesouro os gansos que tinham salvo o Capitó- 
lio. Os atenienses haviam decidido que as 
mulas e os burros empregados na construção. 
do templo de Hecatompedon seriam deixados 
em liberdade e pastariam onde quisessem sem 
que ninguém os pudesse impedir. Os agrigen- 
tinos tinham por costume corrente enterrar 
cerimoniosamente os animais queridos, cava- 
los dotados de alguma qualidade rara, cães e 
pássaros úteis ou simplesmente divertidos. A 
riqueza e a quantidade dessas sepulturas, que 
se admiraram ainda séculos depois, não fica- 
vam atrás das que lhes eram peculiares em 
tudo. Os egípcios enterravam os lobos, os 


ursos, os crocodilos, os cães e os gatos em 
lugares sagrados. Embalsamavam-nos e usa- 
vam luto em sua memória. Cimon deu honrosa 
sepultura às éguas com que ganhou três vezes 
consecutivas as corridas olímpicas. Xantipo, o 
Antigo, enterrou seu cão em um promontório, 
no mar que desde então teve seu nome. E o 
próprio Plutarco teve escrúpulos, diz-nos, em 
vender com algum lucro, e enviar ao matadou- 
ro, um boi que lhe fora útil durante muito 
tempo. 


CarítruLO XII 


Apologia de Raymond Sebond 


É em verdade a ciência coisa importante e 
útil. Os que a desprezam dão prova de estupi- 
dez. Não considero entretanto seu valor tão 
elevado quanto' o imaginam alguns, como o 
filósofo Herilo, por exemplo, que a encara 
como o soberano bem e lhe atribui o poder que 
não tem, a meu ver, de nos tornar sensatos e 
satisfeitos. Ou como outros que nela vêem a 
mãe de todas as virtudes, resultando da igno- 
rância todos os vícios. 

Se assim é, cabe interpretâ-lo. 

Minha casa esteve sempre aberta aos ho- 
mens de ciência, e eles a conhecem bem. Meu 
pai, que a dirigiu durante mais de cinquenta 
anos, animado por esse entusiasmo do Rei 
Francisco I pelas letras, procurou sempre com 
cuidado e grande interesse a companhia dos 
doutos. Recebia-os como se fossem santos, ins- 


pirados na sabedoria divina. Recolhia seus 
preceitos e discursos como oráculos e com 
tanto maior reverência e fé quanto não estava 
à altura de os julgar, não tendo tido, como não 
tiveram seus avós, íntimo contato com as 
letras. Eu também os aprecio muito, mas não 
os adoro. 

Entre os que recebeu meu pai figura Pierre 
Bunuel, homem de grande reputação e que se 
demorara alguns dias em Montaigne! ºº, com 
outros sábios. No momento de partir presen- 
teou-nos com uma obra intitulada “Teologia 
Natural ou Livro das Criaturas”, de Raymond 
Sebond. Meu pai conhecia perfeitamente o ita- 
lano e o espanhol, e sendo a obra escrita nesta 
última língua, embora mesclada com termina- 


10º No castelo. 


ENSAIOS — II 209 


ções latinas, pensava Bunuel que, com alguma 
ajuda, ele a pudesse ler e dela tirar proveito. 
Recomendou-lhe o livro por ser muito útil e 
apropriado às circunstâncias, pois estávamos 
na época em que a Reforma de Lutero come- 
çava a expandir-se e a abalar em muitos países 
as antigas crenças. A esse respeito Bunuel 
mostrava-se clarividente, prevendo, simples- 
mente pelo raciocínio, que esse princípio de 
doença degeneraria logo em execrável ateísmo, 
e isso porque o vulgo, não sendo capaz de jul- 
gar as coisas em si, se atém as aparências. 
Quando se tem a temeridade de, por uma vez 
que seja, incitá-lo a desprezar e controlar as 
opiniões ante as quais respeitosamente se incli- 
na, porquanto implicam em sua salvação; 
quando se pôóem em dúvida certos pontos de 
sua religião, submetendo-os a seu julgamento, 
ele acaba muito rapidamente por sentir a 
mesma incerteza para com todas as suas de- 
mais crenças, pois as que ficam têm menos 
autoridade e fundamento do que aquelas de 
que o despojaram. Liberia-se, então, como de 
um jugo tirânico, de todos os princípios que 
recebera com apoio nas leis ou nos antigos 
costumes, “pois calcamos aos pés de bom 
grado aquilo que mais veneramos”?1º, e deci- 
de desde logo não mais aceitar o que não tenha 
antes examinado e aprovado. 


Dias antes de morrer, tendo meu pai por 
acaso encontrado o livro sob-um monte de 
papéis abandonados, pediu-me que o vertesse 
para o francês. É tarefa das mais fáceis tradu- 
zir autores como esse, em quem o fundo é 
tudo; já o mesmo não ocorre com os que sacri- 
ficam muito à graça e à elegância do estilo, 


principalmente quando nos devemos expressar 
em uma língua mais pobre que a do original. 
Para mim tratava-se de trabalho inédito, mas 
ocorrendo, por felicidade, ter então alguns 
lazeres, e nada podendo recusar ao melhor dos 
pais, fiz o possível e terminei a tradução. Meu 
pai ficou satisfeitíssimo e quis que a obra se 
imprimisse, o que se fez depois de sua morte. 


Achei belas as idéias do autor, sólida a 
estrutura da obra e piedosa a sua inspiração. 
Como muitas pessoas se distraem em sua leitu- 
ra, entre as quais senhoras a quem devemos 
obrigações, não raro me foi dado ajudá-las, 
destruindo as duas principais objeções que 
fazem ao livro. 

O objetivo deste é ousado e corajoso, pois se 
propõe estabelecer e provar, contra os ateus, 
todos os artigos de fé da religião crista, 
baseando-se unicamente em razões humanas e 
naturais. E, em verdade, acho-o tão firme e tão 


0 Lucrécio. 


brilhante desse ponto de vista, que não creio 
seja possível conseguir mais, nem penso que 
alguém o tenha conseguido. Parecendo-me a 
obra demasiado rica e bela para autor tão 
pouco conhecido e de quem nada sabemos, 
senão que era médico, espanhol, e residira em 
Tolosa há cerca de duzentos anos, indaguei de 
sua importância junto a Adriano Tournebus 
que tudo sabe. Este respondeu-me que, a seu 
ver, podia muito bem tratar-se de uma quinta- 
essência tirada de Santo Tomás de Aquino, 
cuja infinita erudição e sutileza de espírito 
eram as únicas capazes de tais idéias. Como 
quer que seja (e a hipótese de Tournebus não 
basta para despojar Sebond), trata-se por certo 
de um homem eminente que escreveu belis- 
simas páginas. 

A primeira objeção ao livro é que os cris- 
tãos se enganam em querer sustentar com 
argumentos puramente humanos uma crença 
que só se concebe pela fé e por intervenção 
particular da graça divina. Parece-me que tal 
objeção provém de uma exagerada piedade, 
por isso mesmo convêm refutá-la com tanto 


maior delicadeza e respeito. E é neste espírito 
que gostaria de responder. Seria tarefa para 
alguém mais versado em teologia do que eu, 
que a ignoro. Entretanto, julgo que em uma 
coisa tão elevada e divina, que sobreexcede a 
inteligência humana, como essa verdade com 
que a bondade de Deus houve por bem ilumi- 


nar-nos, cumpre que Ele nos continue a auxi- 
liar, e que só por um favor especial de Sua 
parte podemos concebê-la e penetrá-la. Aban- 
donados unicamente à nossa inteligência, não 
seremos capazes, pois se assim não fosse, mui- 
tos espíritos superiores e privilegiados como os 
que floresceram nos séculos passados teriam 
chegado à fé por intermédio da razão. É 
somente a fé que nos revela os inefáveis misté- 


rios de nossa religião e nos confirma a sua ver- 
dade; o que não significa não seja bela e louvá- 
vel empresa pôr a serviço dessa fé os meios de 
investigação que o homem recebeu de Deus. E 
não há como duvidar um momento sequer seja 
este o emprego mais digno que nos caiba dar a 
nossas faculdades mentais, nem exista ocupa- 
ção e objetivo mais elevados para um cristão 
do que os de orientar seus estudos e medita- 


ções no sentido de embelezar, estender e 
ampliar os alicerces de sua crença. Não nos 
contentemos com colocar ao serviço de Deus 
nosso espírito e nossa alma; devemos também 
prestar-Lhe uma homenagem fisica, pois todos 
os nossos órgãos, todos os atos e atitudes con- 
correm para a Sua glorificação. Nossa razão 
deve agir do mesmo modo e dedicar-se a 
amparar nossa fé, sempre porém sob a reserva 


210 


de não imaginar que por si só, pela força que 
pode alcançar, lhe seja dado adquirir essa ciên- 
cia sobrenatural que provém de Deus. 

Se essa ciência não nos penetrasse por 
extraordinária graça, se não entrasse em nós 
senão pela força do raciocínio e outros proces- 
sos humanos, não ocuparia O lugar nem teria o 
esplendor que deve ter. Creio, porém, que 
assim é que nos penetra. Se estivéssemos uni- 
dos a Deus por uma fé ardente, se a Ele nos 
prendêssemos por Ele próprio e não por nós, se 
nossa fé assentasse em fundamento divino, as 
tentações humanas não teriam o poder de nos 
abalar como têm; resistiriamos sem dificul- 
dade a tão fracos assaltos. O amor à novidade, 
a tirania dos príncipes, a sorte de um partido, 
as mudanças temerárias e fortuitas de nossas 
opiniões, não conseguiriam estremecer ou alte- 
rar as nossas crenças; não nos deixariamos 
perturbar por argumentos novos e nenhuma 
retórica no mundo nos impressionaria. Resolu- 
tos e serenos, enfrentariamos esses golpes: 
“assim um vasto rochedo opõe sua massa ao 
furor das ondas que rugem e se quebram de 
encontro a ele?" 11, 


Se esse raio divino nos atingisse ainda que 
de leve, em tudo o veriam. Nossas palavras e 
nossos atos lhe refletiriam o clarão, tudo o que 
emana de nós seria iluminado por tão nobre 
claridade. 

Deveriamos envergonhar-nos. O adepto de 
qualquer seita humana, por estranha que seja, 
a ela adapta rigorosamente sua conduta, e nós 
outros cristãos só nos unimos à nossa divina 
doutrina por palavras. Quereis a prova? Com- 
parai nossos costumes aos dos maometanos e 
pagãos e vede quanto os nossos são inferiores, 
mesmo quando devido à superioridade de 
nossa religião deveriamos brilhar extraordina- 
riamente. Cumpriria que dissessem: são justos, 
caridosos, bons, logo devem ser cristãos. O 
resto é comum a todas as religiões: a esperan- 
ça, a confiança, os acontecimentos que fortale- 
cem, as cerimônias, as penitências, os mártires. 


O que deveria distinguir a nossa verdade fora a 
virtude, o mais celestial distintivo, o - mais 
digno e mais árduo produto da verdade. É por- 
que não somos o que deveríamos ser, que 
nosso bom São Luís insistia em desaconselhar 
o rei tártaro que se convertera a vir a Lião bei- 
jar os pés do papa e admirar a pureza de nos- 
sos costumes, pois temia que, ao contrário, 
nossos desregramentos lhe esgotassem a admi- 
ração por nossas crenças. Isso, entretanto, não 
se verificou com aquele que, visitando Roma 
com idênticas intenções e observando a disso- 


111 Virgílio (paráfrase). 


MONTAIGNE 


lução do clero e do povo, mais entusiasta se 
tornou de nossa fé, considerando quanto devia 
ser forte e divina para manter sua dignidade e 
seu esplendor em meio a tamanha corrupção. 
Se tivéssemos um pingo somente de fé, 
removeriamos montanhas, dizem os Evange- 
lhos. Nossas ações, inspiradas pela divindade 
que presidiria igualmente à sua execução, não 
se incluiriam apenas entre as que o homem 
pode cumprir, mas participariam do milagre, 
como nossas próprias crenças: “crê, e o cami- 
nho que te conduzirá à virtude e à felicidade 
será curto” !'2. Uns se engenham em fazer crer 


que crêem, e não crêem; os outros — a maio- 
ria — persuadem-se a si próprios e não sabem 
o que seja crer. Achamos estranho, nas guerras 
que atualmente assolam nosso país, que os 
acontecimentos flutuem na indecisão; é que 
não pomos nossa fé nessas lutas. Um dos par- 
tidos tem por ele a justiça, mas faz dela apenas 


uma bandeira e uma máscara; ostenta-a mas 
não lhe obedece. Não é ela que impele a ação; 
não a desposou realmente o partido, o qual 
não a traz no coração mas tão-somente nos lá- 
bios, como faria um advogado. Ora, Deus deve 
Seu apoio extraordinário à fé e à religião e não 
a nossas paixões. E nessa luta são os homens 
que a orientam. Para eles a religião é um meio, 
quando deveria ser um fim. Atentai para os 
acontecimentos e vereis como acomodamos a 
religião, tal qual uma cera mole, a nossos 


caprichos, obrigando-a a assumir as formas 
que queremos. Jamais se viu em França seme- 
lhante abuso. Que a puxem para a esquerda ou 
para a direita, que digam branco ou preto, 
todos a colocam igualmente a serviço de suas 
ambições, e agem de'maneira tão idêntica em 
seus desregramentos e injustiças que tornam 
difícil acreditarmos na divergência de opiniões 
que alegam para justificar seus atos, por- 
quanto nossa opinião é que deve inspirar nossa 
conduta e regular nossa vida. Uma só e mesma 
escola, com os mesmos princípios, não produ- 
ziria costumes mais homogêneos, mais unifor- 
mes. : 


Yede a horrível impudência com que joga- 
mos com a palavra divina, a irreligiosidade 
com que acolhemos ou rejeitamos, segundo o 
lugar que nos assinam os fados nessas tempes- 
tades públicas. Que partido, há um ano, sus- 
tentava solenemente ser permitido ao cidadão 
revoltar-se e armar-se contra seu rei em defesa 
de sua religião? Que defendia o partido contrá- 
rio? E vede de que lado se situam um e outro 
agora, e se as armas se entrechocam menos 
por se terem invertido as posições! E queima- 


132 Quintiliano. 


-— — — 


ENSAIOS — II 211 


mos as pessoas que afirmam ser preciso modi- 
ficar a verdade de acordo com os interesses de 
nossa causa! Sejamos francos: se selecionás- 
semos no exército, mesmo no exército da lega- 
lidade, os que servem unicamente para defen- 
der sua fé, e até os que querem o império da lei 
e do príncipe, não se constituiria com eles uma 
companhia sequer. Como se explica que sejam 
tão poucos os que permanecem fiéis à sua fé, 
qualquer que seja o desenvolvimento dos 
sucessos, e tão numerosos os que ora vão a 
passo e ora a galope, e malbaratam os nossos 
interesses passando da violência à moleza e à 
indiferença? Não será porque a massa obedece 
a considerações pessoais e ocasionais, cuja 
diversidade a impulsiona? 

É evidente, para mim, que somente nos 
conformamos com os deveres que se coadu- 
nam com nossas paixões. Não há hostilidade 
mais eficaz que a dos cristãos. Nosso zelo é 
capaz de maravilhas quando secunda nossa 
inclinação natural para o ódio, a crueldade, a 
ambição, a avareza, a intriga, a rebeldia. Ao 


contrário, só por milagre, ou temperamento 
especial, nada nos induz à bondade, à benevo- 
lência e à moderação. Nossa religião tem por 
objetivo extirpar os vícios; mas fazem com que 
os dissimule, os alimente e os incentive. É pre- 
ciso não trapacear com Deus. Se acreditás- 
semos nEle — não chego a dizer se tivés- 


semos fé —, se tão-somente acreditássemos 
nºEle, e com vergonha o digo, se O tivéssemos 
em nós como um amigo, por exemplo, nós O 
amaríiamos acima de tudo pela Sua infinita 
bondade, e pela beleza que nEle resplende. Ao 
menos ocuparia Ele o mesmo lugar que ocu- 
pam as riquezas, os prazeres, a glória, os 
companheiros. O melhor dentre nós, que receia 


magoar seu vizinho, seus parentes, seu mestre, 
não teme ultrajá-Lo. Haverá alguém, por mais 
simples de espirito que seja, que não queira 
trocar um desses prazeres que nos oferecem os 
vícios pela esperança de uma glória eterna? E 
no entanto quantas vezes renunciamos a essa 
glória por simples desdém, pois, que nos induz 
à blasfêmia senão o próprio desejo de ofender? 


Quando iniciavam o filósofo Antístenes nos 
mistérios de Orfeu, disse-lhe o sacerdote que 
os que praticavam essa religião receberiam, ao 
morrer, as mais admiráveis recompensas. “Por 
que então não morres?”, observou o filósofo. 

Diógenes, mais grosseiramente ainda, como 
de hábito, respondeu ao sacerdote que lhe 
recomendava que abraçasse sua religião à fim 
de alcançar a felicidade eterna: “Queres que 
acredite que grandes homens como Agesilau € 
Epaminondas serão miseráveis enquaiito tu, 
que és um burro e nada fazes, serás um bem- 


- aventurado somente porque és sacerdote?” 


Se acolhêssemos essas grandes promessas 
de beatitude eterna com o mesmo respeito que 
demonstramos pelas doutrinas filosóficas, não 
teriamos tanto medo da morte: “Em vez de 
lamentarmos a desagregação de nosso ser, nos 
alegrariamos com partir e abandonar nossa 
carcaça mortal, como a serpente muda de pele, 
como o veado se desfaz. de seus velhos 
cornos”'!º?. Quero desaparecer, diriamos, 
para estar com Jesus. A eloquência de Platão 
no que concerne à imortalidade da alma não 
impeliu alguns de seus discípulos ao suicídio, a 
fim de gozar mais cedo a recompensa que o 
filósofo prometia”? 

Tudo isso é sinal muito evidente de que.não 
compreendemos nossa religião, senão a nosso 
modo e a nosso bel-prazer, como compreen- 
demos qualquer outra religião. Se é nossa, é 
porque o destino nos fez nascer em um país 
onde ela existe, porque é muito antiga, ou por- 
que os homens que a estabeleceram merecem 
nosso respeito, ou porque tememos os castigos 
com que ameaça os que não a seguem, ou 
ainda porque nos seduzem suas promessas. 
Todas essas considerações podem pesar em 
nossas crenças, mas são secundárias; são laços 
de ordem puramente humana. Em outras 
regiões, outras influências, promessas e amea- 
ças poderiam igualmente impor-nos outras 
crenças. Somos cristãos como somos perigor- 
dinos ou alemães. 


Diz Platão que poucos ateus o são a ponto 
de não apelarem para o poder divino nos 
momentos de perigo. O aforismo não se aplica 
ao verdadeiro cristão. Isso diz apenas respeito 
as religiões criadas pelo homem. Que espécie 
de fé será essa que se desenvolve com a covar- 
dia e a pusilanimidade? Linda fé, a que existe 
somente porque não se tem mais a coragem de 
deixar de crer! Sentimentos tão falhos quanto 
a inconstância e o medo poderão provocar em 
nossa alma uma influência sadia? Há quem 
pretenda provar, diz ainda Platão, que a razão 
ordena que consideremos puras invenções tudo 
o que se afirma do inferno e dos castigos futu- 
ros. Mas, apresente-se a oportunidade de 
serem coerentes, surja a-velhice, apareçam as 
enfermidades e com elas a ameaça do túmulo, 
logo veremos que o receio do futuro lhes modi- 
ficará as convicções. E é porque tais impres- 
sões enfraquecem o ânimo, que o filósofo proí- 
be em suas leis as alusões a essas ameaças € 
procura persuadir os homens de que dos deu- 
ses não receberão jamais o mal, a não ser 
quando necessário ao bem, como remédio para 
as afecções morais. 


113 Lucrécio. 


212 


Diz-se de Bion que, adepto fervoroso do 
ateísmo de Teodoro, durante muito tempo ca- 
çoou dos devotos, mas, surpreendido pela 
morte, entregou-se às práticas mais supersti- 
ciosas, como se os deuses existissem ou deixas- 
sem de existir segundo as suas conveniências. 
Platão conclui — e os exemplos o confirmam 
— que pela razão ou pela força somos sempre 


levados a crer na existência de Deus. O 


ateísmo é uma concepção monstruosa e anti- 
natural, e difícil de ser aceita pelo espírito 
humano, ainda que insolente e anárquico, em- 
bora se encontre quem a ostente, seja por 
rebeldia, seja pela vaidade .de emitir opiniões 
originais e reformadoras; mas se esses ateus 
são bastante loucos para se dizerem ateus, não 
são suficientemente fortes para implantar tal 
convicção em sua consciência. Uma boa esto- 
cada no peito e ei-los de mãos postas a implo- 


rar o céu. E quando o medo e a doença tiverem 
abatido esse licencioso e volúvel ardor, volta- 
rão a si e mui discretamente farão como os 
outros, acreditando naquilo em que todos acre- 
ditam. Uma coisa é um dogma seriamente 
estudado e aceito por todos, outra coisa essas 
impressões passageiras que, nascidas de espíri- 
tos desequilibrados, vão alimentando as mais 
temerárias idéias e as mais fantasistas. Pobres 
loucos que se esforçam por ser piores do que 
está em suas forças. 


Os erros do paganismo e a ignorância de 
nossa santa verdade, fizeram ainda que a gran- 
de alma de Platão, grande na medida da huma- 
na grandeza, caísse em outro absurdo da 
mesma ordem, a saber, a afirmação de que as 
crianças e o velhos são mais acessíveis à reli- 
gião, como se esta resultasse de uma fraqueza 
de espírito. O laço que deveria unir nosso jul- 
gamento à nossa vontade, envolver nossa alma 


e ligá-la ao Criador, não deveria decorrer de 
nossas considerações, nem de nossos racioci- 
nios e sim de um abraço divino e sobrenatural 
sob uma só forma, um só aspecto, um só brilho 
emanado da autoridade de Deus e de Sua 
graça. Ora, sendo nosso coração e nossa alma 
regidos pela fé, esta deve: poder valer-se de 
todas as demais partes de nosso ser de acordo 
com o que cada uma pode dar. Não é crível, 
portanto, que esse conjunto que constitui o 


mundo, que essa admirável máquina não reve- 
le vestígios denunciadores da presença do 
grande. arquiteto que a construiu e que não se 
perceba em algumas de suas peças algo susce- 
tível de lembrar o artesão que as fez e juntou. 
E, efetivamente, Suas obras principais deno- 
tam o caráter de Sua divindade, o qual somen- 
te a nossa fraqueza impede de perceber. Pois, 
como diz Deus, Suas obras invisíveis manifes- 


MONTAIGNE 


- tam-se pelas visíveis. Sebond dedicou-se a esse 


estudo digno de nossa atenção, mostrando-nos - 
que nada neste mundo desmente a grandeza do ' 
Criador. Aliás seria contrário à bondade divi- 
na que o universo não oferecesse apoio à ver- 
dade de nossa fé: o céu, a terra, os elementos, 
nosso corpo e nossa alma, tudo concorre para 
Justificá-la. Cabe-nos encontrar o meio de 
utilizarmos tudo isso. Confiam-nos o seu 
segredo com a condição de que o saibamos 
compreender, pois o mundo é por excelência o 
templo sagrado a que o homem tem acesso a 


fim de contemplar monumentos que não foram 


construídos pela mão humana, mas sim ergui- 
dos pela divina sabedoria, a qual no-los tornou 
sensíveis como o sol, as estrelas, as águas, a 
terra, que representam as coisas inteligíveis. 
As invisíveis, diz São Paulo, nós as concebe- 


mos pelo que vemos desse mundo que .Ele 
criou, testemunho de Sua eterna sabedoria e de 
Sua divindade. “Não sonegando à terra o espe- 
táculo do céu, desenrolando-o sem cessar 
sobre nós, Deus se descobre em todos os seus 
aspectos; oferece-se a nós e em nós se inculca; 
desejando ser claramente percebido em Sua 
obra, mostra-nos como é e nos convida a medi- 
tar as Suas leis”!14. 


Ora, todos os raciocínios humanos são iner- 
tes e estéreis, e só tomam forma na medida em 
que Deus, por meio da graça, lhes dá tal opor- 
tunidade e lhes determina o valor. Os gestos de 
Sócrates e Catão permaneceram vãos e inúteis 
porque não tinham por objetivo o amor e a 
obediência que devemos a Deus, verdadeiro 
criador de tudo e que eles não conheciam. O 
mesmo se verifica com nossos raciocínios e 


discursos: parecem possuir uma forma, mas na 
realidade não passam de massas confusas e 
condenadas à impotência sem a fé e a graça. A 
fé, colorindo e dando brilho aos argumentos de 
Sebond, dá-lhes consistência e solidez e-os 
torna capazes de servir de guia a um neófito e 
conduzi-lo pelo caminho que leva ão conheci- 
mento da verdade, moldando-o até certo ponto 


e o predispondo a receber a graça de Deus que * 
lhe fortalece a fé e a faz perfeita. Conheço um 
senhor de categoria, versado no estudo das 
letras, que me confessou ter sido afastado da 
incredulidade pelos argumentos de Sebond. E 
ainda que os despojássemos do ornamento, 
ajuda e aprovação da fé, e os encarássemos 
como fantasias puramente humanas destinadas 
a combater as idéias dos que se precipitaram 
nas pavorosas e temíveis trevas da irreligiosi- 
dade, seriam contudo tão 'valiosos e eficientes 
quanto quaisquer outros que se lhes oponham. 


W* Manílio. 


ENSAIOS — IH 213 


De sorte que podemos dizer com razão aos 
seus adversários: “se tendes melhores argu- 
mentos, apresentai-os, se não, concordai”?! 8. 
Reconheçam a validez de nossas provas ou 
nos dêem outras mais substanciais. E eis-me, 
sem dar por isso, a discutir a segunda objeção 
que me proponho refutar em nome de Sebond. 
Há quem ache seus argumentos fracos, insu- 
ficientes para provar o que desejam provar e 
facilmente refutáveis. Essa gente merece que 
lhe responda com mais energia, pois é mais 
perigosa porque mais maliciosa. Deturpam de 
bom grado as palavras alheias no intuito de 
valorizar as próprias: para o ateu tudo o que se 


escreve tem alguma relação com o ateísmo e 


ele envenena com seu próprio veneno o mais 
inocente pensamento. Uns têm escrúpulos que 
os levam a achar insossos os argumentos de 
Sebond; acham que favorece os ateus e permi- 
te-lhes que combatam nossa religião com 
armas humanas, essa religião que não ousa- 
riam atacar se ela lhes aparecesse em todo o 
seu esplendor, na plenitude da autoridade e do 
mando. 

O meio que emprego para rebater essa obje- 
ção — e me parece o mais adequado — é o de 
humilhar e espezinhar o orguiho e a arro- 
gância do homem; o de lhe fazer sentir sua jna- 
nidade, sua vaidade, seu vazio; de lhe arrancar 
das mãos as armas mesquinhas que lhe fornece 
a razão; de o forçar a inclinar-se e beijar o 
chão ante a autoridade e imponência da divina 
majestade. Só a esta pertencem a ciência e a 


sabedoria; só ela pode avaliar sozinha alguma 
coisa e dela tiramos aquilo com que nos enfei- 
tamos e tanto prezamos em nós. “Deus não 
permite que ninguém se orgulhe, senão 
Ele”'1 8, deitemos pois por terra nossa orgu- 
lhosa pretensão, ponto de partida da tirania 
que sobre nós exerce o diabo: “Deus enfrenta 
os soberbos e perdoa os humildes”! 7. A inte- 
ligência é apanágio dos deuses, diz Platão; os 
homens pouca ou nenhuma têm. Por isso é de 
grande consolo para o cristão ver nossos 
instrumentos mortais e frágeis se adaptarem 
tão bem ao que exige nossa fé santa e divina, 
que, quando os utilizamos nos atos mortais € 
frágeis como eles próprios não se revelam mais 
adequados nem mais poderosos. 


Vejamos se o homem dispõe de argumentos 
mais eficazes que os de Sebond, e se lhe é pos- 
sível chegar a uma certeza mediante provas e 
raciocínio. Refutando os incrédulos, censura- 
lhes Santo Agostinho a injustiça de conside- 
rarem falso tudo aquilo que, em nossas cren- 
15 Horácio. 

18 Heródoto. 
117 São Pedro. 


ças, a razão não consegue provar. E a fim de 
mostrar que muitas coisas são, ou podem ter 
sido, sem que nossa inteligência lhes desvende 
a natureza e as causas, cita-lhes fatos conheci- 
dos e indiscutíveis que o homem confessa não 
poder explicar. Nisso, como em tudo o que faz, 
aliás, Santo Agostinho demonstra muita suti- 
leza e engenho. É preciso ir mais longe e ensi- 
nar-lhes que para que se convençam da debili- 
dade de sua razão, não hã necessidade de 
recorrer a exemplos singulares e peregrinos. 
Ela apresenta tantos pontos fracos, é tão cega 
que não há. verdade, por luminosa que seja, 
que assim lhe pareça. O fácil e o difícil são 
para ela uma só coisa. Tudo enfim o que ela 
pretende julgar e a natureza em geral se sonega 
à sua jurisdição e competência. 


Qué nos prega a verdade quando nos convi- 
da a fugir à filosofia deste mundo? E quando 
nos adverte de que nossa sabedoria é simples 
loucura diante de Deus? Quando nos diz que 
de todas as vaidades o homem é a mais va; € 
que quem se vangloria de seu saber não sabe o 
que é o saber; e que o homem não é nada 
quando pensa ser alguma coisa; e que se exalta 


e se engana a si próprio? Estas sentenças que 
emanam do Espirito Santo exprimem tão cla- 
ramente e de um modo tão vivo o que pretendo 
demonstrar, que não precisaria lançar mão de 
nenhuma outra prova contra pessoas que se 
inclinassem diante de sua autoridade; mas 
estes a que nos referimos aqui se obstinam em 
pagar o açoite com que serão açoitados e não 
admitem que se combata sua razão, senão com 
a própria razão. - 
Consideremos, pois, um momento o homem 
isolado, abandonado a si próprio, armado uni- 
camente de graça e conhecimento de Deus, o 
que constitui sua honra e toda a sua força, e o 


fundamento de seu ser; e vejamos o de que é 


capaz com esse equipamento. Que me explique 
pelo raciocínio em que consiste a grande supe- 
rioridade que pretende ter sobre as demais 
criaturas. Quem “o autoriza a pensar que o 
movimento admirável da abóbada celeste, a 
luz eterna dessas tochas girando majestosa- 
mente sobre sua cabeça, as flutuações como- 
ventes do mar de horizontes infinitos, foram 


criados e continuem a existir unicamente para 
sua comodidade e serviço? Será possível ima- 
ginar algo mais ridículo do que essa miserável 
criatura, que nem sequer é dona de si mesma, 
que está exposta a todos os desastres e se pro- 
clama senhora do universo? Se não lhe pode 
conhecer ao menos uma pequena parcela, 
como há de dirigir o todo? Quem lhe outorgou 
o privilégio que se arroga de ser o único capaz, 
nesse vasto edifício, de lhe apreciar a beleza? 


214 MONTAIGNE | 


E de poder sozinho render graças ao arquiteto, 
e de lhe computar os recursos e os valorizar? 
Que nos dê as provas de tão grande e admirá- 
vel faculdade, nem mesmo aos mais sábios 
concedida! Bem poucos a possuem e seriam 
dignos dela os loucos e os perversos? Seriam 
os piores preferidos aos demais? E deveremos 
acréditar em quem disse: “Para quem diremos 
que o mundo foi criado? Sem dúvida para os 
seres animados dotados de razão, isto é, os 
deuses; e os homens-que são as criaturas mais 
perfeitas”"18, Não, nunca estigmatizariamos 
suficientemente a impertinência de semelhante 
emparelhamento. Que terá, então, em si, o 
pobrezinho, para se tornar digno de uma tal 
distinção? 

Consideremos a vida incorruptível dos cor- 
pos celestes, sua beleza e grandeza, seu movi- 
mento contínuo e regulado com tamanha exati- 
dão: “quando contemplamos, no espaço 
celeste do vasto mundo, o éter imóvel com 
suas cintilantes estrelas, e meditamos nas sen- 
das do sol e da lua”1"º; consideremos o domi- 
nio e o poder que esses corpos exércem não 
somente sobre nossas existências e nosso desti- 
no, “pois todos os atos e a vida dos homens 
dependem da influência dos astros”'2º, mas 
também sobre nossas tendências, nossos racio- 
cínios, nossas vontades, que governam e per- 
turbam segundo o sentido dessa influência 
como no-lo demonstra a razão: “percebendo o 
secreto império que tão longínquos astros têm 
sobre os homens, as leis fixas que regulam os 
movimentos periódicos do universo e os sinais 
que determinam o curso dos acontecimen- 
-tos?121. Se não somente o homem isolado, 
mas também os reinos e os impérios, tudo 
neste mundo sofre a influência dos mais insig- 
nificantes movimentos celestes (“as maiores 
revoluções são provocadas por esses movimen- 
tos insensíveis, tão grandes são as leis que 
comandam os próprios reis”'22): se nossa vir- 
tude, nossos vícios, nossas faculdades, nosso 
saber, essa intuição que temos da influência 
dos astros, essa compreensão das relações 
existentes entre nós e eles, se tudo nos vem 
deles e resulta de sua ação, como somos indu- 
zidos a crer: “um, louco de amor, atravessa o 
mar e vai destruir Tróia; outro tem por destino 
escrever leis; aqui os filhos matam os pais, 
além os pais matam os filhos, ou os irmãos 
lutam contra os irmãos e se trucidam. Não 
cabe acusar os homens; o destino, mais forte 


118 Cicero. 

119 TLucrécio. 
12º Manílio. 
121 Td. 

122 Td. 


do que eles, os arrasta, os obriga a se castiga- 
rem e se esquartejarem mutuamente. Tudo pre- 
cisa acontecer como o quer o destino”? 2º, se é 
afinal ao céu que devemos a parcela de razão 
que possuímos, como pode esta parte equipa- 
rar-se ao todo? Como poderemos submeter ao 
nosso saber seu princípio e as condições em 
que este existe? 

Tudo o que vemos desses astros é mistério e 
maravilha: “que instrumentos, que alavancas, 
que máquinas, que operários ergueram tão 
vasto edifício”'2 4? Por que os julgaremos pri- 
vados de alma, vida, razão? Deram-nos por- 
ventura provas de estupidez e insensibilidade, 
a nós que não temos outras relações senão de 
dependência? Diremos que nunca constatamos 
em nenhuma criatura outra que o homem o 
testemunho de uma alma dotada de razão? E 
que provaria isso? Nadá vemos que se asseme- 
lhe ao sol, mas do fato de nada termos visto de, 
semelhante concluiremos que não existe, como 
não existiriam seus movimentos de rotação 
porque não conhecemos coisa equivalente? Se 
tudo o que não vemos não existisse, nossa 
ciência se acharia muito empobrecida: “tão 
estreitos são os limites de nosso espírito”? 8. 
Não é um sonho da vaidade humana fazer da 
lua uma terra celeste; pensar, como Anaxágo- 
ras, que nela haja montanhas e vales, imaginar 
como Platão e Plutarco que aí se encontram 
residências para colônias de seres humanos; e 
ainda que nossa terra é um astro luminoso? 
“Entre outras doenças da natureza mortal há 
que apontar a cegueira da alma que fião 
somente induz o homem ao erro más ainda a 
amar o seu erro”!2.8 “O corpo corruptível 
entorpece a alma e essa morada terrena à 
deprime no próprio exercício do pensamen- 
to?127. A presunção é doença natural e inata 
em nós. De todas as criaturas, a mais frágil e 
miserável é o homem, mas ao mesmo tempo, 
como diz Plínio, a mais orgulhosa. Ele se sente 
e se vê colocado na lama e no esterco do 
mundo, amarrado, pregado à pior parte do uni- 
verso, à mais morta, à mais afastada dos céus, 
junto com os animais da=mais baixa categoria 
das três existentes, e ei-lo que pela imaginação 
se alça acima da órbita da lua.e supõe o céu a 
seus pés! 

Pela vaidade mesma dessa imaginação, 
iguala-se a Deus, atribuindo-se a si próprio 
qualidades divinas que ele mesmo escolhe. 
Separa-se das outras criaturas; distribui as 
faculdades físicas e intelectuais que bem enten- 


123 Id. 

124 Cícero. 

125 Td. 

128 Sêneca. 

127 Santo Agostinho. 


ENSAIOS — II 


de aos animais, seus companheiros. Como 
pode conhecer com sua inteligência os móveis 
interiores e secretos deles? Em virtude de que 
comparações entre eles e nós chega à conclu- 
são de que são estúpidos? Quando brinco com 
minha gata, sei là se ela não se diverte mais do 
que eu. Distraímo-nos com macaquices reci- 
procas, e se tenho o meu momento de iniciar 
ou terminar o folguedo, ela também o tem. 


Platão em sua idade de ouro, sob Saturno, 
inclui entre os principais privilégios do homem 
de então o de se comunicar com os animais. 
Assim, questionando-os e os estudando, co- 
nhecia exatamente as faculdades de cada um 
bem como as diferenças, o que tornava mais 
agudo seu raciocínio, mais perfeita sua pru- 
dência e mais eficiente sua conduta na vida. 
Haverá melhor prova da insensatez do homem 
em querer julgar os animais? Esse grande filó- 
sofo crê que, quanto à forma corporal de que 
os dotou a natureza, esta só atendeu aos prog- 
nósticos possíveis naquela época. 


Essa falha que impede nossa comunicação 
recíproca tanto pode ser atribuída a nós como 
a eles, que consideramos inferiores. Está ainda 
por se estabelecer a quem cabe a culpa de não 
nos entendermos, pois se não penetramos o 
pensamento dos animais, eles tampouco pene- 
tram os nossos e podem assim nos achar tão 
irracionais quanto nós os achamos. E nada há 
de extraordinário em que não os entendamos, 
pois o mesmo ocorre em relação aos bascos € 
aos trogloditas. Alguns entretanto preten- 
deram entendê-los: Apolônio de Tiana, Me- 
lampo, Tirésias, Tales, etc. E se nos dizem, os 
que se ocupam com a descrição do mundo, que 
há povos que têm um cão por monarca, é de se 
admitir que seus súditos entendam algo de seus 
latidos e atitudes. 


Observemos ademais algumas semelhanças 


existentes entre o homem e os animais. Conhe- 
cemos alguma coisa de seus sentimentos, 
pouco mais ou menos o que conhecem dos 
nossos, pois nos fazem festa, nos ameaçam ou 
nos pedem o que querem, quase da mesma 
maneira por que nos conduzimos com eles. De 
resto, entendem-se entre si perfeitamente e não 
só entre os da mesma espécie, mas também 
entre os de espécie diferente. “Os animais 
domésticos, como os bichos ferozes, emitem 
sons diferentes segundo o medo, a dor ou O 
prazer que sentem”'28. Pelo latido do cão, 
sabe o cavalo de sua cólera; não o receia quan- 
do outra é a modulação da voz. 

Quanto aos animais que não têm voz, pode- 
mos verificar facilmente, pela comunicação e 


128 Tucrécio. 


215 


inteligência que entre eles se observam, que pos- 
suem outros meios de se compreender, valen- 
do-se de movimentos com significações especi- 
ficas. “Pelo mesmo motivo vemos as crianças 
suprirem por gestos a palavra que lhes 
falta”'2º. E por que não acreditar nisso? Não 
é assim que os mudos discutem, conversam, 
contam histórias? Eu conheci alguns, tão há- 
beis e afeitos aos gestos, que de nada careciam 
para se exteriorizar. Os amorosos brigam, 
reconciliam-se, imploram, agradecem, marcam 
encontros unicamente com olhares: “o próprio 
silêncio tem sua linguagem 13º. 

E não nos exprimimos com as mãos? Pedi- 
mos, prometemos, chamamos, despedimo-nos, 
ameaçamos, suplicamos, rezamos, negamos, 
interrogamos, admiramos, recusamos, conta- 
mos, confessamos, manifestamos nosso arre- 
pendimento, nossos temores, nossa vergonha, 
nossas dúvidas; informamo-nos, comandamos, 
incitamos, encorajamos, blasfemamos, teste- 
munhamos, exprimimos nosso desprezo, nosso 
despeito; caçoamos, adulamos. desafiamos, 
injuriamos, aplaudimos, benzemos, humilha- 
mos, reconciliamo-nos, exaltamo-nos, regozi- 
jamo-nos, queixamo-nos, entristecemo-nos; de- 
monstramos nosso desânimo, nosso desespero, 
nosso espanto; exclamamos e calamos, e que 
mais não externamos, unicamente com as 
mãos, cuja variedade de movimentos nada fica 
a dever às inflexões da voz? Com a cabeça 
convidamos, aprovamos, reprovamos, desmen- 
timos, saudamos, honramos, veneramos, des- 
prezamos, solicitamos, lamentamos, acaricia- 
mos, censuramos, concordamos, desafiamos, 
exortamos, ameaçamos, asseguramos, inquiri- 
mos. E com as sobrancelhas? E com os 
ombros? Não há gesto ou movimento em nós 
que não fale, de uma maneira inteligível que 
não é ensinada e todos entendem. Tudo isso 
faz que, em se atentando para a variedade das 
línguas e o trabalho que exigem para que as 
aprendamos, possamos considerar essa comu- 
nicação por meio de sinais a linguagem natural 
do homem. Deixo de lado o que a necessidade 
ensina em certos casos, bem como o alfabeto 
dos dedos, a gramática inculcada por gestos, 
as artes assim executadas, os povos que, 
segundo Plínio, não falam senão por esse meio. 
Um embaixador da cidade de Abdera, depois 
de ter falado longamente com Ágis, rei de 
Esparta, perguntou-lhe que resposta devia dar 
a seus concidadãos. “Dize que te deixei falar 
quanto quiseste, e tudo o que quiseste, sem 
pronunciar uma palavra.” Eis um silêncio que 
fala de modo muito claro. 


129 Td. 
130 Tasso. 


216 


Que faculdade teremos ainda que não 
encontremos nos animais? Haverá organiza- 
ção social mais perfeita que a das abelhas? À 
divisão do trabalho e dos encargos é tão bem 
regulada entre elas, que a não podemos imagi- 
nar sem supormos esses insetos dotados de 
inteligência: “por esses sinais, e exemplos, jul- 
garam alguns sábios que as abelhas possuiam 
uma parcela de espírito divino e tinham uma 
alma”'31. As andorinhas que, na primavera, 
vemos esquadrinharem os recantos todos de 
uma casa, escolherão por acaso sem discerni- 
mento e ponderação o mais cômodo dentre mil 
lugares? Quando constroem seus ninhos, tão 
“admiráveis pela contextura, podem os pássaros 
adotar a forma quadrada ou redonda, o ângulo 
obtuso ou reto, sem conhecimento das condi- 
ções e efeitos de cada uma dessas formas? Ao 
misturarem a água com a argila, ignorarão que 
aqueia amolece esta? Atapetando seus palá- 
cios de musgo ou de plumas, não estarão pre- 
vendo a conveniência da moleza para os mem- 
bros delicados dos filhotes? Será que se 
resguardam do vento e da chuva e instalam 
seus ninhos voltados para o oriente sem 
conhecerem as condições climáticas e atenta- 
rem para as mais favoráveis? Por que faz a 
aranha sua teia mais espessa em certos lugares 
e por que a tece diferentemente, ora de um jeito 
ora de outro, se antes não pensou, e decidiu? 


. Constatamos que na maior parte de seus 
trabalhos e obras os animais nos são superio- 
. res e que nossa arte não consegue imitar-lhes 


com grande êxito as realizações, e no entanto - 


no que fazemos, inferior ao que fazem os 


bichos, pomos toda a nossa alma e apelamos 
para todas as nossas faculdades. Por que não 
acreditarmos que agem de igual maneira? Que 
motivo nos leva a atribuir a não sei que ins- 
tinto natural e servil tais obras que somos 
incapazes de levar a cabo, nem por instinto 


nem com a ajuda da razão? Com isso, sem 
pensar, outorgamo-lhes grandes vantagens, 
pois admitimos que a natureza, em virtude de 
uma afeição especial, os acompanha e guia nos 
atos e situações da existência, enquanto nos 


abandona ao acaso e à sorte, obrigando-nos a 
recorrer à arte para obtermos as coisas neces- 
sárias à nossa conservação e recusando-nos 
sempre os meios de alcançarmos, nem mesmo 
mediante a mais violenta concentração de espí- 
rito, a habilidade natural dos animais. Assim a 
estupidez deles seria mais admirável do que a 
nossa divina inteligência! Teriamos portanto 
motivo de sobra para considerar a natureza 
uma injusta madrasta. Entretanto erraríamos, 


131 Virgílio. 


MONTAIGNE 


porquanto nossa maneira de ser não é tão 
desordenada nem absurda. 

A natureza cuida igualmente de todas as 
suas criaturas. Não há nenhuma que ela não 
tenha abundantemente provido de meios neces- 
sários à sua conservação. E as recriminações 
que ouço (pois a licença de nossas opiniões ora 
nos eleva acima das nuvens ora nos rebaixa 
aos antípodas) carecem de fundamento. Dizem 
essas queixas que o homem é o único animal 
abandonado nu sobre a terra nua. Chega 
amarrado, arrochado, e para se armar e se 
defender precisa recorrer aos despojos de 
outrem. A natureza revestiu todas as-criaturas 
de carapaças, casca, pelos, la, espinhos, couro, 
escamas, seda, segundo suas necessidades; 
armou-as de garras, dentes, chifres para o ataque 
e a defesa, ensinando-lhes ainda nadar, correr, 
voar, cantar, ao passo que o homem não pode, 
sem aprendizado, andar, falar, comer. Apenas 
sabe chorar. “Como o marinheiro lançado à 
praia pelas ondas furiosas, jaz a criança na 
terra, nua, sem palavra, privada de quaisquer 
socorros para a vida, desde o momento em que 
a natureza a arranca do ventre materno a fim 
de a expor à luz. Enche então o ar de gemidos, 
e com razão, tantos são os males que aqui a 
esperam. Ao contrário, os animais domésticos 
e os bichos ferozes crescem sem cuidados; não 
precisam nem de chocalho nem de carícias, 
nem da linguagem infantil de uma ama; a dife- 
rença de temperatura não os obriga a trocar de 
roupas; não necessitam enfim de armas, nem 
de torreões para sua segurança, porquanto a 
natureza amplamente os provê de tudo” 132, 


Tais queixas não são justas. Hã na organi- 
zação do mundo maior eglidade e uniformi- 
dade. Nossa pele, como a dos animais, pode 
opor resistência suficiente às injúrias do 
tempo. Provam-no numerosos povos que não 
usam roupas. E nossos antepassados gauleses 
pouco se cobriam, tal qual os habitantes da 
Irlanda"??, cujo clima ê tão frio. Julgamo-lo 
melhor ainda por nós mesmos, pois todas as 
partes do corpo que nos comprazemos em 


expor ao sol e ao vento, como o rosto, os pés, 
as mãos, os ombros, a cabeça, suportam-no 
muito bem. E se há uma parte em nós que pa- 
rece dever recear o frio é o estômago, no qual 
se efetua a digestão. Nossos pais expunham-no 


ao ar e as senhoras de hoje, tão frágeis, tão 
delicadas, usam por vezes vestidos abertos até 
c umbigo. O enfaixamento das crianças, as 
precauções que tomamos para sustentar-lhes o 
corpo, não são tampouco indispensáveis: as 


!82 Lucrécio. 
133 Escócia, provaveimente. 


ENSAIOS —I 217 


mães lacedemônias criavam seus filhos, dei- 
xando-lhes inteira liberdade de movimentos, 
não lhes arrochando os membros. 

Se choramos, também choram os animais. 
Há bem poucos que não fiquem a gemer e 
lamentar-se durante muito tempo ainda após o 
nascimento, o que é inerente ao seu estado de 
fraqueza. Quanto a alimentar-se, é coisa natu- 
ral neles como em nós; não há como ensiná-la, 
pois “todo animal sabe de suas forças e 


necessidades”'3*. Atingida a idade em que o 
peito já não lhe basta, a criança pede comida. 
E a terra produz espontaneamente, e oferece 
ao homem, em quantidade suficiente, o que 
necessita para sua alimentação, sem que seja 
preciso cultivo ou preparação. Nem sempre, é 
certo; mas os animais como nós — compro- 
vam-no as formigas — sabem fazer provisões 
para as estações estéreis do ano. 


Esses povos que acabamos de descobrir !* 8, 
tão copiosamente providos de camnes e bebidas 
naturais, sem que as cultivem ou fabriquem, 
mostram-nos que o pão não é nosso único ali- 
mento e que, sem cultivo, nos fornece-a natu- 
reza tudo o que nos é indispensável, provavel- 


mente com maior abundância e variedade do 
que depois que interviemos na produção: “No 
princípio criou a terra, por si própria, as mais 
ricas messes e os mais risonhos vinhedos; ela 
mesma formou seus mais doces frutos e alegres 
pastagens, o que agora só obtemos com suor, 
exaurindo os bois e os lavradores”! * 8. Mas as 
exigências desregradas dos nossos apetites 
crescem mais do que a nossa possibilidade de 
satisfazê-los. 


Quanto às armas, a natureza nos deu maior 
número do que aos animais. Nossos membros 
são capazes de mais movimentos e deles tira- 
mos melhor partido, sem mesmo nos termos 
exercitado antes. E os homens que se habitua- 
ram a combater nus enfrentam os mesmos 
perigos que nós; e se alguns animais levam 
vantagem sobre nós, em relação a muitos ou- 
tros a vantagem é nossa. E a precaução de 
aumentar nossa força e de nos proteger por 
meios artificiais é em nós instintiva. 


O elefante afia os dentes que emprega na 
luta (tem-nos especialmente para tal fim); o 
touro envolve-se em uma nuvem de pó que 
levanta raspando o solo com os cascos; o java- 
li aponta suas defesas; quando o mangusto 
resolve atacar o crocodilo, cobre o corpo com 
uma camada de lama bem compacta e amassa- 
da, que forma uma espécie de couraça. Será 


134 Lucrécio. 
135 Montaigne refere-se aos índios de Brasil. 
136 Tucrécio. 


menos natural o fato de fabricarmos armas de 
madeira e ferro? 

Quanto à linguagem, pode-se dizer que se 
não é natural tampouco é imprescindível. 
Penso que uma criança entregue a si mesma e 
criada em pleno isolamento, sem relações com 


. outros seres humanos (experiência dificil de se 


realizar) inventaria uma espécie de palavra 
para se exprimir. Não é admissível que a natu- 
reza nos tenha negado esse. instrumento que 
deu a muitos outros animais, pois que outra 
coisa será, senão uma linguagem, isso que lhes 
permite queixar-se ou manifestar sua alegria, 
chamar por socorro, ou para o amor, o que 
fazem por meio da voz? Por que não falariam 
conosco? E não falamos com eles? Quantas 
coisas dizemos nós aos cães, que eles com- 
preendem e a que respondem! A linguagem 
que com eles empregamos não é a mesma que 
nos serve para falar aos pássaros, aos porcos, 
aos bois, aos cavalos. Mudamos de idioma 
segundo o animal a que nos dirigimos. “Assim 
no meio de negro batalhão uma formiga che- 
ga-se a outra, talvez para saber de seu caminho 
ou de seus tesouros”'3 7. Parece-me até que 
Lactâncio atribui aos animais não somente a 
faculdade de falar mas também de rir, e a dife- 
rença de línguas que se observa entre os 
homens, segundo sua terra de origem, igual- 
mente se constata entre os animais de uma 
mesma espécie. Aristóteles cita como exemplo 
o canto da perdiz que varia segundo esteja em 
região plana ou montanhosa. “E as aves 
mudam de voz em diversas épocas e algumas 
há que, ao mudar a estação, mudam de 
gorjeio” 138. 

Resta saber que linguagem falaria a criança, 
mas nenhuma conjetura apresenta possibili- 
dades de verossimilhança. Se me alegarem que 
os surdos de nascimento não falam, respon- 
derei que a única razão não está em que não 


lhes ensinaram com sons, mas sim porque exis- 
te uma correlação natural entre o ouvido e a 
voz, de sorte que o que dizemos, dizemos 
principalmente a nós mesmos, fazendo-o soar 
aos ouvidos antes de transmitilo aos estra- 
nhos. 

Disse tudo isso para estabelecer a seme- 
lhança que há entre os seres da criação e 
recolocarmo-nos entre as demais criaturas. 
Não estamos acima nem abaixo delas. Tudo o 


que existe sob os céus estã sujeito à mesma lei 
e às mesmas condições: “tudo se prende ao 
destino”'3º. Há diferenças, ordens e graus 
diversos, mas de um modo geral os caracteres 


137 Dante. 
138 Tucrécio. 
139 Id. 


218 


essenciais são os mesmos: “cada coisa tem sua 
organização própria, e todas conservam as 
diferenças estabelecidas pela natureza”? *º. 

É preciso limitar o homem e colocá-lo entre 
as barreiras dessa ordem universal. Na reali- 
dade não poderia o infeliz assaltar, preso que 
está pelos entraves que o retêm e o amarram a 
todas as outras obrigações das criaturas de sua 
espécie, e isso sem nenhuma prerrogativa 
essencial. A que se atribui, ou por crença real 
ou por fantasia, não existe e nem sequer tem a 
aparência da realidade. E ainda que a tivesse, 
que sozinho entre os outros animais tivesse a 
liberdade de imaginação, ou a desordem de 


pensamento, que lhe permitem representar-se a . 


um tempo o que é e o que não é, seria uma 
vantagem muito cara de que não deveria envai- 
decer-se, pois é a fonte principal dos males que 
o acabrunham: o pecado, a doença, a indeci- 
são, a inquietação, o desespero. 

Eis por que eu não digo que não haja razão 
para pensar que os animais fazem instintiva- 
mente e determinadamente o que nós mesmos 
fazemos por vontade e invenção próprias. Os 
mesmos resultados decorrem de idênticas 
faculdades, e quanto mais ricos os resultados 
mais ricas as faculdades, o que nos leva a con- 
cluir que raciocínios e meios idênticos aos que 
acompanham -nossos atos acompanham os 
atos dos animais, os quais, têm, ocasional- 
mente, faculdades superiores às nossas. 


Por que imaginar que neles a ação é magui- 
nal e em nós mesmos não? Além do que, é 
muito mais fácil ser obrigado a agir acertada- 
mente, por natural e inevitável constituição, o 
que nos aproxima ainda mais de Deus, do que 
agir acertadamente por livre e espontânea von- 
tade, exposto a erros e temeridades. Nestas 
condições, o melhor seria abandonarmos à 
natureza o cuidado de orientar nossa maneira 
de fazer. Mas somos tão presunçosos que pre- 
ferimos dever o que somos capazes de fazer a 
nossas forças a dever à liberalidade divina 


nosso valor e nossas possibilidades. E enrique- 
cemos os animais com bens naturais a que 
renunciamos, achando mais honrosos e nobres 
os que nos cumpre adquirir; e isso, a meu ver, 
por simplicidade de espírito, pois apreciaria 
muito mais prendas inatas e pessoais do que as 
que precisasse mendigar e exigissem aprendi- 
zado. Não está ao nosso alcance obter melhor 
recomendação que a de ser favorecido por 
Deus e pela natureza. 


Os habitantes da Trácia, quando têm que 
atravessar um rio gelado, servem-se de uma ra- 
posa que caminha à sua frente. Vê-sc o animal 


140 Tucrécio. 


MONTAIGNE | | 


| 
aproximar o ouvido do gelo, até tocá-lo para 
verificar se a água corre perto ou longe. E veri- 
ficada a espessura do gelo, avança: ou recua. 
Não somos levados a pensar que em seu cére- 
bro se observa um processo racional seme- 
lhante ao que se processaria no nosso? “O que 
faz barulho mexe; o que mexe não é gelo; o 
que não é gelo é líquido; e o que é líquido afun- 
da sob o peso de um fardo.” Atribuir o ato da 
raposa à acuidade de seu ouvido, sem reflexão 
de sua parte, é uma quimera que nosso espírito 
não pode aceitar. Igual opinião devem merecer 
todas as invenções e astúcias a que recorrem 
os bichos para se verem livres de nossa 
perseguição. 

Se, em prol de nossa superioridade, quiser- - 
mos argumentar com o fato de os aprisio- 
narmos, empregá-los à vontade a nosso servi- 
ço, direi que o mesmo podemos fazer com 
outros homens. Assim é que temos escravos e 

s “climâácides” eram, na Síria, mulheres que 
se punham de quatro para servirem de estribo 
às senhoras a fim de que estas subissem em 
seus carros. E em sua maioriã as pessoas livres 


entregam sua vida é seu ser a outrem em troca 
de insignificantes vantagens. Na Trácia, as 


- esposas e as concubinas disputavam entre si a 


honra de serem imoladas sobre o túmulo do 
senhor. Aos tiranos nunca faltaram homens 
que lhes fossem inteiramente devotados, e os 
arrastaram à morte quando quiseram. E exér- 


citos inteiros não se acham presos por idêntico 
dever a seus chefes? A fórmula de juramento 
na rude escola dos gladiadores comportava as 
seguintes promessas: “juro deixar-me acorren- 
tar, queimar, bater, morrer pela adaga, e 
suportar todos os sofrimentos que os gladia- 
dores leais concordam em sofrer por seu 
senhor”. E religiosamente lhe consagravam o 
corpo e a alma: “Queima minha cabeça se qui- 


seres, traspassa-me o corpo com o ferro, e cor- 
ta-me as costas com o látego”! *".Constituíia o 
Juramento uma obrigação sagrada, contraída 
certos anos por mais de dez mil indivíduos, os 
quais, todos, morriam. Os citas, à morte de seu 
rei, estrangulavam sobre o corpo do defunto 
sua concubina predileta, seu copeiro, seu escu- 
deiro, seu camareiro, seu porteiro e seu cozi- 
nheiro. No aniversário da morte matavam cin- 
quenta cavalos montados por cinquenta pajens 
empalados do ânus à garganta, e assim os dis- 
punham em volta do túmulo para maior glória 
do morto. 


Os homens que nos servem, fazem-no mais 
barato e em condições menos agradáveis e 
menos vantajosas que as de nossos pássaros, 


144 Tibulo. 


ENSAIOS — II 


cavalos e cães. Quantos sacrifícios não aceita- 
mos em prol do bem-estar desses animais? E 
nem os mais abjetos servidores fariam de bom 
grado por seus senhores o que os príncipes se 
vangloriam de fazer por seus bichos. Diógenes, 
vendo seus parentes em dificuldades para 
resgatá-lo, dizia: “É loucura desesperar-se; 
E cuida de mim e me sustenta é meu cria- 


* Os que sustentam bichos deveriam dizer 
Ri que são seus servidores e não que se 
servem deles. Os animais são ainda mais gene- 
rosos do que nós, pois nunca se viu um leão 
escravo de outro leão, nem um cavalo de outro 
cavalo. 

Assim como vamos à caça dos animais, os 
tigres e leões vão à caça do homem. Esse exer- 
cício praticam-no também reciprocamente: os 
cães correm as lebres, a solha caça a tenca, as 
andorinhas perseguem as cigarras, OS gaviões 
procuram melros e cotovias. “A cegonha ali- 
menta seus filhotes com serpentes e lagartixas 
caçadas nos campos incultos; a águia, scrvi- 
dora de Júpiter, caça nas florestas as lebres e 
os cabritos”! “2. 


Repartimos o produto da caça com nossos 
cães e as aves que nos auxiliam” *º. Na Trácia, 


além de Anfípolis, caçadores e falcões selva- 


gens repartem pela metade os despojos. Às 
margens dos pantanais Meótides os lobos, se 
não lhes deixam os pescadores sua parte, 
destroem-lhes as redes. Hã caçadas em que 
empregamos mais a habilidade do que a força, 
a caçada com laços e a pesca com vara, por 
exemplo; assim as têm igualmente os animais. 


Aristóteles diz que a siba projeta do pescoço 
uma membrana semelhante a um caniço de 
pesca, que estica e encolhe à vontade, quando 
percebe aproximar-se algum peixinho. Deixa-o 
morder, escondida no lodo, e aos poucos puxa 
a membrana até trazer a presa ao seu alcance. 


Quanto à força, não há animal no mundo 
mais exposto a riscos do que o homem. Sem 
falar da baleia, do elefante, do crocodilo, e ou- 
tros animais que sozinhos podem dar cabo de 
muitos homens, os simples piolhos bastam 
para destruir a ditadura de Sila, um animal- 
zinho qualquer, um verme, pode comer ao al- 
moço o coração e a vida de um imperador no 
apogeu de sua glória. 

Dizemos que graças à ciência e à razão, O 
homem obtém os conhecimentos necessários 
para distinguir as coisas úteis à sua alimenta- 
ção, e ao tratamento de suas enfermidades, das 
que lhe são nocivas. Assim pode saber quais as 
virtudes do ruibarbo e do polipódio. Mas 


142 Juvenal. 
143 Os falcões. 


219 


quando vemos que as cabras de Cândia, ao se 
ferirem, escolherem entre mil ervas o ditamno 
para sua cura; a tartaruga que comeu víbora, 
procurar o orégaão para se purgar; o dragão 
limpar os olhos com funcho; a cegonha minis- 
trar-se clisteres de água do mar; os elefantes 
retirarem do seu próprio e dos corpos de seus 
companheiros, e até dos de seus donos (como 
temos o exemplo no Rei Porus vencido por 
Alexandre) os dardos e flechas, com uma des- 
treza sem igual; como não atribuir tais fatos 
igualmente à ciência e à sabedoria dos ani- 
mais? Alegar, para amesquinhá-los, que obe- 
decem simplesmente à natureza, sua orienta- 
dora, realmente não significa que careçam de 
saber e discernimento, significa, isso sim, que 
possuem essas qualidades em mais alto grau 
do que nós, graças a tão admirável professora. 

k Crisipo, que desdenhava a inteligência dos 
animais, como desdenhava de tudo e mais do 
que qualquer outro filósofo, quando reflete 
acerca dos movimentos do cão à procura do 
dono ou de uma caça, deparando com uma 
encruzilhada de três caminhos, farejando um 
sem resultado, e o outro também sem êxito e 
afinal escolhendo resolutamente o terceiro, 
convém em que o animal fez o raciocínio 
seguinte: “segui as pegadas de meu dono até 
esta encruzilhada; necessariamente tomou 
um desses caminhos; ora, não foi este nem 
aquele, logo, forçosamente, foi o outro”. E 
apoiado nessa dedução não hesita em seguir o 
terceiro caminho sem mais pesquisa, sem 
mesmo o vérificar antes pelo faro, obedecendo 
apenas à força de sua razão. Esse esforço 
dialético, esse“emprego de proposições exami- 
nadas separadâmente e em conjunto, valerá 
menos por fazê- lo o cão instintivamente do que 
se o fizera em, consequência de lições de Jorge 
de Trebizonda! **9 

Não podemos tampouco afirmar que os ani- 
mais são incapazes de se instruírem como nós 
homens. Ensinamos a falar aos melros, às 
pegas, aos papagaios. E com tanta facilidade 
se ajeita a sua voz aos sons que lhes ensina- 
mos, às sílabas que lhes comunicamos, que é 
evidente a existência neles de um processo, de 
raciocínio: 

Todos viram sem dúvida, e estão fartos de 
ver, as inúmeras macaquices que os peloti- 
queiros ensinam a seus cachorros, danças em 
obediência ao ritmo da música, saltos e movi- 
mentos de acordo com as ordens recebidas. E 
o que fazem os cães que servem de guia aos 
cegos, nos campos como nas cidades? Vêde 
como se detêm diante de determinadas casas, 


"4º Lógico grego do século XV. 


220 


como evitam os veículos ao passarem por cer- 
tos lugares onde, aparentemente, teriam tempo 
para atravessar. Vi um cão que, ao longo de 
um fosso, abandonou o caminho cômodo para 
tomar por uma trilha difícil a fim de afastar o 
seu dono do perigo a que se arriscava. Como 
se ensinou a esse animal que lhe cumpria preo- 
cupar-se exclusivamente com a segurança do 
dono, sem levar em conta a própria comodi- 
dade? Como podia saber que o caminho, bas- 
tante largo para ele, não o era para o cego? 
Explicar-se-ã isso sem a interferência do 
raciocínio? 


Não é de se esquecer o que nos conta Plu- 
tarco de um cão que viu em Roma, no Teatro 
Marcelo, onde se encontrava o Imperador 
Vespasiano. O cachorro pertencia a um peloti- 


queiro e desempenhava o papel em certa peça 
teatral. Entre outras coisas, cabia-lhe fingir de 
morto, durante algum tempo, por ter engolido 
determinada droga. Depois de comer o pão 
com que simulava o veneno, punha-se a tre- 


mer, a vacilar, como se tomado de tonturas, € 
afinal deitava-se no chão, esticado, morto, 
deixando-se arrastar de um lado para outro de 
acordo com as exigências do enredo. Em 
seguida, quando calculava que era chegado o 
momento, principiava a mexer-se devagar, 
como se despertasse de um longo sono, erguia 
a cabeça e olhava para todos os lados de um 
modo que pasmava os espectadores. 

Os bois, empregados na irrigação dos jar- 
dins reais de Susa, faziam girar grandes rodas 
com baldes ou tinas, como se yêem no Langue- 
doc. Esses bois deviam dar cem voltas cada 
um e conheciam tão bem esse número que ao 
ser atingido, era impossível, por quaisquer 
meios que fosse, obter mais deles. Cumprida a 
tarefa, paravam imediatamente. Ora, nós al- 
cançamos a adolescência sem saber contar até 
cem e certos povos recém-descobertos não têm 
idéia dos números. 


Ensinar os outros exige maior raciocínio do 
que aprender. Mas deixemos de lado o que 
Demócrito afirma e prova, a saber, que a 
maior parte das artes nós as aprendemos com 
os animais: a tecer e a coser com a aranha, a 
edificar com a andorinha, a fazer música com 
o rouxinol e o cisne, e a curar com certos 
bichos. Aristóteles acha que os rouxinóis ensi- 
nam os filhos a cantar e a tanto dedicam 
tempo e desvelos, daí o fato de perderem muito 
de seu encanto os que criamos em gaiolas e 
não aprendem com os pais. Podemos, portan- 
to, deduzir que esses passarinhos melhoram 
seu canto pelo estudo e a disciplina, e mesmo 
entre os que estão em liberdade não há dois 
cujo canto seja idêntico. Cada qual aproveitou 


MONTAIGNE 


a lição segundo sua capacidade. Mostram-se 
ciosos de seu talento e competem por vezes 
com tal ardor que chegam alguns a morrer por 
falta de fôlego, não se resignando a parar nem 
a se considerar vencidos. Os mais jovens rumi- 
nam pensativos e tentam imitar as árias que 
ouvem; o aluno escuta com muita atenção seu 
mestre; ora um ora outro pára de cantar e per- 
cebe-se que o preceptor lhe corrige os erros e, 
mesmo, que o repreende. 

Árrio conta ter visto um grupo de elefantes 
entre os quais um tocava cimbalos. Trazia-os 
amarrados às coxas e à tromba. Ao som da 


música dançavam os outros, obedecendo à 
medida; o conjunto agradava pela harmo- 
nia. Em Roma, nos espetáculos de circo, 
viam-se elefantes ensinados a se movimentar e 
dançar com figuras complicadas e ritmos 
diversos. Outros havia que se exercitavam 
sozinhos, recordando os passos para não 
serem castigados por seus donos. 


A história da pega que Plutarco assegura ser 
verdadeira é muito curiosa. Era seu dono um 
barbeiro de Roma, e o pássaro fazia maravi- 
lhas, imitando quantos sons ouvia. Aconteceu 


em. certa ocasiao que se detiveram diante da 
casa uns trombeteiros, tocando durante longo 
tempo. Depois de os ter ouvido, passou a pega 
o dia seguinte inteiro tristonha, pensativa € 
muda. Todo mundo se espantou e pensou que 


o som das trombetas a aturdira e que com o 
ruído se lhe extinguira o canto. Mas, afinal, 
descobriram que na realidade a pega estava 
afundada em profunda meditação, recolhida 
em si mesma, exercitando seu espírito e prepa- 
rando a voz para imitar a música dos tais 
instrumentos. E a primeira vez que voltou a 
cantar após esse silêncio, foi para arremedar 
perfeitamente o toque das trombetas com 
todos os seus matizes; e desde então desprezou 
totalmente o que antes aprendera. 


Não quero tampouco esquecer o caso de um 
cão que Plutarco diz ter visto (não procedo 
com muita ordem na apresentação de meus 
exemplos, mas é preciso considerar que assim 
ocorre com o próprio livro). Achava-se Plu- 
tarco em um navio € viu um cão que se esfor- 
çava vigorosamente por beber o azeite de uma 
vasilha. Não o podendo alcançar com a língua 
por ser o orifício do gargalo muito estreito, 
pôs-se a catar pedras ea jogá-las na vasilha 


2 Ê q Ls 
- ate que o azeite subiu a uma altura acessível. 


Haverá raciocínio mais sutil? Dizem que os 
corvos da Berberia assim agem também quan- 
do o nível da água que querem beber está 
muito baixo. 

Esses casos se assemelham ao que Juba, um 
dos reis dessas regiões, conta dos elefantes. 


ENSAIOS — II 


Para pegá-los, cavam-se fossos profundos que 
se cobrem de galhos e capim. Quando um 
deles cai na armadilha, acorrem os outros com 
pedras e troncos a fim de encher o fosso e faci- 
litar a saída. Mas os atos desses animais pare- 
cem-se tanto com os dos homens, que se rela- 
tasse tudo o que sei facilmente provaria a 
minha tese, a de que hã maior diferença entre 
um homem e outro do que entre um dado ani- 
mal e o homem. 

O guarda de um elefante pertencente a um 
senhor sírio, sonegava-lhe a cada refeição a 
metade da ração. Quis um dia'o dono tratar 
pessoalmente do animal. Encheu a manjedoura 
com a quantidade exata de cevada que cabia 
ao elefante. Este, olhando com raiva para o 
guarda, dividiu em duas partes a cevada e dei- 
xando uma de lado revelou o prejuízo de que 
era vítima. Outro elefante tinha um guarda que 
punha pedras em sua comida, para aumentar a 
medida; pois o animal aproximando-se da 
marmita em que o homem fazia sua própria 
sopa encheu-a de cinzas. 

São casos especiais, sem dúvida, mas o que 
todo mundo sabe, o que todos ouviram dizer, é 
que outrora, em todos os exércitos do Oriente, 
os elefantes constituam um dos elementos 
mais importantes, e nas batalhas davam resul- 
tados melhores do que os que obtemos hoje 
com a artilharia, a qual ocupa mais ou menos 
o espaço antes ocupado pelos elefantes (como 
o sabem os que conhecem a história antiga): 
“Seus ancestrais tinham sido utilizados pelo 
cartaginês Aníbal, pelos generais romanos e 
pelo rei do Epiro; transportavam no lombo 
coortes e torres para a batalha”? “* 8. Era neces- 
sário que confiassem nesses animais e em seu 
raciocinio, para colocá-los à frente do exército, 
em lugar em que a menor parada, o mais insig- 
nificante incidente que os fizesse recuar, basta- 
va para tudo deitar a perder por causa de seu 
tamanho e peso. E, efetivamente, poucos exem- 
plos se viram de elefantes se lançarem contra 
as próprias tropas, ao passo que nos ocorre 
mais amiúde jogar-nos uns contra os outros e 
nos matarmos a nós mesmos. No entanto, 
cumpria-lhes executar não somente movimen- 
tos simples mas ainda evoluções complicadas. 
Análogos serviços prestaram os cães aos espa- 
nhóis na conquista das Indias, e eles lhes paga- 
vam soldo, além de lhes darem parte dos des- 
pojos do combate. Esses cães mostravam 
grande destreza e discernimento na persegui- 
ção do inimigo e na consecução da vitória, 
avançando e recuando segundo os casos, 
distinguindo amigos e adversários e lutando 
com valentia e tenacidade. 


145 Juvenal. 


221 


Admiramos e apreciamos mais as coisas 
estranhas e singulares do que as que vemos 
diariamente, sem o que não me teria dado o 
trabalho de tão longa enumeração, pois creio 
que, simplesmente em examinando de perto os 
animais que vivem junto de nós, já depara- 
riamos com fatos tão notáveis quanto os que 
vamos buscar em outros países e outras épo- 
cas. Idêntica é a natureza e inalterável o seu 
curso; é quem haja penetrado suficientemente 
o presente poderá com segurança conhecer as 
leis do passado e do futuro. 

Vi outrora homens vindos por mar de 
longínquos países! *8. Como não compreen- 
díiamos sua língua e seus costumes, suas atitu- 
des e suas vestimentas não se assemelhavam 
aos nossos, consideramo-los selvagens e estú- 


pidos. Atribuímos à sua estupidez o fato de 
não falarem francês e se calarem, de ignorarem 
o beija-mão, nossas reverências requintadas, 
nossas maneiras, tudo isso a que, sob pena de 
incorreção, desejariamos se moldasse toda a 
humanidade. Condenamos tudo o que nos pa- 
rece estranho e também o que não compreen- 
demos. E por esse prisma julgamos os animais. 
Sob certos aspectos têm alguma semelhança 
conosco e podemos, então, por comparação, 


formular algumas hipóteses. Mas que sabemos 
do que lhes é peculiar? Os cavalos, os cães, os 
bois, as ovelhas, os pâssaros e a maioria dos 
animais vivem a nosso lado, reconhecem nossa 
voz e atendem ao nosso chamado, o que tam- 
bém fazia a moréia de Crasso e o que fazem as 
enguias da fonte Aretusa. E isso não é dificil 
de comprovar, pois vi muitas vezes viveiros em 
que os peixes acorriam para comer quando os 
chamavam de certo modo: “cada qual tem seu 
nome e acorre ao chamado do dono”? *?. 


Podemos dizer igualmente que os elefantes 
têm certo sentimento religioso. Vemo-los efeti- 
vamente, após suas abluções e purificações, 
erguerem a tromba para o céu, de olhos postos 
no sol nascente e assim permanecerem em 
contemplação durante algum tempo, a certas 
horas do dia, entregues à meditação, e isso sem 
terem sido instruídos nem forçados. Quanto 


aos outros animais, por não sabermos de coisa 
semelhante não devemos deduzir que não te- 
nham religião, não nos sendo possível manifes- 
tar-nos pró ou contra o que ignoramos. 


O fato seguinte, citado pelo filósofo Clean- 
tes, apresenta alguma analogia com o que nós 
mesmos praticamos. Viu ele formigas carrega- 
rem para outro formigueiro o corpo de uma 
companheira morta. Deste segundo formi- 


146 Índios do Brasil. (N. do T.) 
147 Marcial. 


222 


gueiro saíram várias formigas que foram. ao 
encontro das primeiras como a parlamentar. 
Depois de uns instantes juntas, voltaram as úl- 
timas, talvez para conferenciar com as compa- 
nheiras de seu próprio formigueiro. Assim fize- 
ram duas ou três vezes, provavelmente em 
consequência de dificuldades nas negociações. 
Finalmente trouxeram uma minhoca, dir-se-ia 
a fim de resgatar o corpo da morta. As primei- 
ras cárregaram então o verme, deixando o 
pequeno cadáver às outras. Cleantes vê nisso 
uma prova de que, embora certos animais não 
tenham voz, não são desprovidos de meios de 
comunicação. E considera uma inferioridade 


nossa não podermos participar dessas rela- 
ções, e uma tolice arvorarmo-nos em juízes. 

Os animais fazem ainda muitas coisas quê 
ultrapassam de muito aquilo de que somos 
capazes, que não conseguimos imitar e que 
nossa imaginação não nos permite sequer 
conceber. 


Vários historiadores relatam que na última e 
grande batalha naval que Augusto perdeu para 
Antônio, a galera almirante foi detida em sua 
marcha por esse pequeno peixe a que os roma- 
nos chamam rêmora, por causa da propriedade 
que lhe é peculiar de deter os navios aos quais 
se gruda. Esse mesmo peixe sustou repentina- 
mente a marcha da galera de Calígula que vo- 
gava com uma grande frota pelas costas da 
Rumânia. O imperador mandou retirá-lo do 


casco e ficou muito despeitado por ver que tão 
pequeno animal, preso apenas pela boca ao 
navio (pois trata-se de um peixe de concha), 
pudesse enfrentar o mar, os ventos e o impulso 
dos remos. Espantou-se também de que, fora 
da água, perdesse o bichinho toda a sua força. 
Um cidadão de Cizico adquiriu outrora a 


reputação de muito bom matemático! *º por 
ter observado os costumes do ouriço. Esse ani- 
-mal cava o seu covil com vários orifícios 
diversâmente orientados. Segundo a direção 
prevista do vento, fecha o buraco que a ela 
corresponde. Guiando-se pelo ouriço, o nosso 
homem predizia aos seus a direção futura dos 
ventos. O camaleão toma a cor do meio em 
que se encontra. O polvo vai mais longe: colo- 
ra-se da cor que bem entende segundo as 
circunstâncias, seja para fugir a um animal 
que teme, seja para atingir o “que deseja pegar. 
No camaleão, a mudança não se subordina à 
sua vontade; no polvo, sim. Nosso rosto tam- 
bém muda por vezes de cor sob a influência do 


us Melhor seria dizer meteorologista como se vê 
do contexto. Mas não havia então especializações e 
ao matemático, homem de cálculos, cabia inúmeras 
tarefas. (N. do T) 


MONTAIGNE | 


terror, da cólera, da vergonha e outras emo- 
ções e sentimentos; resulta de uma causa que a 
impõe, como no caso do camaleão. Sob o efei- 
to da icterícia tudo amarelece, independen- 
temente de nossa vontade. 

Essas coisas que os animais podem fazer e 
que não conseguimos igualar são uma prova 
de que, em certos pontos, eles possuem meios 
mais desenvolvidos do que os nossos, e de nós, 
ignorados. E é possível —— e provável — que 
outros haja cuja existência nada nos revele. 

De todos os meios de previsão empregados 
no passado, os mais antigos e seguros eram os 
que se tiravam do vôo dos pássaros. Nada 
temos tão admirável. A maneira de bater as 
asas, pela qual se tem a noção do futuro, devia 
provir de algo intimamente ligado a essa ciên- 
cia de caráter tão nobre. Atribuir resultado tão 
peregrino ao instinto, sem o concurso da inteli- 
gência e do raciocínio, e tomar as coisas 
demasiadamente ao pé da letra sem se deter na 
interpretação, é uma suposição absolutamente 
falsa. E que dizer da raia que tem.a proprie- 
dade de entorpecer os membros que a tocam e, 


mesmo através das linhas do anzol e das redes, 
transmitir esse entorpecimento às mãos dos 
que as manejam? Essa faculdade maravilhosa 
não é inútil à raia; ela tem consciência dela e a 
emprega: afundada no lodo à espera da presa, 
aguarda que os outros peixes deslizando por 
cima dela sejam paralisados e caiam em seu 
poder. Os grous, as andorinhas e outros pássa- 
ros migratórios demonstram que podem adivi- 
nhar o tempo e exercem à vontade essa facul- 


dade. Asseguram os caçadores que a melhor 
maneira de escolher entre vários cachorrinhos 
os que se devem considerar superiores aos 
demais, é colocar a cadela em condições de 
proceder ela mesma à seleção. Apartando dela 
os filhotes, o primeiro que ela vai buscar é o 
melhor. E se simularem uma fogueira em torno 


do ninho, o que primeiro for salvo será o mais 
forte. Infere-se disso que os animais sabem 
prever o que nós não prevemos, ou são senho- 
res de alguma virtude singularíssima de julgar 
as qualidades de seus filhos que nos é 
desconhecida. 


Os bichos nascem, reproduzem-se, alimen- 
tam-se, movem-se, vivem e morrem como nós. 
As vantagens que atribuímos à nossa condi- 
ção, em menoscabo das suas, são gratuitas; a 
nossa razão é incapaz de demonstrar sua 
superioridade. Para nos conservar em boa 
saúde, aconselham os médicos a vivermos 
como os animais e o seguinte ditado está na 
boca do povo: “Resguarda os pés e a cabeça e 
quanto ao resto faze como os bichos.” 

O principal ato a que nos incita a natureza é 


ENSAIOS — II 


o de engendrar; para executá-lo certas posi- 
ções de nosso corpo são preferíveis às outras, 
pois os médicos consideram que a posição dos 
animais é a que melhor convém: “julga-se 
comumente que parà ser fecunda a união dos 
esposos deve fazer-se na posição dos quadrú- 
pedes, porque então a posição horizontal do 
peito e a elevação dos rins favorecem a direção 
do fluido gerador”! *º. Os movimentos indis- 
cretos e provocantes que a mulher imaginou 
acrescentar são considerados prejudiciais e se 
devem proibir. Que ela atente para o exemplo 
dos animais entre os quais a fêmea se conduz 
com mais modéstia e calma: “os movimentos 
lascivos pelos quais a mulher excita o marido 
são um obstáculo à fecundação; afastam o 
arado do sulco e desviam os germes de seu 
objetivo”! 5º, 

Se, para sermos justos, devemos dar a cada 
um o que lhe é devido, diremos que os animais 
servem, amam, e defendem seus benfeitores; 
perseguem e agridem os estranhos e os que os 
ofendem, praticando uma justiça igual à nossa. 
E vemos também que tratam com equidade 
perfeita seus filhos. Quanto à amizade, prati- 
cam-na os animais, sem dúvida alguma, de 
maneira mais constante e viva do que o 
homem. Hircano, o cão do Rei Lisímaco, não 
quis abandonar o leito de seu dono quando 
este morreu, nem comer nem beber, e no dia 
em que o cremaram atirou-se à fogueira. O cão 
de um indivíduo chamado Pirro assim fez 
igualmente; não quis sair do leito quando seu 
dono morreu e, ao transportarem o corpo, dei- 
xou-se levar igualmente, jogando-se afinal ao 
fogo no momento em que se queimavam os 
restos mortais de Pirro. 


Nascem por vezes no homem certas afeições 
que nada devem ao raciocínio e resultam de 
uma causa fortuita a que chamam simpatia. 
Os animais são, como nós, capazes de as ter. 
Assim é que se vêem cavalos se afeiçoarem uns 
aos outros, a ponto de se tornar difícil fazê-los 
viverem e viajarem separadamente. Outros se 
apaixonam pelos de tal ou qual cor, como nós 
por certo tipo de fisionomia, e quando divisam 
algum de sua cor predileta logo se aproximam 
e fazem festa e demonstram sua alegria; ao 
passo que hostilizam os de outro matiz e só os 
aceitam de má vontade. Os animais têm como 
nós preferências em amor e sabem escolher a 
fêmea. Não são isentos de ciúme, o qual os 

. pode levar a atos de violência. 

Os apetites são naturais e necessários como 
beber e comer, ou, embora naturais, não exi- 
gem satisfação absoluta, como o comércio 


149 Tucrécio. 
150 Td. 


223 


entre machos e fêmeas. Há finalmente os que 
não são naturais nem necessários. Esta última 
categoria compreende a maioria dos apetites 
humanos que objetivam quase exclusivamente 
coisas supérfluas e necessidades fictícias. É, 
com efeito, maravilhoso ver como a natureza 
se contenta com pouco e como nos incita a 
pouco desejar. A arte de nossos cozinheiros 
não é de sua alçada. Uma azeitona por dia, 
dizem os estóicos, basta para alimentar um 
homem. Não é ela, a natureza, quem nos incita 
aos vinhos mais ou menos delicados nem ao 
que acrescentamos aos prazeres do amor: “A 
volúpia não lhe parece mais viva nos braços da 
filha de um cônsul”! 81. 

Esses desejos supérfluos, introduzidos em 
nós pela ignorância do bem e a predominância 
das idéias falsas, são tão numerosos que recha- 
çam quase todos os apetites naturais. Verifi- 
cou-se a esse respeito nem mais nem menos do 
que o que ocorreria em uma cidade onde os 
estrangeiros fossem tão numerosos que aca- 
bassem expulsando os autóctones, destruindo- 
lhes a autoridade e usurpando-lhes o poder. 


Os animais são muito mais ordenados do 
que nós e se mantêm com mais moderação 
dentro dos limites que lhes impõe a natureza, 
não a ponto, entretanto, de não serem por 
vezes impelidos a desregramentos análogos 
aos nossos. E assim como há homens que pre- 
midos por desejos loucos são induzidos a amar 
animais, há animais que procuram o amor do 
homem, observando-se desse modo afeições 
monstruosas entre espécies diferentes. Prova-o 
o elefante rival de Aristófanes, o gramático, 
que se enamorou da mesma jovem vendedora 
de flores de Alexandria, desempenhando seu 
papel como o mais apaixonado dos amantes. 
Passeava pelo mercado de frutas, colhia-as 
com a tromba e as levava à sua amada; procu- 
rava não perdê-la de vista, acariciava-lhe fami- 
liarmente os seios por baixo da blusa. Citam- 
se também um lagarto amoroso de uma moça, 
um ganso apaixonado por uma criança em 
Acopa, um carneiro que amava Gláucia, can- 
tora de rua. Diariamente vêem-se macacos 
apaixonados por mulheres, bem como certos 
animais se entregarem a carícias amorosas 
com indivíduos do mesmo sexo e espécie. 


Opiano e outros- autores dão-nos alguns 
exemplos do respeito que os bichos têm pelos 
laços de parentesco, mas a experiência mos- 
tra-nos amiúde o contrário: “a novilha entre- 
ga-se sem pudor ao pai; a égua ao cavalo de 
que nasceu; o bode às cabras que engendrou e 
o pássaro à fêmea que procriou ”” 82. 


151 Horácio. 
152 Ovídio. 


224 MONTAIGNE 


Em matéria de sutileza maliciosa, haverá 
mais evidente que a do asno do filósofo Tales? 
Carregado de sal, atravessava um riacho quan- 
do por acaso deu um passo em falso. Os sacos 
que carregava molharam-se, o sal dissolveu-se 
e a carga ficou mais leve. Percebeu-o o asno, € 
desde então, cada vez que deparava com um 
córrego, entrava na água com sua carga, até 
que, descobrindo a malícia, seu dono passou a 
carregá-lo com lã. Não produzindo mais o 
banho o resultado almejado, deixou o asno de 
entrar na água. 


Há animais que revelam, em seu modo de 
ser, sinais característicos de avareza. VYemo-los 
procurar constantemente apoderar-se de tudo 
o que podem e o esconder com cuidado, embo- 
ra não tirem proveito disso. Em matéria de 
economia doméstica, os animais nos ultra- 
passam não somente pela sua previdência, que 
os leva a acumular e poupar para o futuro, 
mas ainda em muitos outros pontos de impor- 
tância. As formigas expõem ao ar, arrastan- 
do-os para fora de seus subterrâneos, os grãos 
de toda espécie que armazenam, a fim de are- 


já-los e refrescá-los e fazê-los secar quando 
percebem que estão mofando e se tornando 
rançosos, de medo que se estraguem ou apo- 
dreçam. Sua precaução em roer uma das extre- 
midades de cada grão de trigo sobreexcede o 
que possa imaginar a prudência humana. 


Como o trigo não permanece sempre seco e 
bem conservado, mas amolece e desfaz-se em 
uma pasta leitosa ao germinar, perdendo então 
suas qualidades nutritivas, as formigas roem a 
ponta do grão por onde se inicia a germinação. 


Quanto à guerra, a maior e mais pomposa 
das ações humanas, e de que tanto nos vanglo- 
riamos, quisera saber se prova a nossa superio- 
ridade ou ao contrário demonstra a nossa 
imperfeição. Em verdade, a ciência de nos 


entrematarmos, concorrendo para a destruição . 


da espécie, não me parece uma prerrogativa 
que os bichos nos possam invejar: “quando se 
viu um leão mais forte matar o mais fraco? E 
quando na floresta morreu algum javali das 
dentadas de um javali mais vigoroso?! 83 
Nem todos os animais estão entretanto isentos 
desse mau espírito, como se vê pelas furiosas 
lutas em que se digladiam as abelhas e pelos 
duelos singulares entre suas rainhas: “Muitas 
vezes um combate se verifica entre duas rai- 
nhas; é de se ver então o furor guerreiro de 
seus povos”! 84. Nunca leio essa magnífica 
narrativa sem que mz venham ao espirito a 
inépcia e a vaidade do homem. Esses movi- 


153 Juvenal. 
184 Virgílio. 


mentos guerreiros, que nos empolgam pelo 
horror e o pavor, essa tempestade de sons e 
gritos: “Aqui,em um clarão que brilha atê nos 
céus pelo choque do bronze, a terra fulgura; e 
treme sob o passo dos soldados, e as monta- 
nhas enviam às estrelas os ecos dos clamo- 
res”! 55. essa terrível refrega de milhares de 
homens armados, combatendo com tamanho, 
denodo, ardor e coragem, quase sempre decor- 
re de causas vas, e cessa em circunstâncias 
insignificantes: “conta-se que pelo amor de 
Páris a Grécia deflagrou funesta guerra contra 
os bárbaros”? 5 8: toda a Ásia se esgotou nessa 
guerra provocada pelo adultério de Páris; o de- 
sejo de um só homem, o despeito, um momen- 
to de prazer, o ciúme de um marido, coisas que 
não justificariam a briga de duas peixeiras, eis: 
a causa de toda essa enorme anarquia. Ouça- 
mos, a propósito, os autores de tão grave ocor- 
rência. Ouçamos o que diz o imperador mais 
poderoso e mais vitorioso que jamais houve, 
divertindo-se em ridicularizar com muito espi- 
rito os acontecimentos que abarcam várias 
batalhas por mares e terras, nas quais, a fim de 
atender à seus interesses, quinhentos mil ho- 


mens se expuseram aos azares da guerra e 
esgotaram os recursos e riquezas dos dois 
continentes: “Porque Antônio se apaixonou 
por Gláfira, Fúlvia se empenha agora em me 
forçar a amá-la. Eu amar a Fúlvia? E se 
Maànio o quiser também, deverei amá-lo? Seja- 
mos prudentes! Guerra ou cama, diz ela. 
Como! Melhor pensar em algo mais agradá- 
vel. Soem as trombetas 7! 87 Talvez abuse de 
meu latim mas vós me permitistes, senhora, 
que o usasse! 88. 


Um exército, esse grande corpo de tantas 
cabeças e movimentos, que parece ameaçar 
céus e terras: “como as ondas que rolam pelo 
mar da Líbia quando o fogoso Órion mergulha 
em suas águas, ou como as espigas que o sol 


de verão doura nos campos de Hermo ou nos 
ruivos prados de Lícia, o solo pisado treme e 
os escudos ressoam”! 8º: esse monstro furioso 
com tantos braços e cabeça é o homem, sem- 


pre o homem, frágil, calamitoso, miserável. 
Não passa de um formigueiro agitado e excita- 
do, “negro batalhão em marcha pela plani- 
cie”1 8º: um vento contrário, um grasnido de 
corvos, o passo em falso de um cavalo, o vôo 
! 

185 TLucrécio. 

156 Horácio. 

157 Epigrama de Augusto, conservado por Mar- 


cial. 


158 Admite-se que este capítulo seja dedicado a 
Margarida de Valois. 

159 Virgílio. 

180 Td. 


ENSAIOS — II 225 


fortuito de uma águia, um sonho, uma palavra, 
um sinal, a neblina da manhã bastam para dar 
com ele por terra. Que um raio de sol o ofus- 
que, e eis o inimigo aturdido; que o vento nos 
sopre um pouco de poeira nos olhos, como as 
abelhas do poeta, e eis no mesmo instante nos- 
sas bandeiras e nossas legiões, ainda que com 
o grande Pompeu à frente, destroçadas e impo- 
tentes, pois se não me engano, na Espanha, 
Sertório empregou com êxito essas armas que 
haviam usado Eumenes contra Antigono e Su- 
rena contra Crasso. Joguem contra um exér- 
cito um enxame de abelhas e estes animaizi- 
nhos acabarão com sua força e arrojo. 


Sitiando os portugueses a cidade de Tamly, 
no território de Xiátima, transportaram os 
habitantes para as muralhas grande número de 
colmeias, as quais abundam entre eles, e com 
um pouco de fumaça expulsaram as abelhas na 
direção do inimigo. Este viu-se forçado a desis- 
tir do empreendimento, não podendo suportar 
as picadas. Com tão engenhoso expediente 
defenderam a cidade e conquistaram a liber- 
dade e a sorte fez que, terminada a batalha, 
não faltasse uma só abelha nas colmeias. 


As almas dos imperadores e as dos sapatei- 
ros provêm do mesmo molde. Encarando ape- 
nas os atos dos príncipes e suas consequências, 
imaginamos que tenham outras causas e tam- 
" bém mais peso e alcance. É um erro. Eles se 
movem impelidos pela mesma mola que nos 
impulsiona. O mesmo motivo que nos leva a 
disputar com o vizinho, impele os príncipes à 
guerra; a razão que nos induz a açoitar um la- 
caio é bastante para que o príncipe devaste 
uma província. Sua vontade se exerce tão 
levianamente quanto a nossa, mas ele tem 
maior poderio. Os mesmos apetites existem no 
verme e no elefante. 


No que concerne à fidelidade, não há no 
mundo animal mais traiçoeiro do que o 
homem. Numerosos são os fatos que se citam 
de cães que encarniçadamente procuraram vin- 
gar a morte de seus donos. Tendo o Rei Pirro 
encontrado um cão que velava o cadáver do 
dono, mandou enterrar o corpo e levou o ani- 
mal. Dias depois, passando em revista O seu 
exército, o cão ao deparar com os assassinos 
correu-lhes atrás a ladrar furiosamente, de- 
monstrando violenta irritação. Foi o primeiro 
indício que levou à descoberta dos culpados, 
logo após punidos pela justiça. O mesmo se 
verificou com o cão de Hesíodo que denunciou 
os filhos de Ganistor, de Naupacto, como 
autores do assassínio de seu dono. Outro cão, 
que guardava o templo de Atenas, viu o ladrão 
sacrílego que carregava as mais valiosas jóias. 
Pôs-se logo a latir mas os guardas não acorda- 


ram. O cão seguiu então o gatuno; de dia 
mantinha-se à distância, mas sem o perder de 
vista. Se lhe dava de comer, recusava, ao passo 
que dos demais transeuntes o aceitava, aba- 
nando a cauda. Quando o ladrão parava para 
dormir, o cão fazia o mesmo. Tendo chegado 
essa conduta estranha ao conhecimento dos 
guardas, indagaram eles das características do 
animal, seguiram-lhe as pegadas e o alcança- 
ram afinal em Crômion, bem como o ladrão, 
que trouxeram de volta a Atenas onde foi con- 
denado. Como recompensa pelo serviço pres- 
tado, ordenaram os juízes que se alimentasse o 
cão à custa do tesouro e ficasse ele a cargo dos 
sacerdotes. Plutarco que narra o fato garante- 
nos a sua autenticidade. Teria ocorrido em seu 
tempo. 


Quanto à gratidão, virtude que em nossos 
dias anda muito precisada de reforçar o seu 
crédito, um só exemplo bastará. É-nos contado 
por Ápio, que se encontrava entre os especta- 
dores. Uma dia, em Roma, dava-se ao povo 


em espetáculo um combate de feras, principal- 


mente de leões de tamanho respeitável, 

meio aos quais havia um cujos rugidos e 
musculatura atraíam a atenção geral. Entre os 
escravos que compareceram para serem entre- 
gues às feras, figurava um certo Androcles da 
Dácia, pertencente a um personagem consular 
de Roma. Ao vê-lo, deteve-se o leão imediata- 
mente, como que tomado de espanto; aproxi- 


mou-se em seguida, passo por passo, como se 
procurasse reconhecê-lo. Tendo verificado 


quem era, começou a abanar a cauda como 


fazem os cães e a beijar as mãos e as pernas do 
pobre miserável . transido de medo. Reco- 
brando a calma, Androcles reconheceu por sua 
vez o leão e ambos se puseram a festejar-se 
mutuamente, e o povo dava gritos de alegria. 
O imperador mandou chamar o escravo para 


que lhe explicasse as razões de tão extraordi- 
nária ocorrência e esta admirável história lhe 
foi contada: “Quando meu amo e senhor era 
procônsul na África, vi-me forçado a deixá-lo, 
tal a crueldade com que me tratava. Todos os 
dias era eu açoitado e precisei fugir. A fim de 
escapar às buscas de um personagem de tão 
grande autoridade na província, pareceu-me 
mais fácil ganhar o deserto. Foi o que fiz, 
resolvido a morrer de uma maneira ou outra, 
caso nessas regiões arenosas e inabitáveis não 
conseguisse alimentar-me. Por volta de meio- 
dia, estando o sol violentíssimo e o calor 
insuportável, descobri uma caverna de difícil 
acesso e aí me abriguei. Pouco depois chegou 
um leão; estava ferido na pata, que trazia 
ensanguentada. A dor provocava-lhe gemidos. 
Ao vê-lo, eu ficara apavorado, mas ele, depa- 


226 


rando comigo encolhido a um canto, achegou- 
se e me estendeu a pata como para pedir ajutó- 
rio. Tomei-a, arranquei uma lasca de madeira 
que nela se espetara, limpando a ferida como 
pude. Aliviado, começou a dormir, descan- 
sando a pata em minhas mãos. Desde então 
vivemos juntos, os dois, na caverna, comendo 
as mesmas carnes, pois me trazia sempre os 
melhores pedaços de suas caças; eu as assava 
ao sol e com elas me alimentava. Isso durou 
três anos, mas eu já andava cansado dessa 
vida selvagem e certa vez em que o leão fora à 
caça como de hábito, abandonei o abrigo. Três 
dias mais tarde, surpreendido pelos soldados, 
fui preso e entregue aqui a meu dono, que logo 
me condenou às feras. Segundo me parece, o 
leão deve ter sido aprisionado mais ou menos 
na mesma época; reconhecendo-me, quis teste- 
munhar sua gratidão pelos cuidados que lhe 
prodigalizei.” A história, contada ao impera- 
dor, propagou-se rapidamente entre os especta- 
dores e, a pedido geral, concedeu-se graça a 
Androcles, em nome do povo. O escravo con- 
quistou sua liberdade e recebeu como presente 
o leão. Depois disso, conta ainda Ápio, 
viram-no passear pela cidade com o animal. Ia 
de taverna em taverna recolhendo o dinheiro 
que lhe davam e o leão deixava-se cobrir de 
flores. E quem os encontrava dizia: eis o leão 
que deu hospitalidade a esse homem e o 
homem que foi o médico do leão! 


Choramos por vezes a perda de um animal 
querido; os bichos também nos choram: 
“vinha em seguida, despojado de arreios, Eton, 
seu cavalo de guerra, cujos olhos se enchiam 
de lágrimas”? 81. 


Ha pevos entre os quais as mulheres perten- 
cem a vários homens e outros em que cada um 
tem a sua. É o que se verifica também entre os 
animais, e a fidelidade conjugal é igualmente 
observada. Quanto à associação e união que 
mantêm entre si para se defenderem e auxilia- 
rem, vêem-se bois, veados e outros animais, OS 
quais acodem ao chamado dos companheiros. 
Quando o escaro engole o anzol que lhe esten- 
de o pescador, juntam-se os outros e roem a 
linha. Quando por acaso um deles cai na rede, 
pegam-no os de fora pelo rabo e puxam com 
força para fazê-lo sair. Os barbos, quando um 
deles é fiszado, raspam a corda do arpão com 
as costas, as quais são armadas de um osso em 
forma de serra, e se esforçam por cortâ-la. 


Quanto aos serviços pessoais que nos pres- 
tamos na vida, o mesmo fazem animais de vá- 
rias espécies. Dizem que a baleia não anda 
sozinha: precede-a por toda parte um peixinho 


181 Virgílio. 


MONTAIGNE 


a que chamam piloto. Acompanha-o a baleia, 
deixando-se orientar por ele como o navio se 
orienta pelo marujo do leme. Em compensa- 
ção, enquanto tudo o que (bicho ou barco)! 8? 
entra na boca do monstro é logo engolido, o 


"guia, ou piloto, penetra-a sossegadamente e 


nela dorme, sem que a baleia se mexa; mas 
quando ele volta à água o cetáceo segue-o sem 
hesitação e, se porventura o perde de vista, 
principia a errar de um lado € de outro che- 
gando a chocar-se contra os rochedos como 
um barco sem timoneiro. Plutarco afirma ter 
observado o fato perto da Ilha de Anticira. 
Semelhante associação existe entre o pássaro 
chamado corruíra e o crocodilo. A corruira 
serve-lhe de sentinela e quando o mangusto, 
seu inimigo, se aproxima, a corruíra desperta o 
crocodilo com cantos e bicadas, prevenindo-o 
do perigo. Em compensação vive dos restos do 
monstro, o qual a recebe familiarmente na 
goela e a deixa bicar entre os dentes para 
comer as parcelas de carne aí remanescentes. 


Quando o crocodilo quer fechar a goela, avisa 
o pássaro, para que saia, cerrando-a a pouco € 
pouco sem o magoar. À concha conhecida por 
madrepérola vive com uma espécie de siri, que 
lhe serve de porteiro. Estacionando à entrada 


da concha, mantêm-na aberta até que algum 
pequeno peixe a penetre. Entra ele então igual- 
mente e belisca o animalzinho, forçando-o a 
fechar-se; e assim comem ambos a presa. A 


maneira de viver dos atuns demonstra um 
conhecimento singular dos três ramos da mate- 
mática. Quanto à astronomia podem ensiná-la 
aos homens, pois detêm-se onde os surpreende 
o solstício do inverno e não se mexem mais até 
o equinócio seguinte, razão pela qual Aristó- 
teles lhes atribuía o conhecimento dessa ciên- 
cia. Revelam também conhecer a geometria e a 
aritmética, porquanto se reúnem em cardumes 
da forma de um cubo quadrado por todos os 
lados, de sorte que formam um batalhão sólido 
de seis faces iguais. Nadam nessa ordem de 
dimensões idênticas atrás e na frente, de modo 
que quem os encontra e conta uma fileira tem 
idéia precisa do todo, porquanto a largura do 
cardume é igual à profundidade e ao compri- 
mento. ; à 

Em matéria de magnanimidade será difícil 
deparar com mais belo exemplo que o do enor- 
me cão enviado de presente a Alexandre. 
Apresentaram-lhe primeiramente um veado 
para que lutasse, em seguida um javali e depois 
um urso; não se dignou sequer sair do lugar, 
mas quando o puseram diante de um leão, 


162 Acreditava-se então que a baleia pudesse engo- 
lir um barco. (N. do T.) 


ENSAIOS — II 22 


ergueu-se imediatamente, considerando-o 
assim o único adversário de porte. 

Como prova de arrependimento e reconheci- 
mento de seus erros, citemos um elefante que, 
dizem, tendo matado seu guia em um acesso de 
raiva, lamentou-o tanto que não aceitou mais 
alimento e morreu de fome. 

A clemência dos animais é atestada por este 
caso que atribuem a um tigre, o mais inumano 
dos bichos. Haviam-lhe dado um cabrito; 
durante dois dias passou fome por não querer 
fazer-lhe mal; no terceiro dia quebrou a jaula 
para buscar outra coisa, não desejando atacar 
o hóspede de que se tornara familiar. 

A familiaridade e as relações que nascem da 
convivência podem existir entre os animais. 
Acontece efetivamente que vivam juntos, e 
muito bem, cães, gatos e lebres. Porém o que a 
experiência revela aos que viajam por mar — 
no mar da Sicília em particular — acerca dos 
alciões ultrapassa tudo quanto o homem possa 
imaginar. Nunca a natureza atentou tão prote- 
toramente para o parto e o nascimento de ne- 
nhum outro animal. Dizem os poetas que a 
Ilha de Delos, outrora flutuante, foi tornada 
imóvel a fim de permitir que Latona desse à 
luz a Apolo, mas no caso em apreço Deus é 
quem quer que o mar suste seu movimento, 
permaneça estável e calmo, sem ondas, nem 
ventos, nem chuvas enquanto o alcião põe seus 
filhotes no mundo, exatamente na época do 
solstício, no dia mais curto do ano. Graças a 
esse privilégio de que goza o pássaro, não há 
perigo para a navegação nesse período, em 
pleno coração do inverno. Entre os alciões a 
fêmea tem um só macho; com ele vive a vida 
inteira sem nunca o abandonar. Se ele se enfra- 


quece ou se inutiliza, carrega-o às costas € O 
serve até a morte. Ninguém conseguiu ainda 
compreender de que modo maravilhoso cons- 
troem os alciões os seus ninhos. Plutarco, que 
os viu e os teve nas mãos, pensa que são feitos 


com espinhas de um certo peixe que o pássaro 
junta, liga e entrelaça, dispondo umas em um 
sentido e outras noutro, curvando-as e arre- 
dondando-as de maneira a formar uma espécie 
de esfera capaz de flutuar. Quando terminado, 


expõe-no às ondas, as quais chocando-o deva- 
gar revelam os pontos fracos, não suficiente- 
mente aglutinados e que precisam ser reboca- 
dos, pois tais pontos cedem ao choque da água 


e o alcião verifica que os deve consolidar. Ao 
contrário, os que nada deixam a desejar, 
comprimem-se ainda mais e se fortalecem a 
ponto de não se desfazerem a pauladas ou 
pedradas, senão à custa de ingentes esforços. 
As proporções e os dispositivos internos do 
ninho são extraordinários. É construído de tal 


maneira e com tais dimensões que só pode 
receber o pássaro que o edificou e que só esse 
nele pode entrar. Inacessível a qualquer outro, 
fechado e firme, nem mesmo a água do mar o 
penetra. Por mais clara que seja esta descrição, 
a qual provém de boa fonte, parece-me que não 
esclarece bastante as dificuldades da constru- 
ção. É portanto inexplicável a nossa vaidade 
de querer considerar inferior e interpretar 
desdenhosamente o que não somos capazes 
nem de imitar nem de entender. 

Levemos um pouco mais longe este estudo 
comparativo acerca dos pontos comuns ou 
análogos entre nós e os bichos. Nossa alma 
vangloria-se de elevar a seu nível tudo o que 
concebe; de despojar todo ser que se apresente 
a ela de tudo o que tem de material e mortal; 
de considerar as coisas que preza, dignas de 
sua atenção independentemente do que nelas é 
passível de alteração, deixando de lado, como 
acessórios supérfluos e vis, a espessura, a lar- 


gura, a profundidade, o peso, a cor, o odor, a 
rugosidade, o polimento, a dureza, a moleza, 
em uma palavra, tudo o que é tangível e pereci- 
vel, para se acomodar à sua condição que é a 
de ser imortal e espiritual; de tal maneira que 


se Paris ou Roma ocupam meu pensamento, 
Paris, por exemplo, eu a imagino € a repre- 
sento em mim mesmo abstraindo suas dimen- 
sões, sua localização, a pedra, o gesso, a 
madeira que nela se encontram, suas constru- 
ções em suma. Não me parece que essa facul- 
dade seja privilégio exclusivo de nossa alma; é 
evidente que a possuem também os bichos. Um 


cavalo habituado às trombetas, aos tiros, aos 
combates, e que vemos agitado, comovido no 
seu sono, mexendo-se e tremendo como se esti- 
vesse em plena ação, tem em sua alma, sem 
dúvida, a concepção de um som mudo de tam- 
bor, de um exército sem armas e sem soldados: 
“vereis generosos corcéis, embora adormeci- 
dos, suarem, resfolegarem e se retesarem como 
se disputassem uma corrida”! 83, 


A lebre que em seu sonho o cão de caça 
imagina perseguir, arquejante, cauda esticada 
e tendões tesos, é uma lebre sem pelo nem 
ossos: “por vezes em meio a profundo sono, os 
cães de caça se agitam de repente, latem e fare- 
jam como se estivessem correndo um. animal; 
às vezes mesmo, ao despertarem, continuam a 
perseguir o vão simulacro de um veado que 
imaginam em fuga, até que, acordando defini- 
tivamente, se apercebem do erro”! 8º. Vemos 
também os cães de guarda grunhirem durante 
o sono, ladrarem enfim £< despertarem como se 


1683 Tucrécio. 
164 Id. x 


228 MONTAIGNE 


vissem algum estranho. Esse estranho que 
vêem em imaginação é um homem sem corpo, 
imperceptível aos sentidos, sem dimensões 
nem cor. Não existe. “Não raro o hóspede fiel 
e carinhoso da casa, O cão, ergue-se repentina- 
mente em meio a um sono leve, porque pensou 
ver uma forma estranha, um rosto desconheci- 
do”185, k 

Quanto à beleza do corpo, dever-se-ia, antes 
de falar, saber se estamos de acordo acerca 
daquilo em que consiste. Não me parece que 
de uma maneira geral concordemos a respeito. 
Não sabemos ao certo como e de que se consti- 
tut, pois ao que consideramos beleza no 
homem damos as formas mais diversas. Se al- 
guma regra natural houvesse, nós todos a 
reconheceríamos como nos entendemos quan- 
do aludimos ao calor produzido pelo fogo, ao 
passo que. em relação à beleza todas as fanta- 
sias se admitem: “A tez dos belgas não convi- 
ria a um rosto romano”? 8 8, 


Os índios pintam essa beleza negra e quei- 
mada de sol, lábios espessos e carnudos, nariz 
chato e largo, a cartilagem das narinas ormna- 
da de argolas que a esticam até a boca, o 
lábio inferior enfeitado com anéis incrustados 
de pedrarias e caído até o queixo a mostrar os 
dentes e as gengivas. No Peru a orelha quanto 
maior tanto mais bonita. Alguém diz ter visto 
em um país do Oriente aumentarem-na e carre- 
garem-na de jóias pesadas e a furarem com 


buracos tão amplos que podiam por eles pas- 
sar o braço sem levantar a manga. Há povos 
que enegrecem os dentes cuidadosamente, por- 
que os dentes brancos são desprezíveis; outros, 
pintam-nos de vermelho. Entre os bascos, as 
mulheres pensam desenvolver seus encantos 
raspando a cabeça; em outros lugares o 
mesmo se verifica e, o que é mais estranho, nas 
regiões boreais, segundo Plínio. As mexicanas 


acham bela uma testa estreita, por isso arran- 
cam os pelos do corpo e se esforçam por fazer 
com que nasçam na fronte. Os seios grandes 
são tão apreciados, que há mulheres que dão 
de mamar aos filhos por cima dos ombros. A 
isso chamaríamos horror. Entre os italianos o 
ideal de beleza está em ser gorda e atarracada; 


entre os espanhóis em ser magra e esbelta; 
entre nós em ser loura para uns e morena para 
outros; mole e delicada ou rija e vigorosa; há 
quem exija dela graça e doçura.e quem a quei- 


ra altiva e majestosa. Platão acha que nada é 
mais belo do que a forma esférica, ao passo 
que Epicuro prefere a pirâmide e o cubo, e não 
admite um deus à semelhança de uma bola. 


185 Id. 
186 Propércio. 


Como quer que seja, a natureza não nos 
beneficiou, a esse respeito, mais do que qual- 
quer ser vivo e se há animais menos favVore- 
cidos do que nós, há outros, em maioria, que o 
são mais: “muitos animais nos sobreexcedem 
em beleza”?! 87, mesmó entre os que, como nós, 
vivem na terra. Quanto aos que vivem no mar, 
deixamos de os considerar porquanto suás for- 
mas diferem demasiado das nossas para que se 
comparem, mesmo porque já pela cor, a limpe- 
za, O brilho, lhes somos inferiores, como o 
somos em relação aos que vivem no ar. 

À prerrogativa que invocam os poetas de 
nos sustentarmos verticalmente sobre os pés, 
olhando para os céus, de onde vimos, não 
passa de uma licença poética: “Deus curvou os 
animais e prendeu-lhes o olhar ao solo; dando 
ao homem uma cabeça reta, quis que contem- 
plasse os céus e os astros”! 88. Mas vários 
animaizinhos olham para o céu e os camelos e 
os avestruzes têm o pescoço mais comprido e 
reto do que nós. Existirão animais que não te- 
nham a cabeça colocada no alto e na frente do 
corpo, podendo como nós, na sua posição nor- 
mal, perceber certa extensão do céu e da terra? 
Que qualidades físicas teremos nós, entre as 
descritas por Cícero e Platão, que não sejam 
igualmente apanágio de numerosos animais? 
Entre estes, com os feios e abjetos é que temos 
maior semelhança: o macaco, por exemplo, 
quanto ao aspecto e forma do rosto: “por mais 
disforme que seja o macaco se parece conos- 
co”! 8º: o porco, no que concerne à nossa 
organização interna e partes vitais. 


Quando atento para o homem nu (mesmo 
esse sexo a que se atribui a maior parte da 
beleza), para suas taras e imperfeições, acho 
que mais do que nenhum outro animal temos 
razão de nos cobrirmos. E somos desculpáveis 
por termos aproveitado os despojos daqueles 
aos quais a natureza favoreceu, usando a la, a 
pena, o pêlo e a seda para nos vestirmos. 


Observemos ainda que o homem é o único ani- 
mal cuja imperfeição se afigura chocante aos 
seus semelhantes, o único que se esconde dos 
demais de sua espécie a fim de satisfazer suas 
necessidades naturais. E não é igualmente fato 
digno de consideração que os mestres no 
assunto ordenem como remédio contra as pai- 
x0es eróticas o espetáculo total e livre do 
corpo que ambicionamos? Pois basta, para 
extinguir o desejo, contemplar sem peias o que 
se deseja: “há quem, por ter visto a descoberto 
as partes secretas do objeto amado, sentiu 
extinguir-se a paixão no momento mesmo de 


1687 Sêneca. 
188 Ovídio. 
189 Ênio. 


peito Emos 


ENSAIOS — II 229 


sua realização”! 7º, E embora tal receita possa 
provir de alguém de temperamento delicado e 
já serenado, não deixa de ser uma prova mani- 
festa de nossa imperfeição desgostarmo-nos 
uns dos outros pela frequentação e a intimi- 
dade. 

Não é propriamente o pudor, mas a prudên- 
cia que torna as nossas mulheres tão circuns- 
petas e as leva a proibir-nos a entrada em seus 
toucadores enquanto se maquilam e se enfei- 
tam para aparecerem em público: 
“Defendem-se as nossas beldades — e com 
razão — evitando o acesso dos bastidores da 
vida aos amantes que pretendem conservar sob 
o seu jugo”"7!. Ora, nada há, em muitos ani- 
mais, de que não gostemos, que não agrade a 


nossos sentidos, a ponto de tirarmos de seus. 


próprios excrementos e secreções manjares 


- requintados, ornatos valiosos e perfumes sua- 


ves. Claro estã que isso diz respeito tão-so- 


' mente ao homem e às mulheres comuns; não 


sou tão sacrílego que o estenda a essas belezas 
divinas, sobrenaturais, que vemos por vezes 


. resplandecer entre nós como astros caídos na 
- terra e que dissimulam mal as formas humanas 


tomadas de empréstimo. 


Quanto ao resto, a parte mesma dos benefi- 
cios da natureza que concedemos aos animais 
é vantajosa a estes. Atribuimo-nos bens imagi- 
nários e sobrenaturais, bens futuros e remotos, 
e de cuja posse o homem é incapaz de se asse- 
gurar; ou bens que em virtude do desregra- 


mento de nosso espírito pretendemos falsa-. 


mente possuir, como a razão, a ciência, a 
honra. Aos outros seres deixamos, em compen- 


sação, os que são materiais e palpáveis: a paz, 
o repouso, a segurança, a inocência, a saúde, o 
mais admirável e rico presente que podemos 
receber da natureza, pois até a filosofia estóica 
declara que se Heráclito e Ferecides tivessem 
podido trocar sua sabedoria pela saúde e 
livrar-se com isso, um da hidropisia e outro da 


doença cutânea que o atormentava, houve- 
ram-no feito de bom grado. Do que se deduz 
que dão maior valor ainda a essa sabedoria, 
que comparam à saúde, do que nesta outra 
proposição igualmente deles filósofos: se Circe 
tivesse apresentado a Ulisses dois filtros com a 


propriedade, um deles, de tornar um louco 
sábio e o outro um sábio louco, devia Ulisses 
preferir a loucura a ver-se metamorfoseado à 
semelhança de um animal, pois a própria sabe- 
doria teria dito: “deixa-me, abandona-me, de 
preferência a alojar-me em um corpo de asno”. 
E eis nossos filósofos a darem menor impor- 


170º Ovídio. 
171 TLucrécio. 


tância à grande e divina ciência que à carcaça 
de nosso corpo nesta terra! 

Não são pois a razão, a reflexão ou a alma 
que nos tornam superiores aos animais; são 
nossa beleza, nossa linda tez, a harmônica 
disposição de nossos membros, ao lado do que 
nossa inteligência, nossa prudência e o resto 
são de pouca valia. Tomo nota de tão ingênua 
e franca confissão, pois significa que reconhe- 
cem que as prendas de que tanto nos vanglo- 
riamos não passam de fantasia. E assim, ainda 
que os animais tivessem todas as virtudes, a 
ciência, a sabedoria, a inteireza dos estóicos, 
continuariam animais e não poderiam ombrear 
com um homem miserável, mau e insensato! A 
meu ver, em suma, tudo o que não se nos asse- 
melha nada vale. Deus mesmo, e é um ponto a 
“que tornaremos, vale somente porque é feito a 
nosso modo. Disso se conclui que não é em 
virtude de um raciocínio judicioso, mas unica- 
mente por orgulho e obstinação que nos -sobre- 
pomos aos animais e nos afastamos de sua 
companhia. 


Voltemos ao nosso assunto. Somos vítimas 
da inconstância, da irresolução, da incerteza, 
do luto, da superstição, da preocupação com o 
futuro, inclusive o de depois da morte, da 
ambição, da avareza, do ciúme, da inveja, dos 
apetites desregrados e insopitáveis, da guerra, 
da mentira, da deslealdade, da intriga; da 


curiosidade. Pagamos pois bem caro a tão 
decantada razão de que nos jactamos, e a 
faculdade de julgar e conhecer, se a alcança- 
mos, é à custa do número infinito de paixões 
que nos assaltam sem cessar. E nem sequer 
contamos, por não apreciá-la mais do que Só- 
crates, a prerrogativa que temos do prazer se- 


xual a qualquer momento, quando aos bichos 
impôs a natureza limites e épocas razoáveis. 
“Assim como é preferível não dar vinho aos 
enfermos, porque, sendo-lhes normalmente 
nocivo, raramente proveitoso, com duvidosa 
esperança de melhoria incorre-se em risco 
manifesto, assim também seria preferível que 


não se houvesse outorgado ao homem a facul- 
dade de pensar, a compreensão, a perspicácia, 
a razão em suma, a qual a todos foi liberal- 
mente concedida mas a poucos beneficia e pre- 
judica a muitos”! 72, 


Que vantagens tiraram Varro e Aristóteles 
dessa sua inteligência peregrina? Isentou-os 
dos incômodos inerentes à natureza humana? 
Eximiu-os dos acidentes a que se expõe um 
carregador? A lógica consolou-os da gota? 
Sentiram-na menos por saberem como ela se 
aloja nas articulações? E por não ignorarem 


172 Cicero. 


230 


que entre certos povos a morte é recebida com 
alegria, foi-lhes ela mais suave? E por saberem 
que em alguns países as mulheres pertencem a 
todos, consolaram-se das infidelidades das 
suas? Por outro lado, embora pelo seu saber 
tenham ocupado o primeiro lugar, um entre os 
. gregos, outro entre os romanos, em uma época 
em que a ciência florescia, não nos consta que 
suas vidas se tivessem aproximado da perfei- 
ção. A de Aristóteles, em particular, apresenta 
algumas manchas importantes que com difi- 
culdade se limpariam. Estará demonstrado que 
o prazer e a saúde tenham mais sabor nos que 
conhecem a astronomia e a gramática? 
“Sustenta o ignorante com menos vigor os 
combates do amor ?* 73 


Cem artesãos conheci, e cem lavradores, 
mais prudentes e felizes do que professores 
universitários. Com os primeiros gostaria de 
me parecer. A meu ver, a erudição deve 
incluir-se entre as coisas necessárias à vida, 
como a glória, a nobreza, a grandeza, a digni- 
dade, a beleza e a riqueza. Talvez, mas não de 
um modo essencial. 


Os princípios de moral e as leis não nos são 
muito mais indispensáveis para vivermos em 
comum do que seriam aos grous e às formigas, 
muito organizados embora careçam de erudi- 
ção. Se o homem fosse sensato, a cada coisa 
daria um valor, segundo sua utilidade e sua 
adequação à vida. Quem nos julgasse por nos- 
sos atos e nossa conduta, observaria maior nú- 
mero de indivíduos perfeitos entre os ignoran- 


tes do que entre os sábios e isso em relação a 
"quaisquer virtudes. A antiga Roma parece-mé 
ter sido muito superior, na paz como na guer- 
ra, à Roma sábia que se arruinou por suas pró- 
prias mãos; e ainda que admitissemos terem 
sido iguais, a probidade, a pureza predomina- 
riam na primeira em consegiiência da simplici- 
dade que aí reinava. 


Para encerrar esta dissertação que nos leva- 
ria muito longe, limitemo-nos a constatar que 
só a humildade e a submissão engendram ho- 
mens de bem. Não é possível deixar ao livre 
arbítrio de cada um a escolha de seu dever; é 
preciso prescrever-lho. De outro modo, dada a 
variedade infinita de opiniões e inteligências, 
forjariamos deveres que nos impeliriam a nos 
destruirmos uns aos outros, como diz Epicuro. 


A primeira lei que Deus impôs aos homens 
foi obedecer; uma ordem simples, sem compli- 
cações, poupando o trabalho do conhecimento 
e do raciocínio. A obediência é, aliás, a condi- 
ção natural de uma alma que reconhece em 
Deus seu superior e benfeitor. Obedecer e 


173 Horácio. 


MONTAIGNE 


o 
submeter-se são o princípio de todas as virtu- 
des, como a presunção é o princípio de todos 
os pecados. Foi indo de encontro a esse princi- 
pio que o homem experimentou sua primeira 
tentação e que o diabo pôde inocular-lhe seu 
primeiro veneno, prometendo-lhe ciência e 
saber: “Serás como os deuses quando conhece- 
res o bem e o mal”?! 7%. Em Homero, as sereias, 
a fim de enganar Ulisses e atraí-lo a seus peri- 
gosos recantos, oferecem-lhe a ciência. O mal 
no homem está em pensar que sabe, por isso 
nossa religião recomenda-nos com tanta insis- 
tência a ignorância como meio adequado a 
determinar em nós a fé e a obediência: “cuidai 
de que ninguém vos iluda com a filosofia, nem 
com as vas seduções das doutrinas do 
mundo”? ??5. Todos os filósofos de todas as 
seitas concordam em que o soberano bem resi- 
de na serenidade da alma e do corpo. Mas 
como alcançar essa serenidade? “O sábio só é 
inferior a Júpiter; sente-se rico, livre, honrado, 
belo, rei do mundo enfim, a menos que o deflu- 
xo o atormente” 7 8. 


Dir-se-ia em verdade que para nos consolar 
de nossa condição miserável e doentia a natu- 
reza só nos deu presunção. É a opinião de 
Epicteto: “Nada existe no homem que lhe per- 
tença integralmente, a não ser sua opinião; 
somente vento e fumaça, constituem nosso 
patrimônio. Os deuses têm a saúde, pelo pró- 
prio fato de serem deuses e só conhecem a 
doença porque lhes é dado saber tudo. O 
homem, ao contrário, traz em si o princípio do 
mal; o bem é uma miragem. Temos muita 
razão para nos vangloriarmos da força de 
nossa imaginação, pois nossos bens só existem 
em sonho.” 


Ouvi um exemplo do orgulho desse pobre e 
calamitoso animal: “Nada é tão suave (Cicero 
é quem fala) quanto nos dedicarmos às letras; 
a essas letras, digo, que nos revelam o conheci- 
mento da infinidade de coisas existentes; da 
natureza no que tem de maior; dos céus 


enquanto ainda somos deste mundo de terras e 
águas. Por elas fomos instruídos na religião, 
conhecemos a moderação e a coragem no que 
têm de mais nobre.Porelas nossa alma foi tira- 
da das trevas para ser iniciada em todas as coi- 


sas, tanto as de ordem superior como as de 
ordem inferior, as que ocupam o primeiro 
como o último lugar. E assim envelhecemos 
sem desprazer nem sofrimento.” Não vos'pare- 
ce que de Deus e de Deus vivo e Todo-pode- 
roso é que fala o autor? Na realidade, mil cam- 
poneses viveram em suas aldeias uma 


174 Gênesis. 
175 São Paulo. 
176 Horácio. 


ENSAIOS — II 231 


existência mais sossegada, doce e tranquila do 
que a de Cicero. “Foi um Deus, ilustre Mêmio, 
quem primeiro descobriu esse gênero de vida a 
que chamam sabedoria, graças à qual a calma 
e a luz sucederam à agitação e às trevas”! 77 

Lindas, magníficas palavras! Entretanto, 
apesar desse deus tão decantado e de sua divi- 
na sapiência, um simples acidente bastou para 
que a inteligência de quem as disse caísse ao 
nível da de um pobre pastor. 

Tão impudente quanto esses devaneios é o 
que promete Demócrito quando diz: “Vou 
falar de todas as coisas”; e o ridículo título que 
Aristóteles dá aos homens, “deuses mortais”; e 
a opinião de Crisipo a respeito de Dion cuja 
virtude “o elevava à altura de Deus”; e esta 
asserção de Sêneca de que “a Deus deve a vida 
mas a si mesmo o fato de bem viver”; e esta 
outra que se assemelha à precedente: “com 
razão nos jactamos de nossa virtude, o que não 
deveriamos fazer se proviesse de um deus em 
vez de provir de nós mesmos”! 78. e esta ainda, 
igualmente de Sêneca: “o sábio alia à fraqueza 
humana uma força de alma semelhante à de 
Deus e nisso ele lhe é superior”. Nada é tão 
comum como encontrar exemplos de análoga 
ousadia. Nenhum homem se ofende com se ver 
comparado a Deus, mas deprime-se se o nive- 
lam aos animais, prova evidente de que preza- 
mos mais a nós mesmos do que a glória do 
Criador. 


É preciso dominar tão tola vaidade e sola- 
par ousada e energicamente os fundamentos 
ridículos sobre os quais se erguem as opiniões 
errôneas. Enquanto o homem imaginar alguma 
força e meios de ação próprios, nunca reconhe- 
cerá o que deve a seu Senhor. Suas ilusões 
serão infinitas. Eis por que é preciso despi-lo, 
reduzi-lo à indigência. 

Vejamos alguns exemplos dos resultados de 
sua filosofia. Possidônio, torturado por uma 
doença tão cruel que seus braços se torciam e 
seus maxilares se contraiam, pensava demons- 
trar seu desprezo pela dor, invectivando-a: 
“Faze o que quiseres, não direi jamais que és 
um mal.” Sofria tanto quanto um lacaio, mas 
acreditava-se corajoso porque falava uma lin- 
guagem obediente aos preceitos de sua seita: 
“não devia sucumbir ante a realidade, quem se 
jactava com palavras, de sua coragem”! ?º. 
Achando-se Arcesilau atacado de gota, Car- 
néades que o fora visitar quis retirar-se, embar- 
gado pela piedade. Chamou-o o paciente e, 
mostrando-lhe os pés e o peito, disse: “Nada 
sinto aqui do que sofro lá.” Isto me parece 


177 Lucrécio. 
178 Cicero. 
179 Id. 


mais honesto, pois reconhecia que sofria e qui- 
sera livrar-se do sofrimento, mas não se abatia 
nem se enfraquecia ao passo que Possidônio, 
penso, afetava uma serenidade que não pos- 
suía. E Dionísio de Heracléia, sofrendo cruel- 
mente dos olhos, viu-se forçado a desprezar 
suas resoluções estóicas. 

Mas ainda que a ciência produzisse os resul- 
tados que os filósofos lhe atribuem, ainda que 
atenuasse a violência dos males a que estamos 
expostos, que poderia fazer a mais do que faz a 
ignorância, e melhor? O filósofo Pirro, vítima 
de uma tempestade no mar, não achou coisa 
melhor para animar seus companheiros de 
infortúnio senão incitâ-los a imitar a sereni- 
dade de um porco que estava a bordo e 
contemplava o fenômeno sem se apavorar. A 
filosofia, como último recurso, apresenta à 
nossa consideração os exemplos do atleta e do 
arrieiro que, em geral, não temem a morte nem 
os tormentos e são capazes de maior resolução 
do que a ciência pôde jamais impor a nenhum 
homem não predisposto naturalmente à resis- 
tência física. Que é que faz, se não a ignorân- 
cia, que se amputem os membros delicados de 
uma criança, ou os de um cavalo, mais facil- 
mente do que os nossos? E quanta gente fica 
doente unicamente por efeito da imaginação ! 
É frequente vermos quem se faça sangrar, pur- 


gar, medicamentar para curar males que só 
existem porque os imagina ter. Quando nos 
faltam males verdadeiros, a ciência no-los for- 
nece. Pela cor de nosso rosto devemos estar 
sob a ameaça de alguma doença catarral; o 
calor da estação predispõe-nos a um acesso de 


febre; a linha de vida de nossa mão esquerda 
apresenta um aspecto que pressagia séria e 
próxima indisposição. A ciência ataca mesmo 
de frente a saúde: temos uma vitalidade, uma 
força que não pode continuar, é preciso que 
nos tirem algum sangue e nos enfraqueçam, 
sem o que a saúde poderá voltar-se contra nós 
mesmos. 


Compare-se a existência de um homem 
escravizado a essas idéias imaginárias com a 
de um lavrador que se entrega ao fluxo normal 
da vida, levando em conta as coisas no 
momento em que ocorrem e sem se preocupar 
com o que diz a ciência, sem se prender às 
conjeturas; que só adoece quando a doença 
chega, ao passo que outros já trazem os cálcu- 
los na alma antes que alcancem a bexiga, 
antecipando-se pela imaginação aos sofri- 
mentos reais, correndo ao seu encontro como 
se não lhes sobrasse tempo para sofrer na hora 
certa. 

O que digo dos efeitos nefastos da medicina 
aplica-se igualmente a qualquer outra ciência. 


232 


Daí a opinião de certos filósofos antigos que 
consideravam como felicidade suprema termos 
consciência da fraqueza de nosso julgamento. 
Quanto a mim, minha ignorância tanto me 
induz a esperar como a temer: para regular 
minha saúde, guio-me pelos exemplos dos ou- 
tros e pelo que vejo verificar-se alhures nas 
condições em que me acho. Essas observações 
são de toda espécie e decido de acordo com a 
comparação que estabeleço entre elas, esco- 
lhendo o que me parece conveniente. Recebo 
com a maior cordialidade a saúde, por julgá-la 
coisa essencial e que nos torna livres. Subordi- 
no-lhe o resto e procuro gozá-la tanto mais 
quanto já se vai fazendo menos comum, mais 
rara. Por isso evito perturbar-lhe o repouso e a 
cordura com os aborrecimentos de uma nova e 
forçada maneira de viver. 

Os animais que devem à sua quietude uma 
saúde mais robusta do que a nossa, mostram- 
nos a que ponto a inquietação de espírito pode 
ser causa de doença. Dizem que no Brasil as 
pessoas só morrem de velhice, o que se atribui 
à pureza e à calma do aí que respiram, e que, 
a meu ver, provém antes da serenidade e da 
tranquilidade de suas almas isentas de paixões, 
de desgostos, de preocupações que excitam e 
cóntrariam. Ignorantes, iletrados, sem lei nem 
rei, nem religião alguma, sua vida desenvolve- 
se numa admirável simplicidade. 

Como explicar que os indivíduos mais gros- 
seiros, de espírito mais curto, sejam os mais 
dados ao amor? E que o amor de um arrieiro 
seja mais desejável por vezes que o de um 
fidalgo? Não será porque neste último as agi- 
tações do espírito influem nos meios físicos, 
desequilibram-nos, cansam-nos, enfadam-nos, 
como cansam e enfadam a própria alma? Que 
é que torna essa alma desregrada e a impele à 
loucura, senão a vivacidade e a agilidade que 
constituem sua força? Que diferencia a lJoucu- 


ra mais sutil da mais sutil sabedoria? Das 
grandes amizades nascem as grandes inimiza- 


des; as saúdes vigorosas são o ponto de parti- 
da das doenças mortais; assim também as 
mais notáveis e belas inteligências podem con- 
duzir às mais sublimes loucuras e extravagân- 
cias. De umas a outras vai apenas um passo. 
Pelo que são capazes de fazer os loucos, pode- 
mos julgar quão próxima da generosidade da 
alma se encontra a loucura. Quem ignora 
quanto é imperceptível a linha de demarcação 
entre a loucura e as inspirações mais ousadas 
de um espírito completamente livre, ou as reso- 
luções que pode tomar, em dadas circunstân- 
cias, uma virtude excepcional? 

Diz Platão que os melancólicos!8º são os 


180 Assim se designavam os esquizóides. (N. do 
T. 


' que uma ligeira dor: “ 


MONTAIGNE | 


mais aptos à disciplina e os melhores, mas não 
há também mais propensos à loucura. Inúme- 
ros espíritos se consomem pela sua própria 
força e brilho. Assim vimos que, pela fulgu- 
rante excitação de seu espírito, se consumiu o 
mais judicioso, engenhoso e superior de todos 
os poetas italianos! *?, na tradição da antiga e 
pura poesia. Sim, tem de ser grato realmente à 
vitalidade que o matou! À claridade que o 
cegou! Ao acertado e constante exercício de 
suas faculdades que lhe destruiu a razão! À 
curiosa e laboriosa investigação científica que 
o levou à loucura! À rara aptidão para os tra- 
balhos do espírito que o deixou sem espírito e 
sem possibilidade de trabalhar! Ao vê-lo em 
Ferrara, em tão lamentável estado, não se 
reconhecendo nem reconhecendo as suas obras 
que se publicaram sem que as pudesse rever, 
embora vivo, senti mais despeito pela fragili- 
dade da natureza humana do que compaixão 
pela sua infelicidade. 

Quereis que um homem seja sadio, ponde- 
rado em seus atos, com atitudes seguras e fir- 
mes? Envolvei-o nas trevas, na ociosidade e 
evitai que seu espirito trabalhe. Para sermos 
sensatos, precisamos atoleimarmo-nos; para 
nos guiarem devem cegar-nos. Dirão que a 
vantagem de ser pouco sensível às dores e aos 
males traz consigo o inconveniente de tornar 
menos requintado o gozo dos bens e prazeres. 
Com efeito, mas a miséria de nossa condição é 
causa de que nos cabe fugir mais do que gozar 
e um prazer total nos impressiona menos do 
os homens são menos 
sensíveis ao prazer do que à dor”'82, Mal per- 
cebemos o bem-estar que acompanha a per- 
feita saúde, tortura-nos porém a mais insignifi- 
cante enfermidade. “Somos sensíveis ao menor 
arranhão e no entanto a plenitude da saúde 
deixa-nos indiferentes. Alegrámo-nos com não 
sermos atormentados pela pleurisia ou a gota, 
porém mal percebemos que somos sadios e 
vigorosos”!83. Nosso bem-estar consiste em 
não sentir dores, por isso a seita filosófica que 
colocou o prazer acima de tudo definiu-o pela 
ausência do sofrimento. É este o maior bem 
que o homem pode esperar, como dizia Ênio. 

Essa comichão, essa excitação que nos cau- 
sam certos prazeres, afiguram-se a um tempo 
excesso de saúde e de mal-estar. Essa volúpia 
que nos atrai e a que cedemos, apesar do que 
comporta de irritante, não terá por objeto apla- 
car em nós a sensação? O impulso que nos 
leva às mulheres, obedece tão-somente à neces- 
181 O Tasso, encerrado em um manicômio e que 
Montaigne viu provavelmente em sua viagem à 
Itália. 

182 Tito Lívio. 
183 Ta Boétie. 


ENSAIOS —TI 


sidade de aplacar o mal-estar que produz em 
nós o desejo ardente e excessivo; e não visa a 
outra coisa senão saciá-lo, extinguindo a febre 
e devolvendo-nos a calma. O mesmo acóntece 
com os demais prazeres. Parece-me, pois, que 
se a simplicidade de espírito nos induz a 
preservar-nos do mal, conduz-nos a um estado 
de felicidade, dada a nossa natureza. Mas que 
não seja entretanto tão total que se dispa de 
toda sensibilidade, e Crantor tinha razão em 
combater essa indiferença preconizada por 
Epicuro, que a exagerava a ponto de não con- 
fessar a existência do mal, mesmo quando por 
ele atingido: “não aprovo uma insensibilidade 
elevada a esse grau, a qual em verdade não 
existe e não é desejável. Alegra-me não estar 
doente, mas se o estou quero sabê-lo, e se me 
cauterizam ou me operam quero sentir”. Efeti- 
vamente, quem nos tirasse a sensação da dor 
nos privaria ao mesmo tempo do prazer. Seria 
em suma o aniquilamento do homem. “Essa 
indiferença não se conquista sem grande dure- 
za de coração e insensibilidade do corpo”'8*. 
O mal e o bem revezam-se no homem; a dor 
não o persegue sem descontinuar e ele não 
corre sem cessar atrás do prazer. 


Constitui argumento poderoso em prol da 
ignorância o fato de a própria ciência nos 
Jogar em seus braços quando não encontra o 
meio de nos tornar superiores ao sofrimento 
demasiado intenso. Pois a ciência vê-se força- 
da a transigir recomendando-nos a ignorância 
e entregando-nos à proteção dela a fim de nos 
resguardar contra os golpes e insultos da sorte. 
Não significa outra coisa o que nos diz a ciên- 
cia quando nos incita a não pensar em nossos 
sofrimentos e a recordar os prazeres de outros 
tempos; quando nos consola dos males presen- 
tes com a lembrança das alegrias idas; quando 
opõe, ao que nos oprime hoje, o que ontem nos 
deu satisfação: “Epicuro diz que é preciso ob- 
viar aos pensamentos tristes e atentar para os 
alegres”18 8, Carecendo de força, recorre a 


ciência à esperteza. E mediante trejeitos e pelo- 
ticas supre o vigor dos braços. Mas recordar a 
doçura dos vinhos da Grécia não somente a 
um filósofo mas simplesmente a um homem 
sensato em luta contra a febre, eis um estranho 
remédio bem capaz de piorar a situação: “a 
recordação da felicidade passada duplica a 


desgraça presente” 8 8. 


De igual natureza é este outro conselho da 
filosofia: “guarde-se na memória apenas a lem- 
brança das alegrias tidas e apague-se a recor- 
dação das tristezas”. Como se de nosso arbi- 


184 Cícero. 
185 Id. 
186 Tasso. 


233 


trio dependesse o esquecimento! Outra prova 
de nossa insignificância. 

“Doce é a lembrança das tristezas idas”187. 

Então a filosofia que me deve dar armas 
para combater os azares-do destino, que deve 
temperar-me o caráter para que possa despre- 
zar as adversidades humanas, confessa sua 
impotência, recorrendo a escapatórias ridícu- 
las e covardes? Sim, porque a memória não 
fixa o que queremos e sim o que lhe apraz. 
Mais ainda: nada imprime mais profunda- 
mente alguma coisa na memória do que o de- 
sejo de esquecer. Este é mesmo o melhor meio 
de gravar em nós alguma coisa. É errado pre- 
tender que “depende de nós enterrar para sem- 
pre no olvido as nossas desgraças passadas e 
lembrar unicamente as alegrias”'88, Mas é 
certo dizer: “Lembro-me das coisas que quise- 
ra esquecer e esqueço as que desejara lem- 
brar”'8º. E de quem é este princípio? Daquele 
que “superou com seu gênio a raça humana e 
eclipsou todos os homens, como o sol ao surgir 
apaga as estrelas”'ºº, do “único que entre 
todos ousou dizer-se sábio”'91. Esvaziar a 
memória não será seguir o verdadeiro caminho 
da ignorância? “A ignorância que tudo aceita 
sem discussão é um remédio para os nossos 
males”!º2. Outros preceitos há, em virtude 
dos quais nos é permitido tomar de emprés- 
timo ao vulgo certas aparências frívolas que 


nos sirvam de consolo. Quando não podem 
curar a chaga satisfazem-se com atenuar a dor. 
Creio que ninguém recusaria aceitar, ainda 
que em troca de certa simplicidade de espírito, 
uma- existência agradável e trangúila cuja 
ordem e continuidade se lhe assegurassem: 
“começaria por beber e jogar flores, embora 
pudesse passar por louco” 83. 


Por certo- encontraríamos muitos filósofos 
da opinião de Licas. Este, aliás, de costumes 
morigerados, vivia calmamente com sua famí- 
lia, cumprindo seus deveres para com os seus e 


os estranhos, sabendo muito bem evitar O que 
lhe era prejudicial. Um transtorno qualquer de 
seus sentidos induziu-o a imaginar que se 
encontrava sempre no teatro assistindo às mais 
belas peças. .Tendo-o curado os médicos, 
pouco faltou para que os processasse, a fim de 
lhe devolverem as delícias da imaginação: 
“Ah! meus amigos, que fizestes ! Salvando-me, 


vós me matastes, pois me privastes de toda a 


187 Eurípides. 
188 Eurípides, citado por Cícero. 


189 Td. 

190 Lucrécio. 
191 Cícero. 
192 Sêneca. 
193 Horácio. 


234 MONTAIGNE | 


volúpia extirpando o erro que me encantava a 
vida?”194. 

Trasilau, filho de Pitodoro, sofria de mania 
semelhante. Imaginava que todos os navios 
que tocavam no Pireu trabalhavam por conta 
dele. Alegrava-se quando não se verificavam 
avarias e acolhia com júbilo a chegada dos 
barcos. Curando-se, graças a seu irmão Cri- 
ton, lamentava o passado em que vivera feliz. 
É o que exprime este verso de um autor grego 
da antiguidade: “Há grande vantagem em não 
ser demasiado sensato 1º 5, Eno Eclesiastes se 
diz: “Muita sabedoria é fonte de desprazer; 
quem adquire saber adquire ao mesmo tempo 
trabalho e tormento.” 

Admite geralmente a filosofia, como último 
remédio para os nossos males, que ponhamos 
fim à vida, desde que não a possamos supor- 
tar: “Agrada-te a vida? Suporta-a. Estás can- 
sado dela? Sai como quiseres”'º 8. “A dor te 
molesta ou te inferniza? Se não tens defesa, 
estende o pescoço; mas se trazes as armas de 
Vulcano, isto é, se és forte, resiste” 1º 7. E este 
ditado: “que beba ou que se vá”, com que cos- 
tumavam os gregos saudar seus convivas e 
aplicavah às situações críticas mudando o b 
em v, como fazem os gascões! º8, que significa 
senão a confissão da impotência da filosofia? 
Pois não somente apela para a ignorância, mas 
também para a estupidez humana, preconi- 
zando o abandono de todo sentimento e até da 
existência: “Se não sabes como empregar a 
vida, cede o lugar aos que sabem. Já te diver- 
tiste bastante, já comeste e bebeste; está na 
hora de te aposentares, pois poderias embria- 
gar-te e te tornares alvo do escárnio dos 
jovens, nos quais o desregramento é mais 


desculpáve! do que em homem da tua 
idade”! ºº, “Demócrito, vendo que os anos lhe 
haviam enfraquecido as faculdades, matou-se 
voluntariamente”2ºº. Antístenes exprime a 
mesma idéia: “Fazer provisão de bom senso 


para viver tranquilo ou arranjar uma corda 
para se enforcar.” E Crisipo assegura, a propó- 
sito de um verso de Tirteu, que “é preciso che- 
gar à virtude ou morrer”. Crates dizia igual- 
mente: “o amor cura-se com a fome ou com o 
tempo; aqueles a quem nem um nem outro des- 
ses meios satisfaz resta o recurso da corda 
para o pescoço”. Sexto, de quem Sêneca e Plu- 


19º Horácio. 

195 Sófocles. 

138 Sêneca. 

197 Cícero. 

188 Transforma-se assim o Bivat em vivat, pois, 
embora se refira aos gregos, Montaigne cita em 
latim. 

188 Horácio. 

200 Lucrécio. 


tarco falam com tanta consideração, tudo 
abandonara para estudar a filosofia. Progre- 
dindo lentamente e se prolongando seus estu- 
dos, resolveu precipitar-se ao mar. Não poden- 
do alcançar a ciência, matava-se. 

Eis os termos da lei dos estóicos: “se por- 
ventura ocorrer alguma desgraça para a qual 
não tenhamos remédio, o porto está próximo; 
podemos salvar-nos a nado, abandonando o 
corpo, como um barco que faz água. É o medo 
de morrer e não o desejo de viver que retém o 
louco amarrado ao corpo”. 

A simplicidade torna a existência mais agra- 
dável e a alma mais pura e melhor. Os simples 
e os ignorantes, diz São Paulo, elevam-se e 
conquistam o reino dos céus; nós, com todo o 
nosso saber, afundamos nos abismos do infer- 
no. Não lembrarei nem Valentiniano, inimigo 
declarado da ciência e das letras, nem Licínio, 
ambos imperadores e que as consideravam 
nocivas como a peste; nem Maomé que, ao que 
ouvi dizer, proibia o ensino da ciência; mas 
invocarei o exemplo de Licurgo. A autoridade 


“do legislador merece todo o nosso respeito, 


como o merece também a divina legislação que 
ele deu à Lacedemônia, onde durante tanto 
tempo reinaram a virtude e a felicidade sem 
que se admitissem o conhecimento e a prática 
das letras. 


Os que voltam desse Novo Mundo que os 
espanhóis descobriram no tempo de nossos 
pais, podem testemunhar como esses povos, 
que não possuem leis nem magistrados, são 
mais bem governados do que nós com nossos 
tão numerosos funcionários e leis tão abun- 
dantes que ultrapassam em quantidade os atos 


a serem julgados: “têm as mãos cheias de 
convocações, requerimentos, informações, pro- 
curações e também maços de comentários, 
pareceres, processos. Com tais indivíduos os 


infelizes nunca se acham em segurança na sua 
cidade. São assaltados por todos os lados por 
uma multidão de escrivães, procuradores,. 
advogados”?º1, 


Um senador romano dos últimos séculos do 
império exprimia a mesma idéia: “nossos ante- 
passados recendiam fortemente a alho, mas ti- 
nham o estômago perfumado por uma boa 
consciência, ao passo que em nôssa época as 
pessoas exalam bom odor, mas por dentro o 
cheiro é nauseabundo e provém da fermenta- 
ção de seus vícios”. Em outras palavras, com 
muito saber e capacidade, careciam totalmente 
de consciência. A falta de educação, a ignorân- 
cia, a simplicidade de espírito, a franqueza 
aliam-se em geral à ingenuidade. A curiosi- 


201 Ariosto. 


ENSAIOS — 1 235 


dade, a sutileza, o saber acarretam a malícia. 
A humildade, o temor, a obediência, a bonda- 
de elevada até a fraqueza e que constitui o ali- 
cerce sobre o qual assenta a conservação da 
sociedade humana, são peculiares a uma alma 
vazia, dócil, e presumindo pouco de si. 

Os cristãos mais do que os outros sabem a 
que ponto a curiosidade é um mal natural e 
original no homem. O desejo de aumentar sua 
ciência foi a causa primeira da queda do 
homem, que lhe acarretou a danação eterna. O 
orgulho perdeu-o e corrompeu-o. É o orgulho 
que expulsa o homem dos caminhos batidos e 
o induz a abraçar as novidades, a preferir ser 
chefe de um bando errante, desviado em uma 
senda de perdição e professor de erros e menti- 
ras, a ser aluno de uma escola em que se ensine 
a verdade, e a marchar sob a direção de 
outrem, pela estrada larga que leva direito à 
meta. É sem dúvida o que exprime esta antiga 
máxima grega: “a superstição segue o orgulho 
e lhe obedece como a um pai”. Ó presunção, 
quanto nos prejudicas! 


Quando Sócrates foi avisado de que o Deus 
da sabedoria lhe outorgara o epíteto de sábio, 
espantou-se. Sondando-se, analisando-se, nada 
achava suscetível de motivar a declaração da 
divindade, pois conhecia muitos justos, corajo- 


sos, sábios como ele, e mais eloquentes, mais 
belos, mais úteis a seu país. Acabou por con- 
cluir que o que fazia que fosse sábio era o fato 
de ele próprio não se considerar sábio; que seu 
Deus devia encarar como tolice do homem a 


opinião que este tem de sua ciência e de sua 
sabedoria; e que a melhor doutrina está na 
ignorância, como na simplicidade de espírito 
está a verdadeira sabedoria. Nossos Evange- 


lhos consideram bem miseráveis os que se 
superestimam: “És barro e cinza, podes em 
verdade vangloriar-te?” E ainda: “Deus fez o 
homem semelhante a uma sombra; que se pode 
ver dele quando, em se afastando a luz, desa- 
parece a sombra?” Na realidade nada somos. 


Muito falta para que possamos atingir as 
alturas em que paira a divindade, e as obras do 
Criador que mais evidenciam a Sua presença 
são as que menos podemos alcançar. Deparar 
com algo incrível é para o cristão uma oportu- 
nidade de crer; tanto mais se aproxima da 
razão quanto mais escapa à inteligência huma- 
na. Se esta o pudesse entender, deixaria de ser 
milagre, e se fosse análogo a qualquer outra 
coisa. não seria incrível. “Conhece-se melhor 
Deus não O procurando compreender” 202. “E 
mais nobre e respeitoso crer que aprofundar os 
desígnios dos deuses”, diz Tácito. Platão igual- 


202 Santo Agostinho. 


mente acha até certo ponto irreverente interes- 
sar-se alguém, demasiado curiosamente, por 
Deus, o mundo e as causas primeiras das coi- 
sas. E finalmente lemos em Cícero que “é difi- 
cil conhecer o criador deste universo; e se 
conseguirmos descobri-lo será impossível tor- 
ná-lo compreensível ao vulgo”. 

Deus é poder, verdade, justiça, dizemos nós. 
Estas palavras sugerem uma idéia de grandeza, 
mas O que representam realmente nós não o 
vemos, não o concebemos. Dizemos que Deus 
tem medo ou está zangado, ou que ama, 
“exprimindo o divino em termos humanos”, 
segundo Lucrécio; são emoções, essas, de que 
somos suscetíveis mas que não podem existir 
em Deus como as concebemos, do mesmo 
modo que não concebemos o que Ele possa 
sentir. Só Deus tem a possibilidade de Se 
conhecer e de explicar Seus atos, que não se 
traduzem senão impropriamente em nossa lin- 
guagem, a qual Ele emprega entretanto para, 
abaixando-Se, descer até nós que jazemos na 
terra. Como a sabedoria, que constitui um 


ponto de equilíbrio entre o bem e o mal, pode- 
ria ser-Lhe inerente, se nem o bem nem o mal 
O atingem? Que Lhe importam essa razão e 
essa inteligência que nos permitem deduzir das 
coisas que mal conhecemos outras nitidamente 
definidas, a Ele para quem nada é obscuro? 


A justiça quê tem por objetivo dar a cada 
um o que lhe cabe, foi engendrada pelos ho- 
mens em sociedade e não pode figurar entre os 
atributos divinos. A temperança, que consiste 
em moderar o gozo dos prazeres materiais, 
não tem nenhuma relação com a divindade. A 
coragem, que nos induz a suportar e enfrentar 


a dor, o trabalho, os perigos, nada tem tam- 
pouco com Deus: as três coisas Lhe são estra- 
nhas. São considerações idênticas que levam 
Aristóteles a julgar que Deus está isento de vi- 
cios e virtudes: “não é suscetível nem de amor, 
nem de ódio, porque tais coisas são inerentes 
aos seres frágeis”2º3. 


A participação grande Ou pequena que 
temos no conhecimento da verdade, não a 
obtemos com nossas próprias forças; demons- 
trou-nos Deus, escolhendo no povo gente sim- 
ples e ignorante para nos revelar Seus admirá- 
veis segredos. Nossa fé, não a adquirimos, é 
um presente puríssimo de liberalidade alheia. 
Não foi pelo raciocínio, pela inteligência, que 
acolhemos nossa religião; foi porque assim o 
quis uma autoridade situada fora de nós. Aju- 
da-nos a fraqueza mais do que a força de 
nosso juízo, e nossa cegueira mais do que 
nossa clarividência. Graças à nossa ignorân- 


203 Cícero. 


| 
EEE E EE SUE 


236 MONTAIGNE: 


cia, mais do que ao nosso saber, temos conhe- 
cimento das coisas divinas. Não é de espantar 
aliãs que nossos meios, que são os que recebe- 
-mos da natureza e se aplicam às coisas da 
terra, não nos permitam conceber as coisas 
sobrenaturais e celestes. Tudo o que podemos 
fazer é submeter-nos e obedecer, pois está 
escrito: “destruirei a sabedoria dos sábios e 
deitarei por terra a prudência dos prudentes”. 
Onde está o sábio do século? E o censor? Não 
reduziu Deus a zero a ciência humana? Pois 
em não chegando o mundo ao conhecimento 
de Deus pela ciência, prouve a Deus que, pela 
prédica dos ignorantes e dos simples, fossem 
salvos os crentes. 

Examinemos, portanto, se está ao alcance 
do homem encontrar o que procura e se essa 
procura a que se vem entregando há séculos 
lhe trouxe alguma força nova, alguma verdade 
sólida. Creio que reconhecerão, se falarmos 
honestamente, que tudo o que tirou de tão 
longa busca foi a certeza de sua impotência. 
Nesse longo estudo, a ignorância, que nos é 
naturalmente inerente, ficou confirmada e 
demonstrada. Aconteceu aos verdadeiros sá- 
bios o que se verifica com as espigas de trigo, 
as quais se erguem orgulhosamente enquanto 
vazias e, quando se enchem e amadurece o 
grão, se inclinam e dobram humildemente. 
“Assim esses homens, depois de tudo terem 
experimentado, sondado e nada haverem en- 
contrado nesse amontoado considerável de 
coisas tão diversas, renunciaram à sua presun- 
ção e reconheceram a sua insignificância. E o 
que Veleio Patérculo censura a Cota e a Cíce- 
ro, quando diz: “Aprenderam com Filon que 


não aprenderam nada.” Ferecides, um dos sete 
sábios da Grécia, às vésperas da morte, escre- 
via a Tales: “determinei aos meus que, depois 
de me enterrarem, te entregassem meus escri- 
tos. Se te agradarem, a ti e aos outros sábios, 


publica-os; se não, destrói-os. Nenhuma certe- 
za contêm que a mim mesmo satisfaça; aliás 
não pretendo conhecer a verdade, nem mesmo 
atingi-la. Entrevejo as coisas mais do que as 
penetro”. Sócrates, o homem mais sábio que já 
houve, respondeu ao lhe perguntarem o que 
sabia: “uma coisa — e muito bem: que nada 


sei”. Sua résposta confirma o que se diz comu- 
mente, isto é, que por mais que saibamos nada 
sabemos ao lado do que ignoramos. Em outras 
palavras, aquilo mesmo que pensamos saber 
não passa de uma ínfima parcela do que 
ignoramos. 


Conhecemos as coisas, diz Platão, em 
sonho, mas as ignoramos na realidade, 
“porque todos os autores antigos nos disseram 
que nada podemos conhecer, nada compreen- 


der, nada saber, eis que nossos sentidos são 
limitados, nossa inteligência demasiado frágil, 
a vida exageradamente curta”2º*. O próprio 
Cicero, que aufere todo o seu valor de seu 
saber, principiava, em sua velhice (segundo 
Valério Máximo) a desprezar as letras. Quan- 
do as cultivava, fazia-o sem optar por nenhu- 
ma solução, tendendo ora para uma seita ora 
para outra, segundo o que lhe parecia mais 
certo, sem contudo se afastar da dúvida da 
Academia: “Vou falar, mas sem nada afirmar; 
tudo investigarei, sempre desconfiado de mim 
mesmo”2º 8, 

Não teria dificuldade em considerar o 
homem em sua maneira habitual de ser, mas, 
se o fizesse, o estaria imitando, julgando a ver- 
dade não pelo valor das testemunhas e sim 
pelo seu número. Deixemos de lado o povo 
“que dorme acordado, e agoniza embora viva € 
tenha os olhos abertos”2º 8, que não se sente, 
não se julga, e deixa na ociosidade suas facul- 
dades naturais; e vejamos o que de melhor 
existe na humanidade. Estudemos nessa redu- 
zida pléiade de homens excelentes, selecio- 
nados com carinho e que, naturalmente dota- 
dos de um espírito particularmente belo, ainda 
o temperaram e requintaram pela erudição e a 
arte, elevando-se tão alto quanto o permite a 
sabedoria humana. Esses indivíduos traba- 
lharam seu espírito de todas as maneiras, por 
todas as suas facetas, preparando-o para tudo, 
buscando em todas as fontes suscetíveis de 
auxiliá-los o que podiam assimilar; enrique- 
cendo-o, enfeitando-o com tudo o que poderia 
concorrer para seu aperfeiçoamento interior e 


exterior: Neles a natureza humana alcançou 
seu mais alto grau de perfeição. Deram ao 
mundo leis e instituições, desenvolveram as 
artes e as ciências e ofereceram-lhe os exem- 
plos admiráveis de sua conduta e de seus cos- 
tumes. Desses invocarei o testemunho e a 
experiência. Vejamos até onde foram, onde 
pararam. As enfermidades e falhas que obser- 
varmos nessa elite, deveremos julgá-las co- 
muns a todos nós. 


Quem procura alguma coisa acaba por 
declarar, ou que a encontrou ou que não a 
pôde descobrir, ou que continua a busca. Toda 
a filosofia tende a uma dessas três conclusões; 
seu objetivo é procurar a verdade, penetrá-la e 
convencer-se dela. Os peripatéticos, os epicu- 
ristas, os estóicos e outros pensam tê-la encon- 
trado; estabeleceram o rol dos nossos conheci- 
mentos e os consideram indiscutíveis. 
Clitômaco, Carnéades e os acadêmicos em 


204 Cícero. 
20 6 Td. 
2068 Tucrécio. 


ENSAIOS — II 


geral desesperam de encontrar a verdade e jul- 
gam que nossas faculdades são incapazes de 
descobri-la; daí concluírem pela fraqueza e 
ignorância do homem. Sua doutrina foi a que 
mais se expandiu e conta entre seus adeptos os 
mais nobres espíritos. Pirro e os outros céticos, 
cujos dogmas, dizem alguns autores antigos, 
são tirados de Homero, dos sete sábios, de 
Arquíloco, de Eurípides, escola a que se filiam 
Zenão, Demócrito, Xenófanes, acham que a 
verdade ainda está por se encontrar. Acham 
que os que acreditam tê-la descoberto laboram 
em profundo erro, e os que afirmam não serem 
as nossas forças capazes de alcançá-la, são, 
embora em menor grau, demasiado temerários 
ainda em sua asserção, pois determinar em que 
medida podemos conhecer as coisas e ajuizar 
da dificuldade de um tal conhecimento é ciên- 
cia tão elevada, ultrapassando a tal ponto 
qualquer outra, que duvidam esteja o homem 
em condições de possuí-la: “quem quer que 
pense que o homem nada pode saber, não sabe 
sequer se sabemos algo suscetível de afirmar- 
mos que não sabemos nada”?º 7. 

A ignorância que se conhece, se julga e se 
condena não é uma ignorância completa. Para 
que o fosse, fora necessário que se ignorasse a 
si mesma, de sorte que a tarefa dos pirrônicos 
consiste em duvidar das coisas, investigá-las 
sem afirmar nem assegurar. O espírito conce- 
be, deseja, admite; destas três impressões, acei- 
tam as duas primeiras e mantêm a última em 
situação ambígua, sem a aprovar por pouco 
que seja, nem a negar. Essas três faculdades do 
espírito, representa-as Zenão por gestos: a 
mão estendida e aberta significaria a aparência 
das coisas; a mão entreaberta e com os dedos 
ligeiramente recurvados, o desejo de aprofun- 
dar; a mão fechada, a compreensão; a mão 
esquerda apertando o punho representava a 
ciência. Essa atitude reta e inflexível de seu 
espírito, considerando os objetos sem aplica- 
ção nem consentimento, encaminha-os para a 
ataraxia, estado de alma sereno e tranqúiilo, 
inatingível às agitações que nos causam o sen- 
timento e o conhecimento que podemos ter das 
coisas e que provocam o temor, a avareza, a 
inveja, os desejos imoderados, a ambição, o 
orgulho, a superstição, o amor à novidade, a 
rebeldia, a desobediência, a obstinação, e a 
maior parte dos males a que estã exposto o 
nosso corpo. Um tal estado de espírito os liber- 
ta mesmo da intransigência em relação à sua 
doutrina, que defendem apenas, não receando 
ser vencidos em suas discussões. Se sustentam 
que os corpos buscam o centro de gravidade, 
aborrece-os nossa aquiescência, pois preferem 


207 Lucrécio. 


237 


a contradição para que se engendre a dúvida e 
se adie o julgamento, o que constitui seu obje- 
tivo. Só apresentam proposições no intuito de 
as opor às que supõem se encontrarem na 
mente dos adversários. Se adotamos seu ponto 
de vista, defendem de bom grado a tese contrá- 
ria: não têm preferência. Se dizemos que a 
neve é preta, afirmam que é branca; se acha- 
mos que não é nem preta nem branca, susten- 
tam logo que é de ambas as cores; se 
concluímos que não sabemos ao certo o que 
seja, esforçam-se por demonstrar que o sabe- 
mos muito bem. E ainda que pelo raciocínio 
estabeleçamos de maneira evidente a nossa dú- 
vida, eles discutirão a fim de provar que a dú- 
vida não existe em nós ou que não poderíamos 
demonstrar que uma tal dúvida tenha funda- 
mento e subsista realmente. 

Graças a essa dúvida levada às últimas 
consequências, os pirrônicos dividem-se e se 
separam quanto às opiniões acerca das ques- 
tões que tratam, inclusive a respeito da própria 
dúvida e da ignorância. Por que não lhes seria 
permitido duvidar, perguntam, quando se con- 
corda em que entre os dogmáticos um possa 
dizer verde e outro amarelo? Poderá alguém 
propor-nos que aceitemos ou neguemos algu- 
ma coisa, sem que nos seja lícito optar pela dú- 
vida? E enquanto os demais são levados pelos 
costumes de seu país, sua família, o acaso, 
como por uma tempestade, sem reflexão nem 
escolha, às vezes mesmo antes da idade da 
razão, a tal ou qual opinião, a favor da seita 
estoica ou da epicurista, às quais se escravi- 
zam sem possibilidade de se libertar, “presos a 
uma qualquer doutrina como se jogados sobre 
um rochedo pela tempestade ”2º*, por que não 
lhes dar a eles, pirrônicos, o direito de se 
conservarem livres, encarando as coisas sem 
entraves em seu julgamento? Não será muito 
mais vantajoso ver-se desligado das necessi- 
dades que detêm os outros? Não será mil vezes 
preferível evitar um julgamento a se meter em 
discussões fantasistas e puramente polêmicas? 
Que escolher? Se pouco importa e se se trata 
apenas de escolher, seria grande tolice. É no 
entanto ao que impele o dogmatismo, o qual 
não nos autoriza a ignorar o que ignoramos. 

Ainda que se adote o melhor partido, nunca 
será ele tão seguro que não se faça necessário, 
para defendê-lo, atacar e combater centenas de 
partidos contrários. Não será melhor ficar fora 
da confusão? Se a qualquer pessoa se permite 
defender como a honra e a vida a crença de 
Aristóteles na eternidade da alma; se se admite 
que se discuta o ponto de vista de Platão a res- 
peito, por que se há de impedir que duvidem os 


208 Cicero. 


238 MONTAIGNE 


céticos? Se Panécio se abstém de opinar acer- 
ca do conhecimento do futuro pelas entranhas, 
os sonhos, os orâculos, os vaticínios em que 
acreditam os estóicos, por que não ousaria um 
sábio, em relação aos demais assuntos, o que 
ousa Panécio acerca dos pontos que seus mes- 
tres aceitam e aprovam? Se é uma criança que 
emite um juízo, dizem que o faz por ignorân- 
cia; se é um sábio, está sendo vítima de suas 
preocupações. 

Assim os pirrônicos levam grande vantagem 
nas discussões, pois pouco lhes importam os 
ataques dos adversários, desde que possam 
atacar também. Tudo lhes serve de argumento; 
se vencem, nossas razões não têm valor; se 
ganhamos, as deles é que não prestam; se 
erram, fica demonstrado que a ignorância exis- 
te; se nos enganamos, nós é que fornecemos a 
prova de sua existência; se conseguem conven- 
cer de que nada é certo, confirmam a tese que 
defendem; se não o conseguem, ei-la natural- 
mente confirmada: “encontrando a propósito 
de um mesmo assunto razões idênticas .a favor 
ou contra, é-lhes fácil suspender seu julga- 
mento em um sentido ou noutro”2ºº. Conside- 


ram que é mais fácil encontrar argumentos 
para provar que uma coisa é falsa do que para 
provar que é verdadeira; provar o que não é do 
que o que é; o que não crêem do que o que 
crêem. Suas expressões habituais são: “não 
pretendo ter estabelecido que”, “não há mais 
razões para que seja assim do que de outro 
jeito”, “nao percebo”, “as. aparências são 
iguais em um caso como noutro”, “não há 
como falar mais a favor do que contra”, “nada 
parece verdadeiro que não possa parecer 


falso”. Sua palavra sacramental é “sustento”, 
isto é, “argumento, mas não vou além e não 
Julgo”. Eis seus estribilhos. Disso resulta que, 
eludindo decididamente e de maneira absoluta 
a obrigação de se pronunciar, adiam o julga- 
mento. Só usam a inteligência a fim de desco- 
brir pontos suscetíveis de discussão e de deba- 


ter, sem jamais optar ou tomar uma decisão. 
Imagine-se uma contínua confissão de igno- 
rância, um juízo sempre indeciso acerca de 
todos os assuntos, e ter-se-á a escola de Pirro. 
Se tento descrever como me é possível esse es- 
tado de espírito, é porque muitos não o perce- 
bem e mesmo os que escrevem a respeito fize- 
ram-no com obscuridade, de diversas 
maneiras. 


Na vida comum procedem os pirrônicos 
como todo mundo. Deixam-se levar por seus 
instintos, tanto quanto pela tirania das pai- 
xões; acomodam-se às leis e aos costumes e se- 


209 Cicero. 


guem a tradição das artes. “Pois Deus não 
quis que penetrássemos o sentido dessas coi- 
sas, mas tão-somente que as usâssemos”21º, 
São guiados pelo que guia os outros, sem 
externar suas preferências nem emitir juízos. 
Por isso não me parece muito verossímil o que 
contam de Pirro, apresentando-o estúpido e 
inerte, a viver uma existência de selvagem 
insociável, caminhando sem desviar dos carros 
ou dos buracos e recusando-se a atentar para 
as leis. Pintá-lo assim é exagerar. Não quis ele 
transformar-se em pedra ou tronco; quis ser 
um homem vivo para discutir, argumentar, 
gozar as comodidades postas à nossa disposi- 
ção pela natureza, fazer uso de todas as suas 
faculdades físicas e mentais honestamente e na 
medida do permitido. Ao que renunciou, 
desprezando-o, foi o direito absurdo, imagi- 
nário e falso que o homem se arrogou de decre- 
tar, ordenar e administrar a verdade. Não há 
seita filosófica que não seja forçada a praticar 
e seguir infinidade de preceitos que não com- 
preende nem aceita, se quer viver no mundo. 
Quando por exemplo quer viajar por mar tem 
que o fazer sem saber se terá êxito ou não; cal- 
cula que o navio é bom, o piloto experimen- 
tado, favorável o vento. São probabilidades 
apenas a que precisa entregar-se, confiando 
nas aparências. Tem um corpo e uma alma, 
impelem-no os sentidos, agita-o o espírito. 
Ainda que não sinta em si essa competência 
especial de julgar e reconheça que não pode 
pronunciar-se com segurança, porquanto tudo 
pode ser falso embora pareça verdadeiro, não 
deixa de conduzir sua vida nas condições mais 
cômodas e melhores. 

Quantas artes há que assentam em conjetu- 
ras mais do que na ciência! Quantas em que a 
questão do verdadeiro e do falso importa 
pouco e 'nas quais o que parece é a única 
regra! O verdadeiro e o falso existem, dizem 
os pirrônicos, e temos em nós os meios de o 
pesquisar, mas não estamos em condições de 
averiguar o valor do que descobrimos. É me- 
lhor para nós não nos entregarmos a buscas 
vas e atentarmos tão-somente para a ordem 
estabelecida neste mundo. Um espírito isento 
de preconceitos é uma vantagem preciosa para 
a nossa tranquilidade. Quem julga e controla 
seus juízos não se submete jamais convicta- 
mente. 

Como são mais dóceis e obedientes às leis 
da religião e às leis políticas os simples de 
espirito e sem curiosidade, do que os que 
investigam e dogmatizam acerca das coisas 
humanas e divinas! Nada do que concerne ao 
homem apresenta mais incontestável utilidade 


210 Cicero. 


ENSAIOS — TI 


do que essa simplicidade. Nessa filosofia pirrô- 
nica ele aparece nu e vazio, consciente de sua 
fraqueza natural e suscetível de receber de 
cima, até certo ponto, a força de que carece. 
Estranho a todos os conhecimentos humanos, 
acha-se tanto mais preparado a se tornar um 
domicílio para a ciência divina; faz abstração 
de sua própria inteligência a fim de dar maior 
espaço à fé; crê e não propõe nenhum dogma 
contrário às leis e aos costumes; humilde, obe- 
diente, disciplinado, estudioso, inimigo decla- 
rado da heresia, está portanto livre dessas vas 
opiniões contrárias à religião e introduzidas 
pelas seitas dissidentes; é uma página em bran- 
co, preparada para receber tudo o que apraz a 
Deus nela traçar. Valemos tanto mais quanto 
mais nos submetemos e nos encomendamos a 
Deus, renunciando a nós mesmos: “Aceita de 
bom grado e cotidianamente”, diz o Eclesias- 
tes, “as coisas com o aspecto que a teus olhos 
oferecem; tudo o mais ultrapassa os limites de 
teu conhecimento.” E reza o salmo: “Deus 
sabe que os pensamentos dos homens não são 
senão vaidade.” 

Eis como entre as três seitas gerais da filoso- 
fia, duas professam expressamente a dúvida e a 
ignorância; quanto à terceira, a dos dogmáti- 
cos, é fácil verificar que, em sua maioria, seus 
adeptos optaram pela certeza por presunção. 
Pensaram menos em estabelecer princípios 
indiscutíveis do que em mostrar a que ponto 
chegaram na investigação da verdade: “os sá- 
bios a imaginam mais do que a conhecem”. 

A fim de iniciar Sócrates no que sabe dos 
deuses, 
propõe-lhe conversar de homem para homem, 
bastando assim que seus argumentos consti- 
tuam probabilidades, pois os exatos não estão 
ao seu alcance nem tampouco nas mãos de ne- 
nhum mortal. O que imitou um filósofo da 
mesma escola: “Explicar-me-ei como puder; 
não tomem minhas palavras como oráculos, 
como se saíssem da boca de Apolo. Frágil 
mortal, não viso senão ao provável”21". Alhu- 
res, esse mesmo filósofo traduz o próprio texto 
de Platão: “Se discorrendo sobre a natureza 
dos deuses e a origem do mundo, eu me expli- 
co imperfeitamente, não se espantem; lem- 
brem-se de que eu que lhes falo e vocês que me 
escutam somos homens e nada mais podemos 
exigir senão probabilidades.” Quanto a Aristó- 
teles, apresenta-nos em geral um punhado de 
opiniões que compara com as suas, a fim de 
nos mostrar quanto estas ultrapassam as 
outras, aproximando-se mais da verossimi- 
lhança. Mas não é sobre o testemunho e a 
autoridade de outrem que a verdade se afirma. 


211 Cicero. 


do mundo e dos homens, Timeu, 


239 


E quanto a Epicuro, é de se observar que em 
seus “escritos evita religiosamente qualquer 
citação. : 

Aristóteles é o príncipe dos dogmáticos e no 
entanto por ele ficamos cientes de que muito 
saber nos leva a duvidar mais ainda. Não raro 
vemo-lo envolver-se, voluntariamente, em uma 
obscuridade espessa e inextricável, a ponto de 
não podermos discernir sua opinião. Trata-se 
na realidade de um pirrônico dissimulado. 
Ouça-se a palavra de Cicero, expondo a idéia 
essencial dessa escola e a fazendo sua: “os que 
querem saber o que pensamos de cada coisa 
são por demais curiosos. . . Esse princípio, em 
filosofia, de tudo discutir sem nada afirmar, 
estabelecido por Sócrates, aceito por Arcesi- 
lau, adotado por Carnéades, floresceu até os 
nossos dias. .. Somos da escola que diz que o 
falso por toda parte se mistura ao verdadeiro e 
a isto se assemelha tanto, que é impossível 
distingui-lo de um modo preciso”. 

Por que, não somente Aristóteles, mas tam- 
bém a maioria dos filósofos requintaram em 
apresentar todas as questões obscuramente, 
senão para ressaltar a que ponto são ociosas e 
distrair a nossa curiosidade, dando-nos como 
pitéu ossos vazios e sem carne para roer? Cli- 
tômaco afirma nunca ter conseguido saber 
qual a opinião de Camnéades pelos seus escri- 
tos. É também por esse motivo que Epicuro 
evitou a clareza nos seus e que os de Heráclito 
lhe granjearam o apelido de “Tenebroso”. A 
obscuridade é moeda que usam os sábios, 
como os prestidigitadores que ocultam com 
destrezas e peloticas a inanidade de sua arte, 
pois com isso o público se acomoda de bom 
grado: “é pela obscuridade de sua linguagem 
que Heráclito conquistou a veneração dos 
ignorantes. Os tolos, com efeito, só estimam e 
admiram o que se lhes apresenta em termos 
enigmáticos”?"2, Cícero censura a alguns de 
seus amigos consagrarem à astronomia, ao 
direito, à dialética e à geometria mais tempo 
do que merecem tais ciências, o que os desvia 
dos deveres da vida a um tempo mais provei- 
tosos e sutis. Os filósofos cirenaicos despre- 
zam também a física e a dialética. Zenão, no 
início de seus escritos sobre a “República” 
declara inúteis todos os ramos da educação 
liberal. Crisipo diz, do que Platão e Aristóteles 
escreveram sobre a lógica, que o fizeram ape- 
nas como exercício e passatempo e não acre- 
dita que se tenham aplicado a falar seriamente 
de um assunto tão vazio. Plutarco observa a 
mesma coisa a respeito da metafísica. Epicuro 
acrescenta a retórica, a gramática, a poesia, as 
matemáticas e as outras ciências em geral, 


212 TLucrécio. 


240 | MONTAIGNE 


excetuada a física. Sócrates igualmente as des- 
prezava todas, afora as que tratam dos costu- 
“mes e da conduta na vida. O que quer que lhe 
perguntassem, achava sempre meio de orientar 
o interlocutor para a vida presente e passada, 
que ele examinava e julgava, considerando 
qualquer outro ensinamento subordinado a 
este, e acessório: “gosto pouco das letras que 
nunca tornaram virtuoso quem as pratica”21º. 
Em sua maioria as ciências foram desde- 
nhadas por esses grandes pensadores, os quais, 
contudo, não julgaram fora de propósito nelas 
exercitar o espírito, embora não pensassem em 
tirar delas algum proveito sério. 

Alguns vêem em Platão um dogmático, ou- 
tros acham-no cético. Há quem o classifique 
de certa maneira em certos casos, e de outra 
em outros. O personagem principal de seus 
diálogos, Sócrates, suscita sempre várias ques- 
tões, provoca o debate mas nunca lhe põe fim 
e nem conclui. Sua ciência, pelo que ele pró- 
prio confessa, consiste unicamente em apresen- 
tar objeções. Homero, seu precursor, foi o 
ponto de partida de todas as seitas filosóficas 
sem distinção, mostrando assim quão pouco 
lhe importava a maneira de ver de cada um. 
Dizem que Platão deu origem a dez escolas 
diferentes; a meu ver, ao lado da sua, não há 
doutrinas mais indecisas e menos categóricas. 
Sócrates observava que as parteiras, adotando 
o ofício de ajudar a procriar, renunciavam elas 
próprias a engendrar; e o mesmo lhe ocorria. 
Tendo os deuses feito dele um homem 
sábio?! *, por amor à humanidade e ao pensa- 
mento, desfizera-se da faculdade de engendrar, 
contentando-se com assistir os que obedecem a 
essa lei da natureza e com ajudá-los no parto, 
auxiliando-os a tirar a criança, examinando-a, 
batizando-a, criando-a, fortalecendo-a, cir- 
cuncidando-a, pondo seus próprios meios à 
disposição de outrem. 

Em sua maioria, os filósofos desta terceira 
categoria — e os antigos já o haviam realçado 
quanto aos escritos de Anaxágoras, Demó- 
crito, Parmênides, Xenófanes e outros — 
investigam mais do que julgam, emprestam 
voluntariamente a seu estilo a forma dubita- 
tiva, mesmo quando o entremeiam de afirma- 
ções. O mesmo se verifica em Sêneca e Plutar- 
co, que falam -de uma só coisa, ora em um 
sentido, ora em outro. Os que procuram conci- 


213 Salústio. 

214 Há aqui um trocadilho  intraduzível: 
“sage-femme” e “sage-homme”. “Sage-femme” é 
parteira mas “sage-homme” não é parteiro e sim, 
apenas, homem sábio, avisado, prudente. (N. do T.) 
O trocadilho é inspirado no método socrático — 


maiéutica — concebido à maneira de parto mental. 
(N. do E.) 


liar os jurisconsultos precisam, antes de.tudo, 
pôr cada um de acordo consigo mesmo. À 
preferência que dá Platão, de caso pensado, ao 
diálogo, parece-me provir do fato de que, pelo 
diálogo, pondo suas idéias na boca de várias 
pessoas, pode mais comodamente expô-las em 
toda a sua diversidade, com todas as sutilezas 
que comportam. 


Tomemos a nós mesmos como exemplo. As 
decisões da justiça exprimem-se em uma lin- 
guagem afirmativa e decisiva ao mais alto 
grau. Em particular as que nossos tribunais 
tornam públicas, são eminentemente de natu- 
reza a alimentar no povo o respeito que deve a 


essa magistratura em razão da capacidade dos 
que a constituem. Ora, a beleza desses atos 
não resulta tanto da decisão que contêm 
(decisões, toma-as diariamente qualquer juiz) 
quanto dos debates e da apreciação dos argu- 
mentos contraditórios que a ciência do direito 
permite se apresentem. Assim ocorre também 
com as mais acaloradas críticas dos filósofos 
às suas opiniões recíprocas, as mais diversas e 
contraditórias, nas quais cada qual mais se 
enreda, seja propositadamente a fim de de- 
monstrar a que ponto o espírito humano vaci- 
la, seja por ignorância quando pela sua suti- 
leza a questão foge a seu entendimento. É o 
que exprime esta frase encontradiça em seus 
discursos: “em assunto tão escorregadio evite- 
mos julgar”. Eurípides diz, por sua vez: “a 
compreensão das obras de Deus, em seus 
diversos aspectos, é causa de muitos transtor- 
nos”. E é a mesma idéia que Empédocles, 
como que tomado de um furor inspirado pelos 
deuses e forçado a aceitar a verdade, reproduz . 
amiúde em suas obras: “Não, não sentimos 


nada, não vemos nada; tudo se nos esconde; 


não há nada cuja existência possamos afir- 
mar.” E eis o que se escreve no Livro da Sabe- 
doria: “os pensamentos dos mortais são timi- 
dos, sua previdência e sua imaginação 
incertas”. 

Não há como achar estranho que essa gente, 
embora desesperando de atingir o objetivo, 
não tenha renunciado ao prazer de visá-lo. O 
estudo é em si coisa agradável. Tão agradável 
que, entre os prazeres proibidos pelos estóicos, 
figura o que provém dos exercícios do espírito. 
Querem-no moderado, e saber demasiado é 
para eles intemperança. 


Demócrito, tendo comido figos que sabiam 
a mel, pôs-se imediatamente a procurar, na 
memória, de que provinha tão inesperada 
doçura. A fim de verificá-lo, já se levantava 
para ir examinar o lugar onde os frutos haviam 
sido colhidos, quando sua criada, que perce- 
bera o motivo da inquietação, lhe disse rindo 


ENSAIOS — II 


que não se preocupasse mais, pois fora ela que 
os colocara em um recipiente em que havia 
mel. Ele se irritou por lhe sonegarem a oportu- 
nidade de pesquisar e de exercitar sua curiosi- 
dade: “não é um prazer que me dás”, obser- 
vou, “mas nem por isso deixarei de verificar 
como isso ocorreu, tal qual tivesse resultado de 
um efeito da natureza”. E naturalmente houve- 
ra encontrado uma razão com aparência de 
verdadeira, a fim de explicar algo que só exis- 
tia em seu espírito. 

Essa anedota acerca de um grande filósofo, 
exemplifica bem a paixão pelo estudo, capaz 


de nos induzir ao desespero por termos alcan-' 


çado o conhecimento das coisas que procurá- 
vamos conhecer. Plutarco cita também o 
exemplo de alguém que se recusava a ser escla- 
recido acerca de suas dúvidas, para não se pri- 
var do prazer de procurar por si próprio. 
Como aquele que não desejava curar-se da 
febre, e da sede que ela lhe dava, a fim de não 
perder o prazer de beber para estancá-la: 
“mais vale aprender coisas inúteis do que nada 
aprender”2' 8. Alguns alimentos não passam 
de prazer, não são nutritivos nem saudáveis; 
assim também o que nosso espírito obtém da 
ciência, embora sempre agradável, nem sempre 
é nutritivo e saudável. 

Eis como a tal respeito se expressam esses 
filósofos: “a contemplação da natureza ali 
menta o nosso espírito; ela nos eleva e engran- 
dece; faz que diante das coisas de ordem supe- 
rior e celeste nos desprendamos do que é 
terrestre e vil. A própria investigação da gran- 
deza que ignoramos é agradável, mesmo se 
não logramos senão maior respeito por ela e 
temor 'em a julgar”. 

A vã imagem dessa curiosidade doentia 
evidencia-se ainda melhor neste exemplo muito 
citado. Eudóxio aspirava a que, pelo menos 
uma vez, lhe fosse dado ver o sol de perto, a 
fim de se inteirar de sua estrutura, de sua gran- 
deza e de sua beleza; pedia aos deuses que lhe 
concedessem esse privilégio, ainda que devesse 
morrer queimado. Oferecia a vida para adqui- 
rir essa ciência de que seria privado no 
momento mesmo em que a alcançasse; e por 
esse saber efêmero renunciava a tudo o que já 
sabia e podia ainda vir a saber. 

Duvido que Epicuro, Platão e Pitágoras te- 
nham acreditado seriamente em suas teorias 
dos átomos, das idéias e dos números; eram 
demasiado sábios e prudentes para crerem em 
coisas tão pouco assentadas e tão discutíveis. 
O que na realidade pode assegurar-se é que, 
dada a obscuridade das coisas do mundo, cada 
um desses grandes homens procurou encontrar 


215 Sêneca. 


241 


uma imagem luminosa delas. Seus espíritos 
acharam explicações que tinham pelo menos 
uma certa verossimilhança e que, embora não 
averiguadamente verdadeiras, podiam ser sus- 
tentadas contra as idéias contrárias: “esses sis- 
temas são ficções do gênio de cada filósofo e 
não o resultado de suas descobertas”?! 8. Um 
antigo, a quem censuravam que se jactasse de 
ser filósofo quando não levava em conta a filo- 
sofia em seus juízos, respondeu “que, nisso 
precisamente, ela consistia”. 

Quiseram os filósofos tudo examinar, tudo 
comparar, € assim encontraram uma ocupação 
suscetível de alimentar a curiosidade natural 
que há em nós. Alguns princípios se estabele- 
ceram como evidentes, em benefício e proveito 
do sossego coletivo, como os das religiões; por 
isso não aprofundaram demasiado as doutri- 
nas geralmente aceitas, a fim de não engendrar 
a rebeldia contra as leis e o acatamento dos 
costumes. Platão em particular mostra-se 
muito franco. Quando exprime suas idéias pró- 
prias nada afirma. Quando escreve na quali- 
dade de legislador, o seu estilo torna-se preciso 
e autoritário, propugnando ousadamente as 
idéias mais extraordinárias que considera útil 
inculcar no povo e nas quais seria ridículo que 
acreditasse, sabendo muito bem a que ponto 
somos inclinados a aceitar as coisas mais 
absurdas e inadmissíveis. Eis por que em suas 
leis preocupa-se em recomendar que se recitem 
em .público poesias cujos argumentos sejam 
úteis, pois sendo fácil despertar no espírito hu- 
mano fantasmas e fantasias, mais vale se lhes 
ofereçam mentiras proveitosas do que inúteis e 


“perniciosas. Assim se exprime abertamente em 


sua “República”: “para ser útil aos homens é 
necessário às vezes enganá-los”. Certas seitas, 
como se pode verificar, apegaram-se sobretudo 
à verdade; outras, à utilidade. Estas tiveram 
mais êxito. A miséria de nossa condição faz 
que aquilo que se nos apresenta como mais 
verdadeiro nem sempre é o que nos fora mais 
útil. Assim se observa com as seitas mais ousa- 
das, as de Epicuro, Pirro, e da Academia após 
as últimas modificações por que passou, as 
quais se viram forçadas a dobrar-se ante as leis 
civis. 

Os filósofos também se ocuparam de outras 
questões, que ventilaram em todos os sentidos, 
cada qual a seu modo, bem ou mal. Como 
empreenderam falar até das coisas mais recôn- 
ditas, acharam-se amiúde impelidos a conjetu- 
ras sem consistência, não raro extravagantes, 
que eles próprios não consideravam de valor 
ou tão-somente úteis ao exercício do estudo: 
“dir-se-ia que escreveram menos por convic- 


216 Sêneca. 


242 


ção do que para exercitar o espírito com a difi- 
culdade do assunto”?! 7. Se não admitirmos 
que assim tenha sido, como explicar então essa 
tão grande variedade de opiniões, por vezes fri- 
volas, constantemente modificadas, que emiti- 
riam espíritos tão eminentes e admiráveis? 


Haverá coisa mais vã do que tentar adivi- 
nhar Deus por meio de analogias com o nosso 
próprio ser? Do que O julgar, e ao mundo, 
pelas nossas capacidades e as nossas leis? Do 
que usar a expensas dEle a escassa inteli- 
gência que Se dignou conceder-nos? E em não 
podendo a nossa vista atingi-Lo na plenitude 
de Sua glória, forçamo-Lo a descer e O asso- 
ciamos à nossa corrupção e às nossas misé- 
rias! 

De todas as opiniões humanas formuladas 
pelos antigos acerca da religião, parece-me 
mais verossímil e judiciosa a que faz de Deus 
uma força que não podemos compreender, 
dando origem a todas as coisas e as conser- 
vando, essencialmente boa, absolutamente per- 
feita, recebendo e aceitando graciosamente as 
homenagens que lhe prestam os homens, sob 
qualquer forma, nome ou maneira: Todo-Po- 
deroso Júpiter, pai e mãe do mundo dos 
deuses e dos reis”218. Essas homenagens são 


sempre bem vistas no céu. Todos os povos se. 


beneficiaram com a prática religiosa, e os ho- 
mens perversos e as ações ímpias receberam 
sempre o castigo que mereceram. Os historia- 
dores pagãos reconhecem dignidade, ordem, 
Justiça (com que se beneficiaram e instruíram 
os povos) nos milagres e oráculos de suas 
divindades fabulosas. O Criador, em sua infi- 
nita misericórdia, dignou-se por vezes fomen- 
tar, mediante benefícios temporais, as boas 
disposições que, com a ajuda da razão, Lhe 
demonstravam através de falsos ídolos sob os 
quais O representavam; e não somente falsos 
mas também injuriosos. De todos os cultos que 
São Paulo viu em.Atenas, o que se lhe afigurou 
mais desculpável foi o que dedicavam a uma 
“divindade escondida e desconhecida”. 


De todos os filósofos, Pitágoras foi o que 
teve mais vivo o sentimento da verdade, ao 
considerar que essa causa primeira, esse ser- 
princípio-de-tudo-o-que-ê, não se pode expri- 
mir e submeter-se a qualquer regra ou defini- 
ção; que é talvez o que a nossa imaginação, em 
seu mais extremado esforço, concebe como 
perfeição, cada qual ampliando a idéia segun- 
do sua capacidade. 

Numa quis orientar nesse mesmo sentido a 
religião de seu povo, torná-lo devoto de uma 
crença puramente espiritual, sem objetivo 


217 Não se encontrou o autor da citação. 
218 Valério Sorano. 


MONTAIGNE 


determinado, estranha a tudo o que é material. 
Mas o projeto era impraticável, o espírito hu- 
mano não podendo satisfazer-se com a vague- 
za desse infinito abstrato. Ele precisa adaptá- 
lo a algo preciso, a seu alcance. A majestade 
divina consentiu em se deixar circunscrever de 
certo modo dentro de limites naturais: seus 
sacramentos sobrenaturais e celestiais mani- 
festam-se em condições acessíveis a nós; nossa - 
adoração exprime-se por meio de cerimônias € 
palavras compreensíveis ao homem, porque é 
o homem quem crê e reza. Deixo de lado todos 
os demais argumentos a favor desta tese: a 
simples vista do nosso crucifixo, a reprodução 
desse suplício que desperta a piedade, os orna- 
tos e a pompa do culto em nossas igrejas, as 
vozes que tão exatamente traduzem nossa 
devoção, a emoção de nossos sentidos, incu- 
tem na alma das multidões uma paixão reli- 
giosa real. 

Se tivesse tido que escolher entre as divinda- 
des que naqueles tempos de cegueira universal 
a necessidade criou, parece-me que houvera 
seguido os que adoravam o sol. 


Luz de todos, 
olho do mundo. Se Deus tem olhos, 
os raios do sol são esses olhos radiosos 
que a todos dão vida, crescimento e 
proteção, 
e contemplam no mundo os feitos dos 
homens. 
Esse belo e grande sol que faz as 
estações 
segundo entra ou sai de suas doze 
casas; 
que enche o universo com suas virtudes; 
um só de seus olhares dissipa as nuvens. 
Espírito, alma do mundo ardente e 
flamejante, 
percorrendo o inteiro céu em um só dia, 
enorme e redondo, vagabundo e reto, 
mantendo em sua dependência o mundo 
todo, 
sempre em repouso e sempre em ação. 
Filho mais velho da natureza, e pai do 
dia? 1º, 


Além de sua grandeza e beleza é, dentre as 
peças que entram na estrutura do mundo, a 
que se encontra mais longe de nós e portanto a 
que menos conhecemos. Por isso eram descul- 
páveis os que admiravam e veneravam o sol. 

Tales, o primeiro a estudar o assunto, acha- 
va que Deus é um espírito que tirou da água 
todas as coisas. Para Anaximandro os deuses 
nascem e morrem em certas épocas e consti- 


21º Ronsard. 


ENSAIOS — II 


tuem mundos cujo número é infinito. Anaxi- 
menes pensa que Deus é ar, existe em quanti- 
dade incomensurável e está sempre em 
movimento. Anaxágoras foi o primeiro a afir- 
mar que a maneira pela qual alguma coisa 
existe e se conduz decorre. da força e da razão 
de um espirito que não podemos conceber. 
Alcméon classifica entre as divindades o sol, a 
lua, os astros, e a alma. Pitágoras atribui a 
qualidade divina a um espírito que existe natu- 


ralmente em todas as coisas e do qual nascem 
nossas almas. Parmênides vê Deus em um cir- 
culo que envolve o céu e sustenta o mundo 
pela intensidade de sua luz. Empédocles colo- 
ca ao nível dos deuses os quatro elementos: o 
ar, a água, O fogo e a terra de que são feitas 


todas as coisas. Protágoras declara não poder 
dizer se existem ou não, nem o que são. Demó- 
crito define como deuses ora as próprias ima- 
gens que os representam, ora os dons da natu- 
reza que elas simbolizam, bem como nosso 
saber e nossa inteligência. Platão tem a res- 
peito diversas maneiras de ver. No “Timeu”, é 
de opinião que não se pode dizer quem criou o 
mundo. Nas “Leis”, que não adianta indagar o 
que seja Deus. Em outros trechos de suas 
obras diviniza o mundo, o céu, os astros, a 
terra, as almas; reconhece ademais, como deu- 
ses, tudo o que as antigas instituições admiti- 
ram como divindades. Por intermédio de 
Xenofonte, deparamos com semelhante hesita- 
ção na doutrina de Sócrates: ora acha que não 
se deve investigar a essência de Deus, ou diz 
que o sol é Deus, ou que o é a alma; ora é 
único, ora há mais de um. Segundo Espeusipo, 
sobrinho de Platão, Deus é uma força animada 
que governa todas as coisas. Aristóteles, em 
dado momento, diviniza o espírito; em outro, o 
“mundo; alhures, a esse mundo dá um senhor, 
ou diviniza o calor do céu. Xenócrates enume- 
ra oito deuses: os cinco planetas conhecidos 
em seu tempo, um sexto constituído pelo con- 
junto das estrelas fixas, sendo cada uma delas 
fração da divindade; e mais o sole a lua. Hera- 
clides Pôntico, hesitando entre várias opiniões, 
chega a considerar Deus um ser desprovido de 
sentimentos e passando de uma forma a outra. 


Afinal faz deuses a terra e o céu. As idéias de 
Teofrastes refletem idêntica indecisão: ora, a 
seu ver, é o bom senso que dirige o mundo; ora 
é o céu; ora são as estrelas. Estráton pensa que 
a natureza tem o poder de engendrar, fazer 
crescer, aniquilar, sem ter ela própria uma 
forma definida nem a faculdade de sentir. 
Zenão acha que o mundo resulta de uma lei 
natural que ordena o bem, proíbe o mal e tem 
poder de produzir movimento e vida; e com 
isso derruba de seus pedestais os deuses que 
estã habituado a ver: Júpiter, Juno, Vesta. 


243 


Para Diógenes, de Apolônia, é o ar o criador 
de todas as coisas. Xenófanes representa Deus 
sob a forma de uma bola vidente e inteligível, 
mas não respirando e nada tendo em comum 
com a natureza humana. Ariston é de parecer 
que Deus escapa à nossa inteligência; ele O 
representa desprovido de sentidos, não sabe se 
tem poder criador e ignora tudo d'Ele. Clean- 
tes vê n'Ele a razão, ou o próprio mundo, ou a 
alma da natureza, ou, ainda, o calor suprema- 
mente vivificante que tudo envolve. Perseu, 
que aprendeu as lições de Zenão, diz que cha- 
maram deuses aos homens que foram parti- 
cularmente úteis à humanidade e através deles 
às coisas inventadas ou descobertas. Crisipo 
faz um amálgama confuso das opiniões prece- 


dentes, e obtém assim um milhar de deuses de 
todos os tipos, entre os quais os homens que se 
imortalizaram. Diágoras e Teodoro os repre- 
sentam resplendentes, translúcidos, permeáveis 
ao ar, habitando entre os dois mundos do céu e 
da terra, onde, inacessíveis, estão ao abrigo de 
tudo. Teriam rostos como os nossos e também 
membros de que, no entanto, não se serviriam: 
“Quanto a mim, sempre pensei que existisse 
uma raça de deuses. explico-me: uma raça 
celeste, indiferente aos atos dos homens” 22º. 


Depois disso, ide. confiar na filosofia! 
Vangloriai-vos de terdes encontrado a fava no 
bolo, descoberto a verdade nessa barafunda de 
concepções contraditórias! A confusão das 
idéias humanas fez que os múltiplos costumes 
e crenças opostos aos meus, mais me ins- 
truissem do que me contrariassem. Não me 
envaidecem tanto quanto me humilham e hão 


sido causa, ademais, de que tudo aquilo que 
não vem expressamente de Deus, eu o consi- 
dere como sem fundamento. As instituições 
deste mundo tanto quanto as escolas estão em 


. contradição entre si, daí podermos deduzir que 


o acaso não é mais diverso e variável do que a 
razão, nem mais cego e imponderável. As coi- 
sas que mais ignoramos são as mais adequa- 
das à divinização; por isso fazer de nós mes- 
mos deuses, ultrapassa a fragilidade, por 
grande que seja, de nossa inteligência. Neste 
ponto, teria seguido de preferência os que ado- 
ravam a serpente, o cão, o boi, pois a natureza 
desses animais nos é menos conhecida do que 
a nossa e por conseguinte é mais lógico que 
pensemos o que quisermos dos animais e lhes 
outorguemos faculdades extraordinárias. 
Porém ter feito deuses de seres como nós, com 
as imperfeições que conhecemos; ter-lhes atri-. 
buído nossos desejos, cóleras e vinganças; tê- 
los feito casar, procriar e constituir família; 
amar, ter ciúmes, came e ossos, e idêntica 


220 Enio. 


244 


organização física; sujeitá-los às febres, ao 
prazer, à morte; dar-lhes sepultura como a nós 
mesmos, “coisas indignas dos deuses e que 
nada têm em comum com sua natureza”22?, 
“dar as características desses deuses, sua 
idade, os ornatos de suas vestes, sua genealo- 
gia, enumerar seus casamentos, suas alianças; 
ombreá-los com a tolice humana; torná-los 
acessíveis às mesmas paixões, tristezas e cóle- 
ras”222. é prova de incrível imaginação, da 
mesma forma que haver divinizado, não 
somente a fé, a virtude, a honra, a concórdia, a 
liberdade, a vitória, a piedade, mas também a 
volúpia, a fraude, a morte, a inveja, a velhice, a 
miséria, o medo, as febres, o azar e outras 
enfermidades de nossa existência frágil e 
decrépita. “Para que introduzir em nossos tem- 
plos a corrupção dos costumes, ó almas presas 
à terra e vazias de pensamentos celestiais!”223 

Os egípcios, com uma prudência cínica, 
proibiam, sob pena de enforcamento, que 
alguém dissesse que Serápis e Ísis tivessem 
sido homens outrora, o que ninguém ignorava. 
As imagens desses deuses representavam-nos 
com um dedo nos lábios, o que, segundo 
Varro, lembrava a seus sacerdotes essa miste- 
riosa determinação que lhes prescrevia se 
calassem acerca dessa origem mortal, como 
medida necessária à veneração de que deviam 
ser objeto. Se era tão vivo nos homens o desejo 
de se igualarem a Deus, diz Cícero, melhor 
houveram feito apropriando-se das qualidades 
divinas e forçando-as a descer à terra do que 
enviando aos céus sua corrupção e sua misé- 
ria. Na realidade, impelidos sempre pela vaida- 
de, fizeram ambas as coisas. 

Não posso acreditar que os filósofos falem 
seriamente, quando discutem a preeminência 
dos deuses entre si, e se esforçam por realçar 
suas alianças, suas funções, seu poder. Quando 
Platão nos descreve pormenorizadamente o 
vergel de Plutão, as vantagens e castigos cor- 
pcrais que nos aguardam ainda após a ruína e 
aniquilamento do corpo, bem como a relação 
que existe entre o que nos reserva o outro 
mundo e a nossa vida neste; “Lá no fundo de 
um bosque de mirtos a que conduzem atalhos 
perdidos, escondem-se as vítimas do amor; a 
própria morte não os libertou de suas preocu- 
pações”?2*:; quando Maomé promete aos seus 
um paraíso coberto de tapetes, bordado de 
ouro e pedras preciosas, povoado por cortesãs 
da mais requintada beleza, com vinhos e acepi- 
pes deliciosos, vejo logo que se divertem 
ambos. Colocam-se ao. nível de nossa estupi- 


221 Lucrécio. 
222 Cicero. 

223 Id. 

224 Virpílio. 


MONTAIGNE 


dez para nos engabelar e nos seduzir com 
idéias e esperanças adequadas a nossos apeti- 
tes de pobres mortais que somos! Alguns, 
entre nós cristãos, laboraram em erro 'seme- 
lhante, prometendo, após a ressurreição, uma 
nova vida terrestre e física, acompanhada de 
todos os prazeres e comodidades deste mundo. 
Podemos nós acreditar que Platão, cujas 
concepções foram tão elevadas, que se aproxi- 
mou da divindade a ponto de ser tachado de 
divino, haja pensado que o homem, essa misér- 
rima criatura, tivesse em si algo desse poder 
que não compreendemos? E tenha imaginado, 


-dado o pouco de que somos capazes e dada a 


nossa fraqueza, que pudéssemos participar da 
beatitude eterna ou ser punidos com castigos 
infindáveis? 

Cumpre responder-lhe com a razão huma- 
na: se OS prazeres que nos prometes na outra 
vida são os que gozamos nesta, nada têm eles 
em comum com o infinito. Ainda que nossos 
cinco sentidos recebessem plena satisfação, 
que nossa alma experimentasse todo o conten- 
tamento que pode desejar e esperar — e bem 
sabemos o de que é capaz — tudo isso não 
seria nada. Se alguma coisa sobrar de nós, 
nada terá de divino. Se não passar do que 
temos nas condições presentes, não valerá a 
pena. Tudo o que nos é motivo de satisfação 
antes da morte, é mortal como nós. Sé no 
outro mundo, encontrando parentes, filhos, 
amigos, isso nos puder comover e ser agradá- 
vel, não teremos deixado de ser sensíveis às 
satisfações terrestres de duração limitada. Não 

podemos conceber dignamente a grandeza das 
atas e divinas promessas que nos foram feitas, 
a nós cristãos, se delas temos uma concepção 
qualquer. Para as imaginarmos como são, 
é-nos imprescindível imaginá-las inimaginá- 
veis, inexperimentais, incompreensíveis e es- 
sencialmente diferentes daquelas de que tive- 
mos uma miserável experiência. O olho não 
pode conceber a felicidade que Deus destina a 
seus eleitos. Se, para nos tornarmos dignqs 
dela corrigimos e transformamos nosso ser, 
como supõe Platão, por meio de purificações 
que imagina, a mudança operada deve ser tão 
radical e total que, do ponto de vista físico, 
cessaremos de ser nós mesmos: “Heitor era 
bem Heitor, enquanto vivia e lutava; mas seu 
cadáver arrastado pelos cavalos de Aquiles 
não era mais Heitor”22 5, e será outra coisa, 
que não nós, que receberá tais recompensas: 
“o que muda, dissolve-se e portanto perece; na 
realidade, desintegradas as partes, não há mais 
corpo”22 8 

Acreditamos, por exemplo, que, segundo a 


225 Ovídio. 
226 Tucrécio. 


ENSAIOS — II 


metempsicose de Pitágoras, o leão para o qual 
passou a alma de César tenha as suas paixões 
e seja ele próprio? Se isso ocorresse, teriam 
razão os que, sustentando essa idéia contra as 
doutrinas de Platão, a respeito, objetam que 
poderia então ocorrer um filho cavalgar sua 
mae transformada em égua — e outros absur- 
dos semelhantes. Poderíamos admitir que, em- 
bora a passagem se efetuasse de certos animais 
a outros da mesma espécie, não fossem estes 
diferentes daqueles? Das cinzas de uma fênix 
nasce, dizem, um verme, o qual se transforma 
em outra fênix. Quem dirá que esta não é dife- 
rente da outra? Os bichos que fabricam a seda, 
vemo-los morrerem e secarem e de seus corpos 
nascer uma borboleta, a qual dá nascimento a 
um verme que fora ridículo julgar ser o mesmo 
que deu origem à borboleta. O que deixou de 
ser uma vez, não é mais. “Ainda que o tempo 
juntasse a matéria de nosso corpo depois de 
desfeito e o reconstituísse tal qual é, e lhe 
devolvesse a vida, já não seríamos nós, por 
isso que houve interrupção no curso da 
existência”22?. E quando, alhures, diz Platão 
que a parte espiritual do homem é que deverá 


gozar as recompensas da outra vida, a asser- 
ção parece igualmente pouco plausível: “o 
olho arrancado de sua órbita e separado do 
corpo não pode mais ver um objeto”228. Com 
efeito, não será mais então o homem, não sere- 
mos mais nós, porquanto somos constituídos 
de duas peças principais e essenciais cuja sepa- 
ração determina a morte e a ruína de nosso 
ser: “Desde que se interrompe a vida, nossos 
sentidos perdem sua possibilidade de 
ação”22º, Dizemos que o homem sofre quan- 
do os vermes lhe roem os membros que pro- 


viam à sua existência? “Isso não nos perturba . 


porque somos um todo formado pela união da 
alma e-do corpo”23º, 

Mais ainda: em que hão de basear-se os deu- 
ses para, com justiça, reconhecer e recom- 
pensar no homem, depois da morte, os atos 
bons e virtuosos, se eles próprios os prepara- 
ram e os provocaram nele? E por que se ofen- 
deriam com os atos viciosos e os puniriam se 
eles próprios assim criaram esse homem quan- 
do, em o querendo, poderiam impedi-lo de 
pecar? Estas objeções, Epicuro não as oporia a 
Platão, com aparência de razão humana, se já 
não se tivesse posto a coberto declarando que: 
é impossível dizer algo certo acerca da natu- 
reza imortal, tomando como ponto de partida 
a natureza mortal. 

Em tudo a nossa razão se confunde, e mais 


227 Lucrécio 
228 Td. 
229 Td. 
230 Td. 


245 


ainda quando se mete a divisar as coisas divi- 
nas. Quem mais do que nós, cristãos, pode me- 
lhor convencer-se disso, embora lhe tenhamos 
dado, para se conduzir, princípios certos e 
infalíveis? Apesar de lhe iluminar os passos 
com a tocha sagrada da verdade que prouve a 
Deus comunicar-nos, não a vemos diaria- 
mente, por pouco que se desvie da senda habi- . 
tual, atastar-se do que determina a Igreja, sem 
a qual ela perde a direção, e se entrava, giran- 
do e flutuando ao léu nesse vasto mar pertur- 
bado e instável das opiniões humanas? Desde 
que abandone o caminho por todos seguidos, 
vai-se dividindo e dissolvendo por mil atalhos 
diversos. 

O homem não pode ser senão o que é, e sua 
imaginação só pode exercitar-se dentro dos 
limites a seu alcance. E diz Plutarco: tem 
maior presunção quem, não sendo senão 
homem, fala e devaneia acerca de deuses e 
semideuses do que quem, ignorando música, 
Julga os que cantam; ou, ainda, quem nunca 
tendo estado em campos de batalha, discute 
armas e guerra, imaginando, porque possui 
algumas noções do assunto, estar apto para 
compreender os resultados de uma arte que 
desconhece. 

A meu ver a antiguidade pensou glorificar a 
divindade, colocando-a ao nível do homem, 
revestindo-a de faculdades humanas, atribuin- 
do-lhe os nossos caprichos e provendo-a das 


necessidades que comprovam nossa fraqueza. 
Assim, ofereceram aos deuses manjares para 


que comessem, bailados e farsas para que se 
divertissem, vestimentas para que se cobris- 
sem; casas para que morassem, e incenso e 
música, e guirlandas, e, a fim de melhor 
acomodá-los às nossas viciosas paixões, invo- 
caram-lhes a justiça imolando vítimas huma- 
nas, procurando fazer que se regozijassem com 
a ruína e a dissipação das coisas que eles cria- 
ram e lhes devem a existência. Assim, Tibério 
Semprônio mandou queimar em homenagem a 
Vulcano os ricos despojos de armas que toma- 
ra ao inimigo; Paulo Emílio sacrificou as da 
Macedônia a Marte e a Minerva; Alexandre, o 


Grande, alcançando o mar Negro, jogou nas 
aguas inúmeros vasos de ouro de grandes 


dimensões como homenagem a Tétis, imo- 
lando também em seus altares não somente 
quantidade de animais mas também de ho- 
mens, numa verdadeira carnificina, como é dos 
costumes de muitos povos, inclusive do nosso. 
Talvez não haja mesmo nenhum que tenha 
ignorado nossa prática: “arrebata quatro jo- 
vens guerreiros, filhos de Sulmone, e quatro 
outros crescidos à margem do Ufens para os 
imolar aos manes de Pales” 231. 


231 Virgílio. 


246 


Os getas consideravam-se imortais e morrer 
era, para eles, ir ao encontro de seu deus Zál- 
moxis. De cinco em cinco anos despachavam- 
lhe um dos seus, a fim de que se certificasse 
das coisas necessárias à vida. Esse deputado 
era sorteado e sua partida assim se efetuava: 
depois de aqueles a quem cabia proceder à 
cerimônia lhe comunicarem verbalmente a 
resolução, três dentre eles mantinham as lan- 
ças voltadas para o sorteado, enquanto os ou- 
tros o jogavam de encontro a elas com violên- 
cia. Se morresse imediatamente, era sinal de 
que o deus estava favoravelmente disposto; se 
escapasse, o mensageiro não servia. Despa- 
chavam então outro, procedendo-se de igual 
modo. Améstris, mãe?º? de Xerxes, já em 
idade avançada, mandou enterrar vivos cator- 
ze jovens das principais famílias persas a fim 
de render graças a algum deus subterrâneo, 
segundo os costumes do país. Hoje ainda, os 
ídolos de Tenochtitlán constroem-se cimen- 
tando com sangue de crianças os materiais que 
entram em sua composição, e tais deuses não 
aceitam sacrifícios que não seiam dessas cria- 
turas sem mancha. Justiça sedenta de sangue 
inocente! “Quantos crimes cometeu a supersti- 
ção” 233. Os cartagineses imolavam seus pró- 
prios filhos a Saturno. Os que não tinham 
filhos, compravam-nos. E os pais eram obriga- 
dos a assistir alegremente ao holocausto. 

Estranha idéia a de querer obter as graças 
dos deuses por meio do sofrimento, como os 
lacedemônios que, para serem agradáveis a 
Diana, martirizavam os jovens, açoitando-os 
em honra da deusa, por vezes até a morte. Era 
um sentimento bárbaro esse de querer agradar 
ao arquiteto em lhe destruindo a obra, bem 
como esse de, para poupar aos culpados o 
merecido castigo, atingir os inocentes, como se 
verificou no porto de Aulide com essa infeliz 
Ifigênia, imolada a fim de resgatar com a 
* morte as ofensas feitas aos deuses pelos exérci- 
tos gregos: “casta e infortunada vitima que no 
próprio momento de seu himeneu foi imolada 
pela mão criminosa de seu pai”2º*. E os dois 
Décios, pai e filho, de tão belas e generosas 
almas, precipitaram-se no seio do inimigo para 
conquistar os favores dos deuses em benefício 
de Roma: “Que injustiça a dos deuses, em só 
consentirem em ser favoráveis aos romanos à 
custa do sangue de homens de tal têmpe- 
ra!?23 8 Acrescentemos que não cabe ao crimi- 
noso fazer-se açoitar, quanto e como lhe con- 
venha; cumpre ao juiz ordená-lo, levando em 


232 Fra mulher, e não mãe. 
233 Lucrécio. 

234 Td. 

235 Cicero. 


MONTAIGNE 


conta no castigo somente a pena que prescre- 
veu e não ponderando a que o culpado se 
impôs voluntariamente. A justiça divina pres- 
supõe nisso total dissentimento, não so ante 
sua decisão como ante nossa desgraça. Ridi- 
cula é a idéia que teve Polícrates, tirano de 
Samos, que, para acabar com sua permanente 
felicidade, e compensá-la, jogou ao mar a mais 
preciosa de suas jóias, pensando com esse 
transtorno livremente aceito satisfazer as vicis- 
situdes do destino! E este, ridicularizando-o, 
devolveu-lha no ventre de um peixe. Que utili- 
dade podia ter, para os coribantes, rasgarem-se 
as carnes e se esquartejarem? E, hoje em dia, 
de que serve a certos maometanos mutilarem o 
rosto, o pênis ou o estômago pensando render 
homenagem ao seu profeta? A ofensa estã na 
intenção e não no peito, nos olhos, nas partes 
genitais, nos ombros ou na garganta: “tal a 
perturbação de seu espírito que, fora de si, em 
seu delírio, pensam apaziguar os deuses ultra- 
passando todas as crueldades dos ho- 
mens”23 6, 

Cumpre resguardar o nosso físico, não ape- 
nas por nós mesmos, mas por Deus e para os 
outros homens. Não temos o direito de 
comprometê-lo conscientemente, como, por 
exemplo, nos matando sob qualquer pretexto. 
Parece-me grande traição profanar e degradar 
as funções do corpo, em si mesmas incons- 
cientes e dependentes da alma, a fim de evitar 
que esta as dirija com toda a solicitude que a 
razão determina: “Com o que pensam que se 
irritam os deuses, aqueles que os tentam assim 
apaziguar?. .. Homens foram castrados para 
atenderem ao prazer dos reis, mas nunca um 
escravo se mutilou a si próprio em obediência 
a seu dono”23?. Assim foi que os antigos 
introduziram em sua religião várias práticas 
condenáveis: “outrora a religião, as mais das 
vezes, inspirava o crime e a impiedade”238, 


Nada do que está em nós pode atribuir-se ou 
assimilar-se, de qualquer maneira, à natureza 
divina, sem a manchar ou lhe imprimir a 
marca de nossa imperfeição. Como essa bele- 
za, esse poder, essa bondade infinitc., pode- 
riam, sem experimentar um prejuízo extremo, 
sem diminuição de sua divina grandeza, acei- 
tar uma semelhança qualquer com a coisa ab- 
jeta que nós somos? “Deus fraco é mais forte 
do que o homem no esplendor de sua força; 
sua loucura é mais sábia do que nossa sabedo- 
ria”239, Estilpon, o filósofo, a quem pergun- 
taram se os deuses se regozijavam com nossas 


238 Santo Agostinho. 

237 Id. - 
238 Lucrécio. 

238 São Paulo. 


ENSAIOS — II 247 


homenagens e nossos sacrifícios, respondeu: 
“Sois indiscretos; retiremo-nos alhures para 
falar desse assunto.” No entanto estabele- 
cemos limites a essa natureza divina, restringi- 
mos-lhe o poder emprestando-lhe nossa manei- 
ra de raciocinar (nossos devaneios, nossos 
sonhos, como diz a filosofia; “o próprio louco 
e o perverso têm sua razão, mas é uma razão 
especial”); queremos submetê-la às concepções 
de nosso espírito tão frivolo e tão frágil, ela 
que criou a nós e o que sabemos. Porque nada 
se faz de nada, Deus não teria podido criar o 
mundo do nada! Ter-nos-ia Ele entregue as 
chaves de Seu poder e Se teria comprometido a 
não ultrapassar nossa ciência? Admitamos, ó 
homem, que tenhas conseguido assenhorear-te 
de alguns vestígios do que Ele fêz; imaginas 
que Ele haja dado tudo o que pode dar, empre- 
gado todas as formas possíveis, esgotado todas 
as idéias? Só enxergas a ordem e a regra que 
reinam no porão em que te alojas, se é que as 
enxergas. Mas a jurisdição de Sua divindade 
estende-se muito além, ao infinito, ao lado do 
qual o espaço que abarcas nada representa: “o 
céu, a terra e o mar juntos, nada são ao lado 
da universalidade do grande Todo”? *º. A lei 
que invocas diz respeito apenas à esfera em 


que vives; não conheces a lei universal. Ocu- 
pa-te com o que te concerne e não com Deus, 
que não é teu confrade, nem teu concidadão, 
nem teu companheiro. Se Ele Se comunicou 
um pouco contigo, não foi para abaixar-Se até 
a tua pequenez, nem para que Lhe controles o 


poder; o corpo humano não pode voar, assim 
essa comunicação não se estende ao que não 
compreendes. O sol cumpre sem parar a sua 
tarefa habitual; não se confundem os limites 
do mar e da terra; a água é mole e não oferece 
resistência; um muro são será, sem perfuração, 


penetrado por um corpo sólido; o homem não 
pode conservar a vida nas chamas; ele não 
pode estar ao mesmo tempo presente no céu, 
na terra e em mil lugares diversos; mas essas 
leis, foi para ti somente que Deus as fez, 


somente a ti elas obrigam. Ele próprio forne- 
ceu aos cristãos a prova de que nenhuma o 
detém quando Ele o quer. E em verdade, todo- 
poderoso que é, por que teria renunciado a esse 
privilégio? Em nada alcança a tua razão maior 
verossimilhança nem fundamento mais sólido 
do que quando te convences da pluralidade dos 
mundos: “a terra, o sol, a lua, o mar e tudo o 
que existe, não são únicos em seu gênero; são 
em número infinito””2º*!. Os mais famosos 
espiritos do passado assim pensaram e tam- 


240 Tucrécio. 
2471 Id. 


bém alguns do presente. Levou-os a tal convic- 
ção a razão humana, por isso que em nosso 
universo nada se encontra isolado e único. 
“Não hã na natureza um só ser que não tenha 


seu semelhante, que nasça e cresça isola- 
do”? 42. 


Todas as espécies existem em número mais 
ou menos variado, o que nos induz a crer que 
não seja este mundo a única obra isolada de 
Deus, nem que a matéria de que se serviu para 
criá-lo se haja esgotado, “devemos portanto 
concordar em que há alhures outros conjuntos 
de matérias, análogos a este que o éter abra- 
ça”2 *3 principalmente se essa obra traz em si 
a vida, como é de se acreditar pelos seus movi- 
mentos, o que Platão assegura e muitos dos 
nossos o confirmam; ou não o ousam negar. 
Não parece tampouco inverossímil a concep- 
ção antiga de que o céu, as estrelas e as demais 
partes do universo se constituam de um corpo 
e de uma alma mortais, quanto aos elementos 
que os compõem, mas imortais pela vontade 
do Criador. Ora, se há vários mundos, como 
pensavam Demócrito, Epicuro e quase todos 
os filósofos, poderemos saber se os princípios e 
regras que presidem ao nosso são os mesmos 
nos outros? Talvez sejam diferentes seu aspec- 
to e sua conformação. Epicuro admite-os 
semelhantes mas também diversos. Neste 
nosso mundo percebemos uma infinidade de 
variedades por causa da distância que nos se- 
para delas. No pedaço de terra recêm-des- 
coberto por nossos pais não há trigo nem 


vinho, nem nenhum dos nossos animais. Tudo 
é diferente. E vede, no passado, em quantos 
países não se cônheciam Baco e Ceres. A acre- 
ditar-se em Plínio e Heródoto, existem, em cer- 
tas regiões, homens que quase não se asseme- 
lham a nós. Em outras participam, pela sua 


conformação bastarda, do ser humano e do 
animal. Haveria regiões onde os homens nas- 
cem sem cabeça, com os olhos e a boca no 
peito; outras onde cada indivíduo reúne em si 
ambos os sexos; outras onde andam de quatro; 
outras onde têm um só olho na testa € cuja ca- 


beça se assemelha à do cão; outras onde a 
parte inferior dos seres que vivem dentro da 
água se parece com a de um peixe; outras onde 
os homens têm a cabeça tão dura e a pele da 
fronte tão resistente que o ferro não fere; ou- 
tras onde eles não têm barba; outras onde o 
fogo é desconhecido; e há ainda regiões onde o 
esperma do indivíduo é preto; e, outras mais, 
onde o homem se transforma naturalmente em 
lobo ou em mula e volta a ser homem. Se tais 
asserções são exatas e se, como diz Plutarco, 


243 Td. 
242 Td. 


248 MONTAIGNE 


em alguns lugares da Índia há homens sem 
boca que se alimentam respirando certos per- 
fumes, quantos erros se deparariam em nossas 
descrições da espécie humana? Se não se trata 
de zombaria, tais homens não devem provavel- 
mente ser dotados de razão, nem capazes de 
viver em sociedade. Em todo caso as regras de 
nossa organização interior não lhes seriam em 
sua maioria aplicáveis. Ademais, quantas coi- 
sas conhecemos que se chocam com essas 
belas regras que nós mesmos traçamos e atri- 
buímos à natureza! E desejariamos submeter- 
lhes o próprio Criador ! Quantas coisas se con- 
sideram milagrosas e antinaturais, segundo a 
origem e o grau de ignorância de quem as 
julga! E em quantas outras descobrimos 
propriedades maravilhosas acima de tudo o 
que podemos esperar da natureza! Pois “agir 
de acordo com a natureza” não é senão “agir 
segundo nossa inteligência”, dentro dos limites 
que ela pode alcançar. O que os ultrapassa, 
achamo-lo monstruoso e contrário à normali- 
dade. Dessa maneira, tudo seria monstruoso e 
anormal para os mais instruídos e hábeis, pois 
a eles principalmente deu a razão humana a 
convicção de que ela própria carece de funda- 
mentos, não apenas para garantir que a neve é 
branca, quando Anaxágoras a diz preta, mas 
ainda para afirmar se alguma coisa existe ou 
se não existe nada; se há ciência ou se tudo é 


ignorância, o que Metrodoro, de Quio, asseve- 
rava não ser da alçada do homem julgar; e até 
se vivemos, incapaz de nos tirar dessa dúvida 
que não sem aparência de razão exprimia Euri- 
pides: “A vida que vivemos é a vida, ou é, esta, 
aquilo a que chamamos morte?” Efetivamente, 
por que pretendemos ser, quando isso dura um 


instante, um relâmpago numa noite eterna, 
uma simples e curta interrupção em nossa con- 
dição natural e perpétua, porquanto a morte 
- ocupa tudo o que precede e segue esse instante 
e atê boa parte dele? Outros afirmam que o 


movimento não existe, que tudo é imóvel, 
como o pretendem os discípulos de Melisso. Se 
há um só mundo, dizem, nem o movimento de 
rotação, nem o de translação, de que o imagi- 
namos dotado, teriam qualquer utilidade, 


como o prova Platão. Outros pensam que não 
há geração nem corrupção na natureza. Na 
opinião de Pitágoras só a dúvida existe; acerca 
de tudo podemos discutir, inclusive acerca da 
afirmação de que tudo é discutível. Nausífanes 
diz que as coisas que parecem ser nem são nem 


não são; que só a incerteza é certa; Parmêni- 
des, que nada deve existir, à exceção de um Ser 
único; Zenão, que nem sequer um Ser único 
existe e que não há nada. Se houvesse um Ser 
único, observa, estaria em outro e não em si 
mesmo; se estivesse em outro, já seriam dois e 
se estivesse em si mesmo seriam igualmente 


dois: o continente e o conteúdo. A conclusão 
de todos esses conceitos é que a natureza não 
passa de uma sombra confusa e va. 

Sempre se me afigurou que, da parte de um 
cristão, dizer: “Deus pode morrer; Deus pode 
desdizer-Se; Deus não pode fazer isto ou aqui- 
lo”, é maneira de falar absolutamente indis- 
creta e irreverente. Acho errado envolver 
assim o poder divino em termos que emprega- 
mos; e o que desse modo queremos exprimir 
cumpriria expressá-lo mais respeitosa e religio- 
samente. 


Nossa linguagem tem seus defeitos e suas 
insuficiências, como todas as coisas. Em sua 
maioria, as desordens deste mundo têm sua 
origem nas sutilezas dos gramáticos. Nossos 
processos nascem somente de discussões en- 
gendradas pela interpretação das leis; as guer- 
ras, quase sempre, decorrem de nossa incapa- 
cidade em exprimir claramente as convenções 
e tratados concluídos pelos príncipes. Quantas 
querelas, e querelas importantes, têm resultado 
da dúvida na interpretação da sílaba 
“Hoc”2 44. Tomemos uma frase cuja constru- 
ção e clareza a lógica demonstra: “faz bom 
tempo”; se dizeis a verdade, o tempo é bom. 
Trata-se de uma forma precisa da linguagem. 
No entanto pode induzir-nos em erro, pois se, 
com efeito, prosseguindo em nossa demonstra- 
ção, afirmardes “estou mentindo” e disserdes a 
verdade, mentireis. Em .uma e outra frase, a 
construção, a lógica, a força conclusiva são 
idênticas e eis que estais em dificuldades, por- 
quanto apresentam ambas deduções contrá- 
rias. Isso põe os filósofos da escola de Pirro na 
impossibilidade de empregar nossa maneira de 
falar para exprimirem a dúvida que, em túdo,- 
constitui sua regra. Precisariam de outra lin- 
gua; a nossa, inteiramente formada de afirma- 
ções, opõe-se à sua doutrina, de sorte que 
quando dizem: “duvido” poderiamos objetar 
que incorrem em contradição, pois afirmam 
que sabem que duvidam. Assim, para evitar 


semelhante objeção, tiveram de tomar de 
empréstimo à medicina uma comparação sem 
a qual não explicariam seu pensamento. Ao 
dizerem “eu ignoro”, ou “eu duvido”, acres- 
centam que ambas as proposições desapa- 


recem com o resto da frase, assim como o rui- 
barbo expele os humores e com estes a si 
mesmo. Tal estado de espírito enuncia-se 
interrogativamente de maneira mais segura, 
dizendo-se “Que sei eu?” E é minha divisa. Ea 
ácompanho de uma balança. 

Vede como, nas atuais discussões acerça de 
nossa religião, se prevalecem desse modo de 
falar irreverente e que eu condeno. Se insistis 


2++* Segundo Thibaudet, trata-se da controvérsia 
entre católicos, luteranos e calvinistas acerca das 
palavras: “Hoc est corpus meum.” (N. do T.) 


ENSAIOS — II 


Junto ao adversário, dirão sem hesitar que 
“não estã no poder de Deus fazer com que Seu 
corpo se encontre ao mesmo tempo no céu, na 
terra e em outros lugares!” Do que tirou pro- 
veito aquele autor antigo que tanto apreciava a 
zombaria? * 8: “que consolo para o homem ver 
que Deus não pode tudo: mesmo que quisesse 
não poderia matar-Se, o que é sem dúvida 
nosso maior privilégio; não pode fazer com 
que os mortais sejam imortais nem que os 
mortos não sejam mortos; nem tampouco que 
quem haja vivido não tenha vivido; que quem 
tenha sido homenageado não o tenhasido; Sua 
intervenção no passado restringe-se ao esque- 
cimento”. E continua demonstrando esse pa- 
rentesco de Deus com os homens mediante 
argumentos antes divertidos do que sérios: 
“Não pode fazer com que dez mais dez não 
sejam vinte.” Assim fala esse autor que um 
cristão tem por dever não imitar. Mas o 
homem em seu orgulho compraz-se nessa lin- 
guagem, a fim de reduzir Deus à medida 
humana: “Que amanhã o pai dos deuses cubra 
o céu de nuvens ou faça brilhar o sol no ar 
puro, não fará jamais que o que foi não tenha 
sido nem destruirá o que a hora passada levou 
em suas asas”? 4 8. Quando dizemos que a infi- 
nidade dos séculos, passados e futuros, repre- 
senta apenas um instante para Deus; que Sua 
bondade, Sua sabedoria, Seu poder estão em, 
Sua própria essência, fala a nossa boca, mas a 
nossa inteligência não entende.. 


Em nossa presunção, queremos submeter a 
divindade à nossa apreciação. Daí os deva- 
neios, os erros espalhados pelo mundo, o qual 
coloca e pesa em sua balança coisas a serem 
pesadas com pesos de que não dispõe: “é 
espantoso verificar ate onde vai a arrogância 


humana após o mais insignificante êxito”? * 7. 


Com que dureza de desprezo os estóicos cri- 
ticam Epicuro por afirmar que só Deus é um 
Ser verdadeiramente bom e feliz e que o sábio 
só tem a aparência desses atributos! Com que 
temeridade submetem Deus ao destino! Oxalá 
não se encontre entre os cristãos alguém capaz 


de fazer o mesmo! De seu lado, Tales, Platão, 
Pitágoras escravizam-No à necessidade. Essa 
pretensão de querer mostrar-nos o que é Deus 
levou um de nossos grandes doutores a atri- 
buir-Lhe um corpo, o que é causa de Lhe atri- 
buirrhos igualmente os acontecimentos impor- 
tantes de nossa vida. Quando estes nos 
parecem de certa gravidade, imaginamos que 
assim também os encare e lhes dê maior aten- 
ção do que quando nos interessam menos: “os 
deuses preocupam-se com as grandes coisas e 


248 Plínio. 
Z46 Horácio. 
247 Plínio. 


249 


negligenciam as pequenas”? *8. Mas continuai 
e vereis onde vos conduz tal raciocínio: “os 
próprios reis não descem aos pormenores ínfi- 
mos de sua administração ”? *º, como se a esse 
rei custasse mais derrubar um império do que 
uma folha de árvore, como se a providência se 
exercesse diferentemente segundo determine a 
sorte de uma batalha ou o salto de uma pulga. 
Entretanto, ela governa todas as coisas da 
mesma maneira com idêntica ordem; nosso 
interesse não influi em nada, nem nossos movi- 
mentos e sentimentos. “Deus, perfeito artesão 
nas grandes coisas, não o é menos nas peque- 
nas”2 8º Nosso orgulho volta-nos sempre para 
essa assimilação que constitui uma blasfêmia. 
Como nossas ocupações nos são pesado fardo, 
Estráton liberta os deuses de quaisquer deve- 
res, como o faz com seus sacerdotes. A seu ver 
a natureza é que tudo produz e lhe assegura a 
conservação; os diversos elementos do mundo 
mantêm-se em virtude de seus próprios movi- 
mentos e o homem não tem a temer o juízo di- 
vino “porque um ser feliz e etemno não tem 
sofrimentos nem os provoca”? *! Querendo a 
natureza que haja uma relação constante entre 


as coisas da mesma ordem, a um dado número 
de mortais corresponde um dado número de 
imortais, às coisas que destroem e matam 
opõem-se as que conservam e vivificam. Como 
as almas dos deuses, sem língua, olhos ou 
ouvidos entendem-se entre si e julgam nossos 
pensamentos, as almas dos homens, quando 
liberadas pelo sonho ou algum encantamento e 
desprendidas do corpo, adivinham, prognos- 
ticam e vêem o que seriam incapazes de perce- 
ber ligadas à matéria. Tornando-se loucos, diz 
São Paulo, em se acreditando sábios, os ho- 
mens transformam a glória de Deus, que é 
incorruptível, na imagem do homem que não é 
senão corrupção. 

Observe-se o charlatanismo das deificações 
da antiguidade: após a pompa de esplêndidas 
exéquias, no momento em que o fogo, atin- 
gindo o alto da pirâmide, se comunicava ao 
leito sobre o qual jazia o defunto, soltavam 
uma águia que simbolizava em seu vôo a alma 
do morto subindo ao paraíso. Representando 
essa cena, cunharam-se várias medalhas, em 
particular uma de uma mulher chamada Faus- 
tina, em que a águia se apresenta transpor- 
tando sobre as asas as almas divinizadas. É 
triste ver como nos esforçamos por nos enga- 
nar a nós mesmos com nossas macaquices e 
invenções: “temem o que eles próprios inventa- 
ram”? 82, como a criança que se apavora dian- 
248 Cícero. 

249 Id. 

25º Santo Agostinho. 
281 Cícero. 

252 Lucano. 


250 MONTAIGNE 


te da cara do camarada que ela própria pintou: 
“que haverá mais infeliz do que o homem 
escravizado pelas suas quimeras?”2 83 

Há uma diferença grande entre honrar quem 
nos criou e render homenagens ao que cria- 
mos. Augusto teve maior número de templos 
que Júpiter, os quais foram igualmente visita- 
dos e reputados pelos seus milagres.Os feaces, 
a fim de demonstrarem sua gratidão pelos 
favores recebidos de Agesilau, foram dizer-lhe 
que o haviam colocado entre os deuses: “se 
vosso povo”, observou-lhes Agesilau, “tem o 
poder de fazer deuses à vontade, fazei um deles 
com um de vós a fim de que eu o veja. Depois, 
quando tiver visto como ele é, saberei se vos 
devo agradecer”. Como o homem é insensato ! 
Incapaz de forjar o mais microscópico animal, 
faz deuses às dúzias! Ouçamos Trismegisto 
elogiar a humana invenção: “Entre as coisas 
admiráveis”, diz, “uma há que a todas so- 
breexcede, que o homem tenha podido desco- 
brir a natureza divina e imaginar em que 
consiste.” Eis a respeito alguns dos argumen- 
tos em voga nas escolas de filosofia: “às quais 
é dado — e somente a elas — conhecer os 
deuses e as forças celestiais, ou saber que é 
impossível conhecê-los”? º *. “Se Deus existe, é 
um ser animado; se é um ser animado, tem 
sentidos; se tem sentidos, está sujeito à corrup- 
ção. Se não tem corpo, não tem alma e então 
nada pode: se tem um corpo é perecível.” Em 
verdade trata-se de argumento peremptório, 
resistente a qualquer objeção! Somos incapa- 
zes de ter feito o mundo, há pois alguma natu- 
reza superior que o fez. Seria tola arrogância 
considerarmo-nos a criatura mais perfeita do 
universo; há pois algo melhor: Deus. Quando 
vedes uma rica e luxuosa residência, ainda que 
não saibais a quem pertence, não dizeis que foi 
construída pelos ratos; não devemos também 
acreditar que esse divino edifício, o palácio 
dos céus, é a residência de alguém maior do 
que nós? Quem se encontra-no degrau superior 
não é em verdade o mais digno? Por isso nos 
achamos aqui embaixo. Nada, desprovido de 
alma e razão, fora capaz de criar um ser provi- 
do de razão e suscetível de dar vida; o mundo 
produz-nos, logo tem alma e razão. Cada fra- 
ção de nós mesmos é menor do que nós mes- 
mos; somos uma fração do mundo, logo o 
mundo é dotado de sabedoria e razão e em 
grau superior ao nosso. É uma bela coisa ter 


um bom governo; o mundo deste ponto de . 


vista comprova pois a excelência do princípio 
que preside a nossos destinos. Os astros não 
nos prejudicam, a bondade se encontra por- 


253 Plínio. 
254 Tucano. 


tanto entre as suas qualidades. Nós temos 
necessidade de alimentos, os deuses estão no 
mesmo caso: nutrem-se com os vapores da 
atmosfera. Os bens deste mundo não são bens 
aos olhos de Deus, aos nossos não devem ser 
tampouco. Quem ofende alguém e quem é 
ofendido por outrem mostram igualmente suas 
imperfeições; não há pois como temer Deus. 
Deus é bom naturalmente, o homem por sua 
vontade, logo com maior mérito. A sabedoria 
divina só se distingue da sabedoria humana 
por ser eterna, mas a duração nada acrescenta 
à sabedoria; estamos portanto em pé de igual- 
dade. Temos a vida, a razão, a liberdade; apre- 
ciamos a bondade, a caridade, a justiça; logo 
essas qualidades pertencem a Deus. Em suma, 
é o homem que admite ou rejeita a existência 
de Deus, que imagina as condições de sua exis- 
tência sobre as quais molda as suas próprias; 
que padrão e que modelo! Amplia as quali- 
dade humanas, dá-lhes elevação e grandeza 
quanto queiras, enche-te de orgulho, pobre 
homem, incha-te quanto puderes: “Não, ainda 
que arrebentes. ..”2ºº9. “Os homens acredi- 
tando pensar em Deus, de quem não têm idéia, 
pensam em si mesmos; a si próprios e não a 
Ele se comparam”? 58, 

No que diz respeito à natureza, os efeitos só 
em parte dependem das causas; no caso pre- 
sente, a divindade não depende dela; está 
demasiado alta, demasiado longe de nós, 
demasiado superior ao que podemos imaginar, 
para que nossas conclusões a atinjam e atuem 
sobre ela. Não será por nós mesmos que conse- 
guiremos esclarecer um tal problema, nosso 
caminho é por demais rasteiro. Não estamos 
mais perto do céu sobre o monte Cenis do que 
se estivéssemos no fundo do mar; se quereis 
compreendê-lo consultai vosso astrolábio. 


Os filósofos pagãos chegam até a repre- 
sentar Deus em contato com a mulher. Pauli- 
na, esposa de Saturnino e senhora romana de 
grande reputação, imaginando dormir com o 
deus Serápis achou-se, em virtude da coni- 
vência de um sacerdote, nos braços de certo 
admirador. Varro, o mais espirituoso e sábio 
dos autores latinos, escreveu em suas obras de 
teologia que o servidor do templo de Hércules 
Jogou com o deus, nos dados (uma das mãos 
por ele e outra pela divindade) uma ceia e uma 
cortesã. Se ganhasse, as oferendas dos fiéis: 
pagariam a despesa, e se perdesse ele arcaria 
com elas. Perdeu e pagou a mulher. Esta, que 
se chamava Laurentina, encontrou-se nos bra- 
ços do deus, o qual lhe disse que lhe pagaria o 
que merecia quem primeiro ela avistasse no 


255 Horácio. 
256 Santo Agostinho. 


ENSAIOS — II 251 


dia seguinte. Quem ela encontrou foi Terêncio, 
um jovem muito rico, que a recolheu e mais 
tarde fez dela sua herdeira. Por sua vez, pen- 
sando agradar ao deus, ela legou seus bens ao 
povo romano, o que lhe valeu honras divinas. 
Platão descendia dos deuses por dupla filiação, 
ambas remontando a Netuno. Não bastou 
isso: considerava-se certo em Atenas que Aris- 
ton, marido da bela Perictione, querendo ter 
relações com ela, não o conseguiu; e em sonho 
ouviu de Apolo a advertência de a respeitar e 
deixar intata até que desse à luz. E assim teria 
vindo Platão ao mundo. Quantas histórias 
semelhantes contam-nos as religiões antigas, 
de pobres humanos enganados pelos deuses! E 
quantos maridos se apresentam vítimas de 
ultrajes análogos a fim de dar aos filhos uma 
origem divina! Entre os maometanos a crença 
popular admite o nascimento de crianças sem» 
pai, concebidas em espírito, e às quais por 
intervenção divina as virgens dão à luz. Apeli- 
dam-nas “merlins”, palavra que tem em sua 
língua esse sentido. 

Observemos :que todos os seres se conside- 
ram a si próprios como os mais dignos de 
apreço: o leão, a águia, o delfim nada colocam 
acima de sua espécie, e todos julgam as quali- 
dades alheias pelas suas próprias. As qualida- 
des que possuímos, podemos julgá-las mais ou 
menos estimáveis, eis tudo. Fora desta possibi- 


lidade, dado que não podemos imaginar o que. 


não existe e não podemos atribuir à divindade, 
não há como ir além. Daí estas conclusões dos 
antigos: De todas as formas a mais bela é a do 
homem; Deus deve portanto ter essa forma. 
Ninguém pode ser feliz, sem ser virtuoso; nem 
ser virtuoso sem ser dotado de razão; esta só 
pode localizar-se em cérebro organizado como 
o do homem, logo Deus deve ter um cérebro 
semelhante ao nosso; “é hábito e preconceito 
de nosso espírito o que faz que não possamos 
pensar em Deus sem o representar sob forma 
humana”2º?. A isso objetava prazenteira- 
mente Xenófanes que se os animais criam deu- 
ses, como é provável, devem éles também 
concebê-los à sua feição, julgando-se, como 
nos julgamos, as obras-primas da criação. 
Pois, por que um pato não diria: tudo isso é 
feito para mim: a terra serve-me para andar, O 
sol para me iluminar, as estrelas para orientar 
o meu destino; tiro partido dos ventos, e tam- 
bém das águas; nada existe que os céus consi- 
derem mais favoravelmente do que eu, sou o 
favorito da natureza? Não trata de mim o 
homem? É meu servidor: dá-me casa, semeia 
para mim, e se me come não come igualmente 
seu semelhante”? E não como eu os vermes que 


257 Cicero. 


o matam e o comem por sua vez? Um grou 
tem o direito de dizer o mesmo, e mais ainda, 
por que tem a liberdade de voar. “A natureza 
amiga é a natureza que induz os seres a se 
amarem a si mesmos”? 88, 

E assim cremos que para nós se fez o desti- 
no, que para nós o mundo existe, para nós bri- 
lha o sol, ribomba o trovão. O Criador e as 
criaturas, tudo se nos oferece. Somos o obje- 
tivo de todas as coisas. 

Anote-se o que em dois mil anos a filosofia 
registrou acerca das coisas divinas. Somente 
para o homem agiram e falaram os deuses, não 
se lhes atribui nenhum outro ofício, nenhuma 
outra missão. Ei-los participando de nossas 
guerras: “os filhos da terra abalaram o augus- 
to palácio do velho Saturno e caíram enfim 
sob os golpes de Hércules”? 5º. Ei-los tomando 
parte em nossas desavenças e correspondendo 
assim ao que fizemos mais de uma vez, intro- 
metendo-nos nas suas: “Netuno com seu temi- 
vel tridente abala os muros de Tróia e revolve 


“a fundo essa soberba cidade; por sua vez a 


impiedosa Juno apodera-se das portas 
Scées”? 8º. Os cáunios, desejosos de manter a 
supremacia de seus deuses, pegam em armas 
no dia que lhes é consagrado e vão batendo o 
ar com suas espadas, expulsando assim os deu- 
ses estrangeiros. O poder dos deuses é-lhes 
outorgado de acordo com as nossas necessida- 
des; há os que curam os cavalos, outros os 
homens; uns curam a peste, outros a tinha, ou- 
tros a tosse, outros a sarna, etc. .., “pois a 
superstição introduz os deuses nas coisas mais 
insignificantes”? 81. Um faz que as uvas cres- 
çam, outros os alhos. Um protege a luxúria, 
outro o comércio. Cada ofício tem seu deus; 
cada divindade tem sua província: o Oriente 
uma, o Ocidente outra. “Lá estão as armas de 
Juno, lá seu carro”2 82. “Ó Santo Apolo, tu 
que habitas o centro do mundo. ..”?2 83 A ci- 
dade de Cécrope adora Palas; a ilha de Creta, 
Diana; Lemnos, Vulcano; Esparta e Micena, 
Juno; Pã é deus de Mênalo e Marte é venerado 
no Lácio!?28* Uns possuem apenas uma 
aldeia, uma família; outros vivem sós, outros 
ainda em companhia, seja porque o queiram, 
seja por obrigação. “O templo do neto une-se 
ao do divino avó”? 88. Há deuses tão miserá- 
veis e tão ínfimos (pois o seu número eleva-se a 
trinta e seis mil) que é preciso juntar cinco ou 


258 Id. 

259 Horácio. 
2680 Virgílio. 
261 Tito Lívio. 
262 Virgílio. 
263 Tito Lívio. 
264 Ovídio. 
265 Id. 


252 


seis para que consigam produzir uma espiga de 
trigo e cada qual toma o nome de sua função 
na obra comum. Três para uma porta, encarre- 
gados cada qual da bandeira, da dobradiça e 
do caixilho.: Quatro para uma criança, atentos 
as fraldas, ao que bebe, ao que come, ao seio 
da ama. “Hã os autênticos e os que o não são, 
e muitos que não se consideraram dignos das 
honras do céu, concordamos em que habitem 
as terras que lhes cedemos”2 8 8. Hã os que são 
poetas, médicos e os que não têm profissão; al- 
guns participam a um tempo da natureza hu- 
mana e da natureza divina; uns intercedem por 
nós, são nossos intermediários junto às divin- 
dades; alguns têm direito a cultos de segunda 
ordem, outros acumulam títulos e honrarias, 
uns são bons e outros maus; hã-os velhos e 
alquebrados e mesmo mortais. E Crisipo pen- 
sava que no último cataclismo que provocaria 
o fim do mundo todos morreriam com exceção 
de Júpiter. Enfim, o homem forja mil relações, 
por vezes divertidas, entre os deuses e ele. 
Daão-lhes até berço idêntico ao seu: “Creta, 
berço de Júpiter”2 87. 

O grande pontífice Cévola, e Varro, grande 
teólogo de sua época, assim o explicam: “é 
necessário que muitas verdades sejam ignora- 
das do povo e que este acredite em muitas 
assertivas falsas”: — “como procura a verda- 
de apenas para se libertar, podemos ter a certe- 
za de que é de seu interesse ser enganado”? 88, 
O olho do homem só apreende as coisas sob as 
formas de que tem noção. Testemunha-o o 
salto desse pobre Fáeton por ter querido, sim- 
ples mortal, tomar as rédeas dos cavalos de 
seu pai. Nosso espirito comove-se, perturba-se 
e se expõe a queda semelhante quando sua 
temeridade o induz a enfrentar análogas 
impossibilidades. Perguntai à filosofia de que 
se constitui o sol. Ela vos responderá que é for- 
mado de ferro, pedra ou tal ou qual matéria 
familiar. Perguntai a Zenão em que consiste a 
natureza, e ele dirá: “é um fogo, espécie de 
artesão com a faculdade de engendrar e agindo 
segundo leis invariáveis”. Arquimedes, esse 
mestre nessa ciência que se julga a primeira a 
conhecer a verdade, afirmará: “O scl é um 
deus de ferro em fusão.” Bela definição em ver- 
dade, resultante dessas proclamadas conclu- 
-sões irrefutáveis a que conduzem as demons- 
trações da geometria, ciência cuja necessidade 
e utilidade não são entretanto tão incontestá- 
veis, porquanto Sócrates considerava que bas- 
tava dela entender o suficiente para medir a 
terra que compramos e vendemos, e Polieno, 


286 Ovídio. 
267 Id. 
268 Santo Agostinho. 


MONTAIGNE 


doutor famoso, a desdenhou finalmente como 
falsa e de aparência ilusória, desde que provou 
os frutos do jardim de Epicuro. A propósito, 
Sócrates, falando de Anaxágoras que a anti- 
guidade considerava mais entendido do que 
ninguém nas coisas do céu, diz que o cérebro 
deste se alterou- como acontece com os que 
perscrutam exageradamente as questões que 
ultrapassam sua competência. Fazendo do sol 
uma pedra em fusão, esquecia que uma pedra 
não se toma luminosa e que se consome. 
Considerando que sol e fogo são uma só coisa, 
esquecia que o fogo não preteja os que o 
contemplam, que o podemos fixar e que mata 
plantas e ervas. Na opinião de Sócrates, e tam- 
bém na minha, o julgamento mais sábio que se 
possa ter acerca do céu, é não julgar. Platão, 
referindo-se aos demônios, no “Timeu”, diz: 
“tratar do assunto é empresa que sobreexcede 
nossa capacidade; devemos a esse respeito 
reportar-nos aos antigos que pretendem des- 
cender dos deuses. Não é razoável recusar crer 
no que nos dizem, eles que são filhos dos deu- 
ses, ainda que não assentem em sólidos alicer- 
ces suas afirmações, porquanto o que nos asse- 
guram são tradições de família”. 


Vejamos se conhecemos mais acerca das 
coisas da natureza de que nos ocupamos. 
Quanto às que confessamos não poder atingir 
é ridículo forjar-lhes um corpo, e lhes dar for- 
mas de nossa inteira invenção, como se veri- 
fica no que concerne aos movimentos dos pla-. 
netas. Nosso espírito não podendo determinar 
nem conceber como se efetuam esses movi- 


mentos, imaginamos pesadas molas de dados 
modelos: “de ouro era o timão, de ouro tam- 
bém as rodas, com raios de prata”? 8º, Dir-se- 
ia que tivemos cocheiros, carpinteiros e pinto- 
res que andaram pelos céus instalando 
máquinas de movimentos diversos e engrena- 


gens, e entrosando os corpos celestes de várias 
cores em atenção ao seu uso! Como quer Pla- 
tão e diz Varro “o mundo é um edifício imen- 
so, cercado de cinco zonas, atravessado obli- 
quamente por uma franja guarnecida de doze 
radiosas constelações, a que têm acesso o 
carro da lua e seus dois corcéis”. Sonhos tudo 
isso, € fantasias! Por que não há de a natureza 
abrir-nos um dia o seu seio para que vejamos a 
nu o que produz e regula seus movimentos? 
Quantos erros e abusos achariamos em'nossa 
ciência raquítica! Duvido que observássemos 
uma só dessas asserções justificada e não 
adquirissemos a convicção de que o que mais 
ignoramos é a nossa ignorância. Não terá sido 
no próprio Platão que li esta frase divina: a 


28º Ovídio. 


ENSAIOS — II 


natureza é um poema enigmático? Uma pintu- 


ra velada e tenebrosa iluminada de engana- - 


doras claridades que servem de pontos de 
apoio a nossas hipóteses: “Todas essas coisas 
se envolvem em espessas trevas, e não há espi- 
rito bastante agudo para penetrar os céus ou as 
profundezas da terra”2 7º. E é verdade: a filo- 
sofia não passa de uma poesia feita com sofis- 
mas. Pois de onde tiraram sua autoridade, 
senão dos poetas, os que a ela se dedicaram na 
antiguidade? Os primeiros filósofos foram 
poetas e filosofaram como versificavam. Pla- 
tão é poeta por vezes; Timon intitula-o ironica- 
mente: “grande inventor de milagres”. Todas 
as ciências que tratam de questões que 
sobreexcedem a inteligência do homem ves- 
tem-se de licenças poéticas. As mulheres usam 
dentes de marfim quando perdem os dentes 
naturais; modificam a tez com ingredientes 
estranhos à pele; condicionam a grossura das 
pernas com tecidos e feltros, e arredondam 
suas formas com algodão; sabidamente se 
embelezam com artifícios. Assim faz a ciência 
(diz-se mesmo que a do direito admite ficções 
que constituem o fundamento daquilo que a 
Justiça estabelece como verdade); ela nos ofe- 
rece, pedindo-nos que as suponhamos verda- 
deiras, coisas que ela própria declara inventa- 
das. Esses epiciclos, esses círculos excêntricos 
e concêntricos de que se vale a astronomia 
para explicar o movimento das estrelas, nãô os 
propõe ela senão como o que de melhor pôde 
encontrar. Do mesmo modo age a filosofia, 
apresentando-nos, não o que é ou crê ser, mas 
o que imagina como solução mais elegante e 
adequada às aparências. Platão tratando das 
condições de nosso corpo e do dos animais, 
assim se exprime: “afirmaríamos que o que 
dissemos é exato se um oráculo o houvesse 
confirmado. Limitamo-nos a assegurar que foi 
o que achamos mais verossímil para asseve- 
rar”. 

Não é apenas o céu que a filosofia provê de 
cordas, máquinas: e engrenagens. Vejamos o 
que diz de nós mesmos e de nossa estrutura. 
Não há em todo o sistema planetário, e nos ou- 
tros corpos celestes, maiores trepidações, as- 
censões, recuos e êxtases do que inventaram os 
filósofos para o nosso misérrimo corpo huma- 
no. Nisso merece ele a denominação que lhe 
deram de pequeno mundo, a tal ponto empre- 
gam para o construir peças das mais variega- 
das formas. Para explicar os movimentos que 
observam no homem, suas diversas funções e 
faculdades, em inúmeras partículas fragmen- 
taram a alma! Localizaram-na em múltiplos 
órgãos! Estabeleceram divisões sem conta — 


270 Cicero. 


253 


e subdivisões — em nosso pobre ser, além 
daquelas que são naturais e normalmente 
perceptíveis, sobrecarregando-as de usos € 
ocupações! Fazem dela uma espécie de repú- 
blica imaginária. Deram-se a liberdade abso- 
luta de desmontâ-lo, classificá-lo, remontá-lo, 
apresentá-lo sob tal ou qual aspecto, segundo 
sua fantasia, e não chegaram ainda a uma cer- 
teza qualquer. Nem mesmo a simples hipóteses 
em que não se deparem algo manco ou disso- 
nante, por enorme que seja a máquina cons- 
truíida e a despeito dos mil remendos inade- 
quados e fantasistas que lhe aplicam. E não há 
desculpa para isso. Quando os pintores pintam 
o céu, a terra, os mares, as montanhas, as ilhas 
remotas, toleramos que nos apresentem vagos 
esboços. É isso admissível quanto ao que não 
conhecemos. Mas se pintam do natural, ou se 
o que copiam nos é familiar, exigimos deles 
exata e perfeita reprodução das linhas e das 
cores; em caso contrário não damos impor- 
tância à obra. 

Compraz-me a idéia da jovem de Mileto 
que, vendo o filósofo Tales continuadamente 
ocupado a contemplar a abóbada celeste, colo- 
cou alguma coisa em seu caminho para que 
tropeçasse, advertindo-o assim de que antes de 
se divertir em pensar no que ocorre nas nuvens 
devia preocupar-se com o que acontece a seus 
pés. Com razão aconselhava-o a examinar-se, 


ele próprio em vez do céu, pois, assim como 


diz Demócrito (segundo Cicero): “investigamos 
os céus e não olhamos para os nossos pés”. 
Somos feitos de tal maneira, que o conheci- 
mento do que se situa ao nosso alcance está na 
realidade tão longe e confuso quanto os pró- 
prios astros. Essa mesma censura que se ende- 
reçava a Tales por não ver o que ocorria diante 
de seus olhos, Sócrates no dizer de Platão a 
dirigia a todos os que se interessavam pela filo- 
sofia, pois todo filósofo ignora o que faz seu 
vizinho e até o que ele próprio faz, não sabe o 
que são ambos, se homens ou animais. 

Os que hoje acham frágeis os argumentos de 
Sebond, os que nada ignoram, govemnam o 
mundo, tudo sabem: “o que manda no mar, o 
que regula as estações; se os astros obedecem 
a um movimento espontâneo ou a uma lei 
estranha; por que a lua cresce e diminui regu- 
larmente; enfim como a harmonia do universo 
resulta da discórdia de seus elementos”? ?1, 
terão algum dia prestado atenção, em seus 
livros, às dificuldades que apresenta o conheci- 
mento de nosso ser? Vemos que nossos dedos 
se mexem, que nossos pés andam, que certas 
partes de nosso corpo se movimentam sozi- 
nhas, enquanto outras só o fazem quando o 


271 Horácio. 


254 MONTAIGNE 


desejamos; que certas emoções nos levam a 
corar, outras a empalidecer; que as idéias que 
surgem em nós atuam ora sobre o baço ora 
sobre o cérebro; algumas provocam o riso, ou- 
tras as lágrimas; outras ainda nos imobilizam 
de medo ou de espanto; por vezes pensar em 
alguma coisa causa enjôo, ou nos excita 
sexualmente; mas nunca ninguém soube como 
essas impressões do espírito podem produzir 
tamanho efeito em um corpo sólido, nem qual 
a natureza das relações que estabelecem um 
funcionamento harmônico dos nossos órgãos: 
“todas essas coisas são impenetráveis à inteli- 
gência humana e permanecem escondidas na 
majestade da natureza”, escreve Plínio; e 
Santo Agostinho diz por seu lado: “o laço pelo 
qual o espírito adere ao corpo... é admirável 
e não o pode compreender o homem. Essa 
união é o próprio homem”. E embora não o 
explicando, ninguém o põe em dúvida, porque 
a opinião dos homens a respeito resulta do que 
acreditavam os antigos, crenças a que damos 
crédito como se se integrassem na religião e 
nas leis. Aceitamos de bom grado o que comu- 
mente é por todos admitido. Acolhemos essa 
verdade com seu aparato de argumentos e pro- 
vas, como algo sólido, inabalável, inexami- 
nável. Cada qual fortalece e consolida a crença 
aceita com seus próprios argumentos, com a 
sua própria inteligência, instrumento dócil, 
maleável e acomodatício. E, assim, enche-se o 
mundo de mentiras e estultícias. 


O que faz que duvidemos de poucas coisas, 
está em que jamais pomos à prova”as impres- 
sões comuns a todos; nunca as examinamos 
em seus pontos fracos. Não indagamos se um 
princípio é certo, e sim de que jeito foi formu- 
lado. Não hã pois como estranhar se tenha 
estendido às artes e às escolas essa tirania de 
nossas crenças e esse constrangimento de 
nossa liberdade. Aristóteles é o deus da ciência 
escolástica; é sacrilégio discutir-lhe os concei- 
tos, como o era em Esparta discutir os de 


Licurgo. Consideramos sua doutrina funda- 
mental, e no entanto talvez seja tão falsa quan- 
to outras. Não sei por que não aceitaria igual- 
mente as idéias de Platão, ou os átomos de 
Epicuro, o cheio e o vazio de Leucipo e Demó- 
crito, a água de Tales, a natureza com sua infi- 
nidade de formas de Anaximandro, o ar de 
Diógenes, os números e a simetria de Pitágo- 
ras, o infinito de Parmênides, a unidade de 
Museu, a àgua e o fogo de Apolodoro, as par- 
tes similares de Anaxágoras, a repulsa e a afi- 
nidade de Empédocles, o fogo de Heráclito, ou 
qualquer outra teoria entre essas inumeráveis 
teorias e afirmações que emite nossa bela inte- 
ligência humana, com sua segurança e clarivi- 
dência habituais. Como admitir a opinião de 


Aristóteles no que concerne aos princípios que 
se encontram na origem da natureza, e assen- 
tam em três elementos principais: a matéria, a 
forma e a carência? Haverá algo mais despro- 
vido de sentido do que a idéia de que tudo vem 
do nada? Que é carência, senão um elemento 
negativo? E como fazer dele a origem e a 
causa do que existe? Eis, no entanto, uma 
assertiva que não se ousaria combater a não 
ser como exercício de lógica. Se o discutem, 
porém, não o fazem para esclarecer dúvidas e 
sim para defender o chefe da escola contra 
seus contraditores de outras seitas. Manter-lhe 
a autoridade, eis o objetivo. 


É facílimo construir à vontade sobre alicer- 
ces preestabelecidos, pois segundo a lei e a 
disposição dos princípios o resto do edifício 
ergue-se sem incidir em contradição alguma. 
Com esse processo nossa razão marcha com 
segurança e nós discorremos sem necessidade 
de investigações mais aprofundadas; de ante- 
mão nossos mestres prepararam o terreno em 
nosso espírito para a prova do que bem enten- 
dem, como os geômetras que provam suas 
hipóteses pré-admitidas. Com a anuência e a 
aprovação que lhes outorgamos, conduzem- 
nos para a direita ou para a esquerda segundo 
seu capricho. Quem é acreditado naquilo que 
pressupõe, é nosso senhor e deus; com tal fun- 
damento amplo e cômodo, pode se quiser ele- 
var-nos às nuvens. Na prática e na transmissão 
do saber, aceitamos como moeda corrente esta 
frase de Pitágoras: “todo especialista deve ser 


acatado no que respeita à sua arte”. Assim o 
dialético refere-se ao dramático quanto ao. 
significado das palavras, o retórico toma de 
empréstimo ao dialético seus argumentos e a 
arte de os apresentar, o poeta emprega ritmo 
do músico, o geômetra vale-se dos cálculos do 
matemático, o metafísico utiliza as conjeturas 
do físico, porque todas as ciências assentam 
seus princípios em hipóteses, o que por todos 
os lados amarra o raciocínio do homem. Se 
tentamos derrubar essa barreira que constitui 
um erro capital, objetam-nos logo com este 
aforismo: “Não se discute com quem nega os 
princípios.” Ora, não pode haver entre os ho- 
mens senão os princípios que Deus lhes reve- 
lou; fora dessa revelação o princípio, o meio e 
o fim de todas as coisas não passam de sonho 
e fumaça. Aos que, para combater, se apóiam 
em hipóteses, cumpre opor como axioma as 
teses contrárias aquelas acerca das quais se 
discute. Todas as que o homem é capaz de 
imaginar podem emitir-se; têm todas igual 
autoridade, se entre elas a razão não estabelece 
uma diferença. É preciso, pois, examiná-las e 
compará-las; e antes de tudo as que se apresen- 
tam como regras gerais e pesam mais. Querer 


ENSAIOS — II 255 


chegar a uma certeza absoluta é, até certo 
ponto, prova de loucura e de extrema incerte- 
za. Não há gente mais louca e menos filósofa 
do que os filodoxos de Platão. Que o fogo seja 
quente, a neve fria, e nada duro ou mole, não o 
contradizemos, mas que no-lo provem ! 

A tais propósitos contam que os antigos 
respondiam: quem duvida do calor, jogue-se 
ao fogo; quem nega o frio da neve, coloque-a 
sobre o peito. Essas respostas não eram dignas 
de filósofos. Se nos tivessem deixado em nosso 
estado natural, aceitando em tudo a aparência 
das coisas, sem outras necessidades que não as 
determinadas pelas condições de nossa existên- 
cia, teriam razões para assim se exprimir, mas 
foram eles mesmos que nos ensinaram a nos 
erigirmos em juízes do mundo e nos enfiaram 
na cabeça a pretensão de que “a razão tem o 
direito de controle sobre tudo o que existe, 
tanto sob a abóbada celeste como fora dela, 
que tem o direito de tudo abarcar, porquanto 
tudo sabe e tudo pode”. Semelhantes respostas 
seriam aceitáveis entre os canibais, que têm a 
felicidade de gozar uma vida longa, tranquila, 
sossegada, sem aplicar os preceitos de Aristó- 
teles, nem conhecer o nome da física. E seriam 
mais eficazes do que quaisquer outras imagi- 
nadas pela filosofia e sugeridas pela razão; 
estariam também ao alcance dos animais, 
como tudo o que decorre pura e simplesmente 
da lei da natureza; mas eles não as aceitam. 
Para serem consequentes com suas atitudes 
habituais, não me podem dizer: “Isso é verda- 
deiro, por queassim o vês e o sentes”; é neces- 
sário que me demonstrem que o que eu creio 
sentir eu o sinto efetivamente; e se o sinto efeti- 
vamente, porque o sinto, e como, etc..., é 
preciso que digam o nome, a origem, os funda- 
mentos e a finalidade do calor e do frio, o que 
faz com que este atue sobre o outro e inversa- 
mente; sem o que não seriam filósofos, não 
admitindo estes nada, nem nada aprovando 
senão pela razão, pedra de toque (em verdade 
cheia de erros e fraquezas) a que tudo 
submetem. 

Por que meios poderíamos melhor aquilatar 
a razão, do que por ela mesma? Se não pode- 
mos acreditar nela quando fala de si, não será 
capaz de apreciar o que não está em si. Se 
pode conhecer alguma coisa, deve ser pelo 
menos o que é e onde se aloja, visto que está 
em nosso espírito, de que faz parte ou é efeito. 
Não se trata aqui da razão por excelência, a 
única verdadeira e que tão mal batizamos; pois 
essa reside no seio de Deus. Daí emana quan- 
do apraz a Deus mostrar-nos alguns de seus 
raios, como Palas saiu da cabeça de Júpiter a 
fim de se mostrar visível ao mundo. 

Vejamos portanto o que a razão humana 


nos ensina acerca de si mesma e da alma, do 
espirito. Não acerca da alma em geral que 
todos os filósofos outorgam aos corpos celes- 
tes e primeiros corpos participantes; nem acer- 
ca do que Tales atribui às coisas inanimadas, e 
às quais foi levado a atribuir uma alma obser- 
vando o comportamento do imã; mas acerca 
da que estã em nós e que devemos conhecer 
melhor: “não se conhece a natureza da alma: 
nasce ela com o corpo, ou, ao contrário, neste 
se introduz no momento do nascimento? 
Morre com ele, vai visitar abismos sombrios, 
ou passa, por ordem de Deus, ao corpo de 
animais”? 729 

Crates e Dicearco afirmavam que a alma 
não existia, e que os movimentos e atos corpo- 
rais obedeciam a um movimento natural; Pla- 
tão assegurava que era uma substância dotada 
de movimento próprio; Tales, uma natureza 
sem repouso; Asclepíades, o exercício dos sen- 
tidos; Hesíodo e Anaximandro, uma subs- 
tância composta de terra e água; Parmênides, 
de terra e fogo; Empédocles, de sangue — 
“vomitou sua alma de sangue”? 73; Possidô- 
nio, Cleantes e Galeno, um calor, ou subs- 
tância de compleição quente, “as almas têm a 
força do fogo e uma origem celeste”? ? 4: Hipó- 
crates, um espírito espalhado pelo corpo; 
Varro, o ar penetrando pela boca, aquecendo 
os pulmões, purificando o coração e se expan- 
dindo pelos membros; Zenão, a quinta-es- 
sência dos quatro elementos; Heraclides Pônti- 
co, a luz; Xenócrates e os egípcios, um 
coeficiente variável; os caldeus, uma proprie- 
dade sem forma determinada: “um certo hábi- 
to vital do corpo, a que os gregos chamam 
harmonia”? 7 8: e não olvidemos a opinião de 
Aristóteles para o qual a alma é o que faz 
naturalmente mover-se o corpo. Denomina-a 
enteléquia, mas não se estende a respeito de 
sua origem, de sua essência, nem de sua natu- 
reza e sim, apenas, de seus efeitos. Lactâncio, 
Sêneca e os principais filósofos dogmáticos 


confessam que é coisa para eles incompreen- 
sivel. E agora, depois desta enumeração de 


opiniões, “qual a verdadeira? Só um deus pode 
saber”, diz Cícero. “Reconheço por expe- 
riência própria”, diz São Bernardo, “a que 
ponto Deus escapa a meu entendimento, pois 
não posso sequer compreender as partes de 
que se compõe o meu próprio ser.” Heráclito, 
que admitia que tudo fosse almas e demônios, 
nos seres, declarava entretanto não poder ir 
bastante longe no conhecimento da alma e 


272 Lucrécio. 
273 Virgílio. 
274 Id. 

275 Lucrécio. 


256 MONTAIGNE 


compreendê-la, porquanto sua essência é impe- 
netrável. 

Onde se aloja? A resposta não provoca 
menores divergências e discussões. Hipócrates 
e Hierófilo colocam-na no cerebelo; Demó- 
crito e Aristóteles, em todo o corpo, “como 
quando dizem que a saúde está no corpo e 
todavia não constitui um membro do corpo 
são”? 7? 8, Epicuro, no estômago: “pois aí senti- 
mos palpitar o medo, o terror, aí experimen- 
tamos as doces sensações da alegria”? 77; os 
estóicos, em volta e dentro do coração; Erasis- 
trato, unida à membrana do crânio; Empédo- 
cles, como Moisés, no sangue, o que levou este 
último a proibir que comessem o dos animais, 


porquanto lhes comeriam a alma; Galeno ' 


pensa que cada parte do corpo tem sua alma; 
Estráton aloja-a entre as sobrancelhas. “A que 
se assemelha a alma e onde reside? Eis o que 
não convém procurar entender”, diz Cícero. 
Cito suas próprias palavras, a fim de não alte- 
rar a linguagem da eloquência, tanto mais 
quanto pouco benefício se tira com frustrá-lo 
de suas idéias que são raras, sem muita origi- 
nalidade e assaz conhecidas. As razões que 
nos dá Crisipo, e outros filósofos de sua esco- 
la, para colocar a alma no coração merecem 
menção. É, diz, porque quando queremos afir- 
mar alguma coisa pomos a mão acima do estô- 
mago, e quando pronunciamos a palavra 
“ego” (eu, em grego) abaixamos o maxilar 
inferior na mesma direção. A observação 
denuncia certa falta de seriedade em tão gran- 
de personagem. As outras considerações que 
expressa são também de reduzido valor e 
nenhuma prova que a alma se localize, para os 
gregos, nessa parte do corpo. Daí concluir-se 
que não há inteligência humana, por brilhante 
que seja, que por vezes não cochile. Mais 
ainda: eis os estóicos, pais da humana prudên- 
cia. Não afirmam eles que a alma do homem 
que se debate contra a morte, pena e se esgota 
longamente para sair do corpo, como um rato 
que não consegue escapar da ratoeira? Há 
entre eles quem pense que o mundo foi feito 
para prover de corpo os espíritos que em razão 
de seus erros perderam a pureza recebida ao 
serem criados, tendo sido a primeira criação 
exclusivamente incorpórea. E, segundo sua 
espiritualidade, se encaram tais corpos em 
condições mais ou menos penosas ou fáceis. 
Assim o espírito, que por causa da magnitude 
de suas culpas se encarnou no sol, devia ter 
uma quantidade absurda de pecados. 

As consequências resultantes afinal de 
nossa investigação comportam algo inespe- 
rado. Ocorre-nos o que, no dizer de Plutarco, 


278 Lucrécio. 
277 Td. 


se verifica quando nos reportamos às remotas 
origens da história: descobrimos que os mapas 
mostram as terras conhecidas confinando com 
pantanais, florestas imensas, desertos e lugares 
inabitáveis; assim também os que se ocupam 
dessas altas indagações e querem ver mais 
longe, são vítimas de sua curiosidade e sua 
presunção, e se expõem aos mais grosseiros € 
pueris devaneios. O fim e o começo dessa ciên- 
cia participam igualmente da tolice. Vede Pla- 
tão, elevando-se e pairando nas suas nebulosas 
concepções poéticas; vede o jargão que põe na 
boca dos deuses; em que pensava, quando defi- 
niu o homem como um bipede sem penas, for- 
necendo oportunidade a seus adversários de 
motejá-lo prazenteiramente? Pois, arrancando 
as penas de um capão, passeavam-no dizendo; 
“eis um homem de Platão”. 

E os epicuristas! Que simplicidade de sua 
parte em andarem a proclamar que o mundo 
provinha dos átomos, e a apresentar estes 
como corpos ponderáveis e sujeitos a um 
movimento natural perpendicular ! Essa hipó- 
tese fez que seus adversários objetassem que 
em semelhantes condições os ditos átomos não 
poderiam juntar-se nem se agrupar, porquanto 
sua queda obedecia a linhas verticais e retas, 
sempre paralelas. Essa objeção forçou-os a 
acrescentar à sua descrição a possibilidade, 
para os átomos, de um movimento oblíquo, 
fortuito, e a dotá-los de caudas curvas como 
garras que lhes permitiam se agarrassem e se 
amarrassem uns aos outros. O que não impe- 
diu que seus contraditores os embaraçassem 
ainda, indagando como, “se os átomos, por 
efeito do acaso, produziram tantas coisas de 
formas diversas, nunca ocorreu que cons- 
truíssem uma casa ou fizessem um sapato? E, 
ainda, por que não admitir que as letras gregas 
espalhadas ao acaso, em número infinito, che- 
gassem a formar o texto da “Iliada”?” 


Tudo o que é capaz de razão, diz Zenão, é 
melhor do que o que não o é; nada há melhor 
do que o mundo, logo o mundo é capaz de 
razão. Cota, empregando a mesma argumenta- 
ção, faz o mundo matemático; e também músi- 
co e tocador de órgão, aplicando-lhe este outro 
raciocínio, igualmente de Zenão: “o todo é 
mais do que a parte; somos capazes de sabedo- 
ria e parte do mundo, logo o mundo é sábio”. 
Encontram-se portanto nas críticas que os filó- 
sofos dirigem uns aos outros, discutindo acer- 
ca de suas divergências, inúmeros exemplos de 
raciocínios semelhantes, não apenas falsos, 
mas ineptos, indefensáveis e denunciadores da 
ignorância e da temeridade de seus autores. 

Quem, com competência, andasse a compul- 
sar todas as asneiras que emanam da sabedo- 
ria humana, assombraria os outros. Eu 


ENSAIOS — II 


mesmo, apresentando algumas, a título de 
amostra, faço obra mais útil do que disser- 
tando a respeito. Podemos julgar por elas em 
“que estima devemos ter o homem, seu bom 
senso e sua razão, desde que, mesmo nos 
personagens que tão alto elevaram a inteli- 
gência humana, se encontram defeitos tão visi- 
veis e grosseiros. 

Quanto a mim, prefiro crer que esses filóso- 
fos só se ocuparam de ciência ocasionalmente, 
como divertimento. Usaram a razão como 
instrumento frivolo e vão, avançando toda 
espécie de idéias estranhas, ora com seriedade, 
ora com ironia. Esse mesmo Platão, que define 
o homem como definiria uma galinha, diz, de- 
pois de Sócrates, em outro trecho de sua obra, 
que, em verdade, não sabe o que seja o homem, 
“uma das peças do mundo mais dificeis de 
conhecer”. Tais opiniões variáveis e instáveis 
constituem uma confissão tácita, mas evidente, 
de sua vontade de não sair da indecisão. Esfor- 
çam-se os filósofos para que seu modo de ver 
nem sempre apareça com nitidez; escondem- 
no sob as folhagens que lhes oferecem a fábula 
e a poesia, ou sob outra máscara qualquer, 


pois nossa imperfeição faz que a carne crua. 


nem sempre convenha a nosso estômago e se 
deva deixá-la alterar-se, corromper-se. Assim 
agem; obscurecem por vezes suas opiniões e 
seus juízos, falsificam-nos para colocá-los ao 
alcance de todos. Não querem pronunciar-se 
francamente acerca da ignorância e da fragili- 
dade da razão humana para não fazer medo às 
crianças, mas as revelam suficientemente sob a 
aparência de sua ciência confusa e contradi- 
tória. 

Quando eu: estava na Itália, aconselhei a 
alguém que nãó sabia italiano que se ativesse, 
se desejava ser compreendido sem pretender 
empregar uma linguagem correta, às palavras 
latinas, francesas, espanholas ou gasconhas 
que, para lhe exprimir o pensamento, lhe vies- 
sem aos lábios, acrescentando-lhes simples- 
mente uma terminação italiana. Assim se 
encontrariam por certo com algum dos idio- 
mas do país, o toscano, o romano, O venezia- 
no, O piemontês, ou o napolitano. Direi o 
mesmo da filosofia. Tem tantas formas dife- 
rentes e tanto falou, que abarcou todos os nos- 
sos sonhos e devaneios. A fantasia humana 
nada mais pode conceber que não se depare 
nela: “nada se dirá, por mais absurdo, que não 
tenha sido dito por algum filósofo”? 78. Isso 
me proporciona maior liberdade ainda para 
divagar publicamente, tanto mais quanto, em- 
bora emanando de mim só, e sem que ninguém 
mos tenha sugerido, meus propósitos terão 


278 Cícero. 


257 


sempre alguma relação com outros já manti- 
dos e não faltará quem diga um dia: eis de 
onde os tirou. 

Minhas idéias são o que as fez a natureza. 
Para formá-las procurei não seguir nenhuma 
regra; e no .entanto, por fracas que sejam, 
quando as quis exprimir e publicar nas melho- 
res condições possíveis, achei de meu dever 
apoiá-las em raciocínios e exemplos, e maravi- 
lhei-me com perceber a que ponto se amoldam 
a inúmeros raciocínios filosóficos. A que dou- 
trina se ligam? Só o soube depois de as expor 
e julgar do resultado: pertenço a uma nova 
espécie, sou um filósofo que se tornou filósofo 
por acaso e sem premeditação. 

Mas voltemos à alma. É provável que, colo- 
cando a razão no cérebro, a cólera no coração, 
a cobiça no figado, Platão tenha antes inter- 
pretado os movimentos da alma do que indi- 
cado uma divisão e uma distinção a exemplo 
do corpo. A mais verossímil dessas opiniões 
todas é a de que a alma é uma só; que tem, por 
si, a faculdade de raciocinar, recordar, com- 
preender, julgar, desejar, e que todas as demais 
operações ela as exerce por intermédio das 
diferentes partes do corpo, como o piloto diri- 
ge seu navio segundo sua experiência, ora rete- 
sando ou relaxando uma corda, ora erguendo 
uma vela ou se servindo do remo. É igualmente 
provável que a alma se aloje no cérebro; isso 
decorre do fato de que os ferimentos e aciden- 
tes que afetam esse órgão repercutem de ime- 
diato nas faculdades da alma. É natural admi- 
tir-se que do cérebro ela se expanda pelo 
corpo, assim como o sol projeta sua luz e sua 
fecundidade fora do céu e as derrama sobre o 
mundo: “O sol, em seu curso, não se afasta ja- 
mais do meio do céu e no entanto tudo ilumi- 
na com seus raios”2?º. “A outra parte da 
alma, espalhada pelo corpo, está submetida e 
obedece as ordens superiores da inteligên- 


cia”? 80 


Houve quem afirmasse haver uma alma ori- 
ginal, princípio de todas as outras, algo como 
um grande corpo de que se extraem as almas 
particulares e ao qual estas retornam para se 
fundirem nesse meio continuamente reconsti- 
tuído: “Deus circula através das terras e mares 
e profundezas dos céus; outorga aos homens, 
animais domésticos, feras, ao nascerem, o 
sopro que os anima; a partir de então nenhum 
pode perecer e todos devem prestar contas de 
seu ser ao grande todo de que emanam”281. 
Outros asseveraram que elas ali se juntavam 
tão-somente; outros que eram produtos da 


27º Horácio. 
280 Tucrécio. 
281 Virgílio. 


258 MONTAIGNE 


substância divina: outros, aque provêm dos 
anjos e são constituídas pelo fogo e a água; 
uns, que desde sempre existiram; outros, que 
são criadas quando necessário; outros, que 
vêm da lua e para lá voltam. Em geral os anti- 
gos acreditavam que eram engendradas de pai 
a filho, como tudo o que se encontra na nature- 
za. Em apoio dessa hipótese invocavam a 
semelhança dos pais com os filhos: “a virtude 
de teu pai a ti se transmitiu com a vida... os 
fortes engendram os fortes”2º2: e também que 
os pais transmitem aos filhos, não somente 
certos caracteres do corpo, como ainda algo de 
seu temperamento, de seu espírito: “Por que o 
leão transmite a ferocidade à sua raça? Por 
que a malícia é hereditária nas raposas? O 
medo, nos veados?... senão porque a alma 
tem seu próprio germe e se desenvolve junto 
com o corpo?” 283 Davam ainda como razão 
basear-se a justiça divina, para punir os filhos, 
nos erros dos pais; Os vícios destes, por contã- 
gio, manchariam a alma daqueles, atuando os 


desregramentos de uns sobre os outros. 

Acrescentavam que se as almas tivessem 
outra origem que não essa natural, se fossem 
outra coisa fora do corpo com o qual se engen- 
dram, recordariam sua condição primeira, 
dadas as faculdades de discorrer, raciocinar € 
lembrar de que são dotadas: “se a alma se insi- 
nua no corpo quando do nascimento deste, por 
que não nos lembramos do passado? Por que 
não conservamos nenhum vestígio de nossos 
atos anteriores 2 28 4 

Admitir essa hipótese é supor que nossas 
almas já possuem toda sua ciência quando 
ainda em sua simplicidade e pureza naturais; 
mas se assim é, estão livres de não se aprisio- 
narem em um corpo, pois para que a reencar- 
nação, se antes de entrar em seu novo corpo já 
seriam como o serão ao sairem? E, fora preci- 
so ainda que se lembrassem, durante a sua 
nova vida, do que conheceram na existência 
anterior, porquanto aprender não é, no dizer de 
Platão, senão murmurar o que soubemos. Ora, 
todos sabem, por experiência própria, que uma 
tal assertiva é falsa. Em primeiro lugar porque, 
precisamente, não nos lembramos do que 
aprendemos e que, se a memória cumprisse sua 
tarefa, nos sugeriria alguma coisa mais do que 
o que sabemos de início. Em segundo lugar, a 
ciência que a alma possuiria, seria a ciência 
perfeita, de sorte que, graças à sua divina 
inteligência, conheceria todas as coisas na sua 
realidade. Ora, acontece que se num ponto ou 
noutro lhe ensinam a mentira ou o vício, ela os 
retém, não tendo nenhuma reminiscência a 


282 Horácio. 
283 Tucrécio. 
28 4 Td. 


| 


opor-lhes porque a imagem e a concepção da 
verdade nunca entraram nela. 

Não se poderia dizer que sua prisão no 
corpo abafa suas qualidades inatas, a ponto de 
as extinguir; seria antes de tudo contrário a 
essa outra crença que lhe empresta um poder 
considerável e tão admirável ação sobre o 
homem, nesta vida, que disso fizeram uma 
divindade eterna desde sempre e para sempre: 
“e se a mudança é tão grande que a alma não 
guarde lembrança do que fez, seu estado, pare- 
ce-me, difere bem pouco da morte”?8 8. 

Por outro lado, no caso que nos interessa, 
são os efeitos produzidos em nós, e não alhu- 
res, pela ação da alma que se devem ponderar. 
Todas as suas demais perfeições são supérfluas 
e inúteis; pelo seu estado presente é que se deve 
reconhecer sua imortalidade, não sendo ela 
responsável senão pela vida do homem ao qual 
se une. Seria injusto, depois de tirar-lhe os 
meios de ação, e desarmà-la, julgá-la e conde- 
ná-la a um castigo de duração exagerada, per- 
pétua, pelo tempo que permanece fechada em 
sua prisão, fraca e enferma, constantemente 
sob o efeito do constrangimento que lhe impu- 
seram. Determinar-lhe a sorte em vista de tão 
curto tempo, por vezes uma hora ou duas, eno 
máximo um século, um instante enfim compa- 
rado com a eternidade, e por causa desse 
momento dela dispor para sempre, seria esta- 
belecer uma desproporção entre a causa e o 
efeito, tão iníqua quanto lhe atribuir uma 
recompensa eterna pelos méritos de tão curta 
existência. Atentando para essa desproporção, 
quer Platão que o que nos aguarda após a 
morte tenha uma duração de cem anos, em 
relação com a vida humana. Numerosos dou- 
tores nossos estabeleceram igualmente limites 
a tais provações. 


Em suma, a crença geral era de que a alma 
nasce e vive nas mesmas condições que o 
homem. Era opinião de Epicuro e Demócrito, 
e a mais facilmente aceita, que a alma nascé 
com o corpo no momento adequado, suas for- 
ças, juntamente com as forças físicas do indivi- 
duo; que constatamos sua fraqueza durante a 
infância e vemos seu vigor e sua maturidade se 
ampliarem com o tempo, e seu enfraqueci- 
mento sobrevir na velhice. E enfim sua decre- 
pitude: “sentimos que nasce com o corpo, cres- 
ce e envelhece com ele”288. Percebiam-na 
capaz de diferentes paixões, e de agitações 
penosas, causadoras de lassidão e sofrimento, 
suscetível de alterações e mutações, de alegrias 
e langores E de enfermidades como o pé ou o 
estômago: “vemos que o espírito pode ser tra- 


285 Tucrécio. 
286 Jd. 


ENSAIOS — II 


tado pela medicina e curar-se como um corpo 
enfermo”2º?. Viam-na igualmente perturbada 
e excitada pelo vinho; agitada pela febre, ador- 
mecida sob a ação de alguns medicamentos, 
despertada por outros: “cumpre que a alma 
seja corporal, pois é sensível às sensações do 
corpo”288. Viam-se todas as suas faculdades 
abaladas pela simples mordida de um cão 
doente; e por grande que seja a resolução de 
sua razão, sua inteligência, sua virtude, sua 
energia, nada a isenta de semelhantes aciden- 
tes. A saliva de um cãozinho mau sobre a mão 
de Sócrates pode atingir-lhe a sabedoria e as 
idéias, e as aniquilar sem deixar vestígios: “a 
alma é perturbada, alterada, abalada e partida 
pela ação desse veneno”28º, o qual não encon- 
tra maior resistência em um filósofo do que em 
uma criança de quatro anos, e fora capaz de 
transmitir a raiva a toda a filosofia se esta se 
personificasse em alguém. E assim Catão, que 
triunfou da própria morte e da má sorte, não 
houvera suportado a vista de um espelho ou da 
água e se acabrunharia de pavor se pelo contã- 
gio fosse atingido por essa doença a que cha- 
mam hidrofobia: “o mal, em se expandindo 
pelos membros, ataca a alma com violência, 
como o vento subleva as ondas espumantes do 
nar e: 

Por certo a filosofia armou o homem contra 
o sofrimento resultante de qualquer acidente e 
proveu-o de paciência. E se o mal sobreexcede 
suas forças, fornece-lhe o meio de escapar e se 
tornar insensível. Mas são meios, esses, que só 
estão ao alcance de uma alma forte, segura de 
si, capaz de raciocínio e decisão; são inúteis no 
caso de um filósofo cuja alma se aflija, se per- 
turbe e se perca, como ocorre em diversas 
circunstâncias, pur ocasião de uma paixão vio- 
lenta por exemplo, de algum ferimento em cer- 
tas partes de nosso ser, de exalações estoma- 
cais provocadoras de vertigens ou tonturas: 
“muitas vezes nas doenças do corpo a alma de- 
lira e se expande em discursos sem nexo; ou- 
tras vezes, uma pesada letargia mergulha-a em 
um sono profundo e definitivo. Os olhos cerra- 
ram-se, a cabeça pende”2º1. 

Em meu entender, os filósofos não se detive- 
ram muito neste ponto como não o fizeram 
tampouco em outros de importância. Para nos 
consolar de estarmos destinadôs a morrer têm 
sempre nos lábios este dilema: “ou a alma é 
mortal ou é imortal; se é mortal estará isenta 
de sofrimento; se é imortal continuará pelo 
caminho da perfeição”. Não encaram nunca o 


287 Lucrécio. 
288 Td. 
289 Td, 
290 Td. 
291 Td. 


259 


outro caso: “que acontecerá se for sempre 
piorando?” E deixam aos poetas o cuidado de 
nos entreter acerca das penas futuras. Com 
isso vão sustentando facilmente seus sistemas. 
São omissões que não raro observei em seus 
diálogos. Mas vejamos a primeira dessas 
proposições: a alma é mortal. 


A alma perde em certas circunstâncias o uso 
da constância e da resolução que os estóicos 
consideram seus soberanos bens. Cumpre à 
nossa sabedoria dar-se então por vencida. A 
esse propósito, a vaidade, inerente à razão 
humana, levava a considerar não admissíveis a 
mistura e a coexistência de duas condições 
antagônicas, como a do mortal com a do imor- 
tal: “é loucura unir o mortal ao imortal, imagi- 
ná-los de acordo, em um todo harmônico. Que 
haverá, com efeito, mais distinto, mais contrá- 
rio do que essas duas substâncias, uma perecí- 
vel, a outra indestrutível, que pretendeis reunir 
para as expor juntas aos mais terríveis 


desastres ?2”292 bata 
Com maior convicção observavam que na 


hora da morte acabam o corpo e a alma: “ela 
sucumbe com ele sob o peso dos anos”2º3, do 
que, segundo Zenão, temos uma idéia no sono, 
que é uma debilitação e uma queda da alma 
como a do corpo. Se em alguns a alma con- 
serva sua força e seu vigor no declínio da vida, 
isso se explica, dizem, pela diversidade das 
doenças. Se, como se vê, certos homens con- 
servam intato até o fim de seus dias algum de 
seus sentidos, é porque o enfraquecimento não 
se generaliza sempre: partes do organismo per- 
manecem perfeitas: “assim como os pés podem 
adoecer sem que a cabeça sofra”2º *. 

Nosso julgamento encara a verdade como o 
morcego contempla o esplendor do sol, diz 
Aristóteles. Nada temos melhor do que essa 
cegueira para penetrar tao esplendente luz; 
pois a opinião contrária, que defende a imorta- 
lidade da alma e que foi, segundo Cícero e os 
livros, ventilada pela primeira vez por Fereci- 
des, de Siro, contemporâneo de Tulo (e que ou- 
tros atribuem a Tales, e outros, a outros), sem- 
pre constitui objeto de reservas e de dúvidas. 
Os mais intransigentes dogmáticos vêem-se 
neste ponto forçados a colocar-se sob a prote- 
ção da Academia. Ninguém sabe o que pensa- 
va Aristóteles a respeito, nem em geral os filó- 
sofos antigos, os quais não dão idéia muito 
precisa do assunto: “promessa, evidentemente 
agradável, de um bem cuja certeza não se 
prova”2º 8, Ele dissimula seu pensamento sob 
uma nuvem de palavras, cujo sentido é obscu- 


292 Tucrécio. 
293 Td. 
294 Id. 
295 Sêneca. 


260 


ro e pouco inteligível, deixando a seus partidá- 
rios discutir seu juízo tanto quanto a própria 
matéria. 

Duas coisas militavam em favor dessa opi- 
nião. Uma era que sem a imortalidade da alma 
não haveria mais sobre que assentar as vas 
esperanças de glória que são um estimulante 
admirável neste mundo. Outra, que se tratava 
de uma crença salutar, como diz Platão, pois 
os vícios que escapam ao conhecimento da jus- 
tiça humana, não se sonegam assim à justiça 
divina, a qual os pune mesmo depois da morte 
do culpado. O homem cuida muito de prolon- 
gar sua existência. Tudo dispõe para tanto: a 
conservação do corpo na sepultura; a de seu 
nome na glória. Preocupado com o que pode- 
ria ocorrer, fez tudo o que lhe veio à mente 
para se reconstruir e consolidar sua presença 
na terra. Não podendo a alma, em razão de 
sua fraqueza, encontrar a calma, busca por 
toda parte consolo, esperança, apoio. Prende- 
se a circunstâncias estranhas a si mesma, e não 
as abandona. Por insignificantes ou fantasistas 
que sejam, nelas se aloja e repousa de preferên- 
cia. E de espantar que os partidários mais 
convencidos dessa idéia tão justa e clara da 
imortalidade da alma tenham sido tão incapa- 
zes de prová-la com o simples auxílio da razão 
humana: “São sonhos de um homem que dese- 
ja mas não acha”2º.8. Pode o homem deduzir, 
portanto, que deve ao acaso a verdade que por 
si mesmo descobre, pois mesmo nos momentos 
em que a tem nas mãos carece de meios para 
apreendê-la e conservâ-la. Tudo o que produ- 
zem nossa razão sozinha e nossa inteligência, 
tanto o verdadeiro como o falso, está sujeito à 
incerteza e à discussão. É para nos punir de 
nosso orgulho e fazer-nos sentir nossa miséria 
e nossa impotência que Deus suscitou a confu- 
são da torre de Babel. Tudo o que empreen- 
demos sem que Sua graça nos ilumine não 
passa de vaidade e loucura. À própria essência 
da verdade, uniforme entretanto e constante, 
nós a corrompemos e ela degenera em virtude 
de nossa fraqueza, quando a sorte no-la ofere- 
ce. Qualquer que seja o caminho seguido, 
Deus o leva à confusão, cuja imagem viva 
temos no castigo que infligiu a Nemrod, 
aniquilando sua va tentativa de construir a 
pirâmide: “confundirei a sabedoria dos sábios 
e reprovarei a prudência dos prudentes”?º 7. 
Que significa a diversidade das línguas que 
falavam os operários e fez abortar a empresa, 
senão o infinito e perpétuo conflito de opiniões 
e raciocínios, inseparável da vã ciência huma- 
na? O que de resto não deixa de ser útil, pois 


296 Cícero. 
297 São Pauio. 


MONTAIGNE 


quem nos deteria se possuíssemos um átomo 
de ciência! É grande satisfação para mim ver 
um santo assim se exprimir: “as trevas em que 
se envolve a verdade, são um exercício para a 
humildade e um freio para o orgulho”2º8. A 
que grau de insolência e presunção atingem 
nossa cegueira € nosso orgulho ! 

Prossigamos. Nada mais justo e razoável do 
que recebermos só de Deus e por Sua graça 
unicamente a possibilidade de conhecer a ver- 
dade, pois é de Sua liberalidade que auferimos 
o que a imortalidade nos oferece de feliz: a 
beatitude eterna. Confessemos humildemente 
que somente Deus no-la revelou, e a fé no-la 
ensina. A natureza e a razão nada têm a ver 
com isso. E quem, entregue às suas próprias 
forças, empreenda sondar-se por dentro e por 
fora, sem levar em conta a revelação divina, e 
estude o homem sem o embelezar, nada verá, 
em si, de certo, de provável, impelindo a outra 
coisa que não à morte, como fim último. 
Quanto mais damos, devemos e devolvemos a 
Deus, tanto mais nos conduzimos como verda- 
deiros cristãos. O que o filósofo estóico afirma 
provir-lhe de um sentimento fortuito nascido 
em seu espírito, melhor fora que lhe viesse de 
Deus: “quando tratamos da imortalidade da 
alma, procuramos principalmente apoio junto 
aos homens que temem os deuses infernais ou 
os veneram; eu me aproveito dessa crença 
geralmente aceita”2ºº. 

A fraqueza dos argumentos humanos a esse 
respeito revela-se pelas circunstâncias fabulo- 
sas que se acrescentaram a essa opinião a fim 
de se determinar em que condições somos cha- 
mados a gozar a imortalidade. Deixemos de 
lado os estóicos “que dizem que nossas almas 


vivem como corvos: muito, mas não eterna- 
mente”390:e lhe dão uma vida mais ionga que 


a do corpo, mas não ilimitada. A idéia mais 
geralmente aceita, e que em muitos lugares 
chegou até nossos dias, é a de Pitágoras, ao 
que se diz. Não porque a invenção lhe caiba, 
mas porque sua aprovação lhe deu grande peso 
e crédito. Eis a idéia: “As almas, quando nos 
deixam, passam de um corpo a outro; do corpo 
de um leão ao de um cavalo; deste ao de um 
rei; e andam assim de uma residência para 
outra sem cessar.” Pitágoras dizia mesmo, a 
propósito, lembrar-se de ter sido Etálido, mais 
tarde Euforbo, Hermotimo em seguida, e enfim 
Pirro, conservando na memória o que lhe ocor- 


rera em cento e seis anos. Outros acrescen- 
tavam que por vezes essas almas subiam ao 


céu para tornar a descer mais tarde: “Ó meu 
pai, será verdade que hã almas que voltam do 


238 Santo Agostinho. 
298 Sêneca. 
300 Cícero. 


ENSAIOS — II 


céu à terra e revestem uma forma-corpórea”? 
Quem inspira a esses infelizes tão grande dese- 
Jo da vida?” 301 


Orígenes considera que vão e vêm eterna- 
mente, passando de uma condição boa a uma 
condição má. Varro declara que, após uma 
evolução de quatrocentos e quarenta anos, elas 
tornam a unir-se a seu primeiro corpo. Crisipo 
afirma que assim ocorre após um lapso de 
tempo determinado, cuja duração é desconhe- 
cida. Platão (que diz ter recebido de Pindaro e 
dos poetas antigos essa crença), do fato de a 
alma estar sujeita a inúmeras migrações, e de 
não receber no outro mundo senão tristezas e 
recompensas temporais, como na sua vida 
aqui, conclui que ela adquire um conhecimento 
particular das coisas do céu, dos infernos e da 
terra, por onde passou € repassou e de que con- 
servou reminiscências. E explica assim a evo- 
lução: “se a alma viveu no bem, alcança o 
astro que lhe está assinado; se viveu no mal, 
passa para um corpo de mulher; se neste esta- 
do não se corrige, passa para um animal de 
costumes em relação com os seus vícios; e só 
vê o fim de suas penas quando volta a seu esta- 
do primitivo, depois de se haver desembara- 
çado das qualidades grosseiras e estúpidas que 
nela existiam em germe”. Não me furtarei ao 
prazer de transcrever esta divertida objeção 
que apresentavam os epicuristas a uma tal 
transmigração das almas: “que aconteceria se 
o número de mortes excedesse o número de 
nascimentos?” “As almas desalojadas de sua 
residência iriam atropelar-se para se acharem 
em primeiro lugar diante dos novos invólu- 
cros.” E mais: “em que empregariam o tempo 
as que fossem obrigadas a aguardar vagas? 
Por outro lado, se nascem mais animais do que 
morrem, em que situação se achariam os que 
não se provessem de almas? Alguns por certo 
morreriam antes de nascer”. “E ridículo supor 
que as almas já se encontram prontas e à espe- 
ra no momento preciso da cópula dos animais 
ou de seu nascimento e que, substâncias imor- 
tais, se atropelem em torno de um corpo mor: 
tal, disputando entre si o direito de ser a 
primeira” 3º2. Outros filósofos se apoderam da 
alma na hora da morte para insuflá-las nas ser- 
pentes, nos vermes e em outros bichinhos que 
se reproduzem quando o corpo entra em 
decomposição e, até quando já se acha redu- 
zido a cinzas; outros a dividem em duas par- 
tes, uma mortal e outra imortal; outros ainda 
admitem sua imortalidade, embora a julguem 
incapaz de saber e conhecimento. E há os que 
pensam, inclusive entre os cristãos, que as 


301 Virgílio. 
302 TLucrécio. 


261 


almas dos condenados se encarnam em demô- 
nios. Por analogia, Plutarco imagina que as 
almas que se salvam se transformam em deu- 
ses. Há poucos assuntos acerca dos quais esse 
autor se pronuncie com tanta precisão, pois, 
em geral, se exprime de modo ambíguo: “é 
necessário observar”, diz, “e crer efetivamente, 
no que concerne às almas dos indivíduos vir- 
tuosos, que, como é natural e conveniente à 
justiça divina, essas almas transmigram para 
os santos; as dos santos para os semideuses e 
as dos semideuses, depois de depuradas e puri- 
ficadas por sacrifícios expiatórios sem mais a 
obrigação de pagar tributo ao sofrimento e à 
morte, tornam-se, não por ordenação civil mas 
por efeito da razão, deuses inteiros e perfeitos, 
o que constitui, para elas, um fim glorioso e 
feliz”. Quem quiser ver Plutarco, um dos 
autores mais prudentes e sensatos, fazer-se 
campeão dessa tese e contar milagres, poderá 
reportar-se a seus escritos sobre a lua e o 
demônio de Sócrates. Aí verá, de maneira evi- 
dente, como os mistérios da filosofia apresen- 
tam fantasias análogas às da poesia. A inteli- 
gência humana perde-se ao querer tudo sondar 
e controlar a fundo. É o que nos acontece. 
Acabrunhados pelo trabalho executado duran- 
te uma longa existência, voltamos à infância. 
Tais são os belos ensinamentos, impregnados 
de certeza, que a ciência humana nos fornece 
acerca de nossa alma! 

No que diz respeito à parte material de 
nosso ser, não é menos temerária a ciência em 
suas conjeturas. Escolhamos um ou dois exem- 
plos apenas, pois em tudo colher nos perde- 
riamos nesse oceano tão vasto e turvo dos 
erros cometidos pelos médicos. Vejamos se, 
pelo menos, reina harmonia acerca da maneira 
pela qual os homens se reproduzem, pois quan- 
to à sua criação inicial a coisa remonta tão 
longe na antiguidade que não há como estra- 
nhar não possa o espírito humano pronunciar- 
se. O físico Arquelau (ou Archelau), de quem 
Sócrates foi discípulo e favorito, segundo Aris- 
tóxeno, pensava que os homens e os animais 
eram engendrados por um barro leitoso produ- 
zido pela ação do fogo interno da terra; Pitá- 
goras pensa que o sêmen, de que provimos, é a 
espuma do que há de melhor em nosso sangue; 
Platão diz que se trata de um escorrimento da 
coluna vertebral e dá como prova sentir-se 
nesse ponto a fadiga da tarefa fecundadora; 
Aleméon acha que é uma parte da substância 
de que se constitui o cérebro, e o comprova 
pelo enfraquecimento da vista nos que abusam 
da cópula; Demócrito considera que seja uma 
substância extraída de tudo o que entra na 
composição do corpo; Epicuro, que essa subs- 
tância se extrai da alma e do corpo; Aristóte- 


262 MONTAIGNE 


les, que é uma secreção proveniente do sangue 
e a última a expandir-se pelos membros; ou- 
tros vêem nessa secreção sangue cozido e justi- 
ficam sua opinião com o fato de por vezes apa- 
recerem gotas de sangue no pênis quando há 
por demais esforço em suas funções, e é a 
hipótese mais plausível, se algo pode ser plau- 
sível nessa infinidade confusa de opiniões. 

E quantas idéias diferentes acerca da manei- 
ra por que atua esse sêmen! Aristóteles e 
Demócrito acham que a mulher não segrega 
esperma, mas tão-somente um suor resultante 
do calor que desenvolve nela o prazer, suor 
que não teria aliás nenhum papel na fecunda- 
ção. Ao contrário, Galeno e seus discípulos 
pensam que essa fecundação só se efetua quan- 
do o que provém do homem se mistura ao que 
vem da mulher. 

Finalmente, qual o tempo da gestação? 
Nesta questão os médicos, os filósofos, os 
Jurisconsultos e os teólogos voltam-se para a 
mulher. No que me concerne, posso apoiar os 
que sustentam durar a gravidez onze meses. 

Assim, em tais divergências assenta o 
mundo ! Eis assuntos a cujo respeito qualquer 
mulherzinha daria um palpite e no entanto são 
objeto de contestações infindáveis! 

Basta isso para mostrar que o homem sabe 
tão pouco de seu corpo quanto de sua alma. 
Submetemo-lo a seu próprio julgamento, para 
ver onde o conduziria sua razão. Parece-me 
que provamos suficientemente a que ponto 
entende pouco de si mesmo. E quem não enten- 
de de si, de que há de entender? “Como se 
quem ignora a própria medida pudesse sequer 
medir alguma coisa” 203. Na verdade, Protá- 
goras mostrava-se fantasista ao escolher o 
homem para medida de todas as coisas, o 
homem que jamais conheceu sua própria medi- 
da. Por outro lado sua dignidade não permite 
que outorgue tal vantagem a outra criatura. 
Como estã em contradição permanente consi- 
go mesmo, e suas apreciações se destroem 
mutuamente, propô-lo como medida não pode 
passar de brincadeira, porquanto nos levaria 
necessariamente a concluir pela incapacidade 
do compasso e de quem o manuseia. Tales, 
achando que o conhecimento do homem pelo 
homem é muito difícil, mostra ser-lhe impos- 
sível o conhecimento de qualquer outra coisa. 


Dei-me ao trabalho de, contra meus hábitos, 
estender-me a esse respeito por vossa'º * 
causa, mas vós não deveis deixar de defender 
as proposições de Sebond com a argumentação 
habitual e que se encontram nas instruções que 
cotidianamente recebeis. Isso exercitará vosso 


303 Piínio. 
304 Margarida de Valois. 


| 
espirito e vos parecerá um objeto interessante 
de estudo. Quanto ao método de discussão que 
venho empregando, cumpre só recorrer a ele 
em última instância; é em caso de desespero 
que largamos nossas próprias armas para usar 
as do adversário; é golpe secreto que cabe uti- 
lizar raramente e com discrição. Perder-se 
para levar alguém à perdição é coisa temerá- 
ria, não se deve querer morrer a fim de assegu- 
rar uma vingança, como fez Gobrias: em luta 
corpo a corpo com um nobre persa, ao ver 
Dario acorrer de espada em punho, gritou-lhe 
que desfechasse o golpe embora os matasse a 
ambos. Vi considerarem iníquos duelos cujas 
condições e armas empregadas levavam neces- 
sariamente a um resultado fatal e à morte de 
ambos os adversários. Os portugueses haviam 
aprisionado vários turcos no mar das Índias, 
estes ansiosos por se libertarem resolveram 
incendiar os navios, destruindo com o mesmo 
seus senhores e eles próprios, e o fizeram com 
dois pregos esfregando-os um no outro até que 
a faísca atingisse um barril de pólvora. 
Alcançamos assim os limites da ciência. 
Como a virtude, ela falha nesses pontos extre- 
mos. Ficai no caminho habitual, não vos con- 
vém tanta sutileza e finura. Lembrai-vos a pro- 
pósito do provérbio: “quem  sutiliza 
demasiado, pulveriza-se”3º 8 Aconselho-vos 
moderação € reserva nas opiniões que emitis, e 
nos raciocínios tanto quanto nos costumes; 
evitai a novidade e a originalidade; tudo o que 
é extravagante, irrita-me. Vós que, pela autori- 
dade de vossa condição social e, mais ainda, 
pelas vantagens que vos outorgam vossas qua- 
lidades pessoais, podeis mandar em quem vos 
compraz, fora preferível que houvésseis con- 
fiado a tarefa por mim cumprida a alguém que 
fizesse da literatura sua ocupação normal. Ele 
vos teria, muito melhor do que eu, informado e 
documentado a respeito. Contudo já se me afi- 
gura suficiente, para o vosso fim, o que se fez. 
Epicuro dizia, das leis, que mesmo as piores 
nos são tão necessárias que sem elas os ho- 
mens se devorariam entre si. E Platão con- 
firma que sem leis viveriamos como bichos. 
Nosso espírito é um instrumento descontro- 
lado, perigoso e temerário; é difícil usá-lo com 
ordem e medida. Não vemos em nossa época, 
os que são superiores aos outros, ou possuem 
alguma vivacidade excepcional, desmanda- 
rem-se em licenças nas suas opiniões e em seus 
atos? Só por milagre se encontra alguém 
moderado e sociável. É justo oporem-se ao 
espírito humano as barreiras mais estreitas 
possíveis; nos estudos a que ele se entrega, 
como no resto, cumpre regular-lhe o passo. É 


305 Petrarca. 


ENSAIOS — II 263 


preciso delimitar-lhe com arte o terreno da 
caça. Freiam-no, amarram-no, com a religião, 
as leis, os costumes, a ciência, os preceitos, os 
castigos, € as recompensas passageiras e eter- 
nas; escapa, assim mesmo, a todos os obstá- 
culos pela facilidade que tem de se mover e ilu- 


dir. É um corpo sem consistência que não 


podemos segurar, reter; um corpo de múltiplas 
formas mal definidas e que não apresenta por 
onde se pegar. 

Há por certo bem poucas almas, tão disci- 
plinadas e fortes, e nobres, em cuja conduta 
possamos confiar e que, entregues a seu pró- 
prio juízo, sejam capazes de navegar com 
prudência, sem temeridades, fora das idéias 
comumente aceitas; é mais garantido tutelá- 
las. É o espírito perigosa adaga, mesmo para 
quem o possui, se dele não se utiliza com opor- 
tunidade e prudência; não há animal que me- 
lhor justifique a necessidade de tapa-olhos, 
para que veja por onde caminha e não saia da 
trilha que os usos e as leis traçaram. Por isso, 
o que quer que se alegue, será sempre prefe- 
rível seguir a estrada batida a lançar-se nessas 
discussões que acarretam graves licenças. Se, 
no entanto, algum desses novos doutores 
empreendesse brilhar a expensas de vossa sal- 
vação e da dele, para vos desfazerdes dessa 
perigosa peste que hoje tudo contagia na 
Corte, os argumentos que vos apresento pode- 
rão servir de paliativo, impedindo que o vene- 
no vos atinja, a VÓS € aos vossos. 


A liberdade e a ousadia de que se valiam os 
antigos nas obras do espírito fizeram que, 
naturalmente, várias seitas se constituíssem na 
filosofia e em todos os ramos da ciência huma- 
na, cada qual se outorgando o direito de julgar 
e escolher. Mas agora que todos seguem igual 
caminho, “presos a certos dogmas de que não 
podem livrar-se, todos são obrigados a defen- 
der-lhes as consegiiências, ainda que os não 
aprovem”3º 8: agora que as questões relativas 
às artes*º7 são reguladas por ordenações, a 
ponto de se submeterem as escolas todas a um 
só orientador, e que tais instituições estão 
sujeitas a determinada disciplina, não se olha 
mais o que vale e pesa a moeda, mas tão-so- 
mente se está em circulação. Não se discute se 
é falsa ou não, mas apenas se a aceitam. E 
assim ocorre com tudo. O ensino da medicina 
não se discute mais do que o da geometria; 
nem tampouco se discutem as mágicas dos 


prestidigitadores, o comércio com as almas . 


dos mortos, as práticas da astrologia, e até 
essa ridícula procura da pedra filosofal; tudo 
se admite hoje sem oposição. Basta-nos saber 


306 Cícero. 
307 Ao ensino, em particular da filosofia. 


que Marte se localiza no triângulo formado 
pelas linhas da mão, Vênus, no polegar e Mer- 
cúrio, no mindinho: se a linha do destino se 
prolonga até a protuberância do indicador, é 
sinal de crueldade; se pára no pai-de-todos e a 
linha da cabeça faz com a da vida um ângulo à 
mesma altura, é sinal de morte violenta; se na 
mulher essa linha da cabeça não cruza a linha 
da vida, tem-se um indício de sua inclinação 
para os prazeres da carne. Com uma tal ciên- 
cia, tomo-vos como testemunha, um homem 
não pode deixar de adquirir reputação e ser 


favoravelmente recebido na sociedade. : 
Dizia Teofrasto que o saber do homem guia- 


do pelos sentidos podia até certo ponto discer- 
nir as causas das coisas; mas que se remon- 
tasse às causas primeiras e essenciais devia 
parar, em virtude de sua fraqueza e das dificul- 
dades com que depararia. É mais agradável a 
opinião intermediária segundo a qual nosso 
saber pode levar-nos ao conhecimento de cer- 
tas coisas, mas nossa perspicácia tem limites 
além dos quais é-lhe temerário aventurar-se. É 
uma maneira de ver plausível e proposta por 
gente sensata. Mas não é fácil assinar limites a 
nosso espírito; ele é curioso e ávido, e consi- 
dera não dever deter-se a cinquenta passos em 
lugar de mil, porquanto a experiência lhe mos- 
trou que se um se malogra outro vence; que o 
que era desconhecido em dado século, conhe- 
cido se tornou no século seguinte; que as artes 
e as ciências não se moldam de uma só vez, 
mas se constituem aos poucos e tomam forma 
em sendo sem cessar manuseadas e polidas; 
assim o filhote do urso se forma em sendo sem 
cessar lambido pela ursa. Não deixo de sondar 
e verificar o que minha capacidade não conse- 
gue descobrir; e, em amassando essa matéria 
nova, virando-a e aquecendo-a, dou a quem 
vem depois certa facilidade em tirar dela parti- 
do, fazendo-a mais flexível e manuseável: 
“assim a cera do Himeto que amolece ao sol e, 
amassada pelo polegar, toma mil formas e tor- 
na-se mais manuseável pelo uso”3º8, O 
mesmo fará o segundo para o terceiro, e disso 
resulta que não devo desesperar de minha inca- 
pacidade, a qual é somente minha. 

O homem e capaz de tudo e de nada. Se con- 
fessa, como Teofrasto, sua ignorância das cau- 
sas primeiras e dos princípios, que renuncie à 
ciência, pois, em lhe faltando a base, seu racio- 
cínio ruirá por terra. Discutir e investigar não 
têm outro objetivo senão os princípios; se não 
os atinge, tudo redunda em incerteza: “uma 
coisa não pôde ser mais compreendida do que 
outra, porque a compreensão é uma só para 
todas”3ºº. Se a alma tivesse conhecimento de 


308 Ovídio. 
309 Cicero. 


264 


alguma coisa, é provável que seria primeira- 
mente dela mesma; se conhecesse algo exterior 
a ela, seria antes de tudo seu corpo, seu estojo; 
e, no entanto, até agora os deuses da medicina 
ainda lhe discutem a anatomia: “se Vulcano 
era contra Tróia, Tróia tinha a seu favor 
Apolo”31º. Até quando deveremos esperar 
que se ponham de acordo! Estamos mais pró- 
ximos de nós que a brancura da neve ou o peso 
da pedra; se o homem não se conhece a si 
mesmo, como pode conhecer sua força e por 
que se encontra na terra? É por acaso que 
temos alguma noção da verdade, e como é 
igualmente por acaso que o erro penetra nossa 
alma, não somos capazes de distinguir o certo 
do errado, nem escolher entre um e outro. 

Eram os acadêmicos mais prudentes em seu 
juízo acerca de nossa ignorância. Achavam 
demasiado categórico dizer “que não é mais 
provável ser a neve branca do que preta”, nem 
que não tivéssemos mais certeza do movi- 
mento de uma pedra que atiramos do que da 
oitava esfera. Para obviar a essa dificuldade, 
que não pode realmente alojar-se em nossa 
imaginação, embora estabelecessem que éra- 
mos absolutamente incapazes de saber o que 
quer que seja, e que a verdade se enterra nos 
mais profundos abismos, onde a vista humana 
não penetra, reconheciam que algumas coisas 
podem apresentar maior aparência de verdade 
do que outras; por isso admitiam que houvesse 
preferência, mas não solução. Os pirrônicos 
eram mais ousados em sua opinião e ao 
mesmo tempo pareciam mais próximos da ver- 
dade; pois que significa essa propensão dos 
acadêmicos a preferir uma proposição a outra, 
senão que há aparência maior de verdade 
numa mais do que na outra? Ora, se nosso 
espírito é capaz de perceber a forma, os traços, 
a estatura da verdade, pode vê-la inteira tanto 
quanto pela metade, em embrião e imperfeita. 
Essa aparência de verdade, que nos induz a 
tomar antes pela direita do que pela esquerda, 
ampliemo-la; essa onça de probabilidade que 
já fez inclinar a balança, multipliquemo-la por 
cem ou mil, e a balança desequilibrar-se-á 
definitivamente e nossa escolha se fará porque 
a verdade há de aparecer em seu todo. 

Mas como podem admitir a verossimilhança 
se ignoram o que seja a verdade? Como saber 
se uma coisa se assemelha a outra cuja essên- 
cia desconhecemos? Ou podemos emitir um 
juízo preciso ou não o podemos absoluta- 
mente. Se falta a base de nossas faculdades 
intelectuais e suscetíveis de sentir, se elas não 
assentam em nada, se flutuam ao sabor dos 
ventos, nosso juízo não nos conduzirá a coisa 


310 Ovídio. 


MONTAIGNE 


alguma, quaisquer que sejam o objeto e as 
aparências. O mais certo e seguro seria que 
nosso entendimento se mantivesse sereno e 
inflexível: “entre as aparências verdadeiras ou 
falsas, nada determina o assentimento da 
alma”?11. Que as coisas não se alojam em nós 
com sua forma e sua essência, impondo-se por 
si mesmas e com sua autoridade, bem o sabe- 
mos; pois se assim fosse tudo produziria em 
todos a mesma impressão; o vinho teria o 
mesmo gosto na boca de um doente e de um 
homem são, quem tivesse os dedos adorme- 
cidos pelo frio acharia o ferro que maneja tão 
duro quanto quem não os tivesse. As coisas 
exteriores a nós alojam-se pois em nós como 
nos compraz recebê-las. Por outro lado, se o 
que recebemos o aceitássemos sem o alterar; 
se os meios de que dispõe a humanidade fos- 
sem suficientes para apreendermos a verdade 
sem recorrer a elementos estranhos; em sendo 
esses meios conhecidos de todos, a verdade 
transmitir-se-ia de mão em mão, de uns a 
outros, e aconteceria que, em tão grande núme- 
ro, uma coisa houvesse ao menos em que, por 
consenso universal, todos acreditassem. Ora, O 
fato de não haver proposição que não seja dis- 
cutida e controvertida ou não o possa ser, mos- 
tra muito bem que, abandonado a si mesmo, 
nosso julgamento não apreende claramente o 
que apreende, porquanto o meu julgamento 
não consegue que o de meu vizinho o aceite, o 
que prova nitidamente que o concebo por ou- 
tros meios que não os decorrentes de uma 
força de concepção de que a natureza nos hou- 
vesse a todos dotado igualmente. 

Deixemos de lado essa infinita confusão de 
opiniões, encontradiça entre os próprios filóso- 
fos, e essa perpétua e universal discussão acer- 
ca do conhecimento que temos das coisas, pois 
é evidente que os homens, e os mais sábios e 
sinceros, e os mais capazes, não estão de acor- 
do acerca de nada, nem mesmo em que o céu 
se encontra acima de nossas cabeças, por- 
quanto os que duvidam de tudo duvidam disto 
também. E os que negam possamos com- 
preender o que quer que seja, negam que 
compreendamos estar o céu nessa posição. E 
essas duas opiniões, consistindo uma em duvi- 
dar e outra em negar, são as mais fortes. Além 
dessa inumerável diversidade de opiniões, é 
fácil verificar, pela confusão em que nos joga e 
a incerteza que todos sentem, que nosso julga- 
mento não tem fundamento sólido. Quantas 
vezes julgamos diversamente as coisas? Quan- 
tas vezes madamos de idéias? O que hoje ad- 
mito e creio, admito e creio na medida do pos- 
sível; todas as nossas faculdades, todos os 


211 Cícero. 


ENSAIOS — II 


nossos órgãos se apossam dessa opinião e por 
ela respondem quanto podem; não poderia 
aceitar outra verdade nem a conservar com 
maior convicção; a ela dei-me por, inteiro. Mas 
não me aconteceu, e não uma vez porém cem 
ou mil, e diariamente, ter aceito do mesmo 
modo alguma coisa que posteriormente consi- 
derei falsa? Que ao menos nos tornemos sensa- 
tos a expensas nossas! Se tantas vezes fui trai- 
do por meu julgamento, se essa pedra de toque 
é em geral defeituosa, se a balança está mal 
regulada, que garantia a mais posso ter desta 
vez? Não será tolice deixar-me enganar por 
semelhante guia? E no entanto, ainda que o 
destino nos leve a mudar quinhentas vezes de 
idéia, a última, a atual será a verdadeira, a 
infalível. Por esta sacrificaremos nossos bens, 
a honra, a vida, a salvação: “a última nos des- 
gosta da primeira e a desacredita em nosso 
espírito”312, O que quer que nos preguem, o 
que quer que aprendamos, é sempre preciso 
lembrar que o homem o dá e o homem o rece- 
be; a mão de um mortal oferece e a mão de um 
mortal aceita. Só as coisas que vêm do céu têm 
direito de persuasão e a indispensável autori- 
dade; só elas trazem a marca da verdade, mas 
nossos olhos não as distinguem se não as obte- 
mos por nossos próprios meios. Essa santa e 
grande imagem não elegeria domicílio em tão 
miserável barraca, se Deus por especial favor 
não a houvesse preparado para isso, não a 
houvesse. transformado e fortificado com Sua 
graça. Nossa condição, tão sujeita a desfaleci- 
mento, deveria inspirar-nos mais moderação e 
discrição em nossas variações; deveríamos 
lembrar que, quaisquer que sejam as impres- 
soes de nossa inteligência, muitas vezes são 
“coisas falsas e que as percebemos com esses 
mesmos instrumentos que amiúde se enganam. 
E não há como estranhar que se enganem, pois 
as menores ocorrências os falseiam e eimbo- 
tam. E certo que nossa compreensão, nosso 
Julgamento e as faculdades de nossa alma so- 
frem de conformidade com o corpo e suas con- 
tínuas alterações. Não temos o espírito mais 
atilado, a memória mais viva, O raciocínio 
mais rápido, quando a saúde é boa? A alegria 
não nos predispõe a aceitar as impressões de 
maneira diferente da tristeza? Crede que os 
versos de Catulo ou de Safo agradem a um 
velho avarento e rabugento tanto quanto a um 
Jovem vigoroso e entusiasta? 

Cleômenes, filho de Anaxandridas, estava 
doente. Seus amigos censuravam-lhe a disposi- 
ção de espírito e as idéias novas, que não lhe 
eram habituais. “Naturalmente”, respondeu- 
lhes, “pois não estou como quando me sinto 


312 TLucrécio. 


265 


bem; e, estando diferente, diferentes são mi- 
nhas opiniões e idéias.” 

A gente da chicana, no tribunal, diz comu- 
mente, falando de um criminoso que se apre- 
senta a um juiz bem-humorado: “que aproveite 
a sorte”. certo que as sentenças são por 
vezes mais severas e rigorosas € por vezes 
menos duras, atendendo a circunstâncias ate- 
nuantes. E não há dúvida de que o julgamento 
de quem as proferê e sofre da gota, ou anda 
ciumento, ou acaba de ser roubado, se ressente 
da disposição de espírito do juiz. O Areópago, 
venerável senado, julgava à noite de medo que 
a presença das partes influenciasse a justiça. O 
próprio estado da atmosfera e a serenidade do 
céu fazem que varie o nosso julgamento, o que 
constata este verso grego, citado por Cícero: 
“o estado de espírito dos homens, de dor ou de 
alegria, varia cada dia que Júpiter lhes dá”. 
Não são apenas as febres, a bebida, os aciden- 
tes graves que nos abalam o juízo; as coisas 
mais insignificantes o perturbam; e não se deve 
estranhar, embora não o percebamos, que, se a 
febre continua nos enfraquece a alma, altera-a 
também a febre intermitente, guardadas as 
proporções; se a apoplexia apaga totalmente a 
luz de nossa inteligência, um defluxo incontes- 
tavelmente a transforma. Por conseguinte, mal 
se depara uma hora na vida em que nosso 
juízo é normal. A tal ponto está nosso corpo 
sujeito a constantes mudanças, e é movido por 
tantas molas, que na opinião dos médicos 
muito dificilmente ocorre não haver nenhuma 
em mau estado. 

E, para cúmulo, a menos que esteja no apo- 
geu e já sem cura, não é fácil descobrir essa 
doença que oblitera nosso julgamento, tanto 
mais quanto a razão, sempre tão falha e 
manca, se acomoda à mentira como à verdade; 
o que faz que seja dificil saber quando se des- 
regula e quando podemos confiar nela. Dou 
esse nome de razão a essa aparência de juízo 
que cada um forja em si mesmo e que a res- 
peito de um mesmo assunto pode levar a cem 
apreciações diversas e contraditórias, instru- 
mento feito de chumbo e cera, que se estica e 
dobra e se ajeita a todas as circunstâncias, a 
todos os compromissos, e que um pouco de 
habilidade basta para levar a amoldar-se a 
quaisquer moldes. Por melhor que seja sua 
intenção, se não se examinar de perto, o que 
pouca gente faz, um juiz pode ser solicitado 
pela benevolência (para com um amigo ou 
parente) tanto quanto pela idéia de vingança. 
Sem ir tão longe, uma simples tendência instin- 
tiva o impele a uma predileção, ao escolher, 
sem razão, entre dois objetos idênticos; um 
imperceptível impulso qualquer pode atuar 
sobre seu julgamento e o predispor favorável 


266 


ou desfavoravelmente a dada causa, forçando 
a balança a pender para um lado ou outro. 


Eu que me analiso, a fundo, e tenho os olhos 
sempre voltados para mim mesmo, como quem 
não tem muito que fazer alhures, “que não me 
preocupo em absoluto com saber que rei tudo 
abalou algures ou com que se alarma Tirida- 
tes”313 mal ouso dizer as falhas e fraquezas 
que percebo em mim. Tenho o pé tão pouco 
seguro, fraqueja tão facilmente, titubeia tão 
sem motivo, e minha vista é tão desregulada, 
que em jejum me sinto melhor do que depois 
de comer; se estou satisfeito com minha saúde, 
se faz bom tempo, eis-me um homem amável; 
se um calo me dói, fico aborrecido, desagra- 
dável, inabordável; um cavalo cujo andar não 
varia parece-me ora duro ora suave; o mesmo 
caminho parece-me curto por vezes e por vezes 
longo; segundo a hora, a forma de um objeto 
ser-me-á agradável ou não; quero e não quero 
empreender alguma coisa e o que me apetece 
agora, contrariame depois. Mil agitações 
inoportunas e acidentais verificam-se em mim; 
ou sou tomado de melancolia ou de cólera; em 
outro momento é a tristeza que me envolve, 
mas logo a seguir a alegria vence. Quando 
pego um livro, certos trechos que considero 
excelentes me impressionam e encantam; de 
outras feitas folheio esse mesmo livro e procu- 
ro em vão algo que me deleite, tudo se me afi- 
gura informe. Nos meus próprios escritos nem 
sempre redescubro o meu pensamento, não sei 
mais o que desejei exprimir e não raro me 
esforço por corrigilo, modificá-lo, pois o 
significado primeiro, por certo mais interes- 
sante, me escapa. Não faço senão ir e vir. Meu 
Julgamento não segue uma linha reta, flutua ao 
léu: “como um frágil barco surpreendido em 
alto mar por um vento furioso”?'!*. Muitas 
vezes, o que faço de bom grado como exercício 
defendendo uma tese contrária à minha opi- 
nião, absorvo-me a tal ponto na tarefa, que 
não mais percebo as razões de minha verda- 
deira idéia e a abandono. Empurro-me, por 
assim dizer, para o lado de minhas tendências. 
E deixo-me levar por elas. 

Todos poderiam dizer o mesmo, se se estu- 
dassem como eu. Os que falam em público 
sabem muito bem que a emoção os induz a 
acreditarem no que afirmam. Quando estamos 
com raiva, aplicamo-nos melhor na defesa de 
nossa idéia; encarnamo-la em nós, abraçamo- 
la com veemência e a consideramos mais justa 
do que quando estamos calmos e de sangue 
frio. Expomos uma questão a um advogado; 
sentimo-lo hesitante e sem convicção: é-lhe 


313 Horácio. 
31º Catulo. 


MONTAIGNE 


indiferente defender esta ou aquela causa. Se o 
pagamos bem para se colocar do nosso lado, 
começa a interessar-se. E se sua vontade se 
aquece, eis que se aquecem ao mesmo tempo 
sua razão e seu saber e a verdade aparente 
deixa de lhe inspirar a menor dúvida. Persua- 
de:se de que assim é, e o crê. Não sei mesmo se 
o ardor que nasce do despeito e da obstinação 
que experimentamos ante a opinião e a violên- 
cia do magistrado, a excitação causada pela 
ameaça do perigo, ou ainda o desejo de ganhar 
prestígio, não terão levado certo personagem 
(que poderia apontar) a subir à fogueira para 
sustentar sua opinião, pela qual, em liberdade 
e no meio de seus amigos, não se expusera a 
queimar um dedo. 

Os abalos e golpes que atingem nossa alma 
por causa das paixões do corpo, atuam forte- 
mente sobre ela. Maiores ainda são os que lhe 
provêm de suas próprias paixões, as quais 
tanto a instigam que quase poderíamos afirmar 
que, sem elas, permaneceria inerte, como um 
navio em pleno mar quando o vento o não 
assiste. Quem, a exemplo dos peripatéticos, 
defendesse essa tese, não nos traria prejuízos, 
pois é sabido que em sua maioria as belas 
ações da alma procedem de nossas paixões e 
precisam de seu impulso. Não sustentamos que 
a valentia se manifesta melhor sob a influência 
da cólera? “Ajax foi sempre bravo, e mais 
bravo ainda em seu furor”*! 5. Não é quando 
nos zangamos que melhor perseguimos o mal- 
feitor ou inimigo? E há quem pense que os 
advogados provoquem a cólera dos juizes tão- 
somente para obter ganho de causa. 

O desejo imoderado das grandes coisas, 
meta de Temistocles e de Demóstenes, foi o 
que induziu os filósofos a trabalhar, viajar por 
países longínquos, e é o que nos conduz à 
honra, ao saber, à saúde, a tudo o que é útil. A 
covardia da alma, que faz que suportemos o 
tédio e o desprazer, dá à nossa consciência a 
possibilidade de se arrepender, de se resignar 
ante os flagelos que Deus nos envia para nos 
punir e ante os que resultam de uma adminis- 
tração corrupta. A compaixão predispõe à 
clemência; a prudência de que nos valemos 
para atender à nossa conservação e nos dirigir, 
é despertada em nós pelo temor. E quantas 
belas ações se devem à ambição! Quantas à 
alta opinião que temos de nós mesmos! Em 
suma, não há virtude mais ou menos elevada e 
admirável sem alguma agitação desordenada 
da alma. Não seria essa uma das razões pelas 
quais os epicuristas isentaram Deus de quais- 
quer cuidados com os nossos negócios huma- 
nos? Tanto mais quanto os efeitos de sua bon- 


315 Cícero. 


ENSAIOS — II 


dade não podem exercer-se sobre nós sem que 
perturbem o repouso de nossa alma com a 
movimentação de nossas paixões, as quais são 
como picadas estimulantes que a incitam aos 
atos virtuosos. Ou terão esses filósofos pensa- 
do de outro modo e considerado as paixões 
como tempestades que, uma vez desenca- 
deadas, desviam orgulhosamente a alma de 
sua quietude? “Assim como entendemos por 
mar calmo a ausência do menor vento sobre 
suas ondas, também consideramos que a alma 
está serena quando nenhuma paixão a como- 
ve?31 6. 

Que diferenças de sentido e razão apresen- 
tam nossas paixões em sua diversidade e quan- 
tas idéias dessemelhantes disso resultam? Que 
segurança nos oferece uma coisa tão instável, 
tão imóvel, sobre a qual a confusão reina, que 
só se movimenta por imposição alheia? Se 
nosso julgamento depende até da enfermidade, 
e das perturbações que experimentamos; se é 
preciso que seja presa da loucura para receber 
a impressão das coisas, como poderemos con- 
fiar nele? 

Parece-me demasiado temerário assegurar a 
filosofia que os homens não produzem suas 
maiores obras, as que mais os aproximam da 
divindade, senão quando fora de si, e furiosos. 
Assim nos aperfeiçoamos pela privação da 
razão, ou seu embotamento! Os caminhos 
naturais que levam ao gabinete dos deuses são 
pois a loucura e o sono! Linda constatação ! E 
pela desordem das paixões que nos tornamos 
virtuosos, pelo seu aniquilamento na loucura 
ou no sono que nos transformamos em profe- 
tas e adivinhos! Nunca estive tão inclinado a 
acreditá-lo. Cedendo à inspiração irresistível 
da verdade santa, o espírito filosófico vê-se 
forçado a reconhecer, contra o que sustentava, 
que a trangiilidade, a calma, a saúde que se 
esforça por dar à alma, não constituem para 
ela seu melhor estado. Acordados, estamos 
mais adormecidos do que se dormissemos; 
nossa sabedoria é menos sábia do que a loucu- 
ra; nossos sonhos valem mais do que nossos 
raciocínios; o pior lugar que podemos ocupar 
está em nós mesmos. Mas não pensa a filoso- 
fia, por outro lado, que podemos imaginar que 
a voz que torna o espírito, quando separado do 
corpo, tão lúcido, grande, perfeito, enquanto 
mergulha nas trevas quando encarnado, não é 
a voz que parte do espírito do homem terreno 
ignorante e privado de luz? Logo, como con- 
fiar nela? 

Como sou mole por temperamento, e pesa- 
do, não tenho grande experiência dessas vio- 
lentas agitações que se apoderam subitamente 


316 Cicero. 


267 


de nossa alma, sem lhe dar a possibilidade de 
se reconhecer. Mas essa paixão que dizem ser 
provocada pela ociosidade e atinge os jovens, 
embora se desenvolvendo lentamente, dá bem 
a idéia, aos que procuraram opor-se a seu pro- 
gresso, do alcance da mudança e alteração que 
experimenta o julgamento. Esforcei-me outro- 
ra por contê-la e combatê-la em mim, pois não 
me comprazo nesse vício, e só cedo quando me 
arrasta. Sentia essa paixão nascer e desenvol- 
ver-se, desabrochar-se em mim e me possuir. O 
efeito produzia-se à maneira da embriaguez: o 
aspecto das coisas mudava; e via as dificul- 
dades do empreendimento se acertarem e se 
tornarem fáceis de vencer; minha razão e 
minha consciência cederam. Em seguida, ex- 
tinto o fogo, de imediato, com a rapidez do 
relâmpago, minha alma revelava outros objeti- 
vos, modificava-se, meu julgamento mudava; 
as dificuldades em voltar atrás pareciam 
aumentar e tornar-se invencíveis; as mesmas 
coisas tinham outro gosto, e aspecto, diferentes 
daqueles que sob a influência do desejo antes 
apresentavam. Qual desses estados é mais 
verdadeiro? Pirro declara não o saber. 


Nunca estamos inteiramente isentos de 
enfermidades. O fogo da febre alterna com o 
frio dos tremores; dôs efeitos de uma ardente 
paixão, caímos nos de outra excessivamente 
fria. Quanto mais nos lançamos à frente tanto 
mais recuamos a seguir: “assim o mar, em seu 
duplo movimento, ora se precipita em direção 
da costa, cobre o rochedo de espuma e se 
expande ao longe pelas praias; ora recua carre- 
gando os seixos que trouxera, e foge, deixando 
a praia descoberta”3 17. 

Conhecendo a instabilidade de meu julga- 
mento, reagi e, excepcionalmente, cheguei a 
uma certa continuidade de opinião, conser- 
vando mais ou menos intatas as que a princi- 
pio tivera. Pois, qualquer que seja a aparência 
de verdade que pode ter a novidade, não mudo 
de medo de perder na troca. Incapaz de esco- 
lher por mim mesmo, confio na escolha de ou- 
trem e atenho-me às condições em que Deus 
me colocou, sem o que não poderia impedir- 
me de variar amiúde. Assim é que, com a 
graça de Deus, conservei inteiras, sem inquie- 
tações nem casos de consciência, as antigas 
crenças de nossa religião, a despeito de tantas 
seitas e divisões observadas em nosso século. 
As obras antigas, refiro-me às boas obras, sé- 
rias e de conteúdo, atraem-me e influem gran- 
demente em mim. A que tenho à mão é sempre 
a que me interessa mais; acho que cada uma 
por sua vez está com a verdade, mesmo quan- 
do as teses são antagônicas. Essa facilidade 


317 Virgílio. 


268 | MONTAIGNE 


que possuem os bons autores de tornar veros- 
símil o que apresentam — e não há nada que 
não se esforcem por pintar com cores susceti- 
veis de ludibriar uma simplicidade igual à 
minha — mostra de maneira evidente a fra- 
queza de suas provas. O céu e as estrelas 
foram durante três mil anos considerados em 
movimento. Todos acreditaram, até que Clean- 
tes de Samos ou, segundo Teofrasto, Nicetas 
de Siracusa, se lembrou de sustentar que a 
terra é que girava em torno de seu eixo, 
seguindo o circulo oblíquo do zodíaco; e em 
nosso tempo Copérnico demonstrou tão bem 
esse princípio, que dele se vale em seus cálcu- 
los astronômicos. Que concluir, senão que não 
temos que nos preocupar com saber qual dos 
sistemas é o verdadeiro? Quem sabe se daqui a 
mil anos outro sistema não os destruirã a 
ambos? “Assim, o tempo modifica o valor das 
coisas; o objeto apreciado cai em descrédito, 
enquanto o desprezado passa a ser apreciado; 
desejam-no dia a dia mais, é admirado e ocupa 
o primeiro lugar na opinião dos homens” 318, 
Temos, portanto, quando se apresenta uma 
nova doutrina, razões de sobra para desconfiar 
e lembrar que antes prevalecia a doutrina 
oposta. Assim como esta foi derrubada pela 
recente, no futuro uma terceira substituirá 
provavelmente a segunda. Antes que os princi- 
pios de Aristóteles tenham tido crédito, outros 
existiram que também davam satisfação à 
razão humana. Que carta de recomendação 
trazem os últimos? Que privilégio especial lhes 
garante que as nossas invenções os preserva- 
rão eternamente? Não estão mais a salvo de 


serem rejeitados quanto os outros. Quando me. 


atiram um argumento novo, ponho-me a pen- 
sar que o que não pude resolver, outro resolve- 
rá e que dar fé a todas as aparências de que 
não nos podemos defender é grande simplici- 
dade. Isso levaria o comum dos mortais — e 
nós todos o somos — a ver sua fé girar de 
todos os lados como um cata-vento, porquanto 
a alma maleável e plástica receberia impres- 
sões sucessivas, apagando sempre a última os 
vestígios das precedentes. Quem se considera 
sem argumentos diante das doutrinas novas, 
deve responder, como é de uso, que vai consul- 
tar seus conselheiros ou reportar-se aos mais 
sábios dentre os que o educaram. 

Hã quanto tempo existe a medicina? Afir- 
ma-se, entretanto, que um inovador chamado 
Paracelso modifica e destrói as regras antigas 
e sustenta que até hoje só serviram para matar. 
Creio que provará facilmente suas afirmações, 
mas confiar-lhe minha vida para que ateste a 
superioridade de seus métodos seria grande 


318 Lucrécio. 


estupidez. Não se deve confiar em todos, diz a 
máxima, porque todos são capazes de dizer 
qualquer coisa que lhes passe pela cabeça. Um 
homem assim predisposto a inovar e reformar 
dentro do terreno da física, dizia-me, não faz 
muito, que os antigos se haviam enganado 
acerca da natureza e dos efeitos dos ventos, o 
que me provaria se o quisesse escutar. Depois 
de ouvi-lo pacientemente desenvolver argu- 
mentos muito plausíveis, indaguei: “Como 
então os que navegavam aplicando os princi- 
pios de Teofrasto conseguiam ir para o Oci- 
dente quando os ventos sopravam em direção 
do Oriente? Iam de lado ou recuando? — Efei- 
tos do acaso, respondeu. O que é indiscutível é 
que laboravam em erro. — Pois então, repli- 
quei, prefiro os efeitos ao raciocínio.” Ora, são 
coisas não raro antagônicas. Afirmaram-me 
que em geometria (ciência que pretende ter 
alcançado o mais alto grau de exatidão) há 
demonstrações incontestáveis que contradizem 
tudo o que a experiência declara verdadeiro. 
Assim é que Jacques Peletier me dizia, em 
casa, haver descoberto duas linhas que embora 
se dirigissem uma na direção da outra, aproxi- 
mando-se sem cessar, jamais se encontrariam, 
nem mesmo no infinito, o que demonstrava. 
Em tudo empregam os pirrônicos unicamente 
seus argumentos e seu raciocínio para comba- 
ter as aparências sob as quais se apresentam, e 
é maravilhoso ver até onde a sutileza de nossa 
razão obedece ao desejo de lutar contra a 
evidência; eles demonstram que não nos mexe- 
mos, não falamos, que o peso e o calor não 
existem; e isso com um vigor de argumentação 
que nos convence da veracidade das coisas 
mais inverossimeis. 

Ptolomeu, que foi personagem de realce, 
determinara os limites de nosso mundo; os 
filósofos antigos pensavam nada ignorar a esse 


respeito acerca do que existia, salvo algumas 


ilhas longínquas que podiam ter escapado às 
suas investigações; e, há mil anos, fora agir 
como os pirrônicos pôr em dúvida o que então 
ensinava a cosmografia e as opiniões aceitas 
por todos; referir-se à existência de antípodas 
era heresia. E eis que neste século se descobre 
um continente de enorme extensão, não uma 
ilha, mas uma região quase igual em superfície 
as que conhecíamos. Os geógrafos de nosso 
tempo não deixam de afirmar que agora tudo é 
conhecido: “pois nos comprazemos com o que 
temos, o que nos parece superior ao resto”31º. 
Pergunto então se, visto que Ptolomeu se enga- 
nou outrora acerca do que constituía o ponto 
de partida de seu raciocínio, não seria tolice 
acreditar hoje resolutamente nas idéias de seus 


319 TLucrécio. 


ENSÁIOS — II 


sucessores, e se não é provável que esse grande 
corpo denominado o “mundo” seja bem dife- 
rente do que julgamos? 

Platão sustenta que sua fisionomia se modi- 
fica de todas as maneiras: que o céu, as estre- 
las, o sol mudam por vezes inteiramente o 
movimento que os vemos realizar, tornando-se 
o Oriente, Ocidente. Os sacerdotes do Egito 


contaram a Heródoto que desde seu primeiro: 


rei, onze mil e tantos anos atrás (e mostra- 
vam-lhe efígies e estátuas deles, executadas no 
tempo em que viviam) a órbita do sol variara 
quatro vezes; que o mar e a terra se trans- 
formam alternativa e reciprocamente; que a 
criação do mundo é indeterminada, o que tam- 
bém dizem Aristóteles e Cicero. E é também a 
opinião de um dos nossos sábios, o qual, 
apoiando-se no testemunho de Salomão e 
Isaias, apresenta o mundo como tendo sempre 
existido, sujeito à morte mas renascendo após 
transformações; o que responde à objeção de 
que Deus foi em certos momentos um criador 
sem criaturas, que por vezes permaneceu no 
“Ócio, deste saindo para retocar Sua obra e 
“estando assim Ele próprio sujeito a mudanças. 


Na mais famosa escola da Grécia o mundo 


é considerado um deus, criado por outro deus 
mais poderoso. Constitui-se de um corpo e de 
uma alma; esta ocupa o centro de onde se 
expande para a periferia em obediência às mes- 
mas leis que regulam os acordes musicais; esse 
mundo tem os apanágios da divindade, é feliz, 
grande, sábio, eterno; nele se encontram outros 
deuses: a terra, o mar, Os astros, Os quais se 
mantêm em perpétua e harmônica agitação, 
espécie de dança divina, ora se encontrando, 
ora se afastando, escondendo-se e se exibindo, 
mudando a ordem em que perambulam, ora 
uns à frente dos outros, ora atrás. Heráclito 
considerava o mundo um braseiro incandes- 
cente, destinado a inflamar-se e consumir-se 
um dia, para renascer novamente. A 
Quanto aos homens, diz Apuleio, são mor- 
tais como indivíduos e imortais como espécie. 
Alexandre enviou à sua mãe a narrativa de um 
sacerdote egípcio, tirada dos monumentos, que 
testemunhava a antiguidade da nação, a qual 
se perde no infinito, e relatava a origem autên- 
tica e o desenvolvimento de outros países. Ci- 
cero e Diodoro dizem que em seu tempo os 
caldeus tinham documentos que remontavam a 
quatrocentos e tantos mil anos. Aristóteles, 
Plínio e outros, que Zoroastro vivera seis mil 
anos antes de Platão. Este último afirma que 
os habitantes de Saís possuem arquivos de oito 
mil anos e que a construção de Atenas ocorreu 
mil anos antes da de Saís. Epicuro acha que o 
que observamos na terra existe igualmente e 
em idênticas condições em muitos outros mun- 


269 


dos. E uma tal assertiva ele a houvera feito 
com mais segurança ainda se lhe tivesse sido 
dado conhecer o novo mundo das Índias 
Ocidentais, tão semelhante ao nosso de hoje e 
de outrora. 

- Em verdade, considerando o que sabemos 
de diversas práticas em curso nesta terra, fi- 
quei muitas vezes maravilhado com ver que 
em tempos e lugares remotos se encontrem, em 
número tão grande, opiniões populares e cos- 


“tumes e crenças selvagens tão semelhantes, 


embora não pareçam ter origem no estado 
atual de nossa inteligência. O espírito humano 
realiza realmente grandes milagres, mas essa 
correlação tem ainda algo mais estranho pela 
similitude de certos nomes e de mil outras coi- 
sas; pois neste mundo novo, vêem-se povos 
que nunca ouviram falar de nós, e entre os 


. quais se pratica a circuncisão. Alguns há cujo 


governo cabe às mulheres, e entre eles obser- 
vam-se o jejum e a quaresma, bem como a cas- 
tidade. Descobriram-se outros que possuiam a 
cruz como, simbolo; outros honram os mortos; 
outros, ainda, usam a cruz de Santo André 
como proteção contra as alucinações noturnas 
e a colocam sobre os leitos das crianças para 
que as proteja contra feitiços; em certa nação 
no interior das terras, encontrou-se uma gran- 
de cruz de madeira e que era adorada como 
deus das chuvas. Observaram-se práticas peni- 
tenciárias exatamente iguais às nossas, O uso 
de mitras, o celibato: eclesiástico, a arte da 
adivinhação pelo exame das vísceras dos ani- 
mais sacrificados, a abstinência em matéria de 
carnes, e peixes, o emprego pelos sacerdotes de 
uma língua especial. Observou-se também a 
existência da idéia de um primeiro deus expul- 
so por seu irmão mais moço, bem como a que 
os homens foram criados no gozo de todas as 
comodidades imaginárias, de que depois se 
viram privados em virtude do pecado; a de que 


“foram expulsos do território que ocupavam, 


tendo piorado as suas condições; a de que 
outrora foram submergidos por uma inunda- 
ção provocada pelas águas do céu e só algu- 
mas famílias escaparam subindo ao alto das 
montanhas e refugiando-se em cavernas com 
animais de diversas espécies, tapando as entra- 
das para se salvarem. Quando perceberam que 
as chuvas tinham cessado, fizeram os cães sai- 
rem, os quais voltaram limpos e molhados, 
deduzindo eles que as águas não haviam bai- 
xado ainda. Pouco depois soltaram outros que 
voltaram enlameados; sairam então eles pró- 
prios a fim de repovoar o mundo que encon- 
traram cheio de serpentes unicamente. 

Entre alguns povos existe a crença no juízo 
final; por isso, sentiam-se profundamente ofen- 
didos quando os espanhóis, escavando os 


270 MONTAIGNE 


cemitérios, a fim de arrecadar tesouros, disper- 
savam os ossos dos túmulos, pois esses ossos, 
espalhados ao acaso, dificilmente se juntariam 
e se reconstituiriam. 

O comércio aí se pratica por meio de trocas 
e existem feiras e mercado com tal objetivo. 
Anões e individuos disformes são empregados 
no divertimento dos príncipes. A caça com fal- 
cões ou pássaros análogos é praticada. Há 
impostos abusivos. A arte da jardinagem deco- 
rativa é conhecida. E conhecidas são as dan- 
ças, as peloticas, a música instrumental, os 
brasões, os jogos de bola, de dados e de azar, a 
que se entregam apaixonadamente, a ponto de 
jogarem a própria liberdade. A prática da 
medicina compreende exclusivamente atos de 
magia e encantamento. A escritura compõe-se 
de hieróglifos. Encontra-se a crença em um 
Deus que desceu à terra e viveu na castidade, 
Jejuando e fazendo penitência, pregando a lei 
natural e a observância do culto, e que desapa- 
receu sem ser atingido pela morte que a todos 
atinge. Acreditam em gigantes. Usam bebidas 
suscetíveis de provocar a embriaguez e bebem 
até o estado de inconsciência. Dispõem de 
omatos religiosos com imagens de caveiras e 
ossos, de àgua benta, de mantos e fazem asper- 
soes. Mulheres e servidores disputam a honra 
de morrer com o marido ou senhor. O primo- 
gênito herda tudo o que possui o pai; os outros 
nada percebem e devem obedecer. É costume 
que os que se designam para o desempenho de 
tais ou quais cargos mudem de nome. Asper- 
gem as crianças recém-nascidas com um 
pouco de cal, dizendo: vens do pó, ao pó volta- 
rás. Praticam a arte dos augúrios. 


Esses vagos simulacros de nossa religião, ' 


que se observam em certos exemplos, bem 
demonstram sua dignidade e divindade. Não 
somente penetrou as nações infiéis de nosso 
hemisfério que a imitaram em parte, mas ainda 
os bárbaros, como por inspiração sobrenatural 
que a leva a espalhar-se pelo mundo inteiro. 
Encontra-se até a noção de purgatório, mas 
sob outra forma: o que entregamos ao fogo, aí 
se entrega ao gelo e esses povos imaginam que 
as almas são punidas e purificadas com o 
sofrimento do frio. Isso me recorda outra 
divergência nas idéias, assaz divertida: en- 
quanto certas tribos apreciam a circuncisão 
como os maometanos e judeus, outras, ao 
contrário, com a ajuda de cordões fixados à 
pele, esticam o prepúcio até que cubra a extre- 
midade do pênis como se temessem o contato 
do ar. Outra divergência se nota nos festejos e 
homenagens aos reis. Em tais circunstâncias, 
enfeitamo-nos com nossas vestimentas mais 
nobres. Pois em alguns países, a fim de eviden- 
ciarem a superioridade do soberano € sua pró- 


pria submissão, seus súditos apresentam-se 
vestidos de miseráveis trapos, e ao entrar no 
palácio cobrem suas roupas com um manto 
rasgado, ressaltando assim a personalidade do 
senhor, resplendente entre os demais. Mas 
continuemos. 

Se a natureza encerra, como o faz com 
todas as coisas, dentro de suas regras naturais, 
as crenças, Os Juízos, as opiniões dos homens; 
se suas evoluções são determinadas, se têm seu 
momento, se nascem e morrem como os repo- 
lhos; se o céu os agita e varre à vontade, que 
autoridade segura e permanente lhes atribuire- 
mos? A experiência prova-nos que a nossa 
organização decorre do ar, do clima, do lugar 
de nascimento; que não somente a nossa tez, a 
nossa estatura, a nossa compleição, nossos 
meios físicos disso dependem mas ainda as 
faculdades de nossa alma; “o clima não contri- 
bui apenas para o vigor do corpo, porém igual- 
mente para o do espírito”, diz Vegécio, e por 
isso escolheu a deusa que fundou Atenas um 
clima em que os homens se tornam mais sá- 
bios, como o ensinaram a Sólon os sacerdotes 
egípcios: “o ar de Atenas é leve, o que dá aos 
atenienses mais finura; o de Tebas é pesado, 
por isso têm os seus habitantes mais vigoroso 
o espírito”32º, Por conseguinte, assim como 
os animais apresentam diferenças desde o 
nascimento, os homens nascem mais ou menos 
belicosos, justos, temperantes, dóceis; aqui 
amam o vinho, alhures o roubo e a libertina- 
gem; aqui propendem para a superstição; alhu- 
res para a incredulidade; aqui apreciam a 
liberdade, alhures a servidão; são sábios ou 
artistas, grosseiros ou espirituosos, obedientes 
ou rebeldes, bons ou maus segundo a in- 
fluência do lugar onde vivem. Se os transplan- 
tam, suas tendências modificam-se como ocor- 
re com as árvores. Por esse motivo Ciro não 
autorizou os persas a abandonarem seu país 
duro e montanhoso a fim de emigrar para 
outro suave e plano, dizendo que as terras 
fecundas e faceis engendram homens sem ener- 
gia, espíritos estéreis. Quando vemos sob algu- 
ma influência celeste florescer uma determi- 
nada arte, uma crença substituir-se a outra, tal 
século produzir tais temperamentos e predis- 
por a humanidade a tomar tal ou qual partido, 
o espirito humano mostrar-se ora vigoroso, ora 
estiolado, como se observa com as terras de 
cultura, onde as prerrogativas de que nos jac- 
tamos? Se um sábio pode ter desilusões, cem 
homens e nações inteiras o podem também, e, 
em verdade, a meu ver, o gênero humano intei- 
ro se engana hã séculos acerca disto ou daqui- 
lo. Que certeza podemos alimentar de que por 


320 Cícero. 


ENSAIOS — II 21 


vezes cesse de se enganar e que no século atual 
não esteja laborando em erro? 


Entre outros testemunhos da fraqueza de 
nosso espírito um não deve ser omitido: 
mesmo quanto ao que deseja, o homem não 
sabe escolher. Não é apenas quando estamos 
de posse de alguma coisa que não sabemos o 
que nos satisfaz; é também quando nossa 
imaginação trabalha sozinha e que nos basta 
desejar. Deixemo-la cortar e costurar à vonta- 
de, não chegará sequer a designar o que ambi- 
ciona: “sabe a razão o que deve temer ou dese- 
Jar? Quando, jamais, concebeu algo de que 
não se arrependesse mais tarde, mesmo se os 
fatos atendem ao que esperava 2321 Isso fazia 
Sócrates pedir somente aos deuses o que eles 
sabiam ser-lhe útil. E a prece dos lacedemô- 
nios, pública ou privada, visava simplesmente 
obter o bom e o belo que bem entendessem os 
deuses. “Pedimos uma esposa e queremos 
filhos; mas só Deus sabe como devem ser esses 
filhos e essa esposa”222. Nas suas súplicas, 
diz o cristão a Deus: “seja feita a vossa vonta- 
de”, e assim evita a desventura que os poetas 
atribuem a Midas. Este pedira aos deuses que 
tudo o que tocasse se transformasse em ouro. 
Deus quis, e seu vinho virou ouro, e seu pão foi 
de ouro, até as penas de seu leito e sua camisa, 
e suas vestes, e ele se acabrunhou com a satis- 
fação dada a seu desejo; pois o presente era 
insuportável. Foi-lhe necessário suplicar nova- 
mente a fim de que cessassem os efeitos de sua 
solicitação atendida: “espantado com mal tão 
inesperado, rico e indigente a um tempo, quise- 
ra fugir às suas riquezas e se horrorizava com 
o objeto de suas súplicas”* 23, 

Eu mesmo, na mocidade, pedi ao destino, 
entre outros favores, a Ordem de São Miguel; 
era então a mais insigne condecoração da 
nobreza francesa e muito raramente concedi- 
da. Deu-ma o destino, mas em condições 
divertidas; em vez de fazer com que me ele- 
vasse para obtê-la, trouxe-a a mim e mesmo 
mais baixo. 

Cléobis e Biton, Trofônio e Agamedes, 
tendo pedido, os primeiros a sua deusa e os ou- 
tros a seu deus, uma recompensa digna de sua 
devoção, receberam como presente a morte. 
Eis como o que pensam as potências divinas 
de nossa felicidade, difere muito do que imagi- 
namos! Deus poderia outorgar-nos riqueza, 
honrarias, vida e até saúde, e isso nos ser por 
vezes prejudicial, pois o que nos agrada nem 
sempre nos é salutar. Se em vez de nos curar, 
envia-nos a morte ou uma agravação de nossos 


321 Juvenal. 
322 Id. 
323 Ovídio. 


males: “tua vara e teu bastão consolaram- 
me”32+4 assim o faz porque é o que em sua 
sabedoria lhe dita sua providência, a qual sabe 
exatamente o que nos falta. E nós não o pode-. 
mos saber. E o devemos ter em muito boa 
conta, vindo de mão tão sábia e bondosa: “se 
queres um bom conselho, deixa aos deuses o 
cuidado do que te convém e te é útil; querem 
mais ao homem do que este a si mesmo”325. 
Pedir-lhes honrarias, cargos, é pedir-lhes que 
nos joguem na batalha ou em uma partida de 
dados ou em qualquer outra coisa cujo resul- 
tado desconhecemos e seja duvidoso. 

Não há assunto que provoque controvérsias 
mais violentas entre os filósofos do que o sobe- 
rano bem. Em que consiste? Varro afirma que 
duzentas €e oitenta e oito seitas nasceram dessa 
questão. “Ora, desde que não concordemos 
acerca do soberano bem, nossas opiniões 


“divergirão a respeito de toda a filosofia”? 28. 


“Parece-me ver três convivas de gostos dife- 
rentes; que lhes dar? Que não lhes dar? Privas 
um do que ele aprecia e o que ofereces aos dois 
outros lhes desagrada”* 27. Eis a resposta que 
a natureza deveria dar a suas discussões. Uns 
acham que nosso bem soberano está na virtu- 
de; outros na volúpia; outros que ele consiste 
em deixar que a natureza opere; outros o 
encontram na ciência; outros na ausência de 
sofrimento; outros em não se deixar levar pelas 
aparências. A esta última maneira de ver, 
liga-se aquela do tempo de Pitágoras: “nada 
admirar. Numício, é quase o único meio de 
assegurar a felicidade”*28, objetivo visado 
pela seita de Pirro. Aristóteles qualifica de 
magnitude nada admirar; e Arcesilau dizia que 
o bem consiste em ter um julgamento reto e 
inflexível, junto a tudo o que contribui para 
assim o manter. E que o vício e o mal resultam 
das concessões e aplicações que lhes determi- 
namos. E verdade que, apresentando essas 
proposições como isentas de dúvida, Arcesilau 
fugia ao procedimento habitual dos pirrônicos. 
Quando estes dizem que o soberano bem é a 
ataraxia, isto é, a calma perfeita, a imobilidade 
do julgamento, não o querem afirmar de 
maneira absoluta. O mesmo estado de espírito 
que os impele a evitar um precipício, preser- 
var-se do frio da noite, leva-os a emitir essa 
idéia e rechaçar outra; a afirmação carece para 
eles de consequência. 

Como eu desejaria que, enquanto vivo, 
alguém, Justo Lípsio, por exemplo, o homem 


324 Salmos, XXII, 5. 
325 Juvenal. 

326 Cícero. 

327 Horácio. 

328 Id. 


272 


mais sábio que possuímos, culto, judicioso, 
primo-irmão, desse ponto de vista, de meu 


Tournebus, tivesse vontade, saúde e lazeres 


para coligir e classificar, por categorias, com 
toda a sinceridade, as opiniões dos filósofos 
antigos acerca de nosso ser e nossos costumes, 
bem como as controvérsias de que foram obje- 
to, o crédito de que gozaram. E também como 
seus autores aplicaram tão memoráveis e edifi- 


cantes preceitos em sua vida. Seria uma obra . 


bela e útil! 


A que confusão chegariamos se buscás- 


semos em nós mesmos uma orientação para a 
nossa conduta! O que a razão aconselha, e 
com aparência de verdade, é que cada qual 
observe as leis de seu país. É a opinião de Só- 
crates, inspirada, diz ele, pela divindade. E que 
quer esta dizer com isso, senão que nossó 
dever se subordina ao acaso? Se o homem 
conhecesse a justiça'e. o certo, se tivesse em 
mira tipos reais, se os pudesse representar em 
sua essência, não os faria consistir na obe- 
diência a tais ou quais costumes; não seria na 
fantasia dos persas ou indianos.que se con- 
substanciariam. Nada mais do que as leis está 
sujeito a variações contínuas. Desde que rrasci, 
vi mudarem três ou quatro vezes as dos ingle- 
ses, e não somente quanto à política interna, 
que se admite não ser fixa, mas também com 
referência ao ponto mais importante de todos: 
a religião. Sinto-me envergonhado e despei- 
tado, porquanto nossa religião já teve ligações 
com esse país e em minha família ainda so- 
bram vestígios de antigo parentesco com esse 
povo. Em nossa província, aqui mesmo, vi atos 
que constituíam crimes passíveis de pena de 
morte tornarem-se legais. E atualmente, obe- 
dientes a um partido, estamos expostos, segun- 
do os azares da guerra, a nos tornarmos um 
dia criminosos de lesa-humanidade e divinda- 
de. Pois se o partido adverso triunfasse, as 
idéias contrárias prevaleceriam e nossa justiça 
passaria a ser injustiça. Não podia aquele deus 
da antiguidade mais claramente mostrar a que 
ponto o homem ignora o ser divino, e ensinar- 
lhe que sua religião era produto da imagina- 
ção, útil apenas à consolidação da sociedade, 
quando declarava aos que o consultavam “que 
o verdadeiro culto consiste em-que cada qual 
obedeça aos usos e costumes locais”. Quanto 
devemos ser gratos à bondade de nosso sobe- 
rano Criador por nos haver esclarecido acerca 
da tolice de nossa fé em tais cultos e por ter 
feito que nossa crença assente hoje no alicerce 
de Sua palavra sagrada! 


Neste ponto capital a filosofia diz-nos que 
sigamos as “leis de nosso pais”, isto é, esse 
mar agitado das opiniões de um povo ou de 
um príncipe que pintam a justiça com tão 


MONTAIGNE 


variegadas cores e a transformam segundo 
suas paixões. Meu juízo não tem flexibilidade 
bastante para aceitar tal solução. Em que con- 
siste esse bem que amanhã já o não será e que 
a simples travessia de um rio modifica? Que 
verdade: será essa que é uma aquém e outra 
além das montanhas? São divertidos os que, a 
fim de outorgar maior autenticidade às leis, 
dizem que as há imutáveis, perpétuas, a que 
chamam leis naturais, as quais seriam inatas 
no homem e em número de três, segundo uns, € 
de quatro segundo outros; e outros afirmam 
que existem mais, e outros menos, sinal revela- 
dor de ser a dúvida permitida, aqui como alhu- 
res. Infortunados! Pois não posso qualificar 
senão como infortúnio o fato de, nesse número 
infinito de leis, não haver ao menos uma por- 
ventura que o consenso geral aceite como uni- 
versal. São tão desgraçados, que dessas três ou 
quatro leis escolhidas nenhuma só há que não 
seja controvertida e negada, e não apenas por 
um povo mas por muitos. Ora, a aceitação de 
todos seria a única característica a invocar-se 
como prova da existência de leis naturais, pois 
o que a natureza nos tivesse realmente ordena- 
do, nós o observariamos de comum acordo, 
porque qualquer povo, qualquer homem 
mesmo, se sentiria constrangido e violentado 
por quem agisse em sentido contrário. 

Protágoras e Ariston consideravam como 
origem da justiça das leis a autoridade e a opi- 
nião do legislador; fora dai, o bem e a honesti- 
dade não são mais qualidades, mas vãs deno- 
minações de coisas indiferentes. Trasímaco, 
em Platão, julga não haver outro direito que 
não o vantajoso para o superior. Nada mais 
heterogêneo no mundo do que os costumes e as 
leis. Tal coisa, que se recomenda alhures, é 
aqui abominável. Como por exemplo na Lace- 
demônia a esperteza do roubo. Os casamentos 
entre parentes próximos são terminantemente 
proibidos entre nós; entre outros povos são 
recomendáveis: “dizem que há povos em que a 
mãe se une ao filho, e o pai à filha, crescendo 
o amor em virtude do parentesco”?2º. Matar 
os filhos, matar o pai, emprestar as mulheres, 
comerciar com objetos roubados, poder entre- 
gar-se a toda espécie de prazeres, tudo em 
suma, por absurdo que seja, ou pareça, é per- 
mitido em alguma nação. 

É possível que haja leis naturais como ocor- 
re com certos animais, mas nós as perdemos, 
porque nossa bela razão humana em tudo se 
mete para dominar e comandar, perturbando e 
confundindo a fisionomia-das coisas a seu 
talante, segundo sua vaidade e sua incons- 
tância: “nada sobra que seja nosso; o que 


328 Ovídio. 


ENSAIOS —I 


chamo nosso é produto artificial?33º, As coi- 
sas apresentam-se em condições e sob aspectos 
diversos, o que constitui a primeira causa da 
diversidade de opiniões. Um povo encara 
determinada coisa por um de seus aspectos, o 
qual fixa suas idéias, outro a vê de modo dife- 
rente e por este se guia. 

Nada me parece mais horrível à imaginação 
do que um filho comer o pai. Os povos entre os 
quais esse costume existia outrora encaravam- 
no entretanto como prova de devoção e afei- 
ção, pois visavam dar aos seus progenitores a 
mais digna e honrosa sepultura, alojando por 
assim dizer na medula dos próprios ossos o 
que restava do corpo de seus pais, reavivando- 
o, regenerando-o através da transmutação da 
carne morta em carne viva pela digestão. É 
fácil imaginar que crueldade pareceria, e que 
abominação, a esses homens supersticiosos 
enterrar os despojos dos parentes na terra, 
onde iriam apodrecer e transformar-se em ali- 
mento para os vermes. 

Licurgo considerava que no furto, a vivaci- 
dade, a ligeireza, a ousadia, a habilidade que 
se empregam em surripiar alguma coisa ao 
vizinho, são úteis à coletividade, porquanto 
obrigam o indivíduo a cuidar do que é seu. 
Achava que do ponto de vista da disciplina 
militar (principal ciência e virtude essencial 
que desejava inculcar em seu povo) havia 
maior vantagem em desenvolver essas tendên- 
cias para o ataque e a defesa do que o inconve- 
niente resultante da desordem e injustiça de se 
apropriar do bem alheio. 

Dionísio, o Tirano, ofereceu a Platão uma 
toga como a usavam na Pérsia, longa, bordada 
de ouro € prata, e perfumada; Platão recusou-a 
dizendo que tendo nascido homem não lhe 
convinha vestir-se à moda das mulheres. Essa 
mesma toga aceitou-a Aristipo, observando 
que “nenhum adorno pode corromper quem 
está resolvido a conservar a castidade”. Seus 
amigos censuravam-no por não se haver se- 
quer magoado com o fato de o tirano lhe ter 
cuspido no rosto: “os pescadores”, respondeu- 
lhes, “resignam-se, a fim de pegar um simples 
lambari, a molhar-se dos pés à cabeça”. Dió- 
genes limpava uns repolhos quando, ao ver 
passar esse mesmo filósofo, gritou: “se para 
viveres te contentasses com repolhos, não adu- 
Jarias o tirano”. Ao que o outro retorquiu: “se 
soubesses viver entre os homens, não limparias 
repolhos”. 

Eis como a razão dá às coisas as mais diver- 
sas aparências: é uma marmita que se pega ora 
por uma asa, ora por outra.“O terra que me 
hospedas, pressagias a guerra; teus corcéis 


330 Cicero. 


273 


estão armados para o combate e o combate 
que nos fazem temer; no entanto, esses nobres 
animais andavam outrora atrelados aos arados 
e marchavam fraternalmente sob a canga. 
Toda esperança dé paz ainda não está perdida, 
Pois, 

Censuravam a Sólon o fato de verter lágri- 
mas impotentes e inúteis sobre o cadáver do 
filho. “E justamente por isso que as verto, por 
serem impotentes e inúteis.” A mulher de Só- 
crates assim se desesperava: “que injustiça 
cometem esses malvados juízes que o conde- 
nam!? — “Preferirias”, replicou o filósofo, 
“que isso fosse justo ? ? 

Usamos furar o lóbulo das orelhas, o que os 
gregos consideravam sinal de escravidão. 
Escondemo-nos para possuir nossas mulheres; 
os indianos possuem-nas em público. Os citas 
imolavam os estrangeiros em seus templos; 
alhures os templos são asilos. “Cada país 
odeia as divindades dos países vizinhos, por- 
que cada um considera seus deuses os únicos 
verdadeiros. Daí o furor cego das multi- 
does : 

Ouvi falar de um juiz que, quando encon- 
trava entre Bartole e Baldus??? algum conflito 
árduo de resolver e algum assunto que apre- 
sentasse dificuldades, escrevia à margem do 
livro: “questão para o amigo”, o que signifi- 
cava que a verdade era tão confusa e contro- 
versa que em semelhante causa lhe seria fácil 
favorecer qualquer das partes. Com algum 
espírito e um pouco de ciência, pudera escrever 
sua frase em tudo. Em todos os processos, 
advogados e juízes de nosso tempo acham 
meios para chegar.ao resultado que bem enten- 
dem. Em ciência tão extensa, dependente de 
opiniões que fazem lei, e nas quais o arbítrio 
desempenha papel importante, uma extrema 
confusão deve naturalmente verificar-se nas 
sentenças. Por isso não há processo, por claro 
que seja, a cujo respeito as opiniões não 
variem. O que julga um tribunal é por outro 
reformado. Acontece até que o mesmo tribu- 
nal, julgando de novo, julgue diferentemente 
da primeira vez. Esses fatos se observam 
comumente, em virtude do abuso, tão prejudi- 
cial à dignidade da autoridade e ao prestígio 
da justiça, de não se conformarem com o jul- 
gamento e de apelarem para todas as jurisdi- 
ções a fim de se pronunciarem elas sobre a 


mesma causa. : 
Quanto à liberdade de que usam os filósofos 


em se referindo ao vício e à virtude, é ponto a 
cujo respeito não convém estender-se e que deu 


331 Virgílio. 
332 Juvenal. 


333 Bartole e Baldus, jurisconsultos rivais do sécu- 
lo XIV. 


274 


margem a opiniões que, em atenção aos espíri- 
tos fracos, é melhor calar. Arcesilau dizia que 
em matéria de impudicícia o mal independe do 
culpado e da maneira por que é cometido: 
“quanto aos prazeres obscenos, Epicuro pensa 
que, se a natureza os solicita, não hã como 
olhar a raça, a origem, ou a condição social, e 
sim tão-somente a beleza, a idade, o aspec- 
to”33*. “Os amores elevados não se proíbem 
ao sábio”33 8. “Vejamos até que idade deve- 
mos amar os jovens”3º 8. Estas duas últimas 
proposições emanam dos estóicos e mostram, 
como aliás a censura dirigida contra Platão 
por Dicearco, a que ponto a filosofia mais 
esclarecida tolerava exageradas licenças ao 
que comumente se praticava. 


A autoridade das leis provém de existirem e 
terem passado para os costumes; é perigoso 
fazê-las retornarem à sua origem. Como os 
rios que se avolumam com o rolar das águas, 
elas adquirem importância e consideração em 
se aplicando. Remontai-lhe o curso até a nas- 
cente e vereis um insignificante filete de água. 
Investigai os motivos que no início deram 
impulso a essa torrente de leis e costumes, hoje 
considerável e cheio de dignidade, temor e 
veneração. Vós os achareis tão frágeis, tão 
pequenos, que não é estranho que esses filóso- 
fos que tudo perscrutam, que tudo submetem 
ao exame da razão, nada admitindo sem auto- 
ridade, os julguem tão diferentemente do resto 
do mundo. Tomam por modelo a imagem pri- 
meira da natureza e não há como nos espan- 
tarmos de que, na maioria de suas opiniões, se 
desviem do caminho comum. Poucos, entre 
eles, por exemplo, teriam aprovado as condi- 
ções restritivas de nossos casamentos; que- 
riam, em geral, que as mulheres fossem de 
todos, sem obrigações para com ninguém e 
recusavam-se a observar aquilo a que chama- 
mos conveniências. Crisipo dizia que, mesmo 
sem calças, um filósofo faria em público uma 
dúzia de piruetas, por uma dúzia de azeitonas. 
E nem tivera procurado convencer Clistenes de 
não dar sua filha Agarista a Hipóclides que 
vira “plantando uma bananeira” em cima da 
mesa. Metrocles, um tanto indiscretamente, 
dera um peido quando dissertava, cercado de 
seus discípulos. Envergonhado, fechou-se em 
casa, até que Crates, indo visitá-lo, juntou o 
exemplo às consolações e raciocínios e o li- 
vrou de seus escrúpulos, levando-o ainda a 
aderir à seita dos estóicos, seita mais franca 
que a dos peripatéticos, a qual era mais requin- 
tada e que Metrocles seguira até então. Deno- 


334 Cícero. 
335 Td. 
33 6 Sêneca. 


MONTAIGNE | 


minamos honestidade fazer às escondidas o 
que não fazemos a descoberto. Esses filósofos 
a isso chamavam tolice, e vício ao calar acerca 
do que a natureza, os costumes e os desejos 
proclamam. Se lhes parecia loucura celebrar 
os mistérios de Vênus fora do santuário reser- 
vado de seu templo, e expô-los às vistas de 
todos, era porque tais jogos, sem cortinas, per- 
dem seu sabor; e a vergonha é fardo por de- 
mais pesado. Velá-los, e moderar-se na sua 
prática, emprestam-lhes maior valor. Acha- 
vam os filósofos que a volúpia se enobrecia de 
não se prostituir nas ruas, de não se depreciar 
aos olhos de todos, de não ser espezinhada, o 
que ocorreria com a supressão dos locais espe- 
ciais que lhe são reservados. Daí dizerem al- 
guns que suprimir os bordéis públicos era não 
somente expandir a impudicícia, mas ainda 
incitar os vagabundos e os ociosos com o cha- 
mariz das dificuldades: “Outrora marido de 
Aufídia, eis-te, hoje, Corvino, seu amante, hoje 
que ela é a mulher daquele que antes foi teu 
rival. Ela te desagradava quando era tua, por 
que te agrada agora depois que pertence a 
outro? És tu impotente quando nada tens a 
temer”337. Mil exemplos demonstram que 
assim é, que as dificuldades excitam nossos 
desejos: “Não houve, Ceciliano, quem quisesse 
tua mulher gratuitamente, quando era livre; 
agora que tu a vigias e guardas, os adoradores 
são legião. És realmente um homem hábil 2338, 
Perguntaram o que fazia a um filósofo 
surpreendido no momento da cópula. “Planto 
um homem”, respondeu friamente, tão pouco 
envergonhado como se plantara alhos. 


Um de nossos maiores autores religiosos 
sustenta, em termos mui dignos e comedidos, e 
de meu agrado, que a prática desse ato exige 
tanto que nos escondamos e tenhamos pejo, 
que não pode acreditar se realizasse na licença 
dos cínicos. Pensa que se restringia então a 
movimentos lascivos destinados a dar satisfa- 
ção à impudência dessa escola. E que para 
chegar ao fim, que a vergonha impede e inibe, 
deviam procurar não ser vistos. Não se apro- 
fundara por certo na devassidão deles. 


Diógenes, masturbando-se em público, la- 
mentava perante a turba de que não pudesse 


" dar gozo ao ventre, em o roçando. A quem lhe 


perguntava por que comia na rua e não busca- 
va lugar mais apropriado, respondia: “é por- 
que tenho fome na rua”. As mulheres filiadas a 
essa seita entregavam-se aos filósofos em qual- 
quer lugar, e à discrição. Hipárquia só foi 
admitida na companhia de Crates sob a condi- 
ção de seguir em tudo os usos e costumes da 


337 Marcial. 
338 Td. 


ENSAIOS — II 275 


seita. Davam a maior importância à virtude e 
só se conduziam pela moral; entretanto, em 
todos os seus atos obedeciam ao sábio que 
escolhiam como chefe de escola e cuja opinião 
era soberana e mais acatada do que as leis. E 
não conheciam outros limites a seus prazeres 
senão os da moderação e da liberdade alheia. 
No fato de o vinho parecer amargo aos doen- 
tes e agradável aos sãos; de o remo parecer 
torto mergulhado na água e reto aos que o 
vêem fora dela; de muitas coisas assim se mos- 
trarem sob aparências antagônicas, Heráclito e 
Protágoras apontavam a prova de que cada 
qual traz em si a causa das aparências. Assim 
o vinho encerra um princípio amargo, que o 
torna amargo aos doentes, o remo um princi- 
pio torto em relação com quem o vê na água, 
etc. O que equivale a dizer que tudo está em 
todas as coisas e por conseguinte nada em 
nenhuma, pois não há nada onde há tudo. 

Essa opinião recorda-me o que ocorre em 
nós. Não há sentido real ou aparente, amargo 
ou doce, reto ou sinuoso, que o espírito huma- 
no não descubra nos escritos que examina de 
perto. De quantas falsidades ou mentiras uma 
frase clara, pura e perfeita quanto possível, é 
ponto de partida! Qual a heresia que nela não 
achou um testemunho suficiente para que se 
exibisse e se sustentasse? Por isso os autores 
de tais erros não querem nunca renunciar as 
provas, tiradas da interpretação dada aos tex- 
tos e que podem favorecê-los. Um alto perso- 
nagem, desejando justificar a pesquisa a que se 
entregava, da pedra filosofal, citava-me ulti- 
mamente cinco ou seis trechos da Bíblia, nos 
quais se baseara a princípio a fim de tranqui- 
lizar a consciência (pois é eclesiástico). E, em 
verdade, o que encontrara não era somente ori- 
ginal, mas se aplicava muito bem à defesa 
dessa bela ciência. 

E dessa maneira que as fábulas dos adivi- 
nhos ganham crédito. Não há adivinho, de al- 
guma autoridade, que, em lhe folheando a obra 
e examinando a fundo as palavras, não se faça 
dizer o que se queira, como às sibilas. Há tan- 
tas maneiras de interpretar, que é dificil, qual- 
quer que seja o assunto, um espírito engenhoso 
não descobrir o que lhe convenha. Por isso 
mesmo o estilo equívoco e obscuro se usou 
desde sempre, e frequentemente. Que um autor 
consiga interessar a posteridade, o que pode 
acontecer ou em razão de seu valor real ou da 
predileção de que goze no momento o assunto 
tratado; que por estupidez ou esperteza seja 
seu estilo confuso e rebuscado; pode sossegar: 
numerosos espiritos, agitando-o e peneirando- 
o, tirarão dele inúmeras idéias, ou idênticas às 
próprias, ou algo semelhantes, ou absoluta- 
mente contrárias e, todas, o honrarão. Alcan- 


çará assim o êxito por intermédio de seus 
discípulos, como os professores se enriquecem 
com o dinheiro do Landit*?º. 

Foi o que valorizou muitas coisas sem valor 
e pôs em evidência alguns escritos que se inter- 
pretaram à vontade, de mil e uma maneiras. 

Será admissível que Homero tenha dito tudo 
o que lhe fizeram dizer? Que voluntariamente 
se tenha prestado a tão numerosas e divérsas 
interpretações, que os teólogos, os legisladores, 
os guerreiros, os filósofos, e outros que se ocu- 
pam das ciências, por diversos e opostos que 
sejam seus temas, nele se apóiem, a ele se 
refiram? 


Para todos é ele o grande mestre em tudo, 
ofícios, obras, ciências. É o conselheiro de 
todos os empreendimentos. Quem atenta para 
oráculos e predições, encontra o que quer. Um 
amigo meu, mui sábio personagem, nele desco- 
briu indicações realmente admiráveis em prol 
de nossa religião. Tão maravilhosa é a coisa, 
que ele não pode deixar de acreditar que foi 
intencional da parte de Homero, o qual lhe é 
de resto tão familiar quanto qualquer autor de 
nosso século. Mas é possível que o que encon- 
tra em Homero favorável a nosso culto, mui- 
tos, na antiguidade, o encontraram favorável à 
sua religião. 

Vede como estudam e aprofundam Platão, 
cada qual se vangloriando de o ter a seu lado e 
o interpretando a seu modo. Passeiam-no por 
todas as opiniões do século e obrigam-no a 
tomar partido. Forçam-no mesmo à contradi- 
ção segundo as idéias em voga. Fazem-no 
reprovar os costumes aceitos em sua época, se 
já não o são agora, € isso com tanto maior 
autoridade e nitidez quanto mais autoritário e 
direto o espírito do intérprete. Dos mesmos 
fatos que haviam levado Heráclito a emitir 
esta opinião: “todas as coisas têm em si as 
aparências que apresentam”, Demócrito tirava 
conclusões opostas: “as coisas nada têm do 
que nelas encontramos”. E do fato de ser o mel 
doce para uns e amargo para outros, deduzia 
não ser ele nem doce nem amargo. Os pirrô- 
nicos teriam dito não saberem se é doce ou 
amargo, se não é doce nem amargo, ou se é 
doce e amargo, pois chegam sempre à conclu- 
são de que o ponto litigioso se presta a dúvi- 
das. Os cirenaicos sustentavam que não perce- 
bemos nenhuma sensação exterior, que só as 
sensações internas nos são perceptíveis. Assim 
a dor e a volúpia. Não admitiam o som ou a 
cor, mas tão-somente as sensações que nos | 
causam e de que provém o julgamento do 
homem. Protágoras considerava que a verdade 


339 Presentes que os alunos davam aos mestres por 
ocasião da feira de Landit. 


276 


é para cada um o que lhe parece. Os epicu- 
ristas localizavam o julgamento nos sentidos 
pelos quais adquirimos o conhecimento das 
coisas e sentimos as sensações que provocam. 
Platão queria que esse julgamento, que nos 
permite discernir a verdade, e a própria verda- 
de, proviessem não dos sentidos e idéias 
preconcebidos, mas do espírito e da reflexão. 

Esta dissertação induziu-me a considerar os 
sentidos como a grande causa e a prova, a um 
tempo, de nossa ignorância. Tudo o que se 
conhece, conhece-se pela faculdade de conhe- 
cer do indivíduo. Isso é incontestável, porque 
sendo o julgamento um ato de quem julga, é 
natural que empregue, em julgar, seus melho- 
res meios e sua vontade; que não seja forçado 
a reportar-se a outrem, como ocorreria se o 
conhecimento das coisas se impusesse pela sua 
natureza própria. Ora, esse conhecimento che- 
ga-nos pelos sentidos, que são nossos mestres: 
“são as vias pelas quais a evidência penetra no 
santuário do espírito humano”. Por eles se ini- 
cia a ciência e com eles se afirma. Afinal, 
seriamos ignorantes como uma pedra, se não 
conhecêssemos a existência do som, do odor, 
da luz, do sabor, da medida, do peso, da mole- 
za, da dureza, do amargor, da cor, do tato, da 
largura, da profundidade, o que constitui a 
base e o princípio de toda ciência. Tanto assim 
que, para alguns ciência é sensação. Quem 
puder me levar a contradizer os sentidos ter- 
me-á em suas mãos, pois são o começo e o fim 
dos conhecimentos humanos: “vereis que a 
noção do verdadeiro nos vem dos sentidos; seu 
testemunho é irrefutável, pois que guia merece- 
rá mais do que eles a nossa confiança?”* *º 
Por menos que lhe atribuam, será sempre 
necessário confessar que tudo o que sabemos 
vem deles ou por seu intermédio. Diz Cícero 
que Crisipo, tendo tentado diminuir a força e 
as faculdades de seus sentidos, encontrou em si 
mesmo tais argumentos contrários à sua tese, e 
tão veementes, que não pôde atingir seu objeti- 
vo. O que levou Carnéades a dizer, na polê- 
mica que então mantinha contra ele, e na qual 
se vangloriava de usar as próprias armas do 
adversário: “Infeliz, tua força mesma te per- 
deu!” Nada mais absurdo, a meu ver, nada 
mais excessivo que afirmar que o fogo não 
aquece, a luz não ilumina, o ferro não pesa, 
nem é duro, coisas cujo conhecimento nos vem 
dos sentidos; ou que nenhuma crença pode 
comparar-se ao que se ensina. 

Uma primeira observação farei a respeito 
dos sentidos: a de que não me parece seja o 
homem provido de todos os que existem na 
natureza. Vejo animais que vivem muito bem 


340 Tucrécio. 


MONTAIGNE 


| 


sem enxergar nem ouvir; quem nos diz que a 
nós não faltam também um, dois, três e até và- 
rios sentidos? Pois se algum nos falta não hã 
como percebê-lo. É privilégio dos sentidos 
constituírem o limite máximo de nossa perspi- 
cácia; nada, fora deles, nos pode ajudar a 
descobri-los. Nem um sentido pode revelar 
outro. “Pode o ouvido retificar a vista, ou O 
tato, o ouvido? Pode o paladar suprir o tato? E 
o olfato ou a vista corrigir os erros dos 
demais ?”* *1 São em verdade os limites mais 
recuados de nossas faculdades: “cada qual tem 
seu poder, cada qual sua própria força”? *2. É 
impossível fazer com que um homem natural- 
mente cego deseje ver e lamente a ausência do 
sentido de que carece. Portanto não devemos 
vangloriar-nos da satisfação de nossa alma 
com os que temos, pois ela não pode sentir sua 
imperfeição, se a tem. É impossível, pelo racio- 
cínio, a analogia ou a similitude, fazer que a 
imaginação de um cego adquira a menor 
noção do que venham a ser a luz, a cor, a vista. 
Nada nele pode induzi-lo a uma idéia do senti- 
do que lha falta. Quando um cego de nascença 
afirma que desejaria ver, não o faz por 
compreender o que exprime; di-lo, aponta efei- 
tos e consequências, mas ignora, em verdade, o 
que seja, não o concebe, nem muito nem 
pouco. 


Conheço um fidalgo de boa estirpe, cego de 
nascença ou pelo menos cego desde quando 
não sabia ainda o que fosse a vista. Tem tão 
pouca consciência do que lhe falta que empre- 
ga como nós locuções que servem para expri- 
mir o que vemos, mas as aplica de maneira 
muito particular, muito sua. Apresentaram-lhe 
uma criança de que era padrinho. Tomando-a 
nos braços, exclamou: “Meu Deus, que linda 
criança! Bela de se ver! Como seu rosto 
esplende de alegria!” Dirá como nós: “deste 
cômodo tem-se uma bela vista; lindo sol!” 
Mais ainda: como a caça, o tiro de arcabuz, o 
Jogo da bola, são exercícios que praticamos, 
ele os aprecia e no assunto se compraz apaixo- 
nadamente, embora deles participe somente 
pelo ouvido. Gritam-lhe, quando estão em ter- 
reno plano sobre o qual pode andar à vontade: 
“Olha a lebre!” E em seguida: “ei-la morta”. E 
ele se mostra tão órgulhoso da coisa quanto os 
outros. No jogo de bola, toma-a com a mão 
esquerda e lança-a com a raqueta em qualquer 
direção. Com o arcabuz atira ao acaso € acre- 
dita quando lhe afirmam .que atirou alto de- 
mais ou ao lado do alvo. 

Como saber se o gênero humano não come- 
te tolices análogas, em virtude de alguma 


341 Td. 
342 Id. 


ENSAIOS — II 


carência de sentido, cuja falta faz que em sua 
maioria as coisas não se mostrem tal qual são? 
Quem sabe se não provêm disso as dificul- 
dades que sentimos em entender certas obras 
da natureza? Quem sabe se certas coisas exe- 
* cutadas pelos animais e que ultrapassam nos- 
sas possibilidades não são resultantes de dadas 
faculdades? Quem pode dizer se por isso não 
têm uma vida mais plena e satisfatória do que 
a nossa? À maçã excita a maior parte de nos- 
sos sentidos: é vermelha, lisa, tem perfume, é 
doce. Talvez tenha outras virtudes, como secar 
e restringir, que nossos sentidos não percebem. 
Não é provável que as propriedades a que cha- 
mamos ocultas e que observamos em muitas 
coisas, como no ímã a de atrair o ferro, devem 
corresponder a faculdades de sentidos naturais 
cuja incapacidade de perceber nos induz à 
ignorância de sua essência? É provavelmente 
em consequência de algum sentido específico 
que os galos distinguem a hora, pela manhã e à 
noite, e cantam. E que as galinhas temem o 
gavião, antes de qualquer experiência e não 
receiam nem o ganso nem o pavão de estatura 
muito maior; e que os frangos sabem da hosti- 
lidade do gato e não desconfiam do cão, tre- 
mendo ante o miado harmonioso e não ante o 
latido áspero; e as formigas, as abelhas e os 
ratos escolhem sempre o melhor queijo sem 
antes o provar; e o veado, o elefante, a PRuDEnRO 
conhecem ervas que curam. 


Não hã sentidos que não sejam de grande 
importância; e os conhecimentos que devemos 
a cada um deles são em número infinito. Se a 
inteligência dos sons, da harmonia e da voz 
viessem a faltar-nos, haveria incrível confusão 
em todo o resto de nossa ciência, pois, além do 
que se prende aos efeitos de cada sentido, tira- 
mos inúmeros argumentos, consequências e 
conclusões da comparação de um com outro. 
Imagine um entendido o gênero humano 
desprovido, desde sempre, do sentido da vista, 
e pesquise a que ponto a confusão conduziria 
tal lacuna. Quanta treva e cegueira em nossa 
alma! Julgar-se-ã por aí quanto importa ao 
conhecimento da verdade a privação de um ou 
mais sentidos. Concebemos a verdade sob um 
aspecto para o qual contribuem nossos cinco 
sentidos. Talvez para que seja a verdadeira, e 
que tenhamos a certeza de apreender integral- 
mente, careçamos de oito ou dez. 

As seitas filosóficas que contestam a ciência 
humana sublinham, em particular, a incerteza 
e a fraqueza de nossos sentidos, porquanto 
todo conhecimento nos alcança por seu inter- 
médio. Se falham em seus relatórios, se se cor- 
rompem, ou alteram o que nos comunicam, se 
a luz que por eles se introduz em nossa alma se 
obscurece em caminho, não temos mais em 


277 


que confiar. Dessa extrema dificuldade surgiu 
este aforismo: “Toda coisa encerra em si tudo 
o que nela achamos; e nela não há nada do que 
pensamos encontrar.” E mais este, dos epicu- 
ristas: “O sol não é maior do que a nossa vista 
o considera; as aparências, que nos impelem a 
ver maior O corpo mais próximo e menor o 
mais longínquo, são todas verdadeiras”; ou 
como diz Lucrécio: “se contudo não convimos 
em que nossos olhos nos iludem, não impute- 
mos nossos erros ao espírito”. E, o que é mais 
ousado: “nossos sentidos não se enganam, 
estamos na sua dependência e é preciso buscar 
alhures as razões suscetíveis de explicar as 
diferenças e contradições que constatamos; 
inventar mesmo uma mentira ou um devaneio 
de nosso espírito, de preferência a acusar os 
sentidos”? 43, 

Timágoras jurava que por mais que piscasse 
ou esfregasse o olho nunca via em dobro a luz 
da vela e que essa ilusão provém de um erro da 
imaginação e não de um defeito do órgão. De 
todos os absurdos, o mais absurdo, para os 
epicuristas, consistia em negar o poder e os 
efeitos dos sentidos: “As indicações dos senti- 
dos são sempre verdadeiras. Se a razão não 
pode explicar por que o que vê quadrado, de 
perto, vê comprido de longe, é melhor ainda, 
sem solução verdadeira para esse duplo fenô- 
meno, dar uma falsa, de preferência a deixar 
escapar a evidência, a mentir à fé primeira e 
destruir os fundamentos da credibilidade em 
que assentam nossa conservação e nossa vida, 
pois os interesses da razão não são aqui os úni- 
cos em jogo. A própria vida só se conserva 
com o apoio dos sentidos; é em vista de seu 
testemurho que evitamos os precipícios e ou- 
tras coisas nocivas”? **. 

Este conselho desesperado e tão pouco filo- 
sófico não significa senão que a ciência só 
pode existir na medida em que lhe empres- 
tamos a ajuda de uma razão desarrazoada, 
maluca, obstinada; e que, para- satisfação da 
vaidade do homem, mais vale ainda isso ou 
servir-se de qualquer fantasia, do que confes- 
sar a sua estupidez; o que não honra dema- 
siado a humanidade. 

O homem não pode impedir que os sentidos 
não sejam os soberanos mestres dos conheci- 
mentos que possui; mas estes não oferecem 
certeza e sempre podem induzi-lo em erro. É 
preciso insistir nesse ponto. Na falta do que 
deveria dar-lhe força, ele o supre com a obsti- 
nação, a temeridade, a impudência. Se os 
epicuristas estão certos, isto é, “se a ciência 
não existe visto que as aparências comuni- 


343 TLucrécio. 
344 Tucrécio. 


278 MONTAIGNE 


cadas pelos sentidos são falsas”, e se o que 
dizem os estóicos é igualmente verdadeiro, 
“que as aparências transmitidas pelos sentidos 
são tão falsas que não podem criar nenhuma 
ciência”, somos levados a concluir que não há 
ciência. 

Quanto ao erro €e à incerteza das operações 
dos sentidos, não faltam exemplos à mão, tão 
abundantes são essas falhas e ilusões. Em vir- 
tude do eco no vale, o som da trombeta parece 
vir de frente quando na realidade vem de trás. 
“As montanhas que se erguem acima do mar 
parecem-nos de longe uma só massa, embora 
em verdade sejam distantes umas das outras. 
As colinas e campos que margeamos, parecem 
fugir em direção à popa do navio em que nave- 
gamos. Se o cavalo pára no meio de um ria- 
cho, parece que caminha obliquamente, cor- 
renteza acima, como impelido por estranha 
força”? * 8. Se manuseio uma bala de arcabuz 
com os dedos entrelaçados, é preciso violen- 
tar-me para admitir que não sejam duas. 

Que os sentidos dominam muitas vezes a 
razão e nos impõem sensações que ela sabe 
serem falsas é coisa que se vê comumente. 
Deixo de lado o tato, que tem funções mais 
imediatas, vivas e substanciais e que, pela dor 
que pode provocar, desmente as resoluções 
estóicas e força a gritar quem está com cólicas, 
embora proclame este o dogma de que a cóli- 
ca, como qualquer outra doença ou dor, é indi- 
ferente e não tem o poder de diminuir em nada 
a felicidade que a virtude outorga ao sábio. 
Mas não há coração, por mais efeminado que 
seja, que o som de nossos tambores e trombe- 
tas não entusiasme; nem o há tão duro que a 
música não desperte e amoleça; nem alma tão 
ríspida que não se sinta comovida na sombria 
imensidade de nossas igrejas, com seus ornatos 
e cerimônias; ou que, ouvindo os órgãos, não 
se eleve misticamente; mesmo os que entram 
nesses edifícios com desdém, impressionam-se 
e experimentam uma espécie de temor supersti- 
cioso que lhes abala a opinião. Quanto a mim, 
não me considero bastante forte para permane- 
cer insensível aos versos de Horácio ou Catu- 
lo, recitados com inteligência por jovens e 
belos lábios. A voz, dizia Zenão, é a flor da 


beleza. : : 4 
De uma feita quiseram persuadir-me de que 


um homem que todos conhecemos, me impres- 
sionara com seus versos somente por causa da 
voz. Diziam que não eram tão bons como 
pareciam e meus olhos julgariam diferente- 
mente de meus ouvidos, tanto a dicção valo- 
riza as obras. Não andou portanto errado Filó- 
xeno quando, ao ouvir alguém ler de maneira 


3as Td. 


incorreta os seus escritos, se pôs a sapatear e a 
espezinhar os tijolos? * $ do importuno, dizen- 
do: “Quebro o que te pertence como quebras o 
que é meu.” Por que razão as pessoas que 
ordenam a própria morte viram a cabeça para 
não ver o golpe? E os que, doentes, desejam e 
pedem que os sangrem ou cauterizem não 
podem suportar a vista dos preparativos do 
cirurgião, se a vista não influi na dor? Não 
provam esses exemplos o domínio dos sentidos 
sobre a razão? Embora não ignoremos que a 
cabeleira do pajem ou do lacaio é falsa, que o 
rosado vem da Espanha, a palidez brilhante se 
deve a produtos exóticos, nossa vista, contra 
toda razão, compraz-se na contemplação do 
objeto. “Somos seduzidos pelo adorno; o ouro 
e a pedraria escondem os defeitos; a jovem 
mesma é a menor parte do que nela nos apraz. 
Não raro temos dificuldade em achar o que 
amamos sob tantos ornatos; é sob essa égide 
opulenta que o amor engana os olhos” 2 “7. E 
que poder emprestam os poetas aos sentidos 
quando nos mostram Narciso enamorado de 
seu reflexo ! “Admira tudo o que é admirável. 
Insensato ! Deseja-se a si próprio; é a si mesmo 
que aprecia e aspira; queima-se com a paixão 
que ele próprio acende”3+8, Por isso, mos- 
tram-nos também Pigmaleão com o espírito 
perturbado pela impressão que lhe causa a 
vista de sua estátua de marfim, a que ama e da 
qual se torna escravo como se ela fosse anima- 
da: “cobre-a de beijos e imagina ser correspon- 
dido; abraça-a freneticamente; pensa sentir 
nos dedos o estremecimento da carne e receia, 
ao calcá-la, deixar uma impressão lívida”. 
Ponha-se um filósofo em uma gaiola de 
arame fino e pendure-se no alto das torres de 
Notre-Dame. Verá de maneira evidente que 
não pode cair e apesar disso, a menos de estar 
familiarizado com o ofício de pedreiro, não 
evitará o medo, transido de pavor pela vista da 
altura. Já nos é difícil sentirmo-nos à vontade 
à beira dos terraços de nossos campanários, 
mesmo quando de pedra; e certas pessoas não 
o suportam sequer em pensamento. Jogue-se 
entre as torres da catedral uma tábua suficien- 
temente larga para passarmos; não haverá 
sabedoria filosófica, por mais admirável que 
seja, capaz de nos infundir a coragem de andar 
em cima dela como o fariamos se a tábua 
assentasse no chão. Não raro senti nas monta- 
nhas dos Pireneus, e embora não me assuste 
facilmente, que não podia suportar a vista des- 
ses abismos imensos sem que me tremessem as 


*+8 Também chamados “tijolos de argila”, em que escre- 
viam os antigos antes do papiro. 

347 Ovídio. 

348 Id. 


ENSAIOS — II 


pernas e as coxas, apesar da distância bastante 
em que me encontrava da beirada e de saber 
que uma queda só fora possível se voluntaria- 
mente me expusesse ao perigo. Observei tam- 
bém que uma árvore ou um rochedo, ainda que 
pequenos, servindo como ponto de repouso 
para a vista, me tranquilizavam, como se, em 
caso de queda, nos pudessem ser úteis. Mas os 
precipícios sem obstáculos, não os podemos 
olhar com segurança: somos tomados de verti- 
gem, como diz Tito Lívio. E eis uma evidente 
impostura dos olhos. 

Foi o que levou esse belo filósofo a vazar os 
próprios olhos?*º a fim de se isentar das 
impressões desregradas que provocavam, im- 
pedindo-o de filosofar livremente. Mas, desse 
modo, também deveria ter tapado os ouvidos 
com algodão, pois são, no dizer de Teofrasto, 
Os nossos órgãos mais perigosos, suscetíveis, 
pela violência das impressões, de confundir e 
alterar nossas idéias. E deveria afinal privar-se 
igualmente de todos os outros sentidos, isto é, 
do próprio ser, da vida, pois todos exercem 
influência em nossa razão: “Acontece não raro 
que tal ou qual espetáculo, voz, canto impres- 
sionam vivamente nosso espírito; muitas vezes 
também a dor e o medo produzem os mesmos 
efeitos” * 50, 

Pretendem os médicos que certas pessoas se 
agitam até à loucura sob a ação de certos sons. 
Conheci quem não pudesse ouvir os cães roe- 
rem um osso embaixo da mesa sem perder a 
paciência. Poucas pessoas não são incomo- 
dadas pelo ruído agudo e penetrante da lima 
trabalhando o ferro. Assim também, o ruído 
dos maxilares mastigando ou o falar anasalado 
irritam até à cólera e ao ódio. E para que servi- 
ria o tocador de flauta que acompanhava 
Graco em Roma, atenuando ou ampliando a 
voz do tribuno, se os sons não tivessem a 
propriedade de comover e influir no espírito 
dos ouvintes? Em verdade, não há como nos 
vangloriarmos tanto de nossa faculdade de 
Julgamento, se um simples sopro a atinge e 
modifica! 


Se os sentidos nos induzem em erro, enga- 
nam-se também por seu turno. Nossa alma tem 
por vezes seu revide. Mentem eles: uns aos 
outros. O que vemos e ouvimos sob o domínio 
da cólera, não nos aparece como é realmente: 
“vêem-se então dois sóis e duas Tebas”, diz 


34º Demócrito, ao que dizem. 
350 Cicero. 


219 


Virgílio. O objeto de nossa afeição parece-nos 
mais belo do que na realidade é: “muitas vezes 
vemos a deformidade e a feiúra receberem 
homenagens ”* 87. E mais feio é o objeto de 
nossa animosidade. A um homem aborrecido e 
aflito, a claridade do dia se afigura tenebrosa. 
Nossos sentidos não somente se altéram mas 
ainda se estupidificam totalmente, sob o efeito 
das paixões. Quantas coisas olhamos sem ver 
se nosso espírito se acha ocupado alhures! 
“As coisas, mesmo as mais expostas à vista, se 
nelas não aplicamos o espirito, são como per- 
didas na noite dos tempos”3 82. Dir-se-ia que 
a alma se esconde dentro de nós e se diverte 
em abusar dos sentidos. Assim, o homem é, 
por dentro e por fora, fraqueza e mentira. 

Os que compararam nossa vida a um sonho 
foram mais judiciosos talvez do que pensavam. 
Em nossos sonhos nossa alma vive, age, exerce 
todas as suas faculdades, tal qual quando está 
acordada. Admitamos que o faça de um modo 
menos eficiente e visível, a diferença ainda não 
será tão grande quanto entre um dia de sole a 
noite, mas apenas como entre esta e o crepús- 
culo. Se ela dorme durante o nosso sono cochi- 
la mais ou menos quando estamos acordados. 
Em um e outro caso, permanecemos nas trevas 
mais profundas. Durante o sono, não vemos 
com nitidez, mas acordados não é tampouco 
perfeita a claridade. O sono profundo apaga 
por vezes os nossos sonhos; despertos, nunca o 
estamos bastante para nos livrarmos de todos 
os devaneios que são sonhos de gente acor- 
dada e piores do que os verdadeiros. Rece- 
bendo nossa razão e nossa alma as idéias e os 
sentimentos que nascem em nós enquanto dor- 
mimos, e prestando-se a eles, como o faz com 
o que concebemos de dia, como duvidar de 
que, em pensando e agindo, sonhamos? E estar 
acordado seja uma forma particular do sono? 

Se os sentidos são os juízes aos quais nos 
devemos reportar em primeiro lugar, não são 
apenas os nossos que devemos consultar. 
Nesse ponto os dos animais têm os” mesmos 


direitos que os nossos, senão maiores. Pois é 
certo que alguns têm o ouvido mais sensível, 
outros a vista, outros o olfato, outros o tato ou 
o paladar. Demócrito dizia que as faculdades 
pelas quais experimentamos as sensações são 
mais perfeitas nos deuses e nos animais. Há 


351 Lucrécio. 
352 Td. 


280 


em verdade enorme diferença entre os efeitos 
dos sentidos nestes últimos e em nós. Nossa 
saliva, por exemplo, que limpa e seca as nossas 
chagas, mata as serpentes. “Entre tais efeitos é 
tão grande a diferença, que o que é alimento 
para uns é veneno mortal para os outros. 
Assim a serpente, em contato com a saliva 
humana, definha e se devora a si própria”? 83. 

Que qualidades daremos então à saliva, as 
que concebemos ou as que a serpente concebe? 
Quem nos dirá de sua essência? 

Plínio afirma que há nas Índias certas lebres 
marinhas que constituem um veneno para nós, 
e reciprocamente. Basta que a toquemos para. 
que pereçam. Qual desses efeitos devemos 
classificar como veneno? Em quem acreditar? 
No peixe ou no homem? O homem é envene- 
nado por um certo ar que não ataca o boi; tal 
outro que não nos prejudica, não o suporta 
este. Qual dos dois é realmente pestilencial? 
As pessoas que sofrem de icterícia tudo vêem 
sob um aspecto amarelado. “Tudo parece 
amarelo a quem tem icterícia”, diz Lucrécio. 
Os que são atingidos pelo que os médicos 
denominam hiposfagma, que consiste em um 
derrame de sangue sob a pele? 54, vêem tudo 
vermelho. Essas disposições que modificam o 
que vemos, terão iguais efeitos nos animais? 
"* Pois entre eles os há com olhos amarelados ou 
vermelhos e é possível que não vejam as coisas 


com as cores que vemos. Quem estará com a 
verdade? E não se diga que a essência das coi- 
sas só aos homens importa. Nada o prova. A 
dureza, a brancura, a profundidade, o azedu- 
me, interessam-lhes tanto quanto a nós mes- 
mos. À natureza outorgou-lhes o uso, como a 
nós. Quando calcamos o olho, vemos os obje- 


tos mais compridos e largos; muitos animais 
têm o olho assim feito; esse comprimento que 
atribuímos aos corpos no caso em apreço tal- 
vez seja o verdadeiro. Se comprimimos o olho, 
apertando-o por baixo, vemos as coisas dupli- 


cadas. “As lâmpadas têm dupla luz, os homens 
duplo corpo e rosto”? $ 8, Se temos os ouvidos 
tapados ou semi-obstruídos, percebemos dife- 
rentemente os sons; os animais que possuem 
orelhas peludas, ou apenas um pequeno orifi- 
cio, não devem pois ouvir como ouvimos. 
Vemos nos teatros e festas vidros de cor inter- 


353 TLucrécio. 
354 Na realidade, equimose no olho. (N. do T.) 
355 TLucrécio. 


MONTAIGNE 


| 

postos entre nós e as tochas e tudo o que existe 
nesses lugares assim iluminados parece verde, 
amarelo, ou violeta: “assim ocorre com esses 
véus amarelos, vermelhos e cinzentos pendura- 
des em nossos teatros e flutuando no ar. Seu 
brilho móvel reflete-se nos espectadores e no 
palco; os senadores, as mulheres, as estátuas 
dos deuses, tudo se tinge à luz cambiante”3 5 8. 
É provável que os olhos dos animais vejam as 
coisas de acordo com sua cor. 

Para julgar as operações de nossos sentidos 
fora necessário portanto que estivéssemos de 
acordo com os animais e também entre nós. 
Ora esse acordo não existe. Disputamos sem- 
pre acerca do que um ouve ou sente, e é dife- 
rente do que o outro ouve ou sente; da mesma 
forma estamos divididos a respeito da diversi- 
dade das imagens que nossos sentidos nos 
comunicam. Em condições normais, uma 
criança ouve, vê e sente de maneira diversa de 
um homem de trinta anos, e este diferente- 
mente de um sexagenário. Em uns os sentidos 
estão mais embotados, em outros mais agudos. 
Percebemos as coisas segundo as nossas con- 
dições ou o que elas nos parecem ser. E o que 
nos parece é tão discutível, incerto, que temos 
o direito de declarar que vemos a neve branca, 
mas não o podemos assegurar. Com tão limi- 
tada certeza no ponto de partida, toda ciência 
reduz-se a nada. É precisaremos demonstrar 
que nossos sentidos se contradizem? Uma pin- 
tura que se diria em relevo à vista, parece 
plana ao tato. O almíscar agrada ao olfato e 
ofende o paladar. Há ervas e ungúentos que 
convêm a certas partes do corpo e irritam 
outras. O mel é bom de gosto e feio de se ver. 
Esses anéis em forma de pena que se usam em 
brasões — “penas sem fim” — e cuja largura 
o olho não sabe discernir, porquanto parecem 
engrossar de um lado e afinar de outro, mesmo 
se as enrolamos no dedo, ao tato se afiguram 


regulares em todas as suas partes. Houve 


outrora quem, a fim de alcançar maior volú- 
pia, se servisse de espelhos deformantes que 
ampliam os objetos neles refletidos. Qual de 
seus sentidos lhe dava maior satisfação? A 
vista, exagerando-os, ou o tato, diminuindo- 
os? São nossos sentidos que comunicam às 
coisas essas diversas condições, e terão elas 
uma só? O pão que comemos é unicamente 
pão, e, no entanto, segundo o uso que dele 


356 Id. 


ENSAIOS — II 281 


fazemos, torna-se osso, sangue, carne, pêlo, 
unhas: “os alimentos, infiltrando-se pelo corpo 
todo, perecem e mudam de natureza”? 87. O 
suco que as raizes das árvores absorveram 
transforma-se em tronco, folhas e frutos. O ar 
é um só; entretanto a trombeta o traduz em mil 
sons diversos. São, indago, os nossos sentidos 
que mudam de maneira análoga as condições 
diversas das coisas ou são estas assim? Diante 
desta dúvida, como julgaremos sua verdadeira 
natureza? Há mais: se em caso de doença, 
devaneio ou sono, as coisas nos aparecem dife- 
rentes do que quando estamos com saúde, em 
plena posse de nós mesmos, é provável que em 
nosso estado normal as vejamos de conformi- 
dade com as nossas condições. Não as encara- 
mos então de uma maneira igualmente particu- 
lar? Por que o moderado não as veria sob um 
aspecto específico, como ocorre a quem o não 
é? Quem tem o estômago perturbado acha 
insosso o vinho; o são acha-o saboroso; o 
sedento, excelente. Acomodando-se as coisas 
às nossas condições, como estas se transfor- 
mam. Não conhecemos a verdade a seu respei- 
to, pois sempre as temos alteradas ou falsifi- 
cadas pelos sentidos. Quando o compasso, a 
régua, o esquadro são falseados, todas as 
medidas o são também, e os edifícios com tais 
instrumentos construídos são forçosamente 
defeituosos e pouco sólidos. Da mesma forma, 


a insuficiência de nossos sentidos torna insufi- 
ciente tudo o que produzem: “Se na constru- 
ção de um edifício, a régua usada foi falseada, 
se o esquadro desvia da perpendicular, se o 
nível falha, ocorre necessariamente ser todo o 
edifício viciado, fora de equilíbrio, sem graça, 
nem boas proporções. Uma parte pode amea- 
çar cair, e cair mesmo, por ter sido mal dirigi- 
da. Assim, se não pudermos confiar inteira- 
mente nos sentidos, todos os julgamentos serao 


ilusórios”? 88. Mas a quem caberá julgar as 
diferenças? Dizemos que quando se trata de 
controvérsias religiosas seria necessário um 
juiz neutro, isento de preconceito ou preferên- 
cia, o que não se encontra entre os cristãos. O 
mesmo fato repete-se aqui. Se o juíz é um 
ancião, não pode imparcialmente julgar o que 
sente a mocidade, estando ele próprio interes- 
sado no debate. Se é um jovem, idêntico é o 
caso; como idêntico o será se o juiz for doente, 


357 Lucrécio. 
358 Td. 


ou são, se estiver acordado ou cochilando. 
Fora preciso alguém que nunca tivesse estado 
em nenhum desses casos para que se pronun- 
-ciasse sem prevenção por uma ou outra das 
diversas opiniões em presença. Ora, um juiz 
desse tipo não existe. 


Para aquilatar das aparências das coisas, 
precisariamos de um instrumento aferidor; 
para controlar esse instrumento necessita- 
riamos de experiências e mais um instrumento 
para comprovâ-las. E eis-nos em um impasse. 
Se os sentidos não podem decidir serem imper- 
feitos, é preciso que a razão decida. Mas 
nenhuma razão se aceitaria sem que outra lhe 
demonstrasse a validez; e eis-nos de volta ao 
ponto de partida. 


Nossa imaginação não se exerce direta- 
mente sobre as coisas que estão fora de nós; é 
levada a elas pelos sentidos; estes não se ocu- 
pam do que lhes é estranho, mas somente do 
que é objeto de suas impressões. E como a 
imaginação e a aparência que concebemos das 
coisas não vêm destas, mas sim dos nossos 
sentidos, e estas sensações são variáveis, ocor- 
re que quem julga pelas aparências julga por 
outra coisa que não o próprio objeto. 

Diremos que as impressões dos sentidos for- 
necem à alma uma imagem fiel dos objetos. 
Mas como podem a alma e os sentidos assegu- 
rar-se da exatidão da semelhança? Não estão 
eles próprios em relação com os objetos? 
Quem não conhece Sócrates e lhe vê o retrato 
não pode dizer se é parecido. E mesmo quem 
quisesse julgar pelas aparências não o poderia 
fazer por todas. Elas se neutralizam, em verda- 
de, pelas contradições e diferenças que apre- 
sentam, como no-lo mostra a experiência. Será 
pois somente por algumas, a serem escolhidas, 
que seu julgamento se exercerá. Mas, quando 
houver escolhido uma, será necessário escolher 
outra para verificar a primeira; uma terceira 
em seguida para controlar a segunda e assim 
por diante, indefinidamente. Em suma, nós 
mesmos e os objetos não temos existência 
constante. Nós, nosso julgamento, e todas as 
coisas mortais, seguimos uma corrente que nos 
leva sem cessar de volta ao ponto inicial. De 
sorte que nada de certo se pode estabelecer 
entre nós mesmos e o que se situa fora de nós, 
estando tanto o juiz como o julgado em perpé- 
tua transformação e movimento. 

Nada conheceremos de nosso ser, porque 
tudo o que participa da natureza humana está 
sempre nascendo ou morrendo, em condições 
que só dão de nós uma. aparência mal definida 
e obscura; e se procuramos saber o que somos 
na realidade, é como se quiséssemos segurar a 
água; quanto mais apertamos o que é fluido, 


282 MONTAIGNE | 


tanto mais deixamos escapar o que pegamos. 
Por isso, pelo fato de toda coisa estar sujeita à 
transformação, a razão nada pode apreender 
na sua busca do que realmente subsiste, pois 
tudo, ou nasce para a existência e não está 
inteiramente formado, ou começa a morrer 
antes de nascer. 

Platão dizia que os corpos nunca têm exis- 
tência; nascem somente. Considerava que 
Homero, fazendo do Oceano o pai dos deuses 
e de Tétis a mãe, quisera mostrar que tudo estã 
sujeito a vicissitudes, transformações e varia- 
ções perpétuas, opinião essa de todos os filóso- 
fos anteriores a Platão, com exceção de 
Parmênides que negava o movimento dos cor- 
pos, caro ao Mestre; Pitágoras achava que 
toda matéria é móvel e sujeita a mudanças; os 
estóicos, que o tempo presente não existe e 
que, o que assim designamos, não passa do 
ponto de junção do passado com o futuro. 
Heráclito dizia que nunca um homem atraves- 
sou duas vezes o mesmo rio; Epicarmo, que 
quem pediu um dia dinheiro emprestado não se 
torna devedor, e quem foi à noite convidado 
para a refeição da manha seguinte, e se apre- 
senta, chega sem ser convidado, porquanto 
não são mais os mesmos, e sim outros; “que 
toda substância perecível não se encontra duas 
vezes no mesmo estado, porque, por mudanças 
repentinas e inapreensíveis, ora se evapora, ora 
se condensa; vem e vai; de sorte que o que co- 
meça a nascer não se torna jamais um ser per- 
feito. Pode-se mesmo dizer que seu nascimento 
não termina e nem pára em um fim; desde sua 
concepção, vai-se transformando e passando 
de um estado a outro. O germe humano, por 
exemplo, torna-se inicialmente, no ventre da 
mãe, um fruto informe; em seguida uma crian- 
ça nitidamente constituída; depois, ao ser pari- 
do, uma criança de peito, que se transforma 
em menino, € sucessivamente em adolescente, 
homem, homem maduro e ancião decrêpito, de 
maneira que a idade e a geração seguinte des- 
fazem e estragam a geração que precede: “O 
tempo muda a face do mundo; uma ordem de 
coisas substitui outra, necessariamente. Nada 
é estável, tudo se transforma e a natureza está 
em continua metamorfose”? 5º. 

“E nós, tolos que somos, tememos uma 
forma particular da morte quando já conhece- 
mos tantas outras; pois, como ressalta Herá- 
clito, não somente a morte do fogo engendra o 
ar e a do ar engendra a água, como o podemos 
ver de maneira mais evidente pelo que se veri- 
fica em nós, mas também a flor da idade morre 
ao chegar a velhice, a infância ao surgir a 
adolescência, etc. Hoje assinala a morte de 


359 Tucrécio. 


ontem, amanhã assinalará a de hoje. Nada é 
imutável. Admitamos com efeito que sejamos e 
permaneçamos o que somos; como se explica- 
ria que nos alegremos ou nos entristeçamos 
com a mesma coisa segundo o momento? 
Como explicar que gostemos de coisas contrá- 
rias, que as detestemos, e as louvemos? Se 
demonstramos sentimentos diferentes diante de 
uma mesma coisa, é porque nosso pensamento 
se modifica, pois não é verossímil que sem 
mudança em nós variem os sentimentos. O que 
a mudança afeta já não é mais o mesmo. Ces- 
sando de ser idêntico a si mesmo, cessa pura e 
simplesmente de existir, torna-se outro. Por- 
tanto, os sentidos mentem e se enganam acerca 
da natureza das coisas, quando tomam a apa- 
rência pela realidade, e não sabem o que seja 
esta. 

“Que há então que seja realmente tal qual o 
vemos? Somente o que é eterno, isto é, o que 
nunca teve começo e não terá fim; o que não 
muda sob o efeito do tempo, pois o tempo é 
móvel e surge como uma sombra arrastando 
consigo a matéria fluida, instável, sempre em 
transformação. Ao tempo se aplicam estas 
palavras: “Antes ou depois”, foi ou será”, as 
quais já mostram à evidência que não se trata 
de uma coisa que é, porque seria tolice dizer 
que é algo que ainda não é ou já não é mais. À 
idéia que temos de tempo exprime-se nestas 
palavras: “Presente, instante, agora”, as quais 
parecem constituir-lhe a base. Mas que a razão 
se detenha nela e de imediato o conjunto rui; 
desde o primeiro instante a razão o destrói, 
repartindo-o em passado e futuro e recusando- 
se a aceitar qualquer outra divisão. O mesmo 
se dá com a natureza que se mede; nada há 
nela tampouco que permaneça, subsista. Tudo 
o de que se compõe foi ou estã nascendo ou 
morrendo. Eis por que seria pecado dizer que 
só Deus é, foi e será, porque são termos que 
implicam mudanças, transformações, vicissi- 
tudes próprias ao que não dura e cuja exis- 
tência não é contínua. Daí dever-se concluir 
que “só Deus é, não segundo uma medida 
qualquer do tempo, mas segundo a eternidade 
imutável e fixa, que não é função do tempo e 
não está sujeita a variações. Nada O precedeu, 
nada se Lhe seguirá, e nada é mais novo e 
recente; Ele é realmente, agora e sempre, o que 
para Ele são a mesma coisa. Nada a não ser 
Ele existe verdadeiramente, de que se possa 
dizer “foi e será”, porquanto Ele não teve come- 
ço e não terá fim.” 

A essa conclusão tão religiosa de um pagão, 
acrescentarei apenas para terminar tão longa e 
aborrecida digressão sobre assunto em verdade 
inesgotável, isto que disse outro filósofo pagão 


e que apresenta afinidade com o que se trans- 


ENSAIOS — II 


creveu: “Vil e abjeta coisa o homem, se não se 
eleva acima da humanidade!” Eis uma refle- 
xão inspirada em bom sentimento e no desejo 
de ser útil, e no entanto absurda. É com efeito 
impossível e contrário à natureza, um punhado 
maior do que o punho, uma braçada maior do 
que o braço, um passo maior do que a perna. 
Não pode tampouco ocorrer que o homem se 
eleve acima de si mesmo e da humanidade, 


283 


porque só pode ver com seus olhos e apreender 
com seus próprios meios. Elevar-se-á, se Deus 
lhe quiser dar a mão. Elevar-se-ã sob a condi- 
ção de abandonar seus meios de ação, de 
renunciar a eles e de se deixar erguer e elevar- 
se unicamente pelos meios que lhe vêm do céu. 


É nossa fé cristã, e não a virtude estóica dos 


filósofos, que pode operar essa divina e mila- 
grosa metamorfose. 


CapíTULO XIII 


De como julgar a morte 


Quando julgamos do ânimo que alguém 
demonstra no momento da morte — o mais 
importante por certo da vida humana — deve- 
mos levar em conta que raramente pensamos 
ter chegado a nossa hora. Poucas pessoas mor- 
rem convencidas de que estejam nos últimos 
instantes, e nada há a cujo respeito a esperança 
nos iluda tanto. Não cessa de nos soprar aos 
ouvidos: “outros estiveram bem pior, e não 
morreram; a coisa não é tão desesperada como 
pensam; ademais, Deus fez outros milagres”. 
Disso se deduz que damos excessiva impor- 
tância a nós mesmos; é como se tudo sofresse, 
de algum modo, com o nosso desapareci- 
mento, e se apiedasse de nós, pois nossa visão 
perturbada faz-nos ver as coisas diferentes do 
que realmente são. Parece-nos que elas se afas- 
tam de nós, quando nossos olhos é que fraque- 
Jam. Assim, para Os que viajam por mar, as 
montanhas, os campos, as cidades, o céu e a 
terra também se afiguram em movimento: 
“saímos do porto; a terra e o mar parecem 
afastar-se ”3 8º, Quem jamais viu a velhice não 
louvar o passado, não criticar o presente, 
imputando ao mundo e aos costumes de sua 
época sua miséria e sua tristeza? “Sacudindo a 
cabeça calva, o velho lavrador suspira; compa- 
ra o presente ao passado, louva a felicidade de 
seu pai e fala sem cessar da moral dos tempos 
antigos”* 81, 

Tudo vemos em relação a nós mesmos, daí 
darmos à nossa morte grande importância, 
pensarmos que não pode ocorrer facilmente e 
sem solene consulta aos astros: “Quantos deu- 
ses incomodados com a vida de um só 


360 Virgílio. 
361 Lucrécio. 


homem !?3 82 E assim fazemos porque nos esti- 
mamos demasiado: “pois tanta ciência se per- 
deria e tão grande prejuízo não seria objeto de 
particular atenção do destino? O desapareci- 
mento de tão bela alma, e tão exemplar, não 
valerá mais do que o da mais inútil? Esta vida 
que tantas outras sustenta, pela qual tantos se 
interessam, com tantas funções e cargos, deve- 
rá ser deitada fora como qualquer outra insig- 
nificante?” Nenhum de nós imagina suficiente- 
mente que não passa de uma unidade. Daí 
estas palavras que César dirigiu ao piloto de 
seu barco e mais inchadas de vaidade que o 
mar grosso: “Se o céu se recusa a conduzir-te 
as costas da Itália, segue sob meus auspícios. 
Se tens medo é porque ignoras quem conduzes; 
com o meu apoio, enfrenta sem receio a 
tempestade”3 83. Estas outras decorrem da 
mesma idéia: “César julga enfim o perigo à al- 
tura de sua coragem: terão os deuses necessi- 
dade de tão grande esforço para me destruir? 
Jogam o furor do mar contra a minha frágil 
embarcação”3 8 *. Assim também a loucura de 
um povo a exigir que durante um ano inteiro o 


sol se enlute por causa de sua morte: 
“participou igualmente da desgraça de Roma e 
cobriu-se com um véu de luto”3 85. E mil ou- 
tros exemplos poderiam invocar-se da ilusão 


do mundo a pensar que.seus interesses pertur- 
bem os céus: “a aliança entre nós e o céu não 
é de tal ordem que os astros devam cxtinguir- 
se com nossa morte”? 8 68, 


362 Sêneca. 

363 Tucano. 
364 Td. 

365 Virgílio. 
386 Plínio. 


284 


Não estamos certos ao julgar a resolução e 
o ânimo de alguém quando este não tem a cer- 
teza de se achar em perigo de morte; embora 
se ache. Em sua maioria, os homens assumem 
suas atitudes e escolhem suas palavras a fim de 
alcançar uma reputação de que ainda venham 
a aproveitar-se em vida. Quantos vi morrer, 
cuja atitude não pôde ser preparada e se deveu 
tão-somente ao acaso! E entre os que, na anti- 
guidade, se mataram, cumpre distinguir os que 
tiveram morte imediata dos que a tiveram 
lenta. Certo cruel imperador romano, falando 
de suas vítimas, dizia que queria fazer com que 
sentissem a morte; e acerca de uma delas, que 
se suicidara, observava: “essa me escapou !” 
Quisera que sofressem com a morte, através 
dos tormentos que esta provoca. “Vimo-lo 
vivo em um corpo mortificado, cuja agonia 
prolongavam com requintes de crueldade 

Em verdade não é assim tão difícil resolver 
matar-se, quando a gente goza saúde e nada 
tem a temer; é fácil mostrar-se valente antes do 
momento fatal, a ponto que Heliogábalo, o 
mais efeminado dos homens, projetara matar- 
se, em meio à sua luxúria, em condições faus- 
tosas. Para que essa morte não lhe desmentisse 
a vida, mandara construir uma suntuosa torre, 
encrustada, embaixo e na frente, de ouro e pe- 
dras preciosas, a fim de se precipitar do alto 
dela. E mandara confeccionar cordéis de metal 
precioso e seda purpurina para se enforcar, 
bem como uma espada de ouro para se tras- 
passar, e guardava veneno em vasos de esme- 
ralda e topázio para se envenenar, pois não 
sabia que gênero de morte escolheria. São os 
“corajosos por necessidade”, a quem se refere 
Lucano. 

A despeito de tantas precauções, é provável 
que houvesse recuado na hora da decisão, tal o 
luxo do aparato. Mas, mesmo entre os que, 
mais resolutos, levaram a cabo sua resolução, 
cumpre verificar se a morte se deu mediante 
golpe que não permitisse sentir-lhe os efeitos 
ou se quiseram que a vida abandonasse aos 
poucos seu corpo e sua alma, o que lhes teria 
dado tempo de se arrependerem ou provarem, 
em perseverando, sua firmeza de ânimo e sua 
obstinação na intenção primeira. 

Durante as guerras civis de César, tendo 
Lúcio Domício, aprisionado nos Abruzos, se 
envenenado, arrependeu-se em seguida. Ocorre 
também que alguém, decidido a morrer, não o 
tenha conseguido de chofre e se ferisse nova- 
mente duas e mais vezes, sem resultado, em 
virtude da revolta da carne que impede o braço 
de golpear profundamente. 

Enquanto se instruía o processo de Plauto 


367 Lucano. 


»3 67 


MONTAÍGNE 


Silvano, Urgulânia, sua avó, passou-lhe um 
punhal com o qual ele não conseguiu matar-se. 
Mandou então que seus servidores lhe cortas- 
sem as veias. Albucila, no tempo de Tibério, 
querendo suicidar-se, golpeou-se com insufi- 
ciente vigor, o que deu tempo a seus inimigos 
de a socorrerem e a fazerem morrer a seu bel- 
“prazer. Foi também o que aconteceu a Demós- 
tenes, depois de sua derrota na Sicília. E, €. 
Fimbria, falhando por falta de energia, pediu 
ao criado que o acabasse. Ao contrário, Ostó- 
rio, embora não podendo usar o braço, desde- 


nhou a ajuda do lacaio, senão para manter o 
punhal reto e firmemente; e jogou-se sobre a 
arma traspassando a garganta.. Na verdade, 
trata-se de uma coisa que se deve engolir sem 
mastigar, a não ser que se tenha garganta de 
ferro. Entretanto, Adriano mandou o médico 
marcar com um círculo no peito o lugar que 


devia ser golpeado por quem ele encarregasse 
de o matar. Eis por que César, quando lhe 
perguntaram qual o gênero de morte mais 
desejável, respondeu: “a menos premeditada e 
mais rápida”. E se César ousou dizê-lo, não é 
covardia minha acreditá-lo. “Uma morte rápi- 
da”, observa Plínio, “é a grande felicidade da 
vida.” Aborrece entretanto a alguns reconhe- 
cê-lo. 


Ninguém pode assegurar que estava resol- 
vido a morrer, se evita encarar a morte e não a 
pode ver chegar de olhos abertos. Os condena- 
dos que lhe correm ao encontro, a fim de 
apressá-la, não o fazem por espírito de resolu- 
ção, mas porque desejam abreviar o tempo em 
que deverão contemplá-la. Morrer não os ate- 
moriza, O que temem é a passagem da vida à 
morte: “não quero morrer, mas é-me indife- 
rente estar morto”3 88, A esse grau de resolu- 
ção já verifiquei que posso chegar, como 
quem, de olhos fechados, atira-se ao perigo ou 
ao mar. k 

A meu ver, nada é mais belo, na vida de Só- 
crates, do que ter permanecido durante trinta 
dias, depois de condenado, examinando sere- 
namente a morte futura, sem emoção, sem 
revelar nenhuma alteração de humor, agindo e 
conversando, antes com calma do que. com 
excitação sob o peso de um tal pensamento. 

Pompônio Atico, a quem Cicero escreveu 
cartas que nos ficaram dele, achando-se enfer- 
mo, chamou Agripa, seu genro, e dois oú três 
amigos, e lhes disse que, não conseguindo 
curar-se e aumentando-lhe o sofrimento os 
remédios que tomava para prolongar a vida, 
estava resolvido a pór fim a ambos, vida e 
sofrimento, e pedia a todos que o aprovassem 


3 68 Cícero. 


ENSAIOS — II 


ou, pelo menos, que não tentassem impedi-lo 
de levar a cabo a resolução. E tendo escolhido 
a morte pela fome para alcançar seu objetivo, 
sua abstinência, como por acaso, elimina a 
doença. Em querendo morrer, recupera a 
saúde. Seus médicos e amigos congratulam-se 
então com ele pelo feliz resultado; mas se 
enganam, pois não muda de decisão: “pois que 
lhe cumpriria um dia dar esse passo”, diz, 
“não queria, no ponto a que chegara, ter de 
recomeçar de outra feita”. Com lazer sufi- 
ciente meditara na morte, e não somente não 
renunciava a ela mas se obstinava e, satisfeito 
com o início, resolvia bravamente continuar. 
Provar a morte e saboreá-la é muito mais do 
que a não recear. 

A história do filósofo Cleantes se parece 
muito com a precedente. Estava com as gengi- 
vas inchadas e gangrenadas. Aconselham-lhe 
os médicos um jejum absoluto. Observando-o 
durante dois dias, sente-se tão melhor que o 
declaram curado e o autorizam a voltar à vida 
normal. Mas ele, achando já certa doçura no 
estado de fraqueza a que chegara, resolve não 
recuar e, perseverando, acaba por morrer de 
fome. 

Um jovem romano, Túlio Marcelino, preo- 
cupado com avançar a hora do destino, a fim 
de se desfazer de uma doença que o fazia so- 
frer mais do que queria suportar, mas que os 
médicos prometiam curar, embora com algu- 
ma demora, convocou seus amigos para deli- 
berarem juntos. Uns, relata Sêneca, davam-lhe 
o conselho que, por covardia, teriam eles pró- 
prios seguido; outros, para o adularem, o que 
acreditavam lhe fosse mais agradável. Um, afi- 
nal, da escola dos estóicos, disse-lhe: “não te 
aborreças, como se se tratasse de assunto 
importante. Viver não é grande coisa; teus 
lacaios e teus animais vivem; o que importa é 
morrer honrosamente, sabiamente e com cora- 
gem. Imagina só há quanto tempo fazes a 
mesma coisa: comer, beber, dormir; dormir, 
comer, beber; não saimos do círculo. Não 
somente os acidentes penosos e dolorosos nos 
incitam a sair da vida, mas também a sacie- 
dade de viver”. Marcelino precisava de alguém 


285 


para o ajudar a cumprir seu desígnio, e não 
para lhe dar conselhos. Acabava de encontrã- 
lo. Os servidores receavam meter-se no caso; 
nosso filósofo demonstrou-lhes que os criados 
só se comprometem quando há dúvida quanto. 
à vontade de morrer do senhor e que seria tão 
má ação impedi-lo de se matar quanto o 


matar, tanto mais que “salvar um homem con- 
tra sua vontade é como matá-lo”? 8º, Avisou 
em seguida Marcelino de- que, assim como se 
distribuem os restos do banquete aos que o ser- 
vem, era conveniente, ao fim da vida, deixar al- 
guma coisa aos que, no curso de sua existên- 
cia, lhe haviam prestado seu concurso. 
Marcelino, tão liberal quanto corajoso, man- 


dou repartir uma certa soma entre seus servi- 
dores e os consolou da tristeza que manifesta- 
vam. Para passar da vida à morte, não 
recorreu nem ao ferro, nem à efusão de sangue, 
pois estava decidido a retirar-se da vida e não 
evadir-se. Não queria fugir da morte, mas sim 
enfrentá-la. A fim de ter a possibilidade de 
desafiá-la, renunciou a todo e qualquer alimen- 


to, descansando no terceiro dia em um banho 
morno; e, enfraquecendo sempre mais, morreu 
lentamente, não sem experimentar, disse, uma 
espécie de volúpia. Os que por fraqueza têm 
uma síncope, afirmam também não sentir dor 
nenhuma, mas antes certo bem-estar, como 
quando adormecem e repousam. 


Catão parece ter tido como destino ser em 
tudo um modelo de virtude. Permitiu-lhe a 
sorte que, estando com a mão machucada, 
somente se ferisse ao golpear-se, o que lhe deu 
a possibilidade de lutar com a: morte até a 
agarrar. As circunstâncias que teriam podido 


enfraquecer-lhe o ânimo, antes o fortaleceram. 
Se me fosse dado representâ-lo na atitude que 
considero mais honrosa, mostrá-lo-ia ensan- 
gluentado e arrancando as entranhas, e não de 
espada na mão como fizeram os escultores de 
sua época. O segundo ato de sua morte revela 
sem dúvida alguma coragem bem maior que o 
primeiro. 


3 8SHgrácio. 


286 


MONTAIGNE 


CaPpíTULO XIV 


Como O nosso espírito cria suas 
próprias dificuldades 


Discute- -se comumente que decisão tomaria 
um espíritô indeciso entre duas coisas cuja 
realização deseja exatamente com igual inten- 
sidade. É indubitável que em tais condições 


não se decidirá nunca, pois, se Se inclinasse 
por uma, já seu gesto implicaria desigualdade 
de valorização. Se, com idêntica necessidade 


de beber e comer; fôssemos colocados entre 
uma garrafa e um presunto, não teriamos 
provavelmente outra solúção senão morrer de 
fome. 


Atentátido para a dificuldade dos que lhes 
perguntavam que haviã em nossa alma que 
determinasse a escolha entre coisas indiferen- 
tes, e fazia que em um sacó de escudos pegás- 


semos um e não outro, pois em sendo iguais 
não se justificava a preferência, respondiam os 
estóicos que isso se devia a um móvVimento 
inconsciente, provocado em nós por um impul- 
so estranho, acidental, fortuito. 

- Poder-se-ia antes afirmar, parece- me, que 
Hada se nos apresenta sem alguma diferença; 


por pequena que seja, e, ou à vista, ou ao tato, 
hã sempre algo que, embora não o perceba- 
mos, nos tenta e atrai, e determina a nossa 
escolha. Da mesma forma, se súpusermos, por 
exemplo, um barbante igualmente resistente 
em todo o seu comprimento, será impossível 
parti-lo, pois em que ponto cederia? E não é de 
se admitir que ceda em todos os pontos a um 
tempo. 

. Se a isso acrescentarmos esses teoremas da 
geometria pelos quais se prova que o conteúdo 


Em maior do que o continente, que o centro de 


Uma circunferênciá é tão grande quanto a pró- 
pria circunferência, que, duas linhas que se 
aproximam sem cessar não chegam nunca a se 
encontrar, e também os problemas da pedra 
filosofal e da quadratura do círculo, questões 
todas em que a razão se opõe à realidade, 
depararemos possivelmente com algum argu- 
mento em apoio dessa asserção tão ousada de 
Plínio: “Nada é certo senão a.incerteza, nem 
nada hã mais miserável e orgulhoso do que o 
homem.” 


CapíTULO XV 


Não há árgumento ao qual não se possa 
objetar com argumento contrário, dizem os 


filósofos mais sensatos. Não faz muito, vinha- 
me ao espírito esta bela sentença dê um perso- 


nagem da antiguidade em apoio ao desprezo 
que devemos ter à vida: nenhum bem nos pode 


dar prazer; sênão aquele para cuja perdá este- 
jamos preparados. “A tristeza dê ter perdido 


algo e Ó receio de perdê-lo, são uma Só e 
mesma Tôóisa”* 7º, Queria dizer com issó que o 


370 Sêneca. 


Nosso desejo cresce com a dificuldade 


gozo da vida não pode oferecer-nos real atra- 
tivo se a tememos perder.. Poder-se-ia entender 
tâmbém que nos apegamos a esse bem e com 
tânto maior desejo de conservá- -lo quanto sabe- 
mos sua conservação poucó segura e receamos 
perdê-lo. Pois sentimos; e isso é absolutamente 
indiscutível, que assim comô ;o) fogo se aviva 
com o frio, nossa vontade se afiá de encontro à 
oposição: “Se Dânae não tivesse sido fechada 
em uma torre de bronze, núnca houvera dado 

m filho a Júpiter”3 71. Nada é é, por natureza, 


RES 
371 Ovídio. 


ENSAIOS — II 


tão contrário á nossos desejos como a sacie- 
dade resultante da facilidade; e nada os excita 
tanto quanto à raridade e o obstáculo: “em 
tudo o prazer cresce na razão do perigo que 
nos deveria afastar dele”? 72. “Rechaça-me, 
Gala, o amor saciar-se-á logo se suas alegrias 
não forem temperadas com algum tormen- 
to”3 73, 

Na Lacedemônia, Licurgo, a fim de manter 
desperto o amor, ordenou que os cásados só o 
praticassem às escondidas, e que ser encon- 
trados dormindo juntos fosse tão vergonhoso 
como se dormissem com outros. As dificul- 
dades dos encontros, o perigo dás surpresas, a 
vergonha do dia seguinte “e também o langor, 
o silêncio, os suspiros vindos do fundo do 
coração”* 7 *, eis o que põe pimenta ao molho. 
Que prazeres 'reâlmente lascivos podem nascer 
de conversações honestas e discretas sobre o 
amor? À própria, volúpia busca excitantes na 
dor; é bem mais doce quando queima & esfola. 
à cortesã Flórá dizia nunca ter dormido com 
Pompeu sem que o marcasse de mordidas. 
“Apertam fortemente o objeto de seus desejos; 
com dente cruel imprimem em seus lábios bei- 
jos dolorosos; um secreto ferrão os excita con- 
tra aquele mesmo que acende neles o furor dos 
amplexos”* 78. 

Assim ocorre com tudo. A dificuldade valo- 
riza as coisas. Os habitantes dê Ancona cum- 
prem suas prômessas em São Tiago de 
Compostela; os da Galícia em Nossá Senhora 
de Loreto; em Liége apreciam muito Os banhos 
de Lucca e na Toscana os de Spa; não se vêem 

os romanos frequentando a escola dê esgrima 
em Roma; cheia de franceses. O grande Catão 
(como nos ocorre também) cansou da mulher 
quando súà € tornou a desejá-la ao casar-se ela 
com outró. Devolvi ao haras um cavalo velho 
que não resistia à atração das éguas, e que a 
facilidade de se expandir à vontade com as 
suas logo saciou. Porém com as demais, não se 
retém de rinchar. Nosso apetite despreza o que 
se acha à sua disposição; corre atrás do que 
não tem: “desdenha o que está à mão e busca 
o que não pode ter”? 78. Proibir-nos alguma 
coisa é dar-nos vontade dela: “se não fiscali- 
zares tua amante, ela deixará muito breve de 
ser minha”277. A privação e a abundância 
comportam os mesmos inconvenientes: quei- 
xas-te do teu supérfluo e eu da carência do 
necessário”? 78. O desejo e o gozo fazem-nos 


372 Senêca. 
373 Marcial. 
374 Horácio. 
375 Lucrécio. 
376 Horácio. 
377 Ovídio. 
378 Terêncio. 


287 


sofrer igualmente. A seriedade de nossas 
amantes? 7º aborrece-nos, mas em verdade à 
facilidade com que porventura se entreguem 
ainda aborrece mais. Pois o descontentamento 
e a cólera que nascem do valor que empres- 
tamos ao objeto desejado excitam o amor, ao 
passo que a saciedade engendra o desgosto; 
não passa entao o amor de uma paixão embo- 
tada, estupidificada, farta, sonolenta; “se que- 
res dominar muito tempo o teu amante, des- 
preza Suas súplicas”28º, “Fingi-vos de 
desdenhosó;, quem se vos negou ontem virá 
oferecer-se hoje”3 ALE 

Por que imaginou Popéia esconder sob úrna 
máscara sua beleza senão para a valorizar aos 
olhos de seus amantes? Por que cobrem as 


“mulheres com véus que descem até os calca- 


nhares os encantos que desejariam mostrar e 
que todos gostariam de ver? Por que amon- 
toam sobré as partes ambicionadas de seu 


corpo tantas € tantas coisas? Para que servem 
esses baluartes com que acabam de guarnécer 
as ancas senão para ludibriar nosso apetite é 
nos atrair embora nos afastando? “Ela corre a 
esconder-se atrás do chorão, mas antes faz 
com que a percebam 3 82, “Por vezes opõe seu 
vestido a meus impacientes desejos”383, De 


que serve essa arte que põe em jogo a fisipno- 
mia pudibúnda da virgem, essa calculada frie- 
za, essa “atitude severa, essa aparente igno- 
rância das coisas que ela conhece melhor do 
que nós, seus educadores, senão para aumentar 
o desejo que temos de vencer, senão para esti- 
mular nosso apetite com cerimônias e obstácu- 
los? Não somente temos prazer como tiramos 
alguma vaidade em triunfar da modéstia, da 
castidade e da temperança; e quem 'desacon- 
selha às mulheres tais artifícios, as êStá traindo 
e com elas se atraiçoando. É preciso que acre- 
ditemos que seu coração freme dé receio, que o 
som de nossa voz ao murmurar-lhes palavras 
de amor fere a pureza de seus ouvidos, que elas 
se magoam e só cedem a nossas importunas 
solicitações constrangidas e forçadas. A bele- 
za, por fortê que seja, não basta sem tais velei- 
dades de résistência. Vede na Itália, onde ela 
mais se encontra e é mais atraente, como as 
mulheres 'recorrem a meios artificiais e à arte 
para se tornar agradáveis; pois de outro modo, 
ainda que venais e públicas, os homens não as 
procuram com entusiasmo. Ocorre com a bele- 
za O mesmo que com a virtude: dois caminhos 


37º No sentido antigo de namoradas, de senhoras 
cortejadas e amadas, simplesmente. 

380 Ovídio. 

381 Propércio. 

382 Virgílio. 

383 Propércio. 


288 


conduzem a ela, um fácil, outro semeado de 
obstáculos e nem sempre atingindo o seu obje- 
tivo. É entretanto o último que mais aprecia- 
mos, que achamos mais belo e digno. 


Devemos agradecer à Divina Providência as 
perturbações e borrascas que desabam sobre a 
Santa Igreja, pois assim as almas piedosas des- 
pertam do sono em que as mergulhara um 
longo período de trangúilidade. E se compa- 
rarmos as perdas resultantes do número de 
desviados com as vantagens de nos havermos 
retemperado na luta, não sei se o benefício não 
sobreexcede o prejuízo. 

Pensamos em tornar mais sólidos os laços 
do casamento, evitando a possibilidade de 
rompê-los; mas ocorreu que se relaxaram e 
desfizeram na mesma proporção em que se 
apertava o nó do constrangimento. Ao contrá- 
rio, O que manteve os casamentos em honra 
durante tanto tempo em Roma foi a facilidade 
de dissolvê-los à vontade. Tanto mais se preo- 
cupavam com guardar sua mulher, quanto 
mais fácil era perdê-la. E embora o divórcio 
estivesse ao alcance de todos, decorreram mais 
de quinhentos anos sem que ninguém o reque- 
resse: “o permitido não tem encantos; o proi- 
bido excita o desejo ”*8 *. Isso me induz a citar 
esta opinião de um autor antigo: os suplícios, 
em vez de frearem os vícios, desenvolveram- 
nos; não nos levam a bem fazer, o que é obra 
da razão e da educação. Apenas cuidamos 
com mais atenção de não sermos surpreen- 
didos na prática do mal. “O mal, que imagina- 
vam extirpado, vence e se expande” *º 8. Ignoro 
se a asserção é exata, mas O que sei por expe- 
riência é que nunca os suplícios modificaram a 
moral de um povo. De outros meios é que 
dependem a ordem e a normalidade dos 
costumes. 

Os historiadores gregos aludem aos argi- 
peus (tribo vizinha da Cítia) que viviam dentro 
da ordem, sem açoites nem castigos. Não 
somente ninguém pensava em atacá-los como 
ainda quem se refugiasse junto deles encon- 
trava asilo, dadas a virtude e a santidade de 
sua existência. Os povos vizinhos a eles recor- 
riam nas suas pendências. Citam igualmente 
uma nação onde as divisas dos campos e jar- 
dins são assinaladas com um simples cordel de 
algodão, o qual, apesar de sua fragilidade, 
constitui barreira mais respeitada e efetiva do 
que nossos fossos e cercas: “as fechaduras 
atraem os ladrões; quem rouba com arromba- 
mento não entra em casas abertas”38 8. 

Talvez a facilidade de nela entrarem tenha 


384 Gyídio. 
385 Rutílio. 


388 Sêneca. 


MONTAIGNE 


| 


sido uma das causas que preservaram minha 
residência das violências das guerras civis. 
Defender sugere o ataque; a desconfiança pro- 
voca a ofensa. Desinteressei a soldadesca de 
minha casa, tirando-lhe qualquer probabili- 
dade de glória, o que, em geral, a seus olhos, 
justifica e desculpa todos os excessos. O que 
exige coragem é sempre considerado honroso, 
quando a justiça já não existe, por isso fiz com 
que a invasão de minha casa parecesse um ato 
de covardia e traição. Não se fecha ela para 
ninguém que lhe bata à porta; como única me- 
dida de precaução, há um porteiro, educado 
nos usos do passado e destinado menos a 
impedir a entrada do que a tornar mais decente 
e agradável a recépção. Não tenho outra guar- 
da e sentinela além dos astros. Um fidalgo erta 
em querer resistir, se não se acha perfeitamente 
organizado para tanto. O que é acessível por 
um lado é acessível por todos; nossos pais não 
pensaram nunca em construir praças fortes. Os 
meios de dominar nossas casas, ainda que sem 
exército, nem canhão, dia a dia se tornam mais 
poderosos e fora de proporção com os meios 
de defesa. É principalmente a idéia de invasão 
que preocupa os espíritos e interessa todo 
mundo; a idéia de defesa só preocupa os 
ricos?8?. Minha casa apresentava resistência 
suficiente para a época em que foi construída; 
nada lhe acrescentei e recearia, em a fortifi- 
cando, que a medida se voltasse contra mim 
mesmo. Sem.contar que ao retornar à calma 
seria forçado a demoli-la. Em semelhantes 
baluartes é perigoso não se poder resistir, e 
não se está seguro de o poder, pois, nas guerras 
intestinas, o lacaio pode pertencer ao partido 
contrário; e quando a religião é o pretexto da 
luta, os próprios parentes se tornam suspeitos, 
e justificadamente. O tesouro não pode manter 
guarnições em todas as residências e nós não o 
fariamos sem nos arruinar ou arruinar O povo, 
o que comporta maiores inconvenientes ainda, 
além de ser injusto. E se, sem defesa, for inva- 
dido, não me sentirei pior. Se ao contrário me 
defender, perderei mais: os próprios amigos 
em vez de se apiedarem se divertirão com criti- 
car minha negligência e ignorância nas coisas 


de minha profissão. E o fato de se haverem 
perdido tantas 'casas preparadas para a resis- 


tência, enquanto a minha continua de pé, 
induz-me a crer que se deva a destruição delas 
às veleidades de resistência. Inspiraram a idéia 
do assalto e justificaram o assaltante a seus 
próprios olhos. Todo preparativo de defesa re- 


387 Montaigne opõe aqui a guerra exterior às 
comoções internas. Na invasão de um pais estran- 
geiro ricos e pobres podem ganhar. Na defesa da 
casa durante as guerras civis, só Os ricos correm pe- 
rigo de saque. (N. do T.) 


ENSAIOS — II 289 


vela a disposição de lutar. Podem entrar em 
minha residência se assim o quiser Deus; mas 
não chamarei ninguém, aconteça o que aconte- 
cer. É um lugar de retiro onde me repouso da 
guerra; é um recanto que. procuro isolar das 
tempestades reinantes, como faço com minha 
alma. À guerra que nos desola, pode mudar de 
forma e estender-se; podem outros partidos 
organizar-se, eu não me mexo. Entre tantos 
fidalgos que fortificaram suas mansões, fui O 


único a fiar-se tão-somente em Deus para a 
proteção da sua. Nunca escondi prataria, nem 
dinheiro, nem tapetes, nada desejando salvar 
pela metade, nem querendo temer em parte. Se 
uma inteira confiança na Providência me 
outorgar à proteção divina, esta há de conti- 
nuar até o fim. E se não ma outorgar já terei 
sido protegido durante bastante tempo, o que 
merece ser notado, pois tal situação se vem 
verificando há trinta anos. 


! 


CaríruLo XVI 


Da glória | 


Há em tudo o nome e a coisa. O nome é a 
palavra que marca e significa a coisa: não faz 
parte dela, a ela não se incorpora; é um acessó- 
TIO que se acresce, por fora. 

Deus, que é, em Si, plenitude e inteira perfei- 
ção, não pode ampliar-se e crescer por dentro, 
em essência, mas Seu nome se amplia e engran- 
dece com os louvores e bênçãos que damos às 
Suas obras manifestas. Esses louvores que não 
O podem penetrar e se tornar parte integrante 
dEle próprio, tanto mais, quanto nada se 
acrescenta ao que Ele é, nós os atribuimos a 
Seu nome, o qual, fora d'Ele mesmo, é o que de 
mais perto O toca. A glória e a honra só a 
Deus pertencem, portanto nada será mais 
absurdo do que as reivindicarmos. Somos, 
essencialmente, tão pobres, tão necessitados, 
tão imperfeitos, que nossa preocupação cons- 
tante deve ser a de trabalhar continuadamente, 
para melhorarmos. Totalmente vazios, não é 
de vento e de palavras que devemos encher- 
nos; precisamos, para fortalecer-nos, de ali- 
mentos mais substanciais e sólidos. Um 
homem esfaimado seria um simples de espirito 
se procurasse obter uma bela roupa em vez de 
uma boa refeição; cumpre correr sempre ao 
mais urgente: “Glória a Deus nas alturas e paz 
aos homens na terra”, como dizemos em nos- 
sas orações. Temos penúria de beleza, saúde, 
sabedoria, virtude e outras qualidades essen- 
ciais; cabe-nos alcançar essas coisas de pri- 
meira necessidade, antes de obter o que nos 
adorna exteriormente. Mas são questões essas 
de que a teologia trata mais aprofundadamente 
e com maior competência. 

Crisipo e Diógenes foram os primeiros a 
desprezar a glória, e com maior resolução. Di- 


t 

ziam que, entre todas as volúpias, não há mais 
perigosa, nem de que mais se deva fugir do que 
a aprovação alheia. Abundam efetivamente os 
casos em que sua traição causou graves prejuí- 
zos. Nada envenena tanto os príncipes quanto 
a lisonja, e nada há que mais imponham os 
maus aos que os rodeiam. Cumular as mulhe- 
res de lisonjas, repetir-lhas sem cessar é o meio 
mais comum de triunfar sobre a'sua castidade; 
é o modo de sedução que empregam as sereias 
para enganar Ulisses: “Vem, Ulisses, vem, tu 
tão digno de louvores, tu de quem mais se 
honra a Grécia”388. Tais filósofos afirmavam 
que toda a glória do mundo não justifica que 
um homem sensato levante um dedo para a 
conquistar: “que é a glória, por grande que 
seja, se não passa de glória?”*8ºº Digo con- 
quistar a glória pela glória, pois não raro ela 
acarreta vantagens que a podem tornar desejá- 
vel. Ela nos oferece a boa vontade alheia, e faz 
que estejamos menos expostos às injúrias e a 
outras coisas semelhantes. 

Era também um dos principais dogmas de 
Epicuro este preceito de sua escola: “esconde 
tua vida”, o qual proíbe que se embarace 
alguém com cargos e gestões dos negócios pú- 
blicos. E pressupõe assim que forçosamente 
desprezemos a glória, a qual consiste na apro- 
vação da coletividade às nossas ações mais 
evidentes. Ordenar-nos que escondamos a 
vida, que nos ocupemos de nós mesmos e não 
queiramos se intrometam os outros no que 
fazemos, é querer ainda menos que nos hon- 
rem e glorifiquem. Por isso Epicuro aconselha 


388 Homero. 
389 Juvenal. 


290 


a Idomeneu a não orientar seus atos em aten- 
ção à opinião comum, a menos que o seja 
necessário a fim de evitar outros inconve- 
nientes por vezes resultantes do desprezo que 
os homens venham a demonstrar. 

Essas recomendações são, a meu ver, perfei- 
tamente certas e razoáveis; mas somos, não sei 
como, dois seres em um só, o que faz que, em 
uma mesma coisa, acreditemos e não acredite- 
mos, não podendo desfazer-nos do que conde- 
namos. Reportemo-nos, com efeito, às últimas 
palavras de Epicuro, ao morrer. São grandes e 
dignas de um filósofo como ele; revelam con- 
tudo vestígios de sua preocupação com a repu- 
tação ligada a seu nome e com essa disposição 
de espírito que censurava em seus preceitos. 
Eis a carta que ditou pouco antes de exalar o 
derradeiro suspiro: “Epicuro a Hermaco, 
salve! — Escrevi o que segue neste último dia 
de minha vida, dia feliz embora sofra incrivel- 
mente da bexiga e dos intestinos; mas meu 
sofrimento é compensado pelo prazer que traz 
à minha alma a recordação das idéias que ino- 
vei e da defesa delas. Tu, toma sob tua prote- 
ção os filhos de Metrodoro; conto, a esse res- 
peito, com a afeição que desde a infância 
tiveste por mim e pela filosofia.” 

Eis a carta. O que me leva a pensar que esse 
prazer, que diz sentir em sua alma por causa 
das idéias inovadas, se liga à reputação que 
esperava adquirir depois de morto, são os 
dispositivos testamentários pelos quais deter- 
mina que Aminômaco e Timócrates, seus her- 
deiros, fornecessem anualmente, no mês de 
Janeiro, para a comemoração de seu aniversá- 
rio, a soma a ser fixada por Hermaco; bem 
como a necessária às despesas com a recepção 
de seus amigos filósofos, os quais se reuniriam 
no vigésimo dia de cada lua para honrar sua 
memória e a de Metrodoro. 

Carnéades foi o chefe da seita de opinião 
contrária. Afirma que a glória é desejável em 
si, como natural é a afeição que dedicamos aos 
filhos a nascerem depois de nossa morte, em- 
bora não os devamos conhecer. Esta opinião 
foi naturalmente a mais comumente seguida, 
como ocorre com aquelas que correspondem 
às nossas preferências. Aristóteles coloca a 
glória em primeiro lugar entre os bens que nos 
vêm de fora de nós mesmos, e considera igual- 
mente critiçável buscá-la exageradamente ou 
dela fugir. Creio que se possuíssemos o que Ci- 
cero escreveu a propósito, veriamos opiniões 
espantosas, pois ele foi obcecado por essa pai- 
xão, a ponto de, se ousasse, cair no absurdo 
em que outros cairam de considerar a própria 
virtude válida tão-somente, e desejável, na me- 
dida em que acarreta honrarias. “A virtude 
escondida não difere muito da obscura ociosi- 


MONTAIGNE 


dade”2ºº. Uma tal maneira de pensar é tão 
falsa, a meu ver, que não posso acreditar tenha 
Jamais entrado na cabeça de um homem que 
teve a honra de figurar entre os filósofos. Se 
assim fosse, não se deveria praticar a virtude 
senão em público; e não nos adiantaria manter 
no bom caminho a nossa alma, verdadeira 
sede da virtude, desde que seus movimentos 
não chegassem ao conhecimento de outrem. 
Bastaria então fazer o mal com suficiente habi- 
lidade para que ficasse ignorado. “Se perce- 
bes” diz Carnéades “que uma serpente se 
esconde no lugar em que, sem o saber, vai sen- 
tar-se alguém cuja morte te beneficia, comete- 
rás uma má ação em não o avisar, principal- 
mente se o que fazes só de ti é conhecido.” Se 
não buscamos em nós mesmos a obrigação de 
fazer o bem, se a impunidade é considerada 
Justiça, quantas maldades não seríamos indu- 
zidos a praticar diariamente! 


Devolvendo fielmente a Plótio os valores 
que este lhe confiara sem que ninguém o sou- 
besse, e agindo como eu mesmo o fiz não raro, 
Sexto Peduceu cumpriu menos uma ação 
propriamente meritória do que deixou de mal 
agir em não o fazendo. É útil lembrar, em nos- 
sos tempos, que Cícero censurava a Sextílio 
Rufo por ter aceito uma herança que sua cons- 
ciência condenava, não porque fosse a coisa 
contrária à lei, mas apesar de não a contrariar. 
Não se mostra menos severo com relação a 


Crasso e Hortênsio que, com sua autoridade e 
influência, haviam sido incluídos em uma 
herança, obtida por um estrangeiro mediante 
testamento falso. Contentando-se ambos com 
não ter participado da falsificação, não ha- 
viam recusado os beneficios dela, pois legal- 
mente se encontravam a coberto contra quais- 
quer acusações ou testemunhos. “Deviam 
lembrar-se de que havia o testemunho de Deus, 
isto é, da própria consciência”391, 


Seria a virtude coisa vã e frívola, se à glória 
pedisse recompensa; não valeria a pena, nesse 
caso, atribuir-lhe um lugar especial e estabe- 
lecer uma distinção entre ela e a sorte, pois que 
haveria de mais fortuito do que a reputação? 
“A sorte estende seu domínio sobre todas as 


coisas; eleva uns, abaixa outros, menos em 
consequência do mérito do que segundo o pró- 
prio capricho”3º2. Cabe à sorte fazer com que 
nossas ações sejam vistas e conhecidas; a sorte 
é que distribui a glória, ao sabor de sua fanta- 
sia. Vi-a por vezes preceder o mérito e de ou- 
tras feitas ultrapassá-lo. Quem primeiro teve a 


380 Horácio. 
391 Cicero. 
382 Salústio. 


ENSAIOS —IH 


idéia de comparar a glória a uma sombra foi 
mais feliz do que pensava: são duas coisas vÃs. 
A sombra também nos precede por vezes e não 
raro excede, de muito, o comprimento de nosso 
corpo. Os que ensinam à nobreza a não buscar 
a glória senão através da valentia, “como se 
uma ação só se tornasse virtuosa com a 
celebridade”*º3, que lhe inculcam, senão o 
cuidado de nunca se expor sem ser vista? Que 
lhe sugerem, senão que arranje testemunhas 
capazes de contar suas proezas? Senão a evitar 
de agir sem ser observada, embora não lhe fal- 
tem oportunidades de bem fazer? 

Quantas belas ações ocorrem em uma bata- 
lha! Quem se preocupasse com atentar para os 
gestos alheios, na confusão, nada produziria e 
forneceria contra si mesmo os testemunhos 
que colhesse acerca da conduta de seus 
companheiros de armas: “Uma alma real- 
mente grande coloca o bem, principal objetivo 
de nossa natureza, nas ações virtuosas e não 
na glória”3º 4. 

A glória a que aspiro é a de ter vivido tran- 
quilo, não como o entendem Metrodoro, Arce- 
silau ou Aristipo e sim a meu modo. Em sendo 
a filosofia incapaz de mostrar o caminho que 
conduz ao repouso da alma e a todos convêm, 
que cada qual por seu lado o procure. 


A que devem César e Alexandre seu imenso 
renome, senão à sorte? Em torno de quantos 
homens estabeleceu ela o silêncio, no momento 
em que principiavam a aparecer? Quantos, 
cuja existência ignoramos, tiveram coragem 
idêntica à desses heróis mas se viram desde o 
início esmagados pelo azar? Não recordo ter 
lido que, através dos numerosos e grandes 
perigos que enfrentou, César tivesse sido feri- 
do; no entanto milhares morreram em circuns- 
tâncias muito menos perigosas. Por uma bela 
ação de que se beneficia o autor, inúmeras ou- 
tras passam despercebidas, porquanto nin- 
guém houve para testemunhá-las. Nem sempre 
nos achamos na brecha ou à frente do exército, 
sob os olhos do general, como em um estrado. 
Podemos ser surpreendidos entre a cerca e o 
fosso. E, segundo as exigências do momento, 
obrigados a destruir um galinheiro ou a desa- 
lojar de uma barracão quatro pobres arcabu- 
Zeiros. Ou ainda, destacados do resto da tropa, 
ser forçados a agir isoladamente. E não custa 
verificar que, em verdade, as ações que menos 
nos colocam em evidência são ag que apresen- 
tam maior perigo. E nas guerras de nossa 
época perderam-se mais bravos guerreiros em 
escaramuças de somenos, ou no assalto a algu- 
ma choupana, do que nas batalhas memorá- 


393 Id. 
394 Cicero. 


291 


veis e suscetíveis de tornar famosos os seus 
participantes. 

Quem considera mal empregada a morte 
que não traz celebridade, acaba obscurecendo 
a vida e deixa fugir-lhe numerosas e justas 
oportunidades de se aventurar. Ora, tudo o que 
é justo comporta sempre ilustração suficiente, 
o testemunho da consciência já constituindo 
por si glória bastante: “nossa glória está no 
testemunho de nossa consciência”3º 8. Quem 
só é homem de bem sob a condição de que o 
saibam, quem só quer fazer o bem para que 
sua virtude alcance a celebridade, não presta 
por certo grandes serviços. “Creio que o resto 
do inverno Rolando fez coisas dignas de regis- 
tro; mas permaneceram tão secretas até agora, 
que não cabe culpa se não as conto, pois 
Rolando sempre se mostrou mais disposto a 
fazer do que a publicar e seus feitos só se 
divulgaram quando tiveram testemunhas ”**º 8. 
E preciso ir para a guerra por dever e não espe- 
rar senão a recompensa que não falta nunca, 
mesmo para as ações mais discretas, mesmo 
para os pensamentos virtuosos, € que consiste 
na satisfação de uma boa consciência. É preci- 
so ser valente para si mesmo, e pela vantagem 
de ter a coragem bem alojada e segura, e firme 
contra os embates da sorte: “a virtude brilha 
com luz sem mistura; ela ignora a recusa 
vergonhosa, não se apropria das tochas consu- 
lares, nem as abandona ao sabor de um povo 
volúvel”39 7, 


Não é para se exibir que nossa alma deve 
desempenhar seu papel; é para nós e em nós, 
onde ninguém a vê senão nós mesmos, onde 
nos resguarda do temor à morte, da dor e da 
vergonha, onde nos dã ânimo se perdemos 
filhos, amigos e bens, e, quando necessário, 
nos impele a enfrentar os azares da guerra: 
“não em vista de alguma recompensa mas pela 
satisfação da virtude”3º8, E esse um proveito 
bem maior, bem mais digno de nossa ambição 
que a honra e a glória, as quais não passam de 
uma apreciação favorável a nosso respeito. 


Para julgar o direito de propriedade de um 
lote de terra, selecionamos em toda uma 
nação, uma dúzia de homens; ao passo que 
para julgar nossas intenções e ações, coisa 
mais dificil, e importante, reportamo-nos à 
opinião pública, à apreciação da massa igno- 
rante, injusta e inconstante. Será razoável 
entregar ao juízo dos Iguços a vida de um 
sábio? Que haverá de mais insensato do que 
estimar em conjunto o que se despreza parcela- 


388 São Paulo. 
RISE Ariosto. 
37 Horácio. 
des (OICEro: 


292 MONTAIGNE 


damente?ºº2” Quem procura agradar à multi- 
dão não o consegue jamais; ela oferece apenas 
um alvo mal definido e inatingível: “nada é 
menos honroso do que o julgâmento da 
massa *ºº”. Denétrio, referindo-se à voz do 
povo, dizia, zombeteiro, que apreciava tão 
pouco o ruído que vinha de cima quanto o que 
lhe saía de baixo. Cicero é mais sarcástico 
ainda: “digo que uma coisa, embora não o 
seja, parece vergonhosa se louvada pela multi- 
dão”. Nenhum talento, nenhuma sutileza con- 
seguem dirigir nossos passos com um guia tão 
errado e desregrado. Em meio a essa confusão 
tumultuosa e sem consistência de ruídos, de 
intrigas, de opiniões vulgares das multidões 
que nos cercam, nenhum caminho se abre que 
possamos trilhar. Não nos proponhamos, pois, 
um objetivo tão flutuante e indeciso e marche- 
mos com a razão. Que a aprovação pública 
nos siga se quiser, e, como depende unica- 
mente do acaso, não há motivo para esperar- 
mos que tome este ou aquele rumo. Se eu não 
seguisse o caminho reto, pela sua retidão, 
ainda o seguiria por ter verificado, pela expe- 
riência, que, afinal de contas, é o que de costu- 
me nos torna mais felizes e nos é mais útil: “É 
obra valiosa da Providência ter feito com que 
as coisas honestas sejam igualmente as mais 
úteis*01,”? Durante violenta tempestade um 
nauta dos tempos antigos assim falava a Netu- 
no: “Ó Deus, tu me salvarás se quiseres, tu me 
condenarás se preferires, mas eu manterei reta, 
assim mesmo, a barra do leme.” Tenho visto 
muitas pessoas hábeis, espertas, ambíguas, 
indubitavelmente mais prudentes do que eu 
nos negócios deste mundo, perderem-se em 
circunstâncias em que me salvei: “ri-me de ver 
que a esperteza pode malograr-se *º2.” 


Paulo Emílio, de partida para sua gloriosa 
expedição na Macedônia recomendava acima 
de tudo ao povo de Roma que não desse com a 
língua nos dentes acerca de suas operações. 
Quão nociva, com efeito, aos negócios impor- 
tantes, é a licença com que os julgam, sem con- 
tar que nem todos têm, em relação aos movi- 
mentos populares, às injúrias e à oposição, a 
firmeza de ânimo de Fábio, o qual preferiu ser 
despojado de sua autoridade a prejudicar o que 
lhe parecia certo, embora com isso granjeasse 
reputação e popularidade. 

Há não sei que doçura natural em sentir que 
nos louvam. Mas damos demasiada impor- 
tância a isso: “não odeio o aplauso, porque 
tenho sensibilidade; mas nunca os “muito bem, 


398 Cícero 
400 Tito Lívio. 
*01 Quintiliano. 
“02 Ovídio. 


bravo” me hão de parecer o objetivo que se 
deva propor à virtude*º3”. Preocupo-me bem 
menos com o que posso ser aos olhos de ou- 
trem do que com o que sou a meus próprios 
olhos; quero ser rico por mim mesmo e não 
mediante empréstimos. Os estranhos não vêem 
no que nos concerne serião as aparências exte- 
riores, mas todos podem mostrar-se satisfeitos 
por fora e ser devorados internamente pela 
febre e o medo. Nosso coração não se vê, e sim 
nossa atitude. É justo que condenemos a hipo- 
crisia na guerra, pois nada é mais fácil a um 
homem experiente do que se furtar ao perigo e 
fingir de valente, com um coração de covarde. 
Há tantos meios de evitar as oportunidades de 
se expor seriamente, que é possível enganar mil 


vezes os outros antes de se encontrar em situa- 
ção de não poder evitar um risco; e ainda que 


o risco se verifique, ocasionalmente, é possível, 
uma vez ao menos, fazer das tripas coração e 
embora com pavor na alma mostrar alguma 
segurança. Quantos, se possuíssem o anel de 
Giges, referido por Platão, que tornava invisi- 
vel quem o trouxesse ao dedo, virado para a 
palma da mão, quantos não o utilizariam a fim 
de se esconder nos momentos em que mais 
deveriam mostrar-se? E não se arrependeriam 
de se achar, em vista de sua situação honrosa, 
na obrigação de assumir atitude resoluta! 
“Quem pode ser sensível à lisonja e temer a 
calúnia, senão o desonesto ou o mentiro- 
so *º*9” Eis por que todos os juízos que assen- 
tam nas aparências exteriores são eminente- 
mente incertos e duvidosos, e ninguém tem 
mais fiel testemunha de si do que a própria 
consciência. Quanto malandro temos por 
companheiro de glória! E quem fica brava- 
mente na trincheira fará mais e melhor do que 
os cinquenta infantes que, por cinco soldos 
diários, vão à frente, abrindo passagem e 
cobrindo-lhe o corpo? “Quando a tumultuosa 
Roma deprecia alguma coisa, tu não aprovas o 
Julgamento nem tentas reequilibrar os pratos 
da balança; não procures, portanto, o que és 
fora de ti mesmo *º *? 

Achamos que tornar um nome ilustre é colo- 
cá-lo em bocas numerosas; esforçamo-nos por 
que seja considerado e que o lustre adquirido 
nos traga proveito — e é a melhor desculpa 
que possamos dar de nossa conduta. Mas a 
doença leva-nos tão longe que muitos tentam 
fazer com que falem deles de qualquer manei- 
ra. Trogo Pompeu e Tito Lívio diziam de 
Heróstrato e de Mânlio Capitolino que prefe- 
riam uma grande a uma boa reputação. O mal 
é frequente. Preocupamo-nos mais com que 


*03 Pérsio. 

404 Horácio. 
EA . 

+05 Pêrsio. 


ENSAIOS — II 293 


falem de nós do que com o modo por que 
falam. Basta-nos que o nosso nome ande de 
boca em boca. Dir-se-ia que ser conhecido 
consiste em outorgar a outrem o cuidado de 
nossa vida e sua duração. 

Quanto a mim, considero que sou somente 
eu mesmo. Essa outra vida, feita com o que 
meus amigos sabem de mim, a encará-la como 
é, despojada de qualquer artifício, bem sei que 
o que dela tiro e o gozo que me dá não passam 
de vaidade produzida pela imaginação. Quan- 
do morrer, sentirei ainda menos esse efeito; 
perderei então, totalmente, o uso das Coisas 
realmente úteis que por vezes devemos à vida. 
Não poderei mais usufruir de minha reputação 
nem ela poderá tocar-me, atingir-me. Não 
posso, efetivamente, confiar em que ela se ligue 
a meu nome, e antes de mais nada porque não 
sou o único a usá-lo; sobre os dois que tenho, 
um é comum a todos os membros de minha 
família, e de outras. Uma destas existe em 
Paris e Montpellier a que chamam Montaigne; 
outra na Bretanha e Saintange, a qual se inti- 
tula “de la Montaigne”. Essa interposição de 
uma sílaba não basta para que nossos feitos e 
gestos não se confundam a ponto de não poder 
eu participar de sua glória e não poderem eles 
ser respingados pela minha indignidade; e isso 
embora os meus se tenham chamado outrora 
Eyquem, sobrenome aplicável igualmente a 
uma família conhecida na Inglaterra. Quanto a 
meu outro nome, é prenome que pertence a 
quem o queira usar e a honra que lhe couber 
poderá caber também a um carregador. Por 
outro lado, ainda que me tornasse um persona- 
gem marcante, que significará a marca? Pode- 
rã designar algo inexistente e dar-lhe brilho? 
“Que a posteridade me aplauda, ser-me-á mais 
leve a pedra que cobrir meus ossos? Meus 
manes, meu túmulo, minhas cinzas afortuna- 
das, se cobrirão com isso de violetas *º 892” 
Mas desse assunto já tratei alhures. 

Numa batalha em que dez mil homens são 
mortos ou feridos, falar-se-á de uma quinzena 
apenas. É preciso que a sorte nos gratifique 
com um feito de armas realmente importante 
para que se evidencie alguma ação particular, 
perpetrada já não digo por um arcabuzeiro 
mas por um capitão; pois, embora matar um 
homem, dois ou dez, e enfrentar corajosamente 
a morte sejam de fato alguma coisa para qual- 
quer um de nós, que tudo jogamos na parada, 
para o mundo nada têm de extraordinário. 
Vêem-se tantas coisas semelhantes diaria- 
mente, e são necessárias tantas para que se 
obtenha um resultado sensível, que não pode- 
mos esperar venham a chamar a atenção de 


“08 Pérsio. 


um modo especial: “São acidentes comuns, 
ocorridos com muitos outros e que figuram 
entre os inúmeros azares do destino *º 7,” 

Entre os milhares de valentes soldados que 
morreram em França, de armas nas mãos, não 
há cem cuja memória nos tenha alcançado. A 
recordação, não somente dos chefes mas igual- 
mente dos próprios exércitos, extinguiu-se. Os 
acontecimentos marcantes de mais de metade 
do mundo, por não se haverem registrado, não 
os conheceu ninguém fora do lugar onde ocor- 
reram. Caíram no esquecimento. Se possuisse 
os relatos das ocorrências ignoradas, acharia 
neles, creio, exemplos de toda espécie mais 
importantes do que nos fornecem os fatos 
conhecidos. Temos a prova na história da Gré- 
cia e de Roma, tão rica de feitos nobres e 
raros. Embora com fartos testemunhos e tan- 
tos escritores para Os registrar, bem poucos 
chegaram até nós. “Com dificuldade, um vento 
brando trouxe-nos a sua fama *ºº.” E dentro 
de cem anos, talvez nem se lembrem de que em 
nossa época houve guerras civis em França. 
Os lacedemônios, ao entrar em guerra, ofere- 
ciam sacrifícios as musas, a fim de que seus 
feitos fossem bem e dignamente transmitidos à 
posteridade, pois consideravam que é por 
favor divino, raramente concedido, que as 
belas ações encontram testemunhas que as sai- 
bam contar e rememorar. 

Suponhamos que todas as vezes que nos 
expomos ao fogo dos arcabuzes, ou corremos 
um risco, um escrivão se encontre no local 
para registrá-lo. Que outros cem escrivães o 
reproduzam, falar-se-á, ainda assim, da coisa 
durante três dias, se tanto, e ninguém mais dela 
se ocupará em seguida. Não possuímos a milé- 
sima parte dos escritos antigos; a sorte é que 
lhes dá uma vida mais ou menos longa; e os 
que nos sobram podem ser os piores ou os 
melhores. Cabe-nos duvidar, porquanto não 
conhecemos os restantes. Não se faz história 
com tão .pouco; é preciso ter conguistado 
impérios e ganho cinquenta batalhas, como 
César. Dez mil bons companheiros morreram 
com ele, corajosamente, “sepultos na glória de 
um momento *ºº”, Mesmo a memória daque- 
les de que vimos pessoalmente a obra, não 
dura mais do que dois ou três anos; esquecem- 
se, depois, e são como se nunca houvessem 
existido. Quem quer que atente para a glória 
que alcançaram as pessoas e os feitos cuja 
recordação se perpetua nos livros, há de con- 
cluir que, guardadas as proporções, bem pou- 
cos terão direito a igual destino. Quantos ho- 
mens virtuosos conhecemos que, sobrevivendo 


“07 Juvenal. 
408 Virgílio. 
409 Td. 


294 


à sua reputação, tiveram a desgraça de ver, 
ainda em vida, apagarem-se a honra e a glória, 
Justamente conquistadas em sua mocidade! 
Nesse ponto, tão importante, propõem os sá- 
bios um fim mais belo e justo: “a recompensa 
a uma nobre ação está em a ter realizado; o 
fruto do serviço prestado é o próprio 
fruto*1º”. Será possivelmente muito com- 
preensível que um pintor ou qualquer artista, 
ou um retórico, ou um gramático, se esforce 
para ganhar renome com sua obra; mas os 
atos que nos inspira a virtude são demasiado 
nobres em si para que busquemos uma recom- 
pensa fora deles, principalmente na inanidade 
dos juízos humanos. 


Se, entretanto, essa idéia falsa contribui 
para manter os homens no caminho do dever, € 
os predispõe à virtude; se os príncipes são sen- 
síveis ao fato de se honrar a memória de Traja- 
no e se execrar a de Nero; se os comove ver o 
nome deste grande malfeitor, outrora objeto de 
terror, hoje maldito e insultado livremente por 
qualquer estudante; deixemo-la desenvolver-se 
à vontade e cuidemos dela com carinho. 

Platão que atentava para tudo o que pudesse 
impelir seus concidadãos à virtude, aconse- 
lha-os, entre outras coisas, a não desprezarem 
a consideração e a estima do povo, e diz que, 
por uma espécie de inspiração divina, até os 
maus sabem distinguir, em seus juízos, o mal 
do bem. Esse filósofo e Sócrates, seu mestre, 
entendem-se perfeitamente e não hesitam em 
fazer intervirem as revelações divinas sempre 
que a força humana se revela impotente, “a 
exemplo dos poetas trágicos que recorrem aos 
deuses quando não sabem encontrar um desen- 
lace para sua peça“''?. Eis talvez por que 
Timon, invectivando-o, o tachava de grande 
fabricante de milagres. 

Se os homens são incapazes de apreciar a 
moeda verdadeira, usa-se a falsa. Todos os 
legisladores assim o fizeram; não há legislação 
em que não se depare com alguma mistura de 
cerimônias fúteis ou de lendas fantasistas que 
servem para manter o povo no caminho do 
dever. É por isso que em sua maioria têm elas 
origem na fábula e se enriquecem de mistérios 
sobrenaturais, o que deu crédito a essas reli- 
giões nascidas do erro e fez que pessoas sensa- 
tas as aceitassem. É também por isso, para 
levar mais seguramente os homens a acredi- 


41º Sêneca. 


411 Cicero. 


MONTAIGNE 


tarem neles, que Numa e Sertório os alimen- 
tavam com tolices. E dizia um de sua ninfa 
Egéria e outro de sua corça branca que lhes 
comunicavam as opiniões dos deuses. Essa 
mesma autoridade que Numa emprestava às 
suas leis mediante intervenções divinas dava 
Zoroastro às suas, servindo-se de Oromasdes; 


e Trismegisto, através de Mercúrio, assim se 
conduziu com os egípcios. Zámolxis valeu-se 
de Vesta junto aos citas; Carondas, de Satur- 
no, na Calcedônia; Minos, de Júpiter, em Cân- 
dia; Licurgo, de Apolo, na Lacedemônia; 
Draco e Sólon, de Minerva, em Atenas. Toda 
legislação traz um deus à frente. Em todas tra- 
ta-se de um falso deus; somente emana do ver- 
dadeiro Deus a que Moisés deu ao povo da 
Judéia à saída do Egito. A religião dos bedui- 


nos, diz Joinville, declara, entre outras coisas, 
que a alma de quem morre por seu príncipe 
passa para um corpo mais feliz, mais belo, 
mais forte do que o primeiro, o que.os induz a 
se exporem de bom grado ao perigo: 
“desafiavam o ferro, abraçavam a morte, 


| 

considerando covardia poupar uma vida que 
devia renascer*'2”?. Eis uma crença salutar, 
embora falsa. E cada nação possui certo núme- 
ro de crenças semelhantes. Mas o assunto me- 
rece comentário especial. 


Uma palavra ainda. Não aconselho tam- 
pouco às sérihoras denominarem honra o que 
constitui seú dever, “assim como na linguagem 
comum só se chama bem ao que parece glo- 
rioso ao povo *13?. O dever é o fruto, a honra, 
a casca, e as mulheres se prejudicam a si mes- 


mas invocando tal desculpa quando se recu- 
sam a entregar-se, pois sua intenção, seu dese- 
Jo, sua vontade nada têm a ver com a honra, € 
devem ser mais considerados, no caso, do que 
o fato em si: “já sucumbiu aquela que recusa 


porque não lhe é permitido sucumbir *'*2. A. 
ofensa a Deus e à consciência é tão grande 
quando resulta do desejo como quando pro- 
vém do fato consumado. Ademais, são fatos 
que ocorrem em lugares geralmente ocultos, e 
ser-lhes-ia muito fácil escondê-los dos outros, 
que outorgam a honra, se não praticassem a 
castidade por si mesmã. Toda pessoa honrada 
prefere perder a honra a agir contra a própria 
consciência. 


“12 Tucano. 
413 Cícero. 
414 Ovídio. 


ENSAIOS — II 295 


CapítTuLO XVII 


Da presunção 


Há outro tipo de glória que consiste em ter- 
mos opinião demasiado boa de nós mesmos. 
Essa afeição imprudente faz que nos represen- 
temos aos nossos próprios olhos diferentes do 
que somos. E atua como a paixão amorosa, 
que empresta ao objeto de seu amor a beleza e 
a graça, turvando e alterando a razão de quem 
ama € fazendo da pessoa amada um ser muito 
mais perfeito do que é. 

Não quero, entretanto, passando de um 
extremo a outro, que um homem se despreze 
ou se estime menos do que vale. Nosso julga- 
mento deve conservar sua retidão e é justo que 
nisso, como em outras coisas, veja em que con- 
siste a verdade. Se é César, que se considere 
corajosamente o maior guerreiro do mundo. 
Tudo é convenção; as convenções guiam-nos e 
nos levam a menoscabar a realidade. Pendura- 
mo-nos aos galhos e largamos o tronco, que é 
essencial. Ensinamos as mulheres a corar ao 
ouvirem o que em absoluto não receiam fazer; 
não ousamos chamar a nosso sexo pelo nome 
certo, mas não tememos empregá-lo na devas- 
sidão. 

Não querem as convenções que nos refira- 
mos aos atos lícitos e naturais que entretanto 
praticamos; a razão aconselha-nos a não 
cometer os ilícitos e maus, mas ninguém a 
ouve. Eu mesmo, neste momento, estou sendo 
tolhido por essas regras que as convenções nos 
impõem e que nos recomendam não falarmos 
de nós mesmos, nem bem nem mal. Mas não 
as observamos. 


Aqueles que os fados, bons ou maus, esco- 
lheram a fim de que vivessem em situações ele- 
vadas, podem com seus atos públicos revelar o 
que são; mas os que a sorte deixou mergu- 
lhados na massa e de quem ninguém há de 
falar se eles próprios não o fizerem, são descul- 


páveis quando, a exemplo de Lucílio, ousam 
falar de si aos que por eles se interessam: 
“confiava seus segredos ao papel como a um 
amigo fiel, e, feliz, ou infeliz, nunca teve outro 
confidente; por isso toda a sua longa vida aí se 
expõe, e aparece pintada como em um quadro 
votivo*'5” O papel era depositário de seus 


416 Horácio. 


atos e pensamentos, nele se pintava como se 
via. “Rútilo e Escauro em fazendo o mesmo 
não tiveram menor crédito nem foram menos 
apreciados“! 8,” 

Lembro-me de que em minha infância 
observavam em mim certos gestos que eviden- 
ciavam alguma vaidade e uma absurda altivez. 
A esse respeito, quero dizer desde já, que não é 
raro termos qualidades e tendências próprias 
que se enraízam em nós a ponto de não as 
percebermos. O corpo retém por vezes alguns 
vestígios delas, bem contra a nossa vontade. 

Alexandre tinha o hábito de inclinar a cabe- 
ça levemente para um lado, o que se coadu- 
nava com seu tipo de beleza. Alcibíades falava 
lenta e gravemente. Júlio César coçava a cabe- 
ça com o dedo, indício de graves preocupa- 
ções. Cícero, se não me engano, franzia o 
nariz, sinal de temperamento zombeteiro. Há- 
bitos semelhantes podem surgir em nós sem 
que os percebamos. Não falo de outros, estu- 
dados, como as saudações e reverências que 
nos outorgam, por vezes erroneamente, a repu- 
tação de humildade e cortesia. Ora, a humil- 
dade eu só a admito quando se trata de glória. 
Sou pródigo em saudações, principalmente no 
verão, e nunca as recebo sem as devolver, ve- 
nham de quem vierem, a menos que as pessoas 
estejam a meu serviço. Desejaria que certos 
príncipes de minhas relações se mostrassem 
mais parcimoniosos e as distribuíssem somen- 
te a quem as merecesse. Não sendo discretos, 
desvalorizam-nas. 

Entre as atitudes estranhas mencionemos a 
arrogância do imperador Constâncio que em 
público mantinha a cabeça ereta, não a viran- 
do nem inclinando, nem mesmo para enxergar 
quem o saudava, a seu lado. Mantinha-se imó- 
vel, não acompanhando sequer o movimento 
de seu carro, não ousando cuspir, nem se 
assoar, nem enxugar o rosto diante dos outros. 

Não sei se os gestos que observavam em 
mim eram dessa natureza e se eu realmente 
tinha tendência para a vaidade; é possível. 
Não posso responder por meus defeitos físicos, 
mas quanto aos movimentos da alma quero 
confessar aqui o que sinto. 


416 Tácito. 


296 


A presunção exerce-se de duas maneiras: em 
nos superestimando e em subestimando os 
outros. Quanto à primeira maneira, parece-me 
que certas considerações devem ser pondera- 
das. Sou vítima de um erro sentimental que me 
desagrada e se me afigura iníquo e ainda mais 
importuno. Tento corrigilo, mas não posso 
libertar-me: subestimo o valor das coisas que 
possuo e, ao contrário, superavalio as que não 


me pertencem ou se acham fora de meu alcan-. 


ce. Assim, o privilégio da autoridade impele 
certos maridos a desprezarem suas mulheres, e 
certos pais a desdenharem os filhos. Chamado 
a escolher entre duas obras iguais, preteriria 
sempre a minha, não porque meu julgamento, 
preocupado com o desejo de progredir conti- 
nuamente, não me dê satisfação, mas porque a 
própria posse já diminui o valor do que possui- 
mos e influi em nosso livre arbítrio. Aprecio 
particularmente as constituições, os costumes 
e as línguas da antiguidade e verifico que pela 
sua nobreza o latim me seduz mais do que fora 
natural e me impressiona como impressiona as 
crianças e o povo. O nível de vida, a residên- 
cia, o cavalo de meu vizinho parecem-me supe- 
riores aos meus, embora importem em despe- 
sas idênticas, somente porque não são meus. 
Mais ainda, não tenho consciência do que 
possa valer; admiro a segurança que todos exi- 
bem e a confiança que têm em si, enquanto não 
hã nada que eu imagine saber nem que eu 
pense poder executar. Quando me proponho 
fazer tal ou qual coisa, não tenho de antemão a 
noção exata dos meios de que posso dispor 
para obter êxito e somente percebo o que está 
em minhas forças pelo resultado. Duvido de 
mim como dos outros. Disso decorre que 
quando faço um trabalho merecedor de louvo- 
res, atribuo-o antes à sorte do que ao meu 
talento, tanto mais quanto só o acaso me guia; 
e o temor. 


Tenho ainda isso de particular que habitual- 
mente, entre as opinioes que a antiguidade 
emitiu acerca do homem em geral, agradam- 
me mais as que revelam maior desprezo por 
nós, que nos aviltam e desdenham. A filosofia 
nunca se me afigura mais certa do que quando 
combate nossa presunção e nossa vaidade, 
quando reconhece de boa fé sua ignorância e 
sua fraqueza. Parece-me que a origem dos 
maiores erros de nosso julgamento, tanto do 
indivíduo como da massa, e o que os mantém 
vivos, é a opinião demasiado favorável que o 
homem tem de si. Esses sujeitos que cavalgam 
a órbita de Mercúrio e vêem tão claramente o 
que ocorre no céu, fazem-me dar de ombros. 


Deparo, com efeito, neste meu estudo, que tem: 


por objeto o homem, com uma tal variedade de 
juízos, um tal labirinto de dificuldades, tanta 


MONTAIGNE 


incerteza e indecisão entre os que ensinam a 
sabedoria, que se essa gente não consegue se- 


“quer conhecer-se a si mesma, nem entender as 


condições de sua existência, que tem continua- 
damente sob os olhos, que nela reside, se essa 
gente não sabe como se move o que ela própria 
põe em movimento, nem como nos descrever 
as molas que tem nas mãos, eu, por meu lado, 
sinto-me pouco propenso a nela acreditar 


- quando nos expõe as causas a que atribui o 


fluxo e o refluxo do Nilo. A curiosidade de 
tudo conhecer é um flagelo da humanidade, 
rezam as Escrituras. 

Voltando ao meu caso particular, parece-me 
dificil que alguém se subestime tanto: Condu- 
zo-me como todo mundo, salvo em relação a 
mim mesmo. Tenho os piores defeitos, os mes- 
mos que se encontram em todo mundo, mas os 
reconheço, e só me vanglorio de saber o que 
valho*!7. Se tenho alguma vaidade, é superfi- 
cial e provém da traição de meu tempera- 
mento. Não tendo raízes profundas, tal defeito 
escapa a meu julgamento, e se me borrifa, não 
chega a molhar-me. Pois, em verdade, as mi- 
nhas obras, quaisquer que sejam, não me satis- 
fazem nunca e não considero recompensa a 
aprovação dos outros. Tenho o julgamento 
delicado e dificil, especialmente quanto ao que 
me concerne; sinto-me indeciso, irresoluto e 
fraco; nada de mim satisfaz a razão. Sou bas- 
tante perspicaz e vejo com justeza, mas, à 
obra, minha vista se turva. E o que experi- 
mento nitidamente na poesia; aprecio-a muito 
e sei julgar as obras alheias, mas quando pro- 
curo escrever poemas sou como uma criança, e 
o que faço não o suporto: “tudo proíbe a 
mediocridade aos poetas: os deuses, os ho- 
mens, as colunas dos pórticos onde se afixam 
os versos *!8?. Prouvera Deus se encontrasse 
tal pensamento nos mostruários dos impresso- 
res, a fim de vedar a entrada a bom número de 
versificadores! “Porém, ninguém acredita 
mais em si do que um mau poeta *!*º.” 


Por que não somos como alguns povos? 
Dionísio, o Antigo, apreciava sua poesia 
acima de tudo. Por ocasião dos jogos olímpi- 
cos, juntamente com carros que sobreexcediam 
os outros em magnificência, as tendas e os 
pavilhões luxuosamente decorados, enviou 
poetas e músicos para que apresentassem seus 
versos. Ao serem julgados, interessaram a 
princípio, graças à dicção dos atores, mas 
percebendo-lhes a mediocridade em seguida, o 
povo os ridicularizou e, exasperando-se, assal- 


417 Há uma contradição flagrante com o que afirma 
no início do capítulo (N. do T.) 

*18 Horácio. 

“18 Marcial. 


ENSAIOS — II 


tou as tendas do tirano e as desmantelou. Seus 
carros não tiveram melhor êxito na corrida de 
que participaram; o navio que transportava o 
seu séquito não pôde ancorar na Sicília e foi 
espatifar-se de encontro às costas de Tarento. 
E esse mesmo povo não duvidou um só ins- 
tante de que não se tratasse de um efeito da có- 
lera dos deuses irritados com o mau poema. E 
os marinheiros salvos do naufrágio eram da 
mesma opinião. O oráculo que predisse a 
morte de Dionísio pareceu mesmo ratificar o 
Julgamento. Dizia que teria chegado ao fim 
quando vencesse os que valiam mais do que 
ele. Quis o tirano aplicar o vaticínio na guerra 
contra os cartagineses cujo poderio ultrapas- 
sava o seu. Não explorava a fundo as vitórias 
e continha seus exércitos para não cair no caso 
previsto, mas na verdade não aprendera o sen- 
tido recôndito do oráculo. O deus visara o 
momento em que, pela intriga, venceria em 
Atenas os poetas trágicos, mais talentosos, 
obtendo contra toda justiça que uma sua peça 
fosse representada. Logo após o sucesso, mor- 
reu subitamente, em parte por causa da grande 
alegria que experimentara. 

Quando porventura acho em minha produ- 
ção algo desculpável, não penso no seu valor 
próprio; o que a meus olhos lhe dá crédito são 
as coisas piores que vejo apreciarem. Invejo a 
felicidade dos que se satisfazem com o que 
produzem, pois é meio fácil que temos de 
alcançar o prazer, visto que o tiramos de nós 
mesmos, e os invejo principalmente quando 
demonstram persistência e constância. Conhe- 
ço um poeta ao qual, delicada ou brutalmente, 
em público ou em particular, céus e terra 
declaram que não entende do riscado. Nem 
por isso renuncia ao que quer que seja, e sem- 
pre recomeça e consulta e persiste, tanto mais 
confiante em sua própria opinião quanto é o 
único a pensar que julga com justeza. 

- Falta muito para que minhas obras me satis- 
façam, e quanto mais as retifico mais me abor- 
recem: “quando as releio, envergonho-me de 
as ter escrito, pois vejo nelas muitas coisas 
que, mesmo a meus olhos indulgentes de autor, 
são indignas de perdurar “2º”. Tenho sempre 
uma idéia em mente, mas não a percebo com 
nitidez. Sem cessar entrevejo, como em sonho, 
uma forma melhor, mas não a posso apreender 
nem realizar. Quanto à idéia mesma, não é 
nunca de primeira ordem. Isso induz-me a con- 
cluir que as produções desses espiritos tão 
ricos e grandes de outrora ultrapassam, de 
muito, o extremo limite de minha imaginação e 
do que aspiro atingir. Seus escritos não somen- 
te me cativam, mas ainda me maravilham; 


s20 Ovídio. 


297 


aprecio-lhes a beleza, a qual talvez não me 
apareça em sua plenitude mas tão-somente na 
medida do que posso perceber. O que quer 
que empreenda, invoco as Graças, a fim de, 
como diz Plutarco de alguém, conciliar seus 
favores, “pois tudo o que agrada, e encanta os 
sentidos dos mortais, às Graças o devemos”; 
mas nunca elas me atendem. Tudo em mim é 
grosseiro; careço de gentileza e beleza; não sei 
valorizar as coisas além de seu valor; minha 
maneira de apresentá-las não põe em relevo a 
matéria, por isso necessito tê-la consistente, 
interessante e brilhante em si. Quando trato 
certos assuntos mais vulgares com algum espi- 


Tito, faço-o por inclinação natural, não me 


comprazendo nessa sabedoria convencional, 
impregnada de tristeza, que granjeia a simpa- 
tia da sociedade. E por desejo de me divertir, 
bem mais do que por convirem a meu estilo, 
mais adequado aos temas severos, se é que 
posso chamar estilo, a uma linguagem infor- 
me, desobediente a todas as regras, verdadeiro 
Jargão popular, unida a uma redação inominá- 
vel, mal equilibrada, falta de clareza € incon- 
clusiva, à moda de Amafínio e de Rabírio. 
Não sei agradar, nem divertir, nem interessar: 
a melhor história do mundo, dita por mim, 
perde graça e encanto. Só sei falar quando me 
sinto tomado pelo assunto, e careço inteira- 
mente dessa facilidade que vejo em muitas pes- 
soas de minhas relações, as quais prendem a 
atenção de todos, divertem um príncipe sem o 
cansar, com toda espécie de considerações. 
Não lhes falta assunto porque têm a faculdade 
de se apoderar de qualquer um e tratá-lo 
segundo a disposição de espírito e o grau de 
inteligência dos que os ouvem. ÁÃos príncipes 
não apetecem as conversações sérias, nem a 
mim contar lorotas. As razões que primeiro se 
me apresentam à idéia, as mais acessíveis e em 
geral as mais facilmente aceitas, não as sei 
empregar. Sou um mau orador de improviso € 
qualquer que seja o tema vou diretamente ao 
fundo, e digo o que sei. Cicero reconhece que 
nas questões filosóficas o mais difícil é a entra- 
da em matéria. Talvez por isso mesmo passo 
logo prudentemente à conclusão. Mas é preci- 
so também saber afinar seu instrumento e 
regular-lhe as cordas, a fim de que o som mais 
agudo seja o menos comum. Há pelo menos 
igual talento em dar realce a um assunto vazio 
de sentido quanto em defender outro de peso. 
Ora cumpre tratá-lo com leveza, ora ir a fundo 
no tema. Bem sei que em sua maioria os ho- 
mens se atêm ao menos complexo desses pro- 
cessos, e encaram as coisas superficialmente. 
Xenofonte ou Platão são por vezes seduzidos 
por essa maneira simples € habitual de ventilar 
as questões, condimentando-as entretanto 


298 


com esse encanto que lhes é peculiar. 

Minha linguagem nada tem de fácil e fluida; 
é antes áspera, livre, desregrada. Quero-a 
assim, não por decisão e sim por tendência 
natural, mas sinto quê às vezes não me con- 
trolo suficientemente e que em me esforçando 
por evitar o artifício e a afetação, caio no 
excesso contrário: “procuro ser breve e torno- 
me obscuro *21?. Platão diz que a sobriedade e 
a prolixidade são qualidades que não intervêm 
no mérito da linguagem. Por mais que tentasse 
tornar a minhá igual, uniforme, bem ordenada, 
não o conseguiria. Embora as frases curtas e 
ritmadas de Salústio se acertem melhor à 
maneira de me exprimir, acho o estilo de César 
mais nobre e menos. passível de imitação; e 
apesar de ser mais levado a aproximar-me do 
de Sêneca, o fato não me impede de preferir o 
de Plutarco. Nos atos e nas palavras obedeço à 
minha nafureza, o que faz que talvez me saia 
melhor falândo do que escrevendo. O movi- 
mento e à ação dão vida às'palavras, principal- 
mente nos que, como eu; têm o gesto brusco e 
se entusiasmam. A atitude, a expressão, a voz, 
a roupa, as circunstâncias podem valorizar o 
que por si mesmo não tem grande valor, como 
a loquacidade: Messala, em Tácito, queixa-se 
das vestimentas demasiado estreitas que então 
se usavam e do tipo das triburias que prejudi- 
cavam os efeitos da eloquência. - 

Meu francês é alferado pela pronúnciá e ou- 
tros defeitos inerentes à minha região; nunca vi 
alguém, do sul do Loire, cuja maneira de falar 
não lhe revelasse francamente a origem e não 
ferisse cs ouvidos puramente franceses. No 
entanto, não sou muito sabido no dialeto peri- 
gordino e não o emprego mais do que o ale- 
mão, nem me preocupo muito com o saber. 
Trata-se aliás de uma língua (como as demais 
dessa região, do Poitou a Auvergne) sem gran- 
de força expressiva. Mais abaixo, do lado das 
montanhas, há no entanto um falar gascão que 
acho particularmente belo, seco, sóbrio, ex- 
pressivo, mais viril e marcial do que os outros 
e tão nervoso e forte quanto o francês é gracio- 
so, delicado e rico. No que concerne ao latim, 
minha língua materna, por não o praticar perdi 
a facilidade de o falar correntemente e mesmo 
de o escrever, o que fazia outrora e me valera o 
apelido de “mestre João *?2” | 

A beleza é elemento de importância nas 
relações sociais. É o meio mais eficiente de 
aproximação, é não há homem, por mais gros- 
seiro e sorumbático que seja, que não se sinta 
influenciado pelo que ela tem de agradável. O 
corpo é parte importante de nós, ocupa um 


+21 Horácio. 


+22 Mestre-escóla. 


MONTAIGNE 


| 


lugar relevante; sua estrutura e seu funciona- 
mento merecem portanto toda consideração. 
Erram os que o querem encarar à parte, isolan- 
do-o da alma, outro elemento primordial do 
nosso ser. É necessário, antes, juntá-los se se 
acham desunidos e apertar o nó que os prende 
um a outro. Cumpre exigir da alma que não 
tente afastar-se do corpo, desprezando-o, 
abandonando-o (o que só se poderia fazer em 
virtude de uma inspiração infeliz), mas que se 
aproxime dele, que o' envolva, o acarinhe, o 
assista, o controle, o aconselhe, o corrija e o 
reponha no bom caminho quando se perde. 
Que lhe sirva em suma de esposa, de forma a 
não se verificarem divergências aparentes nos 
atos de ambos e agirem de comum acordo. Os 
cristãos têm a esse respeito orientação precio- 
sa. Sabem que a justiça divina impõe essá ligá- 
ção, essa vida em comum, a ponto de ter torna- 
do o corpo suscetível de recompensas eternas, 
pois Deus dã ao homem inteira liberdade de 
ação e quer que participé totalmente, e segun- 
do seus méritos, dos castigos e prêmios. 

A seita dos peripatéticos, a mais compene- 
trada das necessidades das coletividades, atri- 
bui à sabedoria sozinha o cuidado de promio- 
ver a associação benéfica dos dois elementos. 
Essa escola demonstra com clareza o erro em 
que laboraram as outras seitas ao não apreciar 
devidamente essa ligação intima e encarar 
separadamente cada uma das partes, declaran- 
do-se umas favoráveis ao corpo e outras à 
alma, perdendo de vista o objeto de seus 
comentários, o homem, e o seu guia, que em 
geral afirmam ser a natureza. A primeira dis- 
tinção que se verificou entre os homens, a 
consideração que inicialmente determinou a 
preeminência de uns sobre outros, foi determi- 
nada provavelmente pela vaântagern dá beleza: 
“a repartição das terras fêz-se a princípio 
proporcionalmente à beleza, ao vigor e à inteli- 
gência de cada um; porque então a beleza e o 
vigor eram as principais recomendações *?3” 

Sou de estatura pouco abaixo da mediana; é 
um defeito não somente nocivo à beleza mas 
ainda incômodo para os que exercem coman- 
dos e cargos, pois carecem assim da autori- 
dade que ouforgam uma bela estatura e um f- 
sico imponente. C. Mário não aceitava de bom 
grado os soldados cuja altura não alcançasse 
seis pés. O Cortesão*?* tem razão quando 
recomenda para o fidalgo perfeito uma esta- 
tura mediana e proscreve qualquer particula- 
ridade que o distinga especialmente. Mas a 
aceitar-se essa mediania, não o escolheria 
como soldado se ele estivesse antes aquém do 
que além dela. Os homens pequenos, diz Aris- 


“23 Lucrécio. 
424 TI Corteggiano, de Castiglione. 


ENSAIOS — II 


tóteles, são bonitos, mas não belos; pois assim 
como a grandeza dos feitos revela uma grande 
alma, a estatura e o porte associam-se à bele- 
za. Os etiopes e os indianos, diz igualmente 
esse autor, levavam em conta a beleza e a esta- 
tura na escolha de seus reis e magistrados. 
Estavam certos, porque um chefe com tais 
qualidades, à frente de uma tropa, inspira res- 
peito aos seus e temor aos inimigos. “À testa 
marcha Turno de armas à mão, magnífico e 
ultrapassando de uma cabeça os que o 
cercam 24 

Noósso divino e soberano rei que está nos 
céus e cujos atos todos devem ser religiosa- 
mente meditados, com atenção e respeito, não 
desdenhou distinguir-se pela beleza física: “era 
o mais belo dos filhos dos homens”. E Platão 
deseja que aqueles que coloca à testa da Repú- 
blica, unam a beleza à moderação e ao caráter. 
É humilhante para o nosso amor-próprio ver 
alguém -procurar-nos em meio à criadagem: 
“onde estã o senhor?” Sobram-nos então, ape- 
nas, os restos das saudações endereçadas ao 
barbeiro e ao secretário. Tal desventura ocor- 
reu com o pobre Filopêmen. Chegara antes 
dos seus à casa em que o esperavam. Sua anfi- 
trioa não o conhecia e ante seu aspecto biso- 
nho pediu-lhe que fosse ajudar os servidores a 
carregarem água e atiçarem o fogo para a 
recepção de Filopêmen. Vendo-o nessa tarefa, 
ao chegarem, perguntaram-lhe os fidalgos de 
seu séquito o que fazia: “Pago a desgraça de 
ser feio”, respondeu-lhes. 

Os outros gêneros de beleza são do domínio 
da mulher: o da estatura é o único peculiar ao 
homem. Nem a fronte ampla e bem desenhada, 
nem a limpidez e a doçura dos olhos, nem o 
nariz bem feito, nem as orelhas e a boca peque- 
nas, nem a bela barba castanho-escura, abun- 
dante e regular, nem a cabeleira altiva, nem a 
proporção perfeita da cabeça, nem o frescor da 
tez, nem os traços agradáveis, nem o corpo 
sem odores, nem os membros bem equili- 
brados podem fazer de um homem pequeno 


um belo homem. ; 
Sou atarracado e forte, tenho o rosto cheio 


sem ser balofo; meu humor flutua entre jovial e 
melancólico, meu temperamento é algo sangui- 
neo, “o que faz que tenha as pernas e o peito 
peludos *2 8”, a saúde boa, robusta e raramen- 
te, até idade bem avançada, a perturbou a 
doença. Assim foi, pelo menos, até hoje, pois 
agora já me aproximo da velhice, tendo ultra- 
passado há muito os quarenta, e já não vou tão 
bem: “pouco a pouco extinguem-se as forças, 
esgota-se o vigor e a decrepitude cresce *?2 7” O 


“25 Virgílio. 
226 Marcial. 
427 Lucrécio. 


299 


que serei doravante não será mais do que um 
meio ser, não será mais eu mesmo: “os anos 
arrancam-nos sem descontinuar algum peda- 
ço 42 B>2 

Fisicamente não tive nem destreza nem 
talentos especiais, embora filho de um pai 
muito vivo e de uma agilidade que conservou 
até a mais avançada velhice. Não havia em seu 
tempo homem que o igualasse nos exercícios 
do corpo, como não encontrei muitos que não 
me sobreexcedessem, salvo na corrida a pé na 
qual, contudo, não fui além dos medíocres. Na 
música, vocal ou instrumental, fui inepto e 
nunca puderam ensinar-me coisa alguma. Na 
dança, no jogo da bola, na luta, revelei-me 
sempre fracalhão e vulgar. Era absolutamente 
nulo em natação, na esgrima, na acrobacia e 
no salto. Sou tão desajeitado: de mão que mal 
posso reler o que escrevo, a ponto de preferir 
escrever de novo a decifrar minhas garatujas. 
Não leio muito melhor do que escrevo, e sinto 
que canso quem me escuta. Sou todavia 
suficientemente letrado. Incapaz de dobrar 
com eficiência uma carta, não sei tampouco 
apontar a pena*2º. Não sei trinchar à mesa, 
nem arrear um cavalo, nem carregar um falcão 
ao punho e lançá-lo sobre a presa, nem me 
fazer entender dos cães, pássaros e cavalos. 


Minhas qualidades físicas estão em suma 
perfeitamente de acordo com as de minha 
alma; não há em mim nenhuma vivacidade, 
mas apenas um vigor geral bem caracterizado. 
Resisto facilmente ao trabalho, sob a condição 
de mo impor eu mesmo e em meu proveito: é 
prazer que me causa o trabalho, faz-me esque- 
cer a fadiga “20”. 


Se não encontro prazer na tarefa, se outra 
coisa que não minha simples e livre vontade 
me obriga a trabalhar, já não valho mais nada. 
Mesmo porque cheguei a um ponto em que, 
salvo em benefício da saúde e da vida, nada 
quero que me aborreça ou me constranja: “por 
esse preço não desejaria toda a areia do Tejo 
com o ouro que carreia para o oceano “31º. 
Sem ocupação obrigatória, livre por natureza e 
pela vida que escolhi, preferiria dar meu san- 
gue a meu esforço. Minha alma ama a liber- 
dade e a independência e está habituada a 
conduzir-se a seu bel-prazer. Não tendo tido 
até agora nem chefe, nem senhor, fiz o que quis 
e do jeito que me apeteceu; isso amoleceu-me e 
me tornou inútil aos outros, e somente a mim 
mesmo útil. 


*28 Horácio. 

“29 Pena de pato, que se apontava para escrever. 
(N. do T.) 

“30 Horácio. 

“31 Juvenal. 


300 MONTAIGNE. 


Não fui forçado a lutar contra esse tempera- 
mento preguiçoso e tardo, pois achei-me desde 
a infância em situação financeira de tal ordem 
que não a pude mudar (situação que mil outros 
de minhas relações teriam aproveitado para 
conquistar glórias e honrarias, agitar-se e 
aborrecer-se). Tal circunstância, unida a mi- 
nhas tendências inatas, fez que nada buscasse 
nem conquistasse: “o Aquilão em verdade não 
incha as minhas velas, mas Austro não per- 
turba a minha marcha serena; em força, talen- 
to, beleza, virtude, berço e bens, figuro entre os 
últimos da primeira classe e os primeiros da 
última “32”. Não precisei senão contentar-me 
com o que tinha, o que constitui entretanto 
decisão com a qual não se depara comumente, 
e menos ainda entre os ricos do que entre os 
que nada possuem, porquanto a sede de rique- 
zas, como as demais paixões, desenvolve-se na 
medida em que se pratica, e a moderação é vir- 
tude mais rara do que a paciência. Nunca me 
dediquei a qualquer trabalho aborrecido e só 
me ocupei com gerir meus próprios negócios, 
ou, se tive outros, o que só aconteceu quando 
pude impor a condição de tratá-los como bem 
entendesse, deles fui encarregado por pessoas 
que me conheciam, confiavam em mim e não 
me atormentavam. Os indivíduos espertos 
sabem tirar proveito até mesmo de um cavalo 
asmático e turrão. 

Minha infância foi orientada com doçura; 
deram-me grande liberdade e pouparam-me 
toda disciplina rigorosa. Atribuo a um tal regi- 
me o meu temperamento sensível, incapaz de 
enfrentar qualquer preocupação, a tal ponto 
que me esforço por ignorar prejuízos e situa- 
ções incômodas. E bem sei, pelas minhas des- 
pesas, quanto me custa alimentar um desinte- 
resse que faz com que “o supérfluo escape aos 
olhos do dono e aproveite aos ladrões “3”. 
Prefiro não saber exatamente o que possuo, o 
que me permite ignorar ao certo o montante 
dos prejuízos. Aos que vivem comigo, peço 
que me enganem e salvem as aparências se não 
me podem dar sua afeição. Sem força de von- 
tade suficiente para suportar as contrariedades 
a que somos sujeitos e não sendo forçado a 
prestar uma atenção constante aos negócios, 
alimento em mim, quanto posso, o sentimento 
de tudo abandonar aos fados, tudo encarando 
com pessimismo e resignado a sofrer o pior 
com doçura e paciência. Somente em o conse- 
guir é que me aplico; é o objetivo a que visa O 
meu raciocínio. Se corro algum perigo, penso 
menos em o evitar do que na desvalia do que 
evito; e pergunto sempre que mal haveria 


+32 Horácio. 
433 Td. 


nisso. Não podendo regular os aconteci- 
mentos, regulo-me a mim mesmo. Submeto-me 
a eles, porque não Os posso submeter a mim. 
Não sei desviar o azar, nem como escapar-lhe 
ou dominá-lo; nem tenho a prudência neces- 
sária para dirigir e corrigir as coisas segundo 
meus interesses, e mais incapaz ainda me acho 
dessa paciência que exige atenção minuciosa e 
exaustiva para assim agir. O que me parece 
mais penoso, entre as coisas que me oprimem, 
é ficar na expectativa; tomado de receio e espe- 
rança a um tempo. 

Resolver, mesmo a respeito dos atos menos 
importantes, é-me desagradável; e meu espírito 
sofre mais quando presa de agitação e dúvida, 
e instado a ponderar, do que quando se resigna 
e aceita a imposição do destino. As paixões ja- 
mais perturbaram o meu sono mais do que o 
faz a necessidade de uma resolução. Por isso, 
evito igualmente os caminhos íngremes e 
escorregadios e sigo as estradas batidas, por 
barrentas e esburacadas que sejam, porque são 
mais seguras e delas não se pode rolar. E prefi- 
ro uma desgraça irremediável que provoque 
imediato e violento sofrimento, mas na qual 
não mais pensarei e que não procurarei reme- 
diar — sem certeza de êxito — mediante mil 
tormentos: “os males incertos são os que mais 
pesam “3 4?, 

Na hora dos acontecimentos conduzo-me 
virilmente, depois de ter agido como uma 
criança nas circunstâncias que os provocam. 
O receio da queda dói-me mais que a própria 
queda, custa mais a mecha do que o sebo. O 
avarento vive pior do que o pobre por causa de 
sua paixão; € o ciumento pior que o enganado; 
e não raro há menor prejuízo em perder o 
vinhedo do que lhe disputar a posse nos tribu- 
nais. À marcha mais lenta é a mais eficiente e 
a mais fácil de manter; não exige ajuda de 
ninguém. 

O exemplo seguinte, de um fidalgo que mui- 
tos conheceram, apresenta certo caráter filosó- 
fico: casou tarde, tendo vivido à tripa forra na 
mocidade. Ademais, grande conversador e mui 
zombeteiro. Lembrando-se de que os maridos 
enganados lhe haviam servido de alvo para 
comentários jocosos, desposou uma mulher 
que fora buscar onde as tem, quem queira, por 
dinheiro; e com ela estabeleceu certas conven- 
ções. Assim é que se saudavam dizendo ele: 
bom dia, puta! — ao que ela respondia: bom 
dia, corno! E com essa combinação entretinha 
abertamente os que o visitavam. Desse modo 
antecipava-se às zombarias e fazia-se insen- 
sível a quaisquer alusões. 

Quanto à ambição, vizinha da presunção, 


434 Sêneca. 


ENSAIOS — II 


ou antes filha, fora preciso para que eu alcan- 
çasse uma alta posição que a sorte me viesse 
buscar pela mão, pois esforçar-me por uma 
esperança aleatória, submeter-me a toda espé- 
cie de obrigações, como os que, no início de 
sua carreira, desejam sobressair, não o saberei 
fazer: “não pago esse preço pela esperan- 
ça*3 8”, Apego-me ao que vejo e alcanço e não 
me afasto muito do porto: “um de meus remos 
afunda na água, o outro toca a areia da 
praia*? 8”. Por outro lado, é difícil atingir uma 
posição sem arriscar o que se tem, e sou de 
opinião que, se basta para manter a condição 
em que se nasce e foi educado, é loucura lar- 
gá-lo na esperança de aumentá-lo. E descul- 
pável que se aventure quem não teve a sorte de 
um domicílio e a possibilidade de viver 
trangiilamente; a necessidade leva sempre à 
procura da fortuna: “cumpre ser ousado na 
desgraça“? 7”. Desculpo mais o caçula que 
arrisca a herança do que o mais velho a quem 
cabe manter intata a honra da família e que só 
pode tornar-se necessitado por culpa própria. 
Eu, felizmente, graças aos conselhos de bons 
amigos, encontrei o meio mais rápido e fácil de 
me libertar de tais veleidades e sossegar 
(“haverá coisa mais suave do que gozar a vitó- 
ria sem ter combatido *3 87º). Pois percebi que 
minhas forças não dão para grandes coisas e 
recordo sempre as palavras do Chanceler Oli- 
vier: “os franceses assemelham-se a macacos 
que pulam de galho em galho até o topo das 
árvores, só parando quando atingem o mais 
alto, e aí, então, mostram o traseiro”. “É ver- 
gonhoso pôr à cabeça um peso impossível de 
carregar, para depois afrouxar e fugir ao 
fardo *? 9? 

As próprias qualidades, de que posso jactar- 
me, são inúteis neste século: a simplicidade de 
meus hábitos seria tachada de covardia e fra- 
queza; minha fé e meus escrúpulos, de supers- 
tição; minha franqueza e liberdade de atitude 
seriam julgadas importunas e ousadas. Hã 
males que vêm para bem: é vantajoso nascer 
neste século de depravação, porque passamos 
por virtuosos com bem pouco; quem não é, em 
nossos dias, parricida ou sacrílego é homem de 
bem: “hoje em dia, se teu amigo não nega que 
lhe hajas confiado um dinheiro; se te devolve 
teu velho saco com tua moeda intata, é um 
prodígio de boa fé que deves inscrever no livro 
dos toscanos, sacrificando uma ovelha aos 
deuses? *º”?. Nunca houve para os príncipes 
tempo e lugar mais propícios a excepcional 
43 5 
436 
437 


Terêncio. 
Propércio. 
Sêneca. 
“38 Horácio. 
*39 Propércio. 
**0 Juvenal. 


301 


recompensa pela prática da bondade e da justi- 
ça. O primeiro que se disponha a conquistar 
crédito e poder trilhando esse caminho, ou me 
engano muito ou suplantará todos os demais. 
A força e a violência podem muito, mas nem 
sempre podem tudo.. Os comerciantes, magis- 
trados e artesãos de nossas aldeias rivalizam 
com a nobreza quanto à valentia e à ciência 
militar; sustentam honrosamente os combates, 
tanto individual como coletivamente; batem- 
se, defendem as cidades nas lutas atuais e um 
principe entre eles não saberia como realçar- 
se. Cumpre-lhe pois ilustrar-se por sua huma- 
nidade, seu amor à verdade, sua lealdade e 
moderação e, sobretudo, seu espirito .de justi- 
ça. São qualidades raras hoje, ignoradas, bani- 
das, e são as que pedem os povos que ele deve 
governar, e são as que lhe granjeariam a afei- 
ção das massas, porque delas tiram estas 
maiores vantagens: “nada é tão popular quan- 
to a bondade * *1”. Em relação ao meu século, 
poderia achar-me grande e raro tanto quanto 
me considero pequeno e vulgar se me comparo 
aos homens de alguns séculos passados, em 
que se viam indivíduos que, além de dotados 
das qualidades comuns e importantes, eram 
moderados na vingança, indulgentes com as 
ofensas recebidas, fiéis à palavra empenhada, 
hostis à duplicidade e à moral demasiado 
inconsistente, intransigentes com a sua fé. Por 
mim, preferiria ver ruírem as coisas públicas a 
subordinar-lhes minha crença. 

Quanto a essa nova virtude do artifício e da 
dissimulação, tão apreciada nestas eras, 
odeio-a supremamente. Entre todos os vícios, 
não conheço nenhum que revele tanta covardia 
e tanta baixeza. É característico da covardia e 
do servilismo, e predispõe à perfídia, fanta- 
siar-se e mascarar-se e não se mostrar como se 
é. Acostumados que andam todos a exprimir 
sentimentos falsos, não lhes constitui caso de, 
consciência desmentirem as palavras pelos 
atos. Um homem generoso não deve falar con- 
tra seu pensamento, pois deseja que se possa 
ler em sua alma. Tudo nela é bom ou humano, 
ao menos. Aristóteles define pela magnanimi- 
dade o fato de odiar e amar abertamente, de 
Julgar e falar com franqueza e de não atentar 
para a aprovação ou a crítica alheias em detri- 
mento da verdade. Apolônio dizia que mentir 
era peculiar ao escravo e falar a verdade 
característica do homem livre. A verdade é 
condição primeira, fundamental da virtude, 
preciso amá-la por si mesma. Quem se atém 
verdade por obrigação, por lhe ser ela útil, 
não teme mentir quando isso não acarreta 
consequências, não está suficientemente preso 
a ela. Por temperamento fujo da mentira; o 


op op 


441 Cicero 


302 


simples pensamento da mentira é-me odioso; 
sinto vergonha em mim mesmo e um pesado 
remorso se por vezes me ocorre mentir, quan- 
do surpreso e obrigado a responder sem refle- 
tir. Não há como dizer sempre tudo; seria toli- 
ce; mas o que se diz deve ser o que se pensa. 

Não sei que vantagem podem esperar dissi- 
mulando e agindo continuadamente ao contrá- 
rio do que pensam, senão a de que os outros 
acreditam como quando falam a verdade. 
Dessa maneira podem enganar uma ou duas 
vezes as pessoas, mas vangloriarem-se de dissi- 
mular constantemente o pensamento e procla- 
marem, como alguns dos nossos príncipes, que 
“jogariam a camisa ao fogo se ela pudesse 
vistumbrar-lhes as verdadeiras intenções”; o 
que foi dito por Metelo Macedônio, um 
homem da antiguidade; ou dizerem em público 
que “quem não sabe dissimular não sabe rei- 
nar”, é advetir que não dirão senão mentiras: 
“quanto mais fino e hábil o homem, mais odio- 
so e suspeito se torna ao perder sua reputação 
de honestidade ”* “2, Seria ingenuidade levar a 
sério quem, voluntariamente, se apresenta, 
como Tibério, diferente por fora do que é por 
dentro. Não sei como tais indivíduos podem 
ter relações com outros, pois quem é desleal 
com a verdade é igualmente desleal com a 
mentira. 


Aqueles que em nossa época consideram 
dever precípuo do príncipe tratar unicamente 
de seus negócios, os quais se sobreporiam a fé 
e à consciência, podem aconselhar com apa- 
rência de razão a que assim aja quem se 
encontre em situação tal que lhe seja dado 
consolidá-la em faltando uma só vez à palavra. 
Mas as coisas não acontecem desse modo: 


estamos sujeitos a repetir semelhantes barga- 
nhas. Assinam-se tratados de paz mais de uma 
vez na vida. À tentação do lucro incita a uma 
primeira deslealdade, para a qual há sempre 
uma oportunidade, como em todas as mãs 
ações. Sacrilégios, assassínios, rebeliões, trai- 


ções sempre decorrem da esperança de um 
resultado favorável; mas a primeira vantagem 
dá origem a numerosas desvantagens e rouba 
ao príncipe, por causa do exemplo dado, todas 
as suas relações e possibilidades de negociar. 
Quando Solimão, da raça dos otomanos, 
raça pouco escrupulosa quanto às promessas é 
aos pactos, invadindo Otranto, no meu tempo 
de infância, soube que Gratinare e os habitan- 
tes de Castro tinham sido feitos prisioneiros 
após a rendição da praça e a despeito do ato de 
capitulação, mandou imediatamente libertá- 
los, observando que ainda tinha grandes 


442 Cícero. 


MONTAIGNE 


empreendimentos em vista e que essa desleal- 
dade, apesar da possível vantagem momentã- 
nea, o desmoralizaria e provocaria uma onda 
de desconfiança capaz de lhe acarretar prejuí- 
zos consideráveis. 

Quanto a mim, prefiro ser indiscreto e 
importuno a ser lisonjeador e dissimulado. 
Confesso que pode haver alguma altivez e 
obstinação na inteira liberdade e sinceridade 
que mantenho para com todos sem distinção, 
pois creio que me mostro mais independente 
com as pessoas com as quais menos o deveria 
ser. O receio de parecer demasiado respeitoso 
leva-me a um excesso de altivez, não por cáll 
culo, certamente, mãs em virtude de um impull 
so natural. Empregando com os grandes a 
mesma liberdade, a mesma linguagem e a 
mesma desenvoltura que uso com os meus, 
sinto que friso por vez a incivilidade e a indis- 
crição; mas além de ser eu assim, não tenho o 
espírito bastante rico, nem para esquivar-me à 
uma pergunta imprevista mediante algum 
circunlóguio, nem para mascarar a verdade. E 
careço de memória suficiente para recordar O 
que então tenha dito, bem como de segurança 
para continuar. E é por fraqueza que me most 
tro altivo. Daí resulta abandonar-me à minha 
ingenuidade e dizer sempre o que penso, tanto 
por temperamento como por decisão, con- 
tando com a sorte quanto ao que possa ocor- 
rer. Aristipo dizia que o principal fruto que 
colhera na filosofia fora falar livremente e dé 
coração aberto a quem quer que fosse. | 

E a memória um maravilhoso instrumento; 
sem ela o julgamento não poderia cumprir com 
eficiência a sua tarefa. Pois dela careço total” 
mente. E preciso que me digam as coisas 


separadamente, ponto por ponto, porque não 
está em meu poder sustentar uma conversação 
acerca de vários assuntos ao mesmo tempo, e 
não seria capaz de transmitir sequer um reca- 
do sem o anotar por escrito. Quando devo pro- 
nunciar um discurso sobre assunto importante 


e exigente de fôlego, sou forçado à triste 
contingência de aprendê-lo de cor, palavra por 
palavra. De outro modo não teria forma e me 
faltaria segurança pelo temor de uma falha de 
memória. Mas esse meio não deixa de compor- 


tar menor dificuldade: para aprender três ver- 
sos, preciso de três horas e em uma obra por 
mim mesmo composta, a liberdade e a possibi- 
lidade de retocar, mudar uma palavra, provo- 


cam modificações constantes no texto, o que 
torna menos fácil, para mim, fixá-lo na memó- 


ria. Ora, quanto mais desconfio da minha 
memória, tanto mais ela se perturba; sua 
eficiência depende de sua disposição: cumpre- 
me solicitá-la sem pressa; se insisto, ela hesita, 


ENSAIOS — II 


e se começa a titubear, quaiito mais a cutuco 
mais se embaraça; serve-me quando quer e não 
quando eu quero. 

O que digo da memória poderia igualmente 
dizer de outras coisas; fujo de todo comando, 
obrigação ou constrangimento; o que faço, 
facil e naturalmente, não o sei fazer se mo 
impõem. No físico, meus membros, que pos- 
suem alguma liberdade de movimento e gozam 
de certã independência de ação, recusam-me 


por vezes obediência, quando em dadas cir- 
cunstâncias a necessidade exige seus serviços. 
Essa exigência imprevista é um ato de tirania 
que lhes repugna; paralisado peló temor ou o 
despeito, tornam-se incapazes de ação. De 
uma feita achei-me algures onde era malvisto, 


e considerado descortês não beber com quem 
convida. Embora tivesse toda liberdade, quis 
submeter-me aos costumes da região por causa 
das senhoras presentes. Triste prazer! A pers- 
pectiva de ser forçado a fazer o que não gosta- 
va nem estava em meus hábitos, fez que minha 
garganta sé contraísse, a ponto de eu não con- 


seguir engolir uma só gota; e nem sequer pude 
beber na refeição. Já me embebedara e desalte- 
rara de antemão com os líquidos cuja absor- 
ção me preocupava. Tais situações se obser- 
vam principalmente em quem tem uma 
imaginação viva e poderosa; é entretanto natu- 
ral e não há quem não a tenha conhecido até 
certo ponto. Ofereceram mercê a um archeiro 
condenado à morte e particularmente hábil, se 
desse uma prova evidente de seu talento. Recu- 
sou tentá-lo, temeroso de que a tensão de espi- 
rito lhe tirasse a segurança e que em vez de lhe 
salvar a vida uma tal experiência o desmorali- 
zasse. Indo e vindo pela calçada, a passeio, um 
homem distraído dará quase sempre o mesmo 
número de passos de igual comprimento; se se 
puser a contá-los não o fará com a mesma 
precisão. 


Minha biblioteca, que é boa como biblioteca 
de campo, ocupa uma das extremidades da 
casa. Se tenho necessidade de fazer alguma 
pesquisa ou escrever alguma coisa que me 
ocorra, préciso comunicá-lo a outrem pois re- 
ceio que me fuja a memória ao atravessar o 
pátio. Se, falando, deixo-me desviar um pouco 
do assunto, perco o fio do pensamento; por 
isso quando discorro, mostro-me embaraçado, 
seco, conciso. Sou obrigado a chamar meus 
servidores pelo cargo ou a região de origem, 
porque sinto enorme dificuldade em recordar 
os nomes próprios; consigo quando muito lem- 
brar que o nome tem três sílabas, que é áspero, 
que começa ou termina por tal ou qual letra. 
Se devesse viver muito tempo creio mesmo que 
acabaria esquecendo o meu próprio nome, 


303 


coisa que já ocorreu a algumas pessoas. Mes- 
sala Corvino ficou dois anos sem memória, O 
que tairbém se verificou, ao que dizem, com 
Jorge, de Trebizonda. Pensando em mim, fico 
a imaginar como terão vivido, e se não me 
seria a existência demasiado insuportável se eu 
viesse a perder essa faculdade. Indago se, em a 
perdendo totalmente, não ficariam paralisadas 
todas as funções de minha alma: “sou como 
um recipiente rachado, vazo pof todos os 
lados* “3”. Ocorreu-me mais de uma vez 
esquecer a palavra de passe que ei mesmo 
dera três horas antes ao guarda, ou que alguém 
me comunicara, e também não recordar, em 
que pese a opinião de Cícero, onde escondera 
minha bolsa; a preocupação de guardar algu- 
ma coisa ajuda-me por vezes a perdê-la. “A 
memória encerra, seguramente, não apenas a 
filosofia mas ainda todas as artes e tudo o que 
é imagem da vida“ * *”. É o receptáculo, o esto- 
jo da ciência. A minha é tão defeituosa que 
não há coino me espantar com saber tão 
pouco. Conhêço em geral o nome das artes e 
com que se relacionam; eis tudo. Folheio os 
livros, não estudo; o que fica não sei mais de 
onde vem, pois consiste unicamente no que 
minha razão assimilou, nos argumentos e 
idéias de que se compenetrou. Quanto ao 
autor, ao trecho, as palavras exatas, esqueço- 
as de imediato. E esse esquecimento é tão 
total, que não esqueço menos minhas próprias 
obras; a todo instante surpreendo-me nesse 
caso, sem que o tenha percebido. Quem dese- 
Jjasse saber a autoria dos versos que cito nesta 
obra, colocar-me-ia em grande dificuldade. 
Entretanto, não bati senão a portas conhecidas 
e célebres, não me contentando com o valor 
intrinseco do pensamento, mas cioso de que 
proviesse de quem o tivesse rico e honroso e 
cuja autoridade se juntasse à razão. Não é de 
espantar portanto que o mesmo se verifique 
com o meu livro, que minha memória falhe 
neste ponto como nos outros: no que dou 
como no que recebo. 


Além do defeito de memória, outros contri- 
buem para a minha ignorância. Tenho o espi- 
rito lerdo e obtuso; a menor dificuldade extin- 
gue-lhe a perspicácia a ponto de não saber 
resolver a mais simples charada; turva-o a 
mais insignificante sutileza. Só entendo as re- 
gras gerais dos jogos de que participa o espíri- 
to, como as damas, o xadrez ou as cartas. 
Tenho a compreensão lenta e embrulhada, mas 
o que chega a apreender ela o apreende bem e 
profundamente enquanto o recorda. Tenho a 
vista penetrante e sã. Mas, quando trabalho, 


*43 Terêncio. 
e" “Cicero: 


304 


cansa facilmente e se turva, o que faz que não 
possa ler durante muito tempo e precise de 
alguém que leia por mim. Daí essas perdas de 
tempo acerca de cuja importância Plínio, o 
Moço, poderá informar. o 

Não existe alma, por mais pobre e grosseira 
que seja, em quem não se desenvolva alguma 
faculdade especial; nenhuma há que não se re- 
vele de algum modo. E ocorre que almas cegas 
e entorpecidas sob todos os demais aspectos se 
mostrem vivas, claras, perfeitas em determi- 
nados pontos. Que os mestres o expliquem. As 
belas almas são as que tudo abarcam, que a 
tudo se abrem; podem não ser instruídas, mas 
são suscetíveis de se instruir. O que digo cons- 
titui uma crítica à minha, a qual, por fraqueza 
ou indiferença (indiferença pelo que se encon- 
tra a nossos pés, nas nossas mãos e toca de 
perto às coisas da vida, o que é entretanto con- 
trário a meus princípios), chega a um grau de 
inépcia e de ignorância de coisas tão sabidas, 
que é vergonha desconhecê-las. Darei alguns 
exemplos. 

Nasci e fui criado no campo; tenho negócios 
e bens por administrar desde que os que deles 
usufruiram antes de mim me cederam seu 
lugar. Ora, não sei calcular de jeito nenhum, 
não conheço o valor da maioria das moedas, 
não sei distinguir, a menos de diferença muito 
evidente, um grão de outro, nem na planta nem 
no celeiro; mal sei diferençar um repolho de 
uma alface; ignoro o nome dos utensílios 
domésticos mais vulgares e as mais elemen- 
tares regras agrícolas ao alcance de uma crian- 
ça; conheço ainda menos as artes mecânicas, o 
comércio, as mercadorias, as diversas espécies 
de frutos, vinhos, carnes; não sei tratar de um 
cão ou de um cavalo, nem treinar um falcão 
para a caça; e visto que devo confessar toda a 


minha vergonhosa carência, não faz dois 
meses verificaram que eu ignorava para que 
servia O fermento na fabricação do pão, nem 
como se preparava o vinho. 


Alguém em Atenas calculou outrora a apti- 
dão de um indivíduo para a matemática, ven- 
do-o preparar engenhosamente uma carga de 
lenha. Na verdade, no que me diz respeito o 


contrário se deduziria, pois morreria de fome 
ainda que me dessem todo o necessário para 
cozinhar. Que me confesse um pouco mais e 
verão quantas outras coisas me faltam. Pouco 


importa. O que importa é que eu me mostre tal 
qual sou; não me desculpo portanto por ousar 
escrever acerca de coisas tão vulgares, tão 
desinteressantes: a banalidade de meu assunto 


a isso me obriga. Critiquem se quiserem a 
idéia de fazê-lo, mas não o método seguido. É 
certo ainda que não precisam advertir-me da 


MONTAIGNE 


| 
| 

insignificância do que digo; sei por mim 
mesmo que não vale grande coisa e quanto é 
absurda minha ambição. E já basta que meu 
juízo não sê apoquente com estes ensaios. 
“Sede críticos tão sutis quanto puderdes; tende 
faro e um faro que Atlas não desejara; con- 
fundi com vossas zombarias o próprio Latino, 
ainda assim não conseguireis dizer dessas 
bagatelas o que eu mesmo disse. Por que mas- 
tigar o vácuo? É preciso carne para morder e 
saciar-se. Aqui perdereis vosso tempo; expandi 
alhures vosso veneno sobre os que se admiram 
a si mesmos, pois, quanto a mim, já sei que 
tudo isso não é nada * * 5.” 

Não serei obrigado a não dizer tolices, 
desde que as reconheça e não me engane; errar 
com conhecimento de causa é o que me ocorre 
comumente, e raramente o faço sem perceber 
E não me censurem a inépcia, porquanto bem 
sei que meu espírito é viciado. 

Vi de uma feita apresentarem a Francisco I, 
em Bar-le-Duc, um retrato que o Rei René fi- 
zera de si mesmo. Por que não seria permitido 
a alguém retratar-se com a pena do mesmo 
modo que o Rei René fez com o lápis? Não 
quero tampouco esquecer de tornar público 
esse estigma incômodo da irresolução, defeito 
nocivo para quem se ocupa com os negócios 
do mundo. Não sei tomar partido nas questões 
duvidosas: “nem sim, nem não, nada mais me 
diz o coração ** *”. Discuto muito bem uma 
opinião, mas não sou capaz de julgar. Nas coi- 
sas humanas, para qualquer lado que nos incli- 
nemos há aparências de verdade, o que levava 
Crisipo a afirmar que só queria aprender com 
Zenão e Cleantes, seus mestres, os princípios 
de suas doutrinas; quanto às provas e aos 
argumentos, ele próprio se encarregava de for- 
necer. Eu também, volte-me para este ou aque- 
le lado, sempre descubro motivos válidos para 


concordar; por isso, atenho-me à dúvida reser- 
vando-me a liberdade de escolher quando pre- 
mido pelas circunstâncias; em verdade, em 
chegando o momento, as mais das vezes entre- 
go-me ao acaso. À mais leve impressão, a mais 
insignificante particularidade decidem por 
mim. “Quando o espirito mergulha na dúvida, 
o menor impuiso faz pender o prato da 
balança * 47.2. 

A incerteza de meu julgamento mantém por 
vezes os pratos da balança em tal equilíbrio 
que, de bom grado, entregaria a decisão aos 
dados; e observo, como testemunho compro- 
batório da fraqueza humana, os exemplos da 
história sagrada: “a sorte designou Ma- 


“45 Marcial. . 
446 Petrarca. 
“47 Terêncio. 


ENSAIOS — II 


tias“ *8?”, A razão humana é uma espada de 
dois gumes, perigosa de se manejar. Na pró- 
pria mão de Sócrates apresenta mil e uma 
soluções para o mesmo caso! Por isso sigo os 
outros e deixo-me arrastar pela massa; não 
tenho bastante confiança em minhas forças 
para comandar e dirigir; e apraz-me encontrar 
aberto o atalho pelo qual caminho. Se devo 
correr o risco de uma escolha incerta, prefiro 
seguir alguém mais seguro de sua opinião, à 
qual me filio mais do que à minha, a meu ver 
sempre assentada em base escorregadia. 

Entretanto, não sou homem a que iludam 
facilmente, tanto mais quanto distingo muito 
bem o lado fraco das opiniões contrárias: “dar 
constantemente seu assentimento pode acarre- 
tar muitos erros e perigos“ *º”. Isso é princi- 
palmente verdadeiro nos negócios políticos, 
que apresentam um campo aberto às discus- 
sões e incertezas: “a balança cujos pratos se 
acham carregados de pesos iguais, não se abai- 
xa nem levanta de nenhum lado * 80º. 

Os princípios de Maquiavel são, por exem- 
plo, bastante sérios a esse respeito, e no entan- 
to têm sido facilmente refutados, e os que os 
refutam apresentam razões igualmente refutá- 
veis. Qualquer argumento encontra sempre 
duas, três ou quatro réplicas, sem contar que 
dão azo a inextricáveis debates, prolongados 
ainda pela chicana a fim de que não se encerre 
a discussão: “vence-nos o inimigo, vencemo-lo 


por nosso turno 81?. As razões de ambas as 
partes assentam unicamente na experiência, e 


os acontecimentos humanos produzem-se sob 
tantas formas que, em cada caso, infinitos são 
os exemplos. 

Diz um sábio personagem de nossa época 
que quando os almanaques anunciam o calor, 
é de se esperar igualmente o frio; que fará 
tempo úmido quando o predisserem seco e que 
se pode sempre prognosticar o contrário do 
que declaram; e que se ele próprio tivesse de 
apostar em uma ou outra das predições opos- 
tas, pouco lhe importaria escolher, a menos 
que se tratasse de coisas absurdas como o 
prognóstico de excessivo calor no dia de Natal 
ou de frio rigoroso no dia de São João. Assim 
penso das discussões políticas: qualquer que 
seja a tese, teremos a mesma probabilidade de 
acertar que os nossos adversários, conquanto 
não nos choquemos de encontro a princípios 
elementares e evidentes. Entretanto, nos negó- 
cios públicos, não há direção, por má que seja, 
que, se continuamente seguida durante algum 
tempo, não se deva preferir a mudanças pertur- 


“48 Atos dos Apóstolos. 
“49 Cícero. 

480 Tibulo. 

+51 Horácio. 


305 


badoras. Nossos costumes são por demais cor- 
ruptos e tendem a piorar; entre nossas leis e 
nossos usos, muitos há bárbaros e monstruo- 
sos; entretanto, em razão da dificuldade em 
melhorar o que existe e do perigo de destruição 
atribuível a qualquer mudança, se pudesse cra- 
var uma cunha que sustasse o movimento de 
nossa roda do ponto em que se acha eu o faria 
de bom grado: “não há ação, por vergonhosa e 
infame que seja que não encontre pior *º2”. A 
nossa maior desgraça está na instabilidade. As 
nossas leis, como as nossas roupas, não têm 
forma definitiva. É fácil acusar um governo de 
imperfeição, coisa comum a tudo o que é mor- 
tal; é fácil impelir o povo ao desprezo pelo que 
apreciava antes; quem quer que o tenha tenta- 
do alcançou-o. Mas substituir por algo melhor 
o que se destruiu, muitos o experimentaram 
sem resultado. Em minha conduta, dou pouca 
importância à minha própria opinião; sigo 
aquilo que assegura a ordem pública. Feliz o 
povo que faz o que lhe ordenam melhor do que 
quem ordena, e se entrega serenamente à 
Providência. Quem discute e critica nunca 
obedece sem segunda intenção, e totalmente. 
Em suma, voltando a mim, só me estimo 
quanto ao que nenhum homem acreditou ja- 
mais que lhe faltasse; meu mérito reside em 
uma coisa vulgar e comum a todos: o bom 
senso. Acredito no meu bom senso. E quem 
não acredita no seu? Pensar que carece de bom 
senso, é doença que não existe em quem a 
alega. Por mais forte e tenaz que seja, basta 
um olhar de quem se imagina doente para que 
se dissipe, como a neblina opaca se desfaz ao 
sol; a esse respeito, condenar-se significa 
absolver-se. Nunca houve carregador ou mu- 
lherzinha que não pensasse ter a sua parte. 
Convencemo-nos assaz facilmente da superio- 
ridade alheia em matéria de coragem, força, 
experiência, saúde, beleza, mas não de bom 
senso. E o que dizem inspirado pelo simples 
raciocínio, parece-nos que disséramos também 
por pouco que tivéssemos pensado nisso. 
Assim também, de bom grado aceitamos como 
superiores às nossas as obras alheias, do ponto 
de vista do saber, do estilo, etc.; mas no que 
concerne às produções do bom senso, pensa 
cada qual estar a seu alcance produzir iguais, e 
só reconhece que as outras são melhores quan- 
do é muito grande a distância entre elas e as 
torna incomparáveis. Quem sadiamente apre- 
ciasse a elevação do julgamento alheio, conse- 
guiria elevar o seu próprio à mesma altura. Por 
isso não devemos esperar dessas realizações 
senão parcos elogios e nenhuma consideração; 
são pouco apreciados. Para quem as escreve- 


+52 Juvenal. 


306 


mos então? Os sábios que têm por profissão 
Julgar os livros só dão valor ao que concorda 
com sua doutrina; só admitem as obras de 
espírito em que encontram arte e ciência; se 
alguém se engana entre os dois Cipiões, por 
certo já não pode dizer nada que preste. Quem, 
ao ver desses cavalheiros, ignora Aristóteles, 
ignora-se a si próprio. Por outro lado, as almas 
comuns, que constituem a massa, não perce- 
bem a graça de uma obra que trata com leveza 
um assunto elevado. Ora, essas duas espécies 
de gente dominam o mundo. Há uma terceira, 
mais preparada para nos compreender, a qual 
se compõe de espíritos ponderados e lúcidos, 
mas é tão rara que não tem nome, nem situa- 
ção; e é perder tempo, por assim dizer, esfor- 
çar-se por lhe agradar. 


Diz-se comumente que a partilha mais justa 
que fez a natureza, de seus dons, foi a do bom 
senso, pois não há quem não esteja satisfeito 
com sua parte. Só veria além quem pudesse ver 
mais do que lhe permite a vista. Penso que mi- 
nhas opiniões são boas e justas; quem não 
pensa assim? Uma das melhores provas que 
tenho das minhas está na reduzida estima que 


dedico a mim mesmo; se de fato não fossem 
justas, não resistiriam à afeição que tenho por 
mim, afeição singular de alguém que a devota 
toda a si próprio e não a expande em torno de 
sua pessoa. Esse sentimento que outros distri- 
buem a numerosos amigos e conhecidos, tendo 
em vista a glória e a grandeza, dedico-o a mim 
mesmo para tranquilidade de meu espírito. O 
que me escapa, por acaso, e atinge outrem, 
independe de minha vontade, não me é ditado 
pela razão: “viver bem e com saúde, eis toda a 
minha filosofia * 837, 


Minha opinião acha-se sempre disposta a 
condenar minhas insuficiências. É verdade que 
se trata de assunto em cuja análise me aplico 
mais do que em outro. Em geral, os homens 
voltam-se para fora; eu, volto-me para dentro 
de mim mesmo, demoro-me na investigação e 
nela me comprazo. Todos olham para a frente, 
ao passo que eu olho para mim, observando- 
me, analisando-me. Os outros, se pensam 
seriamente, tocam para diante: “Ninguém 
tenta descer em si mesmo * 8 *”: eu paro, e fico 
a enredar-me no pensamento. Essa aptidão 
para reconhecer em mim o que quer que seja 
de verdadeiro, de real, e essa predisposição 
para me tornar escravo de minhas crenças, 
devo-as a mim mesmo, pois as idéias gerais 
que possuo nasceram comigo, se é que posso 
exprimir-me desta maneira. Expu-las simples- 


453 Tucrécio. 
454 Pércio. 


MONTAIGNE 


mente e despidas de artifícios, a princípio, sin- 
ceras e ousadas, mas sob uma forma algo inde- 
cisa; fortaleci-as, em seguida, e as formulei 
apoiando-me na autoridade de outros e nos 
exemplos tirados dos antigos com os quais 
estou de acordo. Confirmaram-me na decisão 
de mantê-las e tornaram-me mais caro e com- 
pleto o gozo e a posse delas. À estima que ou- 
tros procuram conquistar mediante um espírito 
vivo e sutil, aspiro alcançá-la através de uma 
mente bem regulada; em vez de uma ação bri- 
lhante e notável, mas isolada, prefiro a ordem, 
a ponderação, a serenidade de minhas opiniões 
e meus costumes: “Se há alguma coisa honro- 
sa é sem dúvida uma conduta uniforme e coe- 
rente em todos os atos da vida, o que não se há 
de encontrar em um homem que, abdicando 
seu caráter, procure imitar os outros * 8 8”. 


Eis portanto como, e em que medida, quan- 
to à idéia demasiado elevada de nós mesmos, 
posso dizer estar isento do vício da presunção. 
Quanto à segunda maneira por que esta se 
manifesta, a de fazer pouco caso dos outros, já 
não poderia afirmar o mesmo com igual segu- 
rança. Entretanto, ainda que me seja penoso, 
estou disposto a tudo confessar. Talvez a 
frequentação assídua das idéias que prevale- 
ciam outrora, e que vieram dessas ricas almas 


do passado, me desgoste dos outros e de mim 
mesmo; talvez seja também certo que vivamos 
em uma época de mediocridade; o fato é que 
não conheço entre nós nada muito digno de 
admiração. Na verdade, nãe conheço muitos 
homens bastante intimamente para os julgar, € 
quanto aos que, em virtude de minha posição, 
frequento mais comumente, são em geral gente 
pouco preocupada com o cultivo da alma e 
que se propõe, como fim precípuo, a honra e, 
como meio de conquistá-la, a valentia. 


O que vejo de belo nos outros, louvo-o de 
bom grado e o aprecio. You mesmo por vezes 
além do que penso. Permito-me esse exagero e 
nada mais, pois sou incapaz de inventar intei- 
ramente alguma coisa inexistente. Apraz-me 
apreciar o que em meus amigos é louvável e 
atribuo-lhes com prazer mais valor do que pos- 
suem, mas não lhes atribuo as qualidades que 
não têm nem lhes defendo as imperfeições. 
Mesmo em relação a meus inimigos assim ajo; 
meus sentimentos são diferentes, porêm, meu 
juízo não se altera com isso; não faço intervir 
o dissentimento em questões em que não lhe 
cabe interferir. Tenho tanto apreço à liberdade 
de opinião que a ela não renuncio nem mesmo 
sob o domínio de uma paixão. Mentindo, 
injuriar-me-ia mais do que injuriaria os outros. 


455 Cícero, 


ENSAIOS — II 


Esse louvável e generoso costume, reinante 
outrora na Pérsia, de sempre falar honesta e 
equitativamente dos inimigos mortos, e na me- 
dida de suas virtudes, é digno de nota. 

Conheço muitos homens com belas qualida- 
des de diversas espécies: um tem espírito, 
outro coração, outro habilidade, ou consciên- 
cia, ou o dom da palavra; outros são grandes 
sábios. Mas homens grandes em tudo, com 
todas essas faculdades reunidas, ou uma delas 
tão grande que nos imponha a comparação 
com os homens da antiguidade, não tive a 
sorte de encontrar um só. Dos que conheci a 
fundo, o maior, quanto a seus dons naturais, 
foi Étienne de la Boétie. Era uma natureza 
realmente completa, superior em todos os pon- 
tos de vista, uma alma de velha marca, que 
chegaria a alcançar grandes resultados se a 
sorte o houvesse permitido; pois a uma natu- 
reza já por si mui rica, ele muito acrescentara 
pelo estudo e pela ciência. 


Não sei como acontece, e no entanto aconte- 
ce, que se encontre tanta vaidade e tanta fra- 
queza de julgamento entre as pessoas de 
profissões exigentes de certa instrução e que se 
dedicam ao estudo das letras, ou que ocupam 
cargos dependentes do conhecimento dos li- 
vros, quanto entre os demais indivíduos. Tal- 
vez seja porque lhes pedimos mais, porque 
delas esperamos mais, e não lhes desculpamos 
os'Erros que desculpamos nas Qutras. Ou tal- 
vez, porque a boa opinião que têm de seu saber 
torna-as mais ousadas e as induz a falar sem se 
observarem suficientemente, e faz que se 
traiam a si mesmas e se percam. Assim, a inca- 


pacidade de um artista revela-se mais nitida- 
mente quando trabalha com um material de 
preço do que com outro de nenhum valor. O 
defeito em uma estátua de ouro choca mais do 
que em uma de gesso. Efeito análogo provo- 
cam em nós esses letrados quando pôem em 
relevo, desajeitadamente, coisas boas em si, 
revelando excelente memória em detrimento 
do bom senso, apresentando de cambulhada à 
nossa admiração Cícero, Galeno, Ulpiano, 
São Jerônimo, e com suas citações intempes- 
tivas ressaltando o seu ridículo. 


Volto a comentar a inépcia da educação que 
nos dão. Visa ela fazer de nós homens de ciên- 
cia, e consegue-o. Não aprendemos a amar e 
praticar a virtude e a prudência; ensinaram- 
nos a passar de lado, juntamente com a etimo- 
logia. Virtude é um substantivo que sabemos 
declinar, mas cujo sentido ignoramos. Tam- 
bém ignoramos o que seja a prudência, mas 
conhecemos-lhe de cor a definição. Quando se 
trata de nossos vizinhos, não nos contentamos 
com saber-lhes a raça, o parentesco, as rela- 


307 


ções, procuramos ainda conversar com eles e 
tê-los como amigos; ao passo que, com a virtu- 
de, aprendemos muito bem as definições, divi- 
sões e subdivisões, mas assim como aprende- 
mos os títulos e nomes de uma árvore 
genealógica, sem estabelecer entre ela e nós 
relações de familiaridade e intimidade. Para 
nosso aprendizado, dão-nos livros: não os que 
expõem as opiniões mais sadias e verdadeiras € 
sim OS que são escritos no grego mais puro € 
no melhor latim, e que, mediante as mais belas 


- Expressões, enchem o nosso espírito com as 


idéias mais pueris da antiguidade. 

Uma boa educação modifica o julgamento e 
os costumes. Foi o que aconteceu com Póle- 
mon, um jovem grego de vida desregrada. 
Tendo ouvido por acaso uma aula de Xenócra- 
tes, não somente se impressionou com a 
eloquência e o saber do mestre, mas tirou dela 
um fruto tangível e sólido: a mudança ime- 
diata operada na existência que antes levava. 
Quem jamais viu resultado semelhante no ensi- 
no que recebemos? “Fareis o que fez outrora 
Pólemon convertido? Deixareis a libré da 
devassidão, os adornos, as almofadas, o luxo, 
como dizem que fez esse jovem devasso que, 
assistindo um dia, por acaso, à preleção do 
austero Xenócrates, arrancou da fronte e dei- 
tou fora a coroa de flores que ostentava à 
maneira dos beberrões * 8 89” 

A mais invejável condição do homem pare- 
ce-me estar na simplicidade e na regularidade. 
Os costumes, as aspirações dos camponeses 
afiguram-se-me mais conformes aos princípios 
da filosofia que os dos filósofos: “o vulgo é 
mais sábio, porque só o é na medida em que o 
precisa ser? 8 7?. 

Os homens que coloco na primeira fila, a 
julgar pelas aparências exteriores (pois de 
outro modo fora necessário examiná-los mais 
de perto) são, como homens de guerra, o 
Duque de Guise, que morreu em Orléans, e o 
falecido Marechal Strozzi; os Chanceleres Oli- 
vier e "Hospital, como notáveis pela grande 
inteligência e virtude superior à comum. À 
poesia latina parece ter sido muito cultivada 
em nossa época. Abundam os bons autores: 
Daurat, de Bêze, Buchanan, Hospital, Mont- 
Doré, Turnebus. A poesia francesã foi, a meu 
ver, elevada ao apogeu; nos gêneros em que 
extelem Ronsard e Du Bellay, ela não se afas- 
ta muito da perfeição que atingiu na antigui- 
dade. Turnebus sabia mais € melhor do que ne- 
nhum homem deste século, é talvez mais longe 
no passado. À vida do último Duque de Alba, 


456 Horácio. 


257 Lactâncio. 


308 


já falecido, e a do Condestável de Montmo- 
rency foram nobres como se vêem raramente; 
mas a bela e gloriosa morte deste último, sob 
os olhos de Paris e de seu rei, à frente de um 
exército virtuoso, em um golpe de mão que 
dirigia em pessoa apesar de sua idade e do 
grau de parentesco dos adversários, merece 
lugar de realce entre os acontecimentos notá- 
veis de nossa época. Assim também a bonda- 
de, a gentileza, a consciência esclarecida do Sr. 
de la Noue, que nunca se desmentiram nestes 
tempos de abusos tão gritantes cometidos 
pelos partidos em armas (verdadeira escola de 
traição, de inumanidade e banditismo), entre 
os quais não deixou jamais de se mostrar gran- 
de homem de guerra e dos mais experientes. 
Deleitei-me com publicar, em várias cir- 
cunstâncias, as esperanças que depositei em 
Maria de Gournay Le Jars, que é para mim 
uma filha? $º e a quem muito amo, mais do 
que paternalmente, e que, em meu retiro e soli- 
dao, me agrada considerar como uma das 
melhores partes de mim mesmo. E só ela me 
interessa hoje no mundo. Se nos é dado julgar 
pelo que pressagia a adolescência, essa alma 


*58 Montaigne dizia “filha por afinidade”. (N. do 
T.) 


MONTAIGNE 


será um dia capaz das mais belas coisas, entre 
outras a de atingir, na amizade, uma perfeição 
sem dúvida ainda não alcançada por pessoa de 
seu sexo. À sinceridade e a firmeza de seu 
caráter já se elevaram bem alto; sua afeição 
por mim, que ultrapassa tudo o que eu poderia 
ambicionar, é de tal ordem, que não tenho em 
suma nada a desejar, senão vê-la menos 
apreensiva ante a possibilidade de minha 
morte, pois me conheceu quando eu já ia pelos 
cinquenta e cinco. A apreciação que essa 
mulher, jovem e solitária na sua província, fez 
de meus primeiros ensaios, o entusiasmo notá- 
vel com que se tomou de amizade por mim, o 
desejo que alimentava há muito de travar rela- 
ções comigo, unicamente em razão da estima 
que eu lhe inspirara e bem antes de me conhe- 
cer, são particularmente dignas de apreço. 


As virtudes, outras que não a valentia, nao 
estão em voga nos tempos de hoje; mas a 
valentia generalizou-se a tal ponto, em conse- 
quência de nossas guerras civis, que há almas 
entre nós cuja resolução atinge a perfeição. 
São em tão grande número que seria impos- 
sível selecioná-las. 

Eis tudo o que até agora conheci, de uma 
grandeza superior à que se vê habitualmente. 


CapítruLO XVIII 


Do desmentido * *º 


Dirão que tomar-se a si mesmo como assun- 
to de uma obra é desculpável, mas somente 
quando quem o faz é um indivíduo excepcional 
e célebre, cuja reputação pode inspirar a 
alguém o desejo de conhecê-lo. É certo, e eu o 
reconheço, que para ver um homem que não se 
distingue do comum um artesão não erguerá 
sequer os olhos, quando para assistir à chega- 
da de um grande personagem abandonará sua 
oficina ou sua loja. Não assenta bem a nin- 
guém dar-se a conhecer, senão àqueles que têm 
com que provocar imitadores, e cuja vida e 
opiniões se apresentem como modelares. César 
e Xenofonte, pela grandeza de suas ações, ti- 
nham material suficiente para edificar sobre 
alicerces sólidos os relatos que nos legaram. 
Pela mesma razao, somos levados a lamentar 


ss Desmentir, contradizer e contradizer-se é tam- 
bém mentir, portanto. À palavra, rica de sentidos 
afins, não comporta uma tradução precisa, embora 
pelo texto talvez se justificasse o emprego do vocã- 
bulo “mentira”. (N. do T.) 


que não tenham sido conservados os diários 
dos altos feitos de Alexandre e os comentários 
de Augusto, Catão, Sila, Bruto e outros. 
Amam-se e estudam-se tais figuras, mesmo 
quando são em cobre ou pedra. 


Essa crítica é muito justa, mas não me 
impressiona demasiado. “Leio só para os ami- 
gos e somente a pedido, não em qualquer lugar 
e para qualquer pessoa. Que outros leiam seus 
escritos em pleno forum e até nos banhos * 8º”. 
Não ergo aqui uma estátua para a praça de 
uma cidade, nem para uma igreja: “meu intui- 
to não é encher o livro de devaneios brilhantes; 
a sós com meu leitor, converso sem preten- 
são*8'”, Pois minha obra destina-se a ser 
colocada em um canto de biblioteca e divertir 
algum vizinho, parente ou amigo que sinta pra- 
zer em me encontrar e em passar um momento 
comigo. Outros falaram de si porque acharam 
o assunto digno e fecundo; eu, ao contrário, 


+80 Horácio. 
461 Pérsio. 


ENSAIOS — TI 


considero-o tão estéril e pobre que não o 
devem tachar de exibicionismo. Julgo os atos 
alheios; os meus não valem o trabalho, em 
razão de sua insignificância; não vejo em mim 
um bem bastante para que o diga sem corar. 
Com que satisfação ouviria alguém descrever- 
me, falar de minhas atitudes, de minhas con- 
versas habituais, dos incidentes da vida de 
meus antepassados; com que atenção o escuta- 


ria! Seria em verdade sinal de mau caráter não 
se interessar pelos retratos autênticos de nos- 


sos amigos e dos que nos antecederam; não 
prestar atenção a forma de suas vestimentas e 
de suas armas. Eu conservo a escrivaninha e o 
sinete dos meus, seus livros de horas, certa es- 


pada de um tipo especial e não me desfiz das 
compridas varas que meu pai tinha sempre à 


mão, à guisa de chibata: “a roupa de um pai e 
seu anel são tanto mais caros aos filhos quanto 
mais Os queriam estes * 82º. Se entretanto meus 
descendentes tiverem outras idéias, estarei vin- 
gado de antemão, pois não poderão interes- 
sar-se menos por mim, então, do que eu por 
eles agora. Só tenho contato com o público 
porque me sirvo da tipografia * 83, mais rápida 
e cômoda do que a escrita comum; em 
compensação, talvez o papel que lhe forneço 
impeça um dia que alguma porção de man- 
teiga se deteriore no mercado: “dessa maneira 
os atuns e as azeitonas não carecerão de invó- 
lucros * * *”. “Fornecerei às sardinhas uma ves- 
timenta em que estarão à vontade “ 8 8? 

E mesmo que ninguém venha a ler-me, terei 
perdido o meu tempo empregando os meus 
lazeres em tão úteis e agradáveis pensamen- 
tos? Fazendo o molde de meu próprio rosto, 
mais de uma vez precisei enfeitar-me e ajus- 
tar-me, de modo que o modelo se afirmou e 
tomou forma sozinho. Pintando-me para ou- 
trem, pintei a minha alma com cores mais níti- 
das do que apresentava primitivamente. Fez- 
me o meu livro, mais do que eu o fiz; e autor € 
livro constituem um todo; é estudo de mim 
mesmo e parte integrante de minha vida; não 
sou diferente do que apresenta nem ele o é de 
mim; não objetiva, como outras obras, um fim 
outro que não a personalidade do autor. Terei 
perdido meu tempo analisando-me com tama- 
nho cuidado e continuidade? Os que por sim- 
ples capricho, no decorrer de uma conversa- 
ção, olham um instante para si mesmos não se 
examinam nem tão exatamente nem tão a 
fundo como quem fez de si o objeto de seu es- 
tudo e assumiu para consigo mesmo o compro- 


“62 Santo Agostinho. 

“63 No texto “leur écriture”, a letra do povo, a 
escrita impressa, no caso. “Ecriture” empregava-se 
então em múltiplos sentidos, inclusive escrivaninha, 
secretária. (N. do T.) 

“84 Marcial. 

465 Cícero. 


309 


misso de consignar, com sinceridade e sem 
circunlóquios, tudo o que sente. Os mais deli- 
ciosos prazeres não os saboreamos nós em nós 
mesmos, evitando deixar vestígios e revelar- 


nos aos olhos de outrem? Mais de uma vez 
este trabalho constituiu uma distração contra 
pensamentos aborrecidos, entre os quais se 
devem classificar também os frívolos. 

A natureza gratificou-nos generosamente 
com a faculdade de nos iselarmos para refletir; 
convida-nos não raro a fazê-lo para nos ensi- 
nar que temos obrigações para com a socie- 
dade e principalmente para com nós mesmos. 
A fim de forçar nossa imaginação a pôr ordem 
no próprio devaneio e conduzi-la na direção de 
dados objetos, impedindo-a de se perder em 
extravagâncias, nada melhor do que desen- 
volver as idéias ocasionais. É o que faz que dê 
atenção às minhas, pois impus a mim mesmo 
consigná-las em meus escritos. Quantas vezes, 
aborrecido por não ter podido criticar aberta- 
mente tal ou qual ação, por civilidade ou 
prudência, eu o fiz nestes ensaios com a espe- 
rança de contribuir assim para a edificação de 
alguém! Aliás esses golpes poéticos, “pan no 
olho, pan no focinho, pan nas costas do 
sagui* 88”. produzem mais efeito ainda no 
papel do que na própria carne. Ademais, pres- 
to mais atenção aos livros desde que procuro 
neles o que possa mariscar para emprestar 
algum brilho e relevo ao meu. Não estudei, 
absolutamente, com o intuito de escrever uma 


obra, mas trabalhei um pouco enquanto a 
fazia, se é que se pode dizer “trabalhar” ape- 
nas folheando ora um ora outro livro do come- 
ço ao fim ou vice-versa, e não com o desejo de 
ter uma opinião mas com a intenção de refor- 
çar a sua própria. Mas em quem acredita- 
remos, nestes tempos inglórios, quando se fala 
de si mesmo, se ninguém, ou quase ninguém 
merece crédito quando fala de outrem, caso em 
que menor é o interesse em mentir? O primeiro 
sintoma de corrupção dos costumes estã no 
desamor à verdade. A sinceridade é, como 
dizia Pindaro, o ponto de partida da grande 
virtude, é a condição primeira que Platão 
impõe ao governador de sua República. Entre 
nós, hoje em dia, a verdade não é o que é, mas 
o que consegue persuadir os outros. Assim 
também chamamos moeda não somente à de 
bom quilate, mas a qualquer uma que esteja 
em circulação. É um vício que há muito censu- 
raram a nosso país; Salviano Massiliense, que 
vivia no tempo do Imperador Valentiniano, 
dizia que “para os franceses mentir e perjurar 
não são vícios, mas tão-somente maneiras de 
falar”. Poder-se-ia dizer, sem exagero, que 
agora é virtude. Crescemos com a dissimula- 
ção, adaptamo-nos a ela comô faríamos a um 


+86 Marot. 


310 MONTAIGNE | 


exercício honroso, porque ela se tornou uma 
das qualidades mais apreciadas do século. 
Muitas vezes refleti acerca da origem possi- 
vel desse hábito, observado religiosamente, de 
nos sentirmos mais gravemente ofendidos com 
o fato de nos censurarem esse vício comum a 
todos nós, do que nos criticarem qualquer 
outro defeito. Por que será injúria tão grave 
dizer que mentimos? Cheguei à conclusão de 
que, se negamos naturalmente com mais pai- 
xão os defeitos para os quais temos tendência, 
deve ser porque em nos mostrando mais sensi- 
veis à acusação é como se atenuássemos a 
falha, ou, pelo menos, a condenássemos 
aparentemente. Mas não seria também porque 
esse defeito parece denunciar em nós a covar- 
dia e a pusilanimidade? Haverá maior covar- 
dia do que desmentir a própria palavra? Do 
que mostrar-se alguém diferente do que sabe 
ser? Mentir é um defeito feio, cuja baixeza 
alguém na antiguidade ressaltava como um ato 
de desprezo a Deus e uma prova do temor que 
se tem dos homens. É impossível demonstrar- 
lhe a indignidade e a vileza de maneira mais 
precisa. Pois haverá coisa mais execrável do 
que ser covarde com os homens e fingir de 
corajoso perante Deus? Nossas relações reci- 
procas estabelecem-se pela palavra; faltar à 
palavra é pois trair a sociedade, porquanto é o 
meio de comunicar nossos pensamentos e nos- 
sas vontades e o único intérprete de nossa 
alma. Se esse intermediário nos falta, desfaz-se 
a associação, não mais nos reconhecemos uns 


aos outros; se nos ilude, rompem-se nossas 
relações, destroem-se os laços que nos pren- 
dem. Certos povos das Indias Ocidentais, 
cujos nomes não é necessário indicar porque já 
não existem (porquanto nessa conquista reali- 
zada de maneira tão extraordinária, tão espan- 
tosa, a devastação foi de tal ordem que até os 
nomes das localidades desapareceram total- 
mente), ofereciam a seus deuses sangue huma- 
no tirado exclusivamente da língua e das ore- 
lhas, como expiação para o pecado da mentira, 
falada ou ouvida. E aquele virtuoso persona- 
gem grego, que já citamos, dizia que as crian- 
ças se divertem com brinquedos e os homens 
com palavras. 

Deixo para outra oportunidade referir-me às 
circunstâncias diversas em que costumamos 
desmentir as leis que a respeito nos impõe a 
honra, bem como as modificações que sofreu. 
Até lá já saberei, possivelmente, em que época 
se introduziu o hábito de pesar e medir, como 
o fazemos hoje, as palavras que nos dizem, 
pois é certo que esse costume não existia 
outrora entre os gregos e romanos. E sempre 
me pareceu estranho desmentirem-se eles, e se 
injuriarem, sem que isso os levasse ao desfor- 
ço. O que o dever deles exigia, então, devia ser 
diferente. Atiram a César em pleno rosto epite- 
tos como ladrão e bêbedo; uns e outros se inju- 
riam desabridamente; os chefes dos exércitos 
invectivam-se e aos insultos respondem com 
insultos sem que se verifiquem quaisquer 
consequências. 


CAPÍTULO XIX 


Da liberdade de consciência 


É frequente vermos as boas intenções, quan- 
do mal orientadas, provocarem os piores resul- 
tados. Nesse conflito que leva a França à guer- 
ra civil, o melhor partido, o mais justo, é sem 
dúvida o que tem como objetivo a manutenção 
da religião e do governo que existiam antes da 
perturbação da ordem. No entanto, éntre os 
homens de bem que o seguem (não falo dos 
que vêem nisso unicamente a oportunidade de 
realizar suas vinganças pessoais, ou um pre- 
texto para satisfazer sua avareza, ou ainda 
para conciliar a boa vontade dos príncipes, e 
sim dos que são movidos pelo amor à religião 
eo “desejo respeitável de manter em sua pátria 
a paz e o estado de coisas existentes), entre 


esses homens, digo, alguns há cuja paixão im- 
pele .a ultrapassar os limites da razão e a tomar 
resoluções injustas, violentas e mesmo temerá- 
rias. 

E certo que nos primeiros tempos, quando 
nossa religião principiou a ser admitida pelas 
leis, o zelo dos prosélitos incitou à destruição 
de livros pagãos e a excessos que acarretaram 
mais prejuízos do que os incêndios perpretados 
pelos bárbaros. Tem-se em Cornélio Tácito um 
exemplo típico, do, que afirmo, pois embora o 
imperador, “seu parente, houvesse, mediante 
decretos especiais, espalhado sua obra pelas 
bibliotecas do mundo inteiro, nem um só 
exemplar completo escapou à sanha dos que, 


ENSAIOS — II 311 


por causa de cinco ou seis trechos contrários a 
nossas crenças, o destruíram. 

Naquela época exaltaram-se também exces- 
sivamente os imperadores favoráveis ao cris- 
tianismo e condenaram-se de caso pensado 
todos os atos dos que lhe eram hostis, como se 
pode ver no que concerne ao Imperador Julia- 
no, o Apóstata. Este príncipe foi, em verdade, 
um grande homem, excepcional, profunda- 
mente cioso dos princípios de sua filosofia 
pelos quais orientava suas atitudes. E por certo 
não há virtude de que não tenha dado exemplo. 
Quanto à castidade, nunca deixou de observá- 
la de maneira irrefutável, e conta-se dele um 
caso semelhante aos atribuídos a Alexandre e 
a Cipião: quando lhe trouxeram numerosas 
belas escravas, não quis saber de nenhuma, e 
no entanto estava então na flor da idade, pois 
quando foi morto pelos partos tinha apenas 
trinta e um anos. Quanto à justiça, cuidava de 
ouvir pessoalmente as partes e, embora por 
curiosidade indagasse da religião que professa- 
vam, nunca a inimizade que dedicava à nossa 
fez pender a balança contra os cristãos. Ele 
próprio redigiu boas leis e reduziu considera- 
velmente os impostos e taxas de seus predeces- 
sores. 

Dois historiadores foram testemunhas ocu- 
lares de seus atos. Um deles, Amiano Marceli- 
no, critica severamente em diversos trechos de 
sua obra o edito daquele principe que proibia a 
prática do ensino aos retóricos e gramáticos 
cristãos. E Marcelino acrescenta que tal deter- 
minação deveria ser estigmatizada. É provável, 
portanto, que se alguma medida grave tivesse 
sido tomada contra nós, não teria esquecido de 
mencioná-la esse historiador tão afeiçoado a 
nosso partido. Na realidade, ele foi duro mas 
não cruel; e são os nossos que contam dele o 
fato seguinte: passeando certa vez pelos arra- 
baldes de Calcedônia, Maris, bispo da cidade, 
ousou chamá-lo de “malvado traidor de Cris- 
to”. Juliano contentou-se com responder: 
“Vai-te, infeliz, chorar a perda de teus olhos.” 
Ao que o bispo atalhou: “Rendo graças a 
Jesus Cristo por me ter tirado a vista, o que me 
permite não ver teu rosto impudente.” O impe- 
rador nessa ocasião deu prova de uma paciên- 
cia bem filosófica, ao que dizem os que rela- 
tam o caso. O fato é que isso não se acomoda 
às crueldades que alegam ter ele cometido con- 
tra nós. Eutrópio, o segundo historiador, afir- 
ma que ele foi inimigo do cristianismo, mas 
não sanguinário. 

Para voltar a seu sentimento de justiça, 
nada se lhe pode censurar além de seu rigor, no 
início de seu reinado, contra os que haviam 
adotado o partido de Constâncio, seu prede- 
cessor. Quanto à sobriedade, alimentava-se 


como um soldado, e em plena paz vivia como 
quem se prepara para a austeridade da guerra. 
Era a tal ponto previdente, que dividia a noite 
em três ou quatro partes: dormia um período e 
empregava os outros em fiscalizar o exército e 
estudar, pois entre as qualidades que o distin- 
guiam dos outros sobressaía em todos os gêne- 
ros literários. Dizem de Alexandre, o Grande, 
que, receoso de ser dominado pelo sono e 
impedido assim de meditar, mandava colocar 
ao lado do leito uma bacia com água e com 
uma das mãos, que deixava estendida para 
fora, segurava uma pequena bola de cobre, de 
modo que se o sono o vencesse, ao se descer- 
rarem os dedos, caísse ela na água e o ruído o 
despertasse. Juliano concentrava-se tanto no 
que queria e tinha o espírito tão lúcido, por 
causa de sua abstinência, que não precisava 
recorrer a tal expediente. 

No que concerne às qualidades militares, foi 
admirável em tudo o que é da alçada de um 
grande chefe; aliás passou quase toda a vida 
guerreando, em particular contra nós, na 
Gália, e contra os alemães e os francos na 
Francônia. E não há memória de homem que 
tenha corrido maiores riscos e se esforçado 
mais, pessoalmente. 

Sua morte assemelha-se até certo ponto à de 
Epaminondas. Como este, foi ferido por um 
dardo que tentou arrancar das carnes e o hou- 
vera feito se não cortasse a mão na afiada ares- 
ta. Nesse estado, contudo, não cessou de pedir 
que o levassem de volta à batalha, a fim de ani- 
mar os soldados, os quais, de resto, embora 
sem sua presença, se bateram obstinadamente 
pela vitória, tendo a noite separado os dois 
exércitos. Devia à prática da filosofia seu sin- 
gular desprezo pela vida e pelas coisas huma- 
nas, e acreditava firmemente na imortalidade 
da alma. 

Foi por certo um desviado em matéria de 
religião; apelidaram-no Apóstata por haver 
abandonado o cristianismo. Acho mais prová- 
vel que nunca tenha sido um verdadeiro crente. 
Mas precisava dissimular seu pensamento para 
obedecer às leis, o que fez até subir ao trono. 
Era tão supersticioso que dele zombavam até 
seus próprios partidários, observando que, 
vitorioso dos partos, houvera multiplicado os 
sacrifícios a ponto de acabar com todos os 
bois da terra. Tinha absoluta confiança na 
ciência dos adivinhos e acreditava em toda 
espécie de prognósticos. Entre outras coisas 
disse, ao morrer, ser grato aos deuses por o 
não haverem abatido subitamente, de surpresa, 
pois o tinham avisado com antecedência da 
hora e do lugar; e também por não lhe terem 
infligido uma morte mole ou covarde, como 
sól reservarem aos ociosos e requintados, ou 


312 


uma morte lenta e dolorosa. Rendia-lhes gra- 


ças por o terem julgado digno de morrer 
honrosamente no desenrolar de uma vitória e 
no fastígio da glória. Por duas vezes tivera 
uma visão análoga à de Marco Bruto. Uma 
primeira vez na Gália, pela qual fora advertido 
de um perigo que o ameaçava; a segunda vez 
na Pérsia, pouco antes de sua morte. Quanto 
às palavras que lhe atribuem ao sentir-se feri- 
do, “venceste, nazareno”, os relatos de meus 
dois historiadores, que não esqueceram as 
mais insignificantes minúcias desse fim, não as 
omitiriam sem dúvida, como não omitiram os 
milagres porventura ocorridos, por pouco que 
houvessem acreditado nessas histórias. 

Mas voltemos ao assunto. Segundo Amiano 
Marcelino, o Imperador Juliano pensava desde 
muito, em seu íntimo, restaurar o paganismo. 
Mas seu exército era inteiramente formado por 
cristãos, e ele só ousou revelar seu projeto 
quando se achou bastante forte para tornar pú- 
blica sua vontade. Mandou então reabrir os 
templos dos deuses e teritou por todos os meios 
restaurar a idolatria. Para consegui-lo, cha- 
mou a palácio os prelados da Igreja Crista, 
divididos como o povo em suas opiniões, e 
convidou-os a aplacarem suas dissenções de 
modo que todos pudessem, sem obstáculo nem 
receio, praticar a religião como a entendessem. 


MONTAIGNE 


Esforçou-se grandemente por convencê-los, na 
esperança de que uma tal liberdade aumen- 
tasse o mundo de facções e cabalas, impedindo 
o povo de se unir contra ele, imperador, com a 
força que teria auferido de um entendimento 
unânime. Verificara, pelas crueldades cometi- 
das por alguns cristãos, que “não hã animal 
mais. feroz no mundo e mais temível para o 
homem do que o próprio homem”. 


Essa tática do Imperador Juliano é digna de 
nota, porquanto a fim de atiçar as agitações 
provocadas pela discórdia, pôs em jogo esse 
mesmo instrumento da liberdade de cons- 
ciência de que se valem nossos reis para apazi- 
guá-las. O que nos leva a dizer que, se, de um 


lado, dar inteira liberdade de opinião aos parti- 
dos redunda em semear e desenvolver dissen- 
ções, auxiliar a ampliá-las destruindo quais- 
quer barreiras e restrições das leis que as 
coíbem, por outro lado, largar as rédeas e per- 
mitir a todos os partidos que manifestem suas 


opiniões é também enfraquecê-los pela facili- 
dade e latitude que se lhes outorgam; é embo- 
tar o dardo que os estimula e que a raridade, a 
novidade e a dificuldade afiam. Para honra de 
nossos reis, prefiro acreditar que não tendo 
conseguido o que desejariam, fingiram desejar 
o que podiam. 


CAPÍTULO XX 


Nada apreciamos inteiramente puro 


A fraqueza de nossa condição faz que não 
possamos apreciar as coisas em sua simplici- 
dade e pureza naturais; tudo o que usufruímos 
é alterado: assim os metais — e mesmo o ouro 
— que cumpre misturar com outros de menor 
valia para que sejam por nós utilizados. A vir- 
tude despida de quaisquer artifícios, que Arís- 
ton e Pirro, e com eles os estóicos, apontam 
como fim da vida, não pode tampouco existir 
sem mistura, como não o pode a volúpia, tal 
qual a concebem a escola cirenaica e a de 
Aristipo. Dos prazeres e bens que gozamos 
não há um só ao qual não se amalgame algum 
mal ou inconveniente; nenhum se isenta disso: 
“da fonte dos prazeres, jorra uma espécie de 
amargura que atormenta, mesmo em leito de 
flores * 87º. A extrema volúpia que nos é dado 


experimentar tem algo do gemido e da queixa. 


* 87Lucrécio. 


Dir-se-ia que morre de angústia. Mesmo quan- 
do a representamos em suas sensações mais 
deleitosas, acompanhamo-la de epítetos lem- 
brando impressões doentias e dolorosas: lan- 
guidez, moleza, fraqueza, desfalecimento, mor- 
bidez que comprovam seu parentesco, e 
estrutura semelhante. Um gozo profundo assu- 
me antes um ar de severidade que de alegria; O 
pleno e extremado contentamento. é calmo 
mais do que jovial: “a felicidade que não se 
modera, destrói-se por si**º. a satisfação 
esgota-nos. É o que exprime um antigo versi- 
culo grego, cujo sentido é: “vendem-nos os 
deuses todos os bens que nos dão”, isto é, não 
nos dão nenhum puro e perfeito e nós os adqui- 
rimos com algum mal. 

O trabalho e o prazer, que são de natureza 
mui diversa, ligam-se, entretanto, por uma 


“68 Sêneca. 


ENSAIOS —II 


qualquer correlação natural. Sócrates diz que 
um deus, tendo tentado confundir as dores e os 
prazeres em um todo, não o conseguiu e resol- 
veu então uni-los pelas extremidades. Metro- 
doro afirmava que havia na tristeza uma par- 
cela de prazer; não sei se em seu pensamento 
isso tinha uma significação específica, mas 
imagino que quem vive na melancolia o faz 
por determinação, presta-se a tanto e nisso se 
compraz, sem falar da participação possível da 
ambição. Em nossas próprias crises de sonho e 
solidão, há algo doce e delicado que nos sorri e 
lisonjeia; alguns temperamentos fartam-se com 
isso: “há volúpia nas lágrimas * 8º”. Um certo 
Átalo, em Sêneca, diz que a recordação dos 
amigos perdidos provoca uma espécie de sen- 
sação agradável à moda do amargor de um 
vinho velho demais: “jovem escravo, tu que 
serves o vinho velho de Falerno, dá-me um 
mais amargo * ?º?, ou como o gosto das maçãs 
ligeiramente ácidas. 


O mesmo contraste aparece na natureza; OS 
pintores admitem que os movimentos e pregas 
do rosto de quem chora se assemelham aos de 
quem ri. E, com efeito, contemplai um quadro 
antes que o pintor tenha acabado de dizer se 
quer que seu personagem chore ou ria: não 
sabereis ao certo o que vai exprimir: O riso 
confina com a lágrima: “não há mal sem 
compensação * 71”. 


Quando imagino o homem em pteno gozo 
de tudo o que pode desejar de agradável 
(admitamos que sinta de maneira contínua 
prazer semelhante ao que lhe proporciona o 
ato da fecundação no momento em que o pra- 
zer atinge o apogeu), vejo-o desfalecer sob o 
peso da satisfação que o oprime; parece-me 
incapaz de suportar sem solução de continui- 
dade essa volúpia pura que se apodera de todo 
o seu ser. E, em verdade, quando a sente, foge 
dela. Tem naturalmente pressa em se safar, 
como se houvesse dado um passo em falso e 
temesse um desmoronamento. 

Se procedo sinceramente a um exame de 
consciência, acho que todo impulso de bonda- 
de em mim, mesmo o melhor, é viciado por 
sentimentos que o diminuem; e creio que Pla- 
tão, apesar da rigidez de sua virtude (e aprecio 
tanto quanto qualquer outro a virtude elevada 
a tão alto grau), se se analisava a fundo, como 
sem dúvida devia fazê-lo, sentia que a natureza 
humana reagia nele em sentido contrário: rea- 
ção por certo atenuada e que ele era o único a 
perceber. Em tudo e em toda parte o homem 
não passa de um amálgama de peças desen- 


469 Gvídio. 
470 Catulo. 
471 Sêneca. 


313 


gonçadas. As próprias leis da justiça não pode- 
riam existir sem alguma injustiça, e, na expres- 
são de Platão, quem pretende fazer que 
desapareçam das leis todos os inconvenientes e 
imperfeições empreende a tarefa de cortar a 
cabeça da hidra: “as punições exemplares 
comportam sempre algo iníquo, que atinge os 
particulares mas aproveita à sociedade”, diz 
Tácito. É igualmente certo que na sua aplica- 
ção à vida e aos negócios públicos, um excesso 
de pureza e perspicácia pode ser prejudicial; 
lucidez em demasia e penetração conduzem a 
exagerada sutileza e curiosidade; cumpre dimi- 
nuir a atividade do espírito e torná-lo menos 
afoito para que se adapte melhor à prática; 
fazê-lo mais pesado e lento para colocá-lo ao 
nível da vida terrena e tenebrosa. É por isso 


“que os espíritos menos requintados são mais 


eficientes na direção dos negócios; os mais ele- 
vados, mais finos, afeitos às idéias filosóficas 
não são capazes de bem gerir. Essa vivacidade 
demasiado aguda do espírito, essa volubilidade 
que para tudo atenta e com tudo se preocupa 
perturbam as negociações e os entendimentos. 
Os negócios humanos exigem tratamento mais 
grosseiro e superficial; boa parte deve ser dei- 
xada ao arbítrio da sorte. Não há necessidade 
de examinar as questões a fundo e sutilmente; 
perdemo-nos em querer considerar todos os 
aspectos e formas que comportam: “vendo coi- 
sas tão opostas, ficavam estupidificados * 72”. 
Foi o que, segundo os autores da antigui- 
dade, aconteceu a Simônides. Tendo-lhe o Rei 
Híeron apresentado uma pergunta para cuja 
resposta lhe dera vários dias de prazo, vieram- 
lhe ao espírito tantas considerações diferentes, 
todas tão penetrantes e sutis, que, indeciso 
acerca da solução mais verdadeira, desistiu de 


encontrar a boa. ; 
Quem procura e pondera todas as circuns- 


tâncias de uma questão, não a leva a cabo; um 
espirito de mediana capacidade basta para 
resolvê-la, e tudo pode realizar muito bem, 
tanto as coisas grandes como as pequenas. 
Atentai para os indivíduos que dirigem a con- 
tento seus negócios: são os menos à altura de 
nos dizer como o fazem. Ao passo que os 
outros, que tratam da questão com brilho, 
nada realizam de útil. Conheço um senhor mui 
eloquente, que expõe à perfeição tudo o que 
concerne à economia doméstica; em suas mãos 
dissipou-se um patrimônio de cem mil libras 
de renda. Sei de outro que perora, dá conselhos 
admiráveis e melhor do que um perito na maté- 
ria; ninguém no mundo tem mais espírito e 
erudição, mas, quanto aos resultados, acham 
seus servidores que não são tão brilhantes, e 
isso sem que os atribuam à falta de sorte. 


472 Tito Lívio. 


314 


MONTAIGNE 


CapíTULO XXI 


Da indolência 


O Imperador Vespasianó, durante a enfer- 
midade de que veio a morrer, não deixava de 
se ocupar dos negócios do império; e, no seu 
próprio leito, tratava as questões mais impor- 
tantes. Tendo-lhe o médico censurado essa ati- 
vidade por nociva à súa saúde, disse ele: “um 
imperador precisa morrer em pé”. Eis, à meu 
ver, um belo pensamento, e digno de um 
príncipe. 

Em idênticas circunstâncias, o Imperador 
Adriano teve as mesmas palavras, as quais se 
deveriam lembrar aos reis para compreender 
que essa importante responsabilidade de dirigir 
e comandar os homens não é uma situação em 
que possam permanecer ociosos. E quê nada 
pode desanimar mais — e justamente = o sú- 
dito no seu afa de bem servir o soberaho, do 
que saber que, enquanto corre riscos e se atare- 
fa, seu senhor se entrega à indolência e cuida 
de seu prazer sem se interessar pelô bem-estar 
de seu povo. 

Se alguém quisesse demonstrar sér preferível 
que o príncipe outorgue a outrem, fia guerra, O 
comando de seus exércitos, encontraria na his- 
tória muitos exemplos de príncipes cuja pre- 
sença no campo de batalha fora antes prejudi- 
cial do que útil; mas nenhum soberano de 
virtude e coragem teria permitido que lhe 
aconselhassein tão vergonhosa abstenção. A 
pretexto de conservar-lhe a cabeça, como uma 
estátua de santo, para o bem de seus estados, 
degradam-no e lhe sonegam precisamente o 
que é de seu dever e que consiste principal- 
mente na condução da guerra, dando-lhe de tal 
modo um diploma de incapagidade. Conheço 
um que preferiria ser vencido a dormir 
enquanto vencem por ele“ 73, póis nem mesmo 
suporta que algo importante se verifique em 


sua ausência. Ê = 
Selim I tinha muita razão; parece-me, quan- 


do dizia que “as vitórias ganhas sem a pre- 
sença do príncipe não são completas”. Teria 
ainda acrescentado de bom grado que esse 
príncipe deveria corar de vergonha de só parti- 
cipar de tais vitórias com o nôme, e só coope- 
rar para seu êxito com instruções e ordens. E 


473 Provavelmente Henrique IV. 


nem mesmo com isso, pois em semelhantes 
ocasiões conselhos e determinações de que se 
possam honrar só lhes cabê dar no momento 
da ação. Não há piloto quê sé exercite em terra 
firme. Os principes de raçã ôtomana, que mais 
devem à sorte das armas, eram partidários fer- 
renhos desse princípio. Bajázet II e seu filho 
abandonaram-no, dedicando-se ao estudo das 
ciências e a outras ocupaçõés sedentárias; e 
seu império ressentiu-se de tal atitude. Seu 
sucessor atual, Amurat III, que lhes segue o 
exemplo, começa também a sofrer as conse- 
quências dessa orientação. Não disse Eduardo 
WI, da Inglaterra, acerca de nosso Carlos V: 
“nunca hoúve rei que menos guerreasse e no 
entanto me desse mais trabalho”? E era justo 
que estranhasse, porquanto os sucessos decor- 
riam mais do acaso do que da premeditação. 

Procurem outros que não eu para apoiá-los, 
os que incluem entre os conquistadores belico- 
sos e magnânimos esses reis de Castela e Por- 
tugal que, a mil e duzentas léguas de suas capi- 
tas — onde vivem na indoólência — se 
tornaram, graças a seus capitães, senhores das 
Índias Ocidentais e Orientais, as quais não te- 
riam por certo ousado investir pessoalmente. 

O Imperador Juúlianó dizia mais: “um filó- 
sofo êé um homem dé grande coração não deve- 
riam precisar respirar”, isto é, não deveriam 
dar às necessidades físicas senão o mínimo 
imprescindível, pois a alma e o corpo tinham 
que voltar-se exclusivamente para as coisas 
grandes, belas e virtuosas. Envergonhava-se de 
ser visto em público cuspindo ou suando 
(sentimento que também experimentava a 
juventude da Lacedemônia, e, segundo Xeno- 
fonte, a da Pérsia), pois considerava que o 
exercício, o trabalho continuado e a sobrie- 
dade deviam conseguir absorver tais secreções. 
A explicação de Sêneca para o fato de a juven- 
tude da antiga Roma conservar-se sempre em 
pé, merece ser apresentada aqui: “nada ensina- 
vam aos filhos que devessem aprender senta- 
dos”. 

É justa ambição aspirar a uma morte útil e 
digna de um homem de caráter; mas isso não 
depende tanto de nossa resolução quanto da 


ENSAIOS — II 315 


sorte. Milhares de pessoas propõem- -se vencer 
ou morrer combatendo e não conseguem nem 
uma coisa nem outra; ferimentos e cativeiro 
entravam-lhes a intenção e impóem-lhes a 
vida; há doenças que paralisam nossa vontade 
e nos tornam inconscientes; e os fados não 
secundaram a vaidade que ditava às legiões 
romanas o juramento de vencer ou morrer: 
“voltarei vencedor do combate, ó Marco 
Fábio; se faltar à minha resolução, que se 
desencadeie contra mim a cólera de Júpiter, 
Marte e outros deuses * 7 *”, Contam os ortu- 
gueses que por ocasião da conquista das Índias 
tiveram em certos lugares que lutar contra sol- 
dados que se haviam comprometido a não en- 
trar em nenhum acordo e a sair vitoriosos da 
refrega ou morrer. E como marca distintiva de 
sua resolução traziam a cabeça e a cara 
raspadas. o 


Parece que, embora se obstinem seriamente, 
e se arrisquem, os golpes poupam os que se 
expõem abertamente; daí o malogro de seus 
desígnios. Houve quem, conquanto tudo fizes- 
se para ser morto pelo inimigo, se viu cons- 
trangido a matar-se no entusiasmo da luta a 
fim de realizar honrosamente o intuito de ven- 
cer ou morrer. Entre outros exemplos do que 
afirmo, temos o de Filisto, comandante da 


frota de Dionísio, o Jovem, na guerra contra 
Siracusa. A batalha travada entre forças iguais 
foi arduamente disputada. Iniciou-se favora- 
velmente para ele, graças a seu valor, mas 
tendo os de Siracusa cercado sua galera e não 
a conseguindo ele libertar, apesar de belos fei- 
tos guerreiros em que se arriscou pessoalmente 
a fundo, matou-se, certo de não poder escapar, 
sacrificando com suas próprias mãos uma vida 
que inútil e corajosamente oferecera aos 
inimigos. 

Muley Moluch, Rei de Fez, que acabava de 
vencer D. Sebastião, em uma batalha que se 
tornou famosa pela mfrte de três monarcas e 
teve como consegiiênci “a passagem da coroa 
de Portugal aos reis de Castela, estava grave- 
mente enfermo quando 'ôs portugueses invadi- 
ram a mão armada O seu império. A partir 
desse momento sua doença foi piorando e o 
encaminharia para a morte que sentia avizi- 
nhar-se. Nenhum homem entretanto revelou 
maior bravura em tais circunstâncias. Fraco 
demais para suportar a fadiga de uma entrada 
solene em seu campo, o que segundo os costu- 
mes desse povo exige grandes cerimônias e 
acarreta considerável pompa, delegou ao 
irmão a incumbência. Mas foi a única atribui- 
ção de chefe que abdicou; todas as outras, 


“74 Tito Lívio. 


necessárias e úteis, por penosas que fossem, ele 
as desempenhou com exatidão. Permanecia 
deitado, mas sua coragem e sua energia conti- 


nuaram de pé, . até o último suspiro. Podia 


esgotar O inimigo que avançara imprudente- 


mente até o interior do país, e custou-lhe 
muito, na falta'de mais um pouco de vida e de 
alguém a quem entregar o comando e.0 gover- 
no, decidir-se a buscar uma vitória incerta e 


sangrenta quando tinha à mão os meios de 
alcançá-la sem grandes perdas e com seguran- 
ça. Contudo, tirou maravilhoso partido de sua 
enfermidade prolongada para desgastar o 


“adversário, atraí-lo para longe da frota e dos 


fortes das costas africanas, e isso até o último 
dia de sua vida, empregado, deliberadamente, 


na batalha decisiva. Dispondo seus exércitos 


em círculo, investiu por todos os lados contra 


os portugueses; estes viram-se, assim cercados, 
em grandes dificuldades durante o combate, 
que foi rude e encarniçado, dado o valor do 
Jovem rei, e impossibilitados de fugir após a 
derrota. Encontrando toda saída fechada, for- 
çados a um recuo que os jogava contra os pró- 
prios companheiros, “amontoados pela carnifi- 
cina e a fuga?” 5”, deram ao vencedor uma 
vitória total e extremamente sangrenta. Agoni- 


zante, Muley Moluch fazia-se transportar por 
toda parte onde sua presença podia ser útil; 
circulando entre as fileiras, encorajava seus 
capitães e soldados. Tendo em dado momento 
suas tropas cedido terreno em certo ponto, nin- 


.guém o pôde impedir de montar a cavalo e lan- 


çar-se de espada em punho na refrega, en- 
quanto o tentavam sustar, uns pelas rédeas, 
outros pelas vestes e pelos estribos. Esse esfor- 


ço acabou esgotando o pouco de vida que lhe 
restava; tornaram a deitá-lo e ele só voltou a si 
um instante, num sobressalto, para recomen- 
dar que não espalhassem a notícia de sua 
morte, a fim de que não desesperassem os seus, 
o que era sem dúvida a ordem mais importante 
que lhe cabia dar. E expirou levando o dedo 
aos lábios, sinal habitual de silêncio. Quem, 
mais do que ele, terá morrido em pé? 


A atitude mais corajosa diante da morte, e a 
mais natural, está em a esperar, não somente 
sem espanto como também sem preocupação; 
estã em continuar a viver, até que ela se apode- 
re de nós, sem nada mudarmos em nossa 
maneira de viver, como fez Catão, o qual se 
distraia em estudar e dormir, embora já hou- 
vesse decidido pôr fim à vida, e tivesse a idéia 
presente em seu espírito e em seu coração, e os 
meios de executá-la ao alcance da mão. 


475 Id. 


316 MONTAIGNE | 


CapíTULO XXII 
Dos correios 


Não fui dos menos resistentes em correr a 
posta?” 8, exercício adequado aos indivíduos 
de minha estatura, pequenos e atarracados. 
Mas desisti, porque, com o tempo, fatiga 
demasiado. 

Estive lendo há pouco que o Rei Ciro, a fim 
de receber mais rapidamente notícias das 
diversas regiões de seu império, aliás muito 
extenso, mandou medir a distância que um ca- 
valo pode percorrer sem parar e determinou 
que se organizassem, a igual distância uns dos 
outros e de acordo com o percurso observado, 
postos de muda com cavalos prontos para 
“serem usados pelos mensageiros. Dizem que a 
velocidade assim conseguida alcançou a dos 
grous. 

César relata que L. Vibulo Rufo, desejoso 
de entregar rapidamente certa mensagem a 
Pompeu, galopou dia e noite mudando de ca- 
valo em caminho para chegar mais depressa. 
O próprio César, informa Suetônio, fazia cem 
milhas por dia em um carro de aluguel, e era 
intrépido viajor, pois quando algum rio lhe 
cortava a estrada, atravessava-o a nado sem se 
desviar sequer da direção visada para procurar 
uma ponte ou um vau. Tibério, a fim de visitar 
seu irmão Druso, que estava enfermo na Ale- 
manha, percorreu duzentas léguas em vinte e 
quatro horas; viajava com três carcos. Durante 
a guerra dos romanos contra o Rei Antíoco, 
Semprônio Graco, escreve Tito Lívio, “foi em 


478 O exercício consistia em percorrer determi- 
nada distância a galope, oito quilômetros mais ou 
menos. (N. do T.) 


três dias de Anfissa a Pela revesando de cavalo 
e marchando com incrível rapidez”. Tendo em 
vista a região, parece que deve ter utilizado, 
em sua viagem, postos de mudas permanentes 
e não improvisados. 

Para comunicar-se com os seus, Cecina 
imaginou um meio mais rápido: levava consi- 
go andorinhas e, quando queria enviar noti- 
cias, soltava-as depois de as ter pintado com as 
cores convencionadas de acordo' com o que 
desejava transmitir. 

Em Roma, os chefes de família que iam ao 
teatro, levavam pombos aos quais amarravam 
cartas e que soltavam quando precisavam en- 
viar algum recado aos de casa; e os pombos 
eram adestrados a trazerem a resposta. D. 
Bruto, sitiado em Módena, empregou esse pro- 
cesso, e outros o fizeram em outras circunstân- 
cias. 


No Peru, o correio era feito por homens que 
o carregavam aos ombros; mostravam tal agi- 
lidade que a mudança dos transportadores se 
fazia sem que precisassem parar nem reduzir a 
marcha. 

Ouvi dizer que os valáquios, empregados no 
correio a serviço do Sultão, são extremamente 
velozes, tanto mais quanto têm o direito de 
mandar apear o primeiro cavaleiro que encon- 
trem, dando-lhe seu cavalo exausto em troca 
do cavalo fresco. Para resguardar-se do cansa- 
ço, cingem a cintura fortemente com uma 
larga faixa de tecido, como o fazem outros 
também. Experimentei-o eu próprio, mas não 
senti nenhum alívio. 


CapíTuLO XXIII 


Dos meios e dos fins 


Existe na organização da natureza uma 
maravilhosa correlação e uma similitude que 
não resultam do acaso nem podem provir da 
vontade de muitos. As doeriças, as condições 
diversas de nosso corpo, vêem-se também nos 


Estados e governos. Como os indivíduos, os 
reinos e repúblicas nascem, crescem, e defi- 
nham ao ser atingidos pela idade. Estamos 
sujeitos a superabundâncias de humores inú- 
teis e nocivos; temem-nos os médicos, mesmo 


ENSAIOS — II 319 


quando esses humores fazem parte dos que se Algumas pessoas de nosso tempo racioci- 
consideram benéficos, pois afirmam que, nada nam de igual modo; desejariam que nossos 
sendo estável em nós, cumpre sustar e enfra- sentimentos exacerbados encontrassem um 
quecer artificialmente essa saúde em demasia derivativo em alguma guerra contra qualquer 
que nos empresta excesso de vivacidade e dos nossos vizinhos, receosos de que os humo- 
vigor, porquanto a natureza, não funcionando res nocivos que ora nos perturbam se propa- 
normalmente ao atingir determinado grau que  guem e que, sem a solução de os expandir 
não lhe é dado superar, pode recuar de modo | alhures, venham a provocar a ruína completa 
suscetível de causar graves desordens. E por  de-nosso país. Devemos convir em que uma 
isso que prescrevem purgantes e sangrias aos guerra exterior é menos nefasta do que uma 
atletas. Quanto aos humores nocivos, é em seu guerra civil, mas não creio que Deus seja favo- 


excesso que se acham as causas das doenças. rável a tão iníqua empresa como essa de pro- 
Semelhantes superfluidades deparam-se nos curar briga com vizinhos e insultá-los por 


Estados enfermos e nesses casos se lhes admi- comodismo: “6 poderosa Nêmesis, faze que 


nistram também purgantes de diversos tipos. não deseje nada a ponto de o tentar obter em 
Assim é que se expulsam famílias inteiras para detrimento de seu legítimo dono * 78”, 


aliviar o país, famílias que se deslocam então e . Entretanto a fraqueza de nossa condição 
vão instalar-se alhures. Nossos antigos fran- —impele-nos não raro a empregar meios conde- 
cos, vindos do fundo da Alemanha, apodera-  náveis para alcançar um resultado conve- 
ram-se da Gália expulsando os outros habitan- niente. Licurgo, o mais virtuoso e perfeito dos 
tes; assim também ocorreu com o imenso legisladores, a fim de incitar à temperança o 


caudal de povos que desceram da Itália sob a seu povo, imaginou o meio mui contrário à 
condução de Breno e outros; assim igualmente, Justiça de obrigar os ilotas, seus escravos, a se 
os godos e os vândalos, e os povos que ocu-  embebedarem para que, vendo-os incons- 
pam atualmente a Grécia abandonaram seu cientes de seus atos e sentimentos sob o efeito 
país natal para se estabelecer mais à vontade do vinho, os espartanos aborrecessem esse 
alhures. E talvez não existam no mundo mais vício. Mais errados andavam ainda os que 
do que dois ou três recantos que não hajam — fautorizavam fossem todos os criminosos con- 
experimentado os efeitos dessas migrações. — denados à morte, dissecados em vida pelos mé- 
Desse modo criavam os romanos suas colô- — dicos a fim de que estes pudessem aprender no 
nias. Quando a população de suas cidades ser vivo o funcionamento de nossos órgãos 
aumentava demasiado, aliviavam-na excluindo | internos e assim alcançar maior segurança na 
os elementos menos necessários, os quais eram — prática de sua arte, pois, a transgredir as leis 
transportados para as terras conquistadas a da humanidade, mais desculpável se me afigu- 
fim de colonizá-las e cultivá-las. Por vezes, ra fazê-lo em benefício da alma que do corpo, 


também, sustentaram guerras com certos ini- | como procediam os romanos, os quais, que- 
migos, não apenas para manter o povo vigilan- rendo inspirar ao povo a valentia e o desprezo 
te, de medo que a ociosidade, mãe da corrup- pela morte, ofereciam-lhe os furiosos espetã- 


ção, acarretasse situações piores ainda culos de combates de gladiadores massacran- 
(“sofremos os males inerentes a um longo —do-se na sua presença: “pois qual seria então o 
período de paz; mais terrível do que as armas, objetivo desses combates impiedosos de gla- 
dominou-nos o luxo 47 7”), mas ainda para san- — diadores, desses massacres de Jovens, dessa 


grar a República, calmar as aspirações exage- volúpia sangrenta* 789? E esse costume durou 
radamente fogosas da juventude, podando: e até a época de Teodósio: “atentai, príncipe, 
arejando a ramagem da árvore que se desen- para essa glória que vos é reservada, a única 
volvera com excessivo vigor. Foi para isso que | com que possais enriquecer a herança paterna. 
lutaram outrora contra os cartagineses. Que o sangue humano não seja mais derra- 

No tratado de Bretigny, Eduardo III, da | mado nos circos para o prazer do povo! Que a 
Inglaterra, não quis incluir o Ducado de Breta- | arena se contente com o sangue dos animais e 


nha na paz assinada com o nosso rei, a fim de que nossos olhos não mais se maculem à vista 
ter para onde enviar a massa de ingleses que dos jogos homicidas * 29º, o 
antes utilizara nas guerras continentais e impe- Devia constituir, mesmo, formidável exem- 
dir que voltassem à pátria. Foi também razão plo, e de grande influência na educação do 
da mesma ordem que decidiu nosso Rei Filipe  POvo,0 espetáculo diário de duzentos e até mil 
dar seu filho João em expedição além- homens armados a lutarem uns contra os 
Ra a : outros, esquartejando-se em verdade com tal 
mar; levava assim, com ele, para fora do reino, 


toda essa juventude apaixonada que engajara. 478 Catulo. 


479 Prudêncio. 
“77 Juvenal. aso Td, 


318 


coragem e resolução que nunca os viram dei- 
xar escapar uma queixa, virar as costas ou 
fazer um movimento qualquer suscetível de 
sugerir algum temor ante o golpe do adversá- 
rio; ofereciam o pescoço à espada e ao punhal. 
A muitos aconteceu indagarem do povo, já 
cobertos de ferimentos e quase agonizantes, se 
estava satisfeito com a maneira por que ha- 
viam cumprido seu dever. Não era necessário 
apenas que combatessem e que o combate ter- 
minasse fatalmente com a morte, era preciso 
ainda que o fizessem corajosamente; e os vaia- 
va o povo, e os amaldiçoava, quando via que 
hesitavam em receber o golpe fatal. As pró- 
prias jovens os incentivavam: “a modesta vir- 
gem ergue-se a cada golpe; todas as vezes que 
o vencedor degola o adversário, mostra-se 
encantada e extasiada; e se o vencido pede 
mercê baixa o polegar e o condena*?"?. Os 
primeiros romanos empregavam os criminosos 


aB1 Td. 


MONTAIGNE | 


nesses jogos sangrentos, que visavam à educa- 
ção do povo; mais tarde valeram-se de escra- 
vos contra os quais nada se alegava e até ho- 
mens livres que se vendiam para participar do 
massacre; viram-se mesmo senadores, cavalei-. 
ros romanos e mulheres na arena: “vendem 
agora O seu sangue, por uma soma determi- 
nada, e vão morrer na arena; em plena paz 
cada qual escolhe um inimigo e vai combatê-lo 
diante do povo *º2. Participando da emoção 
desses novos jogos, um sexo inâábil ao duro 
manejo do ferro, desce ousadamente à arena 
sob os aplausos da multidão e combate como 
os gladiadores*83”. Isso se me afiguraria 
estranho e incrível se não estivêssemos habi- 
tuados a ver diariamente em nossas guerras 
tantos estrangeiros empenharem o sangue e a 
vida a serviço de querelas de nenhum interesse 
para eles. 


+82 Manílio. 
483 Estácio. 


CapíTULO XXIV 


Da grandeza romana 


Quero dizer apenas uma palavra a propósito 
deste assunto inesgotável, a fim de mostrar o 
simplismo dos que colocam em pé de igual- 
dade a grandeza romana e as miíseras grande- 
zas de nossa época. 

No livro sete das Epistolas Familiares, de 
Cicero (este epíteto “familiares” podem os 
gramáticos suprimi-lo se quiserem, pois em 
verdade não se justifica, e substituí-lo pela 
expressão “a seus familiares”, apoiando-se em 
Suetônio, o qual em sua vida de César afirma 
existir um volume de cartas com tal título); 
nessas epístolas, pois, encontra-se uma diri- 
gida a César na Gália e na qual Cícero repro- 
duz este trecho da que ele próprio recebera e 
que respondia: “quanto a Marco Flávio, que 
me recomendaste, farei dele o rei da Gália. Se 
queres que favoreça algum outro amigo teu, 
manda-o a mim”. Não era absurdo nessa 
época que um simples cidadão, como era 
César então, dispusesse de reinos; já havia ele 
despojado o Rei Dejótaro do seu e o entregara 
a um tal Mitridates, fidalgo de Pérgamo. Os 
que lhe escreveram a biografia mencionam ou- 
tros reinos vendidos por ele, e Suetônio diz que 


de uma só vez arrancou três milhões e seiscen- 
tos mil escudos ao Rei Ptolomeu, o qual esteve 
a ponto de vender sua coroa: “tanto pela Gali- 
cia, tanto pela Líbia “8 *?. 

Marco Antônio observava que a grandeza 
do povo romano se manifestava menos pelo 
que tomava do que pelo que dava. Na realida- 
de, um século antes de Antônio, apossara-se de 
um reino, entre outros, mediante um ato de 
autoridade como não conheço igual na histó- 
ria, suscetível de dar mais alta idéia do seu 
poderio. Antíoco era senhor do Egito inteiro e 
procedia à conquista de Chipre e de tudo o que 
pertencera a esse império. Ia de vitória em 
vitória quando L. Pompílio se apresentou em 
nome do Senado e começou por lhe recusar a 
mão antes que lesse as cartas que trazia. Ten- 
do-as lido, disse-lhe o rei que ia deliberar; mas 
Pompílio pôs-se a traçar um círculo em torno 
dele com um bastão, observando: “antes de 
saíres deste círculo, dá-me a resposta que devo 
levar ao Senado”. Antíoco, amedrontado com 
a autoridade de semelhante ordem, refletiu um 


*8* Cláudio. 


ENSAIOS — II 


instante e respondeu: “farei o que manda o 
Senado”. Pompílio saudou-o então como 
amigo do povo romano. O rei, embora vitorio- 
so, renunciava, ante três linhas do Senado, à 
conquista de um país grande como o Egito: 
Justifica-se portanto que* comunicasse pouco 
depois por seus embaixadores ter acolhido a 
injunção com o respeito que devotava aos deu- 
ses imortais. 

Todos os reinos que Augusto adquiriu por 
direito de conquista, devolveu-os aos vencidos 
-ou Os doou a estrangeiros. A esse respeito, Tá- 
cito, referindo-se ao rei da Inglaterra, Cogidu- 


319 


no, faz-nos compreender de maneira maravi- 
lhosa esse infinito poderio dos romanos. 
Tinham por hábito deixar os soberanos venci- 


dos na posse de seus reinos, sob a proteção de 
Roma, “de modo a terem os próprios reis 
como instrumentos de servidão”. E é provável 


que Solimão, ao abandonar generosamente a 
posse da Hungria e de outros estados, tenha 
sido movido por essa mesma razão e não a que 


alegava habitualmente: que estava cansado de 
tantos reinos e desse poder que devia a seu 
próprio valor e ao de seus antepassados. 


CAPÍTULO XXV 


Da inconveniência de fingir de doente 


Hã um bom epigrama de Marcial entre os 
de toda espécie, bons e maus, que nos apresen- 
ta. Conta a história de Célio, o qual para evi- 
tar de cortejar certos altos personagens de 
Roma, assistindo ao seu despertar e os acom- 
panhando, fingiu estar atacado de gota. E a 
fim de tornar mais verossímil a desculpa, man- 
dava friccionar as pernas e as mantinha bem 
cobertas, imitando a atitude e o andar do 
reumático. A sorte acabou dando-lhe a satisfa- 
ção de ficar realmente doente: “vede como é 
útil fingir de enfermo! Célio não mais precisa 
alegar que sofre de gota”. 

Li em Ápio, creio, história semelhante de 
um indivíduo que, para fugir aos editos dos 
triúnviros e não ser reconhecido, andava dis- 
farçado de caolho. Quando obteve um pouco 
mais de liberdade e quis arrancar o emplastro 
que usara, verificou ter realmente perdido a 
vista. É possível que esse órgão se haja atrofia- 
do, após tanto tempo sem função, passando a 
inteira força de visão para o outro olho. Senti- 
mos, efetivamente, que, se fechamos um olho, 
o outro como que aumenta e incha. É possível 
portanto que no gotoso de Marcial a falta de 
exercício, as ataduras e os medicamentos te- 
nham desenvolvido alguma tendência para a 
gota. 

Lendo em Froissart que alguns jovens fidal- 
gos ingleses haviam feito a promessa de vendar 
o olho esquerdo até que realizassem um feito 
heróico em França, pus-me muitas vezes a 
pensar quanto me fora agradável saber que 
lhes tivesse ocorrido desventura igual às que 


relatei, e que se houvessem achado realmente 
caolhos diante de suas bem-amadas, razão ini- 
cial da promessa. 

Justifica-se que as mães admoestem os fi- 
lhos quando fingem de enfermos, cegos, man- 
cos, vesgos, etc. Além do fato de o corpo em 
formação poder adquirir um mau hábito, há a 
observar que os fados parecem comprazer-se 
em levár a sério tais brincadeiras. E sei de vá- 
rias pessoas que adoeceram em se esforçando 
por parecer doentes. Sempre tive por hábito, a 
pé ou a cavalo, usar bengala (ou bastão); era 
uma questão de elegância e apoiava-me nessa 
bengala, dando-me ares de gra-fino. Disse- 
ram-me que desse modo o azar poderia fazer 
um dia que o requinte se tornasse necessidade. 
Seria em verdade o primeiro da família a sofrer 
de gota! 

Mas alonguemos esse capítulo com uma 
referência à cegueira. Conta Plínio de alguém 
que sonhou que era cego e acordou cego sem 
jamais ter estado doente. O poder da imagina- 
ção, como já o observei antes, pode influir 
nisso, e Plínio parece dessa opinião. A meu ver 
porém, foram os movimentos internos do 
corpo causadores da cegueira — e os médicos 
os explicarão se quiserem — que provocaram 
o sonho. Acrescentemos, a propósito, a histó- 
ria que nos conta Sêneca em uma de suas car- 
tas. “Sabes”, diz a Lucílio, “que Hasparté, a 
louca de minha mulher, me coube por herança; 
houvera preferido que tal não ocorresse, pois 
não aprecio monstros, tanto mais quanto para 
rir de um louco não preciso ir muito longe, 


320 


posso rir de mim mesmo. Mas essa louca per- 
deu repentinamente a vista. O que te conto 
agora é espantoso, mas verdadeiro: ignora que 
ficou cega e atormenta a pessoa encarregada 
de tratá-la a fim de que a leve para fora, por- 


que, diz, minha casa é demasiado escura. O 
que nela se presta ao riso, é, acredita, o que 
ocorre com todos nós; ninguém percebe que é 


avarento ou invejoso. Só que os cegos pedem 
um guia, ao passo que nós afundamos sozi- 
nhos no erro. Não sou ambicioso — dizemos 


— mas em Roma não se poderia viver de 
outro modo; não me apraz o luxo, mas a cida- 
de exige grande despesa; não é culpa minha se 


MONTAIGNE 


me zango, se não levo uma vida regrada; é 
culpa da mocidade. Não procuremos nossos 
males fora de nós; estão em nós, arraigados em 
nossas entranhas; mas exatamente porque não 
nos sentimos doentes, com maiores dificul- 
dades nos curamos. Se não nos dispusermos 
desde cedo a cuidar de nossas doenças, quando 
acabaremos de pensar as nossas chagas, de 
tratar de nossos males? E, no entanto, temos à 
mão esse tão suave remédio da filosofia; dos 
outros medicamentos só sentimos os efeitos 
benéficos depois da cura; aquele é agradável e 
eficiente a um tempo.” Eis o que diz Sêneca. 
Isso arrastou-me longe do assunto, mas ganha- 
mos na troca. 


CapíTuLO XXVI 


Dos polegares 


Conta Tácito que entre certos reis bárbaros 
os mais sagrados compromissos se assumem 
Juntando as mãos direitas e entrelaçando os 
polegares. Quando, pela pressão, o sangue 
alcança a extremidade dos dedos, espetam-nos 
e chupam-nos reciprocamente. 

Dizem os médicos que os polegares são os 
dedos essenciais das mãos e que a palavra de 
que derivam significa em latim “forte, podero- 
so”. Em grego o sentido do vocábulo por que 
são designados é o de “outra mão”. E parece 
que por vezes os latinos o empregaram no sen- 
tido de mão inteira: “para erguer-se não preci- 
sa de doces palavras nem ser incitada pelo 
polegar *º 8”. Em Roma, os polegares voltados 
para cima era sinal de aprovação: “teus parti- 
dários te aplaudem levantando os polega- 
res *8 8”, Ao contrário, o polegar voltado para 
baixo era sinal de desfavor: “quando o povo 


+85 Marcial. A citação é obscura, e não encon- 
tramos comentário a respeito. (N. do T.) 
+88 Horácio. 


baixa o polegar é preciso, para lhe agradar, 
que o gladiador seja morto ** 7”. 

Os romanos excluíam dc exército quem 
ferisse o polegar, considerando que não teria 
força bastante para empunhar armas. Augusto 
confiscou os bens de um cavaleiro romano que 
decepara o polegar de seus filhos na primeira 
infância, a fim de isentá-los do serviço militar. 
Antes dele, o Senado, por ocasião das guerras 
sociais, condenara Caio Vatieno à prisão per- 
pétua e à confiscação dos bens, por haver 
voluntariamente cortado o polegar da mão 
esquerda com o objetivo de se esquivar à 
guerra. , 

Alguém, cujo nome esqueço, tendo ganho 
uma vitória naval, mandou decepar o polegar 
de todos os prisioneiros para tirar-lhes a possi- 
bilidade de lutarem e manejarem o remo. Os 
atenienses fizeram o mesmo com os habitantes 
de Egina para despojá-los da superioridade nas 
artes marítimas. 

Na Lacedemônia os professores puniam os 
alunos mordendo-lhes o polegar. 


487 Juvenal. 


ENSAIOS — II 321 


-CapíTULO XXVII 


A covardia é mãe da crueldade 


x 


Ouvi dizer muitas vezes que a covardia é mais, nossa vingança é assim bem mais com- 
mãe da crueldade e observei por experiência  pleta, pois seu objetivo é sobretudo provocar o 
como uma falsa e perversa coragem, impreg- ressentimento do inimigo; por isso mesmo não 
nada de maus sentimentos e de inumanidade,  atacamos um bicho ou uma pedra que nos 
se une a certa fraqueza de alma bem feminina. ferem, incapazes que são de compreender um 
Vi gente cruel ter a lágrima fácil a propósito de  revide. Ora, matar um homem é pó-lo a salvo 
coisas insignificantes. de nossas ofensas. Daí a observação de Bias a 

Alexandre, tirano de Feres, não podia assis- um individuo mau: “sei que mais cedo ou mais 
tir, no teatro, à representação de tragédias, de tarde pagarás, mas receio não o ver”; e tinha 
medo que seus súditos o vissem enternecer-se pena dos habitantes de Orcômeno por se verifi- 
com as desgraças de Hécuba'ou Andrômaca, car tarde demais a punição do traidor Licisco, 
ele que impiedosamente mandava todos os pois já não havia então nenhum sobrevivente 
dias torturar tanta gente com, requintes de interessado em assistir ao castigo. Lamentável 
crueldade. Não será por pusilanimidade que é a vingança quando privada dos meios de 
esses indivíduos passam assim de'um extremo fazer sofrer a vítima e alegrar o vingador. “Há 
a outro? À valentia, que se exerçe somente de arrepender-se”, dizemos, mas uma bala de 

contra o que lhe resiste, “só se compraz em pistola na cabeça fará que se arrependa? Ao 


imolar um touro quando este se defende +88”, contrário, como que nos desafia, caindo; nem 
susta o golpe se vê o inimigo à sua mercê; mas mesmo nos censura o gesto, o que está longe 
a pusilanimidade, não tendo figurado neste pri- do arrependimento. Prestamos-lhe em suma o 


meiro ato e querendo participar da festa, entra melhor serviço, o de uma morte rápida e indo- 
em cena no segundo, o do massacre e do san- Jor. Temos de nos esconder, fugir à justiça, 
gue. As carnificinas que se seguem às vitó- enquanto ele descansa. Matá-lo impede apenas 
rias são obra em geral das massas incons- que nos ofenda de novo no futuro, mas não nos 
cientes e dos que se ocupam das bagagens; do vinga da ofensa recebida; há nisso mais temor 
que faz que presenciemos tantas e incríveis que bravura, mais previdência que vontade de 
crueldades nas guerras Ce que participa o povo) castigar. É evidente que assim renunciamos ao 
é o fato de a canalha, acostumada ao assassí- fim real da vingança e prejudicamos nossa 
nio, se tornar cruel pelo hábito de chafurdar no | reputação; demonstramos tão-somente o re- 
sangue e esquartejar cadáveres a seus pés, não ceio de que, vivo, renove o insulto. Não é con- 
tendo outra concepção de valentia: “o lobo, o tra ele que agimos, é em nosso benefício. 

urso, OS animais menos nobres encarniçam- se 


contra os agonizantes *ºº?, assim os cães pol- nãonos seria de nenhuma utilidade. Nesse país 
trões rasgam com os dentes, em casa, as peles os hômens de guerra e os artesãos resolvem 
dos animais selvagens que não ousariam ata- suas divergências a golpes de espada. O rei 
car em pleno campo. Por que em nossa época não rechsa a ninguém o direito de se bater; 
as disputas sempre acarretam a morte? Por assiste mesmo aos duelos quando ocorrem 
que começamos pelo fim, quando nossos pais entre pessoas de certa condição social, ofere- 
dosavam suas vinganças? Já de início só fala-  cendo uma corrente de ouro ao vencedor. Mas 
mos em matar. Que significa isso se não quem quer que ambicione a corrente pode 
medo? ; f medir-se com 6 dono, de modo que este, por 
Ninguém ignora que há mais bravura em — ter vencido de uma feita, vê aumentar o núme- 
vencer O inimigo do que em o exterminar; mais o de seus contendores. 
em forçar a ceder do que em o matar. Ade- Se imaginássemos ser sempre superiores ao 
488 Cláudio. inimigo em coragem e poder maltratá-lo à von- 
48º Ovídio. tade, lamentariamos imenso que nos escapasse 


o reino de Narsinga, essa maneira de agir 


322 


como o faz morrendo. Queremos vencer, mas 
antes com a certeza do êxito do que de um 
modo honroso; buscamos o resultado e não a 
glória. 

Asínio Pólio cometeu erro semelhante, 
pouco desculpável em um homem de honra. 
Escrevera uma diatribe contra Planco e aguar- 
dava a morte deste para a publicar. Em vez de 
correr o risco do ressentimento que ia provo- 
car, era como se desafiasse um cego com ges- 
tos indecorosos ou um surdo com palavras 
ofensivas, ou ainda como se violentasse uma 
pessoa desfalecida. Daí lhe dizerem que “cabia 
aos gnomos lutar contra os mortos”. Quem 
aguarda a morte de um autor para criticar-lhe 
a obra demonstra que é fraco e vil. Comuni- 
caram a Aristóteles que alguém falara mal 
dele: “Que faça mais ainda, respondeu, que me 
açoite conquanto eu não esteja presente.” 

Nossos pais contentavam-se com responder 
à injúria com um desmentido, e a um desmen- 
tido com pancadas, e assim por diante; eram 
bastante valentes para não temer o adversário 
vivo; nós, trememos de pavor enquanto o 
vemos em pé. Nossa conduta atual leva-nos a 
buscar a morte de quem ofendemos da mesma 
forma que buscamos a de quem nos ofende. 
Igualmente, por covardia, introduzimos o há- 
bito de nos fazer acompanhar de dois, três e 
até quatro companheiros. Outrora tais encon- 
tros eram duelos, hoje são verdadeiras bata- 
lhas. Quem primeiro inventou esse método, 
receava ficar entregue a si mesmo: “todos 
desconfiavam de si? e, em verdade, diante do 
perigo a companhia reconforta e encoraja. 
Outrora, só se recorria a terceiros como teste- 
munhas de que não haveria atos de desleal- 
dade, mas pouco a pouco tornou-se comum 
participarem do duelo as testemunhas, pois 
quem é convidado não pode decentemente per- 
manecer simples espectador, de medo que o ta- 


A 


MONTAIGNE 


| 
! 


vantagens são obtidas em combate, lícitas se 
fazem. A disparidade e a desigualdade somen- 
te antes do duelo são objeto de ponderação; 
quanto ao resto, há que confiar na. sorte; se 
somos três contra três, ou se dois compa- 
nheiros morrem e os três adversários se unem 
contra o último, não há como protestar, do 
mesmo modo que na guerra não cabe protesto 
contra quem auxilia o companheiro atacando 
o adversário com o qual se degladia. 

Quando grupos se enfrentam como ocorreu 
quando o Duque de Orléans desafiou o rei da 
Inglaterra propondo-lhe que lutassem cem 
contra cem; ou como fizeram os argianos em 
número de trezentos contra trezentos lacede- 
mônios; ou ainda os três Horácios contra os 
três Curiácios, considera-se o conjunto do 
grupo como um só homem, e onde quer que 
ajam coletivamente, imprevisíveis são as pro- 
babilidades, imputando-se ao acaso, em gran- 
de parte, o resultado. 

Tenho exemplos domésticos de semelhantes 
casos. Meu irmão, Sr. de Matecoulon, foi con- 
vidado em Roma a servir de segundo a um 
fidalgo que não conhecia e fora desafiado por 
outro. E aconteceu-lhe ter que se defrontar 
com alguém que era seu vizinho e que ele 
conhecia melhor. Quisera que se condenassem 
tais leis de honra que tão amiúde vão de 
encontro à razão! Depois de liquidar seu 
adversário, teve meu irmão que correr em 
auxílio: do companheiro, o que não podia dei- 
xar de fazer, pois como ficaria impassível 
enquanto o combate continuava indeciso? De 
que houvera servido sua colaboração? A cor- 
tesiá que cumpre demonstrar ao adversário em 
má situação, não há como levar em conta 
quando se é o segundo de outra pessoa, pois 
fora injusto então abandoná-la. E meu irmão 

* só se livrou da prisão na Itália graças a uma 
imediata e calorosa intervenção de nosso 


chem de covarde ou insensível. Além do que” monarca. Estranho povo, o nosso! Não nos 


há de iníquo e desonesto em pedir auxílio para 
defender a própria honra, e apoiar-se na força 
e na desteridade de outrem, acho desvantajoso 
para um homem de bem, e seguro de si » Jigar 
sua sorte à de outros. Já corre cada qual fiscos 
suficientes por si mesmo, sem que Sa 
correr por outros; e já tem o 
para assegurar sua própria coragem! na defesa 
de sua vida sem arriscar coisa de'tão grande 
valor em benefício de terceiros. /Pois, efetiva- 
mente, a menos de se haver convencionado 
regra diversa, no caso de se eliminar um segun- 
do, achamo-nos com dois àdversários pela 
frente. É evidente que se trata de um abuso, 


como o serã atacar com espada perfeita a 
quem só tenha um pedaço da sua, ou alguém 
intato Jjogar-se contra um ferido; mas se tais 


contentamos com a reputação que se espalha, 


pelo mundo, de nossos vícios e loucuras, . 
vamos 
Coloquem- se três franceses no Deserto da 
Líbia, não passará um mês sem que se ponham 
a brigar. Dir-se-ia que essas viagens longin- 
quas fazem parte de um plano concebido para 
dar aos estrangeiros o espetáculo de nossas 
tragédias e um pretexto para que zombem de 
nós. Vamos aprender a esgrima na Itália e a 
pomos em prática com perigo de vida antes de 
saber lidar com uma espada, quando deve- 
riamos primeiramente conhecer a teoria: 
“Miíseras primícias de uma coragem juvenil, 


funesto aprendizado de uma guerra iiminen- 
fe 


380 Virgílio. 


ainda com rová-la no estrangeiro. 


x 


ENSAIOS — II 


Bem sei que se trata de uma arte muito útil 
em seu objetivo. Tito Lívio conta-nos qué na 
Espanha, em um duelo entre dois príncipes, O 
mais velho, com sua habilidade e técnica, ven- 
ceu facilmente o mais jovem, muito mais vigo- 
roso. É uma arte que, como observei, amplia a 
valentia de alguns, mas não se poderá taxá-la 
de coragem, porquanto decorre da destreza e 
não é uma qualidade em si. À honra no com- 
bate consiste em apelar para o caráter e não 
para a habilidade. Por isso um de meus ami- 
gos, muito forte na esgrima, escolhia, quando 
tinha que defender a honra, as armas que não 
lhe dessem vantagem, pois não queria que atri- 
buíssem sua vitória à sua superioridade mais 
do que ao seu valor real. Na minha infância a 
nobreza considerava degradante a reputação 
de perito em tal arte. Esta só se exercia, aliás, 


às escondidas, como ofício de duvidosa lealda- 
de, mal adequado à coragem verdadeira e 
natural: “Não querem esquivar, nem bloquear, 
nem recuar; a destreza não conta; não há fin- 
tas, golpes retos ou oblíquos; sua cólera não 
tolera a arte. Escutai o choque terrível das 
espadas, ferro contra ferro; não recuam um só 
passo, seus pés permanecem imóveis e suas 
mãos não param nunca: golpes de ponta cer- 
tos, e de lâmina em cheio 41.” 


Os exercícios de arcabuzes e de arco, os tor- 
neios, as justas e as batalhas simuladas consti- 
tufam o passatempo de-nossos pais; o da esgri- 
ma é tanto menos nobre quanto visa apenas a 
um objetivo individual e ensina a matarmo-nos 
em desobediência às leis e à justiça. Por isso, 
de todos os pontos de vista é desastroso. Mais 
digno e melhor seria praticar os exercícios 
suscetíveis de assegurar a execução da lei e 
salvaguardar a nossa indepeiidência e a nossa 
glória. 

O Cônsul Públio Rútilo foi o primeiro a 
ensinar o soldado a manejar suas armas com 
habilidade e ciência; juntou assim a arte à 
coragem, hão em vista de dissenções pessoais 
mas com o fim de defender o povo romano. 
Era pois uma esgrima popular e civil. Além do 
exemplo de César, recomendando aos seus que 
ferissem principalmente no rosto os soldados 
de Pompeu, numerosos outros chefes introdu= 
ziram, segundo as necessidades do momento, 
modificações nas formas das armas e no modo 
de empregá-las na defesa e no ataque. 


Filopêmen proibiu a luta, exercício em que 
era excelente, porque o necessário treinamento 
era incompatível com Os princípios da disci- 
plina militar, pelos quais, a seu ver, deviam ser 
formados os homens de honra e nos quais 


491 Tasso. 


323 


cumpria que empregassem o seu tempo. Pare- 
ce-me também que essa desteridade que se pro- 
cura dar ao corpo, na nova escola, essas fintas, 
paradas e respostas, em lugar de úteis, são 
préjudiciais na guerra. Verifiquei mesmo que 
naô se achava conveniente que um jovem desa- 
fiadô para um duelo de espada e punhal se 
apresefitasse em costume de guerra, como 
inconveniente seria que se propusesse bater-se 
de capa é espada. E de se notar que Lachez, 
em Platão, referindo-se ao ensino da esgrima 
tal qual o praticamos, diz nunca ter visto essa 
escola produzir um grande homem de guerra, e 
que o eram menos ainda os mestres, o que 
nossa experiência confirma. Aliás não há 
nenhuma relação entre talentos de ordem tão 
diversa. Na educação que Platão prevê para os 
jovens de sua República, proíbe os exercícios 
de pugilismo, introduzidos por Amico e Epeu, 
bem como os de luta, que recomendavam 
Anteu e Cércion, pois achava que não torna- 
vam a juventude apta para o combate. Eis-me, 
porém, longe de meu assunto. 

O Imperador Maurício, advertido por so- 
nhos e prognósticos que um certo Focas, sol- 
dado desconhecido, deveria assassiná-lo, inda- 
gou de seu genro Filipe quem era esse 
individuo. Tendo-lhe respondido Filipe, entre 
outras coisas, que se tratava de um pusilânime 
e um covarde, deduziu o imperador que devia 
ter inclinação para o crime e a crueldade. 

O que toma os tiranos tão sanguinários é a 
preocupação com a própria segurança. A 
covardia que trazem no coração não lhes suge- 
re outras medidas de salvaguarda senão exter- 
minar os que os podem ofender, mulheres 
inclusive, incapazes de um arranhão: “tudo 
abate porque tudo teme“º2”?. As primeiras 
crueldades  cometem-se espontaneamente; 
delas nasce o temor de umia justa vingança, o 
que provoca toda uma teoria de novas cruelda- 


“des: Filipe, rei da Macedônia, que tantas difi- 


culdades teve com Roma, sentindo-se inquieto 
com as numerosas mortes que ordenara e não 
podendo dominar o medo que lhe inspiravam 
todas as famílias por ele ofendidas em diversas 
épocas, resolveu apoderar-se dos filhos de 
todos os que mandara matar a fim de assegu- 
rar sua própria tranquilidade, desfazendo-se 
deles uns após outros. 


Os bons assuntos agitam-se em qualquer 
lugar. Eu, que mais me preocupo com o alcan- 
ce e o interesse de meus comentários do que 
com a ordem é a lógica da apresentação, não 
hesito em incluir aqui uma bela história, pois, 
quando valem realmente a pena, arrasto-as até 
pelos cabelos. 


*82 Cláudio. j 


324 


Entre as vitimas de Filipe, figurava um tai 
Heródico, príncipe da Tessália; posteriormente 
mandara ele executar os dois genros de Heró- 
dico, os quais deixaram viúvas Teoxena e 
Arco, cada qual com uma criança. Teoxena, 
embora muito solicitada, não quis tornar a 
casar-se. Arco desposou Pório, muito conside- 
tado entre os ênios e do qual teve numerosos 
filhos, todos pequenos ainda quando veio a 
falecer. Teoxena, instigada pelo amor maternal 
que dedicava aos sobrinhos, casou com Pório, 
a fim de melhor cuidar das crianças. Foi quan- 
do se publicou o edito do rei determinando que 
lhe fossem entregues os filhos dos que conde- 
nara. Teoxena, mãe corajosa, desconfiando da 
crueldade de Filipe, e temerosa das violências 
de seus apaniguados, ousou declarar que mata- 
ria OS jovens com suas próprias mãos se força- 
da a perdê-los. Pório, apavorado com seme- 
lhantes palavras, prometeu-lhe raptá-los e 
levá-los para Atenas onde os deixaria com pes- 
soas de sua confiança. Aproveitando a oportu- 
nidade da festa anual que se celebrava em 
honra de Enéias, assim procedeu. Assistiu 
durante o dia às cerimônias, tomou parte no 
banquete público, e, à noite, embarcou em um 
navio que já se achava: pronto para zarpar. 
Mas os ventos eram desfavoráveis. E, achan- 
do-se ainda no dia seguinte à vista das costas, 
deram-lhe caça os guardas do porto. Estavam 
sendo quase alcançados e Pório estimulava os 
marinheiros a se apressarem quando Teoxena, 
excitada pelo seu amor e seu desejo de vingan- 
ça, preparou armas e veneno, entregando-os 
aos jovens e dizendo: “Vamos, meus filhos, a 
morte é agora o único meio de defender vossa 
liberdade; os deuses nos julgarão em sua santa 
Justiça; nestas espadas e nestas taças cheias 
estã a vossa liberdade; tende coragem. Tu, 
filho, que és o mais velho, toma esta lâmina 
para morreres de morte nobre.” Acossados de 
um lado por tão intrépida conselheira e do 
outro pelos inimigos, precipitaram-se eles 
sobre as armas a seu alcance e semimortos 
foram jogados ao mar. Teoxena, orgulhosa por 
ter gloriosamente assegurado a liberdade dos 
filhos, abraçou então o marido e disse: 
“Sigamos o mesmo caminho, amigo, escolha- 
mos a mesma sepultura”. E estreitamente uni- 
dos mergulharam nas águas, voltando o barco 
ao porto sem os seus senhores. 

Os tiranos esforçavam-se por prolongar a 
morte que infligiam, com o duplo objetivo de 
matar o adversário e fazer-lhe sentir os efeitos 
de sua cólera. Queriam que os inimigos não 
perecessem rapidamente e lhes permitissem 
saborear a vingança. Era-lhes dificil consegui- 
lo, pois as torturas excessivas não duram 
muito. Se duravam, não lhes pareciam sufi- 


MONTAIGNE 


| 
] 
! 


cientemente dolorosas. Dai os engenhosos 
suplícios da antiguidade, alguns dos quais 
ainda conservamos. 

Tudo o que ultrapassa a morte pura e sim- 
ples se me afigura cruel. Nossa justiça não 
pode esperar que se amedronte ante a morte 
pelo fogo ou a tortura, e deixe de cometer cri- 
mes, quem os comete apesar da ameça da 
forca e da decapitação. Ademais, suspeito que 
estejamos instigando ao desespero aqueles a 
quem infligimos tais suplícios, pois em que es- 
tado de alma pode achar-se um homem que 
permanece vinte e quatro horas sobre uma 
roda, membros partidos, ou pregado a uma 
cruz como outrora? Conta José que, durante 
as guerras dos romanos na Judéia, deparou em 
certo lugar com três judeus crucificados; eram 
seus amigos € conseguiu que os agraciassem 
ao fim de três dias. Dois morreram. 

Calcôndilo, que deixou memórias dignas de 
fé acerca dos acontecimentos de seu tempo, 
conta que o Imperador Maomé aplicava não 
raro esse horrível suplício de cortar os homens 
em dois com um só golpe de cimitarra dado no 
meio do corpo, acima das ancas, o que fazia 
que morressem, por assim dizer, de duas mor- 
tes concomitantes. Viam-se os dois pedaços 
ainda com vida agitarem-se durante muito 
tempo sob a ação da dor. Não creio entretanto 
que esse suplício devesse provocar grandes 
sofrimentos. Nem sempre os mais horríveis 
são os mais dolorosos e acho muito mais atroz 
o que, segundo outros historiadores, tiveram 
de suportar alguns senhores que o mesmo 
Maomé mandou esfolar vivos, ordenando, com 
requintes de crueldade, que a operação fosse 
conduzida de modo a prolongar-se por quinze 
dias. 

Creso mandou prender um fidalgo, favorito 
de seu irmão Pantaleão, e conduzir a uma ofi- 
cina de pisoeiro onde foi raspado e escardu- 
çado até morrer. Jorge Sechel, chefe desses 
camponeses da Polônia que a pretexto de reali- 
zar uma cruzada tantos estragos praticaram, 
foi vencido em um combate pelo vcivoda de 
Transilvânia. Durante três dias permaneceu 
nu, amarrado a um cavalete é exposto aos tor- 
neios que inventavam os espectadores. En- 
quanto isso, vários outros prisioneiros eram 
submetidos a rigoroso jejum. Depois do que, e 
estando ele ainda vivo, deram de beber seu 
sangue a seu irmão querido, para o qual não 
cessava Sechel de implorar graça, assúmindo 
toda a responsabilidade dos sucessos. Em 
seguida, ofereceram sua came a vinte de seus 
chefes prediletos, os quais lha arrancaram a 
dentadas. Finalmente, em morrendo, coze- 
ram-lhe as entranhas e os restos e distribuíram 
aos seus companheiros. 


ENSAIOS — II 325 


CapítuLO XXVIII 


Cada coisa a seu tempo 


Os que comparam Catão, o Censor, a 
Catãc, o Jovem, comparam duas grarides natu- 
rezas e em parte semelhantes. O primeiro reve- 
lou a sua em feitos de armas e atividades de 
interesse público. Mas a virtude do outro foi 
mais pura e seria uma blasfêmia considerar 
qualquer outra igual. Quem ousaria, com efei- 
to, isentar o censor do pecado de inveja e 
ambição quando atacou a honra de Cipião, o 
qual pela bondade e demais virtudes lhe era 
muito superior, bem como aos outros de seu 
tempo? 

O que dizem do censor, que na' extrema 
velhice resolveu aprender o grego com entu- 
siasmo, a fim de satisfazer um desejo antigo, 
não o considero digno de elogios. A isso cha- 
mamos voltar à infância, pois cada coisa tem 
seu tempo, as boas e as más. Pode mesmo 
ocorrer que uma prece seja dita em momento 
inoportuno como aconteceu com Flamínio, o 
qual, na hora da batalha, se afastou para orar 
a Deus: “o próprio sábio estabeleceu limites à 
sua virtude *º3?. 

Vendo Eudemônidas que o velho Xenó- 
crates corria à sua aula, disse: “como poderá 
esse homem saber se aprende ou não?” Filopê- 
men, ouvindo elogiarem o Rei Ptolomeu por se 
exercitar diariamente no manejo das armas, 
observou: “não há como louvar um rei dessa 
idade por se entregar a exercícios que não 
saberá pôr em prática oportunamente”. O 
homem jovem, dizem os sábios, deve prepa- 
rar-se, o velho gozar o fruto do preparo. E 
nossa maior fraqueza está em que nossos dese- 
jos se renovam sem cessar e sem cessar reco- 
meçamos a vida. 

Nossos estudos e desejos deveriam por 
vezes aperceber-se da velhice; já temos o pé no 
túmulo e nossos apetites e aspirações mal aca- 
bam de nascer: “as vésperas de morrer mandas 
talhar o mârmore, construir casas, quando 
deverias pensar no cemitério *º *?. O mais re- 
moto dos meus projetos não exije mais de um 


“93 Juvenal. 
“84 Horácio. 


ano para a sua execução. Penso somente em 
meu fim, e desfaço-me de toda nova esperança, 
bem como evito novos empreendimentos. Dou 
um adeus definitivo aos lugares que deixo e 
diariamente alieno algo do que possuo: “há 
muito não perco nem ganho... não me res- 
tam provisões mais do que as necessárias para 
o caminho que tenho a seguir *º 82. “Vivi; cum- 
pri a tarefa que o destino me determinou *º 8.” 

Enfim, a velhice dá-me o alívio de entorpe- 
cer em mim desejos e preocupações que en- 
chem a vida, referentes aos negócios, às rique- 
zas e glórias, ao saber, à saúde e a mim 
mesmo. Há quem aprende a falar no momento 
em que deveria aprender a calar para sempre. 
Pode-se prolongar indefinidamente o periodo 
de estudos, mas não o da escolaridade. Nada 
mais ridículo do que um velho soletrando: 
“para condições diferentes, coisas diversas; 
cada idade tem suas necessidades pró- 
prias tt 

Se queremos estudar, estudemos algo ade- 
quado à nossa condição, a fim de responder 


“como aquele a quem perguntavam por que 


estudava se já estava decrépito: “para partir 
melhor e com mais sossego”. 

Assim fez Catão, o Jovem, às vesperas de 
morrer, entregando-se à leitura de Platão acer- 
ca da imortalidade da alma. Não porque não 
tivesse previsto o necessário para a viagem. 
Resolução, segurança, conhecimentos, pos- 
suía-os mais do que Platão pusera em seus 
livros; seu saber e sua coragem eram a esse 
respeito superiores ao que propugna a filoso- 
fia. Não escolheu essa obra, portanto, em vista 
da morte; como alguém cuja resolução, por 
importante que seja, não interrompe sequer o 
sono; e não modificava seus estudos como não 


mudava sua maneira habitual de viver. À noite 
em que lhe negaram o cargo de pretor, pas- 


sou-a a jogar; a de sua morte empregou-a na 
leitura; perder o cargo e perder a vida tinham 
para ele a mesma importância. 


495 Sêneca. 
496 Virgílio. 
497 Pseudo-Galo. 


326 


MONTAIGNE 


CAPÍTULO XXIX 


Da virtude 


Mostra-me a experiência que vai grande 
diferença entre as súbitas determinações da 
alma e sua conduta habitual. Bem vejo que 
nada nos é vedado, nem mesmo ultrapassar a 
própria divindade, disse alguém; há maior mé- 
rito, por exemplo, em ser impassível por força 
de vontade do que por tendência natural. 
Conseguimos mesmo, embora ocasionalmente, 
Juntar à fraqueza humana a resolução e a segu- 
rança divinas. Na vida desses heróis do passa- 
do, observam-se às vezes ações prodigiosas, 
que parecem exceder de muito as nossas for- 
ças; mas trata-se em verdade de feitos passa- 
geiros, e não podemos conceber que suas 
almas se tivessem impregnado de idéias tão 
elevadas a ponto de se lhes tornarem inerentes. 
Acontece-nos, a nós mesmos, miseráveis abor- 
tos humanos, ter por vezes a alma despertada 
por palavras e exemplos e transportada bem 
acima de seu clima normal. É, porém, uma 
espécie de paixão que a impele e agita, e a pro- 
jeta fora de si. Passado o tufão, vemo-la que, 
sem sequer o perceber, se acalma e relaxa, 
senão até o fim, ao menos até voltar ao estado 
anterior. E bastará então um incidente qual- 
quer, um copo quebrado, por exemplo, para 
que nos comovamos como um homem comum. 
Salvo a ordem, a moderação e a constância, 
tudo estã ao alcance do homem, mesmo o 
menos capaz. Por isso dizem os sábios que 
para julgar honestamente um homem é essen- 
cial examiná-lo em seus atos cotidianos. 

Pirro, que erigiu a ignorância em ciência, 
tentou, como todos os filósofos realmente dig- 
nos desse nome, adaptar sua vida à sua doutri- 
na. Considerando seu julgamento, em razão de 
sua fraqueza, incapaz de tomar partido, queria 
que se mantivesse sempre em suspenso, hesi- 
tando e encarando todas as coisas com indife- 
rença. Por isso, dizem, tudo fazia de igual 
modo e com a mesma fisionomia. Se princi- 
piava a contar algo ia até o fim ainda que o 
interlocutor se despedisse; se andava, não mu- 
dava de direção, qualquer que fosse, e era pre- 
cisa a intervenção de seus amigos para que 
não rolasse por precipícios ou se chocasse con- 
tra obstáculos. Temer ou evitar alguma coisa 
grá, com efeito, contrário a seus princípios, os 
quais não reconheciam em nossos sentidos 


capacidade de escolha e de decisão. Ocorreu- 
lhe diversas vezes suportar incisões e cauteri- 
zações sem sequer piscar. Ora, uma coisa é 
fazer que a alma aceite tais idéias e outra pô- 
las em prática, o que não é contudo impossi- 
vel. Mas praticá-las com tal constância que ve- 
nham a integrar-se em nossa natureza, de que 
tanto se afastam, não é de crer se verifique. Eis 
por que, sendo visto a disputar com a irmã, 
diante da objeção de que assim saia fora de 
sua linha de conduta, exclamou: “Será preciso 
que essa mulherzinha seja também chamada a 
dar seu testemunho acerca de minha doutri- 
na?” De outra feita, sendo visto a defender-se 
contra um cão, observou: “é muito dificil 
despojarmo-nos por completo da natureza 
humana; é pelos atos que primeiramente nos 
defendemos contra o que nos ameaça; a razão 
e a fatalidade só em seguida intervêm”. 

Há cerca de sete ou oito anos, um aldeão, 
que ainda vive, cansado das cenas de ciúme 
que lhe fazia a mulher, foi acolhido ao voltar 
do trabalho pela saraivada habitual de recrimi- 
nações. Louco de raiva, com a foice que trazia 
à mão, decepou as partes do corpo que tanto 
agitavam sua mulher e jogou-lhas à cara. Con- 
ta-se também que um fidalgo amoroso e bem- 
apessoado, tendo com sua perseverança sedu- 
zido uma linda menina, se viu na hora da 
posse inteiramente inibido. No seu desespero, 
de volta a casa, cortou-o pênis e enviou à san- 
grenta vítima à sua bela, como reparação pela 
ofensa que lhe fizera. “Sentira-se desonrado, 
pois seu membro mal erguera a cabeça 
senil*º8” Que diriamos de feito tão altivo se 
praticado refletidamente e por motivo de 
ordem religiosa como fazem os sacerdotes de 
Cibele? | 

Há tempos, em Bergerac, a seis léguas de 
minha residência, subindo o Dordogne, uma 
mulher que fora batida pelo marido na véspe- 
ra, resolveu fugir à sua brutalidade sacrifi- 
cando a vida. Ao levantar-se, encontrando 
tomo de costume suas vizinhas, disse-lhes 
algumas palavras de recomendação e tomando 
a mão da irmã menor dirigiu-se à ponte. Aí 
disse-lhe adeus, como a brincar, e sem de- 


498 Tibulo. 


ENSAIOS — II 


monstrar o menor nervosismo precipitou-se no 
rio, desaparecendo. O que o fato revela de 
especial está em que amadurecera o projeto 
durante uma noite inteira. K 
Muito mais fazem as mulheres indianas. E 
costume, nas Índias, terem os homens várias 
mulheres e a preferida matar-se por ocasião da 
morte do marido; todavia, esforçam-se todas 
por alcançar tal privilégio; e os cuidados e 
carinhos que têm para com o marido visam 
principalmente a conquistar-lhe a preferência a 
fim de acompanhá-lo na morte: “logo que a 
tocha mortifera põe fogo no último leito do 
defunto, as esposas, desgrenhadas, disputam 
entre si a honra de morrer com ele, pois sobre- 
viver é humilhante para elas. A vencedora lan- 
ça-se às chamas e com os lábios ardentes beija, 
agonizante, os restos do esposo **ºº?. 
Conta-nos alguém ter visto, ainda em nos- 
sos dias, praticarem esse costume no Oriente. 
E não somente as mulheres acompanham o 
homem na morte, mas também as escravas que 
O tiveram por amante. Assim procedem: morto 
o marido, pode a viúva (mas raramente o faz) 
pedir dois ou três meses de prazo para pôr em 
ordem seus negócios. No dia marcado, chega a 
cavalo e vestida como para um casamento, 
rosto alegre e trazendo à mão esquerda um 
espelho e à direita uma flecha, para, como diz, 
“dormir com seu marido”. Acompanhada de 
seus parentes, amigos, e verdadeira e jovial 
multidão, passeia um pouco € se encaminha 
em seguida para o lugar reservado a esse gêne- 
ro de espetáculos. É uma praça bastante 
ampla: no centro um fosso cheio de lenha e ao 
lado um estrado de quatro ou cinco degraus. 
Servem-lhe ali magnífica refeição; depois da 
qual põe-se ela a dançar e a cantar. E, quando 
julga chegado o momento, manda acenderem a 
fogueira. Isto feito, desce e, pegando. pela mão 


-==0- parente- mais-próximo do marido, vai com ele 


até o rio vizinho, onde se despoja de suas vesti- 
mentas que distribui, bem como as jóias, a 
seus amigos. Nua, lava-se então dos pecados. 
Ao sair da água envolve-se em uma peça de te- 
cido amarelo de quatorze braças de compri- 
mento, e, tomando novamente a mão do paren- 
te, retorna ao estrado de onde fala à multidão 
para lhe recomendar os filhos, se os tem. Em 
geral, entre a fogueira e o estrado estendem 
uma cortina, a fim de esconder aos olhos da vi- 
tima o fogo abrasador. Muitas recusam-na 
para provar suáã coragem. Depois que ela diz o 
que tem a dizer, uma mulher apresenta-lhe um 
vaso de óleo com o qual ela unta a cabeça e o 
corpo; ao terminar joga ao fogo as sobras e 
precipita-se ao mesmo tempo na fogueira, 


“98 propércio. 


327 


vivamente atiçada, então, pelo povo, para que 
não se prolonguem os sofrimentos da esposa. 
E a alegria de antes transforma-se em tristeza e 
luto. Se se trata de pessoas menos importantes, 
o corpo do morto é levado para o lugar onde 
deve ser enterrado; aí o colocam sentado, e a 
mulher, de joelhos à sua frente, abraça-o forte- 
mente, assim se mantendo enquanto erguem 
um muro em volta de ambos. Quando esse 
muro alcança os ombros da mulher, um de 
seus parentes pega-a por trás pelos cabelos, e 
torce-lhe o pescoço. E logo que exala o último 
suspiro acabam de edificar o muro e fechar o 
túmulo. 

Nesse mesmo país, os filósofos da seita dos 
gimnossofistas procediam de igual modo, em- 
bora não fossem obrigados nem decorresse sua 
resolução de alguma exaltação ocasional. 
Faziam-no porque essa era sua regra de con- 
duta. Quando atingiam certa idade e se viam 
ameaçados de alguma doença, mandavam er- 
guer uma fogueira acima da qual colocavam 
um leito suntuosamente adornado. Em segui- 
da, após alegres festejos com os amigos e 
conhecidos, deitavam-se no leito com tamanha 
resolução que não mexiam sequer os pés ou as 
mãos. Assim morreu um deles, Calanus, diante 
do exército de Alexandre. Esses filósofos 
consideravam que não poderia ser santo ou 
bem-aventurado quem assim não morresse, 
entregando a Deus a alma purificada pelo 
fogo, depois do aniquilamento do que tinha de 
mortal e terreno. O que há de prodigioso nesse 
ato é que durante toda a vida constituía o obje- 
to de uma constante meditação. 

Entre as questões que nos dividem figura a 
da fatalidade, segundo a qual para subordinar 
as coisas futuras e nossa própria vontade a 
certa necessidade inelutável, ressuscita-se este 
velho argumento: “Se Deus tudo previu, como 


o previu sem dúvida, o que acontece tem de 


acontecer.” Ao que respondem os nossos dou- 
tores: “Constatar que uma coisa acontece, 
como o fazemos e Deus o faz igualmente (pois, 
presente em toda parte, antes vê do que prevê), 
nao significa obrigar essa coisa a acontecer; 
se vemos é porque as coisas são; mas não são 
porque as vemos; o acontecimento faz que o 
constatemos, e não é a constatação que provo- 
ca o acontecimento: o que vemos ocorrer em 
verdade ocorre, mas poderia ocorrer de outro 
modo. 

“E Deus que tem a presciência das causas 
que produzêm os acontecimentos, tem igual- 
mente a das causas ditas fortuitas, bem como a 
presciência das que dependem de nossa vonta- 
de em virtude do livre arbítrio que nos outor- 
gou; sabe que faltamos ao nosso dever porque 
queremos faltar.” 


328 


Vi muitas pessoas encorajarem seus partidá- 
rios recorrendo ao dogma seguinte: “se nossa 
hora deve chegar, nem os arcabuzes do inimi- 
go, nem nossa temeridade, nem nossa covar- 
dia, poderão adiantá-la ou retardá-la”. Fácil 
de dizer, mas indagai quem o segue. Se uma fé 
viva e forte provoca ações impregnadas de 
idênticas qualidades, essa nossa fé que não 
cessamos de proclamar neste século, deve ser 
incrivelmente fraca, a julgar pelos resultados, a 
menos que ela os despreze a ponto de evitá-los. 

A esse respeito, lemos em Joinville, testemu- 
nha digna de crédito, que os beduinos, que se 
misturavam aos sarracenos quando o Rei São 
Luís andou pela Terra Santa, acreditavam tão 
firmemente que os dias de cada um são deter- 
minados e contados, para todo o sempre sem 
que seja possível escapar ao destino, que iam 
para a guerra completamente nus, simples- 
mente com uma cimitarra e um pedaço de 
pano branco à cintura. Sua maior injúria, 
quando se zangam, é “maldito sejas, como 
maldito é quem se arma de medo de morrer”. 
Eis uma prova de fé bem maior do que as nos- 
sas: À que outrora deram dois monges de Flo- 
rença é da mesma ordem: como tinham opi- 
niões contrárias a respeito de dado ponto da 
ciência, combinaram entregar a solução à 
Providência e entrar ambos numa fogueira 
acesa na praça pública. Já tudo se achava pre- 
parado e iam passar à prova quando se verifi- 
cou um incidente que a interrompeu. 

Um jovem senhor turco se assinalara por 
um feito de armas perpetrado diante dos exér- 
citos de Amurat e Hunyadi e que os levara a se 
engalfinharem. Tendo-lhe perguntado Amurat 
a que devia, tão jovem e inexperiente, o vigor € 
a coragem que demonstrara, respondeu que 
sua valentia ele a aprendera com um professor 
excepcional: uma lebre. “De uma feita, caçan- 
do, vi uma lebre em seu covil. Embora tivesse 
comigo dois excelentes cães, como se apresen- 
tasse de um ângulo muito favorável, preferi, 
para não perdê-la, atirar com meu arco. Arre- 
messei então uma primeira flecha, e logo 
outra, e assim fiz das quarenta que tinha em 
minha aljava, não somente sem a atingir mas 
sem sequer a despertar. Lancei os cães. Não 
cónseguiram tampouco pegá-la. Compreendi 
então que estava sob a proteção do destino, 
que nem as flechas, nem as espadas acertam 
quando a fatalidade não quer e que não pode- 
mos nem avançar nem retardar sua decisão.” — 

Esta história deve também servir para nos 
mostrar a que ponto somos sensíveis às mais 
diversas impressões. Certo personagem consi- 
derável, tanto pela idade como pelo nome, as 
honrarias e as opiniões, vangloriava-se de ter 
sido levado a modificar sua fé em virtude de 


MONTAIGNE | 


um fato, na minha opinião relacionado apenas 
indiretamente com o assunto e tão extrava- 
gante quanto o do nosso jovem turco. Fato, 
aliás, suscetível, a meu ver, de levar a conclu- 
são contrária. Ele, entretanto, qualificava-o de 
milagre, e eu também, mas em outro sentido. 
Acham os historiadores turcos que a persua- 
são em que estão os seus de uma duração 
predeterminada da vida auxilia-os de maneira 
sensivel na atitude diante do perigo. Conheço 
um grande príncipe que tira partido dessa 
crença, ou por ter realmente fé ou por invocá- 
la apenas para explicar modestamente sua 
temeridade. Oxalá os fados não se cansem de 
protegê-lo. 

Não creio que haja exemplo mais compro- 
batório de resolução firme do que o desses dois 
homens que atentaram contra a vida do Prin- 
cipe de Orange. E mais admirável ainda quan- 
to ao segundo, o que teve êxito, que: revelou 
tamanha decisão, embora a coisa tivesse dado 
mau resultado com o primeiro, o qual, entre- 
tanto, tomara todas as precauções possíveis. 
Tratava-se efetivamente de agir com as mes- 
mas armas, após um precedente desastroso. 
Contra um homem prevenido, de grande força 
fisica, protegido por amigos dedicados, e que 
se encontrava em sua casa entre os seus guar- 
das, em uma cidade de sua confiança. Por 
certo, para perpetrar o assassínio foi neces- 
sário mão firme, além de uma coragem inspi- 
rada em violenta paixão. O punhal é mais se- 
guro do que a pistola, mas exige braço mais 
vigoroso e vivacidade, e comporta maiores ris- 
cos. Estou convencido de que esse segundo 
assassino não ignorava que corria a uma 
morte certa, pois somente um espírito fraco 
poderia alimentar quaisquer esperanças, e a 


-maneira por que se houve bem mostra que não 


carecia de inteligência e coragem. As razões de 
“tal segurançassão- complexas; nossa -imagina-... 
“ção fazendo dela, e de nós, o que bem entende. 

O atentado cometido perto de Orléans não 
se assemelha ao precedente. O êxito é imputá- 
vel ao acaso mais do que à resolução. O golpe 
não fora mortal se não o quisesse o destino. 
Atirar de longe, a cavalo, contra alguém igual- 
mente montado e movimentando-se com a 
montaria, mais demonstra a preocupação de 
fugir do que a de acertar no alvo. O que acon- 
teceu em seguida comprovou-o. O assassino 
ficou tão perturbado com a idéia de ter aten- 
tado contra tão alto personagem, que perdeu a 


cabeça. Para fugir, bastava-lhe atravessar o rio 
e juntar-se a seus amigos. Ja fiz mais de uma 
vez coisa análoga para fugir a perigos menores 
e julgo que o risco não é grande, por mais 
largo que seja o caudal, desde que o cavalo 
possa entrar facilmente na água e que do outro 


ENSAIOS — II 329 


lado exista um ponto onde abordar. Quando 
comunicaram ao assassino do Príncipe de 
Orange o terrível castigo que o aguardava, 
disse apenas: “esperava-o € hei de mostrar-vos 
que saberei suportá-lo”. 

Os assassinos, tribo da Fenícia, gozam entre 
os maometanos a reputação de ser devotos e 
castos. Consideram que o caminho mais curto 
para o paraíso consiste em matar alguém de 


outra religião. Atacam não raro sozinhos, ou a 
dois, e vestidos sumariamente, inimigos pode- 
rosos. Sabem que perderão a vida e não 
tomam precaução de espécie alguma. Assim 
foi assassinado (daí o nome da tribo) em sua 
cidade, durante as Guerras Santas, Raymond, 
conde de Trípoli. E também Conrado de Mont- 
ferrat. Os assassinos mostravam-se orgulhosos 
de ter realizado tão bela obra. 


CAPÍTULO XXX 
A propósito de uma criança monstruosa 


Restrinjo-me ao simples enunciado de um 
fato, deixando aos médicos o comentário: vi 
ontem um menino que dois homens e uma 
mulher, os quais diziam ser seu pai, seu tio e 
sua tia, pretendiam exibir para ganhar alguns 
soldos. Esse menino que tinha exatamente qua- 
torze meses, apresentava aspecto normal. 
Sustentava-se sobre os pés, andava e balbu- 
ciava como qualquer criança da mesma idade; 
seus gritos, entretanto, pareciam revelar algo 
particular e, até então, nada pudera tomar em 
matériã de alimento, a não ser o leite da ama. 


O que lhe punham na boca (fizeram-no diante 
de mim), mastigava um pouco e rejeitava, 
recusando-se a engolir. Entre a teta e o umbigo 
ligava-se a outra criança, sem cabeça, com o 
orifício intestinal tapado mas inteiro quanto ao 
rêsto. Esse aborto tinha um braço mais curto 


do que o outro, o qual se havia quebrado ao . 


nascer. Os corpos pareciam defrontar-se e era 
como se uma criança pequena houvesse queri- 
do grudar-se a outra maior. A junção mesma 
não ultrapassava quatro dedos de largura mais 
ou menos e erguendo o corpo menor via-se O 
umbigo do maior, bem como a linha de sutura. 
Quanto ao aborto, não se lhe via o umbigo, 
mas sim o resto do ventre, e as partes livres, 


braços, nádegas e pernas, que pendiam balou- 
çantes junto ao corpo do maior, alcançando a 
metade das pernas. Acrescentava a ama que 
esses dois seres urinavam cada qual por seu 
lado; que os membros de ambos se alimen- 
tavam igualmente bem e eram muito vivos, 
embora os do aborto se mostrassem mais frá- 
geis. Esse duplo corpo e esses múltiplos mem- 


bros ligados a uma só cabeça, poderiam muito 
bem constituir um bom prognóstico para o 
nosso rei, pressagiando a coexistência de và- 
rios partidos sob as suas leis. Mas é melhor 
deixá-lo de lado, pois os acontecimentos 
podem desmenti-lo. E mais seguro prognos- 
ticar os fatos consumados “mediante interpre- 
tações que os enquadrem nas conjeturas”, 
como diz Cícero e também Epimênides, de 
quem afirmavam que adivinhava “para trás”. 
Acabo de ver um pastor do Medoc, de trinta 
anos mais ou menos, que não mostra vestígios 
das partes genitais. Apresenta no lugar delas 
três orifícios pelos quais urina constantemente. 
Tem barba, sente desejo e procura as carícias 


das mulheres. ; Ê A 
Os que denominamos monstros não o são 


perante Deus, pois só Deus distingue e aprecia, 
na imensidade de Suas obras, as formas infini- 
tas que imaginou. É provável que tal ou qual 
que nos espanta se prenda a outra do mesmo 
gênero, desconhecida do homem e que no 
entanto d'Ele provenha. Tudo o que emana de 
Sua infinita sabedoria é belo e decorre de leis 
gerais; mas, as relações dessas coisas entre si e 
sua ordenação escapam-nos. “O homem não 
se admira com o que vê amiúde, ainda que lhe 
ignore a origem; mas se ocorre o que nunca 
viu, considera-o um prodígio *ºº.” 

Dizemos daquilo que se afasta do que 
vemos habitualmente que é contrário à nature- 
za; tudo, entretanto, obedece às suas leis. A 
razão universal e natural deve pois expulsar de 
nós a surpresa que a novidade provoca. 


ad 


500 Cícero. 


330 


MONTAIGNE 


CaPíTULO XXXI 


Da cólera 


Plutarco é sempre admirável; principal- 
mente quando aprecia as ações humanas. 
Assim as excelentes coisas que diz no paralelo 
que estabelece entre Licurgo e Numa, acerca 
da simplicidade de espírito com que abando- 
namos os filhos à orientação exclusiva dos 
pais. Em sua maioria, nossas instituições 
admitem, como diz Aristóteles, que cada qual, 
à maneira dos ciclopes, governe mulher e fi- 
lhos ao sabor de sua imaginação mais ou 


menos louca. Somente as constituições da 
Lacedemônia e de Creta oferecem leis para a 
educação da criança. Quem não percebe que 


em uma nação tudo depende da educação 
moral e física? E no entanto ela continua sem 
nenhum critério, à mercê dos parentes, por lou- 
cos que sejam, e maus. 


Quantas vezes, na rua, tive ímpetos de vin- 
gar, a meu modo, os meninos que via esfola- 
dos, esbofeteados, machucados por um pai em 


furor. Atentai para esses brutos, faces esfo- 
gueadas, olhos cintilantes de raiva (e segundo 
Heródoto as doenças que nos desfiguram são 


as mais perigosas), vociferando contra seres 
que mal iargaram a chupeta: “incendeia-os a 
cólera e os empurra como rochedo abrupto 
que, perdendo seu ponto de apoio, rola monta- 
nha abaixo *º1?. Das palavras passam aos ges- 


tos, e eis os pobres pequenos feridos, estropia- 
dos, sem que a justiça se incomode, como se 
não se tratasse de criaturas da nossa comuni- 
dade: “agradece-te a pátria, por lhe teres dado 
um novo cidadão, desde que o tornes idôneo e 
útil, ou lavrando a terra, ou nas artes da paz 
ou nos serviços da guerra 892”. 

Não hã paixão que mais perturbe a eqli- 
dade dos juízos do que a cólera. Ninguém hesi- 
taria em condenar à morte um juiz que sob o 
império desse sentimento punisse um crimino- 
so; porque então nossos pais e nossos profes- 
sores terão o direito, quando irritados, de açoi- 
tar uma criança ou lhe infligir qualquer 
castigo? Já não é corrigir, é vingar-se. O casti- 
go deve ser uma espécie de remédio para a 


501 Juvenal. 
502 Id. 


criança; admitiriamos que um médico se enfu- 
recesse e agredisse o doente? 

Nós mesmos, a bem dizer, não deveriamos 
jamais levantar a mão contra nossos servido- 
res sob o impulso da cólera. Adiemos a presta- 
ção de contas até que nosso pulso serene;: a 
coisa hã de parecer-nos diferente quando nos 
acalmarmos. De outro modo a paixão é que 
comanda; ela é que fala e não nós, e sób a sua 
influência as faltas se ampliam, como ocorre 
com as formas vistas através da neblina. Quem 
tem fome, quer carne; mas quem castiga não 
deve ter fome ou sede, tanto mais quanto o 
castigo é mais eficiente se aplicado com medi- 
da. Condenada por um homem enfurecido, a 
vitima imagina ter sido injustamente punida. 
Alega em sua defesa a exacerbação do amo, 
seu rosto esfogueado, seus palavrões, a inquie- 
tação em que se encontrava. “Seu rosto incha 
de ódio, suas veias pretejam, seus olhos deitam 
raios mais ardentes que os dos olhos de 
Górgone * 03,” 

Relata Suetônio que Lúcio Saturnino *º*, 
condenado por César, apelou para o povo e 
obteve ganho de causa em virtude, principal- 
mente, da animosidade e da dureza com que 
César o julgara. 

Dizer e fazer são coisas diferentes e é preci- 
so considerar separadamente sermão e predi- 
cante. E não deixaram de tirar partido dos vi- 
cios do clero os que tentaram nestes tempos 
atentar contra a verdade da Igreja. Mas esta se 
apóia em outros testemunhos. Semelhante 
orientação é errônea e tudo perturba; um 
homem de bons costumes pode ter opiniões 
discutíveis e um mau indivíduo pregar a verda- 
de, o que até um incréu pode fazer. É sem dúvi- 
da mais bela a harmonia entre fazer e dizer, e 
não pretendo negar que nesse caso mais autori- 
dade tenham os atos, e mais eficiência. 

Eudâmidas ouvindo um filósofo discorrer 
acerca da guerra, dizia: “belas palavras, mas 
quem as profere não deve ser crido, seus ouvi- 
dos não estão familiarizados com o som das 
trombetas”. Cleômenes, ouvindo um retórico 


503 Ovídio. 
504 Em outras edições Montaigne fala de Caio 
Rabírio. (N. do T.) 


ENSAIOS — II 


falar da valentia, pôs-se a rir ruidosamente, e 
como o outro se formalizasse, observou: 
“rir-me-ia também se falasse uma andorinha, 
ao passo que uma águia eu escutaria com aten- 
ção”. Parece-me que os escritos dos antigos 
nos mostram à saciedade que quem pensa o 
que diz impressiona mais o leitor ou o ouvinte 
do que quem não está convencido de suas 
palavras. Vede Cícero referir-se ao amor à 
liberdade, e vede Bruto: os escritos deste últi- 
mo provam que era homem capaz de pagá-la 
com a vida. Que Cícero, pai da eloqgiuência, 
fale do desprezo pela morte e que Sêneca trate 
do mesmo assunto; aquele é mole e sentimos 
que se pronuncia acerca de uma coisa de que 
não está convencido, e não nos fortalece; já o 
outro anima e inflama. Nunca leio um autor 
que trate da virtude e dos atos que inspira sem 
procurar saber como se conduziu ele próprio. 
Vendo os éforos, em Esparta, certo indivíduo 
de costumes desregrados propor ao povo uma 
coisa útil, mandaram-no calar e pediram a um 
homem de bem que se apropriasse da idéiae a 
apresentasse. 


As obras de Plutarco mostram bem o que 
ele foi, e creio conhecê-lo a fundo. Entretanto, 
gostaria que tivéssemos alguns documentos 
sobre sua vida e se me afastei do assunto foi 
para mencionar um trecho de Áulio Gélio, o 
qual nos dá uma idéia dos hábitos de Plutarco 
e me reconduz ao meu tema. Um dos escravos 
de Plutarco, homem mau e viciado, mas que 
ouvindo suas aulas, retivera, embora superfi- 
cialmente, algumas noções de filosofia, fora 
despojado de suas roupas para ser açoitado 
por causa de alguma falta cometida. A princi- 
pio, enguanto o açoitavam, resmungou que 
“não tinham razão, que nada fizera”; em 
seguida, pôs-se a gritar e a injuriar seu amo 


censurando-lhe por “não agir como um filó- 
sofo que se jactava de ser, que muitas vezes o 
ouvira dizer quão nociva era a cólera, que 
escrevera mesmo um livro sobre o assunto, e 
que, mandando açoitá-lo, a ele escravo, sob o 
impulso da irritação, desmentia completa- 
mente tais lições”. Ao que Plutarco, muito 
calmo, respondeu friamente: “Como podes jul- 
gar se neste momento me acho enfurecido? 


Minha fisionomia, minhas palavras, minha cor 
dão-te alguma prova? Não penso ter o olhar 
esgazeado, nem o rosto perturbado. Tampouco 
vocifero. Estarei vermelho? Vem-me a espuma 


aos lábios? Escapam-me palavras de que 
possa arrepender-me? Tremo porventura? Pois 
são esses os verdadeiros sinais da cólera.” E 
voltando-se para o que manejava o açoite: 
“Continua tua tarefa enquanto discuto com 
esse indivíduo.” 


331 


Arquitas de Tarento, voltando de uma guer- 
ra em que exercera as funções de capitão-ge- 
neral, encontrou sua casa descuidada e suas 
terras incuitas. Mandando chamar o feitor, dis- 
se-lhe: “Eu te esfolaria com prazer se não esti- 
vesse zangado”. Platão assim agiu também: 
fortemente irritado com um de seus escravos, 
encarregou Espeusipo de castigá-lo, descul- 
pando-se de não o fazer pessoalmente, porque 
estava com raiva. E o lacedemônio Carilo 
assim apostrofou um hilota que se mostrava 
insolente: “Por Deus que te mataria, se não 
estivesse com ódio !” 


A cólera é paixão que em si mesma se com- 
praz e a si mesma aplaude. Quantas vezes, 
tendo agido sob o impulso de um erro nós nos 
irritamos contra a verdade e a inocência 
comprovadas? A propósito, eis um exemplo 
admirável tirado da antiguidade: Pisão, que 
sempre se mostrara mui virtuoso, enraivecido 
contra um soldado que partira em companhia 
de outro em busca de provisões e voltara sozi- 
nho sem nada poder dizer do companheiro, 
convenceu-se de que este fora assassinado e 
incontinenti condenou à morte o que voltara. 
Estava este ao pé da forca quando chegou o 
outro, que se perdera. Todo o exército o recebe 
com aclamações e depois de se abraçarem são 
ambos levados à presença de Pisão, na certeza 
de que se alegraria com o acontecimento. Foi 
entretanto o contrário que ocorreu. Despeitado 
e ainda encolerizado, inspira-lhe a paixão um 
raciocínio sutil. E em lugar de um inocente, vê 
no caso três culpados que condena à mesma 
pena de morte: um porque já fora condenado, 
outro porque se perdera e se tornara culpado 
da primeira condenação e o carrasco por ter 
desobedecido às suas ordens. 


Quem já se houve com mulheres obstinadas 
sabe da raiva que as invade se opomos à sua 
irritação o silêncio e a indiferença. Célio, o 
orador, era por temperamento extremamente 
colérico; alguém de gênio sereno e conciliante 
que com ele ceava vinha aprovando tudo o que 
ouvia a fim de não dar pretexto a discussões. 
Célio, impaciente por não poder abandonar-se 


a seu espírito de contradição, exclamou: “Por 
amor de Deus, dize qualquer coisa que eu 
possa discutir?. Assim são as mulheres. Irri- 
tam-se apenas para ter uma oportunidade de 
irritar os outros, imitando nisso as leis do 
amor. Falando Fócion em público, interrom- 
peu-o alguém com violentas injúrias; Fócion 
calou-se deixando que o interlocutor expan- 
disse sua cólera. Em seguida voltou ao seu dis- 
curso sem aludir sequer ao incidente. Um tal 
desdém é a réplica mais causticante que se 
possa dar em semelhante circunstância. Digo 


332 


amiúde do homem mais colérico de França (a 
cólera é sempre um defeito, mais desculpável 
entretanto em um militar, pois em certos casos 
não a pode evitar) que não conheço quem 
tenha mais mérito em se dominar *º 5. Eia o 
agita com tanta fúria e violência que ele preci- 
sa cruel esforço para se moderar. “Assim, 
quando ruidosamente o fogo aquece o vaso de 
cobre: a água ferve, enfurece-se contra os flan- 
cos que a mantêm presa, transborda espuman- 
te, não mais contém sua força e seu vapor 
sombrio escapa e se ergue no ar *º 8”. Quanto a 
mim, não sei de paixão que mais me custe dis- 
simular e não me agradaria pagar tão alto 
preço pela sabedoria. E, no caso não me inte- 
ressa tanto o que se faz quanto o que se deixa 
de fazer. Alguém se jactava junto a mim da do- 
çura e compostura em verdade notáveis de 
seus hábitos. Respondi-lhe que, mostrar-se 
sempre igual para com todos em quaisquer 
circunstâncias, era meritório, principalmente 
em quem, como ele, tinha altas funções e 
muito se expunha à crítica alheia; mas o que 
importa particularmente é preocupar-se com o 
que ocorre dentro de nós. E não me parecia 
que cuidasse de seus interesses esgotando-se 
interiormente, como eu temia que ele o fizesse, 
para conservar sempre uma serenidade exte- 
rior. 


Nós nos impregnamos de nossa própria có-. 


lera, dissimulando-a. Fazemos mais ou menos 
o que Diógenes dizia a Demóstenes, o qual, 
receoso de ser visto na taverna, escondia-se 
dentro dela: “Quanto mais recuas, mais pene- 
tras.” Aconselharia antes a dar por vezes 
injustamente um bofetão no criado de prefe- 


rência a torturar-se para parecer sereno. Prefi- 
ro dar liberdade às minhas paixões a abafá-las 
em meu detrimento. Em lhes permitindo que se 
expandam perdem elas sua força e é melhor 
que atuem exteriormente do que contra nós: 
“as doenças visíveis da alma são as mais 
benignas; as mais perigosas são as que se 
escondem sob a aparência da saúde 8º 7”. 


Aos que tenham motivos para irritar se 
aconselho que se controlem e não esbanjem 
sua cólera, pois isto lhe atenua os efeitos. As 
gritarias constantes convertem-se em hábito; 
não mais se lhes dá atenção. As cenas que 
fazemos com um criado ladrão, não as sente 
ele quando são a repetição das que lhe fizemos 
cem vezes por não ter lavado direito um copo 
ou guardado uma cadeira. Aconselho-os tam- 


805 Não se sabe se Montaigne alude a determinada 
pessoa ou se fala em tese. A frase é obscura. (N. do 
T.) 

506 Virgílio. 

507 Sêneca. 


MONTAIGNE | 


bém a verificarem se sua repreensão se dirige 
realmente ao culpado, pois as mais das vezes 
já gritam antes dele se apresentar e continuam, 
horas a fio, depois de se ir: “o insensato que 
não se domina enfurece-se contra si 
mesmo *9 8, 


Se gritam contra a própria sombra, desabam 
raios onde não se encontra quem deva recebê- 
los nem ninguém que possa aproveitar a lição; 
e os estrondos apenas ensurdecem os inocen- 
tes. Há também que censurar os que esbrave- 
jam no vácuo. Cumpre reservar tais gestos 
para as ocasiões oportunas: “Muge furioso o 
touro contra seu rival; colérico pisoteia o solo, 
volta-se contra o vento e dá chifradas nas 
árvores º99?, 


Quando me irrito sou violento, mas a cólera 
dura pouco e grito o menos possível. Entrego- 
me por certo à violência, porém não fico fora 
de mim a ponto de proferir palavras injuriosas, 
e é com perfeito conhecimento de causa que 
assesto minhas invectivas, procurando acertar 


no ponto em que mais firam. Meus criados so- 
frem menos aliás nos casos graves do que nos 
insignificantes. Estes me surpreendem e quer a 
infelicidade que se caímos em um precipício 
pouco importam as causas, vamos rolando até 
o fundo, e sempre mais depressa. Nos casos 
graves, quando todos esperam uma cólera 
proporcional e justa, apraz-me desiludi-los, 


pois sabendo até onde pode levar uma desme- 
dida irritação, ponho-me de atalaia e me domi- 
no; mas se sou tomado de surpresa, a cólera 
apodera-se de mim e arrasta-me mais longe do 
que fora normal. Com as pessoas que têm o 
dirsito de discutir comigo, entro em acordo: 
“Quando virdes que começo a irritar-me, dei- 
xai-me prosseguir, certo ou errado, até o fim; 
eu farei o mesmo.” A tempestade nasce com 
efeito unicamente das cóleras que se entrecho- 
cam; não têm uma origem comum, decorrem 
por vezes uma da outra; deixemo-las seguirem 


seu curso e teremos a paz. Essa determinação, 
boa sem dúvida, é de difícil aplicação. As 
vezes acontece-me em questões de ordem 
doméstica fingir que estou zangado. Na medi- 
da em que a idade me torna mais sensível às' 
contrariedades, esforço-me por não ceder a 
esse sentimento, e- zangar-me tanto menos 
quanto maior disposição tenha para o fazer. E 
isso, embora, em minha juventude, tenha sido 
dos que menos sabiam moderar-se. 

Uma palavra ainda, antes de terminar este 
capítulo. Aristóteles diz que a cólera é por 
vezes utilizada como arma pela virtude e a 


“508 Claudiano. 


509 Virgílio. 


ENSAIOS — II 333 


valentia, o que me parece certo. Entretanto, os 
que divergem de opinião neste ponto objetam, 
com espírito, que se trataria então de uma 


arma muito especial, pois manejamos as ou- 
tras armas € por essa somos manejados; não a 
guia a nossa mão, ela é que nos conduz. 


CAPÍTULO XXXII 


Defesa de Sêneca e Plutarco 


Minha intimidade com esses filósofos, a 
ajuda que me proporcionaram em minha velhi- 
ce e também este meu livro escrito quase uni- 
camente com o que deles tirei, constituem 
como que a obrigação, para mim, de lhes 
defender o nome. 


Vejamos primeiramente Sêneca. Entre os: 


inúmeros opúsculos que a religião reformada 
distribui em defesã de sua causa, alguns dos 
quais lamentamos, pelo estilo, não tenham vi- 
sado melhor fim, deparei com um cujo autor, 
para melhor demonstrar certa analogia entre 
Carlos IX e Nero, e entre o falecido Cardeal 
de Lorena e Sêneca, compara os destinos que 
guindaram estes últimos a conselheiros de seus 
príncipes, bem como suas condutas e seus 
erros. À meu ver, há nisso honra excessiva 
para o cardeal, pois embora seja dos que mais 
estimam seu espírito, seu devotamento ao rei e 
à religião, e embora quisesse a sorte fazê-lo 
nascer em um século tão necessitado de um 
dignitário da Igreja de tão alta nobreza e tão 
capaz de desempenhar o seu papel, vejo-me 
forçado a observar, a bem da verdade que não 
considero sua capacidade comparável à de 
Sêneca, nem sua virtude tão grande e resoluta 
quanto a deste. 

O opúsculo a que aludo apresenta uma 
exposição assaz injuriosa do que foi Sêneca; 
tira suas diatribes de Dion, historiador cujo 
testemunho me inspira pouca confiança. Antes 
de mais nada, Dion é versátil nos seus julga- 
mentos, pois ora considera Sêneca homem mui 
sábio e inimigo dos vícios de Nero, ora o pinta 
como alguém de natural avarento, propenso à 
usura, à ambição, à covardia, ao prazer, dizen- 
do-se filósofo e desmentindo suas palavras 
com seus atos. Em segundo lugar, os escritos 
de Sêneca revelam tão viva virtude, neles ele se 
defende tão bem contra as acusações de que foi 
objeto, em particular as referentes a sua rique- 
za e a seus gastos, que não posso acreditar em 
nenhum testemunho contrário. Ademais, é 
mais normal acreditar-se, a esse respeito, nos 
historiadores romanos do que nos gregos e nos 


estrangeiros. Ora, Tácito e os outros falam 


muito - honrosamente de sua vida e de sua 
morte e o representam como um personagem 
de grande virtude, que desempenhou seu papel 
de maneira perfeita. Ao julgamento de Dion, 
censurarei apenas uma coisa, mas caracteris- 
tica: esse historiador tem tão falha percepção 
dos negócios romanos, que ousa tomar o parti- 
do de César contra Pompeu, e o de Antônio 
contra Cícero. 


Passemos a Plutarco. Jean Bodin, um dos 
bons autores de nossa época, mais avisado e 
informado do que a turba de escrevinhadores 
do século, merece, a meu ver, ser ponderado e 
discutido. Acho-o um tanto ou quanto temerá- 
rio no trecho de sua obra intitulada “Método 
para facilitar o estudo da história” e no qual 
acusa Plutarco não somente de ignorância (o 
que não o discutirei porque não me sinto com- 
petente nesse ponto), mas ainda de haver regis- 
trado fatos incríveis e do domínio da fábula. Se 
houvesse dito “fatos erroneamente relatados”, 
não houvera muito que opor à acusação, pois 
o que não vimos há que tirar de outrem, em 
confiança. Por outro lado, reconheço que Plu- 
tarco nos dá por vezes versões diferentes do 
mesmo fato, como no caso do julgamento de 
Aníbal acerca dos três maiores capitães, o qual 
não é idêntico, na vida de Flamínio, ao que se 
lê na de Pirro. Mas afirmar que aceitou como 
verdadeiros fatos incríveis e impossíveis, é 
acusar de erro de julgamento o mais judicioso 
historiador do mundo. 

Eis um exemplo citado por Bodin: “assim o 
caso de um menino da Lacedemônia, o qual 
para que não percebam seu roubo, deixa que a 
raposa escondida por baixo de sua roupa lhe 
roa o ventre”. Acho antes de tudo que o exem- 
plo é mal escolhido, porquanto é mais difícil 
estabelecer limites as faculdades da alma de 
que às forças físicas, que podemos avaliar me- 
lhor fixando-lhes um grau superlativo intrans- 
ponível; por isso se me coubesse escolher, pro- 
curaria exemplo de outra ordem, de fato menos 


s€ 


crível, como o que diz respeito a Pirro, “o 


334 


qual, embora ferido, assentou tão formidável 
golpe de espada em um de seus inimigos, intei- 
ramente armado, que lhe partiu o corpo em 
duas partes”. No exemplo dado por Bodin 
nada encontro de milagroso e não admito a 
desculpa invocada para defender Plutarco, o 
qual teria acrescentado: “ao que dizem”, para 
que não acreditássemos de maneira absoluta, 
como se fora do que se nos impõe pela antigui- 
dade e o respeito às tradições religiosas, não 
desejasse: que déssemos fé às coisas incríveis 
em si. Estas palavras “ao que dizem”, não se 
encontram no texto com esse fim; pois, logo 
em seguida, e ainda a propósito da coragem 
das crianças na Lacedemônia, cita-nos fatos 
mais incríveis ainda, como por exemplo o que, 
antes dele, Cicero já relatara dizendo que o 
testemunhara “in loco”. Nessa época, escreve 
Plutarco, havia crianças que, nas provas a que 
se sujeitavam diante do altar de Diana, supor- 
tavam o açoite até jorrar o sangue de seus cor- 
pos, não somente sem gritar mas ainda sem 
gemer; e houve mesmo algumas que o suporta- 
ram até a morte. 

Plutarco conta-nos também, após cem ou- 
tros que o verificaram, este fato análogo ocor- 
rido em Esparta: tendo uma brasa caído den- 
tro da manga de um menino que aspergia 
incenso, deixou ele que ela lhe queimasse o 
braço, a ponto de se sentir o cheiro da carne 
chamuscada. Era costume desse povo zelar 
acima de tudo pela sua reputáção e nada lhe 
parecia máis vergonhoso do que ser surpreen- 
dido roubando, o que explica a tenacidade e 
resolução do menino que se deixou roer pela 
raposa. Estou tão convencido da grandeza de 
alma de tais homens, que o fato contado por 
Plutarco, longe de se me afigurar incrível, 
como quer Bodin, nada me parece oferecer de 
raro ou estranho. A história de Esparta está 
cheia de exemplos mais rudes ainda e que não 
se verificam nas das demais nações. Caberia 
então julgá-la fabulosa de princípio a fim. 

Amiano Marcelino conta, a propósito de 
roubo, que em seu tempo não haviam ainda 
descoberto tortura capaz de obrigar os egip- 
cios a confessarem esse delito que lhes era 
habitual. 

Um camponês espanhol, torturado para que 
denunciasse os cúmplices do assassínio do 
Pretor Lúcio Pisão, berrava durante o suplício 
advertindo seus amigos “que não se preocu- 
passem e assistissem tranquilamente ao espetã- 
culo, pois não haveria dor capaz de lhe arran- 
car quaisquer indiscrições”. No primeiro dia 
nada mais conseguiram dele. No dia seguinte, 
ao ser transportado novamente para o suplício, 
desvencilhou-se dos guardas e precipitou-se 
com a cabeça contra um muro, matando-se. 


MONTAIGNE 


Epicaris esgotara a crueldade dos carrascos 
de Nero; suportara, durante o dia inteiro, toda 
espécie de torturas, sem nada revelar da conju- 
ra de que participara. Levada novamente ao 
suplício no dia seguinte, membros partidos, 
amarrou um cordão do vestido a um braço da 
cadeira de modo a formar um laço; e passando 
a cabeça por ele largou o corpo, enforcando- 
se. Assim morrendo corajosamente, depois de 
ter suportado com paciência invencível os tor- 
mentos da véspera, como que desafiava e 
escarnecia o tirano e animava os que se dispu- 
sessem a imitá-la nas conspirações. 

Se indagássemos de-nossos soldados o que 
viram como testemunhas e atores em nossas 
guerras civis, inúmeros feitos de coragem, 
resistência e tenacidade, nos seriam contados, 
fatos ocorridos com essa multidão amolecida 
entretanto, mais efeminada do que a classe 
mais baixa do Egito, e que seriam comparáveis 
aos que nos oferece a história de Esparta. Sei 
de camponeses que deixaram que lhes quei- 
massem a planta dos pés, lhes esmagassem as 
pontas dos dedos sob o cão da pistola, ou lhes 
amarrassem a fronte com uma corda até lhes 
saltarem os olhos da cara, sem sequer falar de 
seu resgate. Vi um deixado por morto em um 
fosso; estava inteiramente nu, o pescoço incha- 
do e ferido pela corda com a qual o haviam 
amarrado ao rabo de um cavalo; o corpo san- 
grava com cem golpes de punhal, dados não 
para o matar e sim para o amedrontar. Tudo 
suportara .até desfalecer, resolvido, como .me 
disse, antes a sofrer mil mortes do que a falar. 
Era, no entanto, um dos mais ricos agricul- 
tores da região. E quantos não temos visto que 
se deixaram torturar e assar por opiniões 
alheias, que nem sequer conheciam bem! Vi 
centenas de mulheres (dizem que as da Gasco- 
nha são particularmente cabeçudas) capazes 
de suportar o ferro em brasa sem desmentir ou 
renegar uma idéia qualquer desposada em 
momento de raiva. Exasperam-se, antes, sob os 
golpes; e quem inventou a história daquela 
cujo marido a ameaçava e lhe batia por não 
parar de chamar-lhe “piolhento” e que, jogada 
à àgua, ainda fazia com os dedos o gesto de 
esmagar um piolho, imaginou em verdade um 
conto muito característico dessa obstinação de 
que a mulher nos dá diariamente provas; e a 
obstinação é irmã da tenacidade e da resolu- 
ção. ! 


Como disse anteriormente, cumpre não jul- 
gar o que é e o que não é segundo a nossa con- 
cepção de verossimilhança. É grande erro (e 
não o digo por causa de Bodin) em que caem 
muitos e muitos homens, não querer acreditar 
que outros possam saber ou desejar o que não 
se sabe nem se ambiciona. Dir-se-ia que cada 


ENSAIOS — II 


qual é um modelo, por excelência, da natureza 
humana, de acordo com o qual os demais 
devem conduzir-se; e que tudo o que não se 
adapta a esse modelo é falso ou errado. Se 
apresentam a alguém algo que outro fez ou 
imaginou, para o julgar, toma-se a si próprio 
como referência; o que nele se verifica é que 
deve servir de regra. Que perigosa e insupor- 
tável tolice! Quanto a mim, considero certos 
homens, principalmente da antiguidade, bem 
superiores; e embora me reconheça incapaz de 
-seguir-lhes as pegadas, ainda que de longe, não 
os perco de vista. Percebo as molas que os er- 
guem acima do vulgo, conquanto não as 
encontre em mim. Assim me conduzo igual- 
mente em relação aos espíritos inferiores que 
não me espantam e cujas idéias não me recuso 
de caso pensado a considerar. Compreendo 
muito bem como os primeiros se houveram 
para emergir, e admiro-lhes a grandeza; acho 
belos seus impulsos e os aplaudo; se minhas 
forças não me permitem imitá-los, minha 
inteligência, ao menos, os aprecia. 


O outro exemplo que nos dá Bodin em apoio 
de sua asserção de que Plutarco avança fatos 
incríveis, do domínio da fábula, é o de Agesi- 
lau ter sido condenado a uma multa pelos éfo- 
ros por ter conquistado o coração €e a boa von- 
tade de seus concidadãos, os quais já não 


juravam senão por ele. Não vejo o erro que se 
lhe possa criticar neste ponto. Antes de mais 
nada, Plutarco devia conhecer melhor os fatos 
do que nós; ademais não era inédito na Grécia 
exilarem-se homens tão-somente por serem 


335 


romanos de nossa familiaridade. Não me pare- 
ce que Demóstenes possa ombrear na glória 
com um cônsul ou pretor da grande República, 
mas quem observa com imparcialidade o que 
são realmente tais homens, o que quis fazer 
Plutarco, que compara seus costumes, seus 
caracteres, suas capacidades, mais do que o 
seu destino, pensará, contra Bodin, que Cícero 
e Catão, o Velho, estão longe de igualar aque- 
les que lhes são comparados. Nosso crítico 
fora mais feliz se desse como exemplo o para- 
lelo entre Catão, o Jovem, e Fócion. Teria divi- 
sado uma desigualdade mais acentuada a favor 
dos romanos. Quanto a Marcelo, Sila, Pom- 
peu, OS êxitos que obtiveram na guerra são sem 
dúvida mais importantes que os dos gregos que 
Plutarco lhes opõe. Mas as mais belas e virtuo- 
sas ações, na guerra como alhures, nem sem- 
pre são as mais famosas. Deparo amiúde com 
capitães cujos nomes se eclipsaram ante o 
esplendor de outros que não os valiam. Assim 


Labieno, Ventídio, Telesino, etc. A esse respei- 
to, se devesse reclamar a favor dos gregos 
poderia dizer que Camilo está. longe de ser 
comparável a Temístocles, os Gracos a Ágis € 
Cleômenes, Numa a Licurgo. Mas é loucura 
tentar julgar em conjunto tantos casos especi- 
ficos e suscetíveis de se encararem separada- 
mente. 


Quando Plutarco compara esses persona- 
gens ilustres, não quer demonstrar que são 
iguais. E ninguém melhor do que ele é capaz 
de ressaltar, com precisão e imparcialidade, as 
diferenças. Se compara as vitórias e proezas 


demasiado quendos (es Ucp sa no campo de batalha, o poder dos 
ex 


Comprovam-no o ostracismo e o petalismo. 


Esse mesmo “Método para facilitar o estudo 
da história” comporta outra acusação cho- 
cante contra Plutarco. Este historiador que, em 
seus paralelos, tão bem comparou os romanos 
aos romanos € os gregos entre si, não o teria 
feito com igual imparcialidade ao paragonar 
gregos com romanos. “Por exemplo” diz 
Bodin “nos paralelos entre Demóstenes e Cice- 


ro, Catão e Aristides, Sila e Lisandro, Marcelo 
e Pelópidas, Pompeu e Agesilau, favorecia os 
gregos com comparações inadequadas.” Isso é 
atacar Plutarco no que tem de melhor e de 
mais admirável. Pois nessas comparações (que 
constituem a parte mais apreciável de sua obra 
e à qual, a meu ver, mais particularmente se 
dedicou) a fidelidade e a sinceridade dos juízos 
igualam sua profundidade e valor: é um filó- 
sofo que nos ensina a virtude. 


Vejamos se é possível absolvê-lo quanto à 
falsidade e à prevaricação. Penso que o que 
provocou apreciação tão desfavorável está na 
grande e brilhante auréola que orna os nomes 


Erti Ene seus triunfos com os de 


Agesilau, acrescentar ““rão.creio que O próprio 
Xenofonte ousasse compara-lôs; ra nada 


se saiba acerca do que lhe apeteceu E 
Agesilau”?. Quando estabelece um paralelo 


entre Lisandro. e Sila, diz: “não existe ponto de 
comparação, nem quanto ao número de vitó- 
rias, nem aos riscos que correram nos comba- 
tes travados, pois Lisandro só ganhou duas 
batalhas, etc.? Plutarco em nada diminuiu os 


romanos ao compará-los com os gregos; não 
os depreciou, apesar-da disparidade existente, 
porque não os julgou em bloco, nem revelou 
qualquer preferência. Compara, uns após 
outros, certos episódios, certas particulari- 
dades de suas vidas respectivas e os julga em 


separado. Por isso, para argúi-lo de parciali- 
dade fora preciso analisar o julgamento em 
cada caso particular ou provar que errou em 
paragonar tal grego com tal romano, porque 
muitos outros, com maior número de pontos 
comuns, mereceriam de preferência a compa- 
ração. 


336 MONTAIGNE 


CAPÍTULO XXXIII 


História de Espurina 


“ 


Não pensa a filosofia ter mal empregado | sível às tentações, começava a rebelar-se a des- 
seus meios de ação, quando consegue tornar a peito dos princípios e regras que adotara, 
razão senhora da alma e dar-lhe autoridade mandou queimar os órgãos solicitados! 
suficiente para que contenha os apetites. Os Quando as paixões se assenhoreiam exclusi- 
que não acham entre estes nenhum mais vio-  vamente da alma, como a ambição, a avareza 
lento que o do sexo, observam que o amor in- e outras, criam bem maiores dificuldades 
vade a alma e o corpo, possui o homem por ainda para a razão, a qual nenhuma ajuda 
inteiro, abala-lhe a saúde a ponto, por vezes, pode esperar senão de si mesma. Por outro 
de exigir a intervenção de um médico para lado, jamais se acalmam, ou se saciam, antes 
obter satisfação. Mas pode-se dizer que, com a se avivam e se ampliam, com as satisfações 
participação do corpo, o enfraquece, por- alcançadas. 
quanto se sujeita à saciedade e é suscetível de O exemplo de Júlio César bastaria para nos 
se acalmar com o remédio material. mostrar quanto diferem tais apetites, pois 

Alguns, desejosos de libertar sua alma des- nunca homem algum foi mais dado aos praze- 
ses continuos alarmas, recorrem a amputação res do amor. Prova-o o cuidado minucioso que 
dos órgãos que se excitam e se impressionam. tinha com sua pessoa, a ponto de apelar para 
Outros, atenuam-lhes o ardor e a força com os meios mais lascivos em voga na época: 
aplicações frequentes de coisas frias como, por depilava o corpo e usava perfumes especiais 
exemplo, uma mistura de gelo com vinagre. extremamente raros. Segundo Suetônio, pos- 


Não tinham outro objetivo os cilícios de nos-  suía um belo físico, de tez alva, grande esta- 
sos antepassados; eram confeccionados com urae boas proporções; tinha o rosto cheio, os 
pêlo de cavalo, sob forma de camisas ou cin- olhos escuros e vivos. Em muitos pontos, as 
tas. Contava-me um príncipe, não faz muito, estátuas dele encontradiças em Roma afas- 
que em sua inocidade, certo dia de festa na umesé desse retrato. Além "de suas mulheres 
Corte de Erancisco I, e estando todos Vestidos jegítimas, que trocou quatro vezes, e sem con- 


. . se. ER tá ed a 
a rigor, concebera a.idérafantasista de vestir o tar as relações amorosas que teve, na mocida- 


cilício de í, que ainda conservava. Mas de, com Nicomedes, rei da Bitínia, possuiu vir- 
não foi capaz de usá-lo até o fim da noite e gem a Cleópatra, rainha do Egito, da qual.teve 
icou doente durante muito tempo. Acreditava o pequeno Cesário. E amou igualmente Êunoe, 
não houvesse ardor, por grande.que fosse, que” * rainha da Mauritânia; Postúmia, mulher de 
um tal instrumento não domasse. Não penso Sérvio Sulpício; Lólia, esposa de Gabínio; Ter- 
entretanto que tenha sido então vítima de um tula, mulher de Crasso é até Mútia, esposa do 
apetite muito agudo, pois a experiência mostra | grande Pompeu, o que levou o marido a repu- 
que a emoção persiste não raro, por miseráveis diá-la, segundo os historiadores. Plutarco 
e grosseiras que sejam as roupas; e o cilício declara ignorar o fato, mas os Cúrios, pai e 
mem sempre transforma em pobres diabos os filho, censuraram a Pompeu, mais tarde, ao 


) 510 A 

que o usam **º. E em casar-se com a filha de César, o fato de se tor- 
Xenócrates empregou processo mais energi- nar genro de um homem que lhe seduzira a es- 
co. Seus discípulos, a fim de provar sua conti- posa e que ele próprio qualificava de Egisto. 
nência, introduziram em seu leito a bela e fa- Além das que enumerei, César teve ainda 
mosa cortesã Laís. Esta aí se deitou como amante a Servília, irmã de Catão e mãe 
inteiramente nua, na sua beleza atraente. Sen- de Marco Bruto, e todos acreditavam que a 
tindo o filósofo que seu corpo, atê então insen- grande afeição que por este demonstrava vies- 
se de ter Bruto nascido em uma época em que 

s1o Há um trocadilho intraduzível no texto: fora possível a César pensar que se tratasse de 
“Haire”, cilício, e “pauvre hére” pobre-diabo. (N. seu filho. Tenho, portanto, razão em julgá-lo 


do T.) com tendência para esse gênero de desregra- 


ENSAIOS — II 337 


mento. No entanto, quando a ambição, que tos para contrabalançar o efeito produzido 
nele era grande, se opunha ao amor, não hesi- pela magnificência do estilo de Cícero na sua 
tava em afastar este. - apologia de Catão. Nem houve espírito mais 


A propósito, vem-me à memória o caso de vigilante do que o seu, mais dado ao trabalho e 
Maomé, que tomou Constantinopla e pôs fim à realçado ainda por qualidades incontestáveis e 
dominação grega. Não conheço ninguém em raramente encontráveis em tão alto grau de 


quem tais paixões se equilibrassem melhor. naturalidade. Era notavelmente sóbrio e tão 
Era tão grande no amor como na guerra; mas pouco difícil em matéria de alimentação, que, 
sempre que, em sua vida, se verificou um cho- | certa vez, como diz Ópio, comeu um molho 


que entre o amor e a guerra, o entusiasmo pela feito com óleo para remédio em vez de azeite 
guerra levou a melhor. E assim ocorreu até | comum, a fim de não confundir o anfitrião; de 
que, avançado em anos e incapaz de suportar outra feita mandou açoitar seu padeiro porque 
as fadigas dos campos de batalha, a paixão lhe servira um pão diferente do que servira aos 
pela mulher voltou a dominá-lo e teve-o sob outros. Catão dizia a seu respeito que era o 


seu império enquanto o permitiu a natureza. primeiro homem sóbrio a arruinar seu país. 
O que se conta do Rei Ladislau, de Nápoles, Esse mesmo Catão tratou-o um dia de 
é exemplo do contrário. Era bom capitão,  “bêbedo”, mas em circunstâncias especiais. 


corajoso e ambicioso, mas sua ambição tinha Estavam ambos no Senado; falava-se na cons- 
principalmente por objeto a satisfação de seus piração de Catilina à qual pensavam se filiasse 


apetites voluptuosos e a posse de alguma bele- César, quando, de fora, lhe entregaram um 
za rara. Sua morte foi igual à sua vida. bilhete. Catão, imaginando que se tratasse de 
Mediante manobra bem conduzida, cercara algum aviso dos conjurados, desafiou-o a que 
tão bem a cidade de Florença que os habitan- lho entregasse, o que fez César para evitar 
tes tiveram de negociar. Ele propôs retirar-se e maiores suspeitas. Aconteceu que era um 
abandonar assim o fruto da vitória, sob a con- bilhete de amor de Servília, irmã de Catão. 
dição de lhe entregarem uma jovem que se dis- Este o leu e devolveu, dizendo: “ei-lo, bêbe- 


tinguia pela sua maravilhosa beleza. Tiveram do!” A meu ver essa apóstrofe implicava em 
que concordar e, a fim de preservar a cidade sinal de desprezo e não em abuso ao vício- de 
da destruição, aceitar a injúria tão-somente beber. Verificou-se o que nos ocorre muitas 
prejudicial a interesses particulares. Essa mu- | vezes quando, invectivando os que nos irritam, 
lher era filha de um médico famoso na época; nos valemos das primeiras injúrias que nos 
o qual, ante tão penosa necessidade, tomou | vêm à boca embora não se apliquem às pes- 


enérgica resolução. Enquanto adornavam A soas em apreço. E isso, no caso, se explica 
filha, cobrindo-a de rendas e Jóias para torná- | tanto melhor quanto o vício da bebida vai de 
la mais agradável ainda a tão estranho amante, par, não raro, com aquele em que era surpreen- 
o pai juntando-se aos outros, fazia-lhe presente dido, pois Vênus e Baco andam juntos de bom 
de um lenço maravilhoso, exalando delicioso grado. Comigo dá-se o contrário, e Vênus 
perfume, para que o usasse para enxugar as mostra-se bem mais esperta quando a sobrie- 
partes genitais nos seus primeiros contatos, o dade a acompanha. » 

que não esquecem de fazer as mulheres. O 


lenço-cra-envener Bd elara para Os exemplos de sua clemência para com os 

“a s E? a . E 
toda a sua ciência. Em contato com a € anderam são numerosos; refiro-me aos 
excitada e quente, entraria pelos poros dilata- atos verificadosS-fersi do período das guerras 


dos. Com efeito, penetrou-os o veneno tão Civis, pois entao sua generosidade;scomacele 
rapidamente que o sangue dos amantes gelou próprio dá a entender em seus escritos, visava 


de imediato, expirando ambos abraçados. conquistar Os inimigos e induzi-los a não teme- 
Volto a César. Seus prazeres não lhe rouba- Tem vitórias de César. Se destes atos não pode- 
ram jamais um minuto à ambição. Esta domi- | mos dizer que bastariam para provar a doçura 


nou nele sobre todas as demais paixões e exer- “de um temperamento, nem por isso compro- 
“ceu sobre sua alma tão completa autoridade vam menos a maravilhosa confiança que tinha 
que o levou onde quis. Em verdade, quando em si e a sua grande coragem. Ocorreu-lhe 
penso na superioridade desse homem e nos muitas vezes devolver aos inimigos, após a 
seus maravilhosos dotes, sinto-me despeitado. vitória, exércitos inteiros, sem sequer exigir 


Seus conhecimentos eram de tal ordem que que jurassem não se voltar contra ele. Fez vá- 
não há, por assim dizer, ciência acerca da qual rias vezes prisioneiros certos capitães de Pom- 
não tenha escrito; como orador, no entender de peu e sempre os libertou. Como Pompeu consi- 
muitos, superava Cícero, e creio que ele tam- derasse ' inimigos todos os que não o 
bém assim pensava, pois seus dicursos conhe- acompanhavam, César declarou amigos os que 
cidos pelo título de “anticatãos”, foram escri- se mantivessem neutros e não pegassem em 


338 MONTAIGNE | 


armas contra ele. Aos próprios capitães que o houvessem ajudado a alcançar as honras 
abandonavam para aderir ao adversário, en-  supremas ele os teria ajudado e sustentado 
viava as armas de presente, com seus cavalose | como aos melhores entre os homens de bem. 
bagagem. Deixava às cidades capturadas a Ela o embriagou de tão grande vaidade que ele 
liberdade de escolher o partido que quisessem, ousou jactar-se diante de seus concidadãos de 
confiando apenas, para contê-las, na lem- “haver reduzido essa grande República roma- 
brança de sua doçura e clemência. No dia da na a um simples nome, sem forma nem corpo” 
batalha de Farsália ordenou que não ergues- e chegou a dizer que a partir de então “as res- 
sem a mão contra os cidadãos romanos. Eis, postas que desse seriam leis”. Teve a audácia 
na minha opinião, procedimento bem perigoso de receber sentado o Senado; permitiu que o 
e não é de espantar que em nossas guerras  adorassem e lhe rendessem culto divino. Em 
civis os que como ele se voltam contra a antiga suma, esse único vício perverteu a natureza 
ordem de coisas, não o imitem. São maneiras mais rica que se viu, e fez que sua memória se 
excepcionais que só a sorte de César e seu tornasse odiosa à gente honesta, porquanto 
extraordinário gênio poderiam adotar. Quando procurou a glória na escravização do país e na 
penso na grandeza incomparável dessa alma, subversão do governo mais florescente e pode- 
desculpo a vitória por lhe ter sido sempre fiel roso que o mundo jamais verá. 


mesmo em benefício de tão iníqua e injusta Pode-se, ao contrário do que se depara em 


causa. a am: César, encontrar mais de um exemplo de gran- 

Temos vários exemplos de sua clemência, des personagens esquecidos da condução de 
que se verificaram no tempo em que teve o seus negócios em consegiiência de seu apego 
poder e constituem excelente testemunho de ao prazer amoroso, como foi o caso de Marco 
sua natureza, pois, senhor então de todas as Antônio. Mas quando a ambição e o amor se 


coisas, não precisava mais fingir. Caio Mênio chocam com igual violência, não tenho dúvida 
escrevera contra ele panfletos ferozes aos quais em apontar o vencedor na ambição. 


ele respondera com veemência. Isso não o do co TO Sea A ee are 
impediu de ajudá-lo a obter o consulado. Caio É E Eca 
muito refrear os nossos apetites, apoiando-nos 


Calvo que lhe assestara vários epigramas inju- sá PR Ê 
na razão, ou pela violência obrigar os nossos 


riosos, tendo solicitado de um amigo que o O SA : E 
órgãos à serenidade. Mas nos açoitarmos em 


reconciliasse com César, este condescendeu : : a 
em lhe escrever em primeiro lugar. E nosso benefício de outrem; abafar a doce Da 
; nos causa ser agradáveis aos outros e por 


bom Catulo, que tanto o insultara sob o pseu- d licitados: odi Ee 
dônimo de Mamurra! César convidou-o para todos solicitados; odiar nossa beleza porque 


jantar no mesmo dia em que se desculpou. NOS dão tal satisfação, é coisa de que só encon- 
Avisado de que certas pessoas falavam mal (rei um exemplo: o de Espurina, jovem toscano 
dele, limitou-se a declarar em público que o — que semelhava um diamante engastado no 
sabia. Se não odiava seus inimigos, temia-os Ouro € enfeitando um colar ou coroa, ou um 
ainda menos. Descobertos alguns conciliá- marfim enquadrado de buxo ou terebinto para 
bulos e conjuras, contentou-se com os tornar que melhor ressalte sua brancura º?'!?. Era de 
públicos, não perseguindo os culpados. tão rara beleza que os olhos mais castos não o 
Vejamos: um exemplo das atenções que podiam contemplar sem se ofuscar Não-con- 

tinha para com os amigos. AGRALE Som nao Condado! em extinguir a 
com ele viajaya e se centiraTdisposto, cedeuo febre que provocava, enfureceu-se contra si 

—= —ânitoo-ABMIBO existente e dormiu ao ar livre. mesmo e contra os ricos presentes recebidos da 
Quanto à sua justiça, pode-se julgá-la pelo fato natureza, como se tivesse o direito de lhes cen- 
seguinte: embora nenhuma queixa tivesse sido  surar as faltas alheias, e mediante incisões e 
apresentada, mandou executar um escravo que golpes por ele próprio dados destruiu com 
muito apreciava, por ter dormido com a mu- cicatrizes a harmonia do rosto. 


lher de um cidadão romano. Nenhum homem Admiro esses atos mas não os aprovo. Tais 
se conduziu com maior moderação na vitóriae excessos não se acomodam a meus princípios. 
maior resolução na desgraça. A intenção foi boa e proveio de alma honesta, 


Pois todas essas belas qualidades foram mas a meu ver o gesto foi impensado, pois a 
prejudicadas pela desmedida ambição que em feiúra assim alcançada podia provocar outros 
verdade dirigiu sua vida. De um homem liberal | sentimentos pecaminosos, como o despeito e o 
fez um ladrão do dinheiro público a fim de ódio, a inveja de tão rara virtude ou a calúnia 
poder desmandar-se em prodigalidades. Ela que apontasse a causa da ocorrência em desa- 
levou-o a pronunciar estas horríveis palavras, busada ambição. Haverá alguma coisa que 
tão contrárias a todo princípio-moral!: os ho- 
mens piores do mundo, os mais viciados, seo 5?! Virgílio. 


ENSAIOS — II 339 


não sirva de pretexto ao vício? Fora mais judi- 
cioso se, com tais dons outorgados por Deus, 
se tornasse um modelo de virtude, um exemplo 
para a posteridade. 

Os que fogem aos deveres sociais, a essas 
obrigações de toda sorte, não raro espinhosas, 
que pesam sobre o homem de certa posição, 
evitam, a meu ver, muitos aborrecimentos, por 
grandes que sejam os inconvenientes que tal 
atitude pode acarretar. É, em suma, morrer 
para escapar de viver como se deve. Podem ter 
outros méritos, mas o de enfrentar as dificul- 
dades não lhes cabe. Nem o de suportar com 
firmeza os embates do mundo, respondendo 
satisfatoriamente e lealmente ao que deles exi- 


gem sua condição e o cargo que ocupam. É tal- 
vez mais fácil abster-se de maneira absoluta de 
quaisquer contatos com o sexo feminino do 
que se conduzir sempre de modo perfeito com 
sua mulher. E é mais raro perder-se alguém em 
estado de pobreza do que no seio de uma abun- 
dância que cumpre dispensar com sabedoria. 
O uso comandado pela razão é mais penoso do 
que a abstinência. A moderação é mais árdua 
do que o sofrimento. Há mil maneiras de viver 
a moda de Cipião, o Jovem; e uma só a exem- 
plo de Diógenes. Mas se esta supera em ino- 
cência a vida comum, sobreexcedem-na em 
utilidade e energia as que atingem a perfeição e 
a realização. 


CapíTULO XXXIV 


Observações acerca dos meios que Júlio César 
punha em prática na guerra 


Dizem, de vários grandes guerreiros, que 
tiveram preferência acentuada por certos auto- 
res. Alexandre, o Grande, apreciava Homero; 
Cipião, o Africano, gostava em particular de 
Xenofonte; Marco Bruto, de Políbio; Carlos 
V, de Commines; em nossa época Machiavelli 
é apreciado alhures; mas o falecido Marechal 
Strozzi que tinha predileção por César fizera 
sem dúvida a melhor escolha. Os comentários 
de César deveriam realmente constituir o bre- 
viário de todos os homens de guerra, pois ele 
próprio é o modelo soberano da arte militar. E 
Deus sabe com que graça e beleza adornou 
ainda essa matéria já tão rica em si. Seu estilo 
é tão puro e delicado, tão perfeito que, a meu 
ver, nenhum hã que se lhe compare. . Quero 
registrar aqui alguns feitos verificados durante 
as guerras por ele empreendidas e que me vêm 
a memória. 

Seu exército estava algo receoso com os 
boatos que corriam acerca da superioridade 
numérica das forças do Rei Juba. Em vez de 
combater a idéia, esforçando-se por diminuir 
os meios do inimigo aos olhos de seus solda- 
dos, reuniu-os e agiu de modo inteiramente 
diverso, dizendo-lhes que não se preocupassem 
mais com a importância das forças adversá- 
rias, porquanto já se informara com precisão a 
respeito: Enumerou-as então, exagerando-as 
considêrávelmente. Seguiu nesse ponto o con- 
selho de Ciro, em Xenofonte, pois o erro, se o 


inimigo se revela mais fraco do que se espera, 
não acarreta consequências sérias, ao passo 
que o contrário é grave. 

Acostumara seus homens a obedecer, sem 
procurarem controlar ou discutir as ordens do 
chefe, as quais só lhes eram comunicadas no 
momento da execução; e se porventura perce- 
biam algo comprazia-se em desiludi-los, modi- 
ficando na hora os seus projetos. Muitas vezes 
com tal fim, depois de determinar a etapa, 
prosseguia na marcha, principalmente quando 
o tempo era chuvoso. 


Tendo-lhe os suíços, no início da guerra na 


“Gália; solicitado permissão para atravessar 


um território sob jurisdição romana, e estando 
ele decidido a opor-se pela força a essa preten- 
são, recebeu muito bem os mensageiros e 
adiou a resposta por alguns dias, a fim de reu- 
nir suas tropas. Esses pobres homens ignora- 
vam a que ponto ele sabia aproveitar o tempo, 
pois costumava repetir que o talento essencial 
de um chefe consistia em tirar partido com 
eficiência das oportunidades. A que desen- 
volveu em seus feitos é realmente incrível, 
inimaginável. 

Não demonstrava grande escrúpulo em ilu- 
dir o inimigo sob a proteção de um tratado e 
não exigia de seus soldados outra virtude que 
não a da valentia, nem punia outros vícios, que 
não os da rêbeldia ou indisciplina. Amiúde, 
após a vitória, dava-lhes toda liberdade, 


340 


dispensando-os por algum tempo do serviço 
militar. Acrescente-se que, embora perfumados 
e requintados, não deixavam de se lançar 
impetuosamente à luta. Em verdade, gostava 
de vê-los com armas de alto preço e lhes forne- 
cia equipamento bordado de ouro e prata, a 
fim de que, para os conservar e defender, se 
mostrassem mais enérgicos. Tratava-os de 
“companheiros”, como nós, o que foi abolido 


por Augusto, o qual considerava que César o 
fizera em vista das exigências do momento, 
para agradar os que em suma Oo acompa- 
nhavam voluntariamente. (“Na travessia do 
Reno, César era general; .aqui ele é meu 
companheiro. O crime nivela os cúmpli- 
cesº'2)”) Mas esse tratamento não convinha 
mais à dignidade de um imperador ou de um 
general. E voltou a chamá-los “soldados”. 


A tal cortesia, juntava César grande severi- 
dade quando precisava punir. Tendo-se revol- 
tado a nona Legião perto de Placência, deter- 
minou César a sua dissolução e a degradou 
como ignominiosa, embora Pompeu ainda se 
encontrasse em armas, só a reconstituindo 
após reiteradas súplicas. Serenava os ânimos 
com sua autoridade e temeridade mais do que 
com espírito de conciliação. 


Quando se refere à travessia do Reno, para 
entrar na Germânia, diz que achando indigno 
do povo romano obrigar o exército a utilizar 
barcaças, mandou construir uma ponte a fim 
de que o atravessasse a pé. Foi então que cons- 
truiu essa ponte admirável a cujo respeito nos 
fornece tantos pormenores; pois em tudo o que 
fez, agrada-lhe sobremaneira informar-nos 
acerca da força criadora de sua imaginação 
em obras desse gênero. 


Verifiquei também que dava grande impor- 
tância às exortações que dirigia aos soldados 
no momento do combate, porquanto todas as 
vezes que explica ter sido surpreendido ou pre- 
cisado apressar-se, afirma que não pôde sequer 
arengar suas tropas. Antes da grande batalha 
que travou com os habitantes de Tournai, 
escreve: “César, depois de ter dado as últimas 
ordens, correu a um ponto qualquer a fim de 
exortar seus homens. Encontrando a décima 
Legião, pôde apenas dizer-lhe que se lembrasse 
de sua habitual valentia, que não se atemori- 
zasse e resistisse resolutamente aos esforços do 
inimigo; mas já este chegara ao alcance dos 
dardos, e César deu o sinal do ataque e correu 
para outro lado, continuando a animar os sol- 
dados. Encontrou-os em plena refrega.” Assim 
é que fala disso nesse trecho de sua obra. E é 
evidente que seu talento de orador lhe prestou 


512 Juvenal. 


MONTAIGNE 


bons serviços em diferentes circunstâncias. 
Mesmo em sua época essa eloquência militar 
era tão apreciada que muitos registraram seus 
discursos, Os quais assim se reuniram em volu-. 
mes e lhe sobreviveram. Sua linguagem pos- 
suía uma elegância particular, uma tal origina- 
lidade que as pessoas de sua intimidade, como 
Augusto, ao ouvir repetir o que recolhiam, 
reconheciam sem dificuldade as frases e 
mesmo as palavras que não eram dele. 

Da primeira vez que saiu de Roma nó 


“desempenho de uma função pública alcançou 


o Ródano em oito dias; viajava com um ou 
dois secretários em seu carro, os quais escre- 
viam sem cessar o que lhes ditava. Um servi- 
dor seguia atrás, com as armas. 

Mesmo atravessando simplesmente o país, 
mal se poderia fazê-lo com a rapidez com que 
o fez quando, abandonando a Gália e seguindo 
a retirada de Pompeu para Bríndisi, em dezoi- 
to dias dominou a Itália. Voltando então de 
Bríndisi a Roma, seguiu até os confins da 
Espanha onde o aguardavam dificuldades na 
guerra contra Afrânio e Petreio. Sitiou então 
Marselha que resistiu bastante e correu à 
Macedônia, batendo o exército romano em 
Farsália. Em perseguição a Pompeu alcança o 
Egito, que submete. Passa à Síria, combate 
Fárnaces, volta à Africa e desmantela os exér- 
citos de Cipião e Juba. Retornando à Itália, 
dirige-se novamente à Espanha onde vence os 
filhos de Pompeu: “mais rápido do que o 
relâmpago, mais resoluto do que o tigre ao 
qual arrancam os filhotes$'3?”. “Como um 
enorme rochedo que, solapado pelas chamas e 
arrastado pelos ventos, se precipita do alto da 
montanha até ao vale, saltando no declive in- 
greme com estrondo e levando de-arrastão ár- 
vores, rebanhos e pastores *1 4,” 

Falando do cerco de Avarico, diz que tinha 
por hábito acompanhar dia e noite o trabalho 
dos operários. Em todas as empresas de algu- 
ma importância, procedia ele próprio a reco- 
nhecimentos prévios; e nunca deixou que seu 
exército passasse por caminhos que não hou- 
vesse antes: observado pessoalmente. E, a acre- 
ditarmos em Suetônio, quando da invasão da 
Britânia foi o primeiro a medir a profundi- 
dade da água no local de desembarque. - 

Afirmava sempre que preferia uma vitória 
negociada a uma vitória pela força. Na guerra 
contra Afrânio e Petreio, ofereceu-lhe a sorte 
uma oportunidade que se lhe afigurou favorá- 
vel; afastou-a na esperança de que, pacien- 
tando um pouco e correndo menor risco, 
conseguiria melhor resultado. Nessa mesma 


813 Tucano. 
814 Virgílio. 


ENSAIOS — MW 


guerra fez uma coisa esp ntosa: obrigou o 
exército inteiro a atravessar um rio a nado, 
sem necessidade: “para voar ao combate, o 
soldado toma o caminho que não ousara se- 
guir na fuga. Molhado, cobre-se com as pró- 
prias armas e aquece, correndo, os membros 
entorpecidos pelo frio º1 5º 

Acho César um pouco mais prudente e 
circunspecto do que Alexandre. Este parece 
andar sempre à procura do perigo, corre-lhe ao 
encontro como uma impetuosa torrente que 
tudo leva de roldão: “Assim o Áufido que 
banha o reino de Dauno na Apúlia no tempo 
das chuvas, semelhante a um touro fogoso, 
rola suas águas torrenciais, ameaçando as sea- 
ras com o flagelo das devastações ve E ver 
dade que Alexandre já estava em plena ativi- 
dade na flor da idade, enquanto César, já 
maduro, apenas começava. Além disso, Ale- 
xandre era de temperamento mais sanguíneo, 
colérico e ardoroso, e que o vinho sobreexci- 
tava, vício de que sempre se absteve César. 


Entretanto, sempre que se fez necessário, 
César mais do que ninguém soube expor-se. 
Em mais de uma circunstância em que se 
empregou pessoalmente a fundo, pode-se vis- 
lumbrar nele a idéia de morrer para fugir à ver- 
gonha da derrota. Na grande batalha travada 
perto de Tournai, vendo sua vanguarda fraque- 
jar, precipitou-se violentamente contra o inimi- 
go sem sequer empunhar o escudo; e isso lhe 
aconteceu várias vezes. Vindo a saber que 
parte de suas tropas se achava cercada, atra- 
vessou disfarçado as linhas inimigas a fim de 
reconfortar os seus com sua presença. Tendo 
desembarcado em Dirráquio com reduzidas 
forças e vendo que o resto do exército, sob o 
comando de Antônio, se atrasava, resolveu ir 
buscá-lo, sob terrível tempestade, para passar 
despercebido, pois o inimigo dominava as 
águas e os portos da margem oposta; e reatra- 
vessou o braço de mar que acabara de cruzar. 

Entre as expedições por ele realizadas, múi- 
tas há que, pelos riscos corridos, ultrapassam 
qualquer aplicação judiciosa da arte militar. 
Assim empreendeu a conquista do Egito com 
efetivos muito pequenos e com estes mais tarde 
foi atacar as forças de Cipião e Juba, dez vezes 
superiores em número. Tais homens têm uma 
confiança como que sobrenatural em sua sorte, 
“e eis por que, referindo-se a esses empreendi- 
mentos ousados, dizia que convinha executãa- 
los sem indagar se deviam ou não ser tentados. 

Depois da batalha de Farsália, como hou- 
vesse embarcado antes seu exército, atravessou 
o Helesponto sem escolta. Cruzando em alto 


815 Tucano. 
818 Horácio. 


341 


mar com L. Cássio à frente de dez barcos de 
guerra, não somente teve a coragem de aguar- 
dá-lo, mas ainda foi ao seu encontro intiman- 
do-o a render-se, e o conseguindo. 

Quando empreendeu o cerco de Alésia, 
defendida por quarenta mil homens, toda a 
Gália ergueu-se contra ele com um exército de 
nove mil cavaleiros e duzentos e quarenta mil 
infantes. Era temeridade e sinal de uma con- 
fiança vizinha da loucura não desistir então do 
cerco e ousar enfrentar as mais formidáveis 
investidas. No entanto, enfrentou-as e depois 
de vencer os de fora, obteve a capitulação dos 
assediados. O mesmo ocorreu com Luculo em 
Tigranocerta, na sua guerra contra Tigranes, 
mas em condições diferentes, dada a moleza 
do inimigo. 

A propósito do cerco de Alésia, há que 
observar dois fatos notáveis. Em primeiro 
lugar o de terem os gauleses, após discussão da 
tática a seguir, desmembrado de seu exército 
boa parte das tropas, com medo de possível 
confusão. Parece na verdade estranho que 
pudessem temer a superioridade numérica, 
mas é razoável que se procure fazer com que 
os efetivos de um exército não sobreexcedam 
certos limites, em razão da dificuldade em o 
abastecer e impor rigorosa disciplina. Em todo 
caso é fácil verificar que esses exércitos de efe- 
tivos monstruosos nunca dão bons resultados. 
No dizer de Ciro, não é o número de homens e 
sim o número de combatentes em boas condi- 
ções de combater que assegura a vantagem na 
batalha. O resto somente perturba. Foi esse o 
motivo principal que levou Bajazé a iniciar a 
luta contra Tamerlão, embora a tanto se opu- 
sessem seus capitães; esperava que a confusão 
se introduzisse na imensa multidão que consti- 
tuía o exército inimigo. Scanderberg, perito na 
matéria, costumava dizer que dez a doze mil 
soldados de confiança deviam bastar a um 


- general capaz para resolver honrosamente 


qualquer situação. 

O segundo ponto está em que, contraria- 
mente ao que sucede em geral na guerra e 
manda a razão, Vercingetórige, comandante- 
chefe das Gálias em revolta, tomou a decisão 
de se enterrar em Alésia. Quem domina um 
país não deve nunca imobilizar-se assim, a 
menos de se achar forçado a isso por se tratar 
de seu último reduto. Deve conservar sua liber- 
dade de movimentos, a fim de ter a possibili- 
dade de atender às solicitações de sua adminis- 
tração. Com a idade, César tornou-se menos 
resoluto e mais prudente, como nos diz Ópio 
que vivia na sua intimidade, pois pensava que 
não devia comprometer tão grande renome 
com uma possível derrota. É o que exprimem 
os italianos quando desejam censurar a um 


342 


jovem essa dusadia peculiar à idade: ao teme- 
rário chamam então “bisognoso di onore”; 
sequioso dé glória. Quem não a tem ainda; 
procura alcançá-la a qualquer preço, enquanto 
mais avisado se mostra quem já a conquistou. 
Essa mudança observável em César podia pro- 
vir de uma visão equilibrada, bem como de 
certa fartura, porquanto também de honrarias 
se saciam os homens. 

César não pensava comôó os escrupulosos 
romanos antigos, Os quais ão queriam dever 
suas vitórias senão à própria Coragem. Contu- 
do, mostrava-se mais consciencióso do que nós 
em nosso tempo e não considerava que para 
chegar à vitória fosse lícito lançar mão de 


todos os meios. Na guerra contra Ariovisto es- 
tava em negociações quando se verificou um 
atrito entre os dois exércitos, provocado pelos 
cavaleiros gauleses. Disso resultou uma situa- 
ção muito vantajosa para César; não quis ele 
entretanto aproveitá-la para que não se lhe 
censurasse a má fé. 


Em combate véstia um costume de cores 
berrantes que o tornavam reconhecível de 
longe. Quando o inimigo se avizinhava, mos- 
trava-se muito mais severo e exigente de disci- 
plina com seus soldados. 


Outrora, quando desejavam acentuar a inca- 
pacidade de alguém, diziam os gregos que 
“não sabia nem ler nem nadar”. César achava 
também que saber nadar era muito útil na 
guerra. Quando queria ir depressa atravessava 
em geral a nado os rios que encontrava em seu 
caminho, e, como Alexandre, gostava de viajar 
a pé. No Egito, obrigado de uma feita a preci- 


pitar-se dentro de uma canoa para escapar do 
inimigo, tânta gente fez o mesmo que houve 
perigo de naufrágio e ele preferiu jogar-se ao 
mar e nadar até a frota que se encontrava a 
duzentos passos, o que fez segurando suas tá- 
buas de escrever na mão esquerda e nos dentes 
a sua cota, a fim de que o inimigo não se apo- 
derasse dela como troféu. E isso em já não 
sendo jovem. 


Em nenhum chefe militar tiveram os solda- 
dos tão grande confiança. No início de suas 
guerras civis, seus centuriões propuseram-lhe 
contribuir cada um com um soldado a mais e 
seu infantes servi-lo gratuitamente; os mais 
abastados auxiliavam os mais necessitados. 

Com o falecido Marechal de Châtillon*"”? 
tive a oportunidade de observar coisa seme- 
lhante: os franceses de seu exército arcavam 
com o soldo dos estrangeiros arregimentados. 
Não se encontrariam exemplos iguais entre os 


817 Mais conhecido por Almirante de Coligny. 


MONTAIGNE | 


à 


que continuam a obedecer à ordem estabele- 
cida, porque a paixão pode mais que a razão. 
No entanto aconteceu em Roma, durante a 
guerra contra Aníbal, que os guerreiros fize- 
ram o sacrifício de seu soldo e no campo de 
Marcelo tachavam de mercenários os que sé 
recusavam a fazê-lo. 

Tendo César fracassado em Dirráquio, seus 
soldados apresentaram-se espontaneamente 
para serem punidos, considerando-se culpados. 
E, no entanto, uma só coorte, ela própria dizi- 
mada, sustentara durante mais de quatro horas 
os ataques de quatro legiões de Pompeu. Nas 
trincheiras que defendia, encontraram-se cento 
e trinta mil flechas. Um soldado, que defendia 


uma dãs extremidades, aí se manteve sem arre- 
dar pé, com um olho vazado, o ombro & uma 
coxa feridos e o escudo marcado, ou amassado 
em duzentos e trinta lugares. Muitos de seus 
soldados aprisionados preferiram a morte a 
passar para o partido contrário. Grânio Petrô- 
nio fora feito prisioneiro na África por Cipião, 
o qual, depois de mandar executar todos os 
demais, ofereceu-lhe mercê. Assim agia porque 
Petrônio era homem de elevada condição so- 
cial e pretor. Mas este não aceitou e respondeu 
que os soldados de César tinham por hábito 
dar e não receber mercê. E com tais palavras 
suicidou-se. E o número desses exemplos de 
fidelidade é infinito. 


A conduta dos defensores de Salona, cidade 
que apoiava César contra Pompeu, é digna de 
menção. Marco Otávio dirigia o cerco; os 
sitiados estavam reduzidos à mais extrema 
penúria. Para suprir a falta de combatentes em 
sua maioria mortos ou feridos, deu-se liber- 
dade aos escravos. Para manobrar as máqui- 


nas de guerra cortaram os cabelos de todas as 
mulheres e com eles fizeram cordas. A tudo 
isso, juntava-se a carência de víveres. E, contu- 
do, estavam resolvidos à não sé render. Sua 
resistência já prolongara excessivamente o 
assédio e Otávio mostrava-se negligente. Sua 
vigilância afrouxara quando os sitiados, en- 


viando as mulheres para os baluartes a fim de 
que não parecessem abandonados, tentaram 
uma surtida e com tanta bravura a executaram 
que forçaram a primeira linha dos sitiantes, e a 
segunda e a todas enfim; obrigando-os a aban- 
donarem as trincheiras, perseguem-nos então 
impelindo-os a reembarcarem. O próprio Otá- 
vio teve de fugir até Dirráquio onde se encon- 
trava Pompeu. Não me vem à memória ne- 
nhum outro exemplo de sitiados que levassem 
de roldão os sitiantes e se tornassem senhores 
do campo de batalha, nem de outra surtida que 
acarretasse uma vitória tão nítida, tão com- 
pleta quanto se resultasse de batalha campal. 


ENSAIOS — II 


343 


CAPÍTULO XXXV 


Três boas mulheres 


As mulheres verdadeiramente boas não exis- 
tem às dúzias, como todos sabem. Em particu- 
lar, quando as encaramos do ponto de vista 
dos deveres matrimoniais, pois é o casamento 
um contrato tão espinhoso que dificilmente 
uma mulher mostra força de vontade suficiente 
para observá-lo. Um bom casamento reconhe- 
ce-se pela doçura, pela lealdade e vantagens 
que se verificam na união. Em nosso tempo as 
mulheres guardam comumente para depois de 
morto as gentilezas e afeição que devem ao 
marido: timbram então em ostentar seus gran- 
des sentimentos, manifestação sem dúvida tar- 
dia e inaproveitável. E com isso como que pro- 
vam não os amar senão porque morreram. A 
uma vida cheia de tormentos, sucede uma 
morte toda de amor e gentilezas. Assim como 
os pais disfarçam sua afeição pelos filhos, elas 
escondem a sua pelo marido atendendo às 
exigências das regras do decoro. Esse mistério 
não me agrada. Que se descabelem e lamen- 
tem, bastar-me-á indagar da camareira: “como 
viviam na intimidade?” Tenho sempre presente 
à memória esta sarcástica observação de Táci- 
to: “os que menos sentem são os que mais cho- 
ram”. Seus resmungos são odiosos aos vivos € 
inúteis aos mortos. De bom grado aceita- 
riamos que se rissem depois, conquanto hou- 
vessem sorrido durante a nossa vida. E não é 
de ressuscitarmos de despeito, ver aquelas que 
nos cuspiram no rosto, em vida, virem beijar- 
nos os pés, junto ao caixão? Se há alguma 
decência em chorar o marido, cabe às que lhe 
souberam sorrir. Mas que se riam agora as que 
gemeram antes, que se mostrem como são real- 
mente. Por isso não nos iludamos com os 
olhos úmidos e a voz chorosa; atentemos para 
o rosto cheio sob o véu, a tez, o jeito; aí se 
encontra a sinceridade. Poucas há em tais 
circunstâncias, cuja saúde não melhore grada- 
tivamente e tal indício não mente. A atitude 
circunstancial visa antes o futuro que o passa- 
do; tem por fim antes comprar que pagar. Em 
minha infância, uma senhora honesta e bela, 
viúva de um príncipe, e que ainda vive, usava 
não sei que adorno que não se vê nas viúvas. À 
quem lho censurava, respondia: “é porque não 


viso novas conquistas e não pretendo casar-me 
de novo”. 

Para não sair de meus hábitos escolhi aqui 
três exemplos de mulheres que choraram tam- 
bém seus maridos mortos, mas cujas atitudes 
pouco vulgares implicam em uma revelação de 
sua vida. Plínio, o Jovem, tinha um vizinho, 
nas suas propriedades, gravemente ulcerado 
nas partes que a decência manda esconder. 
Vendo-o definhar, pediu-lhe a mulher que a 
deixasse examiná-lo, pois lhe diria, mais fran- 
camente do que outrem, que esperanças podia 
ainda alimentar. Ele consentiu. Depois de 
observá-lo atentamente, ela considerou que a 
cuta era impossível e aconselhou-o a que se 
matasse, porquanto iria agonizar lentamente, 
dolorosamente, durante muito tempo ainda. 
Achando-o algo hesitante em aceitar solução 
tão radical, disse-lhe: “não penses, meu amigo, 
que as dores de que padeces não me doem 
tanto quanto a ti, e que, para escapar a elas, 
não queira tomar o mesmo remédio que te 
recomendo. Acompanhar-te-ei na cura como 
na doença. Nada temas, portanto, e pensa no 
prazer que experimentaremos nesta passagem 
da vida para a morte, com a qual nos liberta- 
remos de nossos tormentos; será uma viagem 


feliz que faremos juntos”. Isso dito e tendo ani- 
mado o marido, decidiu que se precipitariam 
ao mar do alto de uma janela de sua residên- 
cia, e para demonstrar-lhe até o fim a leal e 
ardente afeição que lhe dedicava, quis que ele 


morresse em seus braços, mas de medo que lhe 
faltassem forças para tanto e se relaxasse o 
abraço supremo na queda, mandou que a 
amarrassem a ele pela cintura, abandonando 
assim a vida em proveito da serenidade espiri- 
tual do marido. 


Essa mulher era de origem humilde e entre 
as pessoas dessa condição social, tais gestos de 
requintada beleza não são tão raros: “é para a 
gente pobre que a justiça, fugindo de nossas 
regiões, dirige seus passos 818”, 

Os dois outros casos são de mulheres nobres 


818 Virgílio. 


344 


e ricas, entre as quais não abundam exemplos 
de virtude. ! 

Árria, mulher do Cônsul Cecina Peto, era 
mãe de uma outra Árria, esposa de Tráseas 
Peto, cuja virtude alcançou grande fama no 
tempo de Nero, e por esse genro tornou-se avó 
de Fânia. Estas explicações são necessárias 
porquanto a similitude de nomes e condições 
sociais tem provocado confusões. Tendo sido 
aprisionado Cecina Peto, após a derrota de 
Escriboniano, cujo partido abraçara contra o 
Imperador Cláudio, Árria, sua mulher, pediu 
aos que o conduziam que a deixassem embar- 
car com ele, pois seria menos incômoda e 
custaria menos do que a criadagem que deve- 
riam contratar para o serviço do marido. E 
comprometeu-se a tratar sozinha do quarto 
dele, da comida e do resto. Recusaram. Árria 
alugou então um barco de pescador e assim o 
acompanhou desde a Esclavônia. Estavam em 
Roma, quando um dia, na presença do impera- 
dor, Júnia, viúva de Escriboniano, invocando o 
comum infortúnio, interpelou-a familiarmente. 
Árria atalhou com violência: “queres que te 
fale, que te ouça, tu em cujos braços Escribo- 
niano foi morto e que vives ainda!” Tais 
palavras, e outros indícios, levaram, a pensar 
que, não podendo suportar a desgraça do mari- 
do, ela projetasse atentar contra a própria 
vida. Tráseas, seu genro, suplicou-lhe então 
que renunciasse à sua intenção, dizendo-lhe: 
“se eu estivesse no caso de Cecina, gostarias 
que minha mulher fizesse o mesmo?— “Se 
gostaria? Por certo gostaria, se ela tivesse vivi- 
do contigo na mesma harmonia em que eu vivi 
com meu marido.” Essas respostas faziam que 
dobrassem a vigilância e a seguissem de perto. 
Um dia, em que ela acabava de dizer aos que a 
vigiavam: “Podeis tornar minha morte mais 
dolorosa, mas, impedi-la, não”, jJogou-se com 
todas as forças de sua cadeira e foi dar com a 
cabeça na parede, caindo desfalecida e grave- 
mente ferida: “Bem vos dizia” afirmou ao vol- 
tar a si “que se me impedirdes de recorrer a um 
meio fácil, outro mais difícil encontrarei para 
morrer.” E eis como acabou essa mulher tão 
admiravelmente corajosa: Peto, seu marido, 
não tendo ele próprio a coragem necessária 
para decidir-se pela morte a que a crueldade 
do imperador o impelia, Árria, a fim de cate- 
quizá-lo e levá-lo à resolução imperiosa, 
tomou do punhal que ele trazia à cinta e, 
exibindo-o, exclamou à maneira de exortação 
final: “Faze assim, Peto”, e no mesmo instante 
afundou a arma no seio. Em seguida, arran- 
cou-a da ferida e exalou o último suspiro 
pronunciando estas generosas palavras que se 
tornaram imortais: “Paeto, non dolet” (Peto, 
não dói). Quando a casta Árria apresentou ao 


MONTAIGNE | 


marido a lâmina que arrancara do seio, disse: 
“Acredita-me, Peto, este golpe não me doeu, o 
que me dói é o que te vais dar por tua vez *'º.” 
As palavras que ela realmente pronunciou são 
bem mais expressivas e sublimes do que a 
paráfrase do poeta. Não a preocupavam em 
verdade a sua morte e a do marido, que dese- 


java e arquitetara, o que a inquietava era o 
temor que ele pudesse ter. Peto matou-se com 
o mesmo punhal, mas a meu ver é vergonhoso 
que tivesse tido necessidade de um tal exem- 
plo. 


Pompéia Paulina, jovem e mui nobre dama 
romana, casara com Sêneca então já em idade 
avançada. Nero, o “belo” discípulo desse filó- 
sofo, enviara-lhe ordem de se matar, o que 


assim se fazia: quando o imperador condenava 
um personagem importante, ordenava-lhe por 
intermédio de um oficial que escolhesse o gê- 
nero de morte e se matasse dentro de um prazo 
determinado, de acordo com o grau de ressen- 


timento, dando-lhe tempo para tratar de seus 
negócios ou ao contrário impedindo-o de fazê- 
lo. Se a vítima não concordava em obedecer, o 
oficial autorizava os carrascos que o acompa- 
nhavam a abrirem-lhe as veias dos pulsos e das 
pernas ou o forçava a engolir algum veneno. 
Mas os homens de honra não se expunham a 
tais medidas e recorriam a seus próprios cirur- 


giões. Sêneca acolheu o mensageiro calma- 
mente. Pediu papel para escrever seu testa- 
mento, o que lhe foi recusado. Voltando-se 
então para seus amigos, disse-lhes: “visto que 
não vos posso nada deixar em sinal de grati- 
dão pelo que vos devo, entrego-vos pelo menos 
o que tenho de mais belo, a imagem de minha 
vida que' vos suplico guardardes em vossa 


memória, a fim de conquistardes a honra de 
ser verdadeiros e sinceros amigos”. Ao mesmo 
tempo procurava aplacar-lhes o sofrimento 
com palavras de reconforto: “onde estão” 
indagava “os belos preceitos filosóficos acu- 
mulados durante tantos anos para assegurar- 
nos contra os acidentes da sorte? Ignoráveis 
“porventura a crueldade de Nero? Que podía-- 
mos esperar mais de quem matou a mãe e o 


irmão, senão que matasse igualmente seu 
preceptor?” Depois destas palavras que se 
endereçavam a todos, voltou-se para a esposa 
e abraçou-a estreitamente. Como ela se sen- 
tisse desfalecer, pediu-lhe ele que suportasse 
com mais resignação a desgraça, afirmando- 
lhe que chegara a hora de provar com atos e 
não com dissertações a verdade de seus estu- 
dos, os quais determinavam que se acolhesse a 


519 Marcial. 


ENSAIOS — II 


morte não somente sem revolta mas ainda com 
alegria: “não a desonres pois com tuas lágri- 
mas, amiga, para que não imaginem que amas 
mais a ti mesma do que a minha reputação. 
Acalma tua dor, consola-te com o que sabes de 
mim e de meus atos; con“inua a praticar até o 
fim as honestas tarefas a que te dedicaste”. Ao 
que Paulina, voltando a si respondeu: “não, 
Sêneca, não vos recuso minha companhia 
nesta situação; não quero ver-vos pensar que 
os virtuosos exemplos de vossa vida não me te- 
nham ensinado a bem morrer. E como poderia 
demonstrá-lo melhor, senão morrendo convos- 
co? Crede-me, portanto, direi adeus à vida ao 
mesmo tempo que vós”. Sêneca, atentando 
para a bela e generosa vontade de sua mulher, 
vontade que o libertava da apreensão de dei- 
xá-la entregue aos seus inimigos, replicou: 
“Aconselhava-te o que melhor convinha à tua 
felicidade; preferes a honra de morrer; em ver- 
dade não te posso negá-la. Demonstramos um 
e outro idêntica resolução, mas a tua é mais 
bela e gloriosa.” Cortaram-lhes então, a 
ambos, as veias dos pulsos. Mas, Sêneca, por 
causa da idade e das privações que se impunha 
tinha a circulação mais lenta; determinou por 
isso que lhe cortassem também as veias da 
coxa. E para que seus sofrimentos não pertur- 
bassem-sua mulher, bem como a fim de poupar 
a si mesmo o espetáculo do desfalecimento 
dela, disse-lhe amorosamente adeus e pediu 
que o transportassem para outro aposento. 
Entretanto, como as incisões não bastassem 
para matá-lo, ordenou a seu médico Estácio 
Aneo, que lhe preparasse um veneno, e o 
tomou sem resultado, porquanto em virtude da 
extrema fraqueza em que se achava e do frio 


que já lhe paralisava os membros, não lhe so-. 


freu os efeitos. Colocaram-no, em conse- 
quência, em uma banheira de água bem quen- 
te. Sentindo então aproximar-se o fim, quis 
aproveitar seus últimos momentos emitindo os 
mais belos comentários acerca de seu estado, e 
seus secretários os registraram enquanto lhe 
puderam ouvir a voz. Tais palavras foram 
rememoradas muito tempo ainda após sua 
morte, e é lamentável que não tenham chegado 
até nós. : 

Ao perceber que ia enfim falecer, tomou um 
pouco de àgua ensangientada e soltando-a 
sobre os cabelos, disse: “dedico esta ablução a 
Júpiter”. Nero, a par de tudo o que ocorria, 
minuto por minuto, e receoso de que a morte 
de Paulina, que era uma senhora romana de 
alta linhagem e contra quem, de resto, não ali- 
mentava nenhuma inimizade, se tornasse moti- 
vo de revolta contra ele, mandou apressada- 
mente que a socorressem. Foi o que fizeram, 
sem que ela o percebesse, pois já se achava 


345 


semimorta. Paulina continuou portanto a 
viver, contrariamente à sua resolução, e sua 
vida decorreu honradamente como fora de se 
prever, dada tão grande virtude. Mas seu rosto 
permaneceu lívido, atestando quão perto esti- 
vera da morte. 

Eis minhas três histórias, todas verdadeiras, 
e tão trágicas e interessantes quanto as que 
inventamos para distrair o público. E espanta- 
me que os que se dedicam a isso, não as co- 
lham na realidade em vez de as inventar. Pois 
assim teriam menos trabalho e tirariam delas 
maior proveito. Quem com elas quisesse escre- 
ver uma obra, teria apenas que as ligar umas 
as outras, como com a solda se unem dois 
fragmentos de metais diferentes. Poderia assim 
juntar ocorrências de toda sorie, dispondo-as 
de acordo com as exigências da obra, mais ou 
menos como fez Ovídio com suas 
“Metamorfoses”. 

No caso de Sêneca e Paulina, é de se notar 
que se ela se propôs, por amor ao marido, 
abandonar voluntariamente a vida, também 
por amor a ela, ele outrora renunciara a mor- 
rer. Na minha opinião, não há equivalência 
entre tais propósitos, mas dadas as idéias 
estóicas de Sêneca creio que, prolongando a 
vida por causa dela, ele imaginava ter feito 
tanto quanto se por ela morresse. 

Em uma de suas cartas a Lucilio, conta-lhe 
Sêneca da febre que teve em Roma. Tomando 
seu carro dirigiu-se imediatamente para sua 
casa de campo, apesar da oposição da mulher. 
Mas ele atalhou que a febre tinha uma causa 
local e seguiu. Eis o que diz: “deixou-me ir, 
demorando-se em recomendações acerca de 
minha saúde; ora, sabendo que ela só vive para 
mim, tratando-me é dela que trato. Devo à 
velhice ter adquirido, em certas coisas, maior 
firmeza e resolução; mas isso de nada me serve 
quando penso que, velho, cumpre poupar-me 
por causa de uma jovem mulher. Não conse- 
guindo torná-lã mais corajosa no amor que me 
dedica, sou forçado a encarar de outra maneira 
o que dedico a mim mesmo. É preciso fazer 
algumas concessões às afeições honestas, 
ainda que as circunstâncias nos incitem a agir 
de modo inverso. É preciso então que nos ape- 
guemos à vida, apesar do sofrimento que senti- 
mos com tal resolução; cumpre-nos segurar 
com os dentes a alma pronta para fugir, pois, 
para a gente de bem, viver é uma obrigação 
que lhes é imposta. Não é um prazer mas um 
dever. Quem não estima bastante sua mulher 
ou seu amigo para continuar a viver, quem se 
obstina em morrer, é demasiado fraco de cará- 
ter e carece de energia. É necessário que a 
alma o aceite, quando os nossos o desejam. É 
preciso por vezes atender aos amigos, e, ainda 


346 MONTAIGNE 


que nos convenha morrer, devemos, por eles, 
sustar a decisão. É prova de generosidade e 
coragem aceitar a existência em benefício de 
outrem, como o demonstraram ilustres perso- 
nagens. Damos provas de bondade muito par- 
ticular ao concordar com a velhice (cuja maior 
vantagem está na precariedade de sua duração, 
a qual nos dutoriza a dispor da vida com mais 
coragem e' “desdém) quando sentimos que à 
carga que“assim aceitamos é doce, agradável e 
útil aos com quem nos afeiçoamos. Haverá 
melhor recompensa para esse sacrifício do que 


nos sabermos queridos de nossa mulher, 
ponto de por ela nos tornarmos mais queridos 
de nós mesmos? Assim é que Paulina me 
impôs a carga de seus temores e dos meus. 
Não me foi mais permitido considerar apenas 
quanto a morte correspondia a meus desejos; 
tive de encarar também a aflição que lhe cau- 
saria e aceitei a obrigação de viver. Consentir 
em viver é por vezes um ato de magnanimida- 
de”. Eis o que escreve, excelente em si e na sua 
aplicação. 


CapíTULO KKXVI 


Dos homens preeminentes 


Se me pedissem para fazer uma seleção 
entre os homens que admiro, possivelmente 
daria preferência a três, colocando-os acima 
dos demais. Um é Homero, mas não porque 
Aristóteles ou Varro tenham sido menos sã- 
bios, nem porque Virgílio não lhe seja compa- 
rável em sua arte. Quanto a este ponto, 
Julguem-nos os que conhecem a ambos. Co- 
nhecendo somente um º2º, parece-me que não 
possam as próprias musas ultrapassar o poeta 
latino: “canta com sua douta lira versos seme- 
lhantes aos que o próprio Apolo modula na 
sua *21?. Todavia, embora assim julgando, não 
devo esquecer que Virgílio muito deve a 
Homero, que o teve por guia e mestre e que de 
um trecho da Ilíada tirou e desenvolveu sua di- 
vina Enéida. Mas não calculo assim, levo em 
conta as particularidades diversas que fazem 
de Homeró um poeta admirável e como que 
acima dos humanos. E em verdade estranho 
que, tendo criado e imposto ao mundo tantas 
divindades, não tenha sido ele próprio guin- 
dado ao nível dos deuses. Era cego e indigente, 
e viveu em uma época em que as ciências não 
estavam ainda codificadas nem suas observa” 
ções comprovadas. Conheceu-as entretanto 


tão bem, que quem depois se abalançou a 
organizar a administração de um país, a fazer 
guerras, a escrever sobre religião, filosofia, 
artes a ele se referiu como a uma autoridade 
segura, valendo-se de seus livros como de uma 
biblioteca imponente: “diz-nos melhor do que 
Crisipo e Crantor em que consiste o homem, o 


82º Montaigne lia os gregos em tradução latina. 
821 Propércio. 


que cumpre fazer ou evitar 922º. Ele é, como 
diz Ovídio “a fonte inesgotável em que os poe- 
tas vão embriagar-se com as águas sagradas de 
Permesse?. Ou ainda: “entre os companheiros 
das musas, Homero é reis23”. E outro: 
“abundante manancial dos versos da posteri- 
dade, rio imenso dividido em mil riachos, 
herança de um só que a todos beneficia 82 *?. 

É contrário à natureza das coisas, ter ele 
produzido a melhor das obras criadas pelo 
espírito humano, pois em geral tudo é imper- 
feito em sua origem e só se fortalece e amplia 
na medida em que se desenvolve. Com ele 
entretanto a poesia e as ciências surgem já per- 
feitas. Por isso mesmo podemos considerá-lo o 
primeiro e o último poeta, porque, segundo o 
belo testemunho da antiguidade, não imitou 
ninguém nem ninguém o pôde imitar. Suas 
expressões, no dizer de Aristóteles, são as mais 
admiráveis na pintura do movimento e da 
ação, e suas palavras todas significativas. 

Alexandre, o Grande, tendo deparado com 
um cofre riquíssimo nos despojos de Dario, 
ordenou que o guardassem para Homero, afir- 
mando ser este seu conselheiro, e o mais fiel, 
quanto à arte militar. “Por essa mesma razão, 
por ser muito bom mestre em questões ligadas 
à arte militar, é o poeta dos lacedemônios”, 
dizia Cleômenes, filho de Anaxandridas. Plu- 
tarco, igualmente, elogia-o de modo particular 
e bem pessoal: “o único autor no mundo que 
não tenha nunca aborrecido seus leitores, aos 


s24 Manílio. 
822 Horácio. 
523 Lucrécio. 


ENSAIOS — II 


quais se mostra sempre sob um aspecto novo” 
Alcibíades, amante das excentricidades, tendo 
pedido um exemplar de IHomero a alguém que 
se jactava de ser profissional das letras, apli- 
cou-lhe uma bofetada porque o não possuia, 
pois julgava o fato tão condenável quanto o de 
um sacerdote não ter seu bréviário. 

Xenófanes queixava-se de uma feita a Hie- 


ron, tirano de Siracusa, de'sér tão pobre que, 


não podia sustentar dois escravos: “Como” 
respondeu Híieron “Homero que era muito 
mais pobre sustenta dez mil, apesar de morto.” 
E que grande homenagem rendia Platão a 
Panécio chamando-o de “Homero dos filóso- 
fos”! Que outra glória pode comparar-se à 
sua? Nada se encontra mais comumente do 
que seu nome e suas obras nos discursos dos 
homens. Nada se conhece mais do que Tróia, 
Helena e suas guerras que talvez não hajam 
existido sequer. Nossos filhos ainda usam 
nomes que ele inventou há três mil anos. Quem 
ignora Heitor e Aquiles? E não são apenas 
algumas raças que fazem remontar sua origem 
aos personagens que criou: a maioria das 
nações reivindica igual honra. Maomé JJ, 
imperador dos turcos, escrevia a Pio II: 
“estranho que os italianos se aliem contra 
mim, não descendemos nós ambos dos troia- 
nos? E não temos o mesmo interesse em vingar 
a morte de Heitor? No entanto sustentáis os 
gregos contra os de meu sangue”. Não vos pa- 
rece cheia de nobreza essa obra da imaginação 
que cria um palco no teatro do universo, em 
que desempenham há séculos os' mesmos 
papéis todos os povos e monarcas? Sete cida- 
des disputam a honra de o ter visto nascer: 
Esmirna, Rodes, Cólofon, Salamina, Quio, 
Argos e Atenas. 


O segundo desses homens superiores é Ale- 


xandre, o Grande. Considerem-se com efeito a 
idade em que iniciou suas conquistas; os redu- 
zidos meios de que dispunha para levar a cabo 
tão gloriosa empresa; a autoridade que impôs, 
“ainda adolescente, aos capitães que o seguiam, 
e eram os maiores da época; os êxitos extraor- 
dinários que a sorte lhe proporcionou e entre 
os quais alguns houve por assim dizer temerá- 
rios: “abatia tudo o que se opunha à sua ambi- 
ção e comprazia-se em abrir caminho através 
das ruinas 25”, Que coisa grandiosa ter 
percorrido, com trinta e três anos, todo o 
mundo conhecido em seu tempo, e alcançado 
em uma metade de vida: normal o máximo a 
que aspira um homem! E pode-se imaginar o 
que aconteceria se sua existência se houvesse 
prolongado, seu valor e sua boa sorte cres- 


cendo na mesma proporção! Já é-muito ter. 


525 Tucano. 


347 


feito de seus soldados os fundadores de tantas 
casas reais, e deixado, ao morrer, o mundo a 
quatro de seus capitães, os quais durante tanto 
tempo ainda conservaram seus tronos. Quan- 
tas virtudes tinha, de primeira ordem! Justiça, 
temperança, generosidade, fidelidade à palavra 
dada, amor aós seus, humanidade com os ven- 
cidos. Seus costumes parecem, em verdade, 
não ter sido manchados por nenhum vício, e 
alguns de seus atos foram extraordinários, 
raramente vistos. Mas é impossível conduzir 
massas tão grandes sem jamais se afastar das 
regras da justiça, e as pessoas que, como ele, 
têm a incumbência de distribuí-la, precisam: ser 
julgadas de um modo geral, segundo a idéia 
mestra que preside seus atos. Contudo, a 
destruição de Tebas, os assassínios de Menan- 
dro e do médico de Heféstion, e o massacre de 
tantos prisioneiros persas, € daqueles indianos 
que se comprometera a poupar,'e dos cossea- 
nos que foram exterminados com os próprios 
filhos de peito, constituem atos impulsivos 
indesculpáveis. Quanto à morte de Clito, a 
reparação ultrapassou o erro, o que revela, 
com outros gestos, o fundo natural de bondade: 
de seu caráter. E foi com tanto espírito quanta 
verdade que dele se disse, “provirem suas qua- 
lidades da natureza e seus vícios de seus êxi- 
tos”. Apreciava demasiadamente a lisonja e 
era um tanto exageradamente sensível à críti- 
ca. O que fez na Índia, abandonando armas e 
arreios para assinalar sua passagem, pode atri- 
buir-se à idade e aos seus êxitos espantosos. 
Considerem-se também suas qualidades milita- 
res tão numerosas: a diligência, a previdência, 
a magnanimidade, a resolução, o respeito à . 
disciplina, a paciência, a sagacidade, a sorte 

que fariam dele o maior guerreiro, ainda que 
Aníbal com sua autoridade não o houvesse 
proclamado; considerem-se sua beleza excep- 
cional, suas qualidades físicas, seu porte impo- 
nente, que impunham respeito, embora seu 
rosto fosse jovem e corado: “semelhante ao 
astro brilhante da manhã, astro que Vênus pre- 
fere a todos os demais do firmamento, quando 
saindo do oceano se ergue majestoso e dissipa 
as brumas da noite 528”: e ainda seu saber e 
sua capacidade que tudo abarcavam; a dura- 
ção e a grandeza de sua glória pura, sem man- 
cha, que a inveja não atingiu; considere-se que 
muito tempo depois de sua morte ainda se pen- 
sava supersticiosamente que suas medalhas 
davam sorte; que mais reis e príncipes escreve- 
ram seus feitos que historiadores os de outro 
qualquer; qué os maometanos, que desprezam 
todas as lendas, aceitam e respeitam a sua; 
tudo isso, em conjunto, mostra que tenho 


526 Virgilio. 


348 


razão em preferilo ao próprio César, único 
que pudera fazer-me hesitar na escolha, pois 
não há negar que a personalidade deste teve 
maior participação nos seus feitos, ao passo 
que Alexandre os deve mais aos fados. Iguais 
em tudo, talvez ganhe César sob certos aspec- 
tos. Foram dois incêndios, duas torrentes que 
devastaram o mundo em lugares diversos. 
“Como fogos acesos em diferentes pontos de 
um bosque cheio de gravetos e folhas secas 
crepitantes, ou cemo torrentes impetuosas 
rolando com estrondo e espuma do alto da 
montanha, em direção ao mar, após tudo haver 
devastado pelo caminho *2 7) 


Mas, ainda que a ambição de César tenha 
sido mais moderada, causou tanta infelicidade 
a seu país e ao mundo que, bem pesados 
ambos, não posso deixar de manifestar-me a 
favor de Alexandre. 


O terceiro £, a meu ver, o melhor de todos, é 
Epaminondas. Não goza, nem de longe, a fama 
de muitos outros, mas isso não me parece 
essencial. E em matéria de coragem e resolu- 
ção, não essas que a ambição excita, mas as 
que a sabedoria e a razão inspiram, tinha-as 


tanto quanto possível. E deu provas dessas vir- 
tudes, como Alexandre ou César. Embora seus 
feitos guerreiros não tenham sido nem tão 
numerosos nem tão importantes, deixam de se 
evidenciar, dadas as circunstâncias, igual- 


mente sérias, testemunhando as dificuldades 
que lhe coube vencer, grande ousadia e talento 
militar. Os gregos honraram-no com o titulo 
de “maior dos gregos” e ser o maior na Grécia 
correspondia a ser o maior no mundo. Quanto 
à sua inteligência, temos idéia dela por este jul- 
gamento de um contemporâneo: “Nunca nin- 


guém soube tanto e falou tão pouco”, pois per- 
tencia à seita de Pitágoras. Sempre que falou 
ninguém disse melhor; era excelente orador e 
tinha o dom de persuadir. No que concerne aos 
costumes e à consciência, ultrapassou de 
muito todos os que participaram da gestão dos 
negócios públicos, pois nesse ponto essencial, 
que dá a medida real de nosso valor, ele 
contrabalança os demais, e não fica abaixo 
nem mesmo de Sócrates. Nele a pureza era a 
qualidade precípua, soberana, constante, in- 
corruptível, diante da qual a de Alexandre se 
afigura inferior, indecisa, variável, frouxa. 


Julgou a antiguidade que, analisando um a 
um os grandes capitães, encontraria em cada 
um deles a qualidade específica que o tornara 
ilustre. Em Epaminondas virtude e capacidade 
se igualam; em nenhuma circunstância de sua 


s27 Id. 


MONTAIGNE | 


existência deixa algo a desejar; tanto na vida 
pública como na vida privada, na paz como na 
guerra; e não conheço nenhum destino huma- 
no que eu mais honre e aprecie, qualquer que 
seja o aspecto por que o encare. 


Considero, é certo, demasiado escrupulosa 
sua obstinação em permanecer pobre, e seus 


melhores amigos também o consideravam. 


Esse sentimento, tão elevado e digno de admi- 
ração, é o único ponto que, pelo exagero, se 
presta à crítica. E não gostaria de imitá-lo 
nisso. 

Cipião Emiliano, se tivesse tido um fim tão 
glorioso quanto o dele, e conhecimento tão 
aprofundado das ciências, seria o único digno 
de comparação com Epaminondas. Quanto 
lamento que o paralelo estabelecido por Plu- 


tarco entre essas vidas, exatamente as mais no- 
bres entre as que escreveu, do maior dos gre- 
gos e do maior dos romanos, se tenha perdido. 
Que magnífico tema, e que esplêndido artífice ! 


Se buscarmos, porém, um homem que não 
seja um santo, mas tão-só alguém de costumes 
honestos e grandeza moderada, o de vida mais 
bela a meu ver, e mais rica em aspectos notá- 
veis, é Alcibiades. 


Para comprovar a excelência de Epaminon- 
das, indicarei aqui mais algumas de suas 
maneiras de ver. A maior satisfação de sua 
vida consistiu, segundo diz ele próprio, no pra- 
zer que tiveram seus progenitores quando de 
sua vitória em Leuctras. Orgulha-se mais do 
contentamento dos pais que do seu próprio que 
fora muito justificável, em feito tão glorioso! 
“Não julgava lícito, ainda que com o objetivo 
de libertar seu país, mandar matar alguém sem 
previamente julgá-lo.” Eis por que mostrou tão 
pouco interesse em se juntar a seu amigo Peló- 
pidas na conjuração urdida para a libertação 
de Tebas. Considerava também que, numa 
batalha, se devia evitar de encontrar algum 


amigo entre os adversários, para não ser força- 
do a poupar-lhe a vida. Sua humanidade para 
com os próprios inimigos tornou-o suspeito 
aos beócios, quando, tendo, por milagre, obri- 
gado os lacedemônios a franquearem os desfi- 
ladeiros próximos de Corinto, se contentou 
com passar, sem os perseguir até a extermina- 
ção. Por isso foi destituido do cargo de 
capitão-general, revogação que-o honra gran- 
demente dada a razão invocada, e em verdade 
os que a haviam decretado viram-se constran- 
gidos a reconduzi-lo ao cargo, reconhecendo 
que dele dependiam sua salvação e sua glória, 
pois a vitória acompanhava-lhe os passos. E 
assim como nascera com ele, com ele se extin- 
guiu a prosperidade de sua pátria. 


ENSAIOS — II 349 


CapíTuLO XXX VII 


Da semelhança dos filhos com os pais 


Só ponho a mão no feixe de peças diversas 
deste livro, quando não tenho nada mais a 
fazer; e nunca fora de casa. Daí, ter-se ele 
completado através de repetidas soluções de 
continuidade, pois as circunstâncias me têm 
obrigado a ausências consecutivas, não raro de 
meses. Aliás, nunca substituo novas idéias 
pelas primeiras: pode ocorrer-me que mude 
uma palavra, a fim de variar minha expressão, 
mas não que modifique os próprios pensamen- 
tos. Quero mostrar a evolução destes, quero 
que os acompanhem desde a origem, e lamento 
não ter começado antes de maneira a poder 
segui-los em seus desenvolvimentos sucessivos. 
Um lacaio a quem costumava ditá-los, pensou 
pregar-me uma boa peça roubando-me alguns 
fragmentos que escolheu a dedo. Consolo-me 
com saber que nisso não ganhará mais do que 
eu perdi. 

Desde que iniciei este livro, fiz-me mais 
velho de sete ou oito anos, o que não se verifi- 
cou sem novas aquisições. Assim é que me 
deram os anos algumas cólicas nefríticas, que 
a companhia da idade nunca deixa de produzir 
frutos dessa ordem. Entre os diversos presentes 
que os anos têm por hábito oferecer-nos, gosta- 
ria que me houvessem reservado outro mais de 
minha conveniência: não podiam dar-me ne- 
nhum que eu detestasse mais, e isso desde a 
infância; era precisamente o que eu mais 
temia. 

Muitas vezes, pensei com meus botões que 
já ia demasiado longe no caminho da vida; que 
em tão longa jornada não me podia deixar de 
ocorrer algum desagradável encontro. Senti-o 
e protestava contra, dizendo para mim mesmo 
que chegara a hora de partir; que é preciso 
interromper a existência, cortando-a no vivo e 
na parte ainda sã, como fazem os cirurgiões; 
que quem não devolve, em tempo certo, a vida 
que lhe é emprestada pela natureza, paga a dí- 
vida com juros de usura. Entretanto, ainda an- 
dava tão longe de estar preparado para a parti- 
da, que começo a adaptar-me a tão 
desagradável situação, apesar de já vir esta 
durando há cerca de dezoito meses. Ajeitei-me 
a essas dores que se tomaram companheiras 
inseparáveis e nelas deparo com motivos de 


consolação e esperanças; os homens andam 
tão sordidamente afeiçoados à sua miserável 
vida que tudo aceitam conquanto a conservem. 
Escutai o que diz Mecenas: “que não possa 
mais servir-me das mãos, nem dos pés, que 
seja um aleijado e tenha perdido os dentes, 
pouco importa! Tudo irá bem, conquanto 
viva?, 

Tamerlão, a fim de disfarçar com tola 
humanidade a crueldade com que matava a 
quantos leprosos encontrava, dizia que era 
para libertá-ios de uma vida demasiado dolo- 
rosa. Como se houvesse leproso que o não pre- 
ferisse ser três vezes mais do que morrer ! 

Muito doente, Antiístenes, o cínico, exclama- 
va: “quem me livrará de meus males?” Dióge- 
nes que Oo viera visitar apresentou-lhe uma 
faca, observando: “isto, e de imediato se quise- 
res”. “Não peço que me arranquem a vida” 
respondeu o filósofo “mas tão-somente os 
males.” Os .sofrimentos que só afetam a alma 
atuam menos sobre mim do que sobre a maio- 
ria dos homens, em parte porque certas coisas 
que o mundo considera horríveis, e procura 
evitar com o sacrifício da própria vida, me são 
inteiramente indiferentes; e em parte porque, 
por temperamento, sou insensível aos aciden- 
tes que não acarretam dor, o que se me afigura 
um privilégio. Quanto aos sofrimentos físicos, 
a que não podemos obviar, sou, ao contrário, 
extremamente sensível. Mas, outrora, encaran- 
do-os com esse olhar amedrontado, e que o 
longo período de saúde que Deus me propor- 
cionou tornara mais timido ainda, concebi-os 
tão temíveis e intoleráveis que em verdade foi 
então maior o receio do que o mal ocorrido 
depois; o que me confirma na idéia de que as 
faculdades da alma, como .as empregamos, 
antes provocam em nós perturbações do que 
nos prestam serviços. 

Sou atualmente presa da pior das doenças, a 
mais repentina, a mais dolorosa, a mais mor- 
tal, diante da qual os médicos se confessam 
impotentes. Já sofri três ataques, longos e 
penosos; e no entanto, ou muito me engano ou 
ainda sobram nesse estado razões para supor- 
tá-la, conquanto não se tema a morte e não se 
preste atenção as ameaças, conclusões e adver- 


350 


tências dos médicos. A dor em si não tem tal 
acuidade que provoque desespero e furor em 
um homem calmo. Essas cólicas comportam 
ao menos a vantagem de me familiarizar enfim 
com a idéia da morte, pois quanto mais me 
atormentam e importunam menos me sinto 
preso à vida. Hão de desfazer o nó que ainda 
me amarra, e Deus queira que em se fazendo 
mais violentas ainda não venham a rejeitar-me 
no extremo oposto, igualmente condenável, de 
aspirar à morte ! “Não temas nem desejes o úl- 
timo dia º28º. Há que recear ambas as paixões, 
mas o remédio é mais acessível para uma do 
que para outra. 

Aliás, sempre considerei puro exibicionismo 
o preceito que ordena tão rigorosa e positiva- 
mente que se mostre alguém desdenhoso e 
calmo ante o sofrimento físico. Por que a filo- 
sofia, que só leva em conta o que é real e suas 
consequências, se compraz nessas exteriori- 
dades? Que deixe isso aos tolos e aos retóricos 
que tão grande importância emprestam aos 
nossos gestos. Que nos acorde o direito à 
covardia verbal — desde que não provenha do 
caráter — e a classifique entre os suspiros, e 
palpitações, soluços e lágrimas que a natureza 
não nos permite evitar. E desde que não atin- 
jam o ânimo, e não fraqueje a nossa mente, 
pouco importam as caretas e os trejeitos. É 
para nós mesmos e não para os outros que nos 
educa a filosofia; para que sejamos e não para 
que pareçamos ser. Que restrinja sua ação ao 
nosso julgamento; que aos esforços das cólicas 
oponha a nossa alma fortalecida e lúcida, dis- 
posta a combater o sofrimento e a resistir-lhe; 
pode essa alma comover-se ante a perspectiva 
da luta, mas não deve abater-se, nem ceder. É 
preciso que continue capaz de prosseguir na 
faina habitual. Em circunstâncias tão difíceis, 
fora cruel exigir de nós atitudes antinaturais € 
se a alma se mantém em bom estado de saúde 
pouco importa a nossa fisionomia. Se o corpo 
encontra alívio em se lamentar, que se lamen- 
te; se lhe apraz agitar-se que o faça à vontade; 
se imagina (como dizem alguns médicos do 
reconforto que às mulheres no momento de 


parir lhes trazem os berros) tirar algum bem 
dos gritos e vociferações, que grite e vocifere. 
Aceitemos tais manifestações, embora sem as 
procurar. Não somente Epicuro perdoa ao 
sábio que grite em seus tormentos, como o 
aconselha: “Assim fazem os lutadores; gol- 
peando o adversário, agitando o cesto, soltam 
rugidos; pois sob o efeito da voz todo o corpo 
se retesa e o golpe é assestado com maior 
vigor º2ºº Já nos dá o mal bastante trabalho 


528 Marcial. 
529 Cícero. 


MONTAIGNE 


sem que nos embaracemos com regras supér- 
fluas. 

O que digo, dirige-se aos que em geral pro- 
testam com violência contra essa doença, pois 
eu, até hoje, consegui manter certa discrição, 
contentando-me com gemer. E não porque me 
esforce por conservar uma aparência de cora- 
gem (dou pouca importância a tais méritos e 
não hesito em fazer concessões à dor); mas tal- 
vez minhas dores não sejam tão insuportáveis 
ou talvez tenha eu maior capacidade de resis- 
tência. Queixo-me e me aborreço com as pon- 
tadas, mas há “quem grite, gema, e berre 
lamentavelmente 3º? Eu não chego a tal 
desespero. Analiso-me durante esses ataques e 
sempre verifiquei que continuo capaz de falar, 
pensar, responder como de costume, não, con- 
tudo, de maneira fluente, pois a dor perturba 
por vezes a atenção. Quando os que me assis- 
tem procuram poupar-me, calando, eu mesmo 
me ponho a discorrer sobre assuntos em nada 
relacionados com a doença. Em suma, tudo 
posso fazer, conquanto não seja coisa prolon- 
gada. Como gostaria de ter a sorte daquele 
indivíduo, a que se refere Cícero, que sonhava 
dormir com uma cortesã e se achou assim livre 
do cálculo que lhe obstruía o canal da uretra. 
Outros são os efeitos de meus males! Nos 
intervalos das dores excessivas que provocam 
os cálculos, volto de imediato ao estado nor- 
mal, tanto mais quanto não me atingem a 
alma, o que devo certamente ao cuidado com 
que raciocino e me sugestiono a propósito da 
enfermidade: “agora nenhuma dor, nenhum 
perigo poderiam surpreender-me; tudo previ, 
estou preparado para o que der e vier*3'2. E, 
no entanto, a prova é rude para um aprendiz; a 
transição foi rápida e dura, pois passei repenti- 
namente de uma existência serena e feliz a um 
estado dos mais dolorosos que se possam ima- 
ginar. Além de ser essa doença perigosa em si, 
teve ela comigo um início mais difícil e agudo 
do que em geral e os ataques repetem-se tão 
amiudadamente que minha saúde se me afigu- 
ra definitivamente abalada. Todavia consegui 
até agora manter-me em tal estado de espírito 
que, se não se alterar, ainda terei uma exis- 
tência bem melhor que a de mil outros que não 
têm febre nem outra doença senão a ane eles 
próprios imaginam. 


Há uma espécie de humildade que deco 
da presunção. Consiste em reconhecermos 
nossa ignorância em certas coisas e confes- 
sarmos que há nas obras da natureza qualida- 
des e condições cujas causas escapam ao 
nosso entendimento. Com essa honesta e cons- 


530 Átio. 
531 Virgílio. 


ENSAIOS — II 351 


cienciosa declaração, esperamos que nos acre- 
ditem quando falamos do que afirmamos 
entender. Mas para que estabelecer diferenças 
entre os milagres e as coisas incompreensíveis 
que não nos dizem respeito? Parece-me que 
entre as que temos habitualmente diante dos 
olhos, algumas há estranhamente inexplicá- 
veis, mais ainda do que os milagres. Prodi- 
gioso é com efeito o que o sêmen prolífico 
engendra e traz a marca não somente da cons- 
tituição física de nossos pais, mas ainda de 
seus pensamentos e tendências. Onde se aloja, 
nesse germe, esse número infinito de formas 
embrionárias? Como se ordenam tais formas 
para que, através de um processo que não obe- 
dece a nenhuma regra, um neto se assemelhe 
ao avô, um sobrinho ao tio? Na família de Lé- 
pido, em Roma, três indivíduos nasceram com 
mancha idêntica no mesmo olho, e isso não se 
transmitiu de pai a filho mas com intervalos de 
gerações. Em Tebas houve uma linhagem que 
se caracterizou pela marca em forma de lança 
que todos traziam na nádega desde o nasci- 
mento, a ponto de não se considerarem legíti- 
mos os descendentes que não a revelavam. 
Aristóteles afirma que em certa tribo em que 
as mulheres eram comuns a todos, os pais 
reconheciam os filhos pela semelhança com 
eles. É de crer que deva a meu pai essa predis- 
posição para os cálculos, pois ele morreu de 
um cálculo muito grande na bexiga e só soube 
de sua doença aos sessenta e sete anos. Até 
então nada sentira que o alertasse, nem nos 


rins, nem do lado, nem alhures; vivera em per- 
feito estado de saúde e sua enfermidade durou 
sete anos, durante os quais passou muito mal. 
Eu nasci vinte e cinco anos antes que a doença 
se declarasse, em uma época em que sua saúde 
era excelente; fui o terceiro filho. Onde, duran- 


te esse tempo, se alojou a enfermidade? E. 


como, em estando meu pai tão longe ainda de 
seus padecimentos, essa frágil emanação dele, 
que me deu origem, pôde ser por ele impreg- 
nada a ponto de transmitir-me sua deficiência 
quarenta e cinco anos mais tarde? E como se 
explica que, entre tantos irmãos e irmãs da 


mesma mãe, somente eu tenha sido atingido 
pela doença? Quem me explicar a causa pode 
estar certo de que aceitarei também as explica- 
ções que porventura me venha a dar acerca de 
outros milagres, conquanto não se valha de al- 
guma teoria mais fantástica ainda do que o 
próprio fato, o que se verifica não raro. 


Desculpem-me os médicos a minha liber- 
dade de linguagem, mas esse mesmo germe, 
produto da fatalidade, comunicou-me igual- 
mente o ódio as suas doutrinas. A minha anti- 
patia pela sua arte é hereditária. Meu pai viveu 


setenta e quatro anos; meu avô sessenta e 
nove; meu bisavô quase oitenta, todos sem que 
nunca tomassem qualquer medicamento e a 
tudo que não fosse de uso comum conside- 
ravam droga. A medicina tem origem em 
observações e experiências; do mesmo modo 
formei minha maneira de ver. Essa longevi- 
dade não revela também uma experiência e das 
mais belas? Não creio que todos os médicos 
reunidos pudessem observar em seus registros 
três casos semelhantes, de homens nascidos, 
educados e falecidos no mesmo lar e que lhes 
devessem sua longa vida. Terão por certo de 
confessar que, se não tenho razão, tenho, pelo 
menos, O acaso a meu favor; ora o acaso é um 
mestre bem mais admirável que a razão. Que 
não tirem vantagem de meu estado presente e 
não me ameacem; aterrado como ando, não 
seria leal. Na realidade, esses exemplos fami- 
liares, embora pouco numerosos e restritos, 
dão-me alguma vantagem; mas as coisas 
humanas não duram tanto, pois dezoito anos 
faltam, apenas, para que minha experiência 
alcance dois séculos, tendo nascido meu bisa- 
vô no ano de 1402. Não seria portanto de 
espantar que desta feita tomasse outro rumo. 
Que não me censurem os males que nesta hora 
me ferem; já vivi quarenta e sete anos com 
excelente saúde, parece-me suficiente. E se 
minha vida findasse agora, ainda seria das 
mais longas. 

Meus antepassados, por tendência inata e 
não raciocinada, apreciavam mediocremente a 
medicina; a simples vista de drogas era odiosa 
a meu pai. O Sr. de Gaviac, meu tio paterno e 
homem de igreja, sempre foi doentio; nem por 
isso viveu menos de sessenta e sete anos. 
Tendo sido atacado de violenta e ininterrupta 
febre, resolveram os médicos declarar-lhe que 
se não confiasse nos cuidados deles, estaria 


-infalivelmente perdido (chamam cuidados ao 


que em geral impede a cura). O bom homem, 
amedrontado com tão ameaçadoras palavras, 
respondeu-lhes: “pois então sou um homem 
morto”, mas Deus não tardou em desmentir o 
sombrio prognóstico. Eram quatro irmãos; 
somente o mais moço, Sr. de Bussaguet, recor- 
reu aos médicos e creio que o fez por causa de 
suas relações com gente de outras profissões, 
porquanto ele próprio era conselheiro no 
Parlamento. Triste idéia a sua, pois embora 
parecesse o mais robusto dos quatro, morreu 
muito antes; só um, Sr. de Saint-Michel, o pre- 
cedeu no túmulo. 


É possível que me venha deles esta. tendên- 
cia contra a medicina. Mas se não houvesse 
senão isso, teria tentado dominá-la, pois toda 
idéia preconcebida é destituída de razão e por- 
tanto má. É doença que cumpre combater. Tal- 


Jaz 


vez minha opinião provenha de uma predispo- 
sição, mas que a razão posteriormente 
confirmou, e fortaleceu, pois não acho justo 
condenar-se a medicina pelo que tem de 
desagradável e entendo que a saúde deve ser 
conservada mesmo à custa das mais penosas 
práticas. Porque, se de acordo com Epicuro, as 
grandes volúpias que redundam em maiores 
dores devem ser evitadas, as dores que acarre- 
tam volúpias excessivas não devem tampouco 
ser ambicionadas. É por certo a saúde coisa 
mui preciosa, a única merecedora de todas as 
nossas atenções e cuidados e de que a ela se 
sacrifiquem não somente todos os bens mas a 
própria vida,. porquanto na sua ausência a 


existência se nos torna pesada e porque sem 
ela o prazer, a sabedoria, a ciência, e até a vir- 
tude se turvam e se esvaem. Aos argumentos 
mais sólidos que nos pudesse apresentar a filo- 
sofia, a fim de nos provar o contrário, bastaria 
opor a impossibilidade em que se teria encon- 
trado Platão, durante um ataque de epilepsia 
ou apoplexia, de arrancar qualquer auxílio das 
ricas faculdades de sua alma. Nenhum cami- 


nho que conduzisse à saúde se me afiguraria 
rude ou difícil, mas tenho motivos, pelo menos 
aparentes, para desconfiar profundamente das 
asserções dos médicos. Não afirmo que a 
medicina não possua alguns dados sérios; nem 
. que entre todos os produtos da natureza ne- 
nhum exista capaz de ajudar a conservarmos a 


saúde. Sei que cértas plantas provocam a 
transpiração, e outras a eliminam; sei por 
experiência que a raiz-forte produz gases, e 
que as folhas do sene são purgativas. Muitas 
outras coisas me são familiares através de 
observações, como por exemplo que a carne do 
carneiro é nutritiva e o vinho reconfortante. Já 
dizia Sólon que a comida é um remédio como 
qualquer outro, o remédio contra a doença da 
fome. Não sou hostil ao aproveitamento dos 


produtos naturais e não duvido da eficiência 
dos recursos da natureza, nem da possibilidade 
de os utilizarmos. Bem vejo como os pássaros 
e Os peixes têm razão de confiarem nela, des- 
confio das invenções de nosso espirito, de 
nossa ciência, de nossa arte que não sabemos 
conter dentro de prudentes limites e pelas 
quais nós abandonamos a natureza e suas leis. 

Assim como enfeitamos com o nome de jus- 
tiça um amontoado de leis, não raro aplicadas 
de maneira inepta e iníqua (e quem as critica 
não pensa em condenar a nobre virtude mas 
tão-somente o abuso de colarem um respei- 
tável rótulo em tão lamentável sistema) assim, 
também, dão o nome de medicina, que honro e 
respeito, bem como admiro o que se propõe, a 
coisas que não honro nem estimo. 


MONTAIGNE | 


Antes de tudo, ensinou-me a experiência a 
temer os médicos, pois não há quem adoeça 
mais depressa e mais lentamente se cure do 
que os que se entregam nas mãos dos médicos. 
Até a saúde se altera com as dietas que eles 
inventam. Não se contentam os médicos com 
tratar das doenças, vigiam igualmente a saúde, 
a fim de que em nenhum momento lhes escape 
a vítima. Pois não vislumbram em uma saúde 
florescente o indício de enfermidades futuras? 
Estive várias vezes doente, e minhas doenças 
foram iguais às de todos, não me fizeram so- 
frer mais nem se prolongaram anormalmente, 
embora não consultasse os-médicos, auferindo 
com isso a vantagem de não as envenenar com 
o amargor de mil receitas. Quando me sinto 
bem, ajo a meu bel-prazer, sem me impor qual- 
quer regra e levando em conta apenas os meus 
hábitos e a minha satisfação. Em viagem qual- 


quer lugar convém a meu repouso, pois não 
preciso de regime especial quando adoeço, não 
me preocupando com a presença de médico ou 
boticário, o que atormenta a muitos mais do 
que a própria enfermidade. Aliás, serão os mé- 
dicos, eles mesmos, com sua saúde e média de 
vida, exemplos comprobatórios da eficácia de 
sua ciência? 


Não há povo que não tenha permanecido 
durante séculos sem médicos. E esses séculos, 
os primeiros, foram sempre os mais felizes. 
Ainda hoje a décima parte dos habitantes do 
mundo não conhece a medicina. Numerosas 
nações, onde vivem melhor do que aqui e mais 
tempo, nunca viram médicos. E entre nós o 
povo miúdo passa muito bem sem eles. Os 
romanos ficaram seiscentos anos sem médicos 
e, depois de experimentá-los, expulsaram-nos 
por instigação de Catão, o Censor, o qual 
demonstrava como vivera oitenta e cinco anos, 
bem como sua mulher, não sem apelar para a 
medicina, mas sem recorrer aos médicos, pois 
essa denominação de medicina pode aplicar-se 
a tudo o que contribui para a conservação da 
saúde. E tratava da família, ao que diz Plutar- 
co, obrigando-a a comer muitas lebres. Já os 


árcades, no dizer de Plínio, curavam todas as 
doenças com leite de vaca, e os líbios, segundo 
Heródoto, gozam em geral excelente ;saúde 
graças ao hábito de cauterizar as veias do pes- 
coço e das fontes de seus filhos quando che- 
gam aos quatro anos, impedindo-os assim, 
para o resto da vida, de contraírem defluxos. 
Na região em que nasci, os camponeses usam 
somente vinho bem forte misturado com aça- 
frão e outras especiarias. 

E, em verdade, para que servem todas essas 
receitas confusas senão para esvaziar o ventre, 
o que podem fazer mil plantas encontradiças 


ENSAIOS — II 


em nossas terras? Ademais não acredito muito 
na utilidade de tal prática, pois é possível que a 
natureza exija que fiquem os excrementos 
durante algum tempo na barriga, assim como a 
permanência da borra é necessária à conserva- 
ção do vinho. Vemos por vezes homens perfei- 
tamente sãos que, sob o efeito de algum aci- 
dente, vomitam e evacuam quantidade de 
excrementos, sem que a isso fossem solicitados 
antes do choque e sem utilidade aparente, 
antes com inconvenientes e posterior agrava- 
ção de seu estado de saúde. 

Aprendi outrora com Platão que a pior das 
três espécies de perturbações que podemos 
provocar em nós é a ocasionada pelos purgan- 
tes, aos quais, a menos de ser louco, ninguém 
deve recorrer senão em úitimo extremo. Pertur- 
bamos e excitamos o mal com o que lhe opo- 
mos. Fora necessário que nosso gênero de 
vida, sozinho, o amolecesse, atenuasse, € O 
extinguisse enfim. A luta violenta que a droga 
trava com o mal, é-nos sempre prejudicial, 
porquanto ocorre em nós e a droga não favo- 
rece a nossa saúde, e só a aceitamos quando 


enfermos. Deixemos que a natureza aja: assim 
como assegura a conservação das pulgas e das 
fuinhas, assegura a dos homens, quando estes 
pacientemente concordam em ser por ela 
governados. Por mais que  gritemos 
“depressa!” não conseguiremos tornar mais 
rápida a sua marcha. Ficaremos roucos e nada 


mais. Nosso temor, nosso desespero longe de a 
incitar a auxiliar-nos afastam-na de nós. Tanto 
quanto o curso da saúde, cumpre-lhe assegurar 
o da doença e não há de favorecer um mais do 
que o outro, pois sz assim procedesse não 
haveria ordem, e sim desordem. Sigamo-la, por 
Deus! Ela dirige os que a seguem e arrasta os 
que a não acompanham, com toda a sua medi- 
cina. Pedir uma receita de purgante para o cê- 
rebro, será mais útil do que para o estômago ! 


Perguntaram a um lacedemônio como vive- 
ra tanto tempo com saúde: “porque não conhe- 
ço drogas”, respondeu. O Imperador Adriano, 
ao morrer, repetia sem cessar que o excesso de 
médicos o matara. Um mau lutador fizera-se 
médico: “coragem” disse-lhe Diógenes “tens 
razão; vais agora poder derrubar todos os que 
te derrubaram outrora”. Como observa Nico- 
cles “têm eles a sorte de o sol iluminar-lhes os 
êxitos e a terra esconder-lhes os erros”. 


Ademais são peritos na arte de tirar partido 
dos acontecimentos, quaisquer que sejam. Se, 
por acaso, a natureza (ou qualquer outra 
causa) atua favoravelmente, atribuem a cura à 
sua ciência; cabe-lhes o mérito de todas as 
melhoras observadas, e vangloriam-se, em 
suma, junto aos que os solicitam, daquilo que 


Soo 


nos curou, a mim e a mil outros, sem sua 
ajuda. Quanto aos acidentes que lhes ocorrem, 
ou os negam completamente, ou os imputam 
ao doente, invocando as razões mais fúteis e 
ridículas: um descobriu o braço; outro ouviu o 
ruído de um carro: “o barulho dos carros api- 
nhados nas ruas estreitas º32”: entreabriu a 
Janela; deitou-se de lado; idéias tristes passa- 
ram-lhe pela mente. Uma palavra, um sonho, 
um mau-olhado são desculpas suficientes. Ou, 
quando lhes convém melhor, utilizam a agra- 
vação em prol de seus interesses, procedendo 
da maneira seguinte que não falha: quando a 
doença piora em consequência do remédio, 
afirmam que, sem este, fora bem mais grave; se 
o medicamento provoca ligeira febre em quem 
se achava resfriado, dizem que sem ele a febre 
seria mais violenta. Pouco lhes importa o 
êxito, pois o prejuízo acarreta-lhes também 
lucros. Têm razão em exigir de suas vítimas 
uma confiança otimista, pois é preciso mesmo 
que a tenham estas, e total, para que aceitem 
tudo o que os médicos imaginam, por absurdo 
que seja. Platão dizia, com sabedoria, que os 
médicos podem mentir descaradamente, por 
isso que nossa salvação depende da frivolidade 
e da falsidade da segurança que nos dão. 


Esopo, autor de talento excepcional, e cuja 
graça poucos são capazes de entender, diver- 
te-se e nos diverte em descrever a autoridade 
com que dominam os pobres de espírito enfra- 
quecidos pela doença e o medo. Conta-nos de 
um paciente que responde às perguntas de seu 
médico acerca do efeito dos remédios reco- 
mendados: “Transpirei muito”. “Excelente.” 
Mais tarde, não tendo visto a vítima durante 
algum tempo indaga como passara desde o pri- 
meiro dia: “Senti muito frio, e violentos tremo- 
res.” “Muito bom.” Uma terceira vez, inqui- 


rindo ainda do estado do mesmo doente, ouve 
a seguinte resposta: “Sinto-me inchar, como se 
estivesse com hidropisia.” “Perfeito.” E quan- 
do o criado do enfermo chega, após essa últi- 
ma visita, para saber da saúde do amo, este lhe 
diz: “Vou bem, meu amigo, tão bem em verda- 
de, que acho que estou morrendo.” 


Houve no Egito uma lei muito justa que 
isentava o médico de qualquer responsabi- 
lidade durante os três primeiros dias de trata- 
mento. Nesse lapso de tempo assumia o 
paciente todos os riscos, mas depois dos três 
dias o médico tornava-se responsável pela vida 
do enfermo e o tratamento corria por sua 
conta. Se Esculápio, o mestre de todos eles, foi 
fulminado por ter reanimado Hipólito, por que 
seus continuadores, que matam tanta gente, 


832 Juvenal. 


354 


deveriam gozar de imunidades? “Júpiter, in- 
dignado com o fato de um mortal ter sido reti- 
rado da noite infernal e trazido novamente à 
luz do dia, fulminou o filho de Apolo, inventor 
dessa arto audaciosa, e o precipitou no 
Estige 233.” 

Certo médico jactava-se perante Nícocles, 
da autoridade considerável que sua arte havia 
alcançado: “Sem dúvida” observou Nícocles 
“podes matar impunemente.” 

Se eu fosse médico apelaria mais para O 
mistério e a providência. Na verdade começa- 
ram bem, mas não prosseguiram nesse cami- 
nho. Foi um bom ponto de partida buscar a 
origem dessa ciência nos deuses e demônios, 
valendo-se de uma língua e de uma escrita 
esotéricas, muito embora a filosofia considere 
errado dar conselhos ininteligiveis a quem 
deles precisa tirar proveito: “como se, para 
recomendar a um doente comer caracol, lhe 
ordenasse o médico que pegasse uma criatura 
da terra, que ande pela grama e carregue sua 
casa às costas *3 *?. E é inteligente de sua parte 
exigir do paciente, como fazem as artes basea- 
das no sobrenatural e na fantasia, uma fé sufi- 
ciente para auxiliar a ação do médico, e o efei- 
to do remédio. O que os leva a declarar que 
mais vale o profissional em quem confiamos, 
embora ignorante, do que o mais brilhante 
desconhecido. A própria escolha de suas dro- 
gas tem algo misterioso e sagrado: pé esquerdo 
de tartaruga, urina de lagarto, excremento de 
elefante, figado de fuinha, sangue de asa direita 
de pombo branco! E para os que como nós so- 
frem de cólicas nefriíticas (não abusam bas- 
tante de nossas misérias?) excremento pulveri- 
zado de rato e outras prescrições absurdas, 
mais do domínio da feitiçaria do que da ciên- 
cia. E deixo de lado outras singularidades: nú- 
mero impar de pílulas, dias certos para tomá- 
las, horas determinadas para colher as plantas 
que entram nas receitas, e finalmente a atitude 
rebarbativa e refletida que assumem e de que 
zomba Plínio. Com tão belo início, não deve- 
riam ter esquecido de acrescentar que suas reu- 
niões e consultas seriam secretas e de caráter 
religioso. Nenhum profano seria admitido nes- 
sas assembléias, como o não era no culto de 
Esculápio. Porquanto, se qualquer pessoa 
puder ser testemunha de suas indecisões, da 
fraqueza de seus argumentos em defesa do que 
imaginam adivinhar e discutem acrimoniosa- 
mente, cheios de ódio e de inveja, precisará ser 
cega para que neles confie. Quem jamais viu 
um médico confirmar simplesmente a receita 
de um confrade, sem nada acrescentar ou cor- 


833 Virgílio. 
834 Cícero. 


MONTAIGNE 


' 


tar? Revelam assim a inanidade de sua arte e 
mostram que mais os preocupam a própria 
fama e os lucros do que os doentes. E sábio foi 
certo médico da antiguidade que lhes recomen- 
dava não se metessem uns com os doentes dos 
outros, pois, em nada conseguindo de útil, o 
erro de um só não prejudica o bom nome da 
corporação, ao passo que a glória do êxito a 
todos aproveita. Aliás, quando se reúnem vá- 
rios médicos em torno de um mesmo caso, 
desmoralizam a profissão com dissensões e 
brigas, tanto mais quanto em geral os resulta- 
dos não são brilhantes. Deveriam evitar de tor- 
nar público esse desentendimento que as pes- 
soas cultas sabem ter sempre existido entre os 
mestres de sua ciência, mas que o povo ignora. 

Vejamos alguns exemplos dessas divergên- 
cias no passado remoto. Hierófilo atribui aos 
humores a origem de nossas doenças; Erasis- 
trato, ao sangue das artérias; Asclepíades, à 
superabundância ou à escassez das energias fi- 
sicas; Díocles, a um desequilíbrio na propor- 
ção dos elementos que compõem nosso corpo, 
bem como à qualidade do ar que respiramos; 
Estráton, a um excesso, a uma dificuldade de 
assimilação e a uma corrupção dos alimentos; 
Hipócrates, aos espíritos. Um de seus ami- 
gos *3 8, que os médicos conhecem melhor do 
que eu, diz a propósito que “a ciência mais 
importante para nós, aquela à qual incumbe a 
conservação de nossa saúde, é infelizmente a 
mais incerta, a mais confusa, a mais agitada 
pelas continuas mudanças de doutrina”. Não 
há grande mal em errarmos na medida da dis- 
tância do sol, bem como em qualquer cálculo 
astronômico, mas no caso da medicina é nosso 
ser que estã em jogo e não me parece prudente 
nos abandonarmos ao sabor dos ventos. 

Antes da guerra do Peloponeso não se fala- 
va dessa ciência: Hipócrates deu-lhe crédito. 


“Todas as regras que estabeleceu, foram poste- 


riormente modificadas por Crisipo. Erasis- 
trato, neto de Aristóteles, destruiu tudo o que 
Crisipo construíra. Depois deles vieram os 
empíricos que aplicaram a essa arte métodos 
inteiramente diversos. Mais tarde Hierófilo 
defendeu outra orientação contra a qual se er- 
gueu Asclepíades, o qual impôs por seu turno 
seu modo de ver. As opiniões de Temisson e 
em seguida as de Musa firmaram-se então, 
após as quais surgiram as de Vectio Valens, 
célebre pelas suas relações com Messalina. No 
tempo de Nero, Téssalo dominou: aboliu e 
condenou tudo o que precedera. Sua doutrina 
foi derrubada por Crinas, de Marselha, o qual 
voltou a subordinar a medicina às tábuas 
astronômicas e à influência dos astros; as 


835 Plínio. 


ENSAIOS —II 355 


horas das refeições, à posição de Mercúrio e às 
fases da lua. Sua autoridade logo foi suplan- 
tada pela de Carino, também de Marselha, o 
qual combateu não somente os métodos da 
medicina antiga, mas também o uso de banhos 
quentes que, com os séculos, se tornara um há- 
bito. Mandava ele se mergulhassem as pessoas 
na água fria mesmo no inverno. 


Até a época de Plínio, nenhum romano se 
dedicara à medicina. Era exercida pelos 
estrangeiros e os gregos, como entre nós, fran- 
ceses, pelos que massacram o latim, pois, 
como diz um grande médico, não acreditamos 
na medicina que compreendemos nem no 
remédio que vamos buscar na natureza. Se 
existem médicos nas. regiões de onde nos vêm a 
salsaparrilha e o guáiaco, devem recomendar o 
repolho e a salsa, em virtude da preferência 
que sempre damos ao que é estranho, raro e 
caro, não ousando ninguém desprezar o que se 
vai colher tão longe à custa de mil perigos. 


Entre essas transformações da medicina an- 
tiga e a da nossa época, houve outras em nú- 
mero infinito, as mais das vezes radicais e 
universais, como as introduzidas por Paracel- 
so, Fioravante e Argentário, os quais não 
somente modificam por completo o receituá- 
rio, mas ainda as próprias regras da arte e até 
as condições de seu exercício, qualificando 
como ignorantes e charlatães todos os seus 
antecessores. Imaginai, depois disso tudo, 
onde vai parar o doente! 


Se, ao menos, quando se enganam, não nos 
prejudicassem, teriamos uma vaga possibili- 
dade de cura sem correr grave risco. Diz-nos 
Esopo de um indivíduo que comprara um 
escravo mouro que, imaginando provir a cor 
de sua pele dos maus-tratos infligidos pelo an- 
tigo dono, obrigou-o a seguir um tratamento 
de banhos e tisanas, o que não lhe modificou a 
cor, mas lhe alterou profundamente a saúde, 
antes excelente. 


Quartos médicos não vemos, atribuindo-se 
uns aos outros a culpa pela morte de suas víti- 
mas? Recordo-me de uma doença muito peri- 
gosa, não raro mortal, que se observou há tem- 
pos nas cidades de minha região, atingindo 
principalmente as classes pobres. Passada a 
epidemia, depois de ter feito número conside- 
rável de vítimas, publicou certo médico uma 
obra em que criticava o uso da sangria no 
combate ao-mal e confessava ter sido esse tra- 
tamento a causa principal dos casos fatais. 


Há mais, porém. Os que escrevem, entre os 
médicos, afirmam não haver remédio sem efei- 
tos nocivos; ora, se mesmo os que são eficien- 
tes nos prejudicam de um modo ou de outro, 
que diremos dos que absorvemos fora de 


propósito? Ademais, creio que, para os que 
não suportam o gosto dos remédios, constitui 
perigoso esforço ter de tomá-los à força, pois 
isso exaure o doente que tanto precisa de 
repouso. Por outro lado, considerando as cau- 
sas tão fúteis que os médicos apontam para as 
nossas enfermidades, é de se deduzir que o 
mais insignificante erro na dosagem, ou na 
aplicação do remédio, pode ocasionar graves 
danos. E se o erro de um médico é perigoso, 
eis-nos em bem má situação, pois é muito difi- 
cil que não o repita amiúde. Precisa ele de 
demasiado número de exames e de informa- 
ções circunstanciadas para opinar judiciosa- 
mente: cabe-lhe conhecer o temperamento do 
doente, sua temperatura, seus humores, suas 
predisposições, suas ocupações e até o que 
pensa e sonha; cumpre-lhe saber das condições 
ambientes, da natureza do lugar, do ar, do 
clima, da posição dos astros e suas influências; 
é necessário que não ignore as causas da doen- 
ça e seu caráter, seus efeitos, os dias críticos; 
precisa conhecer o peso da droga que ministra, 
sua ação, o país de onde vem, seu aspecto, a 
data em que foi preparada, a fim de calcular a 
quantidade a ser receitada. Tudo calculado e 
entrosado harmonicamente. Por pouco que se 
engane, que entre tantos elementos diferentes 
um só venha a falhar, eis-nos perdidos. Ora, só 
Deus sabe das dificuldades que há em conhe- 
cer tantas particularidades! Como, por exem- 
plo, determinar o caráter preciso da doença, se 
ela se apresenta sob tão variadas formas? 
Quantos debates e dúvidas provoca a análise 
da urina? Sem tais dificuldades não andariam 
a discutir permanentemente acerca do diagnós- 
tico e não teriam desculpas para o erro que 
cometem não raro de confundir alhos com 
bugalhos. Cada vez que os consultei, por ínfi- 
ma que fosse a dificuldade, nunca encontrei 
três da mesma opinião. 


Naturalmente minhas observações ba- 
seiam-se principalmente na minha experiência 
pessoal. Ultimamente, em Paris, um fidalgo 
submeteu-se a uma operação por determinação 
dos médicos; não encontraram em sua bexiga 
mais cálculos do que em minha mão. Aqui 
também, certo bispo de minhas relações fora 
insistentemente aconselhado a submeter-se a 
idêntica operação. Eu mesmo, convencido 
pelos médicos dessa necessidade, interviera 


para decidi-lo. Tendo morrido, ao ser autop- 
siado verificaram que só sofria dos rins. Os 


médicos no caso dessa doença são menos 
“desculpáveis ainda, porquanto ela é por assim 


dizer, palpável. A meu ver a ciência cirúrgica 
oferece maior segurança, porque com ela se vê 
e sente o que se faz. Depende menos de conje- 


356 


turas e intuições. Os médicos não podem usar 
espéculo para examinar o cérebro, os pulmões, 
o figado, tampouco lhes podemos dar crédito 
quando lhes cabe atentar para ' sensações 
contrárias observáveis simultaneamente em 
vários órgãos, intimamente ligados como 
quando sentimos calor no figado e frio no estô- 
mago. Procuram então convencer-nos de que 
um remédio alcança a bexiga e outro os rins, 
sem que atuem, em caminho, sobre outros ór- 
gãos;e insistem em que durante tão longo per- 
curso conservam sua eficiência até chegar ao 
ponto certo em que devem entrar em ação suas 
qualidades ocultas. Tal remédio seca o cére- 
bro, tal outro umedece o estômago, mas não é 
de espantar que, misturados, se separem por si 
sós e vá cada qual desempenhar seu papel? 
Pois eu receio — e muito — que se percam e 
se enganem. E não poderá acontecer que se 
alterem em contato um com o outro? Final- 
mente a execução da receita cabe ainda a uma 
terceira pessoa, em quem precisamos confiar e 
à qual deixamos entregue o cuidado de nossa 
vida! 

Para nossas roupas temos quem só confec- 
cione gibões, e quem só faça calças; somos 
tanto mais bem servidos assim quando cada 
qual se ocupa apenas de sua tarefa e seu talen- 
to se exerce dentro de limites estreitos. Não 
seria tão perito o alfaiate que tudo fizesse sozi- 
nho. Quanto à alimentação, é vantagem dos 
ricos terem vários servidores. Um prepara a 
sopa, outro as carnes; um só cezinheiro não 
consegue dar, à comida toda, igual sabor. Por 
isso mesmo não admitiam os egípcios que o 
médico fosse universal º3 8º: devia especiali- 
zar-se em algum ramo de sua arte. Cada doen- 
ça, cada parte do corpo tinha seu especialista € 
assim era, provavelmente, mais bem tratada e 
segundo suas necessidades. Não vêem os médi- 
cos de hoje que quem a tudo atende não atende 
a nada e que, ocupar-se de todas as solicita- 
ções desse pequeno mundo do corpo humano, 
ultrapassa suas possibilidades. Temerosos de 
que sustando a disenteria provocassem a febre, 
mataram eles um amigo meu que valia mais do 
que todos eles juntos. À realidade da doença 
só podem opor o peso de suas conjeturas, a fim 
de não curar o cérebro em detrimento do estô- 
mago, com suas drogas discordantes e desor- 
denadas estragam o estômago, e perturbam o 
cérebro. No que concerne à razão de ser de 
seus juízos, é essa arte mais fraca e contradi- 
tória do que as outras. Ora dizem que as subs- 


tâncias excitantes convêm a quem tem cólicas,. 
porque abrem € dilatam os condutos internos, ' 


836 Diríamos, hoje, não especializado ou de clínica 
geral. (N. do T.) 


4 


MONTAIGNE 


carreiam a matéria viscosa que engendra os 
cálculos e precipitam o que principia a acumu- 
lar-se e a endurecer nos rins; ora afirmam que 
essas mesmas substâncias são perigosas, por- 
que, abrindo e dilatando os condutos, encami- 
nham para os rins essa matéria que se trans- 
forma em cálculos, obstruindo aqueles órgãos 
já propensos a se obstruírem. E acrescentam 
que, se porventura um cálculo maior do que o 
canal que lhe cabe atravessar neste se introduz, 
levado pelas ditas substâncias, pode ocorrer a 
morte dolorosíssima do paciente. 

Seus conselhos acerca do regime que deve- 
mos seguir não me parecem muito mais lógi- 
cos é coerentes. Ora dizem que é preciso urinar 
frequentemente porque a experiência demons- 
tra que se deixamos a urina estagnar na bexiga 
ela se decanta e os excrementos que nela se 
encontram formam uma espécie de borra pro- 
pícia à constituição dos cálculos; ora afirmam 
que não devemos urinar repetidamente, pois, 
em virtude de seu peso, os excrementos só 
serão expelidos se o jato for muito forte, por- 
quanto uma torrente impetuosa limpa o leito 
das águas muito melhor do que um regato 
lerdo e sereno. Também dizem por vezes que é 
conveniente ter contatos amiudados com as 
mulheres porque isso abre os condutos e faz 
circular a areia; e por vezes que é prejudicial 
porque esquenta os rins e os enfraquece. Ora 
insistem na ação benfazeja dos banhos quen- 
tes, porque amolecem e tornam mais flexíveis 
os órgãos em que se alojam os cálculos; ora os 
consideram nocivos porque o calor ajuda a 
cozer e petrificar as matérias que forma os cál- 
culos. Aos que fazem estações de águas dizem 
que precisam comer pouco a noite a fim de que 
a água a ser ingerida pela manhã atue melhor 
em virtude de estar o estômago vazio; mas 
também afirmam o contrário. Ou então obser- 
vam que é necessário comer pouco ao meio- 
dia, a fim de não perturbar a ação da água to- 
mada pela manhã e não sobrecarregar o 
estômago após a tarefa cumprida; ou que o 
principal esforço digestivo deve ser deixado 
para a noite, porque de dia o corpo e o espírito 
estão permanentemente agitados. 

Eis como raciocinam os médicos, com loro- 
tas, a expensas nossas. Não há opinião sua que 
não possa ser imediatamente contraditada com 
argumento de igual peso, senão maior. Não se 
censure portanto quem, diante de tantas 
contradições, se deixa conduzir pelos seus ins- 
tintos, e pela sorte que preside aos nossos 
destinos. 


Tive a oportunidade, em minhas viagens, de 


» visitar quase todas as estações de águas do 


mundo cristão e há alguns anos as venho 
frequentando porque julgo que os banhos são 


ENSAIOS — II 


salutares e que muitas afecções provêm do fato 
qe termos perdido o hábito de lavar diaria- 
mente o corpo, como se fazia em quase todas 
as nações do passado e ainda se continua a 
fazer em algumas.. Não posso compreender 
que haja alguma vantagem em conservar os 
poros obstruídos pela sujeira. Quanto a beber 
essas águas, fizeram os fados que isso não me 
contrariasse o paladar; por outro lado é coisa 
natural e tão simples que, se não é útil, tam- 
pouco será perigosa, o que se deduz aliás do 
número considerável de pessoas de toda espé- 
cie de temperamento que as tomam. E se não 
pude ainda constatar, nem por mim nem pelo 
que sei dos outros, nenhum desses efeitos mila- 
grosos que se proclamam e nos quais muitos 
acreditam (pois nos enganamos facilmente 
com o que desejamos), não vi tampouco nin- 
guém cujo estado houvesse piorado com o uso 
de tais águas. Posso afirmar, sem exagero, que 
despertam o apetite, facilitam a digestão e pro- 
vocam um certo bem-estar, a menos que as 
busquemos já em muito mau estado, o que não 
aconselho. Se não podem reconstituir um fisi- 
co arruinado, podem pelo menos auxiliar quem 
o tenha ligeiramente combalido e evitar males 
maiores. Quem as procura sem se sentir com 
ânimo suficiente para usufruir o prazer da 
sociedade que aí encontre, dos passeios e 
excursões a que convide a beleza do lugar, 
perde indubitavelmente o melhor e o mais efi- 
ciente dos seus efeitos. Por isso tenho sempre 
escolhido as localidades mais agradáveis pelos 
seus sítios, e ao mesmo tempo as mais cômo- 
das do ponto de vista da hospedagem e da 
sociedade. Em França, a estação de Bagnêre; 
nos confins da Alemanha, a de Baden; na Tos- 
cana, a de Lucca, e em particular as águas 
“della Villa” de que me vali várias vezes. 


Cada lugar tem suas idéias acerca do modo 
de aproveitar as águas. Quanto aos efeitos, 
são, ao que me parece, os mesmos em toda 
parte. Na Alemanha não se bebem as águas; 
usam-nas em banhos e passam quase todo o 
tempo patinhando na água; na Itália bebem- 
nas nove dias e banham-se durante trinta, pelo 
menos. Em certas estações, obrigam-nos a pas- 
sear para melhor as digerir; em outras, for- 
çam-nos a permanecer deitados e aquecem-nos 
o estômago e os pés para manter um calor con- 
tínuo durante a digestão. Os alemães em geral 
aplicam-nos ventosas dentro da água. Os italia- 
nos usam duchas durante um mês, uma hora 
pela manha e outra ao cair da noite, na cabeça, 
no estômago ou outra qualquer parte do corpo, 
segundo as necessidades. Variam assim.os cos- 
tumes de acordo com a região, e a bem dizer 
não há a menor semelhança entre o que se faz 
em dado país, e o que se observa em outro. Eis 


357 


como essa parte da medicina, a única que acei- 
tei em particular, embora menos artificial que 
as demais, participa contudo da confusão e da 
incerteza que se deparam nessa arte. 

Os poetas tratam com mais ênfase e graça 
todos os assuntos, este como os demais, segun- 
do se vê destes epigramas: “Ontem, Álcon 
tocou. a estátua de Júpiter e, embora seja ela de 
mármore, pôde o deus constatar o poder do 
médico: retiram-no hoje do templo e vão enter- 
rá-lo, conquanto seja deus, e de pedra** 7.” 
“Andrágoras banhou-se ontem conosco e em 
seguida ceou alegremente; hoje encontraram- 
no morto. Queres saber, Faustino, a causa de 
tão inesperada ocorrência? Viu em sonho o 
médico Hermocrata 8º 8.” 

A propósito, aqui vão mais histórias. O 
Barão de Caupêne en Chalosse e eu temos 
iguais direitos à renda de uma propriedade 
chamada Lahontan, muito extensa e situada 
no sopé da montanha. Os habitantes como, ao 
que dizem, os do vale de Angrogne, levavam 
uma existência à parte, com costumes, usos e 
vestimentas particulares; eram governados e 
administrados segundo instituições e tradições 
observadas desde sempre, de pai a filho. Essa 
pequena região vivera sempre em tão felizes 
condições que nenhum juiz da vizinhança se 
apercebera de sua existência, nenhum advo- 
gado aí trabalhara, ninguém jamais fora cha- 
mado a dirimir contendas, nunca se vira 
alguém do lugar entregar-se à mendicância; 
evitavam os contatos com a gente de fora para 
que não se alterasse a pureza das instituições. 
Isso durou, como eles próprios dizem, até que 
um deles, atormentado pela ambição, lem- 
brou-se de fazer do filho um personagem. 
Tendo este aprendido a escrever numa cidade 
vizinha, veio a tornar-se tabelião da aldeia. 
Logo começou o moço a desprezar os antigos 


- costumes e a encher a cabeça dos compa- 


nheiros com as grandezas das regiões vizinhas. 


Ao primeiro que teve uma cabra descornada 
aconselhou que desse queixa aos juízes reais a 
fim de obter uma indenização; e assim fez com 
outros até tudo: desmantelar. Logo após esse 
germe de corrupção, dizem, outro surgiu de 
consequências bem mais graves. Resolveu 
certo médico casar com uma jovem do lugar e 
para aí mudar sua residência. Esse médico 
começou por lhes ensinar os nomes das febres, 
dos resfriados e dos abscessos; suprimiu de- 
pois o alho que lhes servia de remédio para 
todos os males, por graves que fossem, e indu- 
ziu-os a tomarem, para qualquer tosse ou 
defluxo, elixires exóticos, especulando não 


837 Ausônio. 
538 Marcial. 


358 


somente com a saúde como com a morte. 
Juram eles que foi a partir de então que princi- 
piaram a perceber que o sereno dá dor de cabe- 
ça, que se pode ficar doente em bebendo quan- 
do faz calor, que os ventos do outono são mais 
pestilentos que os da primavera, e que, esma- 
gados sob ó peso de doenças, até aquele 
momento ignoradas, verificaram uma diminui- 
ção geral de seu vigor físico bem como da 
duração de sua vida. 

Eis a segunda história. 

Antes de ter sido atacado de gravela, ouvin- 
do algumas pessoas de comprovado bom senso 
se referirem ao sangue de bode como a um 
remédio maravilhoso caído dos céus e susce- 
tivel de prolongar a vida humana, eu, que sem- 
pre pensei que poderia ser vítima de todos os 
males, tive a idéia, ainda cheio de saúde, de 
preparar o bálsamo milagroso. Determinei 
pois que criassem um bode de acordo com as 
informações que obtivera. O regime deve ini- 
ciar-se nos meses mais quentes do ano €e cons- 
tituir-se de ervas purgativas e vinho branco em 
lugar de água. Por acaso estava eu em casa, no 
dia em que o deviam matar. Vieram dizer-me 
que o cozinheiro percebera nas tripas do ani- 
mal, pelo tato, a presença de duas ou três bolas 
em meio aos alimentos digeridos. Por curiosi- 
dade mandei trazerem as entranhas e fiz que as 
abrissem. Eram três corpos volumosos, leves 
como esponjas, aparentemente ocos, mas 
duros por fora e de cores mortiças. Um, pare- 
cia bem redondo e era do tamânho de uma 
bola pequena; os dois outros, menores, não se 
mostravam perfeitamente redondos ainda. 
Tendo pedido informações junto às pessoas 
habituadas à tais tarefas, soube que se tratava 
de um caso raro; eram, provavelmente, cálcu- 
los da mesma família que os nossos. A acredi- 
tar-se na coisa, bem va será a esperança dos 
doentes que imaginam curar-se com o sangue 
de um animal atacado de igual enfermidade, 
pois não se sabe se é contagiosa e, dizer que 
não se transmite pelo sangue, não se me afigu- 
ra certo. Em todo caso é de se admitir que 
nada se engendre em um corpo sem a coopera- 
ção de todas as suas partes, solidárias entre si; 
em verdade algumas mais ativas do que outras, 
nas todas participantes. E é provável que as 
do bode, todas elas, tivessem alguma predispo- 
sição para a gravela. Acrescento que não dese- 
java fazer a experiência por temor de chegar 
ao que mais tarde cheguei, mas a executava 
assim como as mulheres que fazem provisão 
de remédios e mezinhas para socorrer os ou- 
tros e os aplicam a mil doenças diferentes, sem 
que entretanto os usem elas próprias, muito 
embora dêem por vezes bons resultados. 

Como quer que seja respeito os médicos, 


MONTAIGNE | 


não porque o determine o Eclesiastes 3º (pois 
a esse preceito oponho outro em que o Rei Asa 
é censurado por ter recorrido a um médico), 
mas como indivíduos, pois muitos há honrados 
e dignos de nosso apreço. Não os ataco e sim a 
sua arte; não Os recrimino por tirarem proveito 
de nossa tolice, porque todos agem de igual 
maneira e não faltam profissões mais ou 
menos honrosas que só subsistem e prosperam 
abusando do público. Chamo-os quando estou 
doente; peço-lhes que se ocupem de mim e pa- 
go-os como qualquer pessoa. Permito-lhes que 
me recomendem resguardo, quando assim o 
desejo; autorizo-os a mandarem fazer minha 
sopa com alho-porro ou alface e prescrever-me 
vinho branco ou clarete, coisas pelas quais não 
tenho preferência nem repugnância acentua- 
das. Nenhuma outra concessão, porém, pois 
tudo o que empregam sabe a amargor. Por que 
ordenava Licurgo que os espartanos tomassem 
vinho quando doentes, senão por não o supor- 
tarem habitualmente? Pela mesma razão certo 
fidalgo de minha vizinhança o adota contra a 
febre, porquanto o detesta em seu estado nor- 
mal. E quantos médicos não se vêem, compar- 
tihando minhas idéias, vivendo como bem 
entendem, de maneira absolutamente contrária 
à que pregam aos outros? Que significa isso, 
senão abusar de nossa simplicidade? Pois, afi- 
nal, sua vida e sua saúde não lhes são menos 
preciosas do que as nossas e por certo acomo- 
dariam seus atos às suas doutrinas se não reco- 
nhecessem eles próprios que são nocivas. 


O medo da dor e da morte, o desejo exacer- 
bado de cura é que nos cegam. É simplesmente 
a covardia que torna tão complacente a nossa 
fé. Em geral não se iludem os doentes, mas 
toleram e deixam estar; ouço-os queixarem-se 
como eu, mas acabam dizendo: “que fazer, 
então?” como se a impaciência resolvesse a 
questão melhor do que a paciência. Entre os 
que aceitam tão miserável sujeição, haverá um 
só que não esteja igualmente disposto a subme- 
ter-se a quaisquer imposturas de quem tenha a 
impudência de lhes garantir que hão de sarar? 

Os btabilônios expunham os doentes na 
praça pública; o médico era o povo; quem pas- 
sava indagava por cortesia e humanidade do 
estado da vítima e dava, segundo sua experiên- 
cia, um conselho mais ou menos salutar. Não 
agimos diferentemente. Não há palpite que não 
levemos em conta, nem amuleto que não nos 
impressione; e se eu tivesse de acreditar em al- 
guma coisa ainda preferiria isso, pois, ao 
menos, não nos causa prejuízo. 

Homero e Platão diziam dos egípcios, que 
eram todos médicos; não se poderia dizer o 


839 Honora medicum propter necessitatem. 


ENSAIOS — II 359 


mesmo de todos os povos? Não há, com efeito, 
ninguém que não se vanglorie de possuir algu- 
ma receita e não se aventure a experimentá-la 
no vizinho, desde que este se preste à experiên- 
cia. Ouvi alguém, como eu atacado de gravela, 
anunciar em certa roda o aparecimento de uma 
pílula nova em cuja composição entravam 
dezenas e dezenas de ingredientes. A informa- 
ção provocou grandes emoções e esperanças; 
que rochedo resistiria a tão considerável 
concentração de meios? Soube depois, pelos 
que a tomaram, que nem uma só parcela de 
cálculo se comoveu. 


Não quero terminar sem me referir ainda ao 
que os médicos nos apontam como garantia da 
eficiência de suas drogas: a experiência. Dois 
terços pelo, menos das virtudes dos remédios 
provêm da quinta-essência das ervas medici- 
nais cujas propriedades recônditas somente o 
uso revela; ora, a quinta-essência de uma coisa 
não é senão a qualidade principal que lhe é 
peculiar e que escapa à nossa razão, a qual 
não lhe pode descobrir a causa. Entre as pro- 
vas de eficiência, dizem eles, algumas lhes 
foram reveladas por demônios! Quando o ale- 
gam, contento-me em verdade com ouvi-los, 
pois não discuto milagres. Outras, aventam- 
nas por analogia, ou as inferem de alguma 
qualidade ocasionalmente verificada. Assim, a 
lã de nossas roupas teria propriedades secati- 
vas e serviria para curar as bicheiras das 
mulas; e a raiz-forte seria purgativa. Galeno 
conta de um leproso que se teria curado beben- 
do vinho de um recipiente em que se escondera 
uma víbora. Tais fatos tornam plausível o efei- 
to da droga, como plausíveis são as experiên- 
cias resultantes da observação dos hábitos de 
certos animais. Quanto às outras experiências, 
a que foram levados pelo acaso ou pela sorte, 
não me parecem dignas de fé. Imaginemos o 
homem contemplando o número infinito de 
coisas, plantas, animais, metais que o cercam; 
por onde iniciará suas experiências? Suponha- 
mos que o faça pelo chifre do veado; só um 
capricho poderá explicar a escolha; e não 
menos inexplicável será a segunda operação. 
Tem a sua frente tantas enfermidades, e tão 
variadas são as circunstâncias em que elas 
ocorrem, que não poderá jamais determinar o 
ponto em que deverá sustar as provas e con- 
cluir. Ser-lhe-ia necessário decidir previamente 
que entre os milhares de coisas que precisa 
pesquisar figura em primeiro lugar o chifre de 
veado; que entre as inúmeras doenças deve 
aplicá-lo à epilepsia; entre os diferentes tempe- 
ramentos, ao melancólico; entre as estações, 
escolher o inverno; entre os diversos povos, 
preferir o francês; entre pessoas de todas as 
idades, lembrar os velhos; entre os momentos 


assinalados pelo movimento dos astros, apon- 
tar a conjunção Vênus-Saturno como a mais 
propícia; e enfim, entre as partes do corpo, 
determinar o dedo como a mais favorável. Não 
tendo por guia em tudo isso, nem argumentos, 
nem conjeturas, nem inspiração divina, e fian- 
do-se tão-somente na sorte, fora preciso que 
uma coincidência realmente admirável, perfei- 
ta, interviesse em seu auxílio! Mas admitamos 
a cura; fora ainda imprescindível provar que o 
mal não estava chegando naturalmente ao fim; 
que não pode ser atribuído a uma outra causa, 
a alguma coisa diferente que a vítima tenha co- 
mido ou bebido; ou que não se deve às orações 
de alguma avó ou tia. E ainda que o fato se 
provasse, cumpriria saber quantas vezes se 
repetiu. E se houve essa longa série de expe- 
riências e verificações necessárias a uma 
conclusão. E a quem cabe tirá-la? Entre mil 
indivíduos entregues a tais experiências, três 
talvez as terão registrado, e será um desses, 
porventura, quem haja chegado a essa conclu- 
são? Estariamos mais esclarecidos, se os juí- 
zos e raciocínios de todos nos fossem conheci- 
dos; mas admitir-se que três testemunhos de 
três doutores bastem para estabelecer as leis da 
saúde humana, não seria razoável. Para que 
tivessem real autoridade, fora preciso que os 
houvéssemos escolhido como mandatários. 


A Madame de Duras 


Senhora, quando hã tempos viestes visitar- 
me, vós me encontrastes ocupado em escrever 
as linhas precedentes. É possível que estas 
inépcias vos caiam um dia nas mãos: quero 
que, nesse caso, não ignoreis quanto me senti- 
rei honrado com vossa atenção. Reconhecereis 
as mesmas idéias e a mesma maneira de expri- 
mi-las que conhecestes. Mesmo que me fosse 
possível empregar linguagem diversa da minha 
linguagem habitual, e forma mais elegante, não 
o-fizera porque não desejo que estas linhas vos 
recordem um indivíduo diferente. Estas obser- 
vações, e consequentes considerações, vôs as 
ouvistes e aceitastes, senhora, graças à vossa 
cortesia, melhor do que merecem; por isso 
quero, sem entretanto as modificar, consigná- 
las em uma obra que me sobreviva alguns anos 
ou dias e na qual vós as encontrareis quando 
desejardes, sem que vos seja necessário conser- 
vá-las na memória. São de resto bem insignifi- 
cantes. Aspiro apenas a que continueis a hon- 
rar-me com vossa amizade em virtude dessas: 
mesmas qualidades que houvestes por bem 
descobrir em mim e que ma outorgaram. 

Não tenho em absoluto a pretensão de ser 
mais estimado morto do que vivo. O amor que 
tinha Tibério à fama e o levaria a preocupar-se 


360 


mais com o renome póstumo do que com se 
mostrar agradável aos seus contemporâneos 
parece-me ridículo, embora encontradiço. Se 
fosse desses a quem o mundo deve render 
homenagens, contentar-me-ia com metade 
delas conquanto pagas adiantadamente. Gos- 
taria de louvores imediatos que me envol- 
vessem em uma atmosfera antes densa que 
extensa ou de longa duração. E que se esvaís- 
sem por completo ao fim de minha vida, quan- 
do seus sons suaves não me penetrassem mais 
os ouvidos. 

Seria tolice, neste momento em que minhas 
relações com os homens ameaçam romper-se, 
mostrar-me a eles sob um aspecto mais favorá- 
vel do que aquele que me conheceram. Consi- 
dero inexistentes os bens que não pude usufruir 
em vida. Quero ser como sou em quaisquer 
circunstâncias e não apenas no papel. Empre- 
guei toda a minha arte e meu engenho em 
melhorar. Não estudei com o objetivo de 
aprender a escrever e sim de me conhecer. 
Todos os .meus esforços visaram a vida e 
pouco me incomodei com criar uma obra lite- 
rária. Ambicionei ser um homem capaz tendo 
em vista as vantagens essenciais no presente e 
não com o intuito de acumular conhecimentos 
para deixar a meus herdeiros. Os méritos 
devem manisfestar-se nos costumes, nas con- 
versações habituais, no amor, nas disputas, no 
jogo, na cama, à mesa, na conduta dos negó- 
cios e na direção da casa; que ponham em 
ordem primeiramente as suas coisas, aqueles 
que, vestidos de trapos, escrevem belos livros. 
Perguntai a um espartano se prefere ser um 
bom retórico a ser bom soldado, mas não o 
indagueis de mim, que preferiria ser bom cozi- 
nheiro se não tivesse um a meu serviço. Não 
me agradaria, senhora, adquirir com meus 
escritos a reputação de talentoso, em permane- 
cendo um tolo sem valor humano. Ainda prefe- 
riria ser tolo igualmente nos escritos e na vida 
a empregar tão mal o meu possível talento. Por 
isso não está em meu pensamento auferir algu- 
ma honra de meus livros. Já me darei por satis- 
feito se não perder demasiado na aventura, 
pois esse retrato morto e mudo de mim mesmo 
não me favorece excessivamente. Não me mos- 
tra na melhor fase de minha existência e sim já 
decadente, sem o vigor primeiro, sem alegria e 
em vias de me tornar rançoso. Chego ao fundo 
do vaso e acho-me prestes a tocar a borra. 

Ademais, senhora, não ousara imiscuir-me 
nos mistérios dessa Medicina que goza de bom 
crédito de vossa parte e de tantas outras pes- 
soas, se não fora incitado pelos próprios médi- 
cos. Creio que entre os antigos só dois, Plínio 
e Celso, escreveram a respeito. Se os lerdes 
algum dia, vereis que falam com muito mais 


MONTAIGNE | 


violência do que eu. Eu belisco apenas, eles 
esfolam. Plínio zormba do subterfúgio dos mé- 
dicos que, já sem outro expediente a seu alcan- 
ce, enviam as vítimas que atormentaram com 
drogas inúteis, em peregrinações à cata de 
milagres ou a estações de águas (não vos irri- 
teis, senhora, não se refere as águas deste lado 
do Garona, que vós protegeis e pertencem aos 
Grammont). Têm eles outra solução: para nos 
afastar, e assim obviar as nossas censuras, 
mandam-nos alhures à procura de melhor 
clima. 


Permiti-me agora que retome o fio de meus 
comentários e volte ao assunto que abandonei 
para conversar convosco. 


Foi Péricles, creio, que respondeu a quem 
lhe perguntava como estava passando: “Julgai 
por isto” e mostrava seus amuletos. Queria 
dizer, com o gesto, que ia tão mal que chegava 
a apelar para tais inutilidades. Não quero afir- 
mar que não me ocorra jamais fazer igual con- 
cessão à crença ridícula e entregar a vida aos 
médicos. É possível que tenha essa fraqueza, 
pois não me cabe prever o futuro, mas então, 
se alguém me vier indagar da saúde, respon- 
derei como Péricles, exibindo a mão untada de 
uma qualquer pomada: “Julgai por isto”. Será 
sem dúvida sinal de doença grave. Se a impa- 
ciência e o medo me houverem dominado a 
ponto de me perturbar o juízo, poderão afir- 
mar que estarei com a alma presa de forte 
febre. 


Dei-me ao trabalho de ventilar este assunto 
de que tão pouco entendo, a fim de fortalecer 
minha repulsa natural e hereditária às drogas e 
à Medicina, e para que essa hostilidade assu- 
misse uma forma mais razoável e lógica, de 
modo que quem me veja tão rebelde às exorta- 
ções e às ameaças com que me acenam quando 
estou doente, não atribua minha atitude à sim- 
ples obstinação, ou à vaidade. Em verdade, 
não seria muito inteligente procurar jactar-me 
de uma maneira de ser que tenho em comum 
com meu jardineiro e meu moço de estrebaria. 
Não estarei assim tão ávido de originalidade 
que procure trocar o bem precioso da saúde, 
de tão grande alcance e satisfação, com uma 
gloriola sem consequência. E ainda que se tra- 
tasse da glória dos quatro filhos de Aimon, 
seria para quem pensa como eu, pagá-la caro 
demais com três ataques de cólicas. Não, a 
saúde antes de tudo! 


Os que apreciam a medicina de nossa época, 
podem ter suas razões, boas, indiscutíveis; não 
odeio as idéias contrárias às minhas; nem se- 
quer me aborrecem as divergências porventura 
existentes entre minha maneira de ver e a dos 
outros, nem me tornam elas incompatível com 


ENSAIOS — II 361 


a sociedade de homens de outro sentir e opi- suscetíveis de transformações do que nos cor- 
nião, pois acho que só muito raramente con-. pos. Nunca houve no mundo duas opiniões 
cordam as idéias e os temperamentos. A varie- | idênticas, como não há dois pêlos nem dois 
dade é, efetivamente, normal na natureza, e grãos de cereal. A qualidade mais universal e 
observa-se mais ainda nos espiritos mais comum éa diversidade. 


.. 


a 


R) 


CAPÍTULO I 


Do útil e do honesto 


Todos estão sujeitos a dizer tolices; o mal 
está em as enunciar com pretensão: “Este 
homem vai provavelmente expor-nos, com ên- 
fase, algumas enormidades!.” Este segundo 
ponto não me diz respeito, porque não dou 
maior atenção às bobagens que me escapam. 
Felizmente para elas, pois as negaria imediata- 
mente se devessem prejudicar-me, ainda que 
mui ligeiramente. Nada compro ou vendo por 
preço mais alto do que vale. Escrevo como 
falo ao primeiro indivíduo que encontro, 
contentando-me com dizer a.verdade. 

Quem não há de detestar a perfidia, se o 
próprio Tibério recusou recorrer a ela em um 
momento em que lhe podia ser utilíssima? 
Mandaram comunicar-lhe, da Alemanha, que, 
se o quisesse, o desembaraçariam de Armínio 
pelo veneno. Era o mais poderoso inimigo dos 
romanos, desbaratara as tropas comandadas 
por Varro e se opunha sozinho à expansão do 
domínio de Roma naqueles territórios. Tibério 
respondeu que seu povo tinha por costume vin- 
gar-se abertamente de seus inimigos, de armas 
na mão e não à traição e de tocaia; trocava 

“assim o útil pelo que acreditava ser honesto. 
Ora, direis, Tibério foi um'temerário. Bem o 
creio, mas fatos semelhantes não são raros nas 
pessoas de sua condição, e o reconhecimento 
da virtude na boca de quem a odeia tem sua 
importância, principalmente quando a verdade 
é que a impõe. E se quem a reconhece não a 
pratica ele próprio, com ela procura ao menos 
enfeitar-se. 

Como quer que encaremos este nosso 
mundo, vemo-lo cheio de imperfeições; nada é 
inútil entretanto na natureza, nem mesmo as 
inutilidades. Nada existe que não tenha sua 
aplicação. Nosso ser é um aglomerado de qua- 
lidades que são ao mesmo tempo defeitos. A 
ambição, o ciúme, a inveja, a superstição, o 
desespero estão em nós e tão naturalmente alo- 
Jados que até nos próprios animais se encon- 
tram. Mesmo a crueldade, esse vício antinatu- 
ral, habita em nós, pois paralelamente à 
compaixão experimentamos uma volúpia agri- 
doce, e doentia, ao espetáculo do sofrimento 


* Terêncio. 


alheio. Sentem-na as próprias crianças: “É 
doce, durante a tempestade, contemplar os na- 
vios que lutam contra o furor das ondas?.” 
Quem extirpasse o germe dos maus senti- 
mentos do coração do homem destruiria nele 
as: condições essenciais à vida. Da mesma 
forma, em todas as administrações existem 
cargos necessários que são abjetos, detestáveis. 
Os vícios aí têm sua função, e servem para sol- 
dar os diversos elementos da sociedade, como 
o veneno se utiliza na conservação de nossa 
saúde. Se são desculpáveis, porque o interesse 
comum os exige, deixemos que os pratiquem 
os cidadãos mais enérgicos, cuja vontade de 
salvar o país leva ao sacrifício da honra e da 
consciência, como levava outrora heróis a 
sacrificarem a vida. Nós, mais fracos, fique- 
mos com os papêis mais fáceis e menos arris- 
cados. O interesse público exige que se traia e 
mate; abdiquemos em benefício de individuos 
mais obedientes e acomodatícios. 

Vi por vezes, entristecido, juízes provoca- 
rem a confissão de criminosos mediante pro- 
messas de perdão, empregando para conven- 
cê-los toda espécie de malandreagens. Teria 
preferido que a justiça usasse outros meios que 
não esses igualmente propugnados por Platão. 
Uma tal justiça segue caminho errado e preju- 
dica-se mais com tais ardis do que com a cri- 
tica de seus censores. 

Respondi há tempos, a alguém, que teria 
grandes escrúpulos em trair os interesses do 
principe para servir um cidadão, mas que não 
os teria menores em trair os de um cidadão em 
benefício do príncipe. Não somente detesto 
enganar, repugna-me também que os outros se 
enganem a meu respeito. Não quero, portanto, 
dar-lhes oportunidade cu razão para que se 
iludam. Por isso, nas negociações de que fui 
encarregado junto a certos príncipes, acerca 
das divisões, de matizes tão diversos, que hoje 
nos atormentam, tive sempre o cuidado de evi- 
tar que se enganassem a meu respeito e me 
tomassem pelo que não sou. As pessoas da 
profissão? descobrem-se o menos que podem; 


4 


2 Lucrécio. 
* Os diplomatas. 


366 


apresentam-se fingindo-se neutros e com idéias 
tão próximas quanto possível das de seus inter- 
locutores. Eu não escondo minhas opiniões, 
por duras que sejam, e mostro-me como sou: 
um intermediário ingênuo € inexperiente, antes 
disposto a fracassar do que a enganar. No 
entanto fui até agora tão feliz nesse papel, 
dependente sem dúvida e em grande parte da 
sorte, que poucos homens intermediários terão 
sido tão bem acolhidos e acatados. Tenho um 
modo franco de tratar com as pessoas, o que 
faz que desde os primeiros momentos lhes con- 
quiste a confiança. À franqueza e a verdade 
são ainda, apesar dos tempos, muito recomen- 
dáveis. Além disso, ninguém suspeita dos que 
negociam sem interesse pessoal, nem se forma- 
liza com a liberdade de palavras de quem pode 
responder, como Hipérides, aos atenienses que 
se queixavam de sua franqueza: “Não deveis 
dar importância à minha liberdade de lingua- 
gem; cabe-vos verificar apenas se a uso em 
proveito próprio.” Meu falar franco poupou- 
me a suspeita de dissimulação; primeiramente 
porque me exprimo com energia, não hesi- 
tando nunca acerca do que me cumpre dizer, 
por severo e duro que seja (longe de meus 
interlocutores não me houvera conduzido 
diferentemente); em segundo lugar por causa 
da ingenuidade e da indiferença aparentes que 
revelo. No que faço, vejo apenas o que me 
cabe fazer, e nao medito de antemão sobre as 
consequências e resultados que me possam 
atingir. Meus atos visam a determinado objeti- 
vo: acerte ou não, terei feito o possível. 

Não tenho sentimento de ódio nem de pro- 
funda afeição pelos grandes; minha vontade 
não é influenciada nem pelo mau tratamento 
que me reservem nem pelas obrigações pes- 
soais porventura contraídas. Dedico a nossos 
reis a fidelidade que lhes devo como cidadão; 
não os procuro nem deles fujo por interesse 
pessoal. Quanto à causa que a maioria apóia e 
me parece justa, aplaudo-a com moderação *. 
Ela não me apaixona. Não lhe hipoteco toda a 
minha razão e a minha alma. A cólera e o ódio 
nada têm a ver com a justiça; são paixões a 
que somente podem entregar-se aqueles que 
não sabem obedecer serenamente à razão e ao 
dever, porque “só quem não domina sua razão 
se abandona aos impulsos desordenados da 
alma *?. Todas as intenções legítimas e justas 
são por si mesmas aceitáveis e moderadas, sem 
o que se tornariam subversivas e ilegítimas. 
Por isso ando por toda parte de cabeça ergui- 
da, rosto e coração abertos. E, em verdade — 
não temo confessá-lo —, em caso de necessi- 


4 O catolicismo em luta contra o protestantismo. 
5 Cícero. 


MONTAIGNE 


dade acenderei de bom grado, como a velhinha 
do ditado, uma vela a São Miguel e outra ao 
dragão *. E seguirei o partido do direito até a 
fogueira exclusive. Que Montaigne” se arruíne 
com a ruína do país, se necessário; mas, se não 
for preciso, muito agradecerei ao destino por 
salvá-lo; e, enquanto meu dever mo permite, 
vou procurando poupá-lo. Não se salvou 
Ático, que se ligara ao partido da justiça, e 
fora derrotado, graças à sua moderação, nesse 
cataclismo que se abateu sobre o mundo e pro- 
vocou tantas ruínas? Semelhante atitude, po- 
dem-na assumir mais facilmente os que, como 
ele, não ocupam cargos públicos. Sou aliás de 
opinião que em tempestades como essas con- 
vém não alimentar ambições e não se compro- 
meter pessoalmente. 

Não acho certo nem honesto, entretanto, 


quando as agitações subvertem o país e o divi- 
dem, permanecer-se hesitante entre os parti- 
dos, sem manifestar preferência ou simpatia 
nem por um nem por outro: “Não significa 
isso seguir um caminho intermediário, signi- 
fica não seguir nenhum; significa aguardar os 
acontecimentos para aderir a quem se benefi- 
cie com a vitórias.” Isso pode ser aceitável 
quando se trata dos negócios alheios: Gélon, 
tirano de Siracusa, indeciso acerca do partido 
a tomar na guerra entre os bárbaros e os gre- 
gos mantinha em Delfos uma embaixada cheia 
de presentes, incumbida de observar de que 
lado penderia o prato da balança para, no 
momento oportuno, conciliar as boas graças 
do vencedor. Em relação às coisas do próprio 
país, fora ato de felonia agir dessa maneira. E 
indiscutível tomar partido, deliberadamente; 
entretanto, não se declarar quando não se tem 
cargo nem comando, parece-me então mais 
desculpável (embora não seja meu caso) do 
que nas guerras contra os estrangeiros, nas 
quais as nossas leis permitem que não partici- 
pemos. Contudo, mesmo os que se compro- 
metem ativamente nas lutas intestinas podem 
fazê-lo com moderação, de modo que a bor- 
rasca não os atinja. Não foi o que ocorreu com 
o Bispo de Orléans, Sr. de Morvilliers? Entre 
os que trabalham com ardor pelo triunfo de 
sua causa, conheço muitos, de gênio e costu- 
mes tão ponderados, que espero ver sobrevive- 
rem, quaisquer que sejam os resultados. Só aos 
reis cabe lutar com os reis, e acho ridículo 
esses individuos que se metem no que não é de 
sua alçada. Não é querelar-se pessoalmente 
com um príncipe, marchar contra ele corajosa 


8 Uma vela a Deus e outra ao diabo. Montaigne 
diz São Miguel, nós nos referimos em geral a São 
Jorge. (N. do T.) 

? O castelo de Montaigne. 

8 Tito Lívio. 


ENSAIOS— II 367 


e abertamente, se assim o exigem a honra e o 
dever; em tal caso, mesmo que não nos apre- 
cie, ele nos estima; e quando o fazemos em de- 
fesa das leis e da ordem, mesmo os que a per- 
turbam por motivos particulares desculpam 
quem as defende; e respeitam-no. 

Mas não devemos denominar “dever”, como 
o fazemos diariamente, esse encarniçamento e 
essa rudez que engendram as paixões e os inte- 
resses, nem devemos considerar corajosa uma 
conduta prenhe de traições e crueldades. Os 
que o fazem, chamam zelo a seus apetites de 
violência; não é a causa que os guia, mas sim 
o interesse; atiçam a guerra pela guerra e não 
porque seja justa. 

Nada impede que inimigos leais se condu- 
zam de maneira sensata. Tratemos todos com 
igual moderação, senão com idêntica afeição 
— pois esta pode realmente variar — e não 
nos dediquemos a ninguém a ponto de lhe dar 
o direito de tudo exigir de nós. E contentemo- 
nos também com a boa vontade discreta de 
uns e de outros; procuremos navegar nessas 
águas turvas sem, entretanto, nelas querer 
pescar. 

Quanto a se oferecer com paixão a uns e a 
outros, é coisa mais impudente ainda do que 
inconsciente. Pois não pode quem nos acolhe, 
ainda que não o demonstre, confiar inteira- 
mente em nós. Sabe muito bem que assim 
como traimos alguém para aderir a ele, tam- 
bém o trairemos oportunamente. Há de consi- 
derar-nos detestáveis, embora utilize nossa 
deslealdade em benefício próprio. As pessoas 
de duas caras são úteis pelo que trazem, mas é 
preciso estar de atalaia para que levem o 
menos possível. 

Nada digo a um o que não possa dizer a 
outro, mudando tão-somente de tom; só lhes 
comunico as coisas indiferentes ou conhecidas, 
ou que são úteis a ambos. Nada me leva a 
mentir. Se algo me é confiado em segredo, não 
calo-o religiosamente, mas só aceito que me 
digam o minimo necessário. Os segredos dos 
príncipes são incômodos para quem não quer 
servir-se deles. Por isso, em geral, ofereço-lhes 
o seguinte: que me confiem pouca coisa mas 
que se fiem em tudo o que lhes traga. Sempre 
vim a saber mais do que desejara. Uma lingua- 
gem franca incita os outros a procederem de 
igual modo. É como o vinho e o amor. 

A meu ver, Filípides respondeu com sabedo- 
ria ao Rei Lisimaco que lhe perguntara o que 
queria saber da situação: “o que quiseres, con- 
quanto não sejam segredos teus”. Há quem se 
revolte quando lhe escondem o fundo da ques- 
tão que lhe cumpre tratar, ou quando não lhe 
revelam algum sentido especial; eu, ao contrá- 
rio, gosto de que me comuniquem exatamente 


o necessário ao desempenho da missão, pois 
receio que, em sabendo mais, seja forçado a 
controlar-me. Se devo contribuir para enganar 
alguém, que minha consciência, ao menos, não 
se perturbe. Não quero que me considerem tão 
absolutamente leal que me obriguem a partici- 
par de uma traição. É desculpável que não 
façamos pelos outros aquilo que não estamos 
dispostos a fazer por nós mesmos. Há prínci- 
pes que não aceitam homens assim e despre- 
zam os servidores que estabelecem limites à 
obediência. A esses, digo-lhes desde logo até 
que ponto lhes posso servir, pois entendo não 
ser escravo senão da razão, e ainda assim mal 
o consigo. Quanto a eles, erram em exigir tal 
submissão de um homem independente, im- 
pondo-lhe obrigações como fariam a um escra- 
vo, ou a alguém cuja fortuna à deles se ligasse 
de maneira absoluta. 

Pouparam-me as leis graves dificuldades: 
indicaram-me o partido que me cumpria 
tomar, apontaram-me o meu chefe; quaisquer 
outras razões, por elevadas que sejam, cedem 
lugar àquelas e se tornam caducas; eis por que, 
ainda que meus sentimentos me impelissem 
para o partido contrário, a ele não me filiaria 
imediatamente. Nossa vontade e nossos dese- 
jos só a eles mesmos obedecem, mas nossos 
atos devem atentar para as leis que regulam e 
resguardam a ordem pública. 

Minha maneira de agir é algo diferente da 
habitual e não teria possibilidade de grandes 
êxitos nem de durar muito; a própria inocência 
não poderia, em nossa época, dispensar a dissi- 
mulação, nem negociar sem mentir. Daí não 
serem os cargos públicos do meu agrado; e ao 
que a esse respeito exige de mim a minha 
profissão, atendo do modo menos oficial possi- 
vel. Quando jovem, enfiaram-me na vida pú- 
blica até as orelhas; meu destino era fazer car- 
reira, mas desde cedo me desvencilhei dos 
encargos. Posteriormente evitei, mais de uma 
vez, meter-me novamente nisso; só de raro em 
raro aceitei alguma missão, sem de resto a 
desejar. Sempre fugi à ambição, mas, embora 
não o fizesse como os remadores que avançam 
de costas para a meta, tive a meu alcance vá- 
rias oportunidades, e, se consegui evitar maio- 
res compromissos, devo-o antes à sorte do que 
à resolução, pois há na vida pública caminhos 
que me agradariam bastante e diante de uma 
boa situação na sociedade talvez não desse 
mais ouvidos à voz da razão. Os que, contra o 
que afirmo, vão dizendo que essa franqueza, 
essa simplicidade e essa ingenuidade que apre- 
gôo não passam, no fundo, de artifício e esper- 
teza; que se trata mais de prudência que de 
bondade, mais de habilidade que de tendência 
natural, mais de bom senso que de sorte, muito 


368 


me honram. Emprestam-me mais astúcia do 
que me caberia reivindicar; e daria ganho de 
causa a quem me seguisse e vigiasse caso não 
verificasse que não há regra capaz de regular 
gestos e atitudes tão naturais, vem de manter 
uma independência e inflexibilidade tão cons- 
tantes por caminhos tão diversos. E se não 
conviesse em que todo o seu engenho e cuida- 
do não o conseguiriam tampouco. O caminho 
da verdade é um só, e simples; o que nosso 
interesse pessoal e os negócios alheios nos 
obrigam a seguir é tortuoso, desigual, aciden- 
tado. Vi muitas vezes quem se utilizasse artifi- 
cialmente dessas qualidades, nunca porém 
com grande êxito. E sempre me lembrei, em 
tais circunstâncias, do asno de Esopo, que que- 
rendo rivalizar com o cão pôs alegremente as 
patas sobre os ombros do'dono. Mas, ao passo 
que o cão era recompensado com carinhos, 
recebeu o asno boas bastonadas: “O que me- 
lhor vai a cada um é o que lhe é naturalº.” 
Mas seria desconhecer a realidade não dar à 
malandragem o mérito que lhe cabe; sei que 
não raro presta serviços e é necessária em mais 
de uma ocasião. Há defeitos lícitos como há 
boas ações ilícitas. 

A justiça em si, em seu estado natural, é uni- 
versal e tem regras diferentes e mais elevadas 
do que essa justiça especial, nacional e condi- 
cionada às necessidades dos governos: “Não 
temos modelo sólido e positivo do verdadeiro 
direito e da justiça perfeita; temos apenas uma 
imagem dela, uma sombra! º.? 

O sábio Dandamis, ouvindo o relato das 
vidas de Sócrates, Pitágoras e Diógenes julga- 
va-os grandes homens, mas demasiado escra- 
vos das leis que a verdadeira justiça não pode 
aceitar e apoiar, senão abdicando a rigidez de 
seus princípios essenciais, pois não somente as 
leis permitem atos condenáveis como também 
nos incitam a cometê-los: “Há crimes autori- 
zados pelos editos do senado e por plebisci- 
tos!!.? Quanto a mim, emprego a linguagem 
comum, distinguindo as coisas úteis das hones- 
tas, e qualificando como desonestos e indecen- 
tes certos atos:naturais, não apenas úteis mas 
necessários. 

Voltemos à traição. 

Dois pretendentes disputavam o reino da 
Trácia. Proibiu-os o imperador de o reivindi- 
carem pelas armas. Um deles então, fingindo 
desejar um acordo amigável, convidou seu 
adversário para uma festa, e o mandou prender 
e matar. Ordenava a justiça que os romanos 
punissem o malfeitor. Mas era difícil recorrer 


9 Cicero. 
1º Td. 
11 Sêneca. 


MONTAIGNE | 


às vias legais e resolveram conseguir, pela trai- 
ção, o que legitimamente não se fizera sem 
correr o risco de uma guerra. E o que não 
puderam realizar honestamente, obtiveram-no 
pela manha, através de um tal Pompônio 
Flaco, o qual, com promessas e lisonjas, atraiu 
o pretendente assassino, e, em lugar de honras 
e favores, remeteu-o preso para Roma. Um 
traidor é por outro traído, o que não é comum, 
entretanto, porque são os traidores em geral 
muito desconfiados e dificilmente se sur- 
preendem com subterfúgios que estão habitua- 
dos a empregar. Comprova-o a fatal expe- 
riência que acabamos de ter! 2. 


Esse papel de Pompônio Flaco, desempe- 
nhe-o quem quiser, e muitos o hão de querer. 
Minha palavra e a confiança que possa inspi- 
rar pertencem, como tudo o que há em mim, à 
minha comunidade; não admito que duvidem 
disso, mas assim como responderia a quem me 
mandassse tomar a direção do palácio da justi- 
ça: “não entendo do riscado”; assim: como 
diria a quem determinasse que assumisse a 
chefia dos sapadores: “fui feito para exercer 
cargo mais elevado”; a quem quisesse, em 
vista de uma tarefa de certa importância, 
empregar-me em mentir e trair, ainda que sem 
assassinar ou envenenar, observaria imediata- 
mente: “prefiro as galeras”. Há sempre possi- 
bilidade, com efeito, para um homem de honra, 
de falar como os lacedemônios a Antípater 
(que acabara de vencê-los): “Podereis impor- 
nos as penas que quiserdes, tarefas que nos 
esmaguem e prejudiquem, mas perdereis vosso 
tempo exigindo de nós coisas vergonhosas e 
desonestas.” Devemos jurar a nós mesmos o 
que os reis do Egito exigiam de seus juizes: que 
não se desviariam nunca do que lhes ordenasse 
a consciência, ainda que recebessem instruções 
do próprio soberano. À tais tarefas prende-se 
um estigma evidente; quem no-las impõe já 
nos julga de antemão. Impondo-nos o encargo, 
impõe-nos um castigo. E nossos próprios inte- 
resses sofrerão com isso na medida em que 
lucrarão os da coletividade. Quanto maior 
eficiência demonstrarmos em nossa ação, 
maior prejuizo pessoal tiraremos dela, não 
sendo de espantar que ainda nos arruíne quem 
nos haja atribuído a tarefa; é o julgarão justo, 
por certo. 

Se casos há em que se possa desculpar a 
traição, dirão respeito sem dúvida à que se 
emprega em punir um traidor. Vemos muitas 
vezes a perfídia punida por aqueles a quem ela 
beneficiara. Todos conhecem a sentença de 


'2 Não se sabe exatamente a que alude Montaigne. 
Provavelmente aos fatos ocorridos na noite de São 
Bartolomeu. (N. do T.) 


ENSAIOS — HI 


Fabrício contra o médico de Pirro. Ocorre 
também que quem a ordena castigue ele pró- 
prio o executante, como que lhe denegando 
crédito e poder, e profligando tão passiva e 
covarde obediência. Jarolpec, duque da Rús- 
sia, obtivera de um fidalgo húngaro que traísse 
Boleslau, rei da Polônia, adormecendo-o ou 
dando aos russos os meios de lhe causar gra- 
ves prejuízos. O traidor agiu com habilidade, 
conseguindo granjear a amizade do rei e 
tornando-se seu conselheiro e confidente. Gra- 
ças à confiança assim alcançada, aproveitou- 
se oportunamente da ausência de seu senhor 
para entregar ao inimigo a rica cidade de Vasi- 
lícia, a qual foi inteiramente saqueada e incen- 
diada, tendo tido morte violenta seus habitan- 
tes de ambos os sexos e de qualquer idade, bem 
como numerosos fidalgos das vizinhanças, que 
o húngaro reunira para o fim visado. Jarolpec, 
depois de se vingar e aplacar uma justa cólera 
(Boleslau fizera o mesmo com ele), já sem pai- 
xão e encarando o feito com serenidade, sentiu 
- tamanho remorso e vergonha que mandou 
vazar os olhos, cortar a língua e as partes geni- 
tais do traidor. 


Antígono persuadira os argiraspides a lhe 
entregarem Eumenes, seu chefe. Mal acabou 
de executá-lo, arvorou-se em agente da justiça 
divina a fim de punir tão detestável velhaco: 
escreveu ao governador da província intiman- 
do-o a prender os que haviam cometido a trai- 
ção e a exterminá-los de qualquer maneira. E 
nenhum deles em verdade jamais reviu a 
Macedônia. Julgava-os, assim, tanto mais 
merecedores de castigo quanto melhor o ha- 
viam servido. 


O escravo que revelou o esconderijo de. P. 
Sulpício, seu amo, foi libertado por Sila de 
acordo com a promessa feita, mas este, a fim 
de dar uma satisfação à opinião pública, man- 
dou que, embora livre, o jogassem do alto da 
Rocha Tarpéia. 


Clóvis, um de nossos reis, em lugar das 
armas de ouro que prometera aos traidores de 
Canacre, mandou enforcâ-los. Fizeram-no, 
pendurando-lhes ao pescoço uma bolsa com a 
recompensa do crime. Assim, embora cum- 
prindo fielmente sua promessa, dava satisfação 
à opinião soberana do povo. 

Maomé, desejoso de se desfazer do irmão, 
que aspirava igualmente ao trono, empregou 
um de seus oficiais, o qual afogou a vítima, 
obrigando-a a ingurgitar enorme quantidade 
de água. Cometido o crime, Maomé entregou o 
assassino à mãe do morto (eram irmãos 
somente por parte de pai). Esta, em sua presen- 
ça, abriu o peito do criminoso, arrancando-lhe 

.O coração que jogou, ainda palpitante, aos 
cães. É reconfortante, mesmo para os que só 


369 


alimentam maus sentimentos, poder ligar à 
ação abominável, cujo fruto colheram, um 
traço de bondade e justiça a fim de aliviar a 
consciência do peso de sua cumplicidade; 
tanio mais quanto, sentindo nos executantes 
uma censura possível, procuram abafá-la e 
apagar com a morte a prova de sua própria 
participação. Supondo ainda que se recom- 
pense o traidor, quem o faz não deixa de o jul- 
gar execrável e maldito, e mais miserável do 
que o julgaria o próprio traído, pois sabe 
perfeitamente o que vale tal indivíduo, e, se o 
emprega, encara-o como esses pobres homens 
de que se vale a justiça nas penas capitais e 
que são tão úteis quão desprezíveis. Além do 
que têm de vil, essas missões nos desonram. A 
filha de Sejano que, segundo a legislação 
romana, não podia ser executada por ser ainda 
virgem, foi deflorada antes pelo carrasco; aten- 
dia-se desse modo à letra da lei. A profissão 
que esse homem exercia exigiu dele, em seme- 
lhante circunstância, que emporcalhasse a 
alma. 

Amurat 1, no intuito de agravar a pena 
imposta a seus súditos que tinham. sustentado 
a rebelião de seu filho e se haviam tornado 
cúmplices da tentativa de parricídio, ordenou 
que os mais próximos parentes dos condena- 
dos auxiliassem pessoalmente a execução. 
Alguns, o que acho muito digno, preferiram 
ser considerados cúmplices de um delito come- 
tido por outrem a se tornarem culpados da vi- 
leza de justiçar os próprios filhos. Em algumas 
choupanas tomadas de assalto em nossas guer- 
tas civis, tive a oportunidade de ver indivíduos 
que, para salvar a pele, concordavam em 
enforcar os companheiros; seu destino pare- 
ceu-me bem mais lamentável que o dos 
enforcados. 

Dizem que Witold, principe da Lituânia, 
decretou que todos os condenados à morte se 
matassem a si próprios, pois não achava justo 
obrigar um inocente a cometer semelhante 
crime. 

O príncipe que por uma circunstância qual- 
quer ou acidente inopinado se vê forçado a fal- 
tar à sua palavra ou a desprezar o seu dever, 
deve encarar tal necessidade como uma prova 
imposta por Deus. Não se trata então de um 
defeito; sua razão vê-se constrangida a ceder 
diante de outra mais poderosa; mas trata-se de 
uma desgraça. A alguém que indagava como 
remediar a isso, respondi: “É impossível, se 
realmente o príncipe se encontra nessa situa- 
ção” (“que não procure pretextos para ser 
perjuro?º*); precisa fazê-lo, mas se o faz sem 
que isso lhe custe, é sinal de que tem a cons- 
ciência carcomida. Se surgisse alguém, tão 


13 Cicero. 


370 


escrupuloso que nenhuma necessidade lhe 
parecesse justificar o emprego de tão violento 
remédio, eu o admiraria ainda mais, pois não é 
possível perder um reino de maneira mais 
desculpável e honrosa. Não podemos tudo, por 
isso é preciso não raro entregar aos céus O 
governo de nosso barco, porque a última possi- 
bilidade de salvação está na proteção divina. 
Haverá necessidade que mais justifique o apelo 
de um príncipe? Haverá coisa mais impossível 
para ele do que aquilo que só pode realizar a 
expensas de sua honra? Esta deve ser-lhe mais 
cara do que a própria vida e a vida de seu 
povo. Portanto, se cruzar os braços e invocar a 


bondade divina, sem dúvida se verá atendido, 
em sendo sua causa justa. Mas tal exemplo é 
por certo perigoso porque faz exceção às re- 
gras naturais. É normal, pois, que ceda quando 
preciso, mas que se modere então. Nenhum 
interesse particular mas tão-somente o inte- 
resse público deve levar-nos a violentar assim 
nossa consciência; assim mesmo quando per- 
feitamente definido. As lágrimas de Timoleão 
por ter morto o tirano, seu irmão, justifica- 
ram-no perante o povo; feria-lhe a consciência 
ter de atender ao interesse coletivo a expensas 
de sua honra e retidão. O próprio Senado, que 
assim recuperava a liberdade, não ousou 
pronunciar-se acerca de um gesto de tão gran- 
de importância. Os siracusanos chegaram a 
propósito para solicitar a proteção dos corin- 
tios e o envio de um chefe capaz de devolver à 
cidade seu antigo esplendor, purgando a Sicília 
da opressão de vários tiranetes. O Senado 
mandou-lhes Timoleão e propôós-lhe o seguinte 


trato: se se saísse bem da empresa, a sentença 
ser-lhe-ia favorável, levando-se em conta ape- 
nas a libertação do país; se não tivesse êxito, 
julgá-lo-iam como assassino do irmão. Tão 
singular decisão explica-se pela gravidade do 
ato e o perigo de semelhante precedente. 
Razão tiveram os coríntios de não confiar de 
imediato em seu próprio julgamento, e de 
aguardar novos motivos para justificar a sen» 
tença final. A conduta de Timoleão mostrou 
bem depressa o que se devia pensar dele, pois 
foi muito digna sob todos os aspectos. A felici- 
dade com que se houve parecia ter-lhe sido 
outorgada pelos deuses favoráveis à sua 
absolvição. 


O fim visado por Timoleão desculpa-lhe o 
ato na medida em que pode ser desculpado. 
Mas o benefício que auferiu o tesouro, e foi a 
razão de agir do Senado na circunstância que 
vou relatar, não bastaria para absolvê-lo da 
injustiça que cometeu em outra história menos 
limpa. Certas cidades haviam resgatado sua 
liberdade, e isso fora ratificado pelo Senado. 
Com a morte de Sila, porém, revogou-se a 


MONTAIGNE 


| 


decisão, ficando elas novamente sujeitas a 
contribuições e taxas e não lhes sendo devol- 
vida a soma despendida com o resgate. Às 
guerras civis produzem com freglência exem- 
plos como esses. Castigamos os cidadãos por 
terem acreditado em nós quando éramos dife- 
rentes do que agora somos; o magistrado obri- 
gado a mudar de orientação aplica a pena a 
quem nada tem com isso; o professor açoita o 
aluno por ter sido dócil demais, e o guia mal- 
trata o cego. Linda imagem da justiça! 

Hã regras falsas e muito elásticas na filoso- 
fia. O exemplo seguinte que nos propõem, 
como um caso em que o interêsse particular 
prima sobre a palavra empenhada, não me pa- 
rece com suficiente autoridade, dadas as 
circunstâncias a que se prende. Suponhamos 
que bandidos se apoderem de nós e nos devol- 
vam a liberdade depois de nos obrigar a jurar 
que lhes pagaremos determinada importância. 
Deve-se sustentar que, uma vez libertado, um 
homem de bem se ache dispensado de cumprir 
sua promessa? Não. O que o temor me fez 
aceitar, devo continuar a aceitá-lo quando 
nada mais tiver a temer. E, ainda que esse 
temor me houvesse constrangido a dizer o que 
minha vontade não desejava, devo cumprir a 
palavra empenhada. Quando me ocorreu, 
ocasionalmente, ir além de meu pensamento, 
sempre tive o maior escrúpulo em não me des- 
mentir. De outro modo, a pouco e pouco, 
acabaríamos por abolir quaisquer direitos de 
terceiros, baseados em promessas e juramen- 
tos; “como se a violência pudesse influir na 
decisão de um homem de caráter! *”?. Só no 
caso de havermos prometido algo injusto e 
mau em si, é que o interesse particular pode ser 
invocado como desculpa, pois os direitos da 
virtude precisam sobrepor-se a quaisquer ou- 
tros. 


Coloquei Epaminondas entre os homens 
mais eminentes; não volto atrás, pois ergueu 
muito alto o que considerava seu dever pes- 
soal. Jamais matou um vencido; nunca, ainda 
que fosse para libertar seu país, houvera elimi- 
nado um tirano ou seus cúmplices sem ser 
pelos meios legais; e julgava perverso quem 
não poupasse o amigo porventura militando 


nas fileiras inimigas. Rica era sua alma, pois 
nas mais violentas e rudes ações humanas; per- 
manecia bom e generoso; e isso nas condições 
mais delicadas previstas pela filosofia. Essa 


coragem tão grande, essa tenacidade e resis- 
tência à dor, à morte, à pobreza, foi por arte ou 
temperamento que as alcançou, agregando- 
lhes a doçura e a bondade? Coberto de sangue, 
obstinado sob os golpes, enfrenta e vence uma 


14 Cícero. 


ENSAIOS — HI 


nação que ninguém vencera; e em plena bata- 
lha evita ferir o amigo! Senhor tão indiscutível 
da guerra que a forçava a inclinar-se ante sua 
bondade, é isso em meio aos maiores horrores, 
na excitação dos combates, e do estrondo das 
armas! É milagroso introduzir em ações dessa 
ordem uma imagem da justiça e somente pelo 
rigor de seus princípios pôde Epaminondas 
associá-las à doçura e à prática dos bons cos- 
tumes, da tolerância e da mais pura inocência. 
Enquanto uns afirmam que “os tratados nada 
mais valem quando se pega em armas”, e ou- 
tros ainda que o “ruído das armas os impede 
de ouvir a voz das leis”, Epaminondas ouve 
atê a da simples cortesia. Aprendera a sacrifi- 
car às musas a caminho do combate, a fim de 
atenuar pela doçura e alegria que elas inspiram 
a fúria e os rigores do guerreiro. Aprendamos, 
pois, com tão nobre modelo, a pensar que, 
mesmo contra O inimigo, nem tudo é permitido 
e que o interesse geral não deve tudo reivin- 
dicar em detrimento do interesse particular: 
“O direito privado não deve ser olvidado em 
meio às dissensões públicas! 8.” “Não há força 
que nos possa levar a infringir os direitos da 
amizade! 8.” Há coisas que um homem de bem 
não faz nem em defesa do rei, nem em defesa 
da ordem e da lei, “pois a pátria não destrói 
todos os deveres, e a ela própria convém ter 
cidadãos que honrem seus pais! 7”. Parece-me 
oportuno apregoá-lo em nosso tempo. 

Não nos agradam os princípios exclusi- 
vistas; não ê necessário que encouracemos 
nossas almas como fazemos com nosso corpo; 
e que nossas penas molhem na tinta e não no 


15 Tito Lívio. 
18 Ovídio. 
17 Cícero. 


371 


sangue. Se a maior virtude consiste em despre- 
zar a amizade e as nossas obrigações em faltar 
à palavra e ignorar os laços de parentesco em 
benefício do bem comum e em obediência à lei, 
há de justificar-lhe a ausência o fato de não a 
ter assim considerado o grande Epaminondas. 
Abomino a violência daquela alma em deli- 
rio que clamava: “Enquanto a espada estiver 
desembainhada expulsai a piedade de vossos 
corações; que a própria presença de vossos 
pais nas fileiras inimigas não vos atemorize: 
golpeai as cabeças veneráveis! 8,” Soneguemos 
aos perversos, aos sanguinários e traidores, 
esse pretexto para se entregarem a seus instin- 
tos; desprezemos essa justiça excessiva e aten- 
temos para exemplos mais humanos. A esse 
respeito a época e o exemplo podem muito. 


Na guerra contra Cina, um soldado de Pom- 
peu matou, sem querer, o irmão que combatia 
nas fileiras inimigas. E suicidou-se em seguida, 
de vergonha e desespero. Entretanto anos 
depois, em outra guerra civil, um soldado que 
matara O irmão pediu uma recompensa a seus 
chefes. 


- 


É um erro julgar a beleza e a grandeza de 
uma ação pela sua utilidade e imaginar que 
devemos fazer e considerar honesto tudo o que 
é útil: “Nem todas as coisas convêm igual- 
mente a todos"º.? Vejamos a mais necessária e 
útil ao gênero humano: o casamento. Não 
acham os santos mais honesto evitá-lo, repro- 
vando assim o mais respeitável dever dos 
homens? Pela mesma razão mandamos para o 
haras, como reprodutores, os animais que 
menos apreciamos. 


18 Lucano. 
1º Propércio. 


CAPÍTULO II 


Do arrependimento 


Outros autores têm como objetivo a educa- 
ção do homem; eu o descrevo. E o que assim 
apresento é bem mal conformado. Se o tivesse 
de refazer, faria-o sem dúvida bem diferente. 
Acontece que já está feito. Os traços deste seu 
retrato são fiéis, embora variem e se diversifi- 
quem. O mundo é movimento; tudo nele muda 
continuadamente; a terra, as montanhas do 
Cáucaso, as pirâmides do Egito, tudo participa 
do movimento geral e do seu próprio; e a 
imobilidade mesma não passa de um movi- 


mento menos acentuado. Não posso fixar o ob- 
jeto que quero representar: move-se e titubeia 
como sob o efeito de uma embriaguez natural. 
Pinto-o como aparece em dado instante, 
apreendo-o em suas transformações sucessi- 
vas, não de sete em sete anos, como diz o povo 
que mudam as coisas, mas dia por dia, minuto 
por minuto. É pois no momento mesmo em 
que o contemplo que devo terminar a descri- 
ção; um instante mais tarde não somente pode- 
ria encontrar-me diante de uma fisionomia 


372 


mudada, como também minhas próprias idéias 
possivelmente já não seriam as mesmas. 
Observo e anoto os diversos acidentes que 
ocorrem dentro de mim e as concepções mais 
ou menos fugidias que minha imaginação 
engendra, as quais são por vezes contraditórias 
ou porque tenha mudado eu, ou porque o obje- 
to da observação apareça dentro de um quadro 
e de uma luz diferentes. Daí acontecer-me, não 
raro, cair em contradição, embora, como diz 
Dêmades, não deixe de ser autêntico. Se minha 
alma pudesse fixar-se, eu não seria hesitante; 
falaria claramente, como um homem seguro de 
si. Mas ela não pára e se agita sempre à procu- 
ra do caminho certo. 

Apresento uma vida das mais vulgares, que 
nada tem de especial. A vida intima do homem 
do povo é de resto um assunto filosófico e 
moral tão interessante quanto a do indivíduo 
mais brilhante; deparamos em qualquer 
homem com o Homem. Tratam os escritores 
em geral de assuntos estranhos à sua persona- 
lidade; fugindo à regra — e é a primeira vez 
que isso se verifica — falo de mim mesmo, de 
Michel de Montaigne, e não do gramático, 
poeta ou jurisconsulto, mas do homem. Se o 
mundo se queixar de que só fale de mim, eu me 
queixarei de que ele não pense somente em si. 
Mas será razoável, vivendo apenas por mim, 
pretender iniciar o público no conhecimento de 
mim mesmo? Será razoável igualmente apre- 
sentar-lhe, sem esses artifícios que ele tanto 
aprecia, simples efeitos de uma natureza bem 
pouco original? Escrever um livro assim não 
será querer levantar um muro sem pedras ou 
empreender uma qualquer tarefa sem o impres- 
cindível talento? E a arte que ordena as fanta- 
sias da música; as minhas, devo-as ao acaso. 
Tenho contudo a meu favor conhecer a fundo 
o meu assunto, e melhor do que ninguém, pois 
ninguém penetrou melhor o seu objetivo nem 
atentou mais seriamente para as suas decor- 
rências. Para levar a cabo um tal trabalho, não 
preciso senão de sinceridade; e essa qualidade 
é pura e total nesta obra. Digo a verdade, não 
tão cruamente quanto desejara, mas na medida 
de minhas forças e estas, nesse sentido, vão 
aumentando com a idade, porque observei que 
às pessoas mais velhas se concede maior liber- 
dade de linguagem. Não há perigo de que o 
artesão e sua obra se contradigam, nem por- 
tanto que me objetem: “como pode ter sido 
escrito por tão pobre espírito uma obra tão 
erudita?” Quando a companhia de alguém é 
vulgar e sua obra valiosa, deduz-se que não é 
de sua autoria. Um sábio não é sábio em tudo, 
mas o homem capaz o é, inclusive na sua igno- 
rância. Eu e meu livro estamos bem aparelha- 
dos. Em outros casos, pode-se apreciar a obra 


MONTAIGNE | 


e não gostar do autor; no meu caso, não. 
Quem julgar uma coisa sem levar em conta a 
outra, há de prejudicar-se a si próprio mais do 
que a mim, e quem julgar com conhecimento 
de causa há de achar-se satisfeito, ao que espe- 
ro. Já me sentirei muito feliz se obtiver a apro- 
vação pública da gente de bom-senso, a qual 
admitirá sem dúvida que eu fora capaz de tirar 
proveito da ciência, se tivesse maiores conheci- 
mentos; e que é lamentável a fragilidade de 
minha memória. 

Expliquemos aqui o que repito constante- 
mente: só de raro em raro me arrependo, e 
minha consciência contenta-se com seu pró- 
prio testemunho, não o de uma consciência de 
anjo ou de animal, mais o de uma consciência 
humana. A isso acrescentarei o que também 
repito sempre: que não se trata aqui de simples 
palavrório e sim de um ato de humildade com- 
pleta e absoluta: “o que digo provém de 
alguém que não sabe e procura; e como con- 
clusão atenho-me simplesmente às idéias co- 
muns e€ legítimas. Não ensino, conto”. 

Não hã vício real que não nos ofenda e não 
dê azo a um julgamento sadio. Os inconve- 
nientes do vício são, em verdade, tão visíveis 
que talvez tenham razão os que afirmam resul- 
tar ele da estupidez e da ignorância sendo difi- 
cil imaginar que se possa conhecê-lo sem o 
detestar. A maldade ressorve a maior parte de 
seu próprio veneno e se envenena a si mesma. 
O vício acarreta o remorso, o qual está para a 
alma como a úlcera para a carne, pois faz que 
se coce alguém e se fira, sem assar. A razão 
apaga todas as tristezas, todas as dores, ao 
passo que alimenta as que provêm do remorso, 
o qual é tanto mais agudo quanto nasce dentro 
de nós, assim como o frio e o calor da febre 
nos são mais penosos do que os que nos vêm 
de fora. Chamo vício (segundo o grau, entre- 
tanto), não somente ao que a natureza e a 
razão condenam, mas ainda ao que, certo ou 
erroneamente, o homem assim o qualificou 
quando as leis e os costumes o ratificaram. 

Tudo o que é bom satisfaz uma natureza de 
escol; fazer o bem traz sempre uma satisfação 
interior reconfortante e inspira essa generosa 


altivez que acompanha a consciência limpa. 


Uma alma que se mostra corajosa no vício, 
ainda que segura de si, não alcança jamais a 
satisfação. Não é pequeno o contentamento 
que sentimos em saber que não estamos conta- 
giados por um século tão contaminado. Re- 
conforta dizer: “quem mergulhasse no fundo. 
de minha alma não me acharia culpado, até o 
presente, de ter afligido alguém, ou o arruina- 
do, nem tampouco de haver atentado publica- 
mente contra as leis, ou contribuído para fazer 
que prevalecessem novidades, ou participado 


ENSAIOS — II 


das perturbações da ordem, ou faitado à pala- 
vra dada. E, embora a licença da época o haja 
permitido e ensinado, não pus a mão nem nos 
bens nem na bolsa de nenhum francês. Vivi da 
minha, tanto na paz como na guerra, e nunca 
empreguei ninguém sem lhe pagar o trabalho”. 
Tais testemunhos de boa consciência agradam; 
e essa satisfação intima, única recompensa que 
nunca falha, é de grande importância. 

Buscar na aprovação alheia recompensa 
para as ações alheias, é escolher base dema- 
stada incerta e mal definida, principalmente 
em uma época tão corrupta e ignorante como a 
nossa, em que a estima que nos dedica a massa 
ê injuriosa e na qual não sabemos em quem 
confiar para julgar o mérito das coisas. Deus 
me preserve de ser um homem de bem como 
esses que eu vejo diariamente assim qualifica- 
dos! “Os vícios de outrora tornaram-se os cos- 
tumes de hoje?º.? Alguns amigos empreen- 
deram por vezes corrigir-me e criticar-me, cu 
espontaneamente ou a pedido meu, porque é 
um serviço, esse, que só a amizade verdadeira 
pode prestar. Acolhendo, embora, essas críti- 
cas com cortesia e gratidão, posso garantir que 
encontrei tão pouca verdade em seus reparos 
quanto em seus louvores; e, em os ouvindo, 
por certo me houvyera prejudicado mais do que 
beneficiado. Nós, que não vivemos uma exis- 
tência pública, temos necessidade de um juiz 
interior que julgue nossos atos e nos anime ou 
castigue. Para julgar os meus, tenho leis e tri- 
bunal próprios, a que recorro. Acontece-me 
modificar meus atos de acordo com o julga- 
mento alheio, mas só atendo na realidade a 
meu próprio juízo. Só nós mesmos sabemos se 
somos covardes e cruéis, ou leais e religiosos; 
não nos vêem os outros, tão-somente nos adi- 
vinham de acordo com conjeturas duvidosas. 
Não é a nossa natureza real que percebem, e 
sim a aparência que, mediante artifícios, 
conseguimos exibir. Atentemos portanto uni- 
camente para a nossa própria opinião: “Usa: 
vosso julgamento... o que pesa é a cons- 

ciência que temos do vício e da virtude. O 
resto nada significa? 1.” 


Dizem que o arrependimento acompanha de 
perto o erro; isso não me parece dizer respeito 
ao que se elege domicílio em nós. Podemos 
condenar e arrenegar os vícios acidentais a que 
nos impeliram as paixões; mas os que pelo há- 
bito ou resolução se incrustaram em nós não 
estão sujeitos a arrependimento. Este não 
passa então de uma falha da vontade, de uma 
revolta ocasional de nosso espírito. Pois até da 
virtude passada alguém se arrependeu: “Ah, 


20 Sêneca. 
21 Cicero. 


373 


por que não tive outrora a experiência de hoje ! 
por que meu rosto não conservou o buço da 
juventude?? Pº 


Deliciosa é a vida de quem obedece à regra, 
mesmo na intimidade. Todos podem fazer-se 
comediantes e representar o pape! de um per- 
sonagem honesto. Mas dentro de nós, onde 
somos senhores, onde tudo permanece secreto, 
é difícil não nos afastarmos da regra. E ser 
ponderado em assunto que não suporta a inter- 
ferência alheia, é aproximar-se da perfeição. 
Nesse espírito foi que Bias esboçou o pano- 
rama de uma família modelo, em que “o chefe 
é por dentro, graças à sua virtude, o que é por 
fora por medo da lei e da opinião pública” 
merece ser referida a observação de Lúcio 
Druso respondendo aos operários que lhe pro- 
punharn abrigar sua residência contra a curio- 
sidade dos vizinhos mediante três mil escudos: 
“dar-lhes-ei seis mil se conseguirem que todos 
vejam o que nela ocorre”. Agesilau tinha um 
hábito que depunha a seu favor: quando em 
viagem, alojava-se nos templos, a fim de que o 
povo se mantivesse a par de seus gestos e fei- 
tos. Há quem passe aos olhos do mundo por 
ter realizado milagres, sem que a mulher ou o 
criado o tenham percebido. Poucos homens 
suscitaram a admiração de seus lacaios; nin- 
guém ê profeta em sua casa, nem mesmo em 
seu país, dizem as lições da História. Assim 
ocorre com as coisas sem importância, e por 
insignificante que seja o que acontece comigo, 
o mesmo se verifica com os grandes. Na minha 
provincia de Gasconha acham estranho que 
me imprimam. E quanto mais longe habitam 
os que ouvem falar em mim, mais me apre- 
ciam. Na Guyenne devo pagar meus impresso- 
res23, alhures eles é que me pagam. Por esse 
motivo muitos que em vida ficam ignorados 
esperam granjear reputação depois de mortos. 
Prefiro ter menos êxito póstumo, e não me 
interesso pelo mundo senão na imedida em que 
tiro algum proveito. Aliás considero que esta- 
mos quites. Há quem, acompanhado pomposa- 
mente até a sua casa por um povo entusias- 
mado, de volta de alguma cerimônia pública, 
só encontre, ao despir a toga, mesquinharias € 
tormentos. E cai de tanto mais alto quanto 
mais bela a festa. E mesmo que os atos humil- 
des da vida privada se ordenassem admiravel- 
mente, fora preciso um juízo penetrante e 
particularmente lúcido para constatá-lo, pois a 
ordem é uma virtude sem brilho e que não 
atrai a atenção. Tomar de assalto uma trin- 
cheira, desempenhar uma missão, governar um 
povo, são ações de realce; admoestar, rir, ven- 


22 Horácio. 
23 Editores. 


374 MONTAIGNE 


der, comprar, amar, odiar, conversar com os 
seus e consigo mesmo, docemente, razoavel- 
mente, sem relaxar nem se contradizer, são 
coisas mais raras, mais difíceis e rienos notàá- 
veis. Os que vivem afastados da sociedade têm 
deveres tão complexos e árduos quanto os 
outros; e os simples cidadãos, diz Aristóteles, 
praticam a virtude em condições mais dificeis 
e elevadas do que os que desempenham fun- 
ções públicas. É mais pelo desejo de glória do 
que por convicção e consciência que buscamos 
as situações de relevo. O meio mais eficiente 
de conquistar a glória deveria ser o de realizar 
o que por ela realizamos tão-somente por 
injunção da consciência. A própria coragem 
de Alexandre parece-me, no teatro em que se 
praticava, bastante inferior à que desenvolveu 
Sócrates no meio elevado e obscuro em que 
viveu. Imagino facilmente Sócrates no lugar de 
Alexandre, mas não vejo este no lugar daquele. 
Perguntai a Alexandre o que sabe fazer. Dirá: 
subjugar o mundo. Indagai o mesmo de Sócra- 
tes e responderá: viver a vida humana de acor- 
do com as condições estabelecidas pela nature- 
za. Ciência bem mais vasta, mais pesada e 
mais digna. 

O mérito da alma não consiste em se elevar 
mais alto e sim em se conduzir ordenada- 
mente. Sua grandeza não se manifesta na gran- 
deza, mas na mediocridade. Os que perscru- 
tam o que há em nós e nos julgam pelo que 
observam não atentam para as luzes dos atos 
de nossa vida pública; vêem filetes de água 
emergindo, gotejantes, de um fundo espesso e 
lamacento. Os que nos julgam pelas aparên- 
cias brilhantes que percebem de fora deduzem 
que por dentro somos iguais; não podem esta- 
belecer uma ligação entre as faculdades co- 
muns, semelhantes às deles e que também exis- 
tem em nós, e as que os espantam e se acham 
tão longe do que procuram ver. Por esse moti- 
vo atribuímos formas estranhas aos demônios. 
Quem, em virtude do que diz a invenção popu- 
lar, não imagina Tamerlão de sobrancelhas 
arqueadas, narinas largas, feições apavorantes 
e desmedida estatura? E se eu houvesse conhe- 
cido Erasmo outrora, teria sem dúvida tomado 
por máximas e aforismos tudo o que dissesse a 
seus criados. Imaginamos mais facilmente um 
operário na privada ou com sua mulher, do 
que um venerável magistrado. Parece-nos que 
uma pessoa tão altamente situada não desce de 
seu trono para viver. 

As almas viciosas são por vezes instadas à 
prática do bem; da mesma forma, as virtuosas 
são ocasionalmente solicitadas pelo mal. Não 
as devemos julgar, portanto, senão em seu es- 
tado normal, ou pelo menos quando mais perto 
se encontrem desse estado. 


| 

As tendências naturais desenvolvem-se e se 
fortalecem pela educação, mas não se modifi- 
cam. Tenho visto milhares de indivíduos volta- 
rem-se para a virtude ou o vício, apesar de 
uma educação que os deveria impelir para o 
lado oposto. “Assim os animais selvagens, 
desacostumados da vida nas selvas e aparente- 
mente domesticados, despojam-se de sua 
agressividade e se submetem ao homem; mas, 
se por acaso um pouco de sangue lhes toca a 
boca, desperta-se-lhes a cólera, queima-se-lhes 
a goela, e se impacientam por saciar-se. E em 
seu furor mal se contêm ante o domador pálido 
de medo? *.” Não se arrancam as raízes das 
tendências originais; dissimulam-se tão-so- 
mente. Assim a língua latina é para mim como 
a minha língua materna; compreendo-a melhor 
do que o francês. Mas há quarenta anos não a 
utilizo nem para falar nem para escrever. 
Entretanto, quando me vi tomado de forte 
emoção, o que me aconteceu. duas ou três 
vezes na vida, uma destas vendo meu pai cair 
inanimado em meus braços, minhas primeiras 
palavras foram em latim. Valendo-se das 
circunstâncias, a natureza, hã muito reprimi- 
da, ressurgia. E casos como esse, contam-se 
inúmeros. 

Os que tentam corrigir os costumes de nossa 
época, com idéias em voga, só corrigem a apa- 
rência viciada das coisas, mas não o fundo 
delas, o qual talvez se agrave ainda. E acho a 
agravação possível, porque é fácil aceitar 
alguém as reformas exteriores e arbitrárias, 
menos custosas e de vantagens mais tangíveis 
que as interiores, satisfazendo assim os vícios 
essenciais sem maiores riscos. 

Vejamos um pouco em volta de nós. Não há 
quem, em se analisando, não descubra em si 
uma tendência dominante em luta contra a 
educação e contra as demais paixões contrá- 
rias. Quanto a mim, não sinto, por assim dizer, 
tais emoções; antes me encontro sempre bem 
firme em meu equilíbrio, como os corpos pesa- 
dos e maciços. Se não estou na inteira posse de 
mim mesmo, acho-me no ponto de me domi- 
nar. Meus desregramentos nunca são excessi- 
vos nem singulares, e a recuperação é sempre 
vigorosa e sincera. 

O que verdadeiramente nos condena, e afeta 
a maneira de ser de todos, é que o próprio 
arrependimento se acha corrompido pelas más 
intenções. Temos apenas confusamente o|dese- 
jo de nos corrigir, iludimos a penitência e nos 
conduzimos então pior ainda do que no peca- 
do. Ou porque o vício lhes seja natural, ou por- 
que a ele se habituaram, muitos não lhe perce- 
bem mais o horror. Outros, como eu, acham- 


24 Lucano. 


ENSAIOS — HI 


no detestável mas, pondo na balança o prazer 
que dele auferem, suportam-no mediante algu- 
ma transação que não deixa de ser condenável 
e covarde. Entretanto, o prazer que se tira de 
um vício pode ser de tal ordem que desculpe o 
pecado (como dizemos da utilidade); e isso 
não somente quando se trata de prazeres que 
usufruímos depois do pecado, como os que 
decorre do furto, mas igualmente dos que 
gozamos no próprio momento em que ocorre a 
falta, como acontece quando possuímos uma 
mulher, levados por uma tentação que dizem 
ser irresistível. Estava há dias em Armagnac, 
na propriedade de um de meus parentes. 
Conheci um camponês, por apelido “o la- 
drão”. Contou-me sua vida. Filho de pais que 
se entregavam à mendicidade e convencido de 
que, ganhando honestamente a existência, não 
conseguiria jamais pór-se ao abrigo da misé- 
ria, lembrou-se de se tornar gatuno, ofício que 
praticou durante toda a sua mocidade com 
inteira segurança, em virtude de sua força físi- 
ca. Com efeito, costumava empregar-se nas 
colheitas e vindimas dos camponeses. Mas tra- 
balhava longe e em terras tão extensas, que 
não podiam imaginar fosse um só homem 
capaz de transportar tão grandes quantidades 
de trigo ou de uva em uma só noite. Demais, 
tinha o cuidado de repartir os prejuízos entre 
muitos, de modo que não parecessem excessi- 
vos para cada um. Hoje, graças a seus furtos, 
esse homem está velho e rico para um indiví- 
duo de sua condição social. A fim de conciliar 
a indulgência divina, diz que diariamente inde- 
niza com boas ações os sucessores dos que 
saqueou. E que se não conseguir ressarci-los 
totalmente (o que não pode fazer em um dia) 
encarregará seus herdeiros de levarem a cabo a 
tarefa, pois é o único capaz de informá-los 
acerca do prejuízo de cada uma das vítimas. 
Verdadeira ou não a história, quem a contou 
encara o furto como desonesto e o detesta; 
menos entretanto do que a indigência. Arre- 
pende-se de um modo geral de ter recorrido a 
esse expediente, mas, dadas as vantagens 
usufruídas e a reparação atual, não se arre- 
pende no caso em apreço. Não é esse, por 
certo, o caso de hábitos que fazem com que o 
vício se encare em nós e nos oblitere a razão. 
Não é tampouco o de uma borrasca que, aba- 
lando violentamente a nossa alma, a perturbe e 
cegue, jogando o nosso julgamento, e todo o 
nosso ser, nas garras do vício. 

Em geral dou-me por inteiro ao que faço; 
nenhum movimento se sonega à minha razão 
nem se executa, senão por consenso de todas 
as partes de meu ser, sem choques nem dissen- 
sões intestinas. Mérito ou culpa cabem por 
completo ao meu julgamento, e se erra é defini- 


375 


tivo o erro, pois nunca mudou desde que nasci: 
suas forças continuam idênticas e, quanto às 
questões de ordem geral, as minhas opiniões 
atuais são as mesmas que concebi na infância. 

Há pecados impetuosos, súbitos; deixemo- 
los de lado. Mas há outros tantas vezes repeti- 
dos e acerca dos quais consultamos sem cessar 
a nossa consciência, pecados inerentes à nossa 
profissão, ao cargo que desempenhamos, que 
não posso imaginar se perpetuem em nós 
senão com o apoio da nossa vontade e conhe- 
cimento da nossa consciência. Por isso não 
acredito na sinceridade do arrependimefito em 
tais casos. Não compreendo a seita de Pitágo- 
ras quando diz que “os homens renovam a 
alma ao se aproximarem das imagens dos deu- 
ses para lhes recolher os oráculos”. A menos 
que isso signifique que o homem toma então de 
empréstimo uma alma nova e estranha, por- 
quanto a sua oferece bem poucos sinais da 
purificação e limpeza, imprescindíveis a quem 
queira aproximar-se dos deuses. 

Fazemos o contrário do que propugnam os 
estóicos, os quais nos ordenam de corrigir as 
imperfeições e os vícios que reconhecemos em 
nós, porém sem perturbarmos a serenidade de 
nossa alma. Procuramos fazer crer que nos 
arrependemos, que o remorso nos devora, mas 
não damos demonstração de que nos tenhamos 
corrigido ou interrompido o progresso do 
vício. Só há cura quando nos desembaraçamos 
do mal: um arrependimento sincero colocado 
em um dos pratos da balança pesaria por certo 
mais do que o pecado posto no outro. À devo- 
ção é a qualidade que mais facilmente se simu- 
la, quando se acordam a ela os costumes e a 
vida; pois se sua essência é abstrusa e oculta, 
sua aparência é pomposa e enganadora. 

Pessoalmente posso desejar, de uma manei- 
ra geral, ser diferente do que sou; posso conde- 
nar-me e pedir a Deus que me modifique de 
todo em-todo e desculpe minha fraqueza natu- 
ral; mas a isso não chamo arrependimento, 
como não o chamo ao desprazer de não ser 
nem anjo nem Catão. Meus atos condicio- 
nam-se ao que sou; não posso fazer mais nem 
melhor, e o arrependimento não se aplica às 
coisas que estão acima de nossas forças. No 
caso, poderia quando muito lamentar a minha 
condição. Imagino que existem naturezas infi- 
nitamente mais elevadas do que a minha e 
mais perfeitas; isso não faz que possa aperfei- 
çoar a minha, como o fato de imaginar um 
braço mais forte não torna mais forte o meu. 
Se imaginar e desejar agir mais nobremente 
tivesse como resultado arrepender-nos do que 
já fizemos, teriamos de nos arrepender das 
ações mais inocentes, pois uma natureza me- 
lhor do que a nossa as houvera executado com 


376 


« 


maior perfeição e dignidade, e gostariamos de 
ter agido da mesma forma. Quando reflito, 
agora que cheguei à velhice, na maneira por 
que me conduzi na mocidade, acho que quase 
sempre o fiz com sensatez e retidão; na medida 
do possível opus ao mal toda a resistência de 
que era capaz. Não me estou vangloriando, e 
em circunstâncias idênticas seria novamente, e 
sempre, como fui. Não é uma mancha que há 
em mim, é minha cor natural. Não admito 
arrependimentos superficiais, mitigados ou 
tão-somente cerimoniosos; para que haja arre- 
pendimento, a meu ver, é preciso que nada lhe 
escape, que atinja as entranhas e que magoe 
até onde penetra o olhar de Deus. 

No que concerne aos meus negócios, tenho 
perdido os melhores por não saber conduzi- 
los. No entanto soube sempre ver com justeza, 
mas escolho a solução mais cômoda. Voltando 
os olhos para o passado, verifico que, desse 
modo, sempre procedi com acerto e penso que 
não me conduziria de outra maneira hoje, nem 
daqui a mil anos. Não, por certo, em relação 
ao presente, mas tendo em vista o momento em 
que me coube decidir, pois o valor de uma 
decisão não pode ser senão ocasional, dadas as 
modificações constantes a que estão sujeitas as 
coisas e as circunstâncias ém que acontecem. 
Em minha existência cometi alguns erros 
importantes, não por não ter visto com clarivi- 
dência, mas por falta de sorte. Há, em todo 


negócio que tratamos, pontos obscuros, impos- 
stveis de se distinguirem nitidamente, em parti- 
cular os que dizem respeito à natureza huma- 
na; há qualidades e defeitos que não aparecem, 
nem se revelam, por vezes desconhecidos do 
próprio portador e que só despertam quando 
surge a oportunidade. Se minha prudência não 


os penetrou, nem os previu, não posso incul- 
pá-la: agiu dentro dos limites do que lhe cabia 
fazer. Se os acontecimentos me traem, se favo- 
recem a solução afastada, tanto pior. Não há 
remédio. Mas não me censuro nem me respon- 
sabilizo; acuso a sorte. E isso não é tampouco 
arrependimento. 


Fócion dera aos atenienses um conselho que 
não foi seguido. Tendo sido favorável o resul- 
tado das negociações, embora contra a sua 
opinião, alguém lhe disse: “Então, Fócion, 
estãs contente com a marcha dos acontecimen- 
tos?” “Estou contente, respondeu ele, de ver 


que tudo deu certo, mas não me arrependo do 
conselho que dei.” Quando meus amigos 
pedem um conselho, dou-o com inteira liber- 
dade e precisão, sem me preocupar, em sendo 
a coisa duvidosa, que se verifique o contrário 
de minha previsão e venham a censurar-me 
mais tarde. Essa eventualidade não justificaria 


MONTAIGNE 


a s | 
a censura e não deve induzir-me a não. prestar 


o serviço solicitado. 

Não responsabilizo ninguém pelos meus 
erros ou azares, pois não costumo recorrer aos 
outros senão por cortesia ou quando tenho 
necessidade de ser informado acerca dos fatos, 
por não os conhecer suficientemente. Mas nas 
coisas que dependem somente do julgamento, 
as razões alheias podem servir para confirmar 
minha decisão; nunca me fazem voltar atrás. 
Escuto-as com interesse e atenção; só ouço, 
porém, em verdade as minhas. Estas pouco 
pesam, aliás, na resolução, mas as dos outros 
anda menos. Fio-me no acaso, como os outros 
o fazem em relação a mim, pois se não sigo 
conselhos, só raramente mos pedem e não os 
seguem tampouco. E não sei de negócio pú- 
blico ou particular que minha opinião tenha 
modificado ou acertado. Mesmo aqueles que 
as circunstâncias levaram a consultar-me, 
antes se conduziram segundo opiniões de ou- 
tras pessoas; e como aspiro acima de tudo ao 
sossego, mais do que a demonstrar minha 
clarividência, prefiro que assim seja. Deixan- 
do-me de lado, atendem a meu desejo, em 
suma, que é o de guardar para mim mesmo o 
fruto de minhas reflexões. Sinto prazer em não 
ser forçado a interessar-me pelos negócios 
alheios e em não assumir nenhuma responsabi- 
lidade. E o que passou não me inspira saudade, 
qualquer que seja a ocorrência e como quer 
tenha ocorrido. A idéia de que assim devia de 
fato ocorrer liberta-me de quaisquer preocupa- 
ções. Eis a cóisa engrenada na cadeia universal 
das causas de que, segundo os estóicos; depen- 
dem os acontecimentos futuros, os quais nem 
pela imaginação nem pela vontade podemos 
modificar ainda que de leve. Se assim não 
fosse, estaria a ordem das coisas, passadas € 
por se verificarem, inteiramente subvertida. 


Detesto esse arrependimento acidental que 
surge com a idade. Não sou da opinião desse . 
autor antigo que era grato aos anos por o 
haverem livrado da volúpia. Eu nunca aceita- 
rei de bom grado a impotência, por útil que me 
possa ser. “Nunca será a Providência tão hos- 
til à sua obra que se deva colocar a fraqueza 
na categoria das coisas excelentes? 8.” Nossos 
apetites se atenuam na velhice; profunda sacie- 
dade apodera-se de nós logo depois de satisfei- 
tos; mas com isso nada tem a ver a consciên- 
cia. O esgotamento e a prostração inspiram- 


nos uma virtude que não passa de cansaço e. 
catarro. Não devemos comover-nos demasiado 
com essas alterações naturais. A mocidade e o 
prazer não me impediram outrora de reconhe- 
cer o vício sob a máscara da volúpia; a falta de 


25 Quintiliano. 


ENSAIOS — III 


apetite, de que os anos são causa, não faz que 
desconheça a volúpia sob a máscara do vício. 
Embora já não me interesse pela coisa, julgo-a 
como se me interessasse. Encarando atenta- 
mente minha razão, acho que não mudou 
desde a idade em que somos mais propensos 
aos prazeres, a não ser que se tenha algo enfra- 
quecido com a velhice. E não creio que a volá- 
pia que ela hoje me proíbe em benefício da 
saúde física, os proibisse igualmente em pro- 
veito da saúde espiritual. Por isso não a valo- 
rizo exageradamente. Minhas tentações tão 
alquebradas andam e mortificadas, que não 
preciso opor-me a elas. Basta-me um sinal 
para afastá-las do meu caminho. Diante de 
minha antiga concupiscência, creio que resisti- 
ria hoje bem mais dificilmente, pois não creio 
que julgue melhor agora do que antes, nem 
mais sadiamente. Se há convalescença, há de 
provir apenas do enfraquecimento geral; e bem 
triste é o remédio que cura pela doença! Não 
deveriamos dever esse serviço à infelicidade e 
sim a um julgamento mais avisado e sadio. 
Nada conseguem de mim com ofensas e 
sevícias, senão irritar-me. Tais processos são 
bons para os que só agem sob ameaça do chi- 
cote. Minha razão atua com maior liberdade 
quando as coisas vão bem; mais se preocupa 
com as contrariedades do que com os prazeres. 
Julgo melhor com saúde e vejo então as coisas 
por um lado mais prático. Fiz o que pude para 
corrigir-me enquanto me foi dado aproveitar a 
vida, e me sentiria envergonhado se julgassem 
minha conduta não pela existência que levei e 
sim pelo estado em que me encontro às véspe- 
ras de deixar de ser, e viessem a estimar-se 
somente agora em que não há grande mérito 


em evitar o vício. , 
A meu ver, a felicidade do homem consiste 


em bem viver; e não, como dizia Antístenes, 
em morrer bem. Não creio que deva grudar, 
agora, um rabo de filósofo a um corpo de 
homem já gasto, nem quero que o tempo que 
ainda me resta a vegetar seja um desmentido à 
parte mais longa e bela de minha vida. Quero 
apresentar-me, e que me vejam, de um modo 
uniforme. Se tivesse de voltar a viver, viveria 
como vivi; não lamento o passado e não temo 
o futuro e, se não me engano, meus pensa- 
mentos sempre se acordaram com meus atos. 
Sou muito grato ao destino por ter feito com 
que meu estado físico sempre tenha atendido 
as exigências . ge minha idade: vi a planta, a 
flor, o fruto e Por felicidade vejo agora o fim, e 
digo “por felicilade”, porque essa é a ordem 
natural. Suporto com paciência os males que 
me afligem porque chegam na hora certa, 
tornando-me agradável a lembrança da longa 
felicidade que usufruí no passado. Minha sabe- 
doria foi sensivelmente a mesma nas diversas 


377 


épocas de minha vida, embora talvez tenha 
sido outrora mais resoluta, graciosa, viva, ale- 
gre, naturai e hoje se revele mais dificil e enfa- 
dada. Renuncio pois a essas modificações oca- 
sionais e dolorosas que somos levados a 
buscar no fim da vida. Que Deus nos assista, 
pois é preciso que nossa consciência se corrija 
por si mesma, graças ao fortalecimento da 
razão, e não porque nossos apetites se debili- 
tem. Não é porque nossa vista fraqueja e se 
turva que a volúpia se atenua realmente. 

Deve-se amar a temperança por si mesma e 
em atenção a Deus que a prescreveu; assim 
também devemos amar a castidade. A absti- 
nência a que nos obrigam os incômodos da 
velhice, cólicas e catarros, não é castidade nem 
temperança. Por outro lado não cabe vanglo- 
riar-nos de desprezar a volúpia e resistir-lhe, se 
a ignoramos, se lhe desprezamos as graças, a 
força e a beleza. Conhecendo tudo isso, posso 
falar. Parece-me que na velhice nossas almas 
estão sujeitas a doenças e imperfeições mais 
importunas do que na mocidade; eu já o dizia 
quando jovem, mas objetavam-me então que 
não tinha barba na cara e portanto carecia de 
experiência; digo-o ainda hoje, com a autori- 
dade de meus cabelos grisalhos. 


Nessa altura da existência chamamos sabe- 
doria aos nossos humores doentios e ao enfado 


que se apodera de nós. Na realidade não 
renunciamos aos vícios; mudamos tão-so- 
mente, e para pior. Além de um orgulho tolo e 
caduco, de um palavrório aborrecido, de um 
humor suscetível e insociável, de muita supers- 
tição, de uma ridícula necessidade de riquezas 
inúteis, faz a velhice que se desenvolvam em 
nós a inveja, a injustiça e a maldade; põe-nos 
ela mais rugas no cérebro do que no rosto e 
não se vêem muitos espiritos que, ao envelhe- 
cer, não rescendam a mofo e ranço. Todas as 
partes do homem crescem e decrescem juntas. 
Considerando a sabedoria de Sócrates e certas 
particularidades de sua condenação, sou leva- 
do a crer que a tanto, e até certo ponto, se haja 
prestado espontaneamente, por temer, já com 
setenta anos, que se embotassem as ricas facul- 
dades de seu espírito e se turvasse sua habitual 
lucidez. Quantas metamorfoses vejo a velhice 
operar diariamente em gente de minhas rela- 
ções! uma doença terrível que se infiltra 
naturalmente em nós, sem que o percebamos. 
É preciso ter-se preparado cuidadosamente e 
tomado grandes precauções para evitar a deca- 
dência com que nos castiga ou, ao menos, para 
atrasar-lhe a marcha. Sinto que, apesar de toda 
a minha resistência, ela ganha terreno, palmo a 
palmo. Luto na medida de minhas forças, mas 
sem saber até onde poderei chegar. O que quer 
que aconteça, entretanto, quero que saibam de 
que altura cai. 


378 MONTAIGNE 


CAPÍTULO III 


Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros 


Não nos devemos colocar sob a depen- 
dência exclusiva de nosso humor e tempera- 
mento, pois nossa superioridade consiste em 
saber aplicar a inteligência de diversos modos. 
Prender-se a uma só ocupação, é ser mas não é 
viver e os espiritos mais bem dotados são os 
mais versáteis e receptivos. Comprova-o 
Catão, o Velho: “Tinha o espírito tão flexível e 
tão igualmente apto para tudo que, qualquer 
coisa que fizesse, dir-se-ia ter nascido para 
aquilo? 8.” Se me coubesse modelar-me, não 
gostaria de fazê-lo no sentido de possuir a 
fundo uma só coisa, por brilhante que pudesse 
mostrar-me. A vida é movimento desigual, 
irregular, de múltiplas formas. E ser escravo, e 
não senhor de si, entregar-se às próprias 
tendências a ponto de não poder escapar-lhes 
nem contrariâ-las. Reconheço-o agora, porque 
não consigo fugir facilmente às injunções de 
meu espírito, o qual de nada sabe ocupar-sé 
sem se entregar por inteiro. Por insignificante 
que seja o assunto, ele o amplia e valoriza até 
se prender completamente ao mesmo. A ocio- 
sidade pesa-me e perturba-me a saúde. Quase 
todos os espiritos precisam de assuntos estra- 
nhos para exercitar, o meu antes se acalma e 
sossega com a matéria alheia (“E o trabalho 
que nos livra dos vícios da ociosidade? 77), 
pois sua tarefa principal, e mais árdua, con- 
siste em se estudar a si mesmo. Logo aos pri- 
meiros pensamentos, agita-sé, e as molas de 
seu vigor atuam em todos os sentidos. Mos- 
tra-se ora violento, ora ponderado e gentil; 
aquieta-se afinal, modera-se e se fortalece. 
Tem em si com que manter em exercício suas 
faculdades; deu-lhe a natureza, como aos 
outros, suficiente material para suas indaga- 
ções e pesquisas. 

Para quem sabe auscultar-se e tirar partido 
de suas observações, meditar é ocupação das 
mais importantes; prefiro formar meu espírito 
a mobiliá-lo. Segundo o temperamento, entre- 
ter-se consigo mesmo pode constituir ocupa- 
ção de maior ou de menor alcance. Os maiores 
espírito, para os quais “viver é pensar”, como 


26 Tito Lívio. 
27 Sêneca. 


diz Cícero, a isso dedicaram a maior parte de 
seu tempo. Por esse motivo a natureza deu-nos 
o privilégio de podê-lo fazer amiúde e longa- 
mente. É a ocupação dos deuses, afirma Aris- 
tóteles, e dela nascem sua beatitude e a nossa. 

A leitura servé-me principalmente de pre- 
texto a Meditações; faz que meu julgamento 
trabalhe e não minha memória. Pouco me inte- 
ressam as Conversações, sé fiao versam assun- 
to sério e suscetível de levar à reflexão. Entre- 
tanto, devo confessar que por sua beleza e 
requinte um ássunto pode reter-me bem mais 
do que outro grave e sério. Quanto ao resto, 
mal presto atenção ao que dizem e ocorre-me 
cochilar ou, nas conversações convencionais 
em que se trata de coisas frivolas e insignifi- 
cantes, responder como se acordasse de um 
sonho e dizer tolices ridículas que uma criança 
não diria; ou observar um silêncio descortês 
além de estúpido. Tenho uma maneira de pen- 
sar que me isola dos outros, e, por outro lado, 
sou de uma ignorância pueril acerca do que 
todo mundo sabe. Esses defeitos valeram-me 
uma reputação de bobo, que se assenta em 
cinco ou seis fatos reais. 

Um tal temperamento torna difícil a escolha 
de minhas relações. Preciso selecioná-las cui- 
dadosamente, pois não sou nada feito para as 
questões da vida cotidiana. Vivemos e trata- 
mos com o povo; se a conversação deste nos 
importuna, se desdenhamos os espíritos vulga- 
res fe são, não raro, tão sensatos quanto os 
mais requintados), como toda sabedoria é inú- 
til desde que não se acomode à ignorância dos 
outros, não devemos tentar resolver nem os 
nossos próprios problemas nem os alheios, 
porquanto é com essa gente vulgar que se tra- 
tam os negócios públicos e particulares. 

As atitudes de espírito são tanto mais belas 
quanto mais naturais; as melhores atividades 
exigem menor esforço. E como a sabedoria 
presta serviço aqueles cujos desejos se subordi- 
nam à possibilidade de realização! Não há 
ciência mais útil: “de acordo com as nossas 
forças”, eis o estribilho de Sócrates. Palavras 
profundas! É preciso orientar nossos desejos 
para as coisas mais fáceis e mantê-los dentro 
de tais limites. Não será tolice minha não me 


ENSAIOS— HI 379 


ligar com as pessoas que o destino colocou 
perto de mim e me são indispensáveis, e buscar 
companhia de uma ou outra fora de meu 
ambiente normal? Não proviria isso do desejo 
irrealizável de algo perdido que não pude reen- 
contrar? Minha tolerância, hostil a rancores e 
rigorismos, pôde facilmente preservar-me da 
inveja e inimizade alheias; nunca houve nin- 
guém que mais pudesse, já não digo inspirar 
amizade, mas não dar azo a quaisquer ódios. 
Por outro lado, a minha reserva natural alie- 
nou-me a simpatia de alguns que a devem ter 
interpretado mal. 

Sou capaz de angariar e conservar excelen- 
tes amizades, excepcionais mesmo, tanto mais 
quanto, quando me convêm, a tal ponto me 
esforço e dedico que raramente deixo de ser 
correspondido. Sou pouco atraído pelas ami- 
zades banais, pois além de não estar em meu 
temperamento entregar-me senão por inteiro, a 
sorte fez que desde a juventude me tornasse 
muito exigente a esse respeito, graças a uma 
amizade perfeita, e me firmou na idéia de que, 
como diz um autor antigo, a amizade não se 
acomoda a numerosa companhia. Demais, 
repito, custa-me dedicar-me pela metade, ob- 
servando essa prudência desconfiada e degra- 
dante recomendáveis nas relações de amizades 
frouxas e inseguras, prudência aliás necessária 
nestes tempos em que corre riscos graves quem 
fala com franqueza. 

Por isso estou convencido de que quem de- 
seja como eu gozar as comodidades da vida — 
as essenciais, naturalmente — deve evitar, 
como se evita a peste, esses pequenos e espi- 
nhosos obstáculos. Admiraria um espírito 
constituído de vários andares e que, desmon- 
tável a vontade, se adaptasse a tudo o que o 
acaso lhe apresentasse; que pudesse conversar 
com o vizinho acerca de construções, caça, 
demandas e com seu carpinteiro ou jardineiro. 
Invejo os que sabem nivelar-se, pela conversa- 
ção, aos mais humildes personagens de seu sé- 
quito. Não sou da opinião de Platão, o qual 
recomendava guardar-se a necessária distância 
com os servidores, sem jamais descer à amabi- 
lidade e menos ainda à familiaridade. Além da 
razão acima apontada, considero inumano e 
injusto prevalecer-se alguém, a esse ponto, do 
privilégio da fortuna. Os costumes que exigem 
menor desigualdade entre amos e lacaios pare- 
cem-me majs equitativos. Há pessoas que se 
esforçam por manter artificialmente o espírito 
nas regiões etéreas; eu quero o meu humilde- 

“mente instalado junto ao solo. Só o culpo de 
uma coisa: preocupar-se com tudo: “Vós me 
contais o que fizeram os descendentes de Éaco, 
e os combates travados junto às muralhas de 
Ílios; mas não me dizeis quanto custa o vinho 


de Quio, qual o escravo que deve preparar meu 
banho, nem em que casa e quando poderei 
resguardar-me do vento frio dos Abruzos? 8.” 

Assim como na guerra o entusiasmo dos 
lacedemônios necessitava, para não se trans- 
formar em fúria, ser atenuado pelo som gra- 
cioso das flautas, quando em idênticas circun- 
tâncias outros povos precisam de instrumentos 
ruidosos e de vociferações, assim, ao contrário 
do que geralmente se acredita, o espírito da 
grande maioria é mais exigente de chumbo que 
de asas, de calma e repouso que de ardor e agi- 
tação. Mas considero, acima de tudo, que é 
suma tolice fazer-se de entendido com quem 
nada entende, e mostrar-se rebuscado na lin- 
guagem. É preciso colocar-se a gente à altura 
das pessoas com as quais se fala e por vezes 
mesmo fingir de ignorante. No trato cotidiano 
deixem-se de lado a força e a sutileza; basta a 
lógica; e que se seja chão se necessário. 


Os sábios revelam não raro o defeito de exi- 
bir seus conhecimentos doutorais e andar a 
espalhar seus livros por toda a parte. À tal 
ponto encheram com estes as alcovas das 
damas da sociedade, que se elas não lhes 
apreenderam a essência adotaram-lhes a 
forma. Por um sim € por um não, com ou sem 
propósito, empregam essa nova e douta manei- 
ra de falar: “Temor, cólera, alegria, tristeza, 
tudo, inclusive seus segredos amorosos, expri- 
mem nesse estilo. E doutamente que exta- 
siam?2º9?. Citam Platão e Santo Tomás em 
assuntos a cujo respeito a opinião de qualquer 
um fora igualmente válida. Creiam-me, as bem 
educadas, que andariam mais acertadamente 
se se contentassem com valorizar seus pró- 
prios encantos, os quais vão escondendo sob a 
roupagem de belezas estranhas a elas. É 
simplicidade de espírito abafar a própria luz. 
para brilhar com luz de empréstimo. Como 
que se enterram e se sepultam nos artifícios a 
que recorrem. “São apenas arrebiques e perfu- 
mes?º.”? Sem dúvida não se conhecem suficien- 
temente, pois o mundo nada comporta mais 
belo e ao contrário do que ocorre, a elas cabe- 
ria dar brilho ao artifício. A que aspiram? A 
ser amadas e admiradas; não sabem mais que 
fazer para atingir tal objetivo e no entanto bas- 
taria que atentassem um pouco para suas qua- 
lidades naturais. Quando as vejo preocupa- 
rem-se com a retórica, o direito, a lógica e 
outras drogas semelhantes, vas e inúteis, 
ponho-me a pensar que quem as aconselha o 
faz sem dúvida para dominá-las. Como expli- 
cá-lo de outro modo? Que se contentem com 


28 Horácio. 


zº Juvenal. 
30 Sêneca. 


380 


se exprimir pelo olhar gracioso, a alegria, a 
severidade, a ternura; que saibam temperar um 
“não” com rudez ou esperança; que se satisfa- 
çam com entender sem intérpretes as lisonjas 
de seus admiradores. Uma tal ciência já basta 
para que conduzam pelo nariz os professores e 
seus discípulos. 

Se apesar de tudo não se conformarem com 
nos ceder quaisquer vantagens e quiserem bus- 
car distração igualmente nos livros, escolham 
a poesia que é passatempo apropriado a suas 
necessidades, pois trata-se de uma arte sutil e 
espirituosa em que tudo se apresenta fanta- 
siado, em que domina a intenção de agradar e 
impressionar, como no que elas próprias 
fazem. A História também pode fornecer-lhes 
temas interessantes. Quanto à Filosofia, pode- 
rão aprender com ela a maneira de julgar 
nosso humor e nosso temperamento, de se 
defender contra as nossas traições, de dominar 
seus próprios desejos, de preservar sua liberda- 
de, de prolongar os prazeres da vida, de supor- 
tar humanamente a inconstância do amante, a 
grosseria do marido, a tristeza da idade e coi- 
sas que tais. Eis tudo o que lhes concederia em 
matéria de estudo. 

Hã naturezas particularmente voltadas para 
si mesmas; eu sou essencialmente comunica- 
tivo e exuberante; sou um indivíduo inteira- 
mente e visivelmente voltado para fora, nasci- 
do para a sociedade e a amizade. Prego a 
solidão, mas esta consiste para mim em poder 
estar mais à vontade na companhia de minhas 
afeições e meus pensamentos; não procuro res- 
tringir o espaço em que me mantenho e sim 
diminuir meus apetites e preocupações, afas- 
tando de mim os negócios alheios, fugindo às 
servidões e aos deveres sociais que aborreço 
mortalmente. Não é bem o comércio dos ho- 
mens que me pesa; é a multiplicidade dos 
problemas. 


Para dizer a verdade, a solidão, quando cau- 
sada por um isolamento efetivo, tende a dila- 
tar-me as idéias e a fazer que se voltem um 
pouco mais para os fatos exteriores. Quando 
só, é principalmente acerca dos negócios do 
Estado e do mundo que medito. 

No Louvre e em numerosa companhia, reco- 
lho-me em mim mesmo. A multidão impele-me 
a fechar-me em mim mesmo e nas conversa- 
ções que então mantenho com meus botões os 
assuntos são bem menos agradáveis e pessoais 
do que quando me encontro em lugares em que 
se observam o respeito e o silêncio. Não são 
nossas loucuras que me fazem rir, são o que 
consideram sabedoria. Não sou hostil por 
temperamento à agitação da corte. Aí vivi 
parte de minha existência e sou capaz de 
desempenhar meu papel na alta sociedade; 


MONTAIGNE 


conquanto isso ocorra ocasionalmente e eu me 
ache bem disposto. Mas a indiferença a que 
aludi leva-me naturalmente à solidão. 

Em minha província, junto de minha fami- 
lia, que é numerosa, e em minha casa, muito 
frequentada, recebo bastante gente; mas rara- 
mente aparecem as pessoas com as quais gosto 
de conversar. Aí estabeleci, para mim como 
para os outros, uma liberdade que não se 
encontra alhures. Toda etiqueta foi abolida; 
não se vai ao encontro dos que chegam, nem se 
acompanham os que partem, nem se observam 
as demais regras protocolares tediosas e incô- 
modas. Em casa, cada um se conduz como 
bem entende, se isola, ou se entretém com 
quem quer. Posso permanecer calado, so- 
nhando ou meditando sem que ninguém se 
ofenda. 


Procuro a companhia dos homens honestos 
e avisados; e esses me afastam com repug- 
nância dos outros. São em verdade raros, e O 
que busco neles é um momento de intimidade, 
recursos para uma troca de idéias, um meio de 
exercitar o espírito. Não viso nenhum outro 
benefício ou vantagem. Quando converso com 
eles, qualquer assunto me agrada e interessa 
por mais sério ou frívolo que seja. É sempre 
oportuno e sempre se impregna de bom-senso, 
de experiência, de bondade e franqueza, de ale- 
gria e ternura. Não é somente a propósito de 
Jurisprudência e política que nosso espírito re- 
vela sua beleza e sua força, é também em rela- 
ção às coisas familiares. E avalio o valor de 
meus companheiros até pelo seu silêncio, seu 
sorriso, e os entendo melhor à mesa do que em 
reuniões cerimoniosas. Não afirmava Hipó- 
maco que reconhecia os bons lutadores pela 
maneira de andarem na rua? Não afastemos de 
nós a erudição quando porventura surge no 
decorrer da conversação, mas sob a condição 
de que não assuma uma forma doutoral, impe- 
rativa e inoportuna, de que seja modesta e 
acessória. Não procuremos senão distrair-nos; 
nas horas destinadas à instrução e ao doutrina- 
mento saibamos onde ir buscá-la. Enquanto 
isso, que desça a nós, se quiser ser admitida em 
nossa companhia, porquanto embora útil e 
desejável podemos muito bem dispensá-la em 
nossos encontros. Um indivíduo bem educado 
e afeito à freqientação da sociedade sabe tor- 
nar-se agradável; a arte consiste apenas em 


controlar e realçar os produtos do espírito. 


É também de meu agrado a sociedade das 
mulheres belas e honestas, “pois também 
temos olhos conhecedores*!”. Se o espírito 
não encontra nessa freqlentação o mesmo pra- 
zer que aufere da amizade, a satisfação dos 


31 Cicero. 


ENSAIOS — HI 381 


sentidos (que é grande) como que o compensa, 
embora não inteiramente a meu ver. Mas tra- 
ta-se de um comércio que deve praticar com 
cuidado quem, como eu, tem apetites sexuais 
muito vivos. As experiências de minha juven- 
tude escaldaram-me, pois sofri todos os tor- 
mentos que os poetas “afirmam se agregarem 
ao gozo desregrado. É verdade que a lição 
valeu: “Quem se salvou do desastre da frota 
grega em Cafareu, afasta-se sempre das águas 
traiçoeiras da Eubéia??.” É loucura concen- 
trar todos os seus pensamentos em uma afei- 
ção apaixonada. Por outro lado, entregar-se a 
isso sem amor, como comediantes desempe- 
nhar sem escrúpulo o papel que todos desem- 
penham nessa idade, é por certo velar pela pró- 
pria segurança mas de um modo covarde, 
como se, de medo do perigo, abandonássemos 
a honra ou renunciássemos a um prazer. E os 
que assim agem, nada podem esperar susce- 
tivel de satisfazer uma bela alma. É preciso, 
para que o prazer seja real, desejar com per- 
feito conhecimento de causa. Acrescentarei a 
propósito que nunca nossas palavras deixaram 
de persuadir as rnulheres, pois não há nenhu- 
ma, por feia que seja, que não se julgue com 
algum mérito, ou por causa da idade, ou dos 
cabelos ou de seus ademanes. Na realidade, 
feias totalmente não existem, nem tampouco 
totalmente formosas. As jovens brâmanes, 
quando carecem de outros encantos, são con- 
vocadas por pregão a exibirem publicamente 
suas partes genitais a fim de que se verifique 
se, ao menos por isso, merecem um marido. 
Mas a atitude dos homens de nossa época faz, 
como o demonstram os fatos, que as mulheres 
se unam para nos escapar ou, imitando-nos, 
representem igualmente e se prestem à comé- 
dia das relações intimas sem paixão nem ter- 
nura. “Incapazes de dedicação, insensíveis à 
dedicação dos outros?*”, imaginam, segundo 
os princípios de Lísias, em Platão, que podem 
entregar-se com tanto maior vantagem quanto 
menor o amor. Ocorre então, como no teatro, 
ter o público maior prazer do que os atores. 
Ao que me concerne, não conheço Vênus sem 
Cupido, como não concebo a maternidade sem 
a progenitura. São coisas que decorrem uma 
da outra. Ademais a trapaça volta-se contra o 
trapaceiro; e se não lhe custa muito, tampouco 
lhe rende bastante. Os que fizeram uma deusa 
de Vênus, levaram principalmente em apreço a 
sua beleza imaterial e espiritual; ora, o prazer 
que buscam os trapaceiros é unicamente 
sexual. Não é o que o homem deveria ambicio- 
nar, nem mesmo o do animal. Não o querem 
os bichos tão material e grosseiro, pois sua 


32 Ovídio. 
33 Tácito. 


imaginação se excita não raro antes de seus ór- 
gãos. Qualquer que seja o sexo, vemo-los pro- 
cederem a uma escolha, terem preferências, e 
sua união resulta por vezes de longa amizade e 
frequentação. E mesmo os que a velhice torna 
incapazes, ainda vibram amorosamente. Ve- 
mo-los cheios de desejos antes do ato, e vemo- 
los comprazer-se na lembrança do mesmo 
muito depois. Alguns, envaidecidos,entoam 
cantos de triunfo e caem em seguida extenua- 
dos e satisfeitos. Quem só deseja livrar-se de 
uma necessidade natural, não se preocupa com 
a colaboração nem se dá tanto trabalho. Não é 
prato, esse, para quem morre de fome. 


Como não desejo parecer melhor do que 
sou, direi aqui algumas palavras dos erros da 
minha juventude. Nunca me afeiçoei às mulhe- 
res que se pagam, não somente porque as des- 
prezava como também por medo dos riscos 
que corre a saúde (o que não me impediu de 
ser duas vezes atingido, embora sem maiores 
consequências). Quis valorizar esse prazer 
pelo desejo, a dificuldade e também a satisfa- 
ção da vaidade. Amava à maneira de Tibério, 
o qual! buscava em suas amantes a modéstia e 
a nobreza tanto quanto os atrativos femininos. 
Ou à maneira de Flora, a qual só se dava a 
ditadores, cônsules, censores e punha seu 
amor-próprio em só ter amantes de alto cotur- 
no. É certo que as pérolas e os bordados 
emprestam sabor à coisa, bem como os títulos 
e o trem de vida. 

Por outro lado, preocupava-me muito com o 
espírito, conquanto o físico não deixasse por 
demais a desejar, mas, para ser franco, se algo 
devesse faltar teria preferido que fosse o espíri- 
to. Este tem seu lugar alhures. No amor, em 
que a vista e o tato predominam, ainda se con- 
segue alguma coisa sem o espírito e nada sem 
os encantos físicos. A beleza, eis a verdadeira 
arma das mulheres, sua grande vantagem; 
é-lhes em verdade tão peculiar, que a do 


.homem, embora a desejemos algo diferente, só 


se realça quando, pueril e imberbe, se confunde 
com a delas. Dizem que os jovens, que por sua 
beleza entram a serviço do sultão, são despedi- 
dos quando atingem a idade de vinte e dois 
anos. 

A inteligência,..o bom senso, a amizade são 
qualidades mais comuns aos homens; por isso 
eles governam o mundo. 

Ambos esses comércios, o dos homens pelas 
conversações livres e familiares, e o das mulhe- 
res pelo amor, são aleatórios, e dependem de 
outrem. Um tem o inconveniente de só ocorrer 
raramente, o outro de se tornar impossível com 
a idade. Por isso, não bastariam às exigências 
da vida. O comércio dos livros é mais seguro. 
Não se equipara aos outros, mas tem a vanta- 


382 


gem de estar sempre ao nosso alcance. Desde 
sempre me assistiu e em todas as circunstân- 
cias; consola-me na velhice e na solidão, torna 
suave uma ociosidade que poderia ser aborre- 
cida” e livra-me das pessoas cuja presença me 
contraria;' amortece enfim os latejos da dor 
quando não é demasiado aguda e é mais forte 
do“que qualquer paliativo. Para afastar uma 
idéia. importuna, nada como recorrer aos 
livros; 'apossam-se de mim e fazem-me esque- 
cê-la. Nunca se ressentem com o fato de só os 
procurármos na falta de prazeres mais reais, 
mais'vivos e naturais que outorga a companhia 
dos homens e das mulheres; e sempre mostram 
a mesma fisionomia. Não há mérito em andar 
a pé quando se traz o cavalo'pela'rédea, dizem. 
E nosso Jacques, rei de Nápoles, é de Sicília, 
belo, jovem, gozando saúde, que, em viagem, 
se fazia transportar numa padiola, com roupa 
e boné de pano ordinário, mas seguido em 
grande pompa por liteiras, cavalos de monta- 
ria, fidalgos e oficiais, exibia uma austeridade 
fácil de suportar e bem pouco meritória. Não 
hã como nos apiedarmos do doente que tem a 
cura a seu alcance. 

É na aplicação dessa máxima, muito justa, 
que está o fruto que colho nos livros. Não os 
uso muito mais do que os que não os têm; 
gozo deles, como o avarento goza seu tesouro, 
simplesmente com saber que posso usá-los 
quando queira. Esse direito de posse basta a 
meu espírito. Nunca viajo sem livros, na paz 
como na guerra. Entretanto, passam dias e 
meses sem que os abra. Fá-lo-ei daqui a pouco, 
digo, ou amanhã, ou quando me aprouver; e o 
tempo passa sem que me pese. Não posso dizer 
quanto me descansa o pensamento tê-los à 
mão; nem quanto me têm sido úteis na vida. 
Constituem a melhor provisão que pude obter 
para essa viagem que é a vida e tenho real- 
mente pena das pessoas inteligentes que não os 
possuem. E por saber que esse passatempo não 
me pode faltar, aceito com prazer qualquer 
outro. 

Em casa, passo muito tempo na biblioteca, 
de onde,de um golpe de vista, observo tudo o 
que ocorre em minha propriedade. Da entrada 
descortino o jardim, o galinheiro, o pátio e a 
maior parte dos cômodos. Ora folheio um 
livro, ora outro, sem ordem, ao acaso. Ora 
sonho, ora tomo notas ou dito, passeando, os 
devaneios que aqui se registram. Essa biblio- 
teca situa-se no terceiro andar de uma torre. 
No primeiro está a capela e no segundo há um 
quarto com suas dependências, quarto onde 
durmo não raro quando quero ficar só. Em 
cima, vasto guarda-roupa. Outrora era esse 
local inteiramente inútil; agora aí passo boa 
parte das horas e dos dias, mas nunca as noi- 


MONTAIGNE o q 


tes. Há, ao lado da biblioteca, um bom gabi- 
nete com lareira, e se não temesse tanto os 
aborrecimentos e a despesa, poderia com faci- 
lidade construir junto à torre uma galeria de 
cem pés de comprimento por doze de largura, 
pois já existem os alicerces que se ergueram 
aliás com outro objetivo. Qualquer retiro exige 
um espaço para passear; meus pensamentos 
cochilam quando sento; meu espírito não anda 
sozinho, parece-me que o movimento é que o 
excita e força a trabalhar. E todos os que 
estudam? * sem recorrer aos livros, sentem a 
mesma coisa. 

O cômodo, a não ser na parte que se encon- 
tram a mesa e a cadeira, tem uma forma circu- 
lar, o que me permite ver todos os livros dis- 
postos em cinco filas de prateleiras. Comporta 
três janelas pelas quais posso gozar uma vista 
bela e extensa. O espaço livre tem dezesseis 
passos de diâmetro. No inverno aí passo 
menos tempo, porque minha casa, como se 
deduz pelo nome? 5, se situa numa colina, e de 
todos os cômodos é esse o mais exposto ao 
vento, sendo também afastado dos outros e de 
difícil acesso, o que de resto me agrada, não 
somente pelo exercício a que me obriga mas 
também porgue me põe a salvo de visitas 
importunas. É meu covil; procuro fazer desse 
recanto um domínio pessoal, e subtraí-lo à 
comunidade conjugal e filial. Alhures minha 
autoridade, embora indiscutível, é mais nomi- 
nal do que real e mais vaga do que direta. Bem 
triste se me afigura, em verdade, a situação de 
quem não tem onde se isolar em sua própria 
casa, onde se esconder para meditar. A ambi- 
ção exige de seus escravos grandes sacrifícios 
ao exibi-los sem cessar como uma estátua em 
praça pública: “Uma grande situação é uma 
grande servidão? 8.” Não podem isolar-se nem 
mesmo em sua privada. Nada me parece mais 
penoso do que essa regra, observada em certas 
comunidades religosas, de andarem sempre 
reunidos, testemunhando em conjunto os atos 
de cada um. Acho mais suportável estar sem- 
pre só do que não o poder estar nunca. 

Se alguém me disser que é aviltar as musas 
apelar para elas unicamente para se distrair, 
ignora o muito que valem como passatempo e 
prazer; chego a ponto de quase afirmar que ou- 
tros tão deliciosos não podem existir. Vivo ao 
sabor do momento e acrescentarei respeitosa- 
mente que só para mim. Não tenho outras 
ambições. Quando moço, estudei para brilhar, 
mais tarde para alcançar a sabedoria e, agora, 
faço-o para distrair-me, sem pensar em tirar 


34 Os que meditam, os que refletem. (N. do T.) 
38 “Montaigne” = montanha, colina. (N. do T.) 
38 Sêneca. à 


ENSAIOS — III 383 


proveito. Por vaidade gastei muito com livros, 
não somente para prover minhãs nécessidades 
mas ainda para ver aumentar o iúmero de 
volumes e ampliar-se a minha biblioteca. Há 
muito que isso não me acontece mais. 
São os livros, de muitos pontos de vista, 
extremamente agradáveis para quem os sabe 
escolher. Mas não há prazer sem contrapartida 
e o que eles proporcionam não é tampouco 


puro. Têm seus inconvenientes e alguns sérios. 
O espírito exercita-se com eles, mas o corpo, 
que não devemos esquecer, fica inativo, o que 
acarreta tristeza 'e abatimento. E não há coisa 
mais prejudicial é a ser mais evitada no decli- 
nio da vida: -'* 

Mencionei minhas três ocupações predile- 
tas, indepenidentemente das que a sociedade ea 
vida cívica me impõem. 


CarpíTULO IV 


Da diversão 
s 


Fui outrora chamado a consolar uma senho- 
ra que andava realmente aflita, pois em geral 
as pessoas desse sexo não se afligem natural- 
mente; nelas tudo é artifício e representação. 
“Uma mulher tem lágrimas em reserva, que 
correm quando preciso* 7.” Tentar sustar-lhes 
as lágrimas é tempo perdido; aí é que sua tris- 
teza se expande mais fortemente. Exaspera-se 
o mal ao ser combatido. Vemos comumente, 
quando dizem alguma coisa mesmo sem gran- 
de importância, que se formalizam e se irritam 
se as contraditamos. Por isso se o fazemos 
quando as devemos consolar, não estamos 
agindo como bons médicos, aos quais cabe 
conversar com seus pacientes de maneira agra- 
dável e leve. Nenhum doutor feio e carrancudo 


jamais conseguiu resultado apreciável. De ini- 
cio devemos portanto compreender-lhes as 
queixas e aprová-las até certo ponto. Com isso 
ganhamos crédito para ir adiante e então, 
mediante palavras mais resolutas e adequadas 
à circunstância, sugerir a cura. No caso em 
apreço, desejoso de brilhar perante a assis- 
tência que não tirava os olhos de mim, ataquei 
9 mal de frente. Não demorei em verificar que 
errara e não conseguiria persuadi- “la. Meus 
argumentos são em geral incisivos demais e 
não suficientemente insinuantes; ou ajo brus- 
camente ou sem energia. Por isso, após algu- 
mas tentativas, não procurei mais curá-la com 
razões impressionantes e lógicas, já porque 
não mais as encontrava, já porque pensei em 
outra solução. Não busquei tampouco empre- 
gar os meios que a filosofia põe a nosso alcan- 
ce, como: “o que se deplora não é um mal”, na 
opinião de Cleantes, ou “a queixa não é justa 
nem injusta”, como diz Crísipo. Também não 


37 Juvenal. 


segui o conselho de Epicuro que consiste em 
desviar o pensamentô das coisas tristes para 
outras que o distraiam, o que entretanto não é 
contra-indicado. Deixando de lado os diver- 
sos processos que Cícero recomenda, desviei 
aos poucos à conversação para assuntos 
afins e (na medida"êm que sua confiança em 
mim se ampliava) para outros sem relação 
com sua desgraça; e assim a afastei, sem que o 
percebesse, de seus pensamentos melancólicos 
e a conduzi a uma certa atmosfera de sereni- 
dade. Em outras palavras, criei uma diversão. 
Os que, depois de mim, se esforçaram por con- 
solar essa senhora não lograram maior êxito 
porque o mal não fora cortado pela raiz. 

Ocasionalmente ventilei em meu livro algu- 
mas diversões de tipo mais geral. As militares, 
por exemplo, de que se valeu Péricles na guer- 
ra do Peloponeso, e que outros empregaram 
para afastar de sua pátria as forças inimigas. 

O Sr. de Himbercourt salvou-se, e aos seus, 
com engenhoso artifício na cidade de Liêge, 
onde o Duque de Borgonha que a sitiava o fi- 
zera entrar para estabelecer as condições da 
rendição. Reunido durante a noite, para pôr 
em execução as medidas assentadas, começou 
o povo a sublevar-se contra as negociações, 
resolvendo massacrar os negociadores. Ao 
saber do sucedido, Himbercourt enviou ao 
encontro da multidão dois habitantes da cida- 
de com condições menos rigorosas, forjadas 
por ele na hora. Os dois mensageiros sustaram 
o impeto dos atacantes, conduzindo-os ao con- 
selho da cidade para novas deliberações. Estas 
foram rápidas e um segundo tumulto se verifi- 
cou tão violento quanto o primeiro. Himber- 
court despachou outros quatro mensageiros 
com propostas mais satisfatórias e substan- 
ciais, graças às quais foi o povo novamente le- 


384 MONTAIGNE | 


vado a deliberar. Mediante sucessivas proposi- 
ções amorteceu o ardor dos revoltados, 
diluindo-lhes a fúria em vãs deliberações e che- 
gando assim ao fim da noite, o que visava 
acima de tudo. 

Relatemos outro feito da mesma ordem. 
Atalanta, jovem de exceisa beleza, era muito 
solicitada por numerosos pretendentes. Para 
livrar-se dos importunos, estipulou que aceita- 
ria por esposo quem a vencesse nas corridas, 
devendo perder a vida quem não o conse- 
guisse. Houve quem julgasse valer a pena cor- 
rer tal risco, dada a recompensa, e pagasse 
com a vida a ousadia. Hipômenes, que devia 
realizar a prova por último, dirigiu-se à deusa 
do amor e pediu-lhe proteção. Ouvindo-lhe a 
súplica, ela lhe entregou três maçãs de ouro, 
ensinando-o a usá-las. Iniciada a corrida, 
Hipômenes, ao perceber que a bem-amada ia 
alcançá-lo, deixou cair uma das maçãs como 
por acaso. Atalanta, interessada pela beleza do 
fruto, volta-se para pegá-lo. “Surpreendida, 
encantada com a beleza da maçã, a virgem 
diminuiu a marcha a fim de pegar o fruto de 
ouro que rola a seus pés? *.” Hipômenes repete 
o gesto com as outras maçãs no momento 
oportuno e com essa diversão ganha a corrida. 

Quando os médicos não podem extinguir o 
catarro desviam-no para órgãos sobre os quais 
sua ação é menos perigosa. É igualmente essa 
receita a mais indicada nas doenças da alma. 
“É útil por vezes desviar o espírito para outros 
prazeres, cuidados e tarefas. Convém que 
mude de lugar frequentemente, como fazemos 
com os doentes, pois de outro modo não recu- 
pera a saúde'º.” Raramente triunfamos do 
mal que atacamos de frente; não os dimi- 
nuímos nem extinguimos, mas é possível 


desviá-los e transformá-los. 
Sócrates oferece-nos, acerca da maneira de 


encarar os acidentes da vida, uma lição bem 
mais elevada, mas de tão difícil aplicação que 
só os espíritos eminentes podem aproveitá-la. 
É o único a esperar a morte sem que se lhe al- 
tere o espírito; familiariza-se com a idéia e 
com ela brinca. Não busca consolo fora dela; a 
morte parece-lhe um acidente natural, ante o 
qual permanece indiferente. Os discípulos de 
Hegésias, estimulados pelos argumentos que o 
mestre lhes apresenta, deixam-se morrer de 
fome; e tornam-se tão numerosos, que o Rei 
Ptolomeu proíbe que se ministrem tais ensina- 
mentos capazes de levar ao suicídio. Essa 
gente não considerava a morte em si; não a jul- 
gava; nela não detinha o pensamento; sonhava 


com uma metamorfose de seu ser e ansiava por 
apressá-la. 


38 Ovídio. 
38 Cicero. 


' Esses infelizes que vemos no patíbulo 
demonstrando exaltada devoção, ouvidos aten- 
tos aos conselhos e exortações, olhos e mãos 
erguidos para o céu, a proferirem, em voz alta 
e com profunda emoção, suas orações, fazem 
coisa por certo louvável do ponto de vista da 
religião, mas não dão provas de firmeza de 
ânimo. Fogem à luta, evitam olhar a morte de 
frente, como as crianças que precisamos dis- 
trair quando as queremos lancetar. Alguns vi 
que, ao deparar com os preparativos da execu- 
ção, se mostravam apavorados e voltavam 
violentamente o pensamento para outra coisa. 
A quem precisa atravessar um precipício não 
se aconselha a que feche os olhos ou os desvie 
do abismo. 

Por ordem de Nero, Súbrio Flávio devia ser 
decapitado por Níger, igualmente oficial do 
exército romano. Levado ao local da execução, 
onde Niger mandara abrir a fossa para sepul- 
tar a vítima, viu Flávio que fora malfeita e, 
voltando-se para os soldados, observou que o 
trabalho realizado não revelava disciplina. Em 
seguida, dirigindo-se a Niger que o exortava a 
manter bem firme a cabeça, disse: possas tu 
golpear com idêntica firmeza. E tinha razão, 
pois Níger, cujo braço tremia, teve de fazê-lo 
mais de uma vez. Esse Flávio parece haver 
encarado a morte sem emoção e no entanto 
com o pensamento resolutamente fixado nela. 

Quem morre em combate, de armas nas 
mãos, não pensa na morte, não a pressente. A, 
luta empolga-o. Certa pessoa de minhas rela- 
ções e de uma coragem incontestável, baten- 
do-se em duelo escorregou e foi crivado de 
punhaladas. Os assistentes, acreditando-o per- 
dido, gritavam-lhe que recomendasse a alma a 
Deus. Mas, como me disse mais tarde, embora 
as vozes lhe chegassem aos ouvidos, não as 
ouvia, pois só pensava em se safar daquela 
situação e vingar-se. E o duelo terminou com a 
morte do outro. 

Quem levou a L. Silano o decreto que o con- 
denava à morte prestou-lhe bom serviço, pois, 
ouvindo Silano responder que já esperava a 
notícia mas não imaginava que devesse ser 
executado por bandidos, precipitou-se contra o 
condenado para forçá-lo a retratar-se. Sjlano, 
embora desarmado, defendeu-se com socos e 
pontapés e foi morto durante a disputa. Graças 
à cólera que se apoderara dele, escapou à 
opressão dolorosa que lhe houvera causado a 
espera de uma morte lenta. 

Pensamos sempre em outra coisa. Sustenta- 
nos a esperança de uma vida melhor, ou o fu- 
turo feliz dos filhos, a glória que poderá agre- 
gar-se a nosso nome, ou a idéia de nos 
libertarmos dos males terrenos, ou ainda a da 
vingança que aguarda os autores de nossa 


ENSAIOS — II 


morte. “Se há deuses justos, espero que encon- 
tres um suplício à tua altura, e que ao morrer 
invoques o nome de Dido; eu o saberei, o eco 
há de chegar à residência dos manes*º.” 


Coroado de flores, Xenofonte sacrificava 
aos deuses quando lhe vieram anunciar a 
morte de seu filho Grilo na batalha de Manti- 
néia. Às primeiras palavras, arrancou a coroa 
e jogou-a ao chão, mas quando soube com que 
valentia se portara O guerreiro, ergueu-a nova- 
mente e tornou a botá-la à cabeça. O próprio 
Epicuro consola-se do fim próximo, pensando 
na utilidade das suas obras que espera lhe 
sobrevivam eternamente. “Todas as penas são 
suportáveis, desde que brilhem e nos ilus- 
trem *'”. Idênticas fadigas, idênticos ferimen- 
tos não têm o mesmo peso para o general e o 
soldado, afirma Xenofonte. E Epaminondas 
resigna-se melhor à morte quando sabe que ob- 
teve a vitória. “E o que o consola, o que suavi- 
za sua grande dor*?”. Inúmeras outras cir- 
cunstâncias nos distraem e nos desviam da 
atenção que dariamos à coisa em si. Por isso 
as razões da filosofia não penetram, senão 
superficialmente, o assunto. O grande Zenão, 
chefe dessa escola estóica que domina as de- 
mais pela elevação de sua doutrina, dizia da 
morte: “nenhum mal é honroso; a morte é hon- 
rosa; logo não é um mal”. Contra a embria- 
guez assim se exprimia: “ninguém confia seu 
segredo ao bêbedo; todos o confiam ao sábio. 
Este não será pois um bêbedo”. Não fogem ao 
assunto tais palavras? Compraz-me ver esses 
espiritos de elite não poderem desvencilhar-se 
de nossos erros; por perfeitos que sejam, não 
são senão homens, e destes têm as fraquezas. 

A vingança é uma doce paixão, natural ao 
homem, e poderosa. Bem o percebo, embora 
não tenha experiência. Ultimamente, para 
afastar dela um jovem príncipe, não invoquei o 
preceito cristão de estender a face a quem nos 
ofende; nem lhe mostrei as consequências tr á- 
gicas que a poesia atribuiu à vingança; pus-me 
simplesmente a louvar-lhe a beleza dos senti- 
mentos contrários: a honra, a popularidade, a 
afeição que granjearia revelando-se bom e cle- 
mente. Desviei-o do seu intuito despertando- 
lhe a ambição. Assim se deve proceder. 

Se, no amor, a afeição pode levar-nos além 
do justo e certo, cumpre combater. uma tal 
disposição de espírito mediante alguma diver- 
são. Experimentei-o não raro com êxito. É pre- 
ciso atenuar-lhe a violência diversificando os 
desejos, e se algum vem a dominar os demais, 
para que não nos absorva e tiranize, cumpre 


*0º Virgílio. 
“1 Cícero. 
e21d. 


385 


-amortecê-io não lhe dando toda a nossa aten- 


ção e multiplicando as distrações: “Quando 
estiverdes atormentado por exagerado desejo, 
deveis satisfazê-lo com o primeiro objeto que 
se apresente * *.” Mas que se atente em tempo 
útil, pois se se apossar de nós teremos perdido 
a possibilidade de recuperar a liberdade, “se 
aos primeiros ferimentos não juntarmos ou- 
tros, se as novas afeições não apagarem as 
antigas **?. 

Em virtude de meu temperamento impres- 
sionável, sofri outrora um golpe violento; fora 
por ele esmagado, se houvesse confiado tão-so- 
mente em minhas forças. Uma diversão enér- 
gica era indispensável: apaixonei-me por cál- 
culo e ao mesmo tempo para dedicar-me a um 
estudo desse sentimento. A idade ajudava-me 
de resto e o amor aliviou o mal que a amizade 
causara. Assim ocorre com tudo. Quando uma 
idéia penosa me invade, mudo o curso de meu 
pensamento em vez de tentar suplantá-la. 
Substituo-lhe uma idéia contrária se possível 
ou, pelo menos, diferente. Essa mudança ali- 
via-me sempre e acaba por dissipar a idéia 
incômoda. Se não posso combatê-la, fujo dela 
e negaceio; mudo de lugar, de ocupação, de 
companhia, acumulo divertimentos, procuro 
temas de meditação até que me perca e me 
abandone. 

A natureza age do mesmo modo e tira pro- 
veito de nossa versatilidade. Assim atua o 
tempo, que se nos oferece como remédio sobe- 
rano às nossas paixões. Alimentando sempre 
mais nossa imaginação com toda espécie de 
negócios e interesses, desagrega e altera a 
impressão primeira, por forte que seja. O sábio 
que perde um amigo não pensa menos nele 
vinte. e cinco anos depois, porquanto, segundo 
Epicuro, a impressão permanece sempre a 
mesma e não considerava ele que viesse a ate- 
nuar-se por ter sido prevista ou submetida à 
ação do tempo. Mas tantos outros pensa- 
mentos se agregam aos primeiros que estes se 
embotam afinal. 

Para desviar a opinião pública, Aicebiades 
mandou cortar a cauda e as orelhas de seu cão 
e o soltou nas ruas da cidade, pois assim a 
multidão, encontrando nesse fato um motivo 
para comentários, não se ocuparia de seus ou- 
tros feitos e gestos. Conheci mulheres que, a 
fim de despistar a opinião pública e deso- 
rientar as más linguas, escondiam suas verda- 
deiras afeições simulando outras. E soube de 
uma que, nesse jogo, se viu enredada acabando 
por romper os laços antigos e entregar-se de 
verdade ao amor que simulava. Com esse 


“3 Pérsio e Lucrécio. 
44 TLucrécio. 


386 MONTAIGNE | 


exemplo compreendi quão tolos são os que 
consentem em tais trapaças, pois é preciso que 
o beneficiado publicamente seja muito pouco 
hábil para não trocar de lugar com o outro. É 
o que vulgarmente se chama preparar a cama 
para o sono alheio. 

Pouca coisa basta para distrair-nos, porque 
pouca coisa nos retém. Não encaramos os 
sucessos em si, O que nos impressiona são as 
circunstâncias em que se verificam, pormeno- 
res por vezes superficiais; por frívola que seja, 
a forma domina o fundo, “como esses leves 
invólucros de que se despojam as cigarras no 
verão **?”. O que lembra a Plutarco a morte da 
filha são as peraltices dela em criança. A 
recordação de um adeus, de um gestó gracioso, 
de uma recomendação aflige-nos. A toga de 
César exibida nas ruas de Roma perturba a ci- 
dade toda bem mais do que a sua morte. O 
próprio som das palavras mais vulgares nos 
comove: “meu pobre mestre”, “meu grande 
amigo”, “meu querido pai”, “minha boa 
filha”! Quando ouço essas banalidades e as 
examino de perto, vejo que não passam de 
palavras, e são ruídos sem sentido real que me 
ferem a sensibilidade. Lembram-me as excla- 
mações dos. predicadores; as quais mais 
impressionam o auditório pelo tom do que 
pelo conteúdo. Ou o lamento dos animais que 
matam para comermos. Em tudo isso não 
penetramos a essência profunda e verdadeira 
do assunto. “A dor excita-se sozinha, e se 
exacerba”, diz Lucrécio. Eis os fundamentos 
de nossas tristezas. 


A obstinação com que os cáiculos se detêm 
não raro em minha uretra provocou muitas 
vezes retenções prolongadas de urina. Durante 
três ou quatro dias corri assim risco de morte, 
a ponto que fora absurdo pensar em evitá-la, 
como fora loucura não desejá-la, tão cruéis são 
as dores que então sentimos. Esse bom impera- 
dor que mandava amarrar a extremidade do 
pênis dos criminosos para que morressem por 
não poder urinar, na realidade era doutor em 
torturas. Nesse estado pude analisar quantas 
causas fúteis minha imaginação descobria 
para justificar o desejo de não morrer. Coisas 
insignificantes sugeriam dificuldades a meu 
espirito, e frívolos eram os pensamentos que 
me ocorriam em tão grave momento. Um cão, 
um cavalo, um livro, um copo, tudo em verda- 
de se tornava motivo de preocupação. Outros 
pensarão em sua bolsa, na ciência, nos cargos 
ambicionados, o que não se me afigura mais 
tolo. Vejo com indiferença a morte, quando a 
encaro como fenômeno universal e meta fatal 
da vida. Enfrento-a assim, çomo um todo; mas 


45 Lucrécio. 


diante de seus pormenores não me mostro tão 
resoluto. As lágrimas de um lacaio, um aperto 
de mão, um reconforto banal me enternecem e 
enfraquecem. É o mesmo sentimento que nos 
perturba à leitura das histórias fabulosas em 
que as lamentações de Dido e Ariana, descri- 
tas por Virgílio e Catulo, apaixonam mesmo 
os que nelas não acreditam. Não sentir emo- 
ções é a característica das almas frias e secas. 
Dizem que foi o caso de Pólemon, mas tam- 
bém afirmam que um cão lhe arrancou metade 
da barriga da perna sem que ele sequer empali- 
decesse. Nenhuma sabedoria pôde jamais con- 
ceber por que étão viva e completa a tristeza 
que a imaginação provoca em nós, quando 
nem de longe o consegue a realidade, embora 
com a participação dos olhos e ouvidos que 
não são impressionados por acidentes imagi- 
nários. | 

É sem dúvida por essa razão que as artes 
apelam para nossa fraqueza e nossa tolice 
naturais. O orador, dizem nas escolas de retó- 
rica, deve, nessa farsa do discurso, comover 
pela voz e a emoção simulada. Deixar-se-à ilu- 
dir pela paixão descrita e acabará sentindo real 
tristeza e acabrunhamento que comunicará aos 
juízes da comédia, os quais se interessam 
ainda menos pelo assunto. Assim também 
ocorre com estas pessoas que alugamos para 
que assistam às cerimônias funerárias e lhes 
emprestam maior relevo: vendem suas lágri- 
mas a quem as quer comprar, mas, embora 
regulando sua emoção de acordo com a impor- 
tância paga, compenetram-se de seu papel e se 
entregam a manifestações de verdadeira triste- 
za. Tendo ido com alguns amigos acompanhar 
até Soissons o corpo do Sr. de Gaumont, que 
morrera no cerco de La Fére*8, observei que por 
toda parte as pessoas que encontrávamos cho- 


ravam € se lamentavam à simples vista do cor- 
tejo fúnebre, sem que sequer conhecessem o 
nome do defunto. E conta Quintiliano ter 
frequentado comediantes tão compenetrados 
de seu papel que ainda choravam devolta à 
sua casa. E que lhe aconteceu também ter-se 
comovido tanto com os sentimentos que pro- 
curara inculcar aós outros, que os experimen- 
tara realmente, a ponto de se surpreender em 
lágrimas e com o rosto pálido de aeuem 
acabrunhado pela dor. 


Em uma aldeia de nossas montanhas: as 
mulheres têm o costume de, ao mesmo: tempo, 
louvar as qualidades do marido desaparecido, 
chorando-lhe a morte, e proclamar seus defei- 
tos, como se quisessem tirar alguma compen- 


*8 Importante reduto militar na confluência do rio 
Serre com o Oise. (N. do E.) 


ENSAIOS — HI 


sação pessoal e estabelecer uma diversão para 
a sua desgraça. Nesse ponto, agem mais 
honestamente do que nós: que, quando sabe- 
mos da morte de um simples conhecido, 
atribuímos-lhe desde logo todas as qualidades 
e nos esforçamos por cumulá-lo de elogios 
imerecidos, pintando-o, depois de morto, bem 
diferente do que fora em vida. Como se a dor 
fosse uma fonte de informações inéditas e 
como se as lágrimas, lavando a nossa inteli- 
gência, a esclarecessem acerca do defunto. 
Quanto a mim, renuncio desde já aos testemu- 
nhos favoráveis que queiram dar de minha pes- 
soa, não porque me considere indigno deles, 
mas porque estarei morto. 

Se perguntássemos a alguém: “que interesse 
tendes em participar deste cerco?”, responde- 
ria: “dar um exemplo de obediência ao nosso 
príncipe. . Não ambiciono proveito algum; 
quanto à glória, bem sei quão pequena é a 
parte que pode auferir um simples particular 
como eu. Não tenho ódio nem paixão”. Vede-o 
porém no dia seguinte em seu posto, no 
momento do assalto: transformou-se, agita-se, 
ruge de cólera. Esse furor que antes não mani- 
festava, esse Ódio que tem no coração,.são o 
reflexo brilhante do aço, devem-se ao fogo, ao 
ruído dos canhões e dos tambores. “Causas 
bem fúteis”, direis. Mas como? Então acredi- 
tais que seja imprescindível uma causa? Pois 
ela não é necessária para que se agite a nossa 
alma. Um simples devaneio, sem razão de ser, 
a governa e perturba. Que eu me ponha a cons- 
truir castelos de cartas, minha imaginação 


387 


logo arquiteta vantagens e prazeres que ale- 
gram e entusiasmam a alma. Mas quantas 
vezes também esses mesmos sonhos fazem que 
a cólera e a tristeza nos invadam e nos alterem 
o corpo e o espirito! Nossas fantasias impri- 
mem em nossos rostos risos e rictos, provocam 
gestos, trejeitos e gritos ou lamentos. Parece 
até que, em nossa solidão, temos visões de 
disputas e demônios, e de perseguições interio- 
res. Interroguemo-nos acerca das causas de 
semelhantes abusões; haverá na natureza algo, 
fora do homem, sobre o que atue o que não 
existe? 


Cambises, tendo sonhado que seu irmão se 
tornara rei da Pérsia, mandou matá-lo. No 
entanto amava esse irmão e sempre confiara 
nele. Aristodemo, rei dos messenianos, suici- 
dou-se por pensar que o uivo de seu cão era 
um mau presságio. O Rei Midas fez o mesmo, 
em conseguência de um sonho desagradável 
que o contrariara e perturbara. 


Abandonar a vida por causa de um sonho é 
dar-lhe o valor que tem realmente. Vede entre- 
tanto como nossa alma se jacta de triunfar das 
misérias do corpo, de sua fraqueza. Pode falar, 
em verdade: “Ó desgraçada argila modelada 
por Prometeu! Pouca prudência mostrou na 


-confecção de sua obra: só viu o corpo em sua 


arte, não se preocupou com o espírito. E, no 
entanto, pelo espírito é que deveria ter começa- 
do 4 


“7 Propércio. 


CaPpíTULO V 


A propósito de Virgílio 


Nossas reflexões úteis tornam-se mais em- 
baraçantes e dificeis na medida em que se 
fazem mais sérias e profundas. O vício, a 
morte, a doença, são assuntos graves sobre os 
quais não podemos meditar muito tempo sem 
cansar. Devemos instruir a alma acerca dos 
meios de resistir ao mal e das regras de bem 
viver é seguir O carrinho da fé, despertando-a e 
exercitando-a amiúde nesse estudo. Mas, ante 
uma alma comum, isso se há de executar com 
brandura e moderação, porquanto uma tensão 
contínua a enlouqueceria. Em minha juventude 
tinha necessidade de. muito raciocínio e de 
advertências para seguir o caminho do dever, 


pois a saúde e o bem-estar não se prestam 
muito, ao que dizem, aos argumentos sérios e 
sensatos. Hoje a situação é diferente; as misé- 
rias da velhice advertem-me o bastante, tor- 
nam-me avisado e sereno. Da alegria excessiva 
passei à austeridade, o que é bem aborrecido; 
eis por que me entrego hoje, de quando em 
quando, a um certo desregramento, deixando o 
espírito divertir-se com fantasias de outra 
idade e que o repousam entretanto. Já estou 
por demais tranquilo, pesado, maduro; os anos 


Ooferecem-me diariamente lições de calma e 


temperança. Meu corpo evita quaisquer licen- 
ças e as receia mesmo; e é ele que induz meu 


388 


espírito à prudência e o governa autoritaria- 
mente. Não passo uma hora que seja, acor- 
dado ou dormindo, sem que me entretenha 
acerca da morte, da paciência e da penitência. 
Hoje, defendo-me contra a temperança como 
outrora me defendia contra a volúpia, pois ela 
me domina a tai ponto que me sinto apoucado. 
Ora, quero permanecer senhor de mim mesmo 
em quaisquer circunstâncias; a sabedoria tam- 
bém tem seus excessos e tanto quanto a loucu- 
ra precisa ser moderada. Por isso, receoso de 
que, com seus excessos, venha a prudência a 
ressequir-me, a esgotar-me e a perturbar o meu 
equilíbrio, nos momentos em que o sofrimento 
não me persegue, “de medo que minha alma se 
prenda demasiado às suas dores **”, desvio os 
olhos do céu borrascoso e nublado que, graças 
a Deus, encaro sem pavor mas não sem esfor- 
ço. E eis-me comprazendo-me na lembrança 
das loucuras da mocidade, “o espírito, saudoso 
do que perdeu, volta-se inteiramente para o 
passado *º”. Que a criança olhe para a frente e 
o ancião para trás. Não será esse o significado 
da dupla face de Juno? Nesses momentos, os 
anos poderão arrastar-me se quiserem, mas de 
costas para o futuro. Enquanto meus olhos 
reconhecerem a bela estação que não mais 
existe para mim, eu a contemplarei de quando 
em quando. Ainda que fuja de meu sangue e 
de minhas veias, não querc que se apague a 
imagem em minha memória: “Gozar o passa- 
do é viver duas vezes a própria vida *º”, 

Platão recomenda acs velhos que assistam 
aos exercícios, às danças e aos folguedos da 
juventude e que recordem as graças e as vanta- 
gens dos verdes anos, a fim de que gozem atra- 
vés dos outros a flexibilidade e a beleza física 
perdidas. E sugere que se premie o jovem que 
melhor tenha distraído o maior número de 
anciãos, tornando-lhes mais agradáveis algu- 
mas horas. 

Outrora eu anotava como excepcionais os 
dias pesados e sombrios, hoje tais dias são co- 
muns € os belos e serenos fizeram-se raros. Já 
considero um favor dos céus os momentos em 
que não sinto nenhuma dor. Posso fazer-me 
cócegas, não consige mais arrancar um riso 
deste pobre corpo. Só me alegro em pensa- 
mento ou sonho, mitigando com tais trapaças 
as tristezas da velhicé. Gostaria porém de 
outro remédio! Mas é em vão que a arte luta 
contra a natureza. ; 

E, no fundo, bem simplista o que fazemos 


«8 Ovídio. 
4º Petrônio. 
5º Marcial. 


MONTAIGNE | 


todos: prolongamos os incômodos humanos, 
antecipamo-nos a eles, privando-nos dos praze- 
res que ainda nos restam. Prefiro ser velho 
durante menos tempo a sê-lo antecipadamente; 
por isso aproveito os menores prazeres que 
encontro. Conheço de oitiva certas volúpias 
grandes, fortes e gloriosas *?, mas não as quero 
assim faustosas, porém doces, imediatas, fã- 
ceis. As outras dependem da opinião alheia e 
esta não me preocupa suficientemente para que 
as deseje: “Afastar-se da natureza para seguir 
o povo, é escolher um guia pouco seguro 52”. 
Minha filosofia atém-se aos atos e ao presente; 
não se subordina à fantasia. Bem quisera ainda 
Jogar pião! “Aos aplausos da multidão prefiro 
os da minha consciência 83.” A volúpia não é 
ambiciosa; considera-se bastante rica em si e 
não aspira à glória; prefere ficar na sombra. 
Deveriam açoitar o jovem que tirasse seu pra- 
zer da degustação dos vinhos e das viandas; 
foi o que eu menos soube apreciar na mocida- 
de. Só agora o aprendo. É uma vergonha, mas 
que fazer? Envergonham-me ainda mais os 
motivos que a tanto me impelem. Cabe-nos so- 
nhar e discorrer; que a juventude pense na gló- 
ria e nas realizações. Ela parte à conquista do 
mundo; nós estamos de volta: “A ela as armas, 
os cavalos, os dardos, a maça, a bola, a nata- 
ção, a corrida; a nós, velhos, os dados e outros 
Jogos **.” As próprias leis relegam-nos ao lar. 
Para compensar as tristes condições em que 
me precipitaram os anos, não posso senão 
recorrer aos jogos e folguedos, como faz a 
infância à qual vamos regredindo; a sabedoria 
e a loucura muito teriam que se esforçar para 
que, revezando-se, pudessem sustentar-me e 
auxiliar-me no calamitoso estado a que leva a 
velhice: “Mistura à sabedoria um grão de 
loucura * 8,” 

Evito as mais leves picadas; as que outrora 
não me houveram arranhado, hoje me traspas- 
sam. Sofrer torna-se-me um hábito. “Para um 
corpo débil, o menor sofrimento é insuportá- 
vel 8,2 “O espírito doente por nada se interes- 
saº 7.” Sempre fui muito sensível à dor; hoje eu 
o sou muito mais ainda e mais acessível a ela, 
“O menor choque parte o que já se acha racha- 
do. 58º Minha razão condena em verdade tais 


57 Montaigne alude à ambição e ao amcr-próprio. 
(N. do T.) 
S2 Sêneca. 
Ênio. 


i 
! 
1 
i 


53 


| 54 Cícero. 


55 Horácio. 
86 Cícero. 
57 Ovídio. 
58 Td. 


ENSAIOS — HI . 


recriminações e procura fortalecer-me contra 
os golpes da natureza, mas ela não pode impe- 
dir-me de os sentir. Iria de bom grado buscar 
no fim do mundo um bom ano de verdadeira 
tranguúilidade e alegria, eu que só tenho como 
objetivo viver de bom humor. Sou muitas 
vezes de uma serenidade tristonha e estúpida, 
que me adormece e me dá dor de cabeça; não 
me basta. Se há por aí, em França ou alhures, 
alguém que aprecie a boa companhia, em via- 
gem ou no lar, que se adapte a meu humor e a 
quem eu me ajeite, que me comunique logo: 
levar-lhe-ei os “Ensaios” em came e osso. 

Por isso que o espírito tem o privilégio de 
fugir à velhice, aconselho-o quanto posso a 
fazê-lo; que mesmo nessa idade floresça e 
frutifique, como o agárico em árvore morta. 
Mas receio ter de me haver com um traidor; 
está tão intimamente ligado ao corpo, que se 
desvencilha continuamente de mim para se- 
gui-lo e participar de sua decadência. Chamo- 
o de lado então, e o adulo. Em vão. Por mais 
que me esforce por afastá-lo dessa ligação 
demasiado íntima, apresentando-lhe Sêneca e 
Catulo, as mulheres e as damas da corte, quan- 
do seu companheiro tem uma cólica ele a sente 
também; sua própria atividade específica 
como que se retesa. Nenhuma vida vem dele se 
o corpo não vive igualmente. 

Erraram os nossos mestres quando atri- 
buíram as causas dos impulsos por vezes 
extraordinários de nosso espírito a uma inspi- 
ração divina, ao amor, a uma exaltação guer- 
reira, à poesia, ao vinho, deixando de lado a 
saúde, essa saúde ardorosa, cheia de vigor, 
despreocupada que o verdor dos anos e o sos- 
sego me outorgavam outrora. Esse fogo de 
artifício faz não somente brilhar naturalmente 
o espírito, como também lhe inspira entu- 
siasmos e extravagâncias. Não há pois como 
estranhar que o estado contrário o enfraqueça, 
o imobilize e turve: “o espírito perde seu vigor 
em um corpo definhante $º.”? E quer ele ainda 
que eu lhe seja grato por demonstrar maior 
resistência que o da maioria dos homens! Por- 
tanto, enquanto temos uma trégua, afastemos 
os males e os sofrimentos de nossas relações: 
“Que a velhice sorria enquanto pode 8º.” “E 
útil atenuar pela jovialidade os negros prazeres 
da vidaº?!.” Apraz-me uma sabedoria jovial e 
sociável e aborrece-me uma austeridade exces- 
siva. Toda fisionomia rebarbativa parece-me 
suspeita, “bem como a tristeza arrogante de 
um rosto carrancudo — pois entre a multidão 


8º Pseudo Galo. 
68º Horácio. E 
87 Sidônio Apolinário. 


389 


de pessoas severas esconde-se mais de um 
devasso 2.” Penso que Platão tem razão de 
dizer que os humores influem grandemente na 
beleza ou perversidade da alma. Sócrates tinha 
uma fisionomia que não variava nunca, serena 
e sorridente; não era como a do velho Crasso, 
o qual se mostrava sempre descontente e nin- 
guém jamais o viu sorrir. A virtude é natural- 
mente jovial. 

Estou certo de que entre os que se escanda- 
lzam com a licença de meus escritos muito 
poucos poderiam vangloriar-se de não se 
escandalizar com seus próprios pensamentos. 
Escrevo em verdade ao gosto deles, mas ofen- 
do-lhes os olhos. É de bom-tom criticar os 
escritos de Platão e aludir apenas de leve às 
relações que teria tido com Fédon, Dion, Este- 
la, Arqueanassa. “Não vos envergonheis de 
dizer em voz alta o que não vos envergonhais 
de aprovar baixinho.” Detesto os espíritos 
mal-humorados e melancólicos que esquecem 
os prazeres da vida e só pensam nas desgraças, 
como as moscas que não podem sustentar-se 
sobre a superfície lisa e polida, mas se agarram 
a tudo o que é áspero e rugoso e assim descan- 
sam; Ou como as saanguessugas que só chu- 
pam o sangue viciado. 

Aliás, impus-me a obrigação de ousar dizer 
tudo o que ouso fazer, e lamento até que todo 
pensamento não seja passível de exterioriza- 
ção. O pior dos meus atos, a pior das situações 
em que me encontre não me parecem tão feios 
que não possam ser confessados, pois mais 
feio e covarde é não ousar dizê-lo. Todos se 
mostram discretos na confissão, mas na verda- 
de- deveriam tê-lo sido na ação: a ousadia no 
erro é em parte compensada pela ousadia na 
confissão. Quem se obrigasse a tudo dizer, 
obrigar-se-ia a nada fazer que não pudesse ser 
dito. Deus queira que essa minha licença 
excessiva decida os outros a se expandirem um 
pouco mais, levando menos em conta essas 
virtudes timoratas nascidas de nossas imperfei- 
ções, e que o sacrifício de minha modéstia os 
induza a um justo eguiábrio. É preciso discer- 
nir seu vício e bem analisá-io para o contar; os 
que o escondem dos outrcs, escondem-no a si 
mesmos as mais das vezes; não o consideram 
suficientemente dissimulado quando o vêem. 
Disfarçam-no mesmo perante a própria cons- 
ciência. “Por que ninguém confessa seus ví- 
cios? Porque continuamos escravos deles. É 
preciso estar acordado para contar um 
sonho 83.” Os males do corpo evidenciam-se 


62 Marcial. 
83 Sêneca. 


390 - 


melhor em se tornando graves: constatamos 
que áquilo que julgávamos ser catarro ou luxa- 
ção é na realidade gota. Os males da alma, ao 
contrário, tornam-se menos visíveis com a 
agravação; o mais doente é quem menos os 
sente. Eis por que é preciso não raro examiná- 
los de perto, arrancando-os sem dó do fundo 
do coração. Assim como a simples divulgação 
constitui um prêmio para as boas ações, con- 
fessar as mãs já se revela uma compensação. E 
não há horror que justifique a recusa em con- 
fessar um erro. Sofro quando preciso dissimu- 
lar, por isso evito tornar-me confidente dos 
segredos alheios, pois não teria a coragem de 
negar que os conheço; sou capaz de calar, mas 
negar o que sei só o faria mediante exagerado 
esforço e constrangimento. Só guardamos bem 
um segredo quando nosso temperamento nos 
ajuda; nunca por obrigação. Quando estamos 
a serviço do príncipe não basta porém ser dis- 
creto; é necessário'mentir. Se me coubesse res- 
ponder a quem perguntou a Tales de Mileto se 
devia jurar que não cometera um adultério que 
em verdade cometera, diria que não se tornasse 
perjuro porque a mentira é ainda pior do que o 
adultério. Tales, ao contrário, aconselhou-o a 
negar, pois assim evitava um mal maior, solu- 
ção que, na realidade, não consistia em esco- 
lher entre dois males mas em acrescentar um 
mal a outro. Digamos, a propósito, que um 
homem de bem sente-se reconfortado quando, 
para pagar um erro, tem a oportunidade de 
enfrentar uma situação arriscada; mas se se vê 
obrigado a escolher entre dois atos indignos, 
passa sem dúvida por uma terrível prova. Foi 
o que aconteceu com Orígenes. Ante a alterna- 
tiva de sacrificar aos ídolos ou ser entregue aos 
apetites carnais de um horrível etíope, resig- 
nou-se à primeira das condições, assim pecan- 
do gravemente ao que dizem. Convenhamos, 
entretanto, em que certas mulheres de nosso 
tempo, coerentes com suas idéias falsas acerca 
da religião, prefeririam por certo sobrecarregar 
a consciência com dez homens a ouvir uma 
missa; e não teriam experimentado a mesma 
repugnância. Será sem dúvida indiscreto tor- 
nar públicos os próprios erros, mas não há pe- 
rigo que se tomem como exemplos, pois, como 
dizia Aríston, os ventos que os homens mais 
receiam são os que os descobrem º *. Devemos 
Jogar fora esse pobre farrapo que disfarça os 
nossos costumes; mandam ao bordel a cons- 
ciência e assumem atitudes impolutas. E até os 
traidores e assassinos assim se conduzem, 
defendendo as aparências e com isso se 


6* Os que os surpreendem. (N. do T.) 


MONTAIGNE | 


contentando. Mas não cabe à injustiça quei- 
xar-se da incivilidade, nem à malícia da indis- 
crição. É pena que os perversos não sejam 
igualmente imbecis e que a decência lhes tem- 
pere os vícios. Semelhantes revestimentos só se 
deveriam aplicar a paredes internas bem cons- 
truídas, merecedoras de conservação. 

Apoiando, a esse respeito, os huguenotes 
que nos censuram o caráter sigiloso de nossa 
confissão, confesso-me publicamente com toda 
convicção e sinceridade. Santo Agostinho, 
Orígenes e Hipócrates tornaram públicos os 
seus erros de opinião; eu divulgo também os de 
meus costumes. Tenho o maior desejo de me 
mostrar como sou, ainda que isso me custe, ou 
melhor, não desejo nada, porém sentiria gran- 
de desprazer em ser considerado diferente do 
que sou pelos que vierem a saber da minha 
existência. Que pode ganhar em se mostrar 
diferente da realidade quem aspira às honras e 
a glória? Louvai um corcunda pelo seu belo 
porte; há de acreditar-se injuriado; se sois um 
covarde e proclamam vossa coragem, será de 
vós que falam? Tomam-vos por outro, e acre- 
ditar no louvor é fazer como aquele que se 
orgulhava das saudações que recebia porque o 
tomavam, a ele pobre comparsa, pelo chefe do 
bando. 

Ao passar o Rei Arquelau por uma rua, 
alguém lhe jogou um balde de água à cabeça. 
Incitavam-no a punir o desastrado, mas ele 
respondeu: “Não foi em mim que ele o jogou, 
foi na pessoa que acreditou que eu fosse.” Só- 
crates, a alguém que lhe dizia que falavam mal 
dele, observou: “absolutamente, não há em 
mim nada do que afirmam”. Quanto a mim, 
não seria em absoluto grato a quem me lou- 
vasse por ser um bom pilóto ou extremamente 
modesto e casto; como não ficaria ressentido 
com quem me achasse traidor, ladrão ou bêbe- 
do. Quem não se conhece pode empaturrar-se 
com elogios imerecidos; eu não, porque me 
vejo, me analiso e sei muito bem o que sou; 
agrada-me que me louvem menos, mas com 
conhecimento de causa; poderiam julgar-me 
um sábio em condições de sabedoria que con- 
sidero idiotas. Lamento que as senhoras da 
sociedade encarem meus “Ensaios” como obra 
de salão e espero que este capítulo venham a 
ler no toucador, às escondidas. Confesso aliás 
que aprecio sua companhia a sós; em público 
ela carece de sabor e deixa de ser um privilé- 
gio. Em nossos adeuses exageramos em geral o 
amor às coisas que abandonamos, às vésperas 
de partir; são estes os meus últimos abraços. 

Voltemos ao nosso tema. Que fez aos ho- 
mens o ato sexual, natural, necessário e justo, 


ENSAIOS — II 


para que não ousemos referir-nos a ele sem 
corar, a ponto de o excluir das conversações 
mais sérias e honestas? Dizemos francamente 
matar, roubar, trair e essa outra palavra mal 
ousamos pronunciá-la. Será porque nela pen- 
samos demasiado? É de se observar, em verda- 
de, que as palavras que menos pronunciamos 
são as que melhor conhecemos; essa, quais- 
quer que sejam a idade e os costumes, ninguém 
a ignora, como não ignora o pão. Imprimiu-se 
em nós sem que fosse preciso ouvi-la ou vê-la 
escrita; e o sexo que mais pratica a ação é O 
que mais discreto se mostra. O que há de notá- 
vel é que cercamos o ato de silêncio e deste 
não O tiramos nem mesmo para acusá-lo e 
condená-lo; e só o criticamos com periífrases e 
metáforas. Mas que insigne benefício se confe- 
re a esse criminoso, em estimando os juízes 
que não há como aludir sequer ao crime! Gra- 
ças à severidade da pena, continua livre. Não 


ocorre com ele o que se verifica com os livros 
proibidos, os quais, justamente por isso, tanto 
se lêem? No que me concerne, subscrevo as 
palavras de Aristóteles: “ato impudico, que 
embeleza a juventude e provoca os anátemas 
da velhice”. Na escola antiga que prefiro à 
moderna porque tem maiores virtudes e meno- 
res vícios, recitavam-se estes versos de Plutar- 
co: 

“Quem evita Vênus e dela foge sem 

cessar 

peca tanto como os qué a seguem 

demasiado.” 


E diz Lucrécio: “O” deusa, só tu governas a 
natureza; sem ti ninguém vê a luz do dia, e não 
hã alegria nem prazer.” 


Não sei quem possa ter intrigado Palas e as 
Musas com Vênus e afastando-as do Amor, 
pois não sei de divindades que melhor devam 
entender-se. Quem sonegasse às Musas a inspi- 
ração amorosa, roubar-lhes-ia seu mais belo 
tema, e o mais nobre; quem fizesse com que o 
Amor perdesse a colaboração da poesia, tê-lo- 
ia enfraquecido, privando-o de sua melhor 
arma. Seria tachar de ingratidão e ignorância 
esse deus essencialmente sociável e benevo- 
lente e essas deusas protetoras da humanidade 
e da justiça. Como não faz tanto tempo assim 
que renunciei a figurar entre seus adoradores, 
conservo a lembrança precisa de seu poder e 
de seu valor: “Sinto ainda as queimaduras de 
uma antiga chama *5.” A febre deixa, ao se 
extinguir, vestígios de agitação e calor: 
“Considerar-me-ei feliz se nos anos de inverno 


65 Virgílio. 


391 


esse resto de calor não me ábandonar **.? E, 
por mais esgotado e lerdo que me encontre, 
ainda experimento uns poucos efeitos dos entu- 
siasmos idos: “Assim, o mar Egeu, batido 
pelos ventos não se acalma repentinamente 
após a tempestade; agita-se ainda durante 
muito tempo * 7.” Mas na medida em que posso 
assegurá-lo, o poder e o valor desse deus apre- 
sentam-se mais vivos e animados na poesia do 
que na realidade: “O verso do poeta tem dedos 
acariciadores *8.”, porque a poesia encerra, 
efetivamente, algo mais amoroso do que o pró- 
prio amor. Vênus nua, viva e palpitante não é 
tão bela como no-la pinta Virgílio: “Fala, e 
como ele hesita, a deusa envolve-o docemente 
em seus belos braços mais brancos do que a 
neve, e aquece-o num amplexo. Com esse con- 
tato, Vulcano sente renascer seu ardor habi- 
tual; um calor, que conhece muito bem, inva- 
de-o até a medula dos ossos. Assim brilha o 
relâmpago nas nuvens fendidas pelo raio e ser- 
penteia qual fita de fogo... Vulcano atende 
enfim às solicitações amorosas de sua esposa 
e, nela encarnado, abandona-se às delícias de 
um sono reparador.” 


É de se notar nessa cisação o fato de Virgílio 
descrever-nos como esposa uma Vênus dema- 
siado apaixonada. Nesse contrato de casamen- 
to, que atende aos ditames da sabedoria, os 
apetites são menos violentos e os prazeres 
mais moderados. O amor aborrece toda união 
contratada sem sua intervenção exclusiva e só 
participa discretamente dos embates que de- 
correm de outros interesses, como é o caso nos 
do casamento, porquanto este se prende natu- 
ral e justamente a considerações de família, de 
situação e dinheiro. Ninguém se casa só por 
seu prazer e vontade; casamo-nos também, 
senão mais, por causa da família e da posteri- 
dade, pois as condições em que se realiza o 
casamento (e seus resultados) interessam à 
raça bem mais do que a nós mesmos. Eis por 
que penso deva ser negociado, antes por inter- 
mediários do que pelos futuros cônjuges. Não 
vos parece isso contrário às inclinações amo- 
rosas? Daí .constituir um como que incesto 
entregar-se alguém às violências e extrava- 
gâncias da paixão (como já expliquei anterior- 
mente) no decurso das relações veneráveis e 
sagradas entre marido e mulher, e que visam à 
procriação. É preciso, diz Aristóteles, aproxi- 
mar-se de sua esposa com decência e calma, a 
fim de que carícias por demais lascivas não 


66 Jean Sebond. 
87 Tasso. 
88 Juvenal. 


392 


despertem nela um prazer excessivo capaz de 
desviâá-la do caminho certo. O que ele pro- 
pugna em nome da consciência, recomendam- 
no os médicos em benefício da saúde: “Um 
prazer demasiado fogoso, demasiado volup- 
tuoso, demasiado renovado, altera o sêmen e 
prejudica a concepção”; dizem ainda que rela- 
ções dessa ordem, para que sejam fecundas, 
devem espaçar-se consideravelmente: “a fim 
de que a mulher, apreendendo avidamente a 
oferta de Vênus, a encerre profundamente em 
sua matriz 8º.” Não conheço matrimônios 
menos afortunados do que os que se baseiam 
na beleza e no desejo. Para uma tal união há 
necessidade de alicerces mais sólidos, mais 
resistentes, e muita circunspecção. Entusiasmo 
e afa de nada valem. 

Os que, a fim de honrar o matrimônio, lhe 
agregam o amor, fazem como os que conside- 
ram ser a nobreza indispensável à virtude. Tais 
coisas têm algum parentesco, mas também 
muita dessemelhança. Não há como confundi- 
las, o que só pode prejudicar a ambas. A 
nobreza é uma bela qualidade, mas é qualidade 
por outrem outorgada e pode caber a um 
homem sem caráter ou viciado; por isso é bem 
menos apreciada do que a virtude. E ainda que 
fosse virtude, seria uma virtude artificial e 
tão-somente exterior, decorrente do momento e 
do destino, variável na forma segundo os pai- 
ses, viva e mortal; sem nascedouro, como o 
Nilo; genealógica e comum; consecutiva e 
semelhante; com obrigações e deveres bem frá- 
geis. A ciência, a força, a bondade, a beleza, a 
riqueza, e todas as outras qualidades comuni- 
cam-se e podem ser úteis, enquanto a nobreza 
só benificia a quem a possui. 

Pediram a um de nossos reis que escolhesse 
entre dois candidatos a certo cargo, um dos 
quais era fidalgo. Ordenou ele que se nomeasse 
o mais capaz, sem se levar em conta a nobreza. 
Assim mostrava com precisão o lugar que esta 
deve ocupar. Um jovem desconhecido, filho de 
um homem de valor que acabava de falecer, 
pediu a Antígono que lhe desse o cargo do pai. 
O rei porém respondeu: “Nestes cargos, meu 
amigo, pondero unicamente os feitos de meus 
soldados; não a sua nobreza.” Em compensa- 
ção, em Espart , por ignorantes que fossem, os 
filhos sucediam aos pais nos ofícios de trombe- 
teiros, menestréis e cozinheiros. No reino de 
Calcutá os nobres constituem uma espécie 
acima das outras. Não podem casar nem exer- 
cer qualquer profissão que não a das armas. 
Os homens podem ter concubinas à vontade e 


89 Virgílio. 


MONTAIGNE 


as mulheres os amantes que bem entendam, 
sem que jamais se manifeste algum ciúme; mas 
é crime capital e imperdoável fazê-lo fora de 
sua própria casta. Consideram-se maculados 
pelo simples contato com alguém que não seja 
de igual condição e chegam a matar quem 
deles se a proxime demasiado, o que faz com 
que os indivíduos das classes malditas sejam 
obrigados a gritar sua presença nas esquinas, 
como os gondoleiros em Veneza; e os nobres 
os intimam então a se afastarem. Assim evitam 
estes a morte e os da casta privilegiada a má- 
cula indelével. Nada pode fazer, nesse país, 
com que o plebeu se torne nobre: nem os servi- 
ços prestados, nem o tempo, nem a virtude ou 
a riqueza. Além desse costume, outros há 
igualmente discriminatórios, como o que proí- 
be o casamento entre pessoas de profissões 
diferentes; assim uma filha de sapateiro não 
pode desposar um carpinteiro. Os pais prepa- 
ram seus filhos para exercerem a própria pro- 
fissão com exclusão de qualquer outra, o que 
mantém as diferenças sociais e impede quais- 
quer mudanças. 

Um bom casamento, se é que existe, recusa- 
se ao amor; deve antes visar a uma boa amiza- 
de. Deve ser uma agradável associação de 
duas vidas, cheia de constância, confiança, ser- 


. viços recíprocos e obrigaçoes comuns. Nenhu- 


ma mulher que tenha provado a qualidade de 
esposa, “unida pelo matrimônio ao homem 
eleito”, como diz Catulo, desejaria ser a aman- 
te de seu marido; a afeição que usufrui como 
esposa é bem mais honrosa e segura. Se um 
homem se alvoroça alhures e se entusiasma, 
perguntem-lhe a quem desejaria que ocorresse 
aiguma desventura vergonhosa, à sua mulher 
ou à sua amante? Que infortúnio o preocu- 
paria mais? Quem desejaria ver mais feliz? 
Responderá sem dúvida que se ocuparia antes 
da esposa ?º. 

Em razão mesmo da raridade dos bons 
casamentos, pode-se avaliar quão preciosa ê 
uma união acertada. Não há coisa mais impor- 
tante em nossa sociedade. É uma instituição 
que não podemos dispensar e no entanto vive- 
mos a aviltá-la. E assim acontece o que se veri- 
fica com os pássaros na gaiola; os que estão 
fora querem entrar e os que se acham presos 
aspiram à liberdade. Sócrates, a quem inda- 
gava se valia mais a pena casar ou não, res- 
pondia: “o que quer que façais, haveis de 


7º Todo o trecho é algo confuso, não se perce- 
bendo bem se Montaigne procura simplesmente 
mostrar que mesmo no prazer fora do casamento o 
marido não esquece a esposa. (N. do T.; 


ENSAIOS — III 393 


arrepender-vos”. É uma associação a cujo res- 
peito devemos citar Cecílio e Plauto: “O 
homem é para o homem um deus ou um lobo.” 
É preciso que numerosas qualidades se coniu- 
guem para criâ-la. Em nossos tempos, a gente 
simples dá-se bem com o casamento porque os 
prazeres, a curiosidade e a ociosidade não a 
dominam; ao contrário, os temperamentos 
desregrados como o meu, rebeldes a quaisquer 
ligações e obrigações, não se adaptam muito 
bem ao matrimônio: “é-me bem mais suave 
viver sem essas cadeias 71.” 

Por inciinação natural, teria preferido fugir 
a desposar a sabedoria em pessoa, mas Os usos 
e costumes nos amarram € condicionam. Meus 
atos, em sua maioria, decorreram sempre dos 
exemplos que tive à minha frente muito mais 
que de minhas preferências. Ao do casamento, 
em particular, não me dobrei voluntariamente; 
fui impelido a ele por circunstâncias estranhas 
ao ato em si, pois, versátil como é o homem, 
não há coisa por incômoda que seja, ou feia, 
ou desagradável e de se evitar, que não possa 
aceitar em dados casos. Fui levado ao casa- 
mento bem menos preparado então, e contra- 
riado, do que o seria hoje após o haver conhe- 
cido de perto. E por mais livre e desregrado 
que me considerem, observei severamente as 
leis do matrimônio bem melhor do que prome- 
tera e esperava fazê-lo. Não cabe mostrar-nos 
recalcitrantes quando concordamos em nos 
amarrar. Devemos procurar não nos compro- 
meter imprudentemente, mas se aceitamos a 
obrigação cumpre-nos observar as leis co- 
muns, ou, pelo menos, esforçar-nos por obser- 
vá-las. Os que se prestam à realização desse 
ato com ódio e desprezo, agem de modo injus- 
to e poderão experimentar graves desditas. E 
as mulheres que seguem o ditado “serve teu 
marido como um senhor e desconfia dele como 
de um traidor”, o que equivale a dizer 
“observa uma atitude de respeito hostil?, cor- 
rem igualmente o risco de se haver em grandes 
dificuldades. Não tenho suficiente energia para 
tomar por caminho tão espinhoso, nem che- 
guei ainda a essa perfeição de habilidade e 
sutileza de espírito que consegue confundir 
razão com injustiça e ridicularizar a ordem e a 
lei que não servem os apetites. Não é por 
detestar a superstição que me precipitarei de 
olhos fechados na irreligião. Mesmo que nem 
sempre se cumpra o dever, cabe respeitá-lo € 
amá-lo, e é uma traição contrair matrimônio 
sem atender às obrigações conjugais. 

Vamos adiante. Virgilio descreve-nos uma 


71 Pseudo Galo. 


união matrimonial em que reina harmonia sem 
que entretanto se observe muita lealdade. Terá 
querido dizer que não é impossível ceder às 
solicitações do amor, embora cumprindo as 
obrigações decorrentes do casamento? Que 
assim se pode faltar ao dever sem fugir inteira- 
mente a ele? Há criados que roubam seus 
amos sem que estes os detestem por isso. À 
beleza, a oportunidade, o destino (pois o desti- 
no influi muito) fazem que a esposa possa afei- 
çoar-se a um estranho, sem, entretanto, se 
entregar tão completamente que não subsista 
algum laço para amarrá-la ao marido: “Há 
uma fatalidade pesando sobre esses órgãos que 
nossas roupas escondem, pois, se os astros não 
te protegerem, de nada te servirão as mais 
belas aparências de virilidade? 2.” Eis duas coi- 
sas distintas, que agem de modo diverso e não 
se devem confundir: uma mulher pode entre- 
gar-se a um indivíduo que não aceitaria de 
modo algum como marido, e não digo por 
causa da situação dele na sociedade, mas por 
ele mesmo. Poucos desposaram suas amantes 
sem que se arrependessem, o que se observa 
até entre os deuses, pois dizem que Júpiter não 
foi feliz com sua esposa, a qual conhecera 
carnalmente antes do matrimônio. É o que se 
chama “aliviar-se num vasilhame e enfiá-lo em 
seguida na cabeça”. Tenho visto, e em meios 
muito honrados, casamentos porem fim a amo- 
res escandalosos, pois amor e casamento pren- 
dem-se a considerações bem diferentes. Somos 


impelidos ao mesmo tempo a duas coisas 
diversas e antagônicas. Isócrates dizia que 
Atenas era uma cidade sedutora à maneira 
dessas mulheres que se frequentam pelo amor; 
todos gostam de passear com elas e distrair-se 
durante alguns momentos, mas ninguém pensa 
em desposá-las, isto é, em guardá-las e com 
elas viver a existência toda. E há maridos que 
odeiam suas mulheres tão-somente porque eles 
mesmos as enganam. Mas não deveriamos 
querê-las menos por causa de nossos erros; o 
remorso e a compaixão deveriam, ao contrá- 
rio, no-las tornar mais queridas. 


Os objetivos visados são diversos, explicava 
Isócrates, embora não incompatíveis. O casa- 
mento tem a seu favor a utilidade, a legitimi- 
dade, a honorabilidade, a duração; oferece-nos 
um prazer moderado mas generalizado. O 
amor visa unicamente ao prazer e é por certo 
mais excitante, mais vivo, penetrante; é um 
prazer que a dificuldade atiça e que exige um 
pouco de pimenta. Sem flechas nem ardores 
deixa de ser amor. A liberalidade das mulheres 


72 Juvenal. 


394 


é, no casamento, por demais profusa, o que 
embora a afeição e o desejo. Para obviar a esse 
inconveniente, Licurgo e Platão criavam, com 
suas leis, numerosos obstáculos ao matrimô- 
nio. 

Têm razão as mulheres quando se recusam 
a acatar as regras de conduta estabelecidas 
pela sociedade, tanto mais quanto foram feitas 
pelos homens que as não ouviram a respeito. 
Pela própria força das coisas, ocorrem cons- 
tantemente, entre elas e nós, pequenas e mali- 
ciosas dissensões e, mesmo nos momentos em 
que por comum acordo nos unimos mais inti- 
mamente, há conflitos e discussões. Na opi- 
nião de Isócrates não levamos suficientemente 
em consideração o fato conhecido de ser a mu- 
lher infinitamente mais sensível aos efeitos do 
amor. Esse sacerdote, que se transformou em 
mulher e voltou a ser homem, e assim 
“conheceu os prazeres dos dois sexos 7º”, afir- 
ma-o igualmente. Temos também a esse res- 
peito as declarações, feitas em séculos diferen- 
tes, por um imperador e uma imperatriz dos 
romanos, mestres na matéria. Ele deflorou em 
uma só noite dez escravas virgens, mas ela se 
entregou vinte e cinco vezes no mesmo lapso 
de tempo, mudando de parceiro de acordo com 
a-necessidade e a fantasia: “Até que esgotada, 
mas não saciada, teve de parar, ardendo ainda 
de volúpia 7 *.” 

Houve na Catalunha um processo célebre 
em que a mulher se queixava da frequência 
com que seu marido a solicitava. Não me pare- 
ce que a queixa se baseasse no incômodo expe- 
rimentado (fora um milagre e só acredito em 
milagres em matéria de religião), e sim no de- 
sejo de contestar a autoridade do esposo sobre 
a esposa, fúgindo (ainda que ocasionalmente) 
ao ato fundamental do casamento, pois a mali- 
cia e o espirito de contradição das mulheres 
são capazes de calcar aos pés, até no matrimô- 
nio, as doçuras e os prazeres que devemos a 
Vênus. À queixa respondeu o marido, dotado 
em verdade de um temperamento excepcional- 
mente brutal, que mesmo nos dias de jejum 
não podia deixar de possuí-la dez vezes. O pro- 
cesso terminou com singular sentença da rai- 
nha de Aragão, pronunciada após madura 
deliberação do conselho e tendo em vista esta- 
belecer uma regra e assentar as idéias acerca 
da moderação a ser observada nas relações 
entre esposos legítimos. Determinava a rainha, 
como limite mínimo necessário a tais embates, 
que não ultrapassassem seis por dia. Dita sen- 
tença, concluía a rainha, restringia e sacrifi- 


73 Ovídio. Alusão a Tirésias. 
7º Juvenal. 


MONTAIGNE 


cava as solicitações de seu sexo “a fim de esta- 
belecer uma regra de fácil aplicação e por 
conseguinte permanente e imutável”. Ao que 
exclamam os doutos: a que ponto atingem o 
apetite e a concupiscência femininos se sua 
moderação e virtude se devem pagar por tal 
preço! Diversas seriam as necessidades dos 
homens, porquanto Sólon, chefe da escola 
favorável à regulamentação de todos os atos 
da vida, considera que o marido deve ter rela- 
ções com sua mulher somente três vezes por 
mês, a fim de se achar sempre à altura de seu 
dever. E, no entanto, embora conhecendo esses 
dados e outros, e sabendo que as exigências 
femininas são maiores do-que as nossas, inven- 
tamos obrigá-las (a elas unicamente) à conti- 
nência, sob a ameaça de castigos severos e até 
da pena de morte. 

Não hã paixão mais imperiosa do que essa a 
que queremos que elas resistam, e não apenas 
na medida em que cumpre resistir a outros 
pecados, mas como se se tratasse do mais 
abominável e execrável dos vícios, de um 
crime mais grave que o ateísmo ou o parrici- 
dio. Enquanto isso, nós, homens, podemos 
fazê-lo à vontade sem que o considerem uma 
falta e sem incorrer em censura. Os que, entre 
nós, tentaram dominar-se, confessam as difi- 
culdades que lhes coube vencer, ou antes a 
impossibilidade com que depararam, muito 
embora adotassem regime especial para domar 
e acalmar as revoltas da carne. E queremos 
que elas sejam castas e ao mesmo tempo 
saudáveis, bem dispostas, vigorosas! Isto é, 
quentes e frias igualmente ! O matrimônio que, 
a nosso ver, as deve impedir de se inflamarem, 
traz-lhes, no estado atual de nossos costumes, 
bem pequeno alívio. Se o marido ainda está na 
idade dos entusiasmos, vangloria-se de gastã- 
los alhures: “Cuidado, Basso, ou irei aos tribu- 
nais; esse Órgão já não é mais teu, visto que 
mo vendeste e o paguei bem caro”? 8.” E não foi 
sem razão que a mulher do filósofo Pólemon o 
processou por andar espalhando em terreno 
estéril o sêmen que devera reservar para terras 
adequadas à fecundação. Quanto às mulheres 
que desposam homens gastos, acham-se, em- 
bora casadas, em situação mais triste do que 
as virgens e as viúvas. Consideramo-las sufi- 
cientemente aquinhoadas desde que tenham 
um homem a seu lado. Assim se disse de-Cló- 
dia Laeta que fora deflorada por Calígula, 
quando na realidade ele não a possuíra. Esque- 
cemos que a presença do macho, bem mais do 
que sua ausência, desperta a necessidade que 
elas têm de carícias e companhia. E foi sem 


75 Marcial. 


ENSAIOS — II 395 


dúvida para tornar mais meritória sua casti- 
dade que Boleslau, rei da Polônia, e Kinje, sua 
mulher, fizeram a promessa, no dia de seu 
casamento, de, embora dormindo juntos, não 
ter relações sexuais. E a cumpriram. 

Desde a infância nós as educamos para o 
amor. Graça, adornos, linguagem, tudo o que 
lhes ensinamos tem como objetivo o amor. 
Não lhes sugerem outra coisa suas governan- 
tas, ainda que no intuito, por vezes, de afastá- 
las de tal preocupação. Minha única filha está 
na idade em que a lei permite que se casem 
aquelas cujos sentidos se mostram mais exi- 
gentes. Seu desenvolvimento, que tem sido 
lento, entretanto, e seu temperamento linfático, 
contra o qual não reage a mãe, fazem que 
somente agora principie a desembaraçar-se da 
ingenuidade infantil. Lia perto de mim, hã 
dias, um livro em que se encontrava a palavra 
fouteau, que designa por vezes uma árvore 
assaz conhecida. A governanta obrigou-a a 
pular o trecho escabroso em virtude do duplo 
sentido do vocábulo” 8. Deixei-a fazer para 
não lhe perturbar a maneira de educar, desau- 
torando-a com minha intervenção, mas deve- 
mos convir em que o método não parece reco- 
mendável e que cumpre mudar a orientação 
dada atualmente à educação das mulheres. 
Talvez me engane, mas creio que a própria 
convivência com meus lacaios não houvera 
induzido mais a imaginação de minha filha a 
descobrir o uso e o sentido secreto da palavra 
incriminada: “A virgem núbil compraz-se em 
aprender danças lascivas até a exaustão física; 
ela sonha desde a infância com amores 
impudicos 7 7.” Quando as mulheres abrandam 
um pouco sua atitude cerimoniosa e concor- 
dam em falar com toda a liberdade, percebe- 


mos que não passamos de crianças ignorantes 
a seu lado. Escutai-as referirem-se a nossas 
assiduidades e ao que lhes sussurramos aos 
ouvidos; vereis que nada lhes ensinamos que já 
não saibam. Será por que, como pensa Platão, 
em sua vida anterior foram homens e devas- 
sos? Achei-me de uma feita em certo lugar de 
onde poderia ouvi-las sem ser visto. Gostaria 
de reproduzir o diálogo! Nossa Senhora, pen- 
sei, como perdemos nosso tempo estudando as 
frases de Amadis ou as histórias de Boccaccio 
e do Aretino! Não há palavras, ato ou malícia 
que não conheçam, e melhor ! Têm isso no san- 
gue! “Vênus, ela própria as inspira”*.” Bas- 
tam-lhes esses bons professores que são a natu- 


75 “Fouteau” = faia, mas também, no francês 
antigo, o órgão sexual feminino. (N. do T.) 
77 Horácio. 


reza, a juventude, a saúde. Não precisam 
aprender porque elas próprias engendram em 
si tudo o que concerne ao amor. “Nem a 
pomba, nem qualquer pássaro lascivo, solicita 
mais amorosamente o seu macho do que a mu- 
lher que se entrega à sua paixão 7º.” Seo ardor 
natural de seus desejos não fosse freado pelo 
receio e as idéias de honra que lhes são incul- 
cadas, seríamos todos ridículos. Todo o movi- 
mento do mundo tem essa conjunção dos sexos 
como objetivo; ela se encontra em toda parte; 
é o centro para o qual tudo converge. Ainda 
subsistem as ordenações da velha e sábia 
Roma' acerca do amor; Sócrates pontifica 
sobre a: educação das cortesãs: “Não raro 
esses livros que se vêem sobre as almofadas de 
seda de nossas beldades são obras dos estói- 
cos*º.” Zenão em suas leis chega a mencionar 
os frêmitos do defloramento. E qual o assunto 


do livro do filósofo Estráton, intitulado “A 
Obra da Carne”, e dos de Teofrasto que se 


denominavam “O Amoroso” e “O Amor”, e o 
de Aristipo: “Delícias do Passado”? Que sig- 
nificam as longas e vivas descrições que faz 
Platão das práticas amorosas de sua época? E 
a obra de Demétrio de Falero, intitulada “Dos 
Amantes”; e “Clínias ou o Amante à Força”, 
de Heráclides; e “As Núpcias ou a Arte de Ter 
Filhos”, de Antístenes; e “Do Senhor e do 
Amante”, do mesmo autor; e “Os Folguedos 
Amorosos”, de Ariston; e “O Amor” e “A 
Arte de Amar” de Cleantes; e os diálogos de 
Esfero; a fábula impudica de Júpiter e Juno, de 
Crisipo, e as lascivas cartas que o mesmo 
escreveu? E deixo de lado as obras dos filóso- 
fos epicuristas, que eram favoráveis à volúpia 
e a propugnavam. Cinquenta divindades presi- 
diam outrora ao ato do amor, e houve um 
povo entre o qual, a fim de entorpecer a concu- 
piscência dos fiéis, ofereciam-se-lhes raparigas 
e rapazes para O gozo prévio: porque a inconti- 
nência é necessária à observação da conti- 
nênctia e o incêndio se apaga com o fogo. Em 
quase todo o mundo foi essa parte de nosso 
corpo venerada; em certos países chegavam a 
cortar-lhe um pedaço para oferecê-lo à divin- 
dade ou lhe devotavam o sêmen. Em outras 
regiões, os jovens perfuravam o pênis e intro- 
duziam entre a pele e a came bastonetes de 
madeira, Os maiores e mais grossos que po- 
diam suportar e que se queimavam em holo- 
causto aos deuses; e os que estremeciam com a 
dor cruel eram considerados pouco vigorosos e 
insuficientemente castos. Alhures a designação 


78 Virgilio. 
79 Catulo. 
8º Horácio. 


396 


do chefe e o respeito que lhe dedicavam liga- 
vam-se às dimensões de seu órgão genital, cuja 
efigie se exibia com grande pompa nas cerimô- 
nias em honra de certas divindades. No Egito, 
nas bacanais, as senhoras traziam ao pescoço 
uma imagem em madeira do sexo masculino, 
ricamente incrustada, de acordo, quanto ao 
tamanho e ao peso, com a resistência de cada 
una; ademais, exibia-o orgulhosamente a pró- 
pria estátua do deus. Mas, recentemente, 
deram as mulheres a forma de um membro 
viril a seus véus, a fim de prociamar o prazer 
que dele auferiam e, quando viúvas, rejeitavam 
o véu para trás, sob o penteado, eliminando a 
imagem sugerida. Em Roma, as mais virtuosas 
matronas faziam questão de oferecer flores a 
Priapo e, por ocasião das cerimônias nupciais, 
obrigavam a noiva, quando virgem, a sentar-se 
nas partes menos honestas da estátua. 

EE sei se em nossa época ainda se verifi- 
cam práticas dessa ordem. Mas que significa- 
ção podia ter esse ridículo apetrecho protube- 
rante dos calções de nossos pais, que os 
guardas suíços ainda usam? Com que fim exi- 
bimos assim, exagerando-os, os nossos órgãos 
genitais? Sou levado a crer que a moda tenha 
sido inventada em tempos melhores do que os 
nossos, em épocas de boa-fé e honestidade em 
que: cada qual aparecia em público como era 
realmente, o que ocorre ainda hoje entre povos 
de costumes simples. Assim se julga a virili- 
dade do homem, como pelo braço ou o pé se 
conhecem outras qualidades. Houve, em 
minha juventude, um sujeito bem intencionado 
que mandou castrar as belas e antigas estátuas 
para que não nos ferissem a vista, conside- 
rando, com o não menos pudico Ênio, que 
“exibir a nudez em público é causa de devassi- 
dão”. Deveria ter-se lembrado de que, para ter 
eficiência, tal medida precisava ser seguida da 
castração dos cavalos, asnos e outros animais, 
pois só assim se baniria tudo o que porventura 
pudesse evocar a masculinidade*!. “Sobre a 


terra os homens, os animais domesticos e sel- 
vagens; nas águas os peixes; no ar Os pássaros 
multicores; tudo atende ao apelo do amor*??2.” 
Os deuses, diz Platão, prouveram-nos de um 
órgão que não conhece a obediência e que nos 
tiraniza; que, como um animal furioso, quer 
tudo submeter à violência de seus apetites. 
Têm as mulheres igualmente o seu, o qual, à 


81 Como na celebração dos mistérios da boa 


deusa, acrescenta o texto, sem entretanto precisar de 
que culto se trata. (N. do T.) 
82 Virgílio. 


MONTAIGNE 


maneira de um bicho glutão, delira se lhe recu- 
sam o alimento.que reclama e não-se conforma 
em esperar por ele. Comunica então, ao corpo 
em que se encerra, a cólera de que se vê toma- 
do é perturba-lhe as funções tôódas, até que, 
tendo obtido c fruto desejado, se sinta profusa- 
mente regado e satisfeito. 

Esse mesmo legislador que ordenou tal ato 
de vandalismo, devia ter pensado que abrir os 
olhos das mulheres para a realidade da vida 
seria medida bem mais decente e eficaz do que 
lhes deixar o espírito entregue a si mesmo e 
mais ou menos ansioso por adivinhá-la. O de- 
sejo e a esperança fazem que a essa realidade 
elas substituam imagens inteiramente extrava- 


. gantes. E conheço alguém que se perdeu exi- 


bindo a sua realidade em lugar impróprio. 

Que prejuízo moral causam esses desenhos 
obscenos que as crianças traçam nos muros e 
nas portas dos edifícios públicos! Induzem a 
mulher a um cruel desprezo por nós quando 
constatam a desproporção da imagem com o 
objeto. E talvez tenha Platão atentado para 
isso quando, a exempio do que se praticava em 
outras repúblicas de instituições modelares, 
determinou que nos ginásios homens e mulhe- 
res de todas as idades se apresentassem nus. 
As indianas, que vêem continuamente os ho- 
mens desvestidos, têm pelo menos a vantagem 
de não se iludirem pelos olhos. Nesse grande 
reino de Pegu, não têm elas próprias para se 
cobrir senão um pedaço de pano aberto na 
frente e tão estreito que por mais esforços que 
façam a cada passo se descobrem por inteiro. 
Embora se diga, desse costume, que tem por 
objetivo atrair os homens e distinguir os sexos 
em um pais onde todos usufruem a liberdade 
de satisfazer seus instintos, pode muito bem 
ocorrer que o resultado seja contrário do que 
se espera, pois a fome total é mais difícil de 
suportar do que em parte saciada, ainda que 
somente pelo olhar. Por isso dizia Lívia que 
para uma mulher honrada um homem nu nao 
passava de uma imagem. As lacedemônias, 
mais puras como mulheres feitas do que as 
nossas virgens, contemplavam diariamente a 
nudez dos jovens ginastas. Elas próprias não 
cuidavam de esconder as coxas ao andar, 
convencidas, como diz Platão, de que sua vir- 
tude as protegia suficientemente sem que fos- 
sem necessárias saias de roda. Em compensa- 
ção, os que, segundo Santo Agostinho, 
atribuíam um poder prodigioso à tentação pro- 
vocada pela nudez, indagavam, dubitativos, se 
no juízo final as mulheres conservariam seu 
sexo ou se se tornariam homens a fim de não 


ENSAIOS— II 


nos induzir ao pecado quando gozássemos a 
eterna beatitude. 

Em resumo, provocam-nas e excitam-nas 
por todos os meios; sem cessar as incitam às 
fantasias e depois culpam-lhes o sexo. Diga- 
mos a verdade: não há entre nós quem não re- 
ceie mais a vergonha provinda das faltas de 
sua mulher do que a decorrente dos seus pró- 
prios erros; não há quem não se preocups mais 
com a consciência de sua esposa (maravilhosa 
caridade!) do que com a sua própria, não há 
quem não prefira ser ladrão e sacrílego a ter 
uma mulher impura, nem quem não ache me- 
lhor que ela seja assassina e herética a ser 
incontinente. Iníqua avaliação do vício! 
Somos, elas e nós, capazes de mil corrupções 
mais prejudiciais e contrárias às leis naturais 
do que a luxúria, mas avaliamos a gravidade 
do vício segundo o nosso interesse. Daí a rela- 
tividade de nosso julgamento. 

O rigor de nossas leis fez da falta da mulher 
um crime muito mais grave do que é na reali- 
dade, e de consequências fora de proporção 
com a coisa em si. E andariam elas mais acer- 
tadamente ganhando a vida como advogadas 
ou conquistando glórias na guerra, do que se 
preocupando com tão dificil defesa em meio ao 
ócio e a solicitações de toda espécie. Pois não 
há negociante, ou procurador, ou soldado, que 
abandone suas ocupações profissionais para 
correr a uma tal defesa; e não alcançam o 
mesmo grau de sacrifício o trabalho e as priva- 
ções do mais miserável sapateiro ou lixeiro. 
“Todos os tesouros de Aquemenes, todas as 
riquezas da Arábia e da Frígia não pagariam 
um só fio de cabelo de Licínia, nesses docés 
momentos em que, virando o rosto, ela entrega 
a boca a teus beijos, ou, caprichosamente, re- 
cusa o que lhe desejas roubar e que esponta- 
neamente te oferece em seguida**.” 

Não sei se os feitos de César e Alexandre 
ultrapassam em dificuldades aquilo que uma 
mulher jovem e bela, educada a nosso modo, 


em uma sociedade em que brilhe, e tendo sob. 


os olhos tantos exemplos contrários, em meio 
a mil proposições e solicitações, precisa fazer 
para se manter casta. Nada me parece tão espi- 
nhoso nem exige, a meu ver, maior cuidado do 
que isso que não faz. Acho mais cófnodo car- 
regar uma armadura durante a vida toda do 
que uma virgindade. E é porque o voto de cas- 
tidade é o mais penoso ae todos que é tambem 
o mais nobre: “A força do diabo está nos 
rins”, diz São Jerônimo. . 


83 Horácio. 


397 


Sem dúvida atribuímos às mulheres o mais 
árduo dos deveres, o mais exigente de esforços 
e resolução. Eis por cérto um estímulo assaz 
poderoso para que se obstinem em se manter 
honestas e calquem aos pés a nossa pretensa 
superioridade. Por pouco que se preocupem 
com não infringir sua norma de conduta, não 
somente hão de granjear maior estima como 
também mais decidido amor. Um cavalheiro 
não desiste de sua corte por lhe negarem o que 
deseja, se a recusa assenta na temperança e 
não na antipatia; lamenta-se e ameaça talvez, 
mas não ama menos. E mente se afirma o 
contrário. Nada nos seduz mais do que uma 
mulher que sé mantém honesta sem deixar de 
ser carinhosa e amável. É covardia e estupidez 
insistir junto a uma mulher que demonstra 
hostilidade e desprezo, mas é de uma alma 
nobre e generosa não romper relações com 
quem opõe 20 desejo uma virtude resoluta e 
mesclada de gratidão. Uma mulher pode, até 
certo ponto, e sem desobedecer às regras da 
honestidade, mostrar que se compraz com as 
atenções de seu admirador e-não o desdenha. E 
a lei que determina que nos detestem porque as 
adoramos é cruel e absurda. Por que não ouvi- 
riam nossos cumprimentos se não transgridem 
o que a compostura lhes dita? Haverá nelas 
algum sentido que desperte ao som de nossas 
palavras? Uma rainha de nosso tempo dizia 
com muito espírito que “recusar-se a ouvir 
galanteios é prova de fraqueza, denunciadora 
de certa propensão para o pecado”, e que 
“uma senhora que não se expôs à tentação não 
pode vangloriar-se de sua castidade”. A honra 
não se encerra dentro de tão estreitos limites; 
pode estender-se e gozar alguma liberdade sem 
se tornar passível de culpa; para além de seu 
domínio há uma zona neutra em que somos 
livres, em que o que ocorre não comporta 
consequências graves. Quem logra encurralar 
a virtude em seu último reduto para vencê-la, 
nécio será se não se considerar um privile- 
giado, pois a importância do êxito mede-se 
pela dificuldade encontrada. Quereis saber a 
impressão que causais em uma mulher com 
vossos galanteios e assiduidades? Julgai-o pelo 
seu caráter. Há quem muito mais dê, em não 
dando tanto quanto outras; um favor vale o 
preço em que o avalia quem o outorga; o resto 
são circunstâncias fortuitas que nada lhe 
acrescentam e como que não existem. O pouco 
que concede esta pode custar-lhe mais do que 
o que a outra dá. E se alguma coisa se valoriza 
pela raridade, temos nessa um exemplo típico. 
Não atenteis por isso para quanto obtiverdes e 


398 -.  MONTAIGNE 


sim para o número dos que o puderam ou 
poderão obter. O valor de uma moeda depende 
do lugar em que é cunhada e da sua marca. 

Ainda que o despeito e a indiscrição indu- 
zam alguns à calúnia, sempre a verdade e a 
virtude acabam triunfando. Sei de mulheres 
cuja reputação por muito tempo foi posta em 
dúvida e que recuperaram o respeito: de todos 
tão-somente pela sua constância, sem esforços 
nem sacrifícios. Os maliciosos acabam por se 
arrepender e se desmentir. Hã também mulhe- 
res de quem se duvidava em solteiras e hoje, 
depois de casadas, se encontram entre as mais 
estimadas. Alguém dizia a Platão: “Todos 
falam mal de você.” “Deixai-os falar, respon- 
dia, pois viverei de maneira a forçá-los a 
mudar de opinião.” 


Além do temor a Deus e de uma glória tão 
raramente conquistada, a corrupção do século 
deve incitá-las a não sucumbir. Se estivessse 
em seu lugar, a tudo me prestaria de prefe- 
rência a confiar em gente tão perigosa. Outro- 
ra, O prazer de contar suas aventuras (prazer 
quase tão grande quanto o real) só se outor- 
gava a quem tinha um grande e fiel amigo. 
Hoje, nas festas como à mesa, passam o tempo 


a vangloriar-se e a revelár segredos de alcova. 
Isso parece-me abjeto e vil e só pessoas ingra- 
tas e levianas podem assim permitir que cha- 
furdem nos seus sentimentos mais íntimos e 
delicados. Nossa exasperação iníqua contra as 
fraquezas femininas provém dessa terrível 
doença que tanto aflige a alma: o ciúme. “Que 
é que impede de tirar luz da luz? Diminui ela 
com issoº*2” O ciúme e sua irmã a inveja 
parecem-me as. mais estúpidas enfermidades 
morais. Desta última, que dizem ser uma pai- 
xão tenaz e poderosa, não posso falar porque 
não a conheço, graças a Deus. Quanto ao 
ciúme, conheço-o pelo menos de vista. Os pró- 
prios animais estão sujeitos a essa doença. 
Uma das cabras de Crátis, tendo se apaixo- 
nado por ele, o bode, durante a noite, esmagou 
a cabeça do pastor a chifradas. A exemplo de 
certos povos bárbaros, exageramos essa febre. 
Os mais ponderados e sábios sentiram-na, 
como é natural, mas sem delírios: “O sangue 
de um adúltero ferido por um marido jamais 
tingiu as águas do Estige?*.” Luculo, César, 
Pompeu, Antônio, Catão e outros de incons- 
testável bravura foram maridos enganados e o 
souberam, sem que por isso provocassem 
tumultos. Somente Lépido, naqueles tempos, 
se revelou bastante tolo para se atormentar a 
ponto de morrer: “Infeliz ! Se o azar fizer com 
que te surpreendam, serás arrastado pelos pês 


8+* Ovídio. 
8s João Segundo. 


e empalado com nabos e cenouras* 8.” Quando 
Vulcano deparou com sua mulher em compa- 
nhia de outro, contentou-se com os expor 
ambos ao sarcasmo dos demais deuses, “o que 
levou um deles, dos menos austeros, a observar 
que de bom grado consentiria em ser assim 
castigado? 7”. Nem por isso deixa Vulcano de 
acariciar sua companheira, mas queixa-se de 
que ela desconfie então de seu afeto: “Por que, 
ó deusa, não confias em mimº8º7” E quando 
ela pede alguma coisa para Enéias, um dos 
bastardos: “é uma mãe que pede armas para 
seu filho”, ele a concede generosamente, expri- 
mindo-se assim: “Armas para um herói?º.” O 
ato é entretanto tão magnânimo que só pode 
admitir-se da parte de um deus: “e não há 
como estabelecer um termo de comparação 
entre um homem e um deus*º”. Quanto à con- 
fusão dos filhos — coisa que preocupa os mais 
sérios legisladores — não afeta ela as mulhe- 
res e no entanto nelas é que o ciúme é mais 
forte. “Muitas e muitas vezes ao ciúme de Juno 
não faltaram motivos, dadas as infidelidades 
de seu maridoº*?. E quando esse sentimento se 
apodera dessas almas frágeis e incapazes de 
resistência, é de ver-se com que crueldade as 
atormenta e tiraniza. Introduz-se nelas sob a 
forma de amizade mas, aí instalado, as mes- 
mas causas, que antes invocavam a benevo- 
lência, tormam-se alvo de ódio mortal. É o 
ciúme, entre as doenças do espírito, a que mais 
facilmente se alimenta e a que com maior difi- 
culdade se cura: saúde, virtude, mérito, reputa- 
ção, tudo é pretexto para que se exprimam o 
despeito e a cólera: “Não há ódios mais impla- 
cáveis que os do amorº2” Essa febre deturpa e 
corrompe tudo o que há de bom e belo nas 


mulheres. Tudo o que faz uma mulher ciumen- 
ta, por honesta e diligente que seja, comporta 
algo azedo e desagradável; é presa de uma agi- 
tação colérica que indispõe os outros contra 
ela e produz efeito contrário ao esperado. 
Veja-se o caso de um tal Otávio, em Roma. 
Dormira com Pôncia Postúmia. Apaixonado 
desde então, instava com ela sem cessar para 
que casasse com ele. Não conseguindo conven- 
cê-la, seu extremado amor levou-o a agir como 
um inimigo cruel: matou-a. Os sintomas dessa 
doença insrente ao amor são do mesmo tipo: 
cóleras intestinas, surda agitação, conjuras 
incessantes: “ninguém sabe até onde pode i Ir o 


88 Catulo. Alusão ao castigo que os atenienses 
infligiam aos adúlteros surpreendidos em flagrante. 
87 Ovídio. 

88 Virgílio. 

8º Td. 

8º Catulo. 

91 Td. 

82 Propércio. 


ENSAIOS — HI 399 


ódio de uma mulher”, diz Virgílio, é um ódio 
tanto mais exasperado quanto precisa semprê 
invocar o benefício da vítima. 


A castidade é um dever muito complexo. 
Será, por exemplo, a vontade que desejamos 
dominar? Mas a vontade é nas mulheres coisa 
demasiado elástica, versátil e viva. Um sonho 
basta por vezes e eis a vontade anulada. Não 
estã em suas forças defenderem-se sozinhas 
contra a concupiscência e o desejo, nem 
mesmo com o auxílio da castidade, a qual por 
ser também feminina está sujeita a idênticas 
solicitações. Se somente a vontade importa, 
aonde iremos parar? Imaginai um homem sem 
olhos nem língua, incapaz portanto de ver € 
falar, mas dotado do privilégio de se achar na 
hora certa no leito de uma mulher disposta a 
acolhê-lo: que tremendo êxito teria! As mulhe- 
res citas vazavam os olhos de seus escravos e 
prisioneiros de guerra para melhor se servirem 
deles sem ser reconhecidas. 


A grande vantagem está na oportunidade. A 
quem me perguntasse o que mais contribui 
para o êxito no amor, responderia: em pri- 
meiro lugar a oportunidade, em segundo a 
oportunidade e sempre a oportunidade. Desta 
tudo depende. Ocorreu-me, mais de uma vez, 
perder uma boa oportunidade; mas também 
me aconteceu carecer de ousadia. Deus perdoe 
quem zombe de mim. Neste século é preciso 
mais temeridade do que tenho, essa temeridade 
que os jovens atribuem ao entusiasmo da 
idade, mas que, se a olharmos de perto, não 
passa, na realidade, de desprezo pela virtude 


das mulheres que assediam. Não ofendê-las é 
para mim verdadeira superstição, e leva-me a 
respeitar o que amo. Demais, independen- 
temente do fato de que em tais circunstâncias a 
falta de respeito amesquinha a preferência con- 
cedida, gosto de mostrar-me, nesse caso, um 
tanto pueril e timido. Além disso padeço um 
pouco dessa tola vergonha a que alude Plu- 
tarco e que amiúde me prejudicou na vida. É 
um defeito que não se ajusta em geral a meu 
temperamento, mas não somos feitos de senti- 
mentos e idéias em permanente contradição? 
Tanto me aborrece receber uma recusa como 
dá-la; e de tal modo desagrada-me desagradar 
aos outros, que, se o dever me obriga a tentar 
convencer alguém de alguma coisa, faço-o 
contra a vontade, constrangido. Nos negócios 
desse gênero em que me ache diretamente inte- 
ressado, embora Homero diga que no indi- 
gente a vergonha é uma virtude ridícula, encar- 
rego outra pessoa de fazê-lo, assim como evito 
qualquer missão dessa espécie, mesmo porque 
minha timidez é de tal ordem, a esse respeito, 
que me aconteceu por vezes querer recusar e 
no entanto aceitar. 


Voltemos ao assunto. É loucura procurar 
frear na mulher um desejo tão natural e exigen- 
te. E quando as ouço dizer que sua imaginação 
continua virgem e que nada sentem ou querem, 
rio-me delas, pois exageram então, por demais. 
Se se trata de uma velha decrépita e desden- 
tada ou de uma jovem tuberculosa, pode-se 
ainda acreditar que digam a verdade, embora 
não seja provável, mas, na boca das que respi- 
ram e vivem realmente, uma tal linguagem não 
me parece certa. Quem prova demais, torna-se 
suspeito; as justificações excessivas são acusa- 
tórias. Assim é que um fidalgo meu vizinho, 
que de impotência, “insensível às mais lascivas 
carícias, nunca dera o menor sinal de virilida- 
deº3”. três ou quatro dias após a cerimônia 
matrimonial, andou a espalhar por toda parte 
que por vinte vezes se entregara ao amor. 
Dessa afirmação absurda se valeram posterior- 
mente para desmascará-lo e anular o casamen- 
to. 

A continência e a virtude só existem na me- 
dida em que se resiste à tentação. Por isso a 
única coisa que as mulheres deveriam dizer em 
tais casos é que não querem ceder; os próprios 
santos assim se exprimem. Refiro-me as 
mulheres que, conscientes do que afirmam, se 
vangloriam de sua frieza e insensibilidade e 
querem que as levemos a sério; e não estou 
pensando naquelas que, assim falando, des- 
mentem suas palavras, com gestos e olhares, 
usando uma linguagem muito sua que exige 
interpretação inteligente e naturalmente signi- 
fica o contrário. Agradam-me imenso a inge- 
nuidade e a pureza, mas é preciso que tais qua- 
lidades conservem a autenticidade original, 
sem o que se tornam ineptas ou impudicas. 
Esses disfarces que tais mulheres adotam, só 
aos tolos iludem. Mentir é-lhes ponto de honra 
e uma maneira de conduzir-nos à verdade por 
uma porta falsa. 

Se não podemos frear-lhes a imaginação, 
que poderemos querer então? Combater os 
efeitos? Mas muitos escapam ao conhecimento 
alheio e nem por isso as corrompem menos: 
“Faz-se muito o que se faz sem testemu- 
nharº *” e o que mais se teme nem sempre é o 
que se deve temer. Esses seus pecados que 
ignoramos são os piores: “Aborreço menos a 
mulher viciada quando não dissimula o 
vício? 5.” Pode-se perder o pudor sem impudi- 
cicia e até sem o saber: e conta Santo Agosti- 
nho que “uma parteira verificando com a mão 
se certa moça era virgem, ou por maldade ou 
por acidente, deflorou-a”. Não falta quem 
tenha perdido a virgindade ao procurar enten- 


83 Catulo. 
“4 Marcial. 
95 Td. 


400 


dê-la, nem quem dela se haja desfeito brincan- 
do. Não podemos circunscrever com exatidão 
o que lhes proibimos, nem formular nossas 
exigências senão de maneira vaga e geral. Por 
vezes, mesmo, é ridícula nossa concepção de 
sua castidade. Entre os exemplos mais singula- 
res que disso posso dar, citarei o de Fátua, mu- 
lher de Fauno, a qual a partir do dia de suas 
núpcias nunca mais mostrou o rosto a homem 
algum, e o da mulher de Héron que não se 
impressionava com o cheiro nauseabundo que 
exalava o nariz do marido, certa de que o fenô- 
meno era inerente ao sexo masculino. Para que 
nos sentíssemos satisfeitos fora necessário que 
elas se tornassem insensíveis e invisíveis. 
Convenhamos portanto em que o pecado 
está na intenção. Houve, mesmo, maridos que 
foram enganados sem que os ofendessem suas 
mulheres mas antes revelassem, em o fazendo, 
sua grande virtude. Assim uma delas, mais 
atenta à honra que a vida, se prostituiu com o 
inimigo a fim de salvar o esposo, por este 
fazendo o que não houvera feito por ela pró- 
pria. Não há como citar exemplos aqui, pois 
são feitos demasiado elevados para que se 
enquadrem no assunto. Reservemo-los para 
mais nobre tema. Mas descendo a exemplos 
mais vulgares, vemos diariamente em tomo de 
nós mulheres que se entregam unicamente no 
intuito de ser úteis a seus maridos, por vezes 
até por ordem e intermédio dos próprios espo- 
sos. Na antiguidade Fâáulio, de Argos, ofereceu 
sua mulher ao Rei Filipe, por simples ambi- 
ção. E, por cortesia, um certo Galba, que ofe- 
recera um banquete a Mecenas e percebera que 
o convidado fazia a corte à sua mulher, fin- 
giu-se de exausto e acabrunhado pelo sono 
para auxiliá-lo em suas intenções amorosas. O 
que, de resto, revelou sem maiores dificulda- 
des, portanto, tendo um dos servidores apro- 
veitado a ocasião para tentar roubar um vaso 
da mesa, exclamou: “pois não vês, é malandro, 
que estou dormindo somente para Mecenas?” 
Há mulheres de vida airada mais resolutas do 
que outras de aparência honesta. Há quem se 
queixe de ter feito voto de castidade antes de 
saber o que isso significava, como há quem 
lamente ter-se dedicado à libertinagem em 
idênticas condições, já por injunções de pais 
devassos, já para safar-se da miséria, que a 
necessidade é rude conselheira. Nas Índias 
Orientais, onde a castidade é particularmente 
apreciada, admite-se que uma mulher casada 
se entregue a quem lhe ofereça um elefante, o 
que, dado o valor do presente, constitui uma 
honra. O filósofo Fédon, que era de boa famí- 
lia, resolveu prostituir-se para viver, depois da 
invasão de sua pátria, e assim fez enquanto 
durou sua beleza. Sólon foi o primeiro, na Gré- 
cia, a conceder legalmente às mulheres a liber- 


MONTAIGNE 


dade de prover às necessidades da existência 
pela prostituição, costume esse que, segundo 
Heródoto, já fora introduzido, antes, nas insti- 
tuições de vários outros povos. 


E, finalmente, que benefício auferimos de 
tão tormentosa preocupação? Suponhamcs 
que o ciúme se justifique: conduzirá a algum 
resultado o nosso tormento? Haverá quem 
imagine possuir um meio eficaz de governar 
sua mulher? “Prendam-na e coloquem guardas 
à porta da prisão; quem os vigiará? Ela é astu- 
ta e por eles é que começa” 8.” Que meios tere- 
mos para a controlar, nestes tempos de gente 
tão sabida? 

A curiosidade é sempre um defeito, mas, no 
caso, parece-me perniciosa; é loucura preten- 
der informar-se acerca de um mal que nenhum 
remédio cura, antes agrava, e cujas conse- 
quências se ampliam com a publicidade que o 
ciúme lhe dá. E não adianta vingar-se, porque 
a vingança não apaga a falta e recai afinal nos 
filhos. Torturaremo-nos e morreremos de des- 
gosto antes de elucidar uma coisa tão dificil de 
provar. Triste tem sido o resultado dos que 
buscam inteirar-se da verdade! E se quem nos 
adverte do mal não nos oferece ao mesmo 
tempo o remédio, está nos injuriando e merece 
mais uma punhalada do que se nos desmen- 
tisse em público. Demais, quem tenta vingar-se 
não é menos ridicularizado do que quem igno- 
ra o fato. A mancha da infidelidade é indelé- 
vel; e, mais do que a falta, proclama-a o casti- 
go. E não me parece muito inteligente arrancar 
da sombra as nossas desgraças a fim de alar- 
deá-las tragicamente, tanto mais quanto são 
infortúnios tão-somente na medida em que os 
conhecemos. Boa mulher e bom casamento 
não se dizem dos que o são realmente e sim 
daqueles a cujo respeito calamos. É preciso 
que nos esforcemos por evitar que saibam de 
nossos males, por isso os romanos, ao voltar 
de suas viagens, enviavam à frente um mensa- 
geiro a fim de não surpreender suas mulheres. 
É também por isso que em certos povos os 
sacerdotes abrem caminho ao marido, o qual 
assim não precisa indagar se casou de fato 
com uma virgem ou com uma jovem já 


maculada. 

Mas, dirão, e os comentários? Conheço cem 
bons sujeitos que são enganados e de quem 
ninguém fala, cujos casos não provocam 
escândalo. Tem-se pena de um homem de bem 
a quem tal acontece, mas nem por isso é menos 
respeitado. Trata-se de fazermos com que; gra- 
ças a nossas virtudes, a desgraça passe desper- 
cebida e que as pessoas honestas nos olhem 
com simpatia e desprezem os que agem mal. E, 
finalmente, quem está isento de semelhante 


98 Juvenal. 


ENSAIOS — IH 


desventura? “Nem mesmo o general que 
comandou tantas legiões e que, em tudo, é 
superior a um pobre diabo como tuº?.”? 
Dizem-no de tanta gente honrada que bem 
podes imaginar 'que não serás poupado. As 
próprias mulheres se mostrarão indiferentes, e, 
por outro lado, de que mais zombam hoje 
senão de um casal que se entende bem e vive 
sossegado? Todos nós já chamamos alguém de 
- cornudo; não nos devemos pois espantar com 
o revide. Compensações e represálias estão na 
ordem natural das coisas. E a frequência do 
acidente por certo tempera-lhe o amargor. 
Acresce ainda que essa desgraça ê incomuni- 
cável. “O destino recusa-se a ouvir nossas 
lamentações*8.” Com efeito, em que amigo 
poderemos confiar sem que ria de nós ou sem 
que se valha da informação em benefício pró- 
prio? Os sábios guardam segredo, tanto a res- 
peito dos infortúnios matrimoniais como de 
seus prazeres. E, nesse caso, consideram inde- 
cente comunicar a outrem o que sabemos e 
sentimos, o que não deixa de aborrecer quem, 
como eu, é de natural expansivo. 

Seria tempo perdido argumentar de igual 
modo com as mulheres, a fim de evitar que se 
mostrem ciumentas, pois são tão desconfiadas, 
frívolas e curiosas que não podemos esperar 
curá-las pela razão. Não raro elas se corrigem, 
mas voltam à saúde em condições muito mais 
desastrosas do que as da própria doença, e 
ocorre então o que se verifica nas feitiçarias: O 
mal passa a outro. Quando a febre as abando- 
na, apossa-se em geral dos maridos. Todavia 
não sei de algo que nos atormente mais do que 
o seu ciúme; é o mais perigoso estado de espí- 
rito em que podem encontrar-se, como a cabe- 
ça é nelas a parte do corpo que menos vale. Pí- 
taco dizia que todos têm a sua enfermidade; a 
sua era a cabeça da mulher e, sem ela, conside- 
rar-se-ia inteiramente feliz. Se tão pesado 
inconveniente perturbou a vida de um homem 
como ele, de tanto valor e sabedoria, que será 
de nós, pobres mortais! Andou bem o Senado 
de Marselha ao deferir o requerimento em que 
certo indivíduo pedia permissão para matar-se, 
a fim de obviar a uma existência que a esposa 
tornava infernal, pois o mal é daqueles que só 
findam com o doente. Ambas as soluções 
possíveis, fuga e resignação, são igualmente 
difíceis. E bom psicólogo fci quem disse que, 
para um casamento. feliz, é necessário unir um 
homem surdo a uma mulher cega. 

Cuidemos igualmente de não lhes impor 
obrigações tão extensas e rigorosas que aca- 
bem por provocar resultados contrários aos 
almejados, tornando-se um estímulo para os 


97 Lucrécio. 
98 Catulo. 


401 


que as perseguem e um pretexto para que pe- 
quem mais facilmente. Quanto à primeira 
hipótese, aumentando o valor da mulher 
aumentamos também o desejo de quem a 
pensa conquistar. A própria Vênus, para valo- 
rizar sua mercadoria, terá inspirado o rigor 
das leis, sabendo que o mais vulgar dos amores 
se faz desejável através da idéia de sua dificul- 
dade. Em última instância, como dizia o hós- 
pede de Flamínio, tudo é carne de porco e só 
os molhos a diversificam. Cupido é um deus 
rebelde, sente prazer em lutar contra a devoção 
e a Justiça; alegra-se com opor seu poderio aos 
outros e quer que tudo se dobre ao seu capri- 
cho: “Sem cessar busca uma oportunidade 
para novos excessos*? º.” 

Quanto ao segundo ponto, seríamos nós tão 
enganados se o receássemos menos? Isso está 
no temperamento da mulher; mas a proibição 
a incita ainda mais a fazê-lo: “Quereis? Elas 
não querem. Não mais o desejais? Elas dese- 
jam'ºº “Repugna-lhes o que é permiti- 
do!º1.? Comprova-o o caso de Messalina, mu- 
lher de Cláudio. A princípio engana o marido 
às escondidas, como é normal, mas, perceben- 
do-lhe a estupidez, fá-lo em seguida aberta- 
mente e distribui seus favores de modo a que o 


saiba e sofra. Não se incomodando o estúpido 
imperador, e tornando-se insípidos os prazeres 


tão facilmente alcançados, os quais como que 
se legitimavam assim, vai além. Mulher de um 
imperador são e vivo, em Roma, palco do 
mundo, em pleno dia, durante uma cerimônia 
pública, casa com seu amante Sílio, um dia em 
que Cláudio se encontra ausente. Dir-se-ia que 
procurava tornar-se novamente casta diante da 
indiferença do marido, ou que tomava outro 
capaz de excitá-la com seus ciúmes. Mas aí 
surge seu primeiro e último percalço: Cláudio 
reage alvoroçado, e as cóleras subitamente 


despertadas são as mais violentas; inflaman- 
do-se de repente, apela para as mais cruéis vin- 


ganças. À carga acumulada estoura: soltam-se 
as rédeas da ira'º2”, O imperador manda 
executá-la, bém como muitos dos seus compar- 
sas, inclusive alguns que o haviam sido a 
contragosto, porquanto ela os forçara a pos- 
suírem-na mediante suplícios e açoites. 

O que Virgílio diz das relações matrimo- 
niais de Vênus com Vulcano, Lucrécio o disse- 


ra mais lindamente da união ilícita da deusa. 
com Marte: “Não raro o deus da guerra, o 


temível Marte, embriagado de amor, perde seu 
orgulho e se aniquila em teus braços... Avi- 
damente inclinado sobre teu seio, seus olhos 
contemplam enamorados o teu divino corpo. E 


9º Ovídio. 

100 Tácito. 
101 Lucano. 
102 Virgilio. 


402 MONTAIGNE 


entao o momento, ó deusa, de o abraçares e te 
queixares docemente! 03,” 

Pensando em certas palavras desses poetas, 
como “rejicit, pascit, pudet, inhians, molli, 
fovet, medullas, labefacts, pendet, percurrit” 
nessa nobre “circunfusa”, mãe da gentil 
“infusa”, sinto certo desprezo por essas locu- 
ções e alusões tão pouco expressivas que se 
usam agora. Os antigos não queriam um estilo 
mais ou menos sutil e incisivo e sim uma lin- 
guagem rica, plena, naturalmente vigorosa. 
Tudo o que dizem é epigrama, e não vem este 
apenas na cauda, mas também na cabeça, no 
estômago e nos pés!'º *; nada é artificial ou for- 
çado, tudo se desenvolve dentro de uma unida- 
de, “todo o discurso é másculo e sem floreios 
inúteis!º 5”. Não é uma eloguência efeminada 
em que nada choca; é nervosa, sólida, antes 
satisfaz e entusiasma do que agrada e encanta 
os espíritos mais fortes. Quando vejo essa 
maneira ousada, tão viva e profunda de se 
exprimir, não considero o que escrevem “bem 
escrito”, mas sim “bem pensado”. A força da 
imaginação realça e valoriza as palavras, “ 
coração brota a elogiência!º 8. Hoje chama- 
mos critério ao palavrório e conceitos às belas 
frases. O que pintavam os antigos não decorria 
da habilidade e sim da impressão sincera que 
sentiam. Galo fala com simplicidade porque 
assim o concebe; Horácio não se contenta com 
uma expressão superficial porque vê mais 
clara e profundamente. Por isso seu espírito 
esquadrinha o armazém das palavras para des- 
cobrir as que melhor lhe vistam o pensamento; 
é-lhe necessário mais do que aquilo que aí se 
encontra comumente, como sua concepção 
ultrapassa igualmente as concepções vulgares. 
Plutarco diz que aprendeu a lingua latina pelas 
coisas que lhe eram descritas; aqui também: o 
sentido ilumina e realça as palavras, fazendo- 
as não de vento mas de carne e ossos; signifi- 
cam mais do que dizem, e até os imbecis perce- 
bem um pouco do que se trata. Na Itália eu 
dizia o que queria nas conversações triviais, 
mas quando visaram mais alto não ousava 
confiar em uma língua que não dominava, pois 
nesses casos quero poder contribuir com algu- 
ma coisa pessoal. Os homens cultos enrique- 
cem a lingua pelo modo por que a empregam, 
e não propriamente inovando-a, mas revigo- 
rando-a e a tornando mais útil, variada, elásti- 
ca. Não introduzem palavras novas, mas dão 
maior riqueza às existentes, emprestam-lhes 
outros sentidos e objetivos, e outorgam-lhes 


103 Lucrécio. 

104 No texto “tudo é epigrama”, isto é, tudo é 
incisivo, penetrante, bem observado e mordaz. 
(N. do T.) 

105 Sêneca. 

198 Quintiliano. 


movimentos singulares, tudo com prudência e 
engenho. Que o dom é raro, bem o vemos pelos 
escritores franceses contemporâneos; são bas- 
tante audaciosos e altivos para não seguir 
caminhos batidos, mas faltam-lhes imaginação 
e modéstia. Só revelam afetação, amor à singu- 
laridade e aos adornos artificiais e absurdos 
que, em vez de dignificar o tema, o aviltam. 
Ávidos de novidade, pouco se lhes dá a eficá- 
cia; e, no afã de empregar uma palavra rara, 
abondonam a vulgar, frequentemente mais pre- 
cisa e expressiva. 

Nossa língua parece-me bastante rica, mas 
algo grosseira. Talvez o jargão de nossas guer- 
ras e caçadas devesse ser aproveitado nela, 
pois seria filão de bom rendimento, sem dúvi- 
da. A exemplo das plantas, as formas da lín- 
gua corrigem-se e se fortalecem com a trans- 
plantação. A nossa é assaz abundante mas 
pouco flexível e vigorosa. Não exprime em 
geral com felicidade as idéias fortes. Se as que- 
remos exprimir, sentimos que o instrumento 
falha e vacila e temos que apelar para o latim 
ou o grego. Em algumas das palavras que citei, 


"recebemos menos bem a força expressiva por- 


que o emprego demasiado frequente que delas 
se fez como que as vulgarizou e embotou. 
Como em nossa língua atual, há nesse trecho 
expressões excelentes e metáforas cuja beleza e 
colorido se embaçaram e atenuaram em virtu- 
de de sua antiguidade e do uso repetido, mas 
isso não as torna insossas aos paladares 
requintados nem diminui a glória desses auto- 
res antigos, que foram provavelmente os pri- 
meiros a dar a essas palavras um brilho 
específico. 

A ciência trata as coisas do mundo de um 
modo demasiado artificial, antinatural e pre- 
tensioso. Meu pajem ama e conhece a lingua- 
gem do amor, mas dai-lhe a ler Leão Hebreu e 
Ficin ! Falam dele, de seus pensamentos e suas 
ações e no entanto ele não os entende. Eu tam- 
pouco consigo reconhecer em Aristóteles a 
maioria das impressões que sinto habitual; 
mente; vestiram-nas com outras roupas de uso. 
na escola. Sem dúvida terão sua razão para 
assim agir; entretanto, se eu fosse do ofício, 
esforçar-me-ia por tornar natural a arte, como 
eles se esforçam por artificializar a natureza. 
Quanto a Bembo e Eqúicola, não os comenta- 
rei. | 

Quando escrevo, não recorro nem aos livros 
nem à lembrança que deles tenha, de medo que 
influam na minha maneira de escrever, sem 
contar que os bons autores me desesperam e 
desanimam. Sou como aquele pintor, que, 
tendo representado uns galos de um modo 
pouco feliz, proibia a seus ajudantes de traze- 
rem galos de verdade ao atelier, a fim de evi- 
tar qualquer comparação. Eu teria antes neces- 


ENSAIOS— III | 403 


sidade, para brilhar um pouco, de fazer como 
Antigênidas, esse músico que, quando devia 
tocar, se arranjava para que antes ou depois 
fossem ouvidos alguns maus cantores. É me 
mais difícil esquecer Plutarco. Esse autor é tão 
universal e completo que em todas as ocasiões, 
por extraordinário que seja o assunto, ele se 
intromete no trabalho alheio, oferecendo gene- 
roso auxílio, sugerindo as mais variadas e 
belas soluções. Por isso mesmo lamento vê-lo 
tão exposto ao saque dos que o conhecem. Eu 
mesmo, cada vez que o encontro, não posso 
deixar de surrupiar-lhe alguma coisa. 

Resolvi igualmente escrever esta obra em 
minha província selvagem, onde ninguém me 
pode ajudar ou corrigir, onde só frequento pes- 
soas que não entendem sequer o latim de seu 


padre-nosso e menos ainda o francês. Escrito - 


alhures, fora talvez melhor mas não tão meu, € 
seu objetivo principal, bem como seu mérito, 
está em ser a minha imagem exata. Corrijo por 
vezes alguns erros acidentais (estes não faltam, 
porque escrevo ao correr da pena), mas seria 
desleal tocar nas imperfeições inerentes à 
minha pessoa. Quando me dizem (ou eu 
mesmo me digo): “Estás abusando das ima- 
gens — eis um gascoismo — essa locução é 
escabrosa (não elimino nenhuma das que em 
França se ouvem nas ruas, pois os que preten- 
dem opor a gramática ao costume são ridícu- 
los) — esse trecho revela ignorância — esse 
outro é paradoxal — isso é por demais jocoso 
— estás a brincar constantemente e podem 
acreditar que falas a sério”, respondo: é verda- 
de, mas só corrijo os enganos, jamais os defei- 
tos de minha personalidade. Pois não é assim 
mesmo que falo habitualmente? Não me mos- 
tro tal qual sou? Está certo então. Cheguei ao 
que queria, pois todos me reconhecem em meu 
livro e a este em mim. 

Como os macacos, tenho forte tendência 
para a imitação. Quando eu fazia versos (só os 
fiz em latim), revelavam de modo evidente o 
último poeta lido. Assim estes ensaios. Os pri- 
meiros capítulos sabem a uma região diferente. 
Em Paris eu não me exprimo exatamente como 
em Montaigne. Se olho atentamente para 
alguém, algo dessa pessoa se imprime em mim; 
aposso-me do que analiso: uma atitude incon- 
veniente, uma careta desagradável, uma forma 
ridícula de linguagem, defeitos principalmente; 
e quanto mais esses sestros me impressionam, 
mais tempo os conservo. É preciso um esforço 
para que os abandone. Se blasfemo é por imi- 
tação e não por temperamento, e esse arre- 
medo se me afigura tão infeliz quanto aquele 
dos enormes e vigorosos símios que Alexandre 
encontrou nas Índias e não houvera dominado 
sem a mania imitativa que os caracteriza. 
Como isso os levava a fazer o que viam, deram 


os caçadores de calçar-se diante dos monos 
com muitos cordões bem apertados, enrolar o 
corpo com laços de nós corredios, untar os 
olhos com cola. Desse modo os pobre animais, 
imitando-os, amarravam-se e eram garrotea- 
dos. Quanto à capacidade de reproduzir 
engenhosamente os gestos e o sotaque alheios, 
não a tenho em absoluto. Quando blasfemo 
por distração e sem imitar ninguém, não vou 
além de “Por Deus !”, o que não é muito grave. 
Dizem que Sócrates exclamava: “pela vida de 
um cão !?” e que Zenão dizia: “Capperi!” como 
os italianos de agora, e Pitágoras: “pela água e 
pelo ar!” Sou tão receptivo às impressões 
superficiais, que se durante três, dias andei a 
dizer “Alteza” e “Majestade” uma semana 
mais tarde ainda me surpreendo a empregar 
esses termos em lugar de “Monsenhor” e 
“Excelência”. E o que digo por troça um dia, 
eu o repito a sério a seguir. Por isso, quando 
escrevo, procuro evitar os assuntos mais bati- 
dos, de medo de os tratar a expensas de 
outrem. Qualquer tema me serve, uma simples 
mosca pode ser o pretexto. E Deus queira que 
o que estou ventilando agora não provenha de 
fonte estranha. Pouco importa o começo, vou 
encadeando as idéias umas nas outras. Desa- 
grada-me contudo que as mais profundas refle- 
xões, as mais ousadas e as que mais aprecio, 
surjam ao acaso do devaneio, quando menos 
as espero e quando não as posso registrar. É 
em geral quando estou a cavalo, à mesa ou na 
cama que me ocorrem, principalmente a cava- 
lo. Quando falo, quero que silenciem em torno 
de mim e prestem atenção ao que digo; se me 
interrompem, calo-me. Em viagem o próprio 
caminho provoca interrupções na conversa- 
ção; por outro lado, as mais das vezes viajo em 
companhia de pessoas com as quais não posso 
ter uma conversa séria. Conseguintemente, 
falo com meus - botões. Em semelhantes cir- 
cunstâncias acontece-me como quando sonho, 
procuro fazer com que a memória retenha os 
pensamentos, mas no dia seguinte já não sei 
sequer se eram tristes, alegres ou estranhos. 
Em vão me esforço por conservá-los na lem- 
brança; quanto mais busco mais esqueço. E 
das idéias que me vêm à mente, apenas guardo 
uma vaga recordação, exatamente o suficiente 
para que me canse e atormente. 

Deixando os livros de lado e encarando as 
coisas com simplicidade, unicamente do ponto 
de vista material, acho que o amor não passa 
de uma vontade de possuir o fruto de nossos 
desejos, e que Vênus não é senão o prazer de 
aliviar certos órgãos, satisfação que outras 
partes do córpo também exigem. Sede e prazer 
que só se tornam vícios quando carecemos de 
moderação. Para Sócrates, o amor é a necessi- 
dade de procriar por intermédio da beleza. 


404 


Considerando atentamente os muvimentos ri- 
dículos, a agitação febril e as divagações a que 
se entregam, nesse ato de loucura, pessoas de 
todas as categorias, inclusive as mais sábias, 
como Zenão e Crátipo, analisando as emoções 
que suscita, de furor e crueldade, no próprio 
instante das mais doces sensações, e a prostra- 
ção, grave e severa que sucede a tais demons- 
trações; vendo que as delícias e secreções se 
localizam no mesmo órgão e que o êxtase 
supremo nos arranca lamentos como a dor, 
creio que Platão está com a razão quando afir- 
ma que o homem foi criado pelos deuses para 
servir-lnes de brinquedo. Cruel folguedo! E 
penso que foi por zombaria que a natureza nos 
outorgou essa faculdade, a mais desregrada e a 
mais comum; quis com isso colocar no mesmo 
nível os loucos e os sábios, homens e animais. 
Quando me represento o mais contemplativo 
dos homens, e o mais prudente, nesse estado, 
considero que me vanglorio sem razão de ser 
prudente e contemplativo. Os pés do pavão 
abatem-lhe o orgulho. 


“Que é que impede de dizer a verdade 
brincando'º79” Quem não admite que se 
possa exprimir um pensamento sério jovial- 
mente, faz como aquele que hesita em adorar a 
imagem de um santo se não estiver vestido dos 
pés à cabeça. Na realidade comemos e bebe- 
mos como os animais, o que não entrava as 
funções de nosso espírito e por isso, em rela- 
ção a tais atos, nós lhes somos superiores; mas 
no ato sexual qualquer pensamento diverso 
deixa de existir e sua tirania faz que toda a teo- 
logia e toda a filosofia de Platão não passem 
de toiices. Em todas as demais circunstâncias 
podemos conservar certa decência e sálva- 
guardar o pudor; nesse ato não nos é dado se- 
quer imaginar uma conduta que não seja vicio- 
sa e ridícula. Tentai encontrar um modo sábio 
e discreto de proceder: não o achareis. Álexan- 
dre dizia que pelo sexo e o sono é que consta- 
tava que pertencia ao gênero humano. O sono 
abafa e interrompe as faculdades do espírito; 
esse ato as absorve e dissipa. É sem dúvida um 
sinal de nossa vaidade e deformidade, como 
também um comprovante do pecado original. 

Por um lado a natureza nos impele à união 
sexual, ligando ao desejo a nossa mais nobre, 
útil e agradável função; por outro, induz-nos a 
desrespeitá-la, a tachá-la de desonesta, a nos 
envergonhar dela e a propugnar a abstinência. 
Seremos tão estúpidos assim para qualificar de 
brutal o ato ao qual devemos a vida? Os povos 
e religiões coincidem em certas coisas: oferen- 
das, sacrifícios, luminárias, incensos, jejuns, 
condenação do ato sexual. Neste ponto todos 
estão de acordo. sem falar do costume muito 


10? Horácio. 


MONTAIGNE 


espalhado da circuncisão, que é como que um 
castigo. E talvez tenhamos mesmo razão em 
condenar o ato que engendra coisa tão estú- 
pida quanto o homem, e em tachar de indecen- 
tes as partes que dele participam. Os essênios, 
de que fala Plínio, viveram vários séculos sem 
conhecer uma ama ou uma fralda, e os estran- 
geiros iam aumentar-lhes o número, atraídos 
pela regra estabelecida pelos autóctones, a 
qual determinava que não tivessem relações 
sexuais com as mulheres ainda que disso resul- 
tasse seu extermínio ou o fim do gênero huma- 
no. E dizem que Zenão só possuiu uma mulher 
na vida unicamente, e fê-le assim mesmo por 
cortesia, para não pensarem que odiasse o belo 
sexo. Todos evitam ver nascer o homem e cor- 
rem para vê-lo morrer. Para destruí-lo, procu- 
ram um campo espaçoso, em plena luz; para 
construí-lo, ocultam-se ao abrigo das sombras. 
É como que um dever esconder-se para fazê-lo 
e envergonhar-se de tê-lo feito; é uma glória, a 
que se agregam várias virtudes, desfazê-lo. 
Uma coisa ofende a moral; a outra constitui 
um mérito. Não diz Ariston que, segundo um 
ditado de sua terra, matar alguém é beneficiá- 
lo? Os atenienses, a fim de purificar a ilha de 
Delos e conciliar a benevolência de Apolo, 
proibiram os partos e as inumações, assim 
aparelhando um ato a outro: “Consideramos 
que: existimos em. conseguência' de um erro 
cometido! 08. 


Certos povos cobrem a parte inferior do 
rosto para comer. Conheço uma senhora, e das 
mais distintas, que compartilha essas idéias: 
considera que a mastigação diminui considera- 
velmente a graça e a beleza da mulher e quan- 
do janta em público come o menos possível. 
Conheço igualmente um homem que não 
suporta o espetáculo de alguém comendo, nem 
sofre que o vejam comer, e evita mais a pre- 
sença de outrem quando se enche do que quan- 
do se esvazia. No império turco há muitos ho- 
mens que, a fim de conseguir maiores méritos, 
não se mostram quando comem, o que só 
fazem uma vez por semana; golpeiam o pró- 
prio rosto, ferem os membros e não falam com 
ninguém. São fanáticos que pensam honrar a 
natureza alterando-a; jactam-se de se despre- 
zar e imaginam tornar-se melhores em se 
fazendo piores! Que animal monstruoso é o 
homem! Inspira horror a si mesmo, pesam- 
lhe os prazeres e busca sem cessar o mal! Mui- 
tos procuram sua existência “desertando em 
voluntário exílio o seu doce lar!º9?”. Ocultam- 
na aos olhos alheios e evitam a saúde e a ale- 
gria como prejudiciais. Seitas, e até povos 
inteiros, amaldiçoam a vida e bendizem a 


108 Terêncio, 
108 Virgílio. 


ENSAIOS — HI 


morte; alguns há que abominam o sol e ado- 
ram as trevas. Sô nos mostramos engenhosos 
em nos atormentar. À isso aplicamos as forças 
todas de nosso espírito, o qual é um perigoso 
instrumento de desregramento: “infelizes os 
que consideram a alegria um crime"? º” Pobre 
homem, já bem grandes são as dificuldades 
que te cumpre vencer, porque te dás tanto tra- 
balho em inventar outras? Não é necessário 
que forjes tristezas e aborrecimentos imaginá- 
rics! Achas que estás tão bem assim, que pos- 
sas desperdiçar a metade? Pensas realmente 
que já tenhas cumprido todos os deveres que te 
impôs a natureza e que seja preciso criar 
outros? Não temes infringir as leis naturais, 
que são universais e justas, e te vangiorias de 
cbservar as tuas próprias, fantasistas, ditadas 
por preconceitos e te esforçando tanto mais 
por obedecer-lhes quanto mais estranhas e 
controvertidas? O que diz respeito à tua pró- 
pria paróquia, tudo te preocupa e apaixona; 
mas esqueces o que se refere ao mundo. Guia- 
te um pouco pelo que digo; assim é a vida. 


Os versos desses dois poetas, que tratam 
com distinção e discrição da lascívia, pare- 
cem-me esclarecê-la e realçá-la. As senhoras 
não cobrem os seios com gazes? Não ocultam 
os padres certos objetos sagrados aos olhares 
curiosos? Não dão os pintores relevo a seus 
quadros com as sombras que aplicam? E não 
se diz que o sol e o vento são mais fortes por 
reflexão do que diretamente? Sábia resposta 
deu um egípcio a alguém que lhe perguntou o 
que ele transportava escondido sob o manto: 
“se o escondo é para que não saibas”. Mas há 
coisas que só se ocultam para que melhor se 
admirem. Pois quando Ovídio escreve: “Toda 
nua, apertei-a contra O seio”, sinto-me castra- 
do. E Marcial, por mais que exiba as seduções 
de Vênus, não a consegue apresentar na pleni- 
tude de seus encantos. Quem tudo diz, empan- 
turra-nos e nos repugna. Quem, ao contrário, 
se empenha em ser discreto, sugere-nos mais 
do que comporta a realidade. Hã algo trai- 
çoeiro em tal modéstia. É o que fazem Virgílio 
e Lucrécio, indicando apenas um belo caminho 
para a nossa imaginação. A ação e a descrição 
valorizam-se com a maneira de falar. 


Agrada-me o amor dos espanhóis e italia- 
nos, mais respeitoso e timido, mais requintado 
e discreto. Não sei mais quem dizia, na anti- 
guidade, que desejara ter um pescoço de grou, 
bem comprido, para mais demoradamente 
apreciar o que engolia. Um tal.desejo se justifi- 
caria melhor quanto ao prazer amoroso, dema- 
s.ado rápido e repentino mesmo para os que, 
como eu, gostam de satisfações imediatas. 
Para ampliar as sensações, cumpre prolongar 


109 Pseudo Galo. 


405 


os preâmbulos. Entre espanhóis e italianos 
qualquer sinal da mulher é uma recompensa 
para o: pretendente: um olhar, um abano de 
cabeça, uma palavra, um gesto. Não viveria 
feliz quem pudesse jantar com o perfume de 
um assado? O amor é uma paixão em que a 
uma pequenina dose de seriedade se misturam 
muita vaidade e fantasia; cumpre atentar para 
isso. Ensinemos às nossas mulheres a se valo- 
rizarem, a nos divertirem e mesmo se diverti- 
rem à nossa custa; com essa impetuosidade 
que nos caracteriza, queremos, nós franceses, 
tudo conquistar de assalto. Com menos sofre- 
guidão, conquistando-as pouco a pouco, todos, 
inclusive a miserável velhice, encontrariamos o 
que colher segundo as nossas forças e os nos- 
sos méritos. Quem só aprecia o gozo, quem só 
quer tirar a sorte grande, quem só ama a caça 
pelo que caça, rão é de minha escola; quanto 
maior número de degraus mais alto se eleva 
quem os galga, e mais honrado é. Deveríamos 
comprazer-nos eri ser guiados quando pleitea- 
mos os favores da mulher, como quando pene- 
tramos nesses palácios suntuosos cujo acesso é 
dificultado por inúmeras galerias e compli- 
cados corredores. Isso só nos traria vantagens, 
pois faríamos paradas em caminho e nosso 
amor duraria mais. Ão passo que, quando o 
desejo e a esperança se extinguem, nada mais 
pode interessar-nos. A mulher tudo tem a 
temer de nós quando nos tornamos seus senho- 
res; desde que se entregue à nossa fé e constân- 
cia, virtudes raras e dificeis, entrega-se ao 
acaso. A. partir do momento em que se faz 
nossa, não mais lhe pertencemos. “Uma vez 
satisfeito o capricho, não mais ligamos para as 
nossas promessas e juras! 11,” 

Um jovem grego, Trassonides, era tão ciu- 
mento que, embora dono do coração da aman- 
te, recusou possuí-la a fim de não se saciar, de 
não ver apagada pelo gozo a chama com que 
se deleitava. Um preço elevado requinta a qua- 


lidade das coisas: vede como em nossa terra a 


forma muito particular de nossas saudações se 
deprecia em virtude da facilidade com que as 
distribuímos. O beijo, cuja força, segundo Só- 
crates, é grande e perigosa para os corações, 
perde seu valor. É um costume desagradável e 
ofensivo para as senhoras apresentar os lábios 
a qualquer pessoa, só porque arrastá consigo 
três ou quatro lacaios, embora “tenha um foci- 
nho de cão do qual escorre uma baba lívida 
pelas barbas. Preferiria antes beijar-lhe o 
traseiro!!2 1?” Nem nós mesmos ganhamos 
com isso, pois de acordo com à realidade do 
mundo, não há mais do que três mulheres 
belas em cada cinquenta feias que temos de 


711 Catulo. 
2 Marcial. 


406 


beijar. E para o estômago sensível de um indi 
víduo de minha idade, um mau beijo não se 
compensa com um bom. 

Na Itália a deferência e a gentileza não se 
excluem, nem mesmo nas relações com as 
mulheres de vida airada, que se pagam. E 
assim se explicam tais atenções: há graus 
diversos no prazer e os cuidados visam fazer 
com que essas mulheres se entreguem mais 
completamente, pois, quando se vendem, ven- 
dem apenas o corpo; sua vontade fica de fora. 
E esta que se procura conquistar, e com razão, 
mas isso só se consegue mediante gentileza. 

A idéia de possuir um corpo sem afeição 
horroriza-me. Parece-me um ato absurdo de 
superexcitação, como o daquele rapaz que se 
masturbava por amor à estátua de Vênus 
esculpida por Praxiteles. Ou o daquele egípcio 
louco conspurcando o cadáver de uma morta 
que lhe cumpria embalsamar, o que deu ori- 
gem a uma lei determinando que os corpos das 
mulheres jovens e belas ou de boa família só 
fossem entregues ao artesão três dias depois do 
falecimento. 

Periandro fez coisa mais espantosa ainda: 
continuou a coabitar com sua esposa Melissa, 
mesmo depois de morta, e a gozar-lhe o corpo. 
E não obedeceu a Lua a uma idéia realmente 
lunática quando manteve Endimião 'adorme- 
cido durante três dias,.a fim de possui-lo e dele 
arrancar um prazer que ele só podia dar em 
sonho? Pois digo, da mesma forma, que ama- 
mos um corpo sem alma quando o amamos 
sem que nos deseje e o queira. Nem todos os 


prazeres são iguais; há-os também doentios er 


frágeis. Mil motivos, fora da vontade, podem 
levar uma mulher a entregar-se; a coisa não é, 
em si, uma prova de afeição. Como em tudo, 
nisso pode haver uma segunda intenção. E por 
vézes ela se contenta com deixar fazer: “tão 
impassível como se preparasse o vinho e o 
incenso do culto (...), dir-se-ia que está 
ausente ou é de mármore!'*2?. Conheço algu- 
mas que preferem emprestar sua pessoa do que 
sua carruagem; e é, não raro, tudo o que são 
capazes de emprestar. Cabe ainda verificar por 
que lhes agrada a nossa companhia, se alguma 
razão especial as inspira, ou se nos querem 
como quereriam um vigoroso lacaio. E há tam- 
bém que considerar o preço que devemos 
pagar pelo favor, “se se dá à nós unicamente e 
se assinala esse dia com uma pedra bran- 
ca!13º?: ou se condimenta o nosso pão com 
tempero de sua imaginação: “A nós é que 
aperta nos braços, mas por outro é que suspi- 
ral? * Já não se viu alguém valer-se desse ato 


112 Id. 
113 Tíbulo. 
114 Td. 


MONTAIGNE 


para a execução de terrível vingança, envene- 
nando uma mulher honesta a fim de que de sua 
posse decorresse a morte do inimigo? Pois isso 
aconteceu. 


Os que conhecem a Itália não estranharão 
que a esse respeito eu me atenha a seus exem- 
plos. Nesse país as mulheres belas são mais 
comuns, e há menos feias do que no nosso, 
mas creio que não lhe ficamos atrás no que 
concerne às belezas excepcionais. O mesmo 
ocorre com as pessoas de espírito: abundam na 
Itália e menor é aí o número de tolos; mas em 
matéria de almas de elite nada lhe ficamos a 
dever. Se quisesse estender o paralelo a outras 
coisas, diria que quanto à valentia a situação 
se inverte. Em relação à deles, essa virtude é 
como que natural em nós e se encontra em 
todas as classes da sociedade, mas neles é ela 
por vezes tão elevada que 'sobreexcede em 
abnegação e vigor o que temos de mais 
perfeito. 


O casamento nesse país está subordinado a 
tão severos: costumes e a mulher é tão escrava, 
que a menor relação com um estranho se asse- 
melha aos atos mais graves; daí resulta que 
elas não se detenham nunca êm caminho. A 
escolha é inevitável, desde que tudo acarreta 
idênticas consequências. O primeiro passo 
basta para levar ao fim. “A luxúria é um ani- 
fnal feroz que encadeado se irrita e se mostra 
mais furioso ainda ao libertar-se! 15.” É preci- 
so afrouxar-lhe um pouco as rédeas: “Vi outro- 
ra um cavalo rebelde ao freio, e, tomando-o 
nos dentes, lançar-se como um raio!!8.” Com 
um pouco de liberdade; torna-se menos exaspe- 
rado o desejo de companhia. Assim, correm os 
italianos, com sua severidade, um risco igual 
ao que corremos com nossa licença. E um cos- 
tume feliz em nossa terra, esse de as grandes 
casas receberem nossos filhos para os educar 
como pajens numa verdadeira escola de nobre- 
za; recusar a oferta de um fidalgo nesse senti- 
do, chega a ser um ato descortês. Observei 
igualmente (cada casa tem seu uso) que as 
senhoras que pretenderam impor certa austeri- 
dade às damas de seu séquito, não auferiram 
bons resultados do esforço; é necessário, nisso, 
muita moderação, e confiar na discrição de 
cada uma, pois nenhuma regra disciplinar 
pode amarrá-las inteiramente. E evidente que 
deve inspirar maior confiança quem passa 
incólume pela prova da liberdade do que quem 
anda direito porque sai de uma escola em que 
é prisioneira e severamente vigiada. 

Nossos pais educavam as filhas no temor 
da vergonha (não tinham menos desejo nem 


115 Tito Lívio. 
116 Ovídio. 


ENSAIOS — II 


menos coragem, coisas que são invariáveis 
nelas); nós lhes ensinamos a ter segurança. É 
um erro. Nossos métodos conviriam às sárma- 
tas que só podiam dormir com um homem de- 
pois de matar outro com as próprias mãos. Eu 
que não mais as ambiciono e que só lhes posso 
dar atenções, limito-me a aconselhá-las, quan- 
do o solicitam. Prego-lhes pois a abstinência, 
como aos homens; e se o século é por demais 
inimigo da castidade, que, ao menos, ajam 
com discrição e modéstia. Porque, como dizia 
Aristipo a um dos jovens que se envergonhava 
de tê-lo visto entrar numa casa de prostituição: 
“o mal não está em entrar, € sim em não sair”. 
Que quem não se esforça por salvar a cons- 
ciência, salve ao menos a reputação; se o 
fundo pouco vale, preserve-se a aparência. 
Acho louvável que na distribuição de seus 
favores observem certa gradação e não se 
apressem. Platão quer que em qualquer gênero 
de amor a facilidade e a rapidez sejam proibi- 
das aos interessados. Ceder impudente e preci- 
pitadamente em tudo a um tempo, é sinal de 
uma gulodice de sua parte que devem assinalar 
com cuidado; ao contrário, cedendo com cons- 
ciência e medida, perturbam nossos desejos e 
escondem os seus. Que fujam sempre, mesmo 
as que desejam ser alcançadas; como os citas, 
assegurarão melhor a vitória com a fuga. De 
acordo com o que impõe a natureza, não lhes 
cabe propriamente querer e desejar; seu papel 
é aceitar, obedecer, submeter-se. Por isso é que 
a natureza lhes deu a possibilidade de entrar 
em relações conosco a qualquer momento, e a 
nós só nos outorgou a faculdade de fazê-lo 
raramente. Estão sempre prontas para isso, a 
fim de o estarem quando chega a hora. 
“Nasceram para ser passivas”, diz Sêneca, e 
enquanto nossos apetites se manifestam de 
maneira saliente, os delas permanecem ocul- 
tos. Seus órgãos não permitem que seus dese- 
Jos se revelem, mas sim que acatem. As ama- 
zonas cumpre atribuir fatos como esse que 
ocorreu com a rainha de Hircânia. Deixando 
nas montanhas o resto de um exército conside- 
rável, veio ela com mais trezentas guerreiras, 
bem montadas e armadas, ao encontro do 
conquistador. E, dirigindo-se a ele, disse-lhe 
diante de todos os presentes que o eco de sua 
vitória e de seu valor fizera com que ela viesse, 
a fim de pôr à sua disposição, na consecução 
de seus projetos, os recursos e poderes pró- 
prios; disse-lhe ainda que o achava tão belo, 
jovem e vigoroso, que, ela mesma bela e vigo- 
rosa, desejava que dormissem juntos. Assim se 
uniriam o homem e a mulher mais admiráveis 
do mundo e deles nasceria algum rebento 
igualmente admirável. Alexandre agradeceu- 
lhe e, a fim de ter tempo para aceder aos dese- 


407 


Jos expressos, sustou a marcha de suas torças 
durante treze dias, os quais passou a festejar 
alegremente com a corajosa princesa. 
Julgamos em geral muito mal as suas ações, 
como elas também julgam as nossas. Reconhe- 
ço-o, confessando a verdade, seja-me ou não 
favorável. Uma feia inconstância leva-as a 
mudarem tão amiudadamente e a nunca fixa- 
rem sua afeição em coisa alguma; assim a 
Deusa a quem atribuem tantos amantes. É ver- 
dade que se o amor não é violento, não é amor 
e que a violência e a constância não andam 
juntas. Que os que estranham tal inconstância 
e procuram a causa dessa doença a que elas 
são sujeitas, tachando-as de desnaturadas, 
atentem para si próprios e vejam quantos so- 
frem da mesma enfermidade sem que, no 
entanto, a coisa os horrorize ou os leve a falar 
em milagre. Muito mais espantoso fora se elas 
tivessem constância, pois essa paixão do amor 
não é apenas física. E se não há limites para a 
avareza e a ambição, tampouco os há para a 
luxúria. Esta sobrevive à satisfação e não se 
pode determinar que tenha um mesmo objeto 
sempre e um fim previsível. Prossegue sem ces- 
sar em sua marcha, estendendo seu domínio. 
Será possivelmente a inconstância mais per- 
doável nelas do que em nós; como nós, elas 
podem invocar a tendência para a novidade e a 
mudança, mas podem alegar, a mais (o que 
não podemos fazer), que compram nabos em 
sacos, isto é, sem terem sido suficientemente 
instruídas. Joana, rainha de Nápoles, mandou 
estrangular. Andreosso, seu primeiro marido, 
com um cordel de ouro e prata por ela mesma 
tecido, porque não o achara provido de vigor 
bastante para os deveres conjugais, o que a 
desiludira, dada a estatura, a beleza, a juven- 
tude que ele aparentava e a haviam seduzido. 
Ademais, exigindo o papel ativo maiores esfor- 
ços do que o passivo, a mulher está sempre em 
estado de desempenhar o seu, ao passo que 
pode ocorrer-nos o contrário. Por isso mesmo, 
estabelece Platão em suas leis que antes do 
casamento, e a fim de decidir de sua oportuni- 
dade, examinem os juízes os rapazes e as rapa- 
rigas, aqueles da cabeça aos pés e estas até a 
cintura somente. Pode acontecer que, após a 
experiência, não nos ache a mulher dignos de 
sua escolha, “que após haver empregado em 
vão toda a sua habilidade, ela abandone o leito 
conjugal!!7”. Não basta a vontade para for- 
mar um direito; a fraqueza e a incapacidade 
são causas legítimas de anulação de casamen- 
to. “Cumpre éntão buscar alhures um esposo 
mais apto a desfazer a cintura virginal'18,” 
Por que não? Por que não arranjaria outro 


17 Marcial. 
118 Catulo. 


408 MONTAIGNE 


com uma compreensão mais eficiente do amor, 
visto que o escolhido “não pode levar a cabo 
tão, doce tarefa! 19? 


Não vos parece impudente apresentar-se 
alguém com suas imperfeições e fraquezas a 
quem deseja agradar, dar boa impressão de si e 
ser apreciado? Pelo pouco de que sou hoje 
capaz não importunaria alguém de quem gos- 
tasse e.que não quisesse ofender: “Já não tenho 
forças! 2º. “Não há que temer de quem com- 
pletou onze lustros!21.”' Não basta a natureza 
ter tornado essa idade tão miserável, queremos 
aindá que. se revele ridícula! Por isso odeio 
verificar que, por causa de uns pobres restos de 
vigor ainda capazes de nos entusiasmar de 
quando em quando, nós nos agitamos coma se 
estivéssemos à altura de atender brilhante e 
plenamente aos mais legítimos desejos. Trata- 
se em verdade de um fogo de palha e espanta- 
me ver como nos excita e aquece quando, no 
fundo, nos achamos tão totalmente apagados e 
gelados. A gente só deve encontrar-se em tal 
estado na flor da idade. Desconfiai, portanto, 
pois vereis que, em vez de secundar vosso 
generoso entusiasmo, o quai não se extingue e 
sempre se imagina capaz de tudo alcançar, vos 
largará no caminho. 


Que o tente em vosso lugar algum jovem 
ignorante, ainda na ídade das correções e da 
timidez: “como um marfim da Índia tingido de 
vermelho, ou como lírios que em meio às rosas 
lhes refletem as cores vivas!'?2”. Quem pode, 
sem morrer de vergonha, pensar no desprezo 


com que o contemplarão no dia seguinte os 
belos olhos testemunhas de sua covardia e 
impertinência, “que lhe censurarão com seu 
silêncio mesmo!23?, nunca sentiu a satisfação 
de vê-los pisados e apagados pela fadiga de 
uma noite ativamente vivida. Nunca atribuí à 
mulher e à sua indiferença o fato de se ter 
algum dia aborrecido com minhas carícias; a 
princípio pensei que devesse acusar a natureza, 
pois deve ter-me tratado com parcialidade e de 
maneira pouco amável: “Foi comigo avaren- 
ta: “E por certo tinham razão as mulheres de 
desprezar tão magras aparências!2 *.” Lamen- 
tável imperfeição, pois cada uma de minhas 
peças é igualmente minha e nenhuma mais do 
que essa me torna mais essencialmente 
homem. 

Devo ao público um retrato realista de mim. 


118 Virgílio. 

'20 Horacio. 

121 Td. 

122 Virgílio. 

123 Ovídio. 

12º Priápicas — citações colhidas em dois trechos 
diversos. 


Estes ensaios são edificantes porque a verdade, 
a realidade £g a liberdade neles reinam. Recu- 
so-me a trocar um dever real por essas regras 
mesquinhas, hipócritas, fictícias e de uso res- 
trito. Atenho-me as leis gerais e constantes que 
a natureza nos dita e de que são filhas, mas fi- 
lhas bastardas, a civilidade e as convenções 
sociais. Que importam os vícios que parece- 
mos ter, ao lado dos que realmente temos? 
Quando houvermos acabado com estes, ataca- 
remos os outros se acharmos necessário. Pois 
corremos perigo em imaginar novos deveres a 
fim de desculpar-nos por não termos cumprido 
os verdadeiros, estabelecendo a confusão. 
Assim acontece, como em certos países, serem 
OS Crimes erros e os erros crimes; e em outras 
nações, em que as regras da boa educação são 
poucas e sem consegiiência, o bom-senso faz 
que se observem mais estritamente as leis natu- 
rais. A multidão inumerável dos deveres exige 
tal atenção, que chegamos a negligenciá-los e 
olvidá-los. Um excesso de aplicação às coisas 
de nonada desvia-nos das importantes. Fácil é 
o caminho desses homens que vêem as coisas 
superficialmente! Todas essas convenções não 
passam de pára-ventos atrás dos quais nos 
confiamos e regulamos nossas relações so- 
ciais; mas não nos permitem libertar-nos, antes 
aurtentam nossos deveres para com o grande 
Juiz que, afastando trapos e ouropéis, nos exa- 
mina em nossa nudez total, pois não lhe esca- 
pam nem mesmo as nossas vergonhas e os nos- 
sos vícios mais secretos. Se ao menos .nossa 
pretensa decência pudesse obviar tal desco- 
dberta! Por isso, quem despojasse o homem de 
tão escrupulosa superstição verbal não causa- 
ria grande prejuízo ao mundo. Nossa vida é 
em parte loucura e em parte prudência. Quem 
só se refere ao que se considera decente e 
respeitável, deixa metade de lado. Não o digo 
para desculpar-me; se devesse desculpar-me de 
alguma coisa, seria de minhas desculpas e não 
dos meus erros; são explicações que dou aos 
de opinião contrária à minha e que constituem 
a maioria. E como desejo contentar todo 
mundo, o que é na realidade impossível, direi 
que “não há homem capaz de se conformar 
com tão grande variedade de costumes, juízos 
e desejos'25?. Acrescentarei que não devem 
censurar-me por apelar para autores respei- 
tados há séculos, nem devem negar-me o direi- 
to a certas liberdades que se admitem mesmo 
em eclesiásticos e dos mais notáveis de nossos 
tempos. Eis a prova, em dois deles: “Que eu 
morra se não é verdade que sejas fonie de volú- 
pia!26.” “Um amigo a contenta e é sempre 
bem recebido!27.” 


125 Cícero. 
126 “Teodoro de Bêze. 
127 Saint Gelais. 


ENSAIOS — HI 


Apraz-me a decência e não é de caso pensa- 
do que, escrevendo, emprego expressões escan- 
dalosas; escolhe-as a natureza. Não aprovo 
essa maneira de fazer, como nada aprovo con- 
tra os usos estabelecidos; desculpo-a porém e 


considero que dadas circunstâncias, tanto ge- 
rais como particulares, lhe atenuam a gravida- 
de. Continuemos. Qual a causa dessa usurpa- 
ção de autoridade soberana sobre as mulheres 
que correm o risco de conceder “seus favores 


furtivos nas sombras da noite'28”72 Por que 
nos acreditamos desde logo no direito de nos 
imiscuir em sua vida como um marido? Na 
realidade, trata-se de um acordo estabelecido 
entre a mulher e o homem e que não lhes tolhe 
a liberdade; e as convenções voluntárias não 
admitem imposições. Embora minha tese con- 
trarie a tendência habitual, em meu tempo 
observei (dentro das limitações naturais) a 
orientação que defendo e agi com alguma justi- 


ça e conscienciosamente nas questões dessa 
ordem. Só disse de minha afeição às mulheres, 
na medida em que realmente a senti, e com 
inteira franqueza mostrei o nascimento, o apo- 
geu e a decadência da inclinação, bem como 


meus entusiasmos e desinteresses, pois nem 
sempre estamos bem dispostos. A tal ponto 
evitei desmandar-me em promessas, que sem 
dúvida cumpri muito mais do que prometi e 
mesmo do que devia. Fui-lhes fiel mesmo em 


suas infidelidades confessadas e aliás numero- 
sas. Nunca rompi com elas enquanto lhes dedi- 
quei alguma ternura, por insignificante que 
fosse. E jamais me separei delas com rancor ou 
desprezo, embora pudesse ter razões para 


tanto, pois sempre considerei que tais intimida- 
des, ainda que alcançadas à custa de combina- 
ções vergonhosas, merecem alguma gratidão 
de nossa parte. Aconteceu-me por vezes 
encolerizar-me e impacientar-me com suas 
malícias, seus subterfúgios, e tambem nas 
discussões que se verificavam, porque por 
temperamento sou levado a manifestar-me 
com violência e a perder a calma. Quando por- 
ventura tentaram influir no meu julgamento, 
não hesitei em dirigir-lhes admoestações pater- 
nais e mordazes, não poupando seu ponto 
fraco. Se lhes dei motivo de queixa foi talvez 
por as ter amado de uma maneira incomum, 
possivelmente tola porque demasiado cons- 


cienciosa para o nosso tempo. Cumpri minha 
palavra em coisas em que talvez o dispensas- 
sem; algumas se renderam, quando sua reputa- 
ção ainda estava intata, em condições que sem 
maiores dificuldades teriam admitido que o 
vencedor olvidasse. Mais de uma vez, em prol 
de sua honra, ocorreu-me renunciar ao prazer 


128 Catulo. 


409 


no momento em que fora maior. E, sempre que 
o julguei certo, armei-as até contra mim 
mesmo de modo que, seguindo-me, se acharam 
assim mais protegidas do que se houvessem 
obedecido a suas inspirações próprias. Quanto 
possivel assumi sozinho os riscos de nossos 
encontros, e arranjei as coisas indicadas para 
afastar quaisquer suspeitas. O que menos se 
teme é o que menos se vigia, e é mais indicado 
portanto tentar o que, pela sua dificuldade, 
ninguém espera seja tentado. Ninguém mais do 
que eu evitou a concepção'2º. Tal correção 
parece ridícula em nossa época e é pouco 
observada, bem o sei. Não me arrependo entre- 
tanto de ter agido assim, embora só perdesse 


com isso. “Hoje, o quadro votivo suspenso aos 
muros do templo de Netuno, a todos revela 
que sacrifiquei a esse deus minhas roupas 
ainda molhadas no naufrágio'2º,” Em outras 
palavras, após inúmeros contratempos liber- 
tei-me dessa paixão perigosa e posso falar 
abertamente. A qualquer outra pessoa que 
assim se exprimisse talvez eu respondesse: 
estás sonhando, amigo; o amor em teus bons 
tempos não obedecia a tamanha lealdade é 
boa-fé; “se queres submetê-lo a regras, tens 
sem dúvida a pretensão de unir a loucura à 
razão!31?. Nem por isso; se devesse recome- 
çar, deixaria de conduzir-me como me condu- 
zi, seguindo a mesma marcha, embora o resul- 
tado não tenha sido muito recompensador. A 
ineficiência e a tolice são louváveis quando se 
pratica uma ação pouco recomendável. Nisso, 
muito me afasto da opinião comum. Demais, 
nessas questões não me entregava completa- 
mente. Buscava O prazer, mas nao me esque- 
cia; conservava intato, no interesse da compa- 
nheira momentânea como no meu próprio, o 
pouco de razão € discernimento que a natureza 
me outorgou. Comovia-me, mas não me perdia 
em sonhos. Minha consciência podia adaptar- 
se à devassidão e ao desregramento, nunca à 
ingratidão, à traição, à maldade, à crueldade. 
Não pagava qualquer preço peio prazer que O 
vício vende, contentava-me simplesmente com 
suportar as consequências necessárias, pois, 
como diz Sêneca, “todos os vícios acarretam 
conseguências”. Detesto igualmente uma ocio- 
sidade entorpecente, sonolenta e uma atividade 
árdua e penosa; agita-me esta, embrutece-me 
aquela. Tanto me desagradam os ferimentos 


como as machucaduras, € tanto os golpes que 
129 O sentido desta frase: “nunca homem nenhum 
teve relações mais impertinentemente genitais”, é 
esclarecido por uma rasura do manuscrito original, 
mencionada por Thibaudet, na edição de La Pléia- 
de. (N. do T.) 
130 Horácio. 
131 Terêncio. 


410 


penetram como os que não ferem. Assim con- 
segui, néssas questões, um justo equilíbrio 
entre os extremos. O amor é uma agitação viva 
e alegre; não me perturbava nem afligia; ani- 
mava-me tão-somenté e eu sabia poupar mi- 
nhas forças. Cumpre fazê-lo, pois é nocivo aos 
loucos. Um jovem perguntava ao filósofo 
Panécio se O sábio deve amar. Respondeu-lhe 
Panécio: “Deixemios o sábio de lado, não 
somos sábios, nem eu nem tu, e não nos 
comprometamos em coisa que tão violenta- 
mente comove"à ponto de nos tornar escravos 
de outrem e desprezíveis a nossos próprios 
olhos.” Tinha razão e não devemos em verda- 
de comprometer à alma' em questão de tão gra- 
ves consequências, a menos'de estar à-altura 
de desmentir a afirmação de Agesilau: “O 
amor e a sabedoria não andará juntos”. É por 
certo o amor uma ocupação frivola, chocante, 
vergonhosa, ilegítima; mas, conduzida como o 
recomendo, passa a ser útil à saúde, capaz de 
desentorpecer o espírito e o corpo. E, se fosse 
médico, aconselharia-o, como terapêutica, a 
um homem de meu temperamento e condição, 
-a fim de despertar-lhe as forças e o manter em 
forma, retardando os efeitos dos anos. En- 
quanto não nos aproximamos demasiado da 
velhice, enquanto nosso pulso bate ainda, 
“enquanto surgem apenas os primeiros cabelos 
brancos e os primeiros sinais da idade, 
enquanto a Parca ainda tem com que tecer, 
enquanto nos resta a possibilidade de mover os 
membros e um bastão não nos é ainda 
indispensável'32?, temos necessidade de ser 
solicitados por essa sensação que nos agita e 
estimula. Vede como o amor rejuvenesceu, 
revigorou e alegrou o sábio Anacreonte! E 
dizia Sócrates, em idade mais avançada do que 
a minha, de uma pessoa pela qual concebia 
esse sentimento: “Com os ombros apoiados 
um no outro, como se olhássemos juntos um 
livro, senti repentinamente uma picada, como 
de um inseto, e essa impressão de formiga- 
mento persistiu durante cinco dias comunican- 
do-se ao meu coração.” Assim um contato for- 
tuito bastava para aquecer e perturbar uma 
alma já amortecida pela idade e que mais se 
aproximava da perfeição ! E por que não? Só- 
crates era homem e não desejava ser nem pare- 
cer outra coisa. 


A filosofia não se opõe aos prazeres natu- 
rais, conquanto não se abuse deles. Reco- 
menda a moderação e não a fuga. E seus esfor- 
ços visam desviar-nos dos que não são 
naturais ou que, embora vindos da natureza, se 
deturparam. Diz que o espírito não deve inter- 
vir com o fim de aumentar nossas necessidades 


132 Juvenal. 


MONTAIGNE 


fisicas, adverte-nos com razão da inconve- 
niência de excitar nossa fome: com EXCESSOS, 
aconselha-nos a não nos empanturrarmos em 
lugar dé hos alimentarmos, bem como a evitar- 
mos tudo q que desperte nossos apetites. No 
que concerne ao amor, convida-nos a somente 
satisfazermos as solicitações da carne, sem que 
a alma. se perturbe, «porque a coisa não lhe diz 
respeito ê lhe cumpre apenas assistir o corpo. 
Creio portanto estar certo quando observo que 
esses preceitos (que considero entretanto algo 
excessivos) visam a um corpo em estado de 
desempenhar seu papel. Quanto a um corpo 
debilitado, parece-me inútil tentar aquecê-lo e 
animá-lo mediante processos artificiais, ou 
recorrendo à imaginação a fim de lhe devolver 
o apetite e a alegria que Já não possui. 

Podemos dizer que enquanto permanecemos 
nesta: prisão terrestre nada nos afeta exclusiva- 
mente a alma ou o corpo; que com uma tal dis- 
tinção desmembramos o homem em vida; e 
que é tão normal sentirmos o prazer quanto o 
sofrimento. Assim, por exemplo, graças ao 
espírito de penitência que os dominava, a dor 
causada pelos pecados era sentida pelos santos 
com uma intensidade que os levava à perfei- 
ção; e em virtude da íntima união existente 
entre a alma e o corpo, o sofrimento atingia 
também este, embora não estivesse direta- 
mente ligado à causa mesma do tormento:Mas 
os santos não se contentavam com o fato de o 
corpo acompanhar a alma nas suas desgraças, 
infligiam-lhe ainda torturas atrozes, a fim de 
que ambos os mergulhassem em um estado de 
sofrimento que julgavam tanto mais salutar 
quanto mais agudo. 

Não haverá injustiça, no caso dos prazeres 
sensuais, em fazer com que a alma se alheie ou 
deles participe como que por obrigação? A 
meu ver cabe-lhe, ao contrário, buscar e 
fomentar esses prazeres, e orientá-los; como 
também lhe compete, quando se trata de praze- 
res que lhe são peculiares, comunicá-los ao 
corpo e esforçar-se por que lhe sejam agradá- 
veis e úteis. Pois se é razoável dizer que o 
corpo não deve procurar sua satisfação em 
detrimento da alma, tampouco seria justifi- 
cável que esta se deleitasse com prejuízo 
daquele. 

Nenhuma outra paixão poderia excitar;me 
agora. Outros buscam seu prazer na avareza, 
na ambição, nas demandas & disputas. A mim, 
só o amor me interessaria. Devolver-me-i -ia (o) 
cuidado com minha pessoa, a vigilância, a 
jovialidade; faria com que os tristes sestros da 
velhice não me desfigurassem; e sem dúvida 
me induziria a estudos úteis e louváveis que me 
tornariam mais querido; libertaria meu espírito 
do desespero e da falta de confiança em seus 


ENSAIOS — HI 


meios; afastar-me-ia de mil pensamentos abor- 
recidos, detmil melancólicos desgostos que a 
ociosidade e'á falta de saúde provocam; e, pelo 
menos em sonho, aqueceria este sangue que a 
natureza começa a abandonar, sustentaria esta 
cabeça que se inclina, distenderia estes nervos 
e outorgaria um pouco de vigor e alegria de 
viver a este pobre homem que caminha a gran- 
des passos para a ruína. Compreendo porém 
muito bem quê o amor não se recupera; pór 
fraqueza e experiência nosso gosto 'Sé' faz mais 


exigente e requintado; e tanto mais “queremos. 


selecionar quanto menos possibilidades" temos 
de ser aceitos. Reconhecendo nossos próprios 
defeitos, tornamo-nos mais desconfiados é ti” 
midos. Nadá pode assegurar-nos que sejamos 
amados, dadas as condições em que nos acha- 
mos €é as da juventude entusiasta e viva, “que 
exibe um membro incansável e mais rígido do 
que a árvore plantada na colina!3 3? - Envergo- 
nho-me, mesmo; “de sua companhia, pois nada 
tenho a mostrár-lhe senão a minha miséria. 
“Para que a alegre mocidade contemple com 
gargalhadas a tocha a derreter-se! 34 .? 

Os jovens têm a força e a razão, cumpre-nos 
ceder-lhes o lugar que não mais podemos ocu- 
par; esses brotos de beleza não devem ser 
manuseados por mãos calejadas e cansadas; e 
o emprego de meios materiais não pode mais 
bastar-lhes, como bem o disse certo filósofo 
antigo de quem zombavam por não ter conse- 
guido conciliar as boas graças da jovem que 
cortejava assiduamente: “Meus amigos, queijo 
tão fresco não se prende ao anzol.” O comér- 
cio amoroso exige equilíbrio e correspon- 
dência. Podemos pagar os outros prazeres com 
recompensas de diversos tipos, mas este só. 
com a mesma moeda. Na realidade o prazer 
que damos é-nos mais doce, intenso e generoso 
do que o que recebemos. Tudo dever, e 
comprazer-se em manter relações com seu cre- 
dor, é característico de uma alma vil. E não há 
beleza, graça, intimidade que um homem de 
bem possa ambicionar em tais condições. Se as 
mulheres só nos podem oferecer seus encantos 
por piedade, prefiro ainda não os ter, a viver de 
esmolas. Gostaria de solicitar seus favores nos 
termos que vi empregados na Itália pelos que 
angariam donativos: “Fazei-me algum bem 
por vós mesmos.” Ou como Ciro exortando 
seus soldados: “Siga-me quem se ame a si pró- 
prio.” Aconselhar-me-ão a voltar-me para as 
mulheres que estejam em condições iguais às 
minhas. Lindo resultado! “Não quero arran- 
car o pêlo de um leão morto! 35.” 

Xenofonte acusava Mênon de procurar o 


133 Horácio. 
i34 Horácio. 
135 Marcial. 


411 


amor de mulheres que haviam ultrapassado a 
idade de amar. Pois eu acho mais voluptuoso 
simplesmente contemplar um casal de Jovens 
amorosos do | que participar de uma união 
lamentável e monótona. Deixo esta solução ao 
Imperador Galbã,: ao qual só apeteciam as 
mulheres velhas é” 'enrijecidas; ou aquele infeliz 
poeta que exclamava, referindo-se a si mesmo: 
“Oxalá em meu êxílio possa ver e beijar nova- 
mente teus cabelos brancos e abraçar teu 
magro corpo !38 .? 

No primeiro plano da feiúra coloco as bele- 
zas artificiais. Emones, jovem adolescente de 
Quio, imaginou que, em se adornando, con- 
quistaria a beleza que a natureza lhe recusará. 
Encontrando o filósofo Arcesilau, perguntou: 
lhe se um sábio podia enamorar-se. “Sim, res 
pondeu o interrogado, desde que não se trate 
de uma beleza falsificada como a tua.” A feiú- 
ra de uma velhice não dissimulada é menos 
desagradável do que se escondida sob arrebi- 
ques e pomadas. Em suma, diria de bom grado 
que o amor só me parece natural na idade mais 
próxima da infância. Mas que não se tome a 
Ga ao pé da letra. E o mesmo digo da bele- 

a: “quando um jovem de cabelos ao vento 
Dede entre um grupo de raparigas, iludir, acer- 
ca de seu próprio sexo, os olhos mais perspica- 
zes!37 Homero acha que ela só dura até sur- 
girem os primeiros fios de barba e Platão 
sustenta que não vai tão longe. Por isso o 
sofista Bion chamava o buço dos jovens de 
“Aristogitones” e “Harmodianos'38”. Já na 
idade madura estã a beleza deslocada, e não há 
como referir-se à velhice. “O amor voa longe 
dos carvalhos desfolhados!3 9.” 

Margarida de Navarra, como mulher, pro- 
cura avantajar-se às pessoas de seu sexo e no 
entanto afirma que a partir dos trinta uma mu- 
lher deixa de ser bela para ser boa. Quanto 
menos esse deus reinar sobre nossa vida me- 
lhor será! A beleza tem um semblante infantil 
e na sua escola, ao contrário do que acontece 
geralmente, estudos e exercícios conduzem à 
ignorância, isto é, os discípulos é que são mes- 
tres: “O amor não conhece regras! “º.” Não hã 
dúvida que a beleza sobretudo seduz quando a 
ela se juntam a inocência e a timidez; defeitos 
e erros dão-lhe graça e sal; e conquanto seja 
ardorosa e sedenta pouco importa se: mostre 
imprudente, mesmo porque nunca parece mais 
radiosa do que quando se exibe loucamente. 


136 Ovídio. 

137 Horácio. 

138 Porque matavam o amor, como Aristogiton 

e Harmódio tinham acabado com o poder do 
Tirano. 

138 Horácio. 


140 São Jerônimo. 


412 


Dar-lhe uma orientação sensata é violentar-lhe 
a divina liberdade. 

Por um lado, vejo amiúde as mulheres faze- 
rem do amor um problema espiritual despre- 
zando a satisfação dos sentidos. Mas quantas 
vezes, por outro lado, tenho visto a beleza do 
corpo levá-las a desculpar a fraqueza do espíri- 
to! O que nunca vi ainda foi um espírito, por 
brilhante que fosse, induzi-las a acolher com 
simpatia um corpo decadente. Haverá alguma 
delas capaz de (como queria Sócrates) trocar o 
corpo pelo espirito e comprar com os seus 
encantos uma cultura filosófica e moral? Seria 
no entanto o maior preço que poderiam alcan- 
çar. Determina Platão em suas leis que quem 
tenha realizado alguma façanha de grande uti- 
lidade na guerra, adquira o direito de, durante 
toda a campanha, e qualquer que seja a sua 
idade e feiúra, exigir como recompensa os bei- 
jos e os favores de quem quiser. O que esse 
filósofo considera justo prêmio ao valor mili- 
tar deveria aplicar-se a outros valores igual- 
mente. Não haverá nenhum que aquele se 
substitua no gozo desse amor casto? E digo 
casto porque “se nos ocorre travar a batalha, 
não passa de um fogo de palha em que a 


MONTAIGNE 


chama não tem força, nem o furor dá 
fruto! *1?, Em verdade os vícios que se sufo- 
cam no pensamento não são os piores. 


Para acabar com este comentário prolixo 
que deu azo a um fluxo de palavras pouco 
comedidas e por vezes inconvenientes: “assim 
cai do seio virgem a maçã, presente furtivo do 
bem-amado. Esquecendo que o escondera sob 
o vestido, ergue-se ao ver aproximar-se a mãe e 
o fruto rola a seus pés. Eis que de. rosa se tinge 
o seu rosto revelando a falta cometida! “2”; 
para acabar, portanto, com este comentário, 
direi que machos e fêmeas saem de um mesmo 
molde e que, salvo pela aducação e os costu- 
mes, em bem pouca coisa diferem. Platão dá- 


lhes em sua República os mesmos direitos e 
deveres, na guerra como na paz. E o filósofo 
Antístenes não estabelecia distinção entre a 


- 


virtude dos homens e a das mulheres. E bem 


mais difícil acusar um sexo do que desculpar o 
outro. Atente-se para o ditado: o roto ri-se do 
esfarrapado. 


141 Virgílio. 
142 Catulo. 


CapíTULO VI 


Dos coches 


É fácil verificar que os grandes autores, ao 
tratar das causas de tais ou quais fatos, não se 
referem apenas às que acreditam serem verda- 
deiras, mas também às que não imaginam jus- 
tas, conquanto comportem alguma beleza e 
invenção. Dir-se-ia que pensam expressar-se de 
maneira útil e certa desde que se expressem 
com talento. Não podendo estar seguros da 
causa principal, enumeram umas tantas ou- 
tras, na esperança de que se encontre por 
acaso entre elas: “Não basta indicar uma 
causa; é preciso apontar muitas, embora só 
uma seja a boa! 4 3.º 

Quereis saber de onde vem o hábito de aben- 
çoar os que espirram? Produzimos três espé- 
cies de ventos:.o que sai por baixo é demasiado 
sujo; o que sai da boca recende a comilança; o 
terceiro é o espirro, e como vem da cabeça e 
não se presta a henhuma crítica nós o acolhe- 


1343 Lucrécio. 


mos bem. Não zombeis da sutileza, pois é, 
dizem, da autoria de Aristóteles. 

Parece-me ter lido em Plutarco (que é entre 
os autores dê minha predileção o que melhor 
une a arte à natureza e a razão à ciência) que a 
causa da revolta do estômago, comum em 
quem viaja por mar, está no medo; e explica 
como o medo pode provocar tais efeitos. Eu 
que sou muito sujeito a esse tipo de enjdo bem 
sei que uma tal causa não diz respeito ao meu 
caso, e o sei por experiência mais do qué pelo 
raciocínio. 

E sem ir buscar provas contrárias à opinião 
de Plutarco nos animais, e em particular nos 
porcos, que a apreensão do perigo não| per- 
turba e no entanto enjoam, direi o caso de um 
meu amigo que, sujeito igualmente a esse mal, 
perdeu a vontade de vomitar sempre que se viu 
tomado de pavor durante alguma tempestade 
o que lhe ocorreu duas ou três vezes. E poderia 
também citar Sêneca: “estava doente demais 


ENSAIOS— II 413 


para pensar no perigo”. Nunca tive, sobre as 
águas ou alhures, um ternor que me pertur- 
basse a ponto de perder a cabeça, e no entanto 
corri muitos riscos em que o medo se justifica- 
ria, se é que se justifica quando só a morte há 
que se prever. O medo tanto pode nascer da 
falta de inteligência como da falta de coragem; 
todos os perigos que enfrentei, enfrentei-os de 
olhos abertos; de resto acho que, mesmo para 
ter medo, é preciso alguma coragem. E o medo 
serviu-me às vezes para ordenar a fuga, e 
assim safar-me de uma situação dificil, já não 
digo sem temor, porém sem pavor. Senti-me 
então comovido, mas não atordoado e desespe- 
rado 

Os grandes espíritos vão mais longe e dão- 
nos exemplos não somente de retiradas serenas 
e coroadas de êxito, mas ainda executadas alti- 
vamente. Eis a propósito o que nos conta Alce- 
bíades, a respeito de Sócrates, de quem na 
circunstância em questão era companheiro de 
armas: “Encontrei-os, Lachez e ele, após a der- 
rota de nosso exército na retaguarda das tro- 
pas. Observei-o à vontade e sem nada temer 
por mim porque possuía um cavalo e ele ia a 
pé. Aliás assim andara durante todo o comba- 
te. Verifiquei desde logo quanto era prudente e 
resoluto em comparação com Lachez, bem 
como a atitude que mantinha, em nada dife- 
rente de sua maneira habitual. Conservara sua 
firmeza e lucidez; observava, e via tudo o que 
ocorria ao redor dele, olhando ora para uns 
ora para outros, amigos € inimigos. E com o 
mesmo olhar a uns animava e a outros 
demonstrava estar disposto a vender caro a 
vida. E isso o salvou, pois não se ataca quem 
revela tal disposição, ao passo que se corre 
atrás de quem é empurrado pelo medo.” Tal é 
o testemunho desse grande capitão e ele nos 
prova o que constatamos diariamente, a saber 
que nada nos expõe mais ao perigo do que o 
exagerado desejo de evitá-lo. “Quanto menos 
medo se tem, tanto menos perigo se corre! * 4.” 
E erra o povo quando diz “fulano teme a 
morte” para significar que nela pensa ou a 
prevê. A previdência tanto diz respeito ao bem 
possível como ao mal; ponderar o perigo é, até 
certo ponto, o contrário de temê-lo. 

Não me sinto bastante forte para resistir a 
essa violenta sacudidela do medo, ou a qual- 
quer outra paixão veemente; se algum dia a 
sentisse estaria perdido e nunca mais me recu- 
peraria. Se alguém fizesse com que minha 
alma perdesse pé, não tornaria ela a firmar-se, 
por mais euidadosa e profundamente que se 
analisasse. Não conseguiria cicatrizar a ferida. 
Por felicidade, até agora nenhuma enfermidade 


144 “Tito Lívio. 


a atingiu gravemente; a cada assalto opus até 
hoje boa e decidida resistência, mas a primeira 
que a abalar, deixar-me-á sem recursos para 
continuar a luta. Não sou capaz de renovar um 
esforço e se por algum lado o dique se rompe, 
eis-me desamparado e afogado irremissivel- 
mente. Diz Epicuro que o sábio não pode 
nunca chegar a um estado de alma contrário à 
seus princípios. Inclino-me a aplicar a máxima 
em sentido inverso e penso que quem uma vez 
foi louco jamais tornará a ser sábio. 

Deus dá o frio segundo a roupa e a mim as 
paixões de acordo com as minhas possibili- 
dades de resistência. A natureza descobriu-me 
de um lado e cobriu-me de outro; tirando-me a 
força, deu-me à insensibilidade; e o medo, 
além de embotado, é em mim dominado pela 
razão. 

Não suporto muito tempo os coches, as litei- 
ras e os barcos, e na juventude os suportava 
anda menos. Detesto qualquer outro meio de 
locomoção que não o cavalo, na cidade como 
no campo. À liteirã incomoda-me ainda mais 
do que o coche e pelo mesmo motivo prefiro os 
movimentos de um mar agitado, embora peri- 
goso, aos das águas calmas. O leve balanceio 
que provocam os remos perturba-me o estô- 
mago €e o cérebro. Assim igualmente um assen- 
to que vacile. Quando o vento ou a correnteza 
nos impele com um movimento regular, ou 
quando nos rebocam, a ausência de choques 
faz que não sinta nenhum incômodo; o que 
não suporto são os movimentos bruscos e len- 
tos; não sei como explicar com exatidão. 
Aconselharam-me os médicos, para remediar o 
inconveniente, a apertar fortemente o baixo 
ventre com uma toalha.. Não o experimentei 
ainda porque tenho por hábito reagir contra os 
meus defeitos e procurar submetê-los à minha 
vontade. 

Se minha memória fosse mais eficiente, não 
consideraria uma perda de tempo enumerar a 


- variedade infinita dos meios de emprego de co- 


ches e carros na guerra. Variaram segundo as 
nações e os tempos; foram de grande utilidade 
e eficiência e é espantoso que não tenhamos 
bastantes documentos a respeito. Direi apenas 
que em tempos não muito remotos os húngaros 
os empregaram com êxito contra os turcos. 
Havia em cada veículo um soldado armado de 
escudo e um mosqueteiro com vários arcabu- 
zes prontos para serem usados, tudo coberto 
por um toldo espesso semelhante aos que usa- 
mos nos nossos barcos. Mais de três mil assim 
se apresentaram no campo de batalha. E logo 
depois da carga de artilharia, atiravam no ini- 
migo com os arcabuzes, o que.já lhes dava al- 
guma vantagem, e em seguida lançavam-se ao 
assalto. Empregavam-nos também contra a 


414 MONTAIGNE 


cavalaria e deles se valiam em caso de sur- 
presa como abrigo ou para fortificar o acam- 
pamento. Conheci um fidalgo que não gozava 
muita saúde e que não encontrando cavalo que 
pudesse cavalgar, por ser demasiado gordo, 
percorria a região fronteiriça em um veículo 
análogo ao que descrevi. E dava-se bem com a 
solução. Mas deixemos de lado os carros 
empregados na guerra. 

Os reis de nossa antiga raça viajavam de 
carro de boi. Marco Antônio foi o primeiro, 
em companhia de: uma jovem musicista, a 
fazer-se conduzir por leões atrelados à sua car- 
ruagem. Posteriormente assim fez Heliogá- 
balo, proclamando-se Cibele, mãe dos deuses. 
Em dada ocasião mandou atrelar a seu carro 
dois tigres para semelhar-se a Baco, e de outra 
feita utilizou-se de dois veados, como igual- 
mente, certa vez, empregou quatro cães, tendo 
mesmo, completamente nu, ordenado a quatro 
raparigas também nuas que puxassem seu 
pomposo coche. O Imperador Firmo preferia 
avestruzes enormes, tão grandes que seu carro 
mais parecia voar do que rodar. 

Essas invenções extravagantes levam-me a 
crer que os monarcas dão mostra de pusilani- 
midade e de que não compreendem realmente 
o que são, quando, mediante despesas absur- 
das, procuram valorizar-se. Isso poderia des- 
culpar-se em país estrangeiro; mas em sua 
terra, onde tudo podem, sua dignidade já lhes 
deveria bastar. Por idênticas razões, considero 
que um fidalgo não deve vestir-se de um modo 
especial quando em sua residência; a própria 
casa, o trem de vida, a cozinha atestam sua 
condição social. Acho por isso justo o conse- 
lho que dá Isócrates a seu rei: “Ter um interior 
com móveis esplêndidos, porquanto passam 
aos herdeiros, evitando quaisquer munifi- 
cências efêmeras.” 


Quando jovem, gostava de adornos; não 
tinha outro meio de realçar-me e a coisa não 
me assentava mal. As belas vestimentas não 
vão bem entretanto a todo mundo. As contas 
de alguns de nossos reis revelam a exagerada 
poupança que faziam em tudo o que lhes dizia 
pessoalmente respeito, e eram grandes e pode- 
tasas monarcas. Demóstenes profligava as leis 
que determinavam o pagamento com os 
dinheiros públicos das festas e jogos em seu 
país; queria que a grandeza de sua pátria se 
manifestasse nas frotas e exércitos preparados 
para a guerra. E é com razão que acusam Teo- 
frasto por defender idéia contrária em seu livro 
sobre a riqueza. Aristóteles observa que tais 
festividades só são apreciadas pelo populacho 
e se esquecem ao terminarem, e diz não haver 
homem sensato que as possa levar a sério. Tais 
liberalidades seriam, a meu ver, bem mais dig- 


nas da majestade real se empregadas na cons- 
trução de portos, fortificações, edifícios sun- 
tuosos, igrejas, hospitais, colégios e boas 
estradas. Por assim ter agido deixou o Papa 
Gregório XIII uma lembrança que se perpe- 
tuará, e nossa Rainha Catarina daria testemu- 
nho de sua magnificência se os meios de que 
dispõe correspondessem a seus desejos. Muito 
me entristece que a construção da “Ponte 
Nova” tenha sido interrompida em nossa gran- 
de capital e que o destino não me permita vê-la 
concluída. 

Demais, aos espectadores, ditas solenidades 
parece que se realizam a expensas suas € que 
lhes exibem suas próprias riquezas. Os povos 
gostam que seus reis façam o que queremos 
que façam nossos criados: tudo nos dêem com 
abundância e em nada toquem. Por isso o 
Imperador Galba, satisfeito com um músico 
que o distraíra enquanto ceava, mandou bus- 
car sua bolsa e deu ao artista um punhado de 
escudos, dizendo: “Não é dinheiro do povo; é 
meu.” Entretanto, como quer que seja, tem o 
povo razão, pois em geral dedica-se ao prazer 
de seus olhos o que deveria destinar a satisfa- 
zer-lhe o ventre. A liberalidade não se justifica 
nos reis. Os particulares têm mais direito a ela, 
pois, a rigor, um rei nada possui de verdadeira- 
mente seu e deve-se por inteiro aos outros. A 
administração não foi criada para o bem do. 
administrador e sim para o do administrado. 
Não se cria um superior em vista de sua pró- 
pria vantagem, mas em benefício do inferior; o 
médico é feito para o doente e qualquer magis- 
tratura ou arte tem um objetivo situado fora de 
si, já o dizia Cicero. Portanto, os preceptores 
dos príncipes, que se esforçam por lhes incul- 
car desde a infância a idéia de uma generosi- 
dade necessária e lhes ensinam a nada recusa- 
rem e a tudo darem (educação muito em voga 
hã tempo), olham mais para seus próprios inte- 
resses do que para os de seus senhores. Ou 
compreendem mal seus deveres. É muito facil 
induzir à liberalidade os que a podem praticar 
a expensas alheias. Mas, como lhes somos 
reconhecidos segundo os meios de que dispõe 
quem as faz e não segundo o valor do presente, 
tais prodigalidades não são sequer devida- 
mente apreciadas. Não é pois a liberalidade 
uma grande virtude para um rei; é, aliás, a 
única, como dizia o tirano Dionísio, que se 
alia muito bem à tirania. A esses. príncipes, eu 
ensinaria de preferência este provérbio de um 
lavrador da antiguidade: “Semeie-se com a 
mão e não com o saco de semente aberto! * 5,” 
Cabe distribuir a semente com cuidado e não 
espalhá-la ao acaso. Cumpre-lhes pagar os ser- 


145 Plutarco. 


ENSAIOS — HI 


viços de tanta gente, que é preciso que o façam 
com lealdade e prudência. E preferiria um 
principe avarento a sabê-lo de uma liberali- 
dade insensata e indiscreta. 

A virtude predominante em um rei deve ser 
antes a justiça, e de todas as partes desta a que 
melhor lhe assenta é saber distribuir suas dádi- 
vas. As demais justiças exercem-nas os reis 
através de intermediários. Uma largueza imo- 
derada é um meio ineficiente de angariar sim- 
patias, porquanto aliena maior número de pes- 
soas do que as que atrai. “Quanto mais se 
exerce, menos se pode exercê-la: e haverá algo 
mais tolo, quando se deseja fazer alguma 
coisa, do que se tornar incapaz de continuar a 
fazê-la! +67”? Praticada sem levar em conta o 
mérito, a liberalidade envergonha quem a rece- 
be. Alguns tiranos foram sacrificados ao ódio 
do povo por aqueles mesmos que injustamente 
haviam cumulado de favores. Tais beneficia- 
dos, na ânsia de assegurar a posse de seus 
bens, timbram em acompanhar a opinião pú- 
blica ostentando Ódio e desprezo a seus 
benfeitores. 


Os súditos de um príncipe que esbanja suas 
dádivas, tornam-se eles próprios excessiva- 
mente exigentes; não se conduzem pela razão e 
sim pelo exemplo que se lhes apresenta. Em 
verdade deveríamos envergonhar-nos de nossa 
impudência. Pagar-nos pelo que fazemos já é 
demasiado, pois devemos ao nosso príncipe 
obrigações naturais. Não lhe cabe portanto co- 
brir nossas despesas, basta que nos ajude a 
cobri-las. O demais é liberalidade e não pode- 
mos exigi-lo, mesmo porque a palavra liberali- 
dade implica a idéia de liberdade, isto é, de dá- 
diva voluntária. Por outro lado, não 
costumamos contar o recebido mas tão-so- 
mente o que receberemos no futuro e por isso 
quanto mais um príncipe se empobrece, dando, 
tanto menos amigos tem. Como saciar apetites 
que se ampliam na medida em que se satisfa- 
zem? Quem anseia por adquirir não pensa no 
adquirido. A cobiça caracteriza-se pela ingra- 
tidão. É 

O exemplo de Ciro pode ser útil aos reis de 
nosso tempo para que distingam quando 
empregam bem ou mal os seus favores. 
Mostrar-lhes-ãá como, distribuindo-os da ma- 
neira por que o fazia, esse soberano teve a mão 
mais feliz do que eles, os quais, após esgotar 
seus recursos, vêem-se forçados a contrair 
empréstimos junto a súditos que não conhecem 
bem e a pedir, antes aos que maltrataram do 
que aos que beneficiaram, uma colaboração 
que de colaboração só tem o nome. Creso cen- 
surava a Ciro sua prodigalidade e calculava 


146 Cícero. 


415 


quanto teria o tesouro se ele fosse mais parci- 
monioso. Ciro teve a idéia de justificar sua 
liberalidade e, enviando mensageiros a todos 
os que havia tratado de maneira particular- 
mente generosa, pediu, a cada um, um auxílio 
em dinheiro, a fim de sair de uma situação difi- 
cil. Quando chegaram as respostas, verificou- 
se que, tendo julgado insuficiente devolver as 
somas recebidas, seus amigos haviam ácres- 
centado mais algum dinheiro de suas fortunas 
pessoais e o total: ultrapassava assim, de 
muito, a economia que no dizer de Creso o 
soberano houvera realizado. E disse Ciro: 
“Não aprecio menos do que os outros a rique- 
za, mas creio saber melhor administrá-la; bem 
vês quão pouco me custou angariar tão fiéis 
amigos, bem melhores tesoureiros do que te- 
riam sido os que porventura pagasse, pois não 
lhes compraria a amizade nem a gratidão. E 
bem percebes também que assim guardo me- 
lhor os meus bens do que se os conservasse em 
meus cofres, despertando a inveja e o ódio dos 
outros príncipes.” 


Os imperadores justificavam os jogos e as 
festas públicas dizendo que sua autoridade (ao 
menos aparentemente) dependia da vontade do 
povo romano, o qual se acostumara, há muito, 
a tais divertimentos e excessos. A princípio 
coubera aos particulares sustentar e manter 
com seu dinheiro essas festividades; mas o 
caráter destas modificou-se quando os que se 
tornaram senhores se encarregaram de propor- 
cioná-las: “O dom feito a um estranho de um 
dinheiro tomado a outrem, não deve ser consi- 
derado uma liberalidade! *7.” Filipe escrevia 
nestes termos a seu filho para censurar-lhe o 
empenho que demostrava em conquistar a 
dedicação dos macedônios mediante presentes: 
“Desejas, então, que teus súditos te olhem 
como seu tesoureiro e nãó como seu rei? Se 
queres seu afeto, cnhama-os a ti com tuas virtu- 
des, e não com teu dinheiro.” 

Não: obstante, eram notáveis as coisas que 
se viam nos circos. De uma feita, no reinado 
de Probo, plantaram-se ali inúmeras árvores 
frondosas representando uma floresta espessa 
e nela se lançaram um milhão de avestruzes, 
cervos, javalis, para que o povo se divertisse 
em caçá-los. No dia seguinte mataram-se cem 
leões, cem leopardos e trezentos ursos; no ter- 
ceiro dia trezentos pares de gladiadores com- 
bateram até a morte. E belo era o espetáculo 
dos grandes anfiteatros revestidos de mármore, 
com estátuas e decorações suntuosas: “Vede 
as gemas que ormnam o teatro e seu pórtico 
dourado! * 8”? De alto a baixo alinhavam-se de 


147 Td. 
128 Calpúrnio. 


416 


sessenta a oitenta degraus, de mármore igual- 
mente e guarnecidos de assentos para cerca de 
cem mil pessoas comodamente instaladas: 
“Vós outros cujos bens as leis não taxam, 
abandonai, se tendes vergonha, os assentos 
destinados aos cavaleiros! *º.” Abriam-se na 
arena covis de onde saiam feras, ou se inun- 
dava o picadeiro com águas profundas em que 
pululavam monstros marinhos e barcos de 
guerra num simulacro de batalha naval. Seca- 
va-se novamente o circo e recomeçavam as 
justas dos gladiadores; finalmente cobria-se o 
solo de vermelhão e estoraque e servia-se um 
festim aos espectadores. “Vimos muitas vezes 
uma parte da arena abaixar-se, e do abismo 
entreaberto surgirem feras e toda uma floresta 
de árvores douradas e cor de açafrão. Vimos 
não somente os monstros da floresta, mas tam- 
bém focas e ursos em luta e horríveis bandos 
de autênticos cavalos marinhos! 5º.” Por vezes 
erguia-se uma alta colina coberta de árvores 


verdejantes e carregadas de frutos e da qual 
jorrava um arroio, como da boca de uma 
fonte; em outras ocasiões avançava pela arena 
um enorme navio que se abria repentinamente 
e despejava de quatrocentos a quinhentos ani- 
mais, desaparecendo em seguida. E de outras 
feitas brotavam altíssimos jatos de água do 
solo, aromatizando e refrescando a multidão. 
Para proteger os espectadores contra as intem- 
péries usavam-se toldos bordados de púrpura 
ou de sedas de várias cores, que se estendiam 
ou retiravam à vontade. “Embora o sol ardente 
dardeje seus raios sobre o circo, retiram-se os 
toldos quando Hermógenes se apresenta! 81,” 
E as redes que visavam resguardar o público 
contra os saltos das feras eram igualmente 
tecidas com fio de ouro: “As próprias malhas 
brilham por serem de ouro! 82.” 


Só a imaginação pode desculpar tais despe- 
sas e extravagancias. Até nessas vaidades 
descortinamos o fértil engenho daqueles sécu- 
los tão superiores ao nosso. Nisso como em 
outras coisas não progredimos. Antes giramos 
sobre nós mesmos, ora vamos para frente, ora 
voltamos atrás. Parece-me que nossos conheci- 
mentos são, de todos os pontos de vista, restri- 
tos; não vemos muito longe nem no passado 
nem no futuro. Pouco abarca a nossa vista. 
Que sabemos, afinal? “Houve muitos heróis 
antes de Agamenon, mas dormem sepultados 
na ignota noite; e ninguém os chora! 53.? 
“Antes da guerra de Tróia, inúmeros poetas 


143 Juvenal. 
150º Calpúrnio. 
151 Marcial. 
152 Caipúrnio. 
153 Horácio. 


MONTAIGNE 


haviam celebrado outros sucessos! 5 *.? Aten- 
te-se também para o que Sólon diz ter ouvido 
dos sacerdotes egípcios acerca da história de 
seu país, e dos países estrangeiros, e dos méto- 
dos de escrevê-la. “Se pudéssemos ter sob os 
olhos a extensão infinita das terras e dos tem- 
pos em que o espírito mergulha e que percorre 
sem encontrar limites, aí descobririamos um 
sem-número de formas! 55? Ainda que tudo o 
que sabemos do passado fosse certo, seria 
menos do que nada em relação ao ignorado. 
Quão pequeno e imperfeito é o conhecimento 
que mesmo os mais curiosos têm de nosso 
tempo! Não somente das ocorrências particu- 
lares que o destino torna por vezes edificantes, 
mas também da situação política e adminis- 
trativa das grandes nações. Consideramos 
milagres as invenções da artilharia e da 
imprensa, quando outros já se serviam delas 
há mil anos na China, do outro lado do 
mundo. Se o que sabemos deste igualasse o 
que ignoramos, é provável que estariamos em 
presença de uma infinita variedade de corpos e 
formas em contínua transformação. Nada na 
natureza é único; e somente o é em face de 
nossos conhecimentos restritos, os quais cons- 
tituem a base defeituosa que estabelecemos e 
nos levam a uma idéia muito falsa das coisas. 
Assim, julgando-o pela nossa própria debili- 
dade e decrepitude, erroneamente deduzimos 
que o mundo caminha para a decadência. 
“Não possuem os homens o mesmo vigor anti- 
go, nem a terra a mesma fertilidade! * 6.” Não 
menos absurdamente esse poeta julgava, pela 
força e capacidade inventiva dos espíritos de 
seu tempo, que o mundo era recente e jovem: 
“Em verdade entendo que o mundo é novo 
ainda. Nasceu há pouco. Eis por que certas 
artes se desenvolvem e nossa arte naval pro- 
gride grandemente? 5 7,” 

Nosso mundo acaba de descobrir outro não 
menor, nem menos povoado e organizado do 
que o nosso (e quem nos diz que seja o últi- 
mo?) e, no entanto, tão jovem, que ignora o 
a-bê-cê e que há cinquenta anos não conhecia 
nem pesos, nem medidas, nem a arte de vestir, 
nem o trigo e a vinha; nu ainda, vivia do leite 
de sua ama! *8. Se raciocinamos certo e se o 
poeta o fazia igualmente, devemos pensar que 
o novo mundo só começará a iluminar-se 
quando o nosso penetrar nas trevas. Será uma 
espécie de hemiplegia: um membro paralisado 
e outro vigoroso é vivo. Receio, porém, que 
venhamos a apressar a decadência desse novo 


154 Lucrécio. 
155 Cícero. 
156 Lucrécio. 
157 Lucrécio. 
158 A natureza. 


ENSAIOS— HI 


mundo com nosso contato e que ele deva pagar 


caro nossas artes eidéias. 
Era um mundo na infância e o submetemos 


ao açoite e a uma dura escravidão, mercê de 
nossa superioridade em armas. Não o conquis- 
tamos pela justiça e a bondade; nem o vence- 
mos pela nossa magnanimidade. Na maioria 
das negociações que conosco estabeleceram, 
provaram Os indigenas do Novo Mundo que 


não nos eram inferiores em clarividência e 
perspicácia. Nem tampouco quanto à capaci- 


dade, como o comprova a grandiosidade de 
Cuzco e México onde, entre outras coisas 
surpreendentes, se encontrou uma reprodução 
exata, de tamanho natural e em ouro, de todas 
as árvores e frutos de um pomar. E igualmente 
se acharam no palácio exemplares de todos os 
animais existentes em suas terras e seus mares. 


Notáveis eram também, e não inferiores às 
nossas, as suas obras de pedra, penas e algo- 


dão. Quanto à devoção, à lealdade, à bondade, 
à generosidade e à franqueza, muito nos valeu 
não lhes sermos comparáveis, pois tais quali- 
dades os perderam e destruíram. A energia, a 
coragem, a firmeza, a tenacidade e a resolução 
com que suportam os males, a fome e a morte 
fornecem-nos exemplos dignos de se igualarem 
aos da antiguidade. É de se admirar o entu- 
Siasmo indomável com que homens, mulheres 
e crianças correram mil riscos e enfrentaram 


mil perigos na defesa de seus deuses e de sua 
liberdade, suportando toda espécie de priva- 
ções e tormentos, inclusive a morte, para não 


se submeterem aos conquistadores. Alguns, ao 
serem capturados, preferiram morrer de fome a 


dever a vida ao vil vencedor. E acredito que 


quem os atacasse de frente com as mesmas. 


armas e experiêncianão-os venceria facilmente. 
Sua derrota explica-se em grande parte pela 
malícia de que usaram os adversários, pelo 
espanto em que caíram ao ver chegarem ho- 
mens barbudos, de língua e religião diferentes 
e vindos de uma parte do mundo cuja exis- 
tência os indígenas não podiam sequer imagi- 
nar. E chegavam montados em grandes mons- 
tros desconhecidos de quem nunca vira um 
cavalo nem outro bicho capaz de carregar um 
homem; e usavam coletes de pele lisa e dura, € 
armas cortantes e resplendentes, milagrosas € 
temíveis para quem trocava um espelho .por 
punhados de ouro. Acrescentem-se os estron- 
dos e raios de nossos arcabuzes e canhões, 
capazes de amedrontar o próprio César se os 
visse! Eles, que não tinham senão tecidos e 
algodão, e arcos, pedras e bastões, e escudos 
de madeira, por armas, e boa fé e curiosidade 
ingênua a opor ao invasor, e ter-se-á com- 
preendido a razão das derrotas! **º. 


159 O parágrafo comporta mais de uma variante 
segundo as edições. Em algumas foi suprimido ou 
resumido. (N. do T.) 


417 


É de se lamentar que não tenham sido venci- 
dos por César ou Alexandre! Tão grandes 
transformaçõês e mutações se houveram efe- 
tuado com doçura. Progressivamente fora des- 
bravado o que neles havia de inculto; suas 
qualidades naturais teriam sido consolidadas e 
os conquistadores, introduzindo entre os venci- 
dos seus conhecimentos acerca doe cultivo das 
terras e das artes, lhes dariam também as vir- 
tudes gregas e romanas. Que progresso teria 
alcançado sua civilização se com isso se hou- 
vesse estabelecido entre esses indigenas e nós 
um clima de fraternidade e de simpatia! Ao 
contrário, só tiveram diante deles exemplos de 
desregramentos e abusos. Aproveitamo-nos de 
sua ignorância e inexperiência e lhes ensina- 
mos a prática da traição, da luxúria, da avare- 
za; e os impelimos aos atos de crueldade e de 
inumanidade. Ter-se-á jamais perpetrado tanto 
crime em benefício do comércio? Quantas 
cidades arrasadas, quantos povos extermina- 
dos! Milhões de iridivíduos trucidados, em tão 
bela e rica parte do mundo, e tudo por causa 
de um negócio de pérolas e pimenta! Miserá- 
veis vitórias! Nunca a ambição incitou a tal 
ponto os homens a tão horríveis e revoltantes 
ações! 

Seguindo as costas em busca de minas, al- 
guns espanhóis desembarcaram em uma região 
fértil, atraente e muito povoada. Dirigiram-se 
como de hábito aos habitantes: eram gente 
pacata, vinham de longe, enviados pelo rei de 
Castela, o maior sobre a terra, ao qual o papa, 
representante de Deus, outorgara o domínio 
-das Índias. Se consentissem em tornar-se tribu- 
tários de seu príncipe, seriam tratados com 
cordura. Pediram depois víveres para se ali- 
mentar e ouro para a preparação de alguns 
medicamentos. Além disso propugnavam a 
crença em um Deus único e recomendavam- 
lhes que adotassem nossa religião, acrescen- 
tando ao discurso algumas ameaças. Assim 
responderam os iíndigenas: que seu rei, visto 
que por ele pediam, devia ser indigente e neces- 
sitado; quanto àquele que dera o território ao 
monarca, por certo amava as dissensões, pois 
cedia a um terceiro terras que não lhe perten- 
ciam e o fazia correr o risco de lutar contra os 
verdadeiros donos; que não recusariam viíve- 
res; que possuíam pouco ouro e não o aprecia- 
vam (porquanto tinham por objetivo tão-so- 
mente viver felizes) e podiam os espanhóis 
levar o que encontrassem, salvo o que se desti- 
nasse ao culto; que lhes agradavam as pala- 
vras acerca da existência de um Deus único, 
mas não queriam mudar de religião porque há 
muito se haviam afeiçoado à sua; que só acei- 
tavam conselhos de seus amigos e conhecidos; 
quanto às ameaças parecia-lhes insensato diri- 


418 


gi-las a um povo cujo poderio e caráter os 
recém-chegados ignoravam; que os estran- 
geiros se apressassem pois em partir por- 
quanto eles, os autóctones, não estavam acos- 
tumados a acolher com benevolência os 
doestos de gente armada e forasteira contra a 
qual agiriam como sempre haviam agido. E 
mostravam expostas ao redor da cidade as 
cabeças de indivíduos condenados e executa- 
dos. Eis como balbuciavam esses povos infan- 
tis... Mas os espanhóis não se interessavam 
por se fixar e guerrear senão onde encon- 
travam as mercadorias que ambicionavam. 
Por isso não ocuparam tampouco o país dos 
canibais a que já me referi. | 

O rei do Peru, um dos dois monarcas mais 
poderosos desse Novo Mundo — e talvez do 
nosso —, foi dos últimos a serem destronados. 
Feito prisioneiro, exigiram os espanhóis uma 
importância absurda pelo seu resgate. Paga- 
ram-na. Na prisão O rei mostrava-se franco, 
liberal, resoluto, inteligente. Depois de ter-lhe 
arrancado um milhão e trezentos e vinte e 
cinco mil escudos de ouro, além de não menor 
quantia em prata e diferentes mercadorias (os 
cavalos tinham ferraduras de ouro), tiveram a 
idéia de se apropriar dos demais tesouros do 
reino, ainda que devessem recorrer aos meios 
mais desleais e desonestos. Para tanto acusa- 
ram-no, com falsas provas, de andar tramando 
uma sublevação; e mediante julgamento prepa- 
rado por aqueles mesmos que haviam inven- 
tado a revolta, condenaram-no ao estrangula- 
mento, depois de convertê-lo à força para não 
queimá-lo vivo. Tudo suportou o rei com dig- 
nidade e coragem, sem fraquejar nem nas suas 
palavras nem na sua atitude. E a fim de acal- 
mar o povo pasmado ante tão estranhos fatos, 
organizaram-lhe pomposos funerais. 

O outro rei, o rei do México, durante muito 
tempo defendeu sua cidade cercada pelos espa- 
nhóis. E nesse cerco mostraram os sitiados, 
mais uma vez, até onde podem ir a resolução e 
a coragem de um príncipe e de um povo. O 
destino fez que o rei caísse vivo nas mãos do 
inimigo após um acordo de capitulação em 
que se determinava que seria tratado como 
soberano. Não encontrando todo o ouro que 
imaginavam, os vencedores, depois de tudo 
revolver, puseram-se a torturar OS prisioneiros 
a fim de obter mais precisas informações. Mas, 
exasperados com a resolução das vitimas, 
resolveram os algozes supliciar o próprio rei 
na presença de um de seus fidalgos mais emi- 
nentes. Este, enfiado em um braseiro, acabou 
por deitar um olhar desesperado ao monarca 
como para dizer-lhe que não podia mais resis- 
tir à dor.O rei, quese achava em situação idên- 


MONTAIGNE 


tica, respondeu-lhe com voz firme e rude: 
“Estarei porventura em uma banheira? E mais 
à vontade do que tu?” Ouvindo tais palavras, O 
fidalgo rendeu seu último suspiro. Quanto ao 
rei, libertaram-no semi-assado. E não por 
comiseração, mas porque sua tenacidade res- 
saltava ainda mais a odiosa crueldade dos 
algozes. A piedade, aliás, nunca encontrou 
“guarida nas almas bárbaras desses homens que 
para obter uma informação duvidosa acerca de 
algum vaso de ouro não hesitavam em mandar 
grelhar um homem e mesmo um rei. Tendo 
este posteriormente tentado evadir-se, enforca- 
ram-no. E seu fim foi também o de um principe 
magnânimo. 

Em outra ocasião, os espanhóis mandaram 
queimar vivos em uma só fogueira quatro- 
centos e sessenta prisioneiros de guerra, dos 
quais sessenta eram fidalgos dentre os princi- 
pais da região. Todos esses pormenores por 
“eles próprios nos foram comunicados, pois não 
somente confessam tais barbaridades como 
delas se vangloriam. Como testemunho de sua 
Justiça ou para prova de seu espírito religioso? 
Como quer que seia, nossa santa causa os 
reprova, exigente que é de meios bem diversos. 
Se esses bárbaros tinham a intenção de propa- 
gar a nossa fé, deviam pensar que não é de 
territórios que ela precisa apossar-se e sim de 
almas. Ter-se-iam satisfeito com as mortes 
inevitáveis que a guerra acarreta, sem se com- 
prazer em camificinas que só poupavam os 
que lhes iriam servir de escravos na exploração 
das minas. E tanto fizeram que vários chefes, 
de todos odiados, foram punidos de morte no 
próprio local das conquistas, por ordem dos 
reis de Castela, justamente horrorizados com 
tais abominações. Deus fez, mui sabiamente, 
com que o produto desses saques soçobrasse 
na travessia do oceano ou se esgotasse nas 
guerras intestinas desses bandidos, os quais em 
sua maioria não se beneficiaram com o fruto 
da vitória. 

Os resultados da conquista, apesar do prín- 
cipe prudente e grande administrador que 
governava a Espanha, não corresponderam às 
esperanças que haviam concebido seus prede- 
cessores ante as riquezas descobertas no Novo 
Mundo. A causa da decepção estã em que (o) 
"uso da moeda era inteiramente desconhecido 
naquelas terras; conseguintemente encontrou- 
se reunida, aplicada em objetos e móveis e 
concentrada em templos e palácios, tãoiso- 
mente, toda a riqueza que os reis haviam obti- 
do esgotando suas minas. Ao passo que nosso 
ouro nós o utilizamos no comércio; trabalha- 
mo-lo e damos-lhe mil formas sob as quais cir- 
cula e se expande. Imagine-se o que ocorrera 


ENSAIOS — HI 


se nossos reis tivessem acumulado e imobili- 
zado todo o ouro que se ERDIONOU durante vá- 
rios séculos! 

Os mexicanos eram algo mais civilizados e 
artistas do que os outros povos do Novo 
Mundo. Acreditavam, como já o acreditamos 
também, que o mundo está por acabar; e a 
desolação a que levaram seu país pareceu-lhes 
um sinal precursor. Pensavam que a existência 
do mundo comportasse cinco fases, cada uma 
delas correspondente à vida de um sol. Quatro 
já, teriam terminado e estaríamos vivendo a 
quinta fase. O primeirb desses sóis teria sido 
destruído, juntamente com as criaturas do 
mundo, em conseglência de um dilúvio. O 
segundo, pela queda do céu, o qual houvera 
esmagado todos os viventes. Isso teria ocor- 
rido durante a idade dos gigantes, cujos ossos 
mostravam aos espanhóis e segundo os quais 
os homens' de então deviam medir mais de 
vinte palmos. A terceira fase extinguiu-se pelo 
fogo que tudo consumiu. A quarta em virtude 
de um ciclone tão violento que nivelara as pró- 
prias montanhas. Não morreram os homens, 
mas foram transformados em macacos 
(incrível é a credulidade humana). Ao desapa- 
recer o quarto sol, teria o mundo permanecido 
durante vinte e cinco anos nas trevas. No déci- 
mo quinto ano criaram-se um homem e uma 
mulher, os quais reconstituíram a raça huma- 
na; dez anos depois surgiu o novo sol e esses 
povos contam o tempo a partir desse sucesso. 
Três dias após a criação do novo sol, os deuses 
antigos morreram e em seguida, da noite para 
o dia, nasceram os que atualmente existem. O 
autor dessas informações ignora o que os mexi- 
canos pensam acerca da maneira por que se 
extinguiria O nosso sol, mas estaríamos às vés- 
peras de uma conjunção de astros semelhante 
à que provocou, há cerca de oitocentos anos, o 
fim da quarta fase, anterior à nossa. 

A pompa e a magnificência que reinavam 


419 


nesses países e que me induziram a ventilar o 
assunto, eram de tal ordem que nem em Roma, 
nem na Grécia, nem no Egito se viram iguais. 
Em nenhuma destas regiões se encontraram 
empreendimentos tão úteis e importantes, e de 
tão difícil execução, como essa estrada perua- 
na, obra dos seus reis, que vai de Quito a 
Cuzco numa extensão de trezentas léguas. É 
reta, plana, larga de vinte e cinco passos, cal- 
çada, fechada por belas e altas muralhas ao 
longo das quais, e por dentro, correm perene- 
mente riachos; bordejam-na renques de árvo- 
res denominadas * 'moly”1 8º, Onde havia mon- 
tanhas, cortaram-na os peruanos,na própria 
pedra e onde se abriam precipícios, fizeram-na 
passar por aterros de pedras e terra. De quan- 
do em quando erguiam-se palácios providos de 
roupas, víveres e armas para Os viajantes € as 
tropas em marcha. Para bem avaliar a impor- 
tância de tais obras, cumpre levar em conta 
que as dificuldades eram particularmente gran- 
des; empregavam-se blocos de pedra de pelo 
menos dez pés de largura; como não havia 
meios de transporte era necessário puxá-los a 
braço e, para colocá-los em seu lugar, na falta 
de andaimes que não sabiam armar, nem 
podiam, construíiam rampas de terra que eram 
em seguida retiradas. 

Para voltar a nossos coches, direi que os 
desconheciam no Novo Mundo. Em lugar de 
carros, havia homens que carregavam os via- 
Jantes aos ombros. No dia em que o aprisiona- 
ram, o rei do Peru fazia-se assim transportar, 
sobre um assento de ouro, durante o combate. 
Queriam-no vivo os espanhóis, mas à propor- 
ção que matavam os carregadores, outros sur- 
giam para substituir os mortos e o sobérano só 
foi detido afinal quando um cavaleiro o derru- 
bou por terra. 


1680 Não se encontrou nota alguma a respeito, nem 
a tradução possível da palavra. (N. do T.) 


CarpíruLo VII 


Dos inconvenientes das grandezas! *º2 


Visto que não podemos alcançar as grande- 
zas, depreciamo-las por vingança; se é que des- 
cobrir defeitos em alguma coisa a deprecia, 
pois não há coisa que não os tenha, por mais 


161 No sentido de dignidades, bens 


materiais. (N. do T.) 


honrarias, 


bela e desejável que seja. Em geral as grande- 
zas apresentam essa vantagem incontestável de 
se abaixarem quanto se queira, sendo permi- 
tido a quem as goza escolher a condição que 
lhe agrada, pois não se cai serão raramente 
das maiores alturas e as grandezas que se 
podem desprezar sem rolar por terra são mais 
numerosas do que as outras. Acho que damos 


420. 


às grandezas mais importância do que mere- 
cem, e também que valorizamos demasiado a 
resolução dos que as desprezam ou a elas 
renunciam espontaneamente. Não são elas, 
com efeito, tão vantajosas a ponto de consti- 
tuir a renúncia um ato admirável. Considero 
bem mais dificil o esforço necessário para 
resistir ao sofrimento que os males nos cau- 
sam; € parece-me mediocremente corajoso 
contentar-se alguém com uma fortuna modesta 
e fugir às honrarias-e dignidades. Eis a meu ver 
uma virtude que eu conseguiria alcançar sem 
grande esforço; logo, muito menos inacessível 
será ela a quem se encontre em situação de 
realçar sua renúncia, a qual pode prender-se a 
uma ambição maior, tanto mais quanto esta 
emprega normalmente, para atingir seus objeti- 
vos, OS meios menos usuais. 

Esforço-me por ser paciente e moderar meus 
desejos. Em verdade, posso ambicionar e dese- 
jar como qualquer pessoa e não me mostro 
mais discreto do que quem quer que seja; 
entretanto, nunca me ocorreu desejar um reino, 
nem um império, nem posições eminentes e de 
comando; não é o que viso: amo demais a mim 
mesmo. Quando sonho com ampliar minha 
importância, meus objetivos não se elevam 
muito alto; modestos e timoratos, dado o meu 
temperamento, dizem respeito tão-somente ao 
fortalecimento da decisão da prudência, da 
saúde, da beleza, e possivelmente da riqueza; 
mas não penso em aumentar meu crédito e 
minha autoridade para poder mais; a simples 
idéia do poder abafa-me a imaginação. Ao 
contrário de muita gente, preferiria ser o 
segundo ou o terceiro em Périgueux a ser o pri- 
meiro em Paris. E, para não mentir, terceiro 
em Paris a ocupar O primeiro posto. Se me 
desagrada lutar contra um porteiro, como, 
qualquer desconhecido, detesto igualmente ver 
abrirem-se alas de admiradores à minha passa- 
gem. Estou acostumado a uma condição dis- 
creta, tanto por destino como por inclinação, € 
mostrei, em minha conduta na vida, que antes 
me esforcei por fugir às grandezas do que por 
elevar-me acima do lugar que Deus me deu na 
sociedade. Em tudo, manter-se dentro da 
ordem estabelecida pela natureza é coisa fácil 
e sensata. Minha alma é tão tímida, que não 
meço o êxito pela altura a que nos ergue e sim 
pela facilidade com que o obtemos. Mas se não 
tenho altos objetivos, em compensação sou 
franco e digo sem pejo de minha humildade. 

L. Tório Balbo foi um homem de bem; belo 
e sadio, entendido em prazeres, gozou a vida, 
viveu tranquilo, isento de superstições e bem 
preparado para o sofrimento e a morte. Aca- 
bou seus dias em um campo de batalha defen- 
dendo seu país. Comparemos sua existência à 


MONTAIGNE 


de M. Régulo. Este teve uma vida grande e vir- 
tuósa e um fim admirável. Uma existência foi 
anônima, sem brilho; a outra exemplar e glo- 
riosa. Se devesse referir-me a ela, e soubesse 
expressar-me de um modo elevado, diria o que 
disse Cícero. Mas se me coubesse escolher 
entre uma e outra, diria que à primeira estã a 
meu alcance e a outra me ultrapassa forte- 
mente. Viveria a primeira, mas quanto à 
segunda só a poderia venerar. 

Voltemos às grandezas deste mundo. Não 
aprecio em verdade o poder, nem para exercê- 
lo nem para suportá-lo. Otanez, um dos sete 
príncipes da Pérsia que podiam aspirar ao 
trono, adotou uma resolução que em seu lugar 
eu também seguiria. Cedeu a seus compa- 
nheiros o direito de competir, com a condição 
de poder viver no território persa sem obriga- 
ções de qualquer espécie, a não ser de obedecer 
às antigas leis. Não desejava portanto mandar 
nem ser mandado. 

O ofício mais difícil deste mundo é sem dú- 
vida o de rei. Desculpo-lhes os erros de bom 
grado, pois considero extremamente pesado o 
fardo que lhes cumpre carregar. É difícil con- 
servar a medida no exercício de tão grande 
poder, embora constitua excepcional incentivo 
à virtude o fato de saber que todas as ações, 
boas ou más, ficam registradas na história e 
atingem tanta gente. Por outro lado, tudo o 
que façam visa o povo, juiz que se ilude sem 
maiores percalços e se contenta com pouco. 
Não há muitas coisas que possamos julgar 
com sinceridade, porque não há muitas que 
não nos interessem particularmente de um 
modo ou de outro. À superioridade e a inferio- 
ridade, o senhor e o súdito, acham-se em opo- 
sição € se invejam naturalmente; mas eu não 
acredito nem em uma nem em outra; apenas 
creio.na razão inflexível e impassível. Folhea- 
va, não faz muito, dois livros de autores esco- 
ceses, ambos sobre o mesmo assunto mas de 
pontos de vista opostos. O que toma o partido 
do povo faz do rei um indivíduo desprezível; o 
que defende o monarca coloca-o pouco abaixo 
de Deus. 

Um dos inconvenientes das grandezas, que 
uma circunstância fortuita me revelou recente- 
mente, é o seguinte: não há nada mais agradá- 
vel aos homens do que a luta para ressaltar o 
valor e os méritos do corpo e do espírito. Ora 
dessas coisas a soberana grandeza não parti- 
cipa em absoluto. Parece-me que à força de 
respeitá-los acabamos por tratar aos príncipes 
desdenhosamente. Em minha infância uma 
coisa me ofendia infinitamente: o fato de al- 
guns rapazes não lutarem de verdade contra 
mim nas competições, por não me conside- 
rarem à sua altura. Se alguém percebe que o 


ENSAIOS — HI 421 


príncipe revela algum apego, por pequeno que 
seja, à vitória, não deixa de prestar-se ao jogo, 
preferindo trair a glória a ofender o rei. Em 
consequência, dedicarê à luta tão-somente a 
resistência necessária para que a vitória não 
lhe seja desonrosa. Que papel desempenham os 
príncipes nas justas.em que todos se dispõem a 
perder? São como os paladinos dos tempos 
heróicos, que se apresentavam ao combate 
com armas encantadas. Brisson, em competi- 
ção com Alexandre, deixou que o príncipe 
ganhasse. Este admoestou-o; devia tê-lo açoi- 
tado. É o que levava Carnéades a dizer que “os 
filhos dos príncipes nada aprendem que não 
seja falso, a não ser andar a cavalo”. Em todos 
os demais exercícios cedem os competidores e 
deixam-nos vencer, mas o cavalo, que ignora a 
lisonja, derruba o filho do rei como o faria 
com o filho do lixeiro. 

Homero viu-se forçado a consentir em que 
Vênus, tão delicada e suave, fosse ferida em 
Tróia, a fim dé outorgar-lhe coragem e ousa- 
dia, qualidades que não se agregam a quem 
não corre perigo. Se se admite que os deuses 
sejam sujeitos a cóleras, paixões, temores, ciú- 
mes, sofrimentos, é para poder atribuir-lhes as 
virtudes opostas. Quem não corre risco, nem 
enfrenta dificuldades, não pode pretender 
honrarias nem se beneficiar com o prazer 
das vitórias. É triste ter um poder diante do 
qual tudo se incline; uma tal vantagem repele 
as demais. Essa cômoda e covarde facilidade 
de fazer com que tudo se abaixe diante de si, 
exclui quaisquer satisfações; escorrega-se, não 
se anda; dorme-se, não se vive. Imaginai um 
homem onipotente: eilo angustiado; precisa 
pedir-nos a esmola de uma resistência; sua feli- 
cidade é incompleta e ele sofre com isso. 

As boas qualidades dos reis são como mor- 
tas e inúteis, pois as virtudes só se percebem 
por comparação e as deles nunca se compa- 
ram. Ignoram os louvores de bom quilate por- 
que os aflige uma contínua e invariável apro- 
vação. Ainda que se meçam com o mais 
infimo de seus súditos não poderão auferir o 
prazer da vantagem obtida, pois sempre have- 
rá uma resposta irretorquível: “trata-se de meu 
rei”. E assim dizendo como que dá a entender, 
quem o diz, que se prestou a uma farsa. Pelo 


fato de serem reis, sua grandeza esmaga e 
absorve as demais qualidades reais e essenciais 
que porventura possuam. Por isso só podem 
distinguir-se em seu próprio ofício. E um rei é 
a tal ponto rei que nada mais pode ser. À reale- 
za forma em torno dele uma atmosfera Jumi- 
nosa que o envolve, o esconde e faz que escape 
à nossa vista ofuscada pelo seu brilho. O Sena- 
do romano concedera a Tibério o prêmio de 
eloquência; ele recusou-o, achando que mesmo 
que o merecesse não teria valor o julgamento 
de uma assembléia tão pouco independente. 
Como se outorga aos príncipes tudo o que os 
pode honrar, chega-se a justificar-lhes os vi- 
cios e a agravá-los, não somente os aprovando 
como os incitando. Na corte de Alexandre 
todos inclinavam a cabeça, como ele; e os adu- 
ladores de Dionísio tudo derrubavam diante de 
si para se mostrarem tão míopes como o tira- 
no. Ter hérnia foi não raro um título de 
recomendação; e vi igualmente quem simu- 
lasse a surdez. Plutarco fala de cortesãos que 
repudiavam suas mulheres porque seu senhor 
odiava o sexo fraco. Demais, a libertinagem, a 
dissolução de costumes, a deslealdade, a blas- 
fêmia, a crueldade, a heresia, a superstição, a 
negligência e coisas ainda piores, estiveram 
muitas vezes em voga em consequência de 
maus exemplos, bem mais perigosos do que o 
dos cortesãos de Mitridates, os quais, em virtu- 
de da pretensão de seu senhor de ser um bom 
médico, faziam-se por ele cortar e cauterizar. 
Os outros, é a alma, parte mais delicada e 
nobre de seu ser, que entregam ao cautério. 

Para acabar por onde comecei, lembrarei o 
caso ocorrido com o Imperador Adriano. Dis- 
cutindo com o filósofo Favorino acerca do 
sentido de certa palavra, cedeu este bem 
depressa, e aos amigos que lhe censuravam a 
atitude respondeu: “Por Deus, pois então não 
será mais sábio do que eu quem comanda trin- 
ta legiões!” Augusto escreveu versos contra 
Asínio Polo, o qual observou: “Calar-me-ei; 
não é prudente escrever contra quem pode 
proscrever.” E tinham ambos razão, pois Dio- 
nísio, por não conseguir igualar Filóxeno na 
poesia nen Platão na filosofia, condenou um 
aos trabalhos forçados e vendeu o outro como 
escravo na ilha de Egina. 


422 MONTAIGNE à 


CapíruLo VII 


Da arte de conversar 


É costume de nossos tribunais condenar al- 
guns para exemplo dos outros. Condená-los 
unicamente porque erraram seria inepto, como 
diz Platão. O que está feito não se desfaz; mas 
é para que não tornem a errar ou a-fim de que 
os outros atentem para o castigo. Não se cdorri- 
ge quem se enforca; corrigem-se os demais 
com ele. Eu faço a mesma coisa. É certo que 
os meus erros são naturais e incorrigíveis, mas 
assim como os homens de bem oferecem ao 
povo o exemplo do que este deve fazer, eu os 
convido a não me imitarem: “Não vedes como 
o filho de Albo vive mal e como Barro se tor- 
nou miserável? Bom exemplo: que vos ensine a 
não dissipar vosso patrimônio! 82” Publi- 
cando e criticando minhas imperfeições, ensi- 
narei alguém a temê-las. As qualidades que 
mais aprecio em mim, mais se honram em me 
criticar do que em me elogiar. Eis por que 
volto amiúde a isso, e tanta vez me demoro no 
assunto. Mas não é possível tudo contar de si 
próprio sem que algum prejuízo advenha: acre- 
ditam no mal que dizemos e duvidam do bem. 

Não sei se haverá alguém como eu que mais 
se eduque contrariando os modelos do que os 
imitando, e deles fugindo mais do que os 
seguindo. A essa espécie de disciplina referia- 
se Catão, quando disse que os sensatos apren- 
dem mais com os loucos do que estes com 
aqueles. E Pausânias conta que um velho toca- 
dor de lira tinha por hábito mandar seus disci- 
pulos ouvirem um mau músico que morava em 
frente, a fim de que aprendessem a odiar as 
desafinações e os compassos errados. O horror 
à crueldade incita-me mais à clemência do que 
o faria um modelo de penerosidade. Um bom 
picador não corrige melhor minha maneira de 
montar a cavalo do-que um procurador ou um 
veneziano. E um vício de linguagem, mais do 
que um falar correto, emenda o meu modo de 
exprimir. Todos os dias a tola conduta dos ou- 
tros me adverte e aconselha. O que magoa 
impressiona e desperta mais do que o: que 
agrada. O tempo em que vivemos só nos corri- 
ge às avessas, mais por desacordo do que por 
acordo e mais por divergência do que por 
semelhança. Aprendendo mal com os bons 


162 Horário. 


exemplos, valho-me dos maus, cuja lição é 
acessível. Esforcei-me por me tornar tão agra- 
dável quanto os outros eram irritantes, tão 
firme quanto eram moles, tão brando quanto 
eram duros, tão bom quanto eram maus. Mas 
a tarefa é irrealizâável. 


O mais proveitoso e natural exercício de 
nosso espirito é, a meu ver, a conversação. 
É-me a sua prática mais agradável do que 
qualquer outra. Eis por que, se me coubesse 
escolher, antes consentiria, penso, e.n perder a 
vista do que o ouvido ou a fala. Os atenienses 
e os romanos tinham esse exercício em grande 
conta em suas academias. Em nosso tempo os 
italianos ainda tiram bom proveito dos restos 
que conservaram, como se vê da comparação 
de nosso talento com o deles. A fregientação 
dos livros é uma atividade calma e fraca, que 
não entusiasma, enquanto a conversação ensi- 
na e exercita ao mesmo tempo. Se converso 
com um espírito forte, e rude discutidor, ele 
aperta-me, fere-me à direita e à esquerda e suas 
idéias sugerem as minhas. O ciúme, o amor- 
próprio, a atenção excitam-me e elevam-me 
acima de mim mesmo. O acordo é, na conver- 
sação, qualidade bem aborrecida. Mas assim 
como o nosso espirito se fortalece na convi- 
vência com os espíritos rigorosos e sensatos, 
também se empobrece e degenera pelo comér- 
cio com os vulgares e doentios. Não há doença 
que tão facilmente se espalhe. Sei por expe- 
riência quanto custa. Gosto de discutir e con- 
versar, mas é com pouca gente e para meu pro- 
veito. Pois servir de espetáculo aos grandes e 
fazer exibição de espírito, são coisas que não 
considero recomendáveis em um homem de 
bem.. 

A tolice é péssima qualidade, mas não a 
poder suportar e moer-se por sua causa, como 
me acontece, é também uma doença que nada 
fica a dever à tolice. É o que quero criticar em 
mim, agora. 

Entro em conversa e discussão com grande 
liberdade e facilidade, tanto mais quanto as 
opiniões encontram em mim terreno pouco 
propício a seu desenvolvimento em profundi- 
dade. Nenhuma afirmação me espanta, nenhu- 
ma crença me fere, por contrária: que seja às 
minhas. Não hã fantasia, por frívola e extrava- 


ENSAIOS — HI 423 


gante, que não me pareça compatível com as 
produções do espírito humano. Nós, que priva- 
mos a nossa inteligência do direito de julgar, 
encaramos sem antipatia as idéias alheias e 
damos-lhes ouvidos embora não as acatemos. 
E, em estando completamente vazio um dos 
pratos da balança, que oscile o outro mesmo 
com histórias de mulheres desfrutáveis. 

Acho desculpável preferirem-se os números 
impares; a quinta à sexta-feira; e ser o décimo 
segundo ou décimo quarto à mesa a ser o déci- 
mo terceiro; se, quando, em viagem, vejo de 
bom grado uma lebre a correr ao longo do 
caminho do que a atravessá-lo; calçar primeiro 
o pé esquerdo a calçar o direito. Todas essas 
bobagens em qque acreditam merecem ao 
menos .que se escutem. Para mim pesam mais 
do que nada, mas ainda assim pesam alguma 
coisa. Em matéria de peso, as opiniões do 
vulgo, embora sem fundamento, importam 
mais do que o nada e quem as desdenha total- 
mente, em querendo evitar a superstição, peca 
por obstinação. A contradição das opiniões 
não me ofende nem me exalta, apenas me for- 
nece oportunidades de me exercitar. Não gos- 
tamos de ser corrigidos, e qualquer observação 
nesse sentido deve fazer-se em tom de conver- 
sa. Não procuramos saber se é justa e sim 
como a repelir; em lugar de acolhê-la, arrega- 
nhamos os dentes. A mim seria desagradável 
que meus amigos me criticassem com rudeza: 
“es um tolo, estás a sonhar”; entretanto, gosto 
que sejam sinceros e que suas palavras expri- 
mam exatamente seu pensamento. Cumpre for- 
tificar os ouvidos contra o som lisonjeiro das 
palavras cerimoniosas. Aprecio uma convi- 
vência e familiaridade fortes e viris, uma ami- 
zade feita de aspereza e energia, que se desen- 
volva como o amor, com mordidas e 
arranhões. Não será bastante vigorosa e gene- 
rosa, se não for algo brutal, se se mostrar 
demasiado educada, artificial, contrafeita: 
“Não há conversação sem contradição! 83.” A 
mim, quando me contradizem, despertam-me a 
atenção, não a cólera; aperto meu interlocutor 
e tiro partido de seus argumentos. A busca da 
verdade não deve ser o alvo de' ambos os 
contraditores? Que responder, se a cólera 
toma conta do espírito e o turva logo de iní- 
cio? Seria útil que se fizessem apostas nas 
discussões, apostas que seriam ganhas por 
quem tivesse razão. Constituiriam testemu- 
nhos preciosos das nossas vitórias ou derrotãs 
e nos obrigariam a cuidar de não ouvir nosso 
criado advertir-nos de quando em vez: “no ano 
passado, custou-vos cem escudos o terdes sido 
ignorante e teimoso vinte vezes”. Acolho e fes- 


163 Cicero. 


tejo a verdade, venha de quem vier; rendo-me 
com alegria, entrego-lhe as armas, vencido de 
antemão ao avistâ-la de longe. E se não o 
fazem com demasiada agressividade, aceito 
quaisquer críticas a meus escritos; corrigi-os 
mais de uma vez, antes por cortesia do que por 
achá-los errados; gosto de encorajar as pes- 
soas a me criticarem livremente e procuro 
recompensá-las, embora a expensas minhas. 
Todavia, é sem dúvida difícil levar os homens 
de minha época a pensarem de igual modo; 
não se animam a corrigir os outros porque não 
têm a coragem de suportar que os corrijam; € 
sua linguagem, quando em presença uns dos 
outros, carece de franqueza. Tenho tanto pra- 
zer em ser julgado e apreciado, que me é indi- 
ferente a maneira por que o fazem. Minhas 
idéias são amiúde tão contraditórias que se 
condenam sozinhas e pouco me importa que 
outro as condene também, tanto mais quanto 
dou à crítica uma importância relativa. Mas 
aborrece-me quem assume uma atitude supe- 
rior (como alguém que conheço) e se ofende se 
não o seguimos. 

Vendo-se Sócrates acolher sorridente as 
observações que lhe faziam, pode-se dizer que 
era por causa de seu valor e porque vencia 
sempre. Aceitava portanto os reparos como 
pretexto para conquistar novas glórias. Na 
realidade, nada nos torna a sensibilidade mais 
delicada do que o valor que atribuímos ao 
adversário e o desprezo em que ele nos tem; 
por isso, nem que seja por prudência, deve o 
mais fraco aceitar de bom grado as críticas 
que o corrijam e fortaleçam. No que me diz 
respeito, procuro mais a convivência dos que 
se mostram severos do que a dos temerosos. É 
prazer insipido e prejudicial tratar com gente 
que nos admira sempre e sempre nos segue. 
Antístenes recomendava a seus filhos que não 
fossem reconhecidos a quem os lcuvasse. 
Muito mais me orgulho com a vitória obtida 
sobre mim mesmo quando, no ardor da discus- 
são, me curvo sob o peso das razões do meu 
adversário, do que com a sua derrota se se re- 
vela fraco. Em suma, recebo e acuso todos os 
golpes leais, por mais fracos que sejam, mas 
suporto com dificuldade aqueles cuja forma 
deixa a desejar Importa-me pouco o assunto 
em debate, as opiniões emitidas são-me indife- 
rentes, bem como a vitória. Discutirei um dia 
inteiro, se a discussão se processar com ordem. 
Interessam-me menos a sutileza e o vigor do 
que a ordem nas idéias, essa ordem que sub- 
siste entre os pastores e caixeirós, mas não 
entre nós. São por vezes indelicados e o 
mesmo fazemos, mas suas impaciências não qs 
afastam do assunto; a discussão prossegue e, 
se falam sem aguardar sua vez, ao menos 


424 


entendem-se. Qualquer resposta me satisfaz se 
vem a propósito, mas quando a discussão se 
perturba e se torna desordenada, abandono o 
assunto, prendo-me à forma, indiscretamente, 
e ponho-me a discutir com uma malícia'e uma 
agressividade que, ao depois, me envergo- 
nham. É impossível discutir de boa fé com um 
tolo. E não é apenas, então, meu julgamento 
que se corrompe, é também minha consciência. 

As discussões deveriam ser regulamentadas 
como outros crimes verbais. Quantos vícios 
suscitam e acumulam em nós, governadas pela 
cólera! Começamos por hostilizar os argu- 
mentos e acabamos inimigos dos homens! Só 
aprendemos a discutir para contraditar, e 
acontece, em meio às contradições recíprocas, 
perder-se e aniquilar-se a verdade. Por isso 
Platão, em sua República, proíbe tal exercício 
aos espíritos ineptos e mal formados. Por que 
buscar a verdade em companhia de quem não 
tem capacidade para tentá-lo? Não se preju- 
dica o assunto discutido, quando o deixamos 
um momento de lado, a fim de acertar o méto- 
do de tratá-lo; não me refiro aos métodos esco- 
lásticos e artificiais e sim aos meios naturais, 
peculiares às inteligências sadias. Que se veri- 
fica de outro modo? Cada qual puxa para seu 
lado; perde-se de vista o essencial na confusão 
do acessório. Ao fim de uma hora de disputa já 
não se sabe o que se procura. Um se distancia, 
outro se desvia; um se apega a uma palavra, 
outro a uma analogia. Outro, ainda, no auge 
do entusiasmo, não entende o que se lhe obje- 
ta; cada qual pensa em si somente, e não em 
nós. Hã quem, sentindo-se fraco, tudo con- 
funda de entrada, tudo baralhe, tudo recuse; ou 
finja concordar, afetando, por ignorância e 
despeito, um orgulhoso desdém ou uma estú- 
pida humildade. Outro, conquanto fira, não se 
importa se se descobre. Outro, pesa as pala- 
vras e as toma por argumentos. Outro faz valer 
a voz e os pulmões; ou conclui contra si 
mesmo. E há quem nos ensurdeça com intrói- 
tos e digressões inúteis. E hã também quem se 
arme de injúrias e levante objeções sem funda- 
mento para se libertar da companhia e da 
conversação de um espírito que o perturba. 
Outro enfim não raciocina de modo nenhum, 
mas envolve-nos em uma dialética de cláusulas 
e fórmulas. 

Ora, quem não há de desconfiar da ciência, 
“das letras que nada curam! 8 *)? e duvidar que 
delas se tire algum resultado sério, dado o uso 
que fazemos delas? A quem deu, a lógica, inte- 
ligência e juízo? Que é feito de suas promes- 
sas? “Não ensina nem a viver melhor nem a 
bem pensar! 85º” Haverá mais confusão no 


164 Sêneca. 
165 Cicero. 


MONTAIGNE 


palavrório das regateiras do que nos discursos 
dos profissionais? Preferiria que um filho meu 
aprendesse a falar antes nas tabernas do que 
nas escolas de elequência. Escolhei um profes- 
sor de eloquência; conversai com ele. Por que 
motivo não se contenta com fazer-nos sentir a 
sua superioridade nessa arie, com deslumbrar 
as mulheres, e os ignorantes como nós, 
mediante a admirável precisão de suas razões e 
a beleza de seus discursos? Por que não se 
satisfaz com dominar-nos e persuadir-nos a 
seu talante? Por que razão esse homem tão 
avantajádo em saber e talento mistura a suas 
possibilidades naturais, injúrias, insultos e 
furores? Que se desfaça da toga e do latim, e 
não nos encha os ouvidos com Aristóteles nu e 
cru, e o tomareis por um de nós, ou menos 
ainda. As combinações e requintes de lingua- 


gem com que nos aborrecem semelham-se a 
passes de pelotiqueiros; sua sutileza vence nos- 
sos sentidos mas não nos abala a convicção; 
fora de tais peloticas nada fazem que não seja 
vulgar e vil. E não é porque são sábios que são 
menos tolos. Amo e honro o saber, bem como 
os que o possuem: empregado com critério é a 
mais nobre e poderosa aquisição do homem. 
Mas naqueles (e são em número infinito) que 
nele assentam sua capacidade e seu valor, 
naqueles cuja inteligência se encontra inteira 
na memória (abrigados à sombra alheia, como 
diz Sêneca), que nada podem sem seus livros, 
eu os detesto mais ainda que a imbecilidade. 
Em minha terra, nesta época, a sabedoria endi- 
reita as bolsas mas só raramente melhora os 
espiritos; se estes são obtusos, sufoca-os com 
sua massa informe e indigesta; se são agudos 
torna-os tão sutis que os esgota. É coisa sem 
qualidade própria; utilíssimo acessório às 
inteligências bem formadas, mas pernicioso às 
outras,ou antes, preciosíssimo, porém de custo 
elevado. Em certas mãos é um cetro e noutras 
o chocalho do bobo do rei. Mas passemos 
adiante. 

Haverá mais bela vitória do que mostrar ao 
adversário que não nos pode vencer? Quando 
o assunto vence, vence a verdade; quando ga- 
nham a ordem e o método, ganhamos nós. 
Acho que, em Platão e Xenofonte, Sócrates 
discute mais para os participantes do que pela 
discussão mesma, e mais para instruir Euti- 
demo e Protágoras acerca de suas Ra 
tolices do que de sua arte. Qualquer assunto 
serve de pretexto, porque seu objetivo está 
menos em elucidar do que ser útil, isto é, escla- 
recer os espíritos que sonda e exercita. A caça 
é de nossa alçada, não é desculpável que a con- 
duzamos mal; quanto a errar o golpe, é outra 
coisa. Não está, como dizia Demócrito, enter- 
rada no fundo de um abismo; antes se eleva ao 


| 
ENSAIOS — HI ' 


infinito até se tornar conhecida unicamente de 
Deus. O mundo não passa de uma escola de 
investigação. Não ganha quem corre mais, 
mas quem corre melhor. E tanto pode dizer 
tolices quem diz a verdade como quem mente, 
pois aqui não se trata do assunto e sim da 
forma. Quanto a mim, olho igualmente para o 
conteúdo como pará o continente, tanto para o 
advogado como para a causa, seguindo nisso o 
conselho de Alcibiades. Todos os dias divirto- 
me com ler autores, sem cuidar do que sabem, 
analisando-lhes a maneira e não o tema. Ocor- 
re-me também procurar entrar em relações 
com dado espírito famoso, não para que me 
ensine, mas para o conhecer. Todos podem 
dizer verdades, mas dizê-las com ordem, sen- 
satez e pertinência poucos o fazem. Por isso 
não me ofendo com o erro que vem da igno- 
rância e sim com a inépcia. Rompi várias 
negociações, úteis para mim, só por causa da 
estupidez das contestações daqueles com quem 
eu negociava. Não me irrito sequer uma vez 
por ano com as faltas de meus subordinados, 
mas no que concerne à burrice e à teimosia de 
suas desculpas, e à imbecilidade delas, diaria- 
mente me aborreço com eles. Não entendem o 
que lhes dizem, nem atinam com o porquê; e 
de igual modo respondem: é de desesperar. 
Somente outra cabeça pode impressionar a 
minha e acomodo-me melhor com as insufi- 
ciências dos meus do que com sua audácia, 
impertinência e estupidez. Que façam menos, 
mas alguma coisa que saibam fazer. Vive-se na 
esperança de excitar-lhes a vontade, mas nada 
há que arrancar de um pedaço de pau. 

Talvez, entretanto, julgue eu as coisas dife- 
rentes do que são. Eis por que censuro minha 
impaciência e confesso que é uma falha, tanto 
em quem tem razão como em quem não a tem, 
porque é sempre rispidez tirânica não suportar 
maneiras diferentes da nossa, e não há maior 
tolice, nem mais absurda, do que impressio- 
nar-nos € irritar-nos com as tolices alheias. Em 
geral isso nos aborrece a nós mesmos, e o filó- 
sofo antigo! 86 nunca houvera perdido a opor- 
tunidade de chorar se se olhasse para si 
mesmo. Mison, um dos sete sábios, cujo espi- 
rito tinha algo de Timon e de Demócrito, inter- 
ragado por que se ria sozinho, respondeu: 
“Exatamente porque estou a rir sozinho.” 
Quantas tolices ouço dizer e responder diaria- 
mente! E quantas, em maior número ainda, 
devem os outros ouvir de mim! Se mordo os 
lábios para delas não rir, que farão os outros? 
“Afinal cumpre-nos viver com os vivos e deixar 
correr o marfim, sem nos preocuparmos ou, ao 
menos, sem nos encolerizarmos. Pois não 


186 Heráclito. 


425 


deparamos com gente disforme, ou aleijada 
sem que nos irritemos? A irritação provém 
antes do juiz que do crime. Tenhamos sempre 
em mente estas palavras de Platão: “O que 
considero errado, não o considerarei por estar 
eu próprio em condições anormais? Não serei 
eu o culpado? Não poderá minha observação 
voltar-se contra mim??? Sábio e divino preceito 
que fustiga o erro mais comum e universal dos 
homens! Não somente as censuras que faze- 
mos uns aos outros como também as razões e 
argumentos e os temas de nossas controvérsias 
podem voltar-se contra nós e ferir-nos. A esse 
propósito legou-nos a antiguidade exemplos 
edificantes. Falou muito bem e agudamente 
quem disse que “cada qual aprecia o odor de 
seu esterco”. Nossos olhos não vêem para trás. 
Cem vezes por dia zombamos de nós mesmos 


ao zombarmos de nosso vizinho; os defeitos 
que detestamos em outrem são ainda mais visi- 
veis em nós e no entanto os admiramos com 
maravilhosa impudência sem perceber a con- 
tradição. Ainda ontem pude ver um homem 
inteligente e fidalgo zombar com graça e justi- 
ça de outro que anda a aborrecer meio mundo 
com suas genealogias e parentescos quase 
todos falsos (são os que têm qualidades mais 
duvidosas que se abalançam com maior entu- 
siasmo a tais pesquisas); mas ele próprio, se 
houvesse reparado em si, não se acharia menos 
cacete em valorizar fora de propósito a linha- 
gem da mulher. Que infeliz vaidade leva esse 
marido a fornecer armas à sua própria esposa! 
Se nos putlesse entender, caberia dizer-lhe: 
“Coragem! se a não achas bastante louca, 
excitas-lhe ainda a. loucura! 87.” Não quero 
sugerir com isso que somente os puros têm o 
direito de criticar, pois então não haveria criti- 
cos; não nego tampouco esse direito a quem 
exibe falha idêntica à censurada; mas acho 
que, quando criticamos alguém, não nos deve- 
mos poupar. E dever de caridade tentar arran- 


“car dos outros um defeito, ainda que não o 


possa arrancar de si próprio quem o faz. Não 
me parece certo dizer a quem me adverte de 
um defeito que também o encontro nele. E por 
quê? Porque uma advertência justificável é 
sempre útil. Se tivéssemos bom olfato, senti- 
riamos mais desagradavelmente os nossos 
maus odores exatamente porque são nossos. 
Sócrates era de opinião que se alguém come- 
tesse algum crime, juntamente com seu filho e 
um estranho, deveria começar por se apresen- 
tar ao carrasco e provocar sua própria puni- 
ção; só depois faria o mesmo como filho e por 
último com o estranho. Esse preceito pode 
parecer algo severo, mas quem se acha culpa- 


167 Terêncio. 


426 


do deve ser o primeiro a entregar-se ao castigo 
da própria consciência. 

Os sentidos são nossos próprios juízes e os 
primeiros a julgar-nos; como só percebem as 
coisas pelos acidentes exteriores, não é de 
estranhar que, em todos os atos da sociedade, 
haja sempre, em toda parte, quantidade de 
cerimônias em que as aparências desempe- 
nham papel importante e constituem a parte 


mais eficiente dos regulamentos. Temos sem-' 


pre que tratar com homens, e nestes o que é 
tangível se sobrepõe ao que não o é.:Os que 
quiseram “introduzir nestes últimos anos um 
culto exclusivamente contemplativo e imate- 
rial! 8º, não se devem admirar de haver quem 
pense que não seria mantido, se já não se hou- 
vesse tornado, entre nós, instrumento de divi- 
são e discórdia; graças a isso é que vai duran- 
do. O mesmo se verifica na conversação: a 
gravidade, o traje, a condição social de quem 
fala dão muitas vezes crédito a palavras vãs e 
ineptas; pois é de presumir que um senhor tão 
cortejado e temido tenha dentro de si alguma 
qualidade invulgar, e que um homem que 
ocupa cargos tão importantes e se mostra tão 
insolente e altivo, seja mais talentoso do que o 
outro que o saúda de longe e ninguém empre- 
ga. E não somente as palavras, mas também os 
gestos e as caretas dessas pessoas são notadas 
e interpretadas de modo lisonjeiro. Se se dig- 
nam conversar com outros, e não recebem 
toda aprovação e deferência, esmagam-nos 
com a autoridade de sua experiência. Ouviram, 
viram, fizeram e enchem-nos de exemplos. 
Gostaria de dizer-lhes que o fruto da expe- 
riência de um cirurgião não consiste apenas 
em historiar suas operações, nem em lembrar 
que curou quatro pestíferos e três gotosos, mas 
em saber tirar da prática maior perspicácia e 
em demonstrar que se fez mais hábil em sua 
arté. Deve ser como um concerto, em que não 
se ouve o alaúde, ou a espineta, ou a flauta, 


mas uma harmonia total, soma de todos os 


instrumentos. Se as viagens e OS cargos Os 
melhoraram, que o comprove seu espírito. Não 
basta enumerar experiências; é preciso ainda 
classificá-las e ponderar-lhes o valor; cumpre 
examiná-las de perto, analisá-las, a fim de 
extrair as conclusões e as razões que compor- 
tam. Nunca houve tantos historiadores. É sem- 
pre útil e agradável ouvi-los porque nos fran- 
queiam o armazém de sua memória, cheio de 
informações belas e dignas de elogios. Trata-se 
por certo de um grande auxílio na vida, mas 
não é, no momento, o que buscamos. O que 
queremos saber é se esses compiladores e nar- 
radores são eles próprios louváveis. 


188 Os protestantes. 


MONTAIGNE 


Detesto toda espécie de tirania, tanto de 
palavras como de fatos. Reteso-me contra as 
circunstâncias vãs que iludem nosso julga- 
mento pelos sentidos; e observando atenta- 
mente esses homens que cumulam grandezas, 
verifiquei tratar-se na maioria dos casos de 
gente como outra qualquer e “o bom senso se 
encontra raramente em pessoas de tão alto 
coturno! 7º”. Não raro, porque empreendem 
coisas mais ousadas e se expõem mais, julga- 
mo-las e vemo-las menores.do que são, pois 
não suportam então o fardo que tentam carre- 
gar. É preciso que o carregador tenha mais 
vigor do que pesa a carga, pois assim nos suge- 
re que pode carregar mais e que' não está 
dando tudo. E o que sucumbe ao peso revela a 
fraqueza de seus ombros. Daí verem-se tantos 
tolos entre os sábios, gente que teria dado bons 
criados, agricultores, artífices. Para tanto não 
careceriam de habilidade natural. A ciência é 
pesada demais para eles e os esmaga. Seu 
engenho e vigor não bastam para que possam 
mostrar e distribuir, empregar e manejar tão 
rico e poderoso material. Só as naturezas for- 
tes são capazes de tal esforço, e elas são raras. 
Os fracos; diz Sócrates, em a exercendo, cor- 
rompem a dignidade da filosofia. Torna-se ela 
inútil e viciada quando entregue aos incapazes, 
os quais a estragam e prejudicam. “Como um 
macaco que um menino vestiu de vestes de 
seda para fingir de homem, mas deixou o tra- 
seiro descoberto, para alegria dos convi- 
vas! 71. 22 

Assim, Os que nos regem e governa, os que 
têm o mundo nas mãos, não devem possuir 
apenas uma inteligência vulgar e poder o que 
podemos; se não estiverem muito acima de 
nós, ficarão muito abaixo. Prometem mais, 
logo devem mais. Portanto, o silêncio serve- 
lhes não só para assumirem uma atitude ceri- 
moniosa e grave, mas também para se precave- 
rem e auferirem proveitos da situação. 
Megabizo fora visitar Apeles e permanecera 
muito tempo sem dizer nada. Tendo-se deci- 
dido a discorrer, em seguida, acerca das obras 
do pintor, recebeu esta rude reprimenda: 
“Enquanto te conservaste-calado, eras soberbo 
com teus colares e tua magnificência; agora 
que te puseste a falar, até os meus aprendizes 
se riem de ti.” Seus adornos, sua condição so- 
cial não lhe autorizavam uma ignorância igual 
à do vulgo e a falar ineptamente de pintura. 
Devera ter-se mantido silencioso para conser- 
var a presunção de capacidade que seu exterior 
sugeria. À quantos espíritos medíocres um ar 
taciturno e distante tem servido de marca de 


120 Juvenal. 
171 Claudiano. 


ENSAIOS — HI 


prudência e capacidade! As dignidades e os 
cargos dão-se necessariamente mais por acaso 
do que pelo mérito; mas não temos razão de 
censurar os reis. É ainda espantoso que acer- 
tem com tão reduzidas possibilidades de infor- 
mação. “A maior qualidade dos príncipes é 
conhecer os que empregam! 72”, pois, não lhes 
tendo dado a natureza uma vista suficiente 
para alcançar tanta gente, e discernir os 
melhores, e ver dentro de cada um seu valor 
próprio, são forçados a escolher por intuição, 
às apalpadelas, pelo sangue, pelas riquezas, 
pelo saber, pela voz do povo, indícios, todos, 
bem fracos. Quem encontrasse o meio de jul- 
gar os homens com razão € justiça, asseguraria 
uma perfeita organização dos serviços públi- 
cos. Mas, ouve-se dizer “mas ele deu conta do 
recado”. É uma razão, mas não basta, pois há 
uma máxima que diz: “não se deve julgar o 
valor das idéias pelos resultados”. Os cartagi- 
neses puniam seus capitães quando julgavam 
mãs as medidas tomadas, ainda que o resul- 
tado final as corrigisse. O povo romano recu- 
sou muitas vezes as honras do triunfo a gene- 
rais que haviam alcançado grandes e úteis 
vitórias, por considerar que seu procedimento 
não correspondia à sua sorte. Vê-se não raro 
neste mundo o acaso comprazer-se em dimi- 
nuir nossa presunção, como que para mostrar 
quanto pode. Não podendo tornar avisados os 
incapazes, torna-os felizes, em oposição ao que 
determinaria a virtude. Amiúde favorece as 
empresas que tramou sozinho. Por isso vemos 
diariamente os mais simples dentre nós levar a 
cabo grandes cometimentos públicos ou parti- 
culares. O persa Siranez respondeu a alguém 
que se espantava com a má situação de seus 
negócios, embora tão sensatos fossem seus pla- 
nos, que só podia responsabilizar-se por estes; 
quanto ao resultado, dependia do destino. Essa 
gente inábil e feliz a que aludi, poderia dar a 
resposta inversa. Na verdade, as coisas do 
mundo fazem-se, em sua maioria, por si mes- 
mas, “o destino abre-lhes o caminho! 732. O 
resultado justifica muitas vezes uma conduta 
inepta; nossa intervenção é quase um hábito 
rotineiro e as mais das vezes provocada pelos 
usos e costumes e não pela razão. Espantado 
com as consequências de uma empresa capital 
em nossa época” 74, procurei saber, dos que a 
levaram a cabo suas razões e meios; verifiquei 
que eram vulgares. Ocorre que os mais vulga- 
res são os mais eficientes e seguros na prática, 
conquanto não sejam os mais sedutores. Que 
fazer, se os que têm menos valor são os mais 


172 Marcial. 
173 Virgílio. 
174 Provavelmente os sucessos da noite de S. 
Bartolomeu. 


427 


convenientes? E se os mais baixos e mais gas- 
tos melhor se adaptam aos empreendimentos? 
Para que o Conselho dos Reis conserve sua 
autoridade é preciso que os profanos não assis- 
tam às sessões. Quem quiser que se mantenha 
intata a sua reputação, deve acatá-lo sem lhe 
discutir as determinações. Quando me consul- 
to, esboço apenas o tema de minhas reflexões e 
o encaro superficialmente nos seus primeiros 
aspectos; o principal da tarefa, tenho por hábi- 
to confiá-lo ao céu: “Deixa aos deuses o 
resto! ts» 


A boa e a má sorte são, a meu ver, dois 
poderes soberanos. É insensato pensar que a 
sabedoria humana possa desempenhar o papel 
do destino. Vã é a empresa de quem presume 
abraçar causas e consequências e conduzir os 
fatos pela mão. Principalmente nas coisas mili- 
tares. Nunca se viu na guerra tanta circunspe- 
ção e prudência como entre nós; será porque 
temem perder-se em caminho e se reservam 
para a catástrofe final? 


Vou mais longe, e sustento que a nossa pró- 
pria sabedoria e as nossas deliberações são, as 
mais das vezes, guiadas pelo acaso. Minha 
vontade e meu raciocínio pendem ora para um 
lado ora para outro e muitos desses movimen- 
tos se produzem sem minha intervenção. 
Minha razão é sujeita a impulsos e agitações 
diárias e fortuitas. “Nada varia tanto quanto 
as disposições da alma; uma paixão perturba- 
a, mas mudem os ventos e outra a arrasta- 
rá! 78 Observe-se quem são os mais podero- 
Sos nas cidades e quem vence nos negócios. 
São em geral os menos hábeis. Tem ocorrido 
que mulheres, crianças e loucos governem 
grandes nações tão bem como os mais capa- 
zes. Entre os príncipes que triunfaram afirma 
Tucídides serem mais comuns os grosseiros do 
que os sutis. Atribuímos entretanto à sua sabe- 
doria os êxitos que deveram ao acaso: “Se vos 
elevardes pela sorte hão de louvar-vos o talen- 
to! 77º Isso demonstra que os acontecimentos 
são frágeis testemunhos de nosso valor e 
capacidade. 


Dizia, acima, que basta considerar um 
homem de elevada situação social; ainda que o 
julgássemos sem valor três dias antes, insensi- 
velmente passamos a imaginar que devia ter 
capacidade e persuadimo-nos, ante sua condi- 
ção presente e sua importância, de que seus 
méritos também se ampliaram. Apreciamo-lo 
não mais segundo o seu valor, mas de acordo 
com as suas prerrogativas. Que a sorte mude 
porém, que ele caia e volte a misturar-se à mul- 


175 Horácio. 
176 Virgílio. 
177 Plauto. 


428 


tidão, logo indagaremos com espanto por que 
motivo se guindara tão alto. Diremos: “será o 
mesmo?? “Era pois tudo o que sabia?” 
“Estávamos em verdade em boas mãos!” É o 
que tenho visto seguidamente. E até no teatro a 
grandeza nos impressiona e ilude. O que admi- 
ro.eu próprio nos reis são os admiradores; 
diante deles tudo deve inclinar-se, salvo a 
inteligência, pois não foi à razão que ensinei a 
curvar-se, foi aos joelhos. Tendo alguém per- 
guntado a Melanto o que pensava de uma tra- 
gédia de Dionísio, respondeu: Não a vi, a ênfa- 
se ofusca-a. Os que julgam os discursos dos 
grandes em geral deveriam dizer também: não 
Os ouvi, ofuscavam-nos a gravidade e a majes- 
tade de suas palavras. Antístenes aconselhou 
de uma feita aos atenienses que empregassem 
seus burros nos trabalhos da terra, como fa- 
ziam com os cavalos. Responderam-lhe que o 
animal não nascera para tais serviços, ao que 
ele replicou: não faz mal, basta decretá-lo; 
pois por mais ignorantes e incapazes que 
sejam, não se tornam logo muito dignos do 
encargo os homens a quem entregais a direção 
da guerra? Daí o costume, comum a tantos 
povos, de canonizar os reis que elegem; não se 
contentam com honrá-los, adoram-nos. No 
México já não ousam olhá-los de frente mal 
terminam as cerimônias da sagração. Como se 
o tivessem divinizado pela realeza, entre os 
juramentos que lhes fazem prestar de mante- 
rem a religião, as leis, as liberdades, de serem 
valentes, justos e urbanos, obrigam-nos a pro- 
meterem que o sol continuará a brilhar, que 
haverá chuvas em tempo oportuno, que os rios 
seguirão seu curso regular e a terra produzirá 
as coisas necessárias ao povo. 


É principalmente: quando a vejo acompa- 
nhada de grandezas e de popularidade que des- 
confio da competência, indo assim de encontro 
a uma tendência assaz espalhada. É preciso 
atentar para a vantagem de falar quando se 
quer, de escolher o assunto, de interromper ou 
desviar a discussão com autoridade, de se 
defender das objeções alheias, com um simples 
movimento de cabeça, um sorriso, um silêncio, 
diante de uma assistência que treme de respei- 
to. Um homem de condição social excepcional, 
dando sua opinião acerca de uma questão de 
nonada que se discutia à mesa, assim come- 
çou: só um mentiroso ou ignorante poderia 
negar que, etc. Eis um argumento filosófico 
apresentado de punhal na mão. 

Por princípio considero também que nas 
discussões e conversas não devemos aceitar 
sem reflexão os ditos que nos parecem felizes. 
A maior parte dos homens é rica de compe- 
tência alheia. Pode ocorrer que uma pessoa 
cite uma bela frase, uma resposta ou sentença 


MONTAIGNE 


sem lhes perceber o alcance exato. Não assimi- 
lamos tudo o que tomamos de empréstimo. 
Não devemos ceder desde logo a um argumen- 
tc, por mais belo que se nos afigure. Cumpre 
refutá-lo francamente se estamos à altura de 
fazê-lo, ou bater em retirada sob qualquer pre- 
texto para melhor ponderá-lo, examinando-o 
no sentido empregado pelo autor. Pois poderia, 
de outra maneira, acontecer que nos lançás- 
semos diante do ferro, aumentando a violência 


do golpe. Apertado pelo adversário, e no 
tumulto da luta, empreguei não raro réplicas 
que foram muito mais eficientes do que espe- 
rara e que, na realidade, eu dera tão-somente 
para não me confessar sem resposta. Quando 
discuto com um adversário vigoroso, aconte- 
ce-me também antecipá-lo nas conclusões, 
poupando-lhe o trabalho de se explicar e pro- 
curando adiantar-me às idéias ainda imper- 
feitas que pretende exprimir, pois a ordem e à 
Justeza de seu raciocínio advertem-me e amea- 
çam-me de longe. Com outros, procedo de 
modo contrário, aguardo que se expliquem 
integralmente. Quando se atêm a generalidades 


e acertam, cabe verificar se não acertaram por 


acaso. Insisto para que precisem sua opinião, 
que digam como e por quê. As apreciações 
gerais, tão comuns, nada significam. Os que as 
emitem dão a impressão dessas pessoas que 
saúdam um vovo inteiro em binco, sem discri- 
minar. Os que têm conhecimentos reais, saú- 
dam pelos nomes, individualmente. Mas a 
empresa é arriscada. E tenho visto amiúde 
espiritos mal preparados para a empreitada 
fazerem-se de perspicazes, anotando na leitura 
de uma obra o trecho mais belo mas o esco- 
lhendo tão mal que, em lugar de realçar (o 
talento do autor, revelam sua própria ignorân- 
cia. Temos certeza de não errar quando excla- 
mamos “como é belo” após a leitura de um tre- 
cho de Virgílio, e os espertos assim fazem. 
Mas empreender segui-lo passo a passo e, atra- 
vés de juízos lúcidos e pertinentes, mostrar 
como um escritor se realiza, analisar as pala- 
vras e as frases, e os achados, nãc é coisa da 
alçada de qualquer um. “Deve-se não somente 
analisar as palavras, mas ainda as opiniões e 
os fundamentos delas! 78.” 

Ouço seguidamente tolos dizerem coisas 
acertadas. Resta saber se entendem o que 
dizem e de onde o tiraram. Muitas vezes nós é 
que os ajudamos a empregar uma frase ou um 
argumento que não são de sua autoria; têm- 
nos em reserva e os apresentam ao acaso;.nós 
é que lhes damos importância e valor. Nós é 
gue lhes estendemos a mão. Para quê? Não 


178 Cicero. 


ENSAIOS — HI 


nos ficam gratos por isso e não se tornam 
menos ineptos. Não os ajudemos, portanto, 
deixemo-los soltos; manejam essas frases 
como gente que tem medo de se escaldar; não 
ousam tocá-las, nem mudá-las de lugar, nem 
aprofundá-las. Uma sacudidela bastaria para 
que as deixem cair, para que as abandonem, 
embora fortes e belas. São boas armas porém 
mal encabadas. Quantas vezes fiz a experiên- 


cia! Mas se nos pusermos a esclarecê-las e 
confirmá-las, tirarão vantagem da interpreta- 
ção: “era o que queria dizer, afirmarão. Era a 
minha idéia, se não a exprimi assim foi porque 
me faltou a palavra”. Insistimos. É preciso al- 
guma malícia para corrigir esses vaidosos 
imbecis. A máxima de Hegésias (que é preciso 
não odiar nem censurar, mas ensinar) tem sua 
razão de ser, porém no caso. parece-me injusto 
e desumano socorrer e emendar quem o não 
sabe aproveitar. Que se enleiem e se embara- 
cem quanto possível para que afinal se 
conheçam ! 


A tolice e a insensatez não se curam com 
conselhos. Dessa cura pode-se dizer o que Ciro 
respondeu a quem o aconselhava a exortar seu 
exército antes da batalha: “os homens não se 
tornam valentes e guerreiros só por ouvirem 
uma boa arenga, como ninguém se torna 
imediatamente músico só por ouvir uma bela 
canção.” É preciso uma longa e prévia apren- 
dizagem. Cumpre-nos ter esse cuidado com os 
nossos; cabe-nos ensinâ-los e corrigi-los; mas 
ir pregar ao primeiro sujeito que passa, escla- 
recer qualquer ignorante que se encontre é prá- 
tica que reprovo. Raramente o faço, mesmo 


nas minhas conversações, e prefiro sustá-las a 


ter de corrigir como um mestre-escola. Não sei 
falar nem escrever para principiantes; e nas 
conversações de ordem geral de que partici- 
po, ou a que assisto, por falso e absurdo que 
seja o que ouço, nunca procuro contrariar nin- 
guém; nem por palavras nem por sinais. Nada 


me irrita mais, porém, na estupidez, do que a 


satisfação com que se exibe, maior do que 
poderia ter, com certa razão, a inteligência. É 
pena que a Prudência nos proíba a satisfação e 
a confiança em nós e nos deixe sempre descon- 
tentes e intimidados, enquanto a teimosia e a 
audácia enchem os que as têm de alegria e 
segurança. São sempre os menos capazes que 
olham os outros de cima e voltam da luta 
cheios de orgulho e disposição. Não raro a 
fatuidade da linguagem e a jovialidade que 
demonstram já lhes dão ganho de causa peran- 
te uma assistência em geral fraca e incapaz de 
julgar a verdadeira superioridade. A obstina- 
ção e a convicção exagerada são a prova mais 
evidente da estupidez. Haverá algo mais afir- 


429 


mativo, resoluto, desdenhoso, contemplativo, 
grave e sério do que um burro? 

Podemos também tratar, neste capítulo, 
acerca da conversa e da discussão, dos propó- 
sitos trocados na intimidade, entre amigos que 
zombam e gracejam uns dos outros. É um 
exercício em que se compraz minha vivacidade 
natural, e se não é tão sério como aquele de 
que acabo de falar, não é menos fino nem 
menos proveitoso. Era o que pensava Licurgo. 
No que me diz respeito, ponho nele mais liber- 
dade do que sal e mais espírito de oportuni- 
dade do que imaginação; e suporto muito bem 
Q revide, ainda que âàspero e excessivo, sem me 
irritar. Se quando me atacam não encontro 
com que responder de imediato, não me apego 
a respostas aborrecidas e frouxas, teimosa- 
mente; deixo passar, curvo-me de bom grado e 
aguardo ocasião propícia para a desforra. Não 
há negociante que sempre ganhe. Entretanto, 
em sua maioria, as-pessoas mudam de cor e de 
voz em lhe faltando força; e em lugar de se vin- 
garem denunciam assim sua fraqueza e sua 
irritação. Com os gracejos tocamos por vezes 
cordas secretas de nossas imperfeições que, 
serenamente, não tocariamos sem nos ofender; 
desse modo avisamo-nos uns aos outros de 
nossos defeitos. 

Há outros jogos em França que aborreço 
mortalmente; violentos, grosseiros, levam fa- 
talmente às vias de fato. Tenho a pele sensível 
e já vi enterrarem dois príncipes de sangue 
real. É feio bater-se brincando! 7º. E quando 
desejo Julgar alguém pergunto- lhe até que 
ponto está satisfeito consigo, em que medida o 
que pensa e diz O satisfaz. Procuro evitar que 
responda com desculpas esfarrapadas: fiz, por 
brincadeira, “a obra foi tirada da forja antes de 
terminada! 8º? não levei uma hora a fazê-la, 
não a tornei a ver. A tais desculpas respondo: 
pois deixemos isso de lado e dai-me uma obra 
que vos represente bem e pela qual quereis ser 
Julgado. ,E acrescento: Que achais melhor 
nesta obra? Isso ou aquilo? A graça, a matê- 
ria, a fantasia, o raciocínio, o saber? Por que 
vejo que habitualmente tanto se erra na apre- 
ciação do trabalho próprio como na do alheio. 
Não somente pela afeição que interfere mas 
também por falta de competência. A obra, por 
sua própria virtude e por efeito do acaso, pode 
ultrapassar o autor. Quanto a mim nada me 
custa tanto a avaliar quanto o meu próprio tra- 
balho; considero os “Ensaios” ora bons ora 
ruins, com inconstância e indecisão. Há livros 
úteis pelo assunto mas que não valorizam os 
autores, e bons livros à semelhança de certas 


175 Montaigne refere-se as justas. (N. do T.) 
180 Ovídio. 


430 


tarefas que envergonham o artífice. Posso 
escrever sobre as regras de bem comer e de 
bem vestir, e escrever de má vontade; posso 
publicar os editos de nosso tempo e as missi- 
vas dos principes que desempenharam mis- 
sões, ou fazer um resumo de um bom livro 
(embora todo resumo de um livro seja absur- 
do) que venha a perder-se, e outras tantas coi- 
sas análogas. Tais obras poderão ser de grande 
utilidade para os pósteros, mas a honra que 
poderei auferir dependerá unicamente da sorte. 
Boa parte de livros famosos é desse genero. 


Anos atrás, lendo Filipe de Comines, bom 
autor por certo, notei essa frase singular: “que 
é preciso não prestar ao senhor tantos serviços 
que se lhe torne impossível encontrar uma 
recompensa adequada”. A idéia é louvável, 
mas não é dele. Encontrei-a não faz muito em 
Tácito: “os favores são agradáveis enquanto 
os podemos pagar; além desse limite tornam-se 
odiosos”. Sêneca diz também: “Quem acha 
vergonhoso não pagar, não deseja ter credo- 
res.” E em Cícero encontra-se igualmente: 
“Não pode ser nosso amigo quem não se jul- 
gue quite conosco.” O assunto tratado pode, 
segundo sua natureza, revelar um homem de 
saber e memória, mas para julgar o que lhe 
pertence de fato, para apreciar a força e a bele- 
za de seu espírito, é necessário verificar o que 
é seu e o que não é; e, nisto que não é seu, o 
que se lhe deve pela escolha, ordenação e lin- 
guagem. Pode também ter pilhado o assunto e 
piorado a forma, como acontece muitas vezes. 
Nós, que não estamos familiarizados com os 
livros, vemo-nos embaraçados quando depara- 
mos com alguma bela imagem em um poeta 
recente, um forte argumento em um pregador; 
não ousamos louvá-los antes de indagar de 
algum sábio se o trecho é deles ou não. E até lá 
fico de pé atrás. 


Acabo de percorrer de um fôlego a história 
de Tácito (o que só raramente me acontece, 
pois há vinte anos não dedico à leitura mais de 
uma hora seguida). Filo a conselho de um 
fidalgo que a França muito aprecia, tanto pelo 
seu valor pessoal como pelos méritos que tem 
em comum com seus vários irmãos. Não sei de 
autor que junte aos fatos da história tantas 
considerações acerca dos costumes e tempera- 
mentos dos indivíduos. Acredito, ao contrário 
do que lhe parece, que, tendo de tratar da vida 
dos imperadores de seu tempo, tão diversas e 
excepcionais em tudo, e relatar seus gestos e 
crueldades, tinha assunto mais interessante e 
instrutivo do que se devesse falar de batalhas e 
revoluções; por isso, quando passa rapida- 
mente por cima de tão belas mortes, acho que 
não tira delas todos os ensinamentos que com- 


MONTAIGNE 


portam. Dir-se-ia que receia fatigar-nos e ente- 
diar-nos com o seu número. Essa forma da his- 
tória é, de muito, a mais útil, pois os 
movimentos públicos dependem principal- 
mente do acaso e os particulares de nós mes- 
mos. Tácito julga os fatos ocorridos, mais do 
que os relata; há nele mais preceitos do que 
narrativas. Não é o seu um livro de simples lei- 
tura, e sim de estudo e meditação; tão cheio de 
sentenças que as encontramos a torto e a direi- 
to. É uma mina de reflexões morais e políticas 
úteis aos que governam o mundo. Assenta-as 
sempre em razões sólidas e vigorosas, incisivas 
e sutis, no estilo afetado daquela época em que 
tanto se apreciava a afetação que, se não a ti- 
nham as coisas, tinham-na obrigatoriamente 
as palavras. Sua maneira de escrever asseme- 
lha-se à de Sêneca, mas parece mais densa, 
enquanto a de Sêneca é mais viva. É bem ade- 
quada a uma situação perturbada como a 
nossa de hoje. E dir-se-ia que é a nós que pinta 
e critica. Os que duvidam de sua sinceridade 
demonstram que as causas de não o aprecia- 
rem são outras na realidade. Suas opiniões são 
sensatas e ele pertence ao melhor dos partidos 
que dividiam Roma. Lamento entretanto que 
tenha julgado Pompeu mais severamente do 
que os homens de bem que o conheceram, e 
que o coloque ao lado de Mário e Sila, consi- 
derando-o porém mais dissimulado. Indiscuti- 
velmente as pretensões de Pompeu ao governo 
não foram isentas de ambição nem de desejo 
de vingança, e seus próprios amigos receavam 
que a vitória o levasse a ultrapassar certos 
limites e a praticar as crueldades e a tirania 
que o historiador lhe imputa. Mas como não se 
deve igualar a suspeita à evidência, não creio 
muito no que diz. Poder-se-ia considerar as 
narrativas de Tácito verdadeiras e sinceras, em 
virtude mesmo de não se adaptarem sempre. 
com precisão a seus juízos, nos quais atende a 
idéias preconcebidas, qualquer que seja o 
rumo tomado pelos fatos que conta. Aprova as 
crenças de seu tempo e obedece assim ao que 
lhe ordenavam as leis; não hã portanto como 
censurá-lo por ignorar a verdadeira religião. 
Isso é uma infelicidade, no seu caso; não um 
defeito. 

Procurei penetrar seus juízos, mas em al- 
guns pontos não os entendi inteiramente. 
Assim no que diz respeito à carta que Tibério, 
velho e doente, enviou ao Senado: 
“Escrever-vos-ei, senhores? Como vos escreve- 
rei? Ou não vos escreverei? Mas na hora atual 
os deuses e as deusas resolveram por certo a 
minha desgraça, pois sinto-a dia a dia mais 
aproximar-se.” Não compreendo por que Táci- 
to vê nessas palavras a prova de que a cons- 
ciência de Tibério se enchia de remorsos. 


ENSAIOS — HI 


Lendo esse trecho não tive essa impressão. 

Parece-me também pouco corajoso que, 
tendo de dizer que exerceu em Roma certa 
magistratura honrosa, se desculpe a fim de que 
não se imagine que o diz por vaidade. É humil- 
dade demais para uma alma de tal enverga- 
dura; não ousar falar com franqueza de si, re- 
vela falta de coragem. Um espírito franco e 
elevado, que julga sadia e seguramente, usa 
seus próprios exemplos como coisa alheia e 
apresenta seu testemunho como apresentaria o 
de outra pessoa. É preciso desprêzar as regras 
vulgares da boa educação, quando sé está a 
serviço da verdade e da liberdade. Não somen- 
te ouso falar de mim mas ainda falar só de 
mim; e quando falo de outra coisa, ehgano-me, 
fujo ao assunto. Não me estimo a ponto de não 
poder distinguir-me e considerar-mê como a 
um vizinho ou árvore. Tanto é erro não vei até 
onde vai o próprio valor como dizer mais do 
que aquilo que se vê. Devemos amar a Deus 
mais do que a nós mesmos; conhecemo-lo 
menos; e no entanto falamos d'Ele quando 
queremos. 

Se seus escritos podem levar-nos a perceber 
alguma coisa de sua natureza, Tácito foi um 
homem reto e corajoso, sem superstições e 
dono de uma alma generosa de filósofo. Pode- 
remos achá-lo temerário em suas afirmações; 
como quando conta que um soldado carre- 
gando um feixe de lenha teve as mãos geladas 
e coladas à carga, não podendo desprendê-las 
desta por se terem separado dos braços. O que 
nos diz de Vespasiano, o qual graças à prote- 
ção do deus Serápio curou em Alexandria uma 
cega untando-lhe os olhos com saliva, é tam- 
bém exagerado. Mas ele faz então o que fazem 


431 


todos os historiadores que registram não ape- 
nas os acontecimentos importantes, mas igual- 
mente os boatos e as fábulas populares. É seu 
papel contar e não criticar. Esta parte cabe aos 
teólogos e aos filósofos, que são diretores espi- 
rituais. Contudo, como disse Quinto Cúrcio, 
seu confrade ilustre: “conto mais coisas do que 
as que creio; por um lado não ouso afirmar 
aquilo de que duvido e por outro não quero 
suprimir o que me narram”. E outro disse: 
“Não vale a pena afirmar ou refutar, temos 
que confiar na tradição! 81,” 

Embora escrevendo em um tempo em que 
principiava a diminuir a crença nos milagres, 
diz que não deseja deixar de registrar nos seus 
anais as coisas de que tem notícia por inter- 
médio de gente de bem e de respeito. E estã 
certo. A história deve escrever-se de acordo 
com os fatos de que temos conhecimento e não 
em atenção à nossa opinião própria. Eu que 
sou rei no assunto de que trato, que não devo 
contas a ninguém, nao acredito inteiramente 
em mim. Atrevo-me por vezes a expressões que 
considero temerárias e desconfio de certas suti- 
lezas que me escapam. Vejo quem se jacte de: 
coisas semelhantes. Não me cabe julgar sozi- 
nho. Apresento-me de pé e deitado, de frente e 
de trás, de direita e de esquerda, tal qual sou 
realmente. Os espíritos iguais em força não o 
são sempre em capacidade de apreciação e 
gosto. 

Eis O que, a respeito desse historiador, me 
vem à memória de um modo geral e assaz 
incerto. Nessas condições, quaisquer juízos 
são por certo vagos e incompletos. 


181 Tito Lívio. 


CapíTULO IX 
Da vaidade 


Não haverá talvez maior vaidade de que 
escrever sobre esta e tão inutilmente. O que 
Deus tão divinamente exprimiu, deveria ser 
cuidadosa e constantemente meditado pelas 
pessoas inteligentes. Quem não vê que, en- 
quanto houver papel e tinta seguirei sem parar 
o caminho que adotei? Não posso manter um 


diário de minhas ações porque não as valori-* 


zou a sorte; reconstituo por isso a minha vida 
com minhas idéias. Por que não? Pois não 
conheci um fidalgo que só tomava conhecido o 
que em sua vida se relacionava com o ventre? 


Viam-se expostos em sua casa inúmeros uri- 
nóis com os resíduos de sete ou oito dias; eram 
o objeto de seus estudos e o assunto de sua 
conversação; qualquer outro tema o aborrecia. 
O que exponho aqui é um pouco mais decente: 
as lucubrações mal digeridas de um espírito 
envelhecido e ora prolixo, ora reservado. E não 
sei quando se aquietará essa agitação das mi- 
nhas idéias a propósito de todas as matérias, 
porquanto Diógenes, que se ocupou unica- 
mente de gramática, encheu seis mil volumes 
com as suas. E se o simples balbucio dos 


432 


preâmbulos da linguagem deu para infligir ao 
mundo a horrível carga de tanto livro, que não 
acontecerá com o. meu palavrório? Quanta 
palavra para tratar da palavra! Censuraram a 
Galba a ociosidade em,que vivia. Respondeu 
ele que “é necessário prestar contas dos atos, 
não do repouso”. No que se enganava. A justi- 
'ça também se ocupa dos que não trabalham e 
deles desconfia. 

Deveria haver leis que punissem os escrito- 
res ineptos e inúteis, como existem para Os 
vagabundos e malandros. Assim se arranca- 
riam das mãos do povo minhas obras e muitas 
outras. Não se trata de uma brincadeira. A 
mania de escrever parece ser sintoma de um 
século perturbado. Nunca escrevemos mais do 
que depois que a era das agitações se iniciou. E 
os romanos nunca o fizeram tanto como na 
época de sua decadência. Além do fato de não 
serem os progressos do espírito o que-torna 
prudente do ponto de vista político, essa ocu- 
pação ociosa, do trabalho da pena, nasce do 
desinteresse que demonstramos pelos deveres 
de nossos cargos. A corrupção do século 
deve-se à cooperação de cada um de nós em 
particular; uns contribuem com a traição, ou 
tros com a iniquidade, a irreligião, a tirania, a 
avareza, a crueldade, segundo as suas forças; 
os mais fracos dão a estupidez, a vaidade, a 
ociosidade; sou destes. Parece-me que, quando 
o mal nos cerca de todos os lados, é chegada a 
hora da frivolidade. Em um momento em que a 
maldade se exerce impunemente, ser apenas 


inútil merece louvores. Consolo-me com pen-. 


sar que se a justiça se interessasse pelo assun- 
to, seria eu dos últimos a sofrer. Enquanto se 
ocupasse dos que mais incomodam, teria 
tempo bastante para me corrigir, pois não fora 
razoável que se buscassem os miúdos en- 
quanto pululam os grandes. O médico Filoti- 
no, vendo pelo aspecto e o hálito que o indivi- 
duo que lhe apresentava o dedo machucado 
tinha uma úlcera nos pulmões, disse-lhe: “meu 
amigo, não estás na hora de fazer as unhas”. 
Vi há alguns anos um personagem, cuja 
memória me é cara, que, em meio a nossas des- 
graças, em uma época em que não havia leis, 
nem lustiça, nem magistrado cumprindo seu 
dever (e isso não mudou em verdade), se pôs a 
publicar um livro acerca de insignificantes 
reformas no vestuário, na cozinha e nos pro- 
cessos. Com tais divertimentos tenta-se mos- 
trar a um povo maltratado que não se esque- 
ceu dele por completo. Fazem o mesmo os que 
nos momentos críticos proíbem danças, jogos 
e certas formas de linguagem a uma multidão 
entregue a todos os excessos. Não é quando se 
tem uma forte febre que se vai pensar em 
lavar-se. Somenie os espartanos se penteavam 


MONTAIGNE 


e se enfeitavam para uma empresa em que 
arriscassem a vida. Quanto a mim, tenho o 
péssimo costume de só me arranjar por inteiro, 
e se o sapato foi mal calçado deixo também de 
través a capa e a camisa. Quando me encontro 
em situação dificil, obstino-me em continuar; 
abandono-me por desespero, não me detenho 
mais na queda e deixo tudo ao deus-dará, não 
mais me considerando digno de meus próprios 
cuidados. Em mim tudo tem que ser inteira- 
mente certo ou inteiramente errado. Consola- 
me, entretanto, verificar que esse desolador es- 
tado mental se observe em uma idade não 
menos lamentável; é menos doloroso ter meus 
males agravados agora do que se me houves- 
sem dominado em tempos idos. As palavras 
que me escapam nos momentos de infelicidade 
são palavras de despeito; minha coragem irri- 
ta-se, não cede. Ao contrário dos outros, sou 
mais devoto na felicidade do que na desgraça. 
Sigo o preceito de Xenofonte, mas não pelas 
mesmas razões, e antes ergo os olhos aos céus 
a fim de agradecer do que para solicitar; zelo 
mais pela minha saúde quando me sinto bem 
do que me esforço por recuperá-la se vai mal. 
A prosperidade sugere-me a disciplina e o 
dever, da mesma forma que as contrariedades 
e castigos corrigem outros, pois em geral as 
pessoas tornam-se honradas na adversidade, 
como se a sorte fosse incompatível com a 
consciência. A fortuna propícia incita-me à 
moderação e à modéstia. A súplica conquista- 
me, a ameaça irrita-me; o favor amolece-me, o 
temor entesa-me. 


É da natureza humana agradar-se mais do 
alheio do que do próprio; gostamos do movi- 
mento e das mudanças: “e o dia só nos apraz 
porque cada hora apresenta aspectos diferen- 
tes!82?, Assim sou eu. Outros vão ao extremo 
oposto, agradam-se de si mesmos, apreciam 
acima de tudo o que possuem, não admitem 
que haja formas mais belas do que as que 
vêem. Se não são mais avisados do que nós, 
são mais felizes ao menos. Não lhes invejo a 
sabedoria e sim a felicidade. 


Essa ânsia permanente de novidades muito 
contribui para alimentar em mim o amor às 
viagens, a que me incitam também outras 
circunstâncias e, em particular, o prazer com 
que me afasto da direção de minha casa. Não 
deixa de ser agradável mandar, ainda que em 
uma simples granja e ser obedecido, mas é úm 
prazer monótono, insípido e que comporta 
algumas preocupações penosas: ora a indi- 
gência e a opressão que pesam sobre os subal- 
ternos, ora as discussões e demandas com os 


182 Petrônio. 


ENSAIOS — II 433 


vizinhos: “os vinhedos que o granizo devasta, 
as árvores e os campos que sofrem com a 
estiagem; a canícula e o frio rigoroso que des- 
fazem nossos sonhos!*3?, Não dura sequer 
seis meses o bom tempo capaz de contentar 
inteiramente o administrador, mesmo porque 
em beneficiando a vinha pode prejudicar os 
prados: “Ora um sol violento tosta o grão; ora 
as chuvas inesperadas e as duras geadas des- 
troem a colheita; ora o turbilhão do vento as 
dispersa! 8 *”?. Cada um sabe onde lhe aperta o 
sapato, por novo e bem feito que seja, e o 
estranho ignora quanto! nos custa manter a 
harmonia aparente da família, e que talvez a 
paguemos demasiado caro. 

Assumi tarde a administração de minha 
casa; meus predecessores dispensaram-me do 
encargo durante muito tempo, e quando che- 
gou a minha vez já trazia arraigados outros 
hábitos mais gratos a meu temperamento. 
Entretanto, pelo que vi, trata-se de uma ativi- 
dade mais absorvente do que difícil; quem tem 
capacidade para outra coisa, tem também para 
essa. Se tivesse ambicionado enriquecer-me, 
esse caminho não me seduziria por ser longo 
demais; preferiria colocar-me a serviço dos 
reis, negócio sem dúvida bem mais lucrativo. 
Mas como pretendo apenas não dissipar meu 
patrimônio, embora nada lhe acrescendo (o 
que está de acordo aliás com esta vida que vou 
vivendo) e sem nada fazer de particularmente 
importante, não me tem sido dificil, graças a 


Deus, cuidar dos meus interesses sem maiores . 


percalços. Na pior das hipóteses, pcde-se sem- 
pre prevenir a pobreza reduzindo-se os gastos; 
por isso, desde já restrinjo os meus, antes que a 
tanto ela me obrigue. Aliás, consegui pouco a 
pouco contentar-me, sem sacrifício, com 
menos do que possuo: “Não se deve avaliar a 
fortuna pela renda, mas pelas necessida- 
des!85)” As minhas não absorvem os meus 
haveres a ponto de não me permitir atender 
ainda a alguma desgraça ocasional. Por igno- 
rante e desdenhoso que seja dos negócios 
domésticos, minha presença contribui para 
mantê-los em ordem. Embora de má vontade, 
esforço-me por olhá-los, mesmo porque quan- 
do me ausento não poupo de um lado a vela 
que se queima de outro. 


As viagens só me aborrecem por causa das 
despesas, sempre grandes demais para as mi- 
nhas posses, tanto mais quánto não estou acos- 
tumado a viajar apenas com a criadagem 
indispensável; quero fazê-lo de um modo hon- 
roso. Por isso, devo espaçá-las e encurtá-las, 


183 Horácio. 
184 Tucrécio. 
185 Cícero. 


nelas empregando unicamente as sobras e as 
reservas segundo as possibilidades do momen- 
to. Não desejo que o prazer do passeio prejudi- 
que o do repouso; acho ao contrário que preci- 
sam completar-se sendo úteis um ao outro 
reciprocamente. Ajudou-me a sorte desse 
ponto de vista, porque, preocupado antes de 
tudo com levar uma vida sossegada, não me 
obrigou a pensar em aumentar minhas rique- 
zas a fim de prover as necessidades de numero- 
sos herdeirós. Tenho apenas uma filha; se não 
lhe bastar o que me foi amplamente suficiente, 
tanto pior para ela. Sua imprudência não terá 
merecido outra coisa. Segundo o exemplo de 
Fócion, o que quer que deixemos aos nossos fi- 
lhos é bastante, desde que se pareçam conosco. 
E não estou de acordo com Crates que deposi- 
tou todo o seu dinheiro nas mãos de um ban- 
queiro, determinando que se seus filhos fossem 
imbecis lhes distribuísse a importância e se 
fossem inteligentes entregasse a outros imbe- 
cis. Como se os êstúpidos, em sendo menos 
capazes de viver sem dinheiro, devessem gas- 
tá-lo melhor ! Em todo caso, os danos que pos- 
sam advir de minha ausência não me parecem 
exigir de mim que me prive, enquanto o possa, 
das oportunidades de esquecer essa melancó- 
lica assistência. Hã sempre algo que não anda 
direito. Aborrece-me o que ocorre aqui ou ali; 
vemos tudo de muito perto e a perspicácia 
prejudica-nos sempre. Evito zangar-me e finjo 
não, ver as coisas erradas; mas não posso fazer 
com que não depare de quando em vez algo 
desagradável. E as malandragens que mais se 
ocultam são as que melhor conheço há muito; 
e algumas há que convém esforçar-se por 
esconder, para que não tenham consequências 
mais graves. Coisas de nonada, dirão; mas por 
miúdas que sejam não deixam de enfastiar. E, 
assim como os caracteres pequenos cansam a 
vista, os aborrecimentos insignificantes são os 
que mais irritam. A multidão de pequenas 
contrariedades enerva mais do que um grande 
mal. Quanto mais miúdos os espinhos domês- 
ticos menos desconfiamos deles e mais nos 
ferem inesperadamente. Não sou filósofo, por 
isso sinto os males na medida: em que me atin- 
gem; e pesam segundo sua forma e substância, 
e por vezes mais do que fora razoável. Vejo-os 
melhor do que o vulgo, embora tenha mais 
paciência; e ainda que não me magoem me 
fatigam. A vida é coisa delicada e facilmente 
se turva. Qualquer motivo de aborrecimento, 
por tolo que “seja, leva-me a um. mau humor 
que se amplia e se exaspera aos poucos. “Não 
resisto à primeira impressão! º 8.” E água mole 


186 Sêneca. 


434 


em pedra dura tanto bate até que fura, pois, 
como dizia Lucrécio, a àgua fura o rochedo. 
Essas pequenas amolações cotidianas cor- 
roem-me, ulceram-me; repetidas assim, não 
são nunca insignificantes, e tornam-se sem 
remédio quando provêm de pessoas da família, 
com quem não há como romper relações. 
Encarando meus negócios de longe e em con- 
junto, acho (talvez por não os ter bem em 
mente) que prosperaram mais do que fora de 
esperar. Parece-me que'o rendimento é maior. 
Mas quando volto à direção dos mesinos, inú- 
meros pormenores me atormentam: “então 
minha alma se reparte entre mil inquieta- 
ções! 87”. É-me fácil abandoná-tos por com- 
pleto; o difícil é é voltar a eles. É triste estarmos 
em um lugar onde tudo o que vemos preocupa 
e depende de nós. Creio que me sentiria bem 
mais alegre em uma casa estranha, pois estaria 
mais livre e à vontade. Nisso estou com Dióge- 
nes que respondia a quem lhe indagava que 
vinho preferia: “o que não é meu”. 

Meu pai gostava de construir em Montaig- 
“ne, onde nascera, e em tudo o que diz respeito 
às questões domésticas atenho-me a seu exem- 
plo e procuro fazer com que do mesmo modo 
ajam os que me sucederem. O que puder reali- 
zar em atenção à sua vontade sempre o farei e 
se mandei terminar um pedaço de muro ou 
retificar algo mal executado, foi pensando em 
sua intenção mais do que em minha comodi- 
dade. E censuro-me a indolência que me impe- 
diu de levar a cabo a reforma que ele iniciara, 
tanto mais quanto me arrisco a ser o último 
varão da família e o último a tocar na mansão. 
Mas não tenho queda para as construções, que 
afirmam ser coisa agradável, nem para a caça, 
a jardinagem ou as ocupações inerentes a uma 
vida de campo. Nada disso me diverte muito. 
Como não me interessam as opiniões que se 
possam tornar fontes de dificuldades para 
mim; não as quero robustas e esclarecidas e 
sim fáceis e cômodas. Serão suficientemente 
sas e justas, se se mostrarem úteis e derem pra- 
zer. Os que me ouvem dizer de minha incapa- 
cidade em assuntos domésticos consideram 
que o afirmo por desdém. E pensam que se 
negligencio de conhecer os instrumentos neces- 
sários aos trabalhos do campo, as estações 
adequadas, a ordem a ser observada, a manei- 
ra de fazer o vinho ou de enxertar as árvores, 
'os nomes das plantas e dos frutos, o modo de 
preparar as carnes que comemos € o preço dos 
tecidos com que nos vestimos, é porque me de- 
dico a ciências mais importantes. Irritam-me 
profundamente com suas reflexões. Se assim 


187 Virgílio. 


- MONTAIGNE 


fosse, seria tolice minha; não haveria de que 
vangloriar-me. Na realidade eu preferiria ser 
bom escudeiro a ser bom lógico: “Por que não 
te ocupas com coisas úteis, com fazer cestos de 
palha ou de junco!887” Enchemos a cabeça 
com idéias gerais, com as causas dos sucessos 
universais, os quais dispensam perfeitamente o 
nosso interesse, e esquecemos o que diz res- 
peito ao homem e a nós mesmos. 

Vivo em minha casa a maior parte do tempo 
e gostaria de nela comprazer-me mais do que 
alhures. “Após tantas viagens por terras e 
mares, após tantos combates, possa eu enfim 
aí encontrar o repouso na velhice! 8º!” Não 
sei se O conseguirei. Gostaria de ter herdado de 
meu pai, em lugar de outras coisas, o amor 
apaixonado que devotava à administração de 
seus bens. Era feliz em geri-la, adaptando-se 
ao que possuia. As pessoas que se dedicam aos 
grandes problemas políticos poderiam acenar- 
me com a mesquinhez de minha atividade; isso 
pouco me importaria se jamais viesse a seguir 
meu pai em seus gostos. Acho que servir ao 
público e ser útil ao maior número é o que há 
de mais honroso, “nunca apreciamos melhor 
os frutos do gênio e da virtude como quando 
os repartimos com o próximo!ºº”: mas, 


. pessoalmente, renunciei a essa ambição por 


covardia e consciência; tais encargos pare- 
cem-me tão pesados que tenho a convicção de 
não poder desempenhá-los. Platão, quê era um 
mestre em tudo o que respeita ao governo dos 
Estados, absteve-se entretanto de aceitar quais- 
quer funções. Contento-me em gozar a vida 
sem demasiado ardor, porém; em levar uma 
existência simplesmente suportável que não 
seja uma carga nem para mim nem para os 
outros. 

Ninguém mais do que eu se entregaria mais 
totalmente e de bom grado à administração de 
terceiros se o pudesse. Um de meus desejos é 
encontrar um genro que me auxilie a retirar-me 
dos negócios. Deixar-lhe-ia a direção de meus 
bens e a possibilidade de fazer o que faço e de 
tirar de sua atividade todos os benefícios, con- 
quanto se mostrasse reconhecido e amigo. Mas 
vivemos em um mundo em que a lealdade não 
existe, nem mesmo nos próprios filhos. 

Quem se encarrega de minhas despesas em 
viagem, age sem controle algum de minha 
parte. Aliás, poderia roubar-me da mesma 
forma se eu contasse. E assim, a menos que 
seja um malandro, uma tal confiança obriga-o 
a andar direito. “Muitos induzem ao ludíbrio 


188 Virgílio. 
18º Horácio. 
190 Cícero. 


ENSAIOS — II 


com seu receio de ser ludibriado; a suspeita 
justifica o pecado!º!.? A garantia que tenho 
de meus subordinados consiste unicamente em 
desconhecê-los. Não presumo os vícios, e con- 
“fio de preferência nos mais jovens por conside- 
rar que estão menos pervertidos pelos maus 
exemplos. É-me menos desagradável saber ao 
fim de dois meses que esbanjei quatrocentos 
escudos, do que ter diariamente aos ouvidos a 
relação das despesas. Nem por isso tenho sido 
“mais roubado do que outros. Ignoro-o em ver- 
dade, pois nunca sei, exatamente, e de caso 
pensado, quanto tenho; e até certo ponto agra- 


da-me essa incerteza. É preciso reservar uma 
pequena margem para a deslealdade ou a 


impudência dos servidores. Se possuímos com 


“ que manter despreocupadamente a nossa posi- - 


ção social, abandonemos aos subalternos o 
excedente do que a liberalidade do destino nos 
outorgou: é a parte do respigador. Em suma, 
não me preocupa a honestidade de meus servi- 
dores, nem me atinge o que possam fazer-me. 
Vil e tola atividade, eSsa que consiste em lidar 
permanentemente com dinheiro, contando-o e 
pesando-o ! Por esse caminho é que se chega à 


avareza. 
Durante os dezoito anos em que venho 


administrando os meus bens, nunca me dei ao 
trabalho de examinar documentos e títulos de 
propriedade que deveria conhecer a fundo. 
Não por desprezo filosófico pelas coisas deste 
mundo, as quais avalio com objetividade, mas 
tão-somente por preguiça e negligência pueris 
e incuráveis. Tudo posso sacrificar para não 
ser obrigado a ler esse papelório que me torna- 
ria escravo de meus negócios e até dos negó- 
cios alheios, como ocorre com quem se 
impressiona com o dinheiro. Nada me abor- 
rece tanto como as preocupações e as fadigas; 
ambiciono apenas sossego e lazeres. De bom 
grado, creio, viveria a expensas de outrem, 
conquanto isso não implicasse em obrigações e 
servidão. Dado o meu temperamento e a 
minha condição, e considerando o que devo 
suportar de meus criados e familiares, não sei 
se não há nisso maior abjeção e desagrado do 
que em figurar entre os servidores de um fidal- 
go de maiores posses e que lhes dê uma-certa 
independência. “A escravidão consiste na 
sujeição de uma alma covarde e fraca, desti- 
tuída de livre arbítrio'º2.” Crates foi além; 
colocou-se sob a salvaguarda da pobreza a fim 
de se libertar dos cuidados do lar. Não o faria 
eu, porque detesto a pobreza tanto quanto o 
sofrimento; mas com prazer trocaria minha 
vida por outra menos nobre e ativa. 


191 Sêneca. 
182 Cícero. 


435 


Em viagem, deixo de lado toda preocupa- 
ção, e a queda de uma torre me comoveria 
menos do que a de uma telha, se presente. De 
longe, meu espírito desprende-se de tudo, mas 
de perto sofro com o que ocorre, como de resto 
qualquer vinhateiro. Uma rédea mal ajustada 
ao meu cavalo, um estribo que me incomode a 
perna, preocupam-me um dia inteiro. Sustento 
o ânimo ante quaisquer ocorrências, mas não 
posso fazer o mesmo com os olhos: “como 
dominamos pouco os sentidos, ó deuses !” 

Em casa sou responsável por tudo o que vai 
mal. Poucos senhores (de condições iguais às 
minhas) podem (e são felizes se o podem) des- 
cansar em alguém sem que tenham de suportar 
anda boa parte dos encargos. Isso influi na 
maneira pela qual recebo meus hóspedes e sem 
dúvida. alguns terão ficado mais tempo em 
minha companhia por causa da cozinha do 
que do tratamento. Assim perco muito do pra- 
zer que pudera auferir das visitas dos meus 
amigos. A mais tola atitude que pode assumir 
um fidalgo em sua casa, está em mostrar-se 
incomodado com o serviço, falando ao ouvido 
de um criado ou ameaçando outro com o 
olhar. É preciso que tudo corra bem e siga seu 
curso normal sem que se perceba. Acho desa- 
gradável entreter os hóspedes acerca do que 
por eles fazemos, seja para nos desculparmos 
seja para nos exibirmos. Gosto da ordem e da 
limpeza e as prefiro à abundância: “Quero que 
pratos e copos reflitam minha imagem!º3,” 
Atento para o que é necessário e não aprecio a 
ostentação. Se estamos em casa alheia e um la- 
caio se pega com outro ou derruba um prato, 
rimos apenas. Dormimos enquanto nosso hos- 
pedeiro combina com seu mordomo o que há 
de oferecer no dia seguinte. O que digo refere- 
se a mim apenas, pois reconheço que deve 
constituir doce tarefa, para as naturezas incli- 
nadas a isso, zelar pela tranquilidade da casa, 
e pela sua prosperidade e ordem. Esse estado 
de coisas que me perturba, atribuo-o aos 
embaraços que eu próprio crio, e não tenho a 
menor intenção de contradizer Platão, o qual 
julgava ser a ocupação mais feliz “tratar de 
seus próprios negócios sem causar prejuízo a 
ninguém”. 

Em viagem penso apenas em mim e no 
emprego de meu dinheiro, o que depende de 
uma simples ordem. Para juntá-lo, ao contrá- 
rio, cumpre recorrer a numerosas fontes e não 
entendo disso. Entendo mais de gastar e de 
como gastar, pois a tanto se destina o dinheiro; 
mas não sei equilibrar meus gastos e os reparto 
desigualmente, de um modo exagerado em um 


183 Horácio. 


436 


sentido ou noutro. Se contribuem para uma 
satisfação pessoal, despendo sem contar; mas 
se não me contentam particularmente ou não 
me prestigiam, restrinjo-os ao máximo. Seja 
por artifício, ou por impulso natural, o fato de 
viver a compararmo-nos com os outros causa- 
nos mais prejuizos do que benefícios. Priva- 
mo-nos do que nos é útil para fazer tomo os 
demais. E menos nos importam as condições 
em que vivemos, e suas consequências, do que 
o que exibimos em público. Os próprios bens 
do espírito, e a sabedoria, parecem-nos sem 
sabor se os gozamos longe da vista e da apro- 
vação das pessoas que nos são estranhas. Há 
indivíduos cujo ouro corre em torrentes subter- 
râneas e invisíveis, enquanto outros o: exibem 
em placas ou folhas. Desse modo para uns os 
soldos valem escudos e para outros o contrá- 
rio. O mundo julga pelo que vê. Cuidar dema- 
siado da riqueza sabe a avareza; distribuí-la 
com liberalidade ordenada e voluntária exige 
uma atenção penosa. Quem procura gastar 
com precisão gasta demasiado estritamente e 
como que constrangido. Guardar e gastar são 
coisas indiferentes em si mesmas; tornam-se 
boas ou más de acordo com as nossas ações. 


Outra razão que me induz a viajar é o desa- 
cordo em que me encontro em relação aos cos- 
tumes de nosso momento presente. Facilmente 
me consolaria dessa corrupção tendo em conta 
o interesse geral: “Suportaria estes tempos pio- 
res do que a idade do ferro, em que faltam 
nomes para os crimes e que a natureza não 
pode: designar por nenhum novo metal!º 4”, 
mas no que me diz respeito sofro demasiado, 
pois, em consegiiência dos desregramentos ine- 
rentes a nossas guerras civis, toda a vida 
decorre em um ambiente perturbado: “em que 
Justo e injusto se confundem"º 5”. “Lavram a 
terra armados, diariamente cometem atos de 
banditismo e vivem de saques"? 8,” Pelo nosso 
exemplo verifico que a sociedade humana se 
perpetua de qualquer forma, aconteça o que 
acontecer. De qualquer jeito que se coloquem 
os homens, juntam-se e se ordenam, como 
esses objetos heterogêneos que pomos no bolso 
e que acabam por se ajeitar sozinhos, por 
vezes melhor do que O faríamos. O Rei Filipe 
reuniu os indivíduos mais perversos £ incorri- 
gíveis que pôde encontrar e os instalou em 
uma cidade que mandou construir especial- 
mente para eles e que lhes tomou o nome. A 
meu ver essa. sociedade heteróclita ter-se-á 
constituído desde logo em estado político 
baseado nos próprios vícios dos habitantes, os 


194 Juvenal. 
195 Virgílio. 


196 Id. 


MONTAIGNE . 


quais nela terão implantado por certo uma 
ordem e uma justiça. Vejo emnossos dias não 
fatos isolados, mas costumes aceitos, tão fero- 
zes, desumanos e desleais — o que na minha 
opinião é o pior — que não os posso conceber 
sem horror. Mas admiro-os quase tanto quanto 
os detesto, ao verificar que a execução de tão 
incríveis crueldades testemunha igualmente 
vigor e resolução, erro e maldade. A necessi- 
dade reúne e acomoda os homens e essa liga- 
ção fortuita transforma-se em seguida em leis; 
e algumas dessas leis, entre as quais se depa- 
ram as mais selvagens imagináveis, deram 
resultados mais felizes e duradouros do que as 
que Piatão e Aristóteles teriam sido capazes de 
fazer. Pois todas as medidas imaginadas artifi- 
cialmente revelam-se ridículas e ineptas na 
prática. 

Essas grandes e prolixas discussões acerca 
da melhor forma de governo somente são úteis 
como exercícios espirituais, semelhantes nisso 
a certas questões artísticas que só interessam 
como temas de controvérsia, porquanto fora 
desse clima não existem. Alguns desses proje- 
tos de governo poderiam talvez aplicar-se a um 
mundo novo, mas estamos em um mundo já 
velho em que reinam certos costumes; não o 
criamos, nós outros, como fizeram Pirro ou 
Cadmo. Quaisquer que sejam as possibilidades 
que tenhamos de corrigiilo e reorganizá-lo, 
não podemos, sem o quebrar, dobrâ-lo-até per- 
der o vinco antigo. Perguntaram a Sólon se as 
leis que dera aos atenienses eram as melhores 
possíveis. “Sem dúvida, respondeu, em relação 
às que tinham antes.” Varro desculpa-se no 
mesmo sentido, dizendo que, se tivesse de 
escrever sobre uma nova religião, exporia O 
que pensava, mas, estando a religião já consti- 
tuída e aceita, precisava ater-se ao uso mais do 
que à natureza. 

A melhor forma de governo de um país é 
aquela que vem sendo adotada tradicional- 
mente e não a ideal, pois sua eficiência depen- 
de somente dos costumes. Nós nos. queixamos 
das condições presentes; mas creio errado que- 
rer, em uma democracia, que o poder se con- 
centre em poucas mãos, ou, numa monarquia, 
que outro governo substitua o existente: | 


“Ama o Estado como é; | 
se é monarquia, ama a majestade; | 
Se é de poucos ou da comunidade, 

ama-o: Deus fez que nele nascesses.” | 


Assim falava esse bom Sr. de Pibrac que 'aca- 
bamos de perder, e era um homem de bom 
senso e de sábios costumes. Essa perda e a que 
ocorreu na mesma época, do Sr. de Foux, 
foram rudes golpes para a Coroa. Não sei se 


ENSAIOS — HI 


há em França. quem seja capaz de tomar o 
lugar desses gascões no conselho do rei. Eram 
grandes almas, cada qual a seu modo. E por 
certo raras neste século. Refratérias e hostis à 
corrupção, como terão conseguido vencer? 


Nada me parece mais grave para um país do 
que uma mudança radical. Esta é que permite 
o aparecimento-da tirania e da injustiça. Quan- 
do uma peça qualquer se estraga, cabe conser- 
tá-la, pois assim podemos evitar que a altera- 
ção e a corrupção inerentes a todas as coisas 
não nos afastem demasiado de nessos princi- 
pios e instituições; mas querer refundir tão 
grande massa e trocar os alicerces de tamanho 
edifício é fazer como os que, para melhorar, 
apagam tudo, para corrigir um defeito tudo 
desmantelam, para curar matam o doente: 
“Não é bem mudar que pretendem; é des- 
truir'? 7.” O mundo não pode restabelecer-se 
sozinho e suporta: tão dificilmente o que o 
atormenta que tenta desfazer-se de qualquer 
maneira do incômodo. Mil exemplos demons- 
tram que só nos curamos a expensas próprias. 
Desviar-se do mal presente não é curar-se, por- 
quanto não melhoram as condições; e o obje- 
tivo do cirurgião não consiste em extirpar a 
carne enferma, e sim em salvar o doente; pro- 
cura mesmo conseguir com que as partes atin- 
gidas se refaçam e voltem ao seu estado nor- 
mal. Quem só se esforce por se desembaraçar 
do que o atormenta, não vai longe, pois o bem 
não sucede forçosamente ao mal; pode ocorrer 
outro mal, e mesmo o pior mal. Foi o que 
aconteceu aos assassinos de César. Compro- 
meteram de tal modo a ordem pública que se 
arrependeram ao fim. Desde então semelhantes 
desventuras ocorreram com outros; e nós fran- 
ceses podemos falar com conhecimento de 
causa; todas as grandes mudanças abalam o 
Estado e provocam a desordem. 


Quem consultasse os interessados antes de 
tentar a cura ficaria logo hesitante. Pacúvio 
Calávio corrigiu o vício desse procedimento de 
uma maneira insigne. Haviam-se amotinado os 
seus concidadãos contra os magistrados e ele, 
que era homem de muita autoridade em 
Cápua, conseguiu de uma feita reter o Senado 
no palácio e convocando o povo na praça fron- 
teira disse que chegara o dia de vingar-se livre- 
mente dos tiranos que durante tanto tempo o 
havia oprimido, pois os tinha à sua mercê, sós 
e desarmados. Era de opinião que se sorteas- 
sem, Julgassem e executassem separadamente, 
designando-se ao mesmo tempo um homem de 
bem para ocupar o cargo do condenado, a fim 
de que o mesmo não permanecesse vago. Mal 


187 Cícero. 


437 


se ouviu o nome do primeiro senador, pror- 
rompeu a assistência em tremenda vaia. “Bem 
vejo, disse Pacúvio, que é preciso destituí-lo; 
tratemos de escolher o substituto.” Fez-se 
silêncio; embaraçada, a multidão não sabia 
quem eleger. Finalmente alguém, mais ousado, 
apresenta um candidato. Uma assuada maior 
ainda do que a precedente o rejeita. Censu- 
ram-lhe cem imperfeições. A discórdia aumen- 
ta com o segundo senador; e mais ainda com o 
terceiro. E com o mesmo afã corn que destitui 
os senadores, protesta a multidão contra as 
respectivas substituições. Cansado, afinal, de 
discussões tão inúteis, vai-se retirando o povo 
aos poucos, convencido de que um mal que 
dura há tanto iempo é sem dúvida mais supor- 
tável do que um novo mal que ainda não se 


experimentou. ; 
ntretanto, por mais que nos tenhamos agi- 


tado (que não temos feito !): “nossas cicatrizes, 
nossos crimes, nossas guerras fratricidas co- 
brem-nos de vergonha! Filhos deste século, de 
que não teremos sido culpados? Que atroci- 
dades não teremos cometido? Haverá alguma 
coisa santa que nossa juventude tenha respei- 
tado? Algo que não haja profanado!º89” Não 
irei dizer com tom firme e resoluto que “a 
deusa Salus seria incapaz de salvar essa fami- 
lia, mesmo que o quisesse! ºº”?, Não chegamos 


ao fim de tudo. Eid 
A conservação dos Estados é coisa que 


provavelmente ultrapassa nossa inteligência. 
Um governo é, como diz Platão, uma força 
difícil de se dissolver; resiste muitas vezes a 
doenças mortais que o roem interiormente; 
mantém-se, apesar das leis injustas, a despeito 
da tirania, da prevaricação, da ignorância dos 
magistrados, da licença e da sedição dos 
povos. Em tudo o que nos acontece, tomamos 
como ponto de comparação o que está acima 
de nós e olhamos para os que se acham em me- 
Jhor situação; compare-se com os de baixo e 
não haverá miserável que não depare com mil 
razões de se consolar. É um erro olhar de 
preferência os favorecidos, o que jevava Sólon 
a afirmar que, se juntássemos todas as desgra- 
ças que afligem a humanidade, não haveria 
ninguém que se conformasse com abandonar 
os próprios infortúnios para entrar na partilha 
dos males acumulados. Nosso governo está 
enfermo; é incontestável; outros, porêm, bem 
mais doentes não morreram; “somos uma bola 
nas mãos dos deuses? º9?. 

Os astros escolheram Roma como exemplo. 
Passou por todas as transformações possíveis, 
conheceu a ordem e-a desordem, a felicidade e 


198 Horácio. 
19s Cícero. 
200 Piauto. 


438 


a desgraça. Quem tem o direito de desesperar 
da própria situação quando atenta para o que 
ela sofreu? Se a extensão de seus domínios 
constitui uma garantia de prosperidade (o que 
não acredito, pois penso como Isócrates que 
recomendava a Nícocles não invejar os prínci- 
pes que possuíam Estados mais vastos, e sim os 
que sabiam mantê-los em boas condições), 
Roma nunca esteve tão bem como quando 
andou mais doente. A pior de suas formas de 
governo foi a mais feliz; mal se percebem ves- 
tígios de uma constituição sob os primeiros 
imperadóres; reina então a mais completa con- 
fusão de poderes. Não obstante, Roma supor- 
tou essa situação e a monarquia sobreviveu, 
apesar de englobar grande número de povos 
diferentes, injustamente conquistados e admi- 
nistrados de um modo deplorável: “Não quis o 
destino confiar a nenhuma nação o cuidado de 
se rebelar contra os donos do mundo?2º",” O 
que balança em geral não cai. A contextura de 
tão grande edifício não depende de um só 
prego; sua antiguidade mesma faz que se sus- 
tente, como esses prédios velhos cujos alicer- 
ces a idade solapou e no entanto se conservam 
de pé em virtude de seu próprio peso: 
“Somente frágeis raízes ainda a prendem ao 
solo, mas a própria massa mantém o equili- 
brio202.º 

Não é de boa tática verificar apenas o esta- 
do dos fossos de uma praça forte para saber de 
sua solidez; cumpre estudar também os meios 
de ação da tropa sitiante e o lado pelo qual 
deverá tentar o assalto. Poucos navios afun- 
dam com o próprio peso, sem que tenham 
sofrido algum acidente. Se olharmos ao redor 
de nós, podemos observar que todos os gran- 
des países, cristãos ou não, correm o risco de 
transformações e desastres: “Todos têm suas 
enfermidades e ameaça-os uma mesma tempes- 
tade203> Fácil é aos astrólogos advertir-nos 
de agitações e perturbações prováveis; não é 
necessário consultar os astros para profetizá- 
las. Se o mal é universal, podemos encontrar 
nessa generalização razões de sóbra para nos 
consolarmos e até a esperança de durarmos, 
pois nada cai quando tudo cai. Uma doença 
que a todos atinge torna-se um estado normal 
de saúde para os indivíduos. Onde tudo é igual 
não pode haver dissolução. Eu não desespero; 
antes descubro possibilidades de salvação: 
“Talvez um deus benevolente nos faça voltar 
ao nosso estado antigo?º *º” Quem nos dirá 
que Deus não queira que ocorra conosco o que 


201 Tucano. 
202 Td. 

203 Ovídio. 
204 Horácio. 


MONTAIGNE | - 


se verifica nos corpos que, após uma longa 
enfermidade, conquistam uma saúde melhor 
do que a que tinham antes? O que mais me 
inquieta é ver que, entre os sintomas de nosso 
mal, há uns que nos vêm dos céus e outros que 
só devem atribuir-se à nossa própria impru- 
dência. Parece-me terem os astros decretado 
que já duramos demais. E aflige-me ainda ima- 
ginar que o mal mãis próximo não está na alte- 
ração da massa inteira e aparentemente sólida 
e sim na sua possível divisão. 

Transcrevendo aqui estes devaneios, receio 
que minha memória me haja traído e eu esteja 
a repetir o que já disse. Desagrada-me encon- 
trar-me de novo no caminho percorrido. Ver- 
dade é que não exponho aqui nenhuma novida- 
de, mas coisas comuns, as quais, exatamente 
porque são comuns, podem repetir-se mil 
vezes. As repetições são sempre tediosas ainda 
que venham de Homero, e desastrosas para O 
que é somente superficial e ocasional. Detesto 
insistir mesmo no que possa ser útil, como faz 
Sêneca, e não me agrada o método dos estói- 
cos que repetem a todo instante seus princípios 
e suas hipóteses e empregam argumentos e 
raciocínios de todos conhecidos. 

Minha memória piora dia a dia, “como se 
com sede ardente bebesse avidamente as águas 
soníferas do Letes2º 5”. Até agora, graças a 
Deus, ela não me fez cometer nenhum erro, 
mas doravante deverei, ao contrário do que 
fazem outros, evitar de estabelecer "um pro- 
grama que me cerceie demasiado, pois não 
quero depender de um instrumento tão frágil. 
Acusado de haver traído Alexandre, foi Lin- 
cestes levado à presença da tropa para que 
diante dela se defendesse e justificasse. Tinha 
preparado um discurso, mas esqueceu-o, e, 
como principiasse a balbuciar, acreditaram os 
soldados que a perturbação proviesse do fato 
de ser culpado, e mataram-no a golpes de 
lança. Tendo tido na prisão o tempo necessário 
para se preparar, atribuíam à sua má cons- 
ciência o silêncio embaraçado. No entanto, se, 
quando apenas buscamos um êxito oratório, 
podem o lugar, a assistência e a espera pertur- 
bar-nos, que dizer de circunstâncias em que 
nossa vida dependa de nossas palavras? No 
que me diz respeito, o simples fato de ser obri- 
gado a dizer determinada coisa faz que/ dela 
me esqueça. Se confio em minha memória, 
exerço sobre ela um tal esforço que acabo por 
esmagá-la. Quanto mais me apóio nela tanto 
mais perco a segurança; vi-me por vezes! bas- 
tante embaraçado com isso, principalmente 
quando procurava simular profunda desenvol- 


205 Td. 


ENSAIOS — HI 439 


tura nas frases e nos gestos e dar a impressão 
de que improvisava; em tais casos é menos pe- 
noso dizer banalidades do que mostrar que nos 
preparamos para falar e não o podemos, coisa 
pouco hábil da parte de pessoas de minha 
profissão, e dificil de se corrigir. A preparação 
desperta esperanças que não devem falhar. E 
erra quem veste casaco, se não pode com isso 
desempenhar melhor o seu papel do que em 
mangas de camisa: “Quem deseja provocar 
admiração deve cuidar de não despertar espe- 
ranças exageradas?º 8.” Dizem que acontecia 
ao orador Cúrio esquecer uma parte de seus 
discursos, quando os dividia em trechos de 
acordo com os pontos que queria elucidar ou 
defender. Sempre procurei evitar esse inconve- 
niente e fujo a promessas e prescrições, não só 
por desconfiar de minha memória mas também 
porque tais atitudes sabem a artifício. “A 
simplicidade assenta bem ao soldado?º 7.” 
Impus a mim mesmo a decisão de nunca usar 
da palavra em cerimônias, pois considero que 
é estúpido ler um discurso; e não vai bem a um 
homem de ação. Quanto a improvisar, seria 
arriscar-me a não dar conta do recado porque 
minha imaginação lerda e pesada não sabe 
acudir às exigências dos apartes e dos inciden- 
tes que porventura se verifiquem. 


Deixa-me, Ó leitor, que prossiga em meus 
“Ensaios” e acolhe com simpatia este terceiro 
volume. Amplio meu retrato, não o corrijo. E 
antes de tudo porque quem vende sua obra ao 
público não tem mais direito a ela; que diga 
melhor, se puder, em outro trabalho, mas não 
desvalorize o que vendeu. Dos que assim agem 
nada se deveria comprar antes de sua morte. E 
preciso refletir para produzir; e não há como 
se apressar. Meu livro é sempre o mesmo, só 
que acrescento alguma coisa a mais em cada 
nova edição, a fim de que o comprador não 
saia lesado. Esse acréscimo não modifica a 
primeira edição, apenas valoriza as seguintes, 
o gue é em verdade uma sutileza algo preten- 
siosa de minha parte; podem ocorrer entre- 
tanto pequenas inversões cronológicas, pois 
minhas histórias se introduzem na obra segun- 
do a oportunidade e não de acordo com a 
época. 

Qutro motivo induz-me a não corrigir: O 
medo de perder com a troca. Meu julgamento 
nem sempre progride; acontece-lhe também 
recuar. E não desconfio menos das fantasias 
que me vêm ao espírito em segundo ou terceiro 
lugar do que das primeiras. Amiúde corrigi- 
mo-nos tão erroneamente quanto aos outros. 


206 Cícero. 
207 Quintiliano. 


Envelheci de vários anos desde a edição ini- 
cial, que data de 1580, mas duvido que me 
tenha tornado mais sábio. O meu eu de agora e 
o meu eu de outrora são na realidade dois. 
Qual o melhor? Não sei. Seria bom envelhecer 
se não parássemos de melhorar; mas só avan- 
çamos à moda dos bêbados, titubeando e sem 
direção definida, ou então como esses juncos 
que se agitam ao sabor dos ventos. Antíoco to-' 
mara vigorosamente o partido da Academia 
em seus escritos, mas na velhice optou pelo 
partido contrário. Qualquer partido que eu 
tivesse tomado não teria seguido Antíoco? 
Estabelecer a certeza depois de estabelecer a 
dúvida, não será estabelecer a dúvida e não a 
certeza, e demonstrar que, se nossa vida se 
prolongasse assim, não seria melhor, mas 


diferente? Ro , 
O aplauso do público deu-me certa ousadia; 


mas receio entediá-lo. Preferiria descontentá-lo 
a cansá-lo, como fez um sábio que conheço. O 
louvor é sempre, agradável, venha de quem 
vier, mas para que seja justo cumpre saber-lhe 
a origem. As próprias imperfeições podem 
sugeri-lo. E a predileção do vulgo não me pare- 
ce feliz; e me engano muito se, em sua maioria, 
não são as obras piores as que o gosto popular 
consagra. Por isso sou grato às pessoas amá- 
veis que se dignam apreciar meus débeis esfor- 
ços e reconheço o serviço que me prestam, já 
que em obras como a minha, em que o assunto 
não interessa por si, as imperfeições da forma 
ressaltam mais ainda. Não te irrites tampouco 
comigo, leitor, por causa das falhas que aqui 
se infiltraram em consegiiência da fantasia ou 
da desatenção de outros que não eu; vários 
indivíduos participaram do trabalho. Não me 
preocupei com a ortografia (apenas recomen- 
dei que seguissem a antiga) nem com a pontua- 
ção, não sendo um especialista nesses ramos. 
Quando o erro tira o sentido da frase, não me 
aborreço: não mo podem atribuir. Mas se o 
sentido é apenas alterado, o que ocorre não 
raro, e o- erro me obriga a dizer o que não 
disse, Sinto que me prejudica grandemente. Se 
entretanto a frase estiver em inteira contradi- 
ção com o que é permitido esperar-se de mim, 
creio que um homem de bem não me imputaria 
o deslize. Quem conhece minha preguiça e as 
peculiaridades de meu temperamento com- 
preenderá sem dificuldade que preferiria ditar 
outros tantos ensaios a ocupar-me com a cor- 
reção pueril dos atuais. 

Dizia há pouco que, enterrado na mais pro- 
funda mina desse novo metal da corrupção de 
nosso século, não somente não mantenho rela- 
ções de intimidade com pessoas de outras opi- 
niões e outros costumes — e pessoas unidas 
entre si pelo vínculo mais poderoso de 


440 


todos?º8 — como também corro certos riscos 
no meio dessa massa de indivíduos que tudo se 
permitem e se acham em situação dificil peran- 
te a justiça. Quando pondero as condições 
particulares em que me encontro, não vejo nin- 
guém em meu partido a quem a defesa das leis 
custe tantó, já pelos benefícios que não realizo, 
já pelos prejuízos que sofro. E muitos que exi- 
" bem valentia e zelo fazem afinal bem menos do 
que eu. Em minha casa, que é facilmente aces- 
sível — porquanto não quis nunca transfor- 
má-la em fortaleza — todos são bem acolhi- 
dos; isso tornou-a bem vista e preservou-me de 
qualquer violência. Considero fato digno de 
menção continuar ela virgem de: sangue e de 
saque em meio a essa borrasca de agitações e 
mudanças que há tanto tempo dura. Na verda- 
de fora possível a um homem de meu tempera- 
mento escapar a quaisquer vexames vivendo 
em um clima sereno em que todos tivessem 
idênticas opiniões; mas as incursões e inva- 
sões, as vicissitudes de uma guerra como a que 
se trava ao redor de mim exacerbaram os indi- 


víduos e expóem-me a perigos e dificuldades 


impossíveis de se evitarem. 


Tenho-me livrado de tudo, mas lamento que 
isso se deva ao acaso — e também à minha 
prudência — mas não à justiça. Lamento não 
estar protegido por leis e ser obrigado a buscar 
outra salvaguarda. Vivo assim em boa parte 
graças à benevolência alheia, o que me pesa 
extraordinariamente. Gostaria de não dever 
minha segurança nem à bondade nem à 
complacência dos grandes, os quais toleram 
minha devoção à legalidade, e à liberdade, nem 
tampouco à cordura de costumes de meus 
antepassados e de mim mesmo. Que aconte- 
ceria se eu fosse diferente? Minha conduta, 
minha franqueza, minhas relações de paren- 
tesco criam obrigações, obrigam meus vizi- 
nhos a uma certa atitude, e é cruel que possam 
desobrigar-se simplesmente dizendo: “a liber- 
dade de continuar a celebrar o culto divino na 
capela de sua casa, uma vez que desolamos e 
arruinamos as igrejas da região, é uma conces- 
são de nossa parte; deixemos-lhe ainda o uso 
de seus bens e de sua vida em troca de zelar ele 
próprio pela conservação de nossas mulheres e 
nossas vacas”. Há muito tempo com efeito 
vem a minha família merecendo esses mesmos 
louvores que em Atenas se tributavam a Licur- 
go por ser o depositário do dinheiro de seus 
concidadãos. Ora, acho que a vida é um dom 
de Deus e não deveria ser considerada recom- 
pensa ou graça especial. Quantos não preferi- 
ram perdê-la a devê-la a outrem? Detesto toda 


208 O da religião. 


MONTAIGNE - 


espécie de obrigações, em particular as que 
possam resultar de um ponto de honra. E qual- 
quer dom que implique em reconhecimento de 
minha parte parece-me demasiado oneroso. 
Quero valer-me de serviços pagos. Em troca 
destes, dou dinheiro e em troca dos outros 
dou-me a mim mesmo. 

Os laços da gratidão são mais estreitos e 
poderosos que os das obrigações civis; pesa- 
me menos o compromisso assumido perante o 
tabelião do que o que eu mesmo crio; e não 
será razoável que minha consciência se sinta 
mais obrigada para com quem tão-somente 
confiou nela sem exigir garantias? Se hã 
garantias nada devo; elas é que devem. Hesita- 
ria menos em pular os muros de uma prisão 
para evadir-me do que em faltar com a pala- 
vra. Cumpro escrupulosamente, e.como que 
supersticiosamente, minhas promessas; por 
isso mesmo faço-as o menos possível e tão-sq- 
mente vagas e condicionais. Mesmo as de 
pouca importância se beneficiam da regra que 
me impus; são-me um tormento e alivia-me 
cumpri-las. Assim também, quando tenho em 
mente um projeto, basta-me enunciâ-lo para 
que me julgue desde logo obrigado a realizá-lo; 
parece-me que-dizer é prometer, daí mostrar- 
me tão discreto acerca do que pretendo fazer. 
Candeno-me a mim mesmo mais severamente 
do que um juiz, porquanto este se atém à obri- 
gação comum e a que me impõe a consciência 
é muito mais estrita e severa. Cumpro mole- 
mente os deveres a que me constrangem. “O 
ato mais justo só é justo quando voluntá- 
rio2º9? e se a liberdade não o realça, carece 
de graça e de honra. “Nãc faço de bom grado 
as coisas que a lei determina? 1º. Ao que a 
necessidade obriga, a vontade não me impele 
“porque nas coisas ordenadas o mérito se atri- 
bui antes a quem manda do que a quem éxecu- 
ta2112. E sei de quem siga esta máxima até o 
absurdo de considerar que dá quando devolve, 
e empresta quando paga. Não vou a esse 
ponto, mas não estou longe dele. 

Desejo tanto evitar obrigações, que julgo, 
por vezes um benefício as ingratidões, ofensas 
ou indignidades daqueles que ocasionalmente 
me prestaram serviços; pois desse modo posso 
considerar-me quite. Continuo tributando-lhes 
o que mandam os deveres sociais, mas acho 
mais suave fazer o que determina o dever do 
que o que me imporia a amizade; assim, ali- 
vio-me em parte da solicitude que decorrera de 
minha vontade, a qual é em mim (que fujo a 
toda opressão) exageradamente opressiva: “E 


209 Cicero. 
210 Terêncio. 
211 Valério Máximo. 


ENSAIOS — HI 


prudente refrear o primeiro impulso da bene- 
volência?!2.” Essa atenuação do primeiro 
impulso consola-me das imperfeições dos que 
frequento. Deploro que valham menos, mas, 
em compensação, ganho com me apegar 
menos a eles. Compreendo quem ame menos o 
filho por ser tinhoso ou corcunda; e não 
somente por ser malvado como também infeliz 
e mal conformado (com isso Deus já lhe deu 
menor valor natural), sob a condição de se 
moderar e não ser injusto. Para mim, o paren- 
tesco não atenua os defeitos, antes os agrava. 
Em suma, no que respeita à ciência da bene- 
ficência e gratidão, que é ciência útil e de 
muito uso, não sei de ninguém mais livre do 


que eu. Só devo o inerente às obrigações co-. 


muns e naturais e não há quem seja mais inde- 
pendente: “Desconheço os presentes dos gran- 
des2 naço 

Já me dão muito os príncipes, quando nada 
me tiram, e fazem-me um bem suficiente quan- 
do não me prejudicam. É tudo o que lhes peço. 
Como agradeço a Deus por somente dever à 
Sua bondade tudo o que possuo! E suplico de 


Sua misericórdia que me permita nunca dever. 


a ninguém um grande favor. Bendita seja a 
minha independência, e que possa manter-se 
até o fim da vida! Esforço-me por não precisar 
de .ninguém: “Todas as minhas esperanças 
estão em mim?! *.” Isso está ao alcance de 
todos, mas especialmente daqueles que Deus 
pôs ao abrigo das necessidades urgentes e 
naturais. É digno de piedade e bem arriscado 
depender-se de outrem. Não o podemos evitar 
sempre, pois não estamos seguros de nada, 
nem mesmo de nossas possibilidades. Fora de 
mim nada possuo, em verdade, e assim mesmo 
é, uma tal propriedade, imperfeita e de emprés- 
timo. Procuro cultivar minha coragem, o que 
constitui a melhor das garantias, e arranjar um 
meio de existência que me baste se algum dia 
tudo vier a faltar. Hípias Eleus não se conten- 
tou com se prover de saber para, no caso de fa- 
lhar o resto, comprazer-se entre as Musas; nem 
de filosofia para ensinar seu espírito a prescin- 
dir virilmente dos prazeres supérfluos quando 
estes lhe fossem suprimidos; aprendeu também 
a cozinhar e a coser e a fazer sapatos e calças, 
a fim de se bastar a si próprio. Auferimos 
maior gozo dos bens alheios quando a necessi- 
dade não nos obriga a desejá-los e quando dis- 
pomos de meios para deles prescindirmos. 
Conheço-me bem, e é-me dificil imaginar una 
liberalidade de alguém para comigo, por gene- 
rosa que seja, uma hospitalidade,embora fran- 


212 Cicero. 
213 Virgílio. 
214 Terêncio. 


441 


ca e desinteressada, que não me pareçam tirã- 
nicas e desgraçadas se por necessidade as 
tenha que aceitar. 

As pessoas ambiciosas e de prerrogativas 
dão; as submissas recebem. Por isso Bajazet 
recusou com injúrias os presentes que lhe 
enviara Tamerlão, o que deu origem a um con- 
flito entre ambos. E os presentes que Solimão 
mandou ao imperador de Calicut provocaram 
de tal modo a sua cólera que este não somente 
os devolveu grosseiramente, dizendo que seus 
antecessores não tinham por hábito receber dá- 
divas, como também ordenou que se prendes- 
sem os emissários. Diz Aristóteles que quando 
Tétis queria lisonjear Júpiter e os espartanos 
agradar aos atenienses, não o faziam lem- 
brando os benefícios prestados e sim os recebi- 
dos. Quem com toda naturalidade recorre ao 
próximo, não o faria se conhecesse, como eu, a 
doçura de uma inteira independência, e se 
pesasse as dívidas como as deve pesar um 
homem avisado. Pois ainda que se paguem 
nunca se extinguem. Cruel escravidão para 
quem aspira à liberdade total! Meus conheci- 
dos, os que estão acima de mim na escala 
social, bem como os que se acham abaixo, 
sabem que nunca viram ninguém solicitar 
menos do que eu e menos dever a quem quer 
que seja. Não é de estranhar que assim me 
revele, pois muitas particularidades de meu 
temperamento para isso contribuem: certo 
orgulho natural, a irritação que me causa uma 
recusa, a insignificância de minhas ambições e 
projetos, minha inabilidade em negócios e tam- 
bém o espirito de independência e o amor ao 
ócio. Tudo isso leva-me a um ódio mortal as 
obrigações de qualquer espécie; nada quero 
dever a outrem e nada quero que me devam. 
Esforço-me de todos os modos por não recor- 
rer a ninguém. E meus amigos importunam-me 
assaz quando me pedem para interceder em 
seu favor junto a terceiros. Isso posto, e con- 
quanto não exijam de mim gestões suscetíveis 
de me aborrecer (proscrevo de meu espírito 
tudo o que possa preocupá-lo), sou de fácil 
acesso e disposto sempre a ajudar os outros. 
"Contudo antes evito receber do que dar; o que, 
no dizer de Aristóteles, é bem mais fácil. A 
sorte não me permitiu fazer grande bem em 
redor de mim, mas o pouco que fiz não me 
proporcionou muita gratidão. Se o destino me 
tivesse feito nascer em condições de ocupar 
altos cargos, desejaria tornar-me estimado 
mais do que temido e admirado. Teria antes 
me esforçado por agradar do qué por tirar pro- 
veito. Ciro afirma, sabiamente, pela boca de 
um grande chéfe e filósofo, que considera sua 
bondade e o bem que fez mais importantes e 
valiosos do que sua coragem e suas conquis- 


442 


tas: Cipião, igualmente, sempre que deseja 
impressionar favoravelmente, coloca sua ame- 
nidade e humanidade acima de sua ousadia e 
de suas vitórias. E nunca deixa de dizer, o que 
muito o enobrece, que deu tanto a amigos 
como à inimigos a oportunidade de apreciá-lo. 
Em suma, quero dizer que se alguma coisa nos 
cabe dever, que decorra de razões mais justas 
do que essas a que me referi, resultantes desta 
miserável guerra. E que me torne devedor de 
coisa menos pesada do que a vida. 


Mil vezes vi-me recolhido em minha resi- 
dência a imaginar que, naquela noite mesmo, 
seria vítima de alguma traição e trucidado; e 
pedia ao destino que isso acontecesse sem 
delongas inúteis e sem que eu me sentisse 
amedrontado. Quantas vezes não repeti, após 
minha oração: “Serão estas terras tão cuidado- 
samente cultivadas a presa de algum bárba- 
ro21 59? Mas que remédio? Nestas terras nasci 
e nela nasceram quase todos os meus antepas- 
sados, amaram-na e deram-lhe seu nome. Nós 
nos calejamos porém com o hábito, e para essa 
nossa miserável natureza isso é um bem, por- 
que nos adormece a sensibilidade e nos evita 
certos sofrimentos. As guerras civis têm isso 
de grave que nos obrigam todos a ficar de ata- 
laia em casa. “Que desgraça ser forçado a pro- 
teger a vida com portas e muros e nem sequer 
se sentir em segurança em seu lar?18!”? A 
região em que habito é sempre a primeira a so- 
frer com nossas dissensões, e a última a sosse- 
gar; e a paz aí nunca foi completa: “Mesmo na 
paz não cessamos de temer a guerra?! 7.” 
“Todas as vezes que o destino perturbou a paz, 
por aqui passou; por que não me deram os 
fados um lar errante nos climas caniculares:ou 
no Oeste gelado? 189? 

Por vezes encontro o meio de encarar mais 
resolutamente as coisas contra minha indo- 
lência e minha indecisão habituais. Ocorre-me 
imaginar, não sem algum prazer, que me acho 
sob a ameaça de perigos mortais e resigno-me; 
precipito-me então na morte, nela mergulho, 
sem sequer a perceber, como se me jogasse em 
um abismo silencioso e escuro que me engo- 
lisse repentinamente. E invade-me um pesado 
sono sob o efeito do qual torno-me inerte, 
insensível. Nessas mortes rápidas e violentas 
as consequências que imagino mais me conso- 
lam do que me afligem. Dizem que a vida não 
é melhor por ser longa mas que a melhor morte 
é a mais curta. E, por certo, menos me ator- 
menta a morte do que a sua duração. Como 


215 Virgílio. 
216 Ovídio. 
217 Id. 

218 Lucano. 


MONTAIGNE 


quer que seja, encolho-me em mim mesmo ante 
a tempestade que se desencadeou e aguardo 
que algum golpe de vento mais forte me arraste 
sem que eu o sinta. Observam alguns jardi- 
neiros que as rosas e as violetas nascem com 
mais perfume se plantadas ao lado da cebola e 
do alho porque estes atraem e absorvem os 
maus odores da terra. Muito daria eu para que 
as naturezas depravadas de minha vizinhança 
concentrassem nelas todo o veneno de minha 
atmosfera e clima, tornando-me melhor e mais 
puro. Mas não é o que sucede, e cabe-nos afir- 
mar o contrário: que a bondade é tanto mais 
bela e atraente quanto mais rara, e que nesse 
meio que lhe é contrário ela surge com maior 
intensidade, incitada pela oposição que encon- 
tra e a glória que aufere. Os ladrões não me 
odeiam particularmente, nem eu a eles, porque 
teria que odiar exagerado número de pessoas. 
As mais diferentes vestimentas encobrem cons- 
ciências idênticas; a crueldade, a deslealdade, 
o roubo são piores ainda quando protegidos 
pelas leis; detesto menos a injustiça declarada 
do que aquela que recorre à traição, e menos a 
que se engendra nas desordens da guerra do 
que a que se verifica na paz e reveste formas 
legais. A febre atual atacou nosso corpo, sem 
entretanto agravar o estado em que se encon- 
trava; a brasa dormia e agora surge a chama, 
eis tudo. O ruído é maior, não o mal. Aos que 
me perguntam por que viajo tanto, respondo 
que sei ao que fujo mas não sei o que eu vou 
encontrar; e quando me dizem que no. estran- 
geiro a situação é pior e os costumes não 
valem mais do que os nossos, respondo antes 
de mais nada que é difícil, “a tal ponto multi- 
plicou-se o crime entre nós? 'º”. Em segundo 
lugar sempre se tira algum proveito da mudan- 
ça quando trocamos uma situação má por 
outra incerta. E depois não sentimos do 
mesmo modo as desgraças alheias. 


Não quero esquecer-me de que, por mais 
irritado que ande contra a França, não deixo 
de olhar Paris com bons olhos. Esta cidade 
conquistou-me o coração desde criança e 
quanto mais belas cidades conheço tanto mais 
ela cresce na minha afeição. Amo-a pelo que é 
e como é, e mais em sua vida habitual do que 
nas épocas de festas; amo-a com ternura e até 
em suas imperfeições e seus vícios; e só me 
sinto francês por causa dessa grande cidade, 
grande pelo seu povo e pela sua localização, e 
grande ainda, e principalmente, pela variedade 
e diversidade dos prazeres e vantagens que nos 
oferece. É a glória de França e um dos mais 
nobres ornamentos do mundo. Que Deus afas- 


218 Virgílio. 


ENSAIOS — II 


te dela as nossas dissensões! Ainda resistirá a 
todas as violências, mais ai dela se optar pela 
discórdia! Só receio, portanto, em relação à 
Paris, o mal que ela mesma pode provocar e 
temo-o por ela como por qualquer outra parte 
de nosso país. Enquanto houver Paris, terei um 
lugar de repouso e retiro para a velhice, e um 
lugar que não me dará azo a saudades de ne- 
nhum outro. 


Não porque o disse Sócrates, mas porque 
em verdade o penso, todos os homens são 
meus compatriotas; e sou mesmo levado a exa- 
gerar este sentimento. Abraço um polonês 
como abraçaria um francês, fazendo passar os 
laços que unem os indivíduos de uma nação 
após os que vinculam uns aos outros os habi- 
tantes do mundo. A doçura do clima natal não 
me enreda; as relações novas parecem-me 
valer as de minha vizinhança; e os bons ami- 
gos que adquirimos espontaneamente são em 
geral melhores do que os que devemos ao 
parentesco ou ao clima. “Pôs-nos a natureza 
neste mundo, livres de quaisquer compro- 
missos e nós nos prendemos dentro de estreitos 
limites, como os reis da Pérsia, que juravam 
não beber senão água do rio Coaspes, renun- 
ciando totalmente ao direito de usar qualquer 
outro manancial; desse modo, como que seca- 
va para eles o resto do mundo. No fim da vida, 
considerava Sócrates que uma condenação ao 
exílio era pior do que uma sentença de morte; 
não sou de sua opinião e não creio que viesse 
jamais a sentir-me assim apegado a meu país. 
Essas vidas dignas de criaturas celestes apre- 
sentam aspectos que admiro mais do que apre- 
cio; aigumas são mesmo tão elevadas e 
extraordinárias que minha admiração não as 
pode alcançar. Esse sentimento de Sócrates 
parece-me demasiado terno em quem conside- 
rava que sua pátria era o universo. E Verdade 
que não apreciava as viagens e nunca pusera o 
pé fora da Ática. Que pensar igualmente de 
não ter aceito que seus amigos o resgatassem e 
haver recusado, para não desobedecer às leis 
de uma época tão corrupta, a participar de 
uma conjura que o teria libertado? Esses 
aspectos de sua vida entram na categoria 
daqueles que admiro mais do que aprecio. 
Quanto aos que minha admiração não alcan- 
ça, alguns há que não consigo sequer conceber. 

Além dessas razões, viajar afigura-se-me um 
exercício proveitoso, pois o espírito vive então 
continuamente solicitado a observar coisas 
novas e dosconhecidas; e, como digo amiúde, 
não sei de melhor escola do que essa que lhe 
mostra a grande diversidade de existência, 
idéias e usos entre os homens, bem como a 
continua variedade de formas da natureza. O 


443 


corpo, em viagem, não permanece ocioso nem 
se fatiga; uma atividade moderada mantém-no 
bem disposto. Apesar de minhas dores, sou 
capaz de fazer de oito a dez horas a cavalo 
sem cansar, “além das forças e da saúde de um 
velho22º9?, Não receio o tempo, salvo os calo- 
res tórridos, pois não uso esses guarda-sóis que 
apreciam na Itália, desde os romanos, achando 
que cansam mais o braço do que protegem a 
cabeça. Gostaria de conhecer o processo que, 
segundo Xenofonte, teriam adotado os persas 
na antiguidade para conseguir ar fresco e som- 
bra à vontade. Gosto da chuva e da lama como 
um pato. Sou insensível às mudanças climá- 
ticas e atmosféricas, e é-me indiferente que 
faça ou não bom tempo. Sofro unicamente 
com as mudanças internas que se produzem 
em mim, e estas são menos frequentes em via- 
gem. Custo a mpvimentar-me e hesito tanto 
ante uma excursão ou visita às cercanias como 
ante uma grande viagem; mas uma vez a cami- 
nho vou até onde quiserem. Tenho por hábito 
viajar à espanhola, isto é, com longas jornadas 
ininterruptas. Durante a canícula, viajo à 
noite, do entardecer ao amanhecer. O costume 
de comer apressadamente em caminho é incô- 
modo, sobretudo nos dias curtos. Meus cava- 
los dão-se muito bem com meu sistema € 
nunca falharam. Deixo que bebam por toda 
parte, conquanto reste ainda suficiente distân- 
cia a percorrer para que tenham tempo de 
digerir a água. Minha preguiça em levantar 
acampamento permite que meus servidores 
comam à vontade; quanto a mim, nunca é 
tarde demais para a refeição. O apetite vem-me 
com a comida e só tenho fome quando me 
sento à mesa. 


Algumas pessoas me censuram porque me 
comprazo em viajar apesar de casado e velho. 
Não têm razão; é melhor deixar a casa quando 
já organizada e suscetível de prescindir de 
nossa presença. Mais imprudente é afastar-se 
sem que uma vigilante e cuidadosa adminis- 
tração atenda aos misteres do lar. 


A ciência e a ocupação mais honrosas de 
uma mãe de família são as da casa. Conheço 
algumas mulheres avarentas porém más admi- 
nistradoras; ora,a qualidade de dona de casa é 
sem dúvida a principal, pois dela depende o 
progresso ou a ruína do lar. Diga-se o que se 
quiser, a economia doméstica é a virtude que, 
por experiência, coloco acima de todas as ou- 
tras em uma mulher casada. Viajando, dou à 
minha esposa a oportunidade de exercê-la, 
entregando-lhe a administração de meus bens 
durante a minha ausência. Olho com melanco- 


220 Virgílio. 


444 


lia o marido que volta para casa ao meio-dia, 
aborrecido, preocupado com o andamento dos 
negócios e encontra a mulher no toucador, a 
cuidar do penteado e do vestido; isso é bom 
para as rainhas, e talvez nem mesmo para elas. 
É ridículo e injusto que nosso suor e nosso tra- 
balho sirvam para alimentar a ociosidade de 
nossas mulheres. Não creio que alguém tenha 
menos complicações do que eu em seus negó- 
cios; nenhuma dívida pesa sobre meus bens; 
mas se cabe ao marido dar o fundo, deve a mu- 
lher contribuir com a forma. 

Dizem que a ausência pode influir nos deve- 
res impostos pela afeição conjugal: não creio. 
Ao contrário, tais deveres se ressentem com 
relações contínuas; um excesso de assiduidade 
cansa. As: mulheres com as quais não priva- 
mos parecem-nos sempre desejáveis e não há 
quem não saiba por experiência que o prazer 
de ver-se continuamente não iguala o de se 
encontrar após uma separação. Essas interrup- 
ções avivam o amor que dedico aos meus e 
torna mais aprazível o tempo que passo em 
casa; sucedendo o lar à viagem e reciproca- 
mente, com muito mais agrado vou de um a 
outro prazer. A amizade tem os braços 
suficientemente longos para que nos possamos 
abraçar através do espaço, principalmente 
quando se trata da amizade conjugal que tem a 
seu favor deveres e recordações. Já diziam os 
estóicos que as relações dos sábios entre si são 
de tal ordem que um deles jantando em França 
alimenta o outro no Egito, e se um mexe o 
dedo em qualquer lugar do mundo todos os ou- 
tros o percebem imediatamente. O gozo e a 
posse dependem muito da imaginação, a qual 
abraça. com rnais ardor e persistência o que 
procura do que aquilo que tem à mão. Atente- 
mos para nossos divertimentos cotidianos e 
veremos que nunca nos encontramos mais 
afastados de nossos amigos do que quando os 
temos presentes. Distraimo-nos então, e nosso 
pensamento se ausenta a todo instante. Fora 
de casa, em Roma, tenho meus negócios no 
espirito e interesso-me pelo que ocorre; vejo 
erguerem-se e derrubarem-se muros, crescerem 
árvores, e diminuir a minha renda, quase como 
se estivesse presente: “Tenho constantemente 
sob os olhos a casa € até o mais insignificante 
pormenor na disposição dos objetos? 21.” Se só 
nos agradássemos das coisas que temos à mão, 
que seria dos escudos que guardamos em nos- 
sos cofres e de nossos filhos quando andassem 
a caçar? Queremo-los mais perto de nós? 
Muito bem. Será muito longe no jardim? E a 
meio dia de marcha? E a dez léguas? É perto? 


221 Ovídio. 


MONTAIGNE 


E onze léguas, ou doze, ou treze? Acho que a 
mulher deveria dizer a seu marido: a tal distân- 
cia termina o perto, a tal outra começa O 
longe, e fixar um ponto entre os dois extremos. 
“Dizei um número para evitar quaisquer 
discussões, sem o que abusarei da latitude que 
me deixardes; e como se arrancasse pêlo por 
pêlo a crina de um cavalo, tiraria uma légua e 
mais outra até que nenhuma vos sobrasse e vos 
sentísseis vencido pela força de meu racioci- 


“nioZ22?º Que apele para a filosofia. Pois se 


não pode ver as extremidades do ponto de jun- 
ção entre o perto e o longe, o pouco e o muito, 
o leve e o pesado, o curto e o comprido, julga- 
rá sem dúvida o meio com insegurança: “A 
natureza não nos permite conhecer os limites 
das coisas?23.” Porventura não continuam as 
mulheres a ser esposas e amigas dos defuntos? 
Abraçamos pelo pensamento não somente os 
ausentes mas também os que não mais existem, 
e os que ainda não são. Ao casar não 
contraíimos a obrigação de permanecer indis- 
soluvelmente soldados um a outro como certos 
insetos, ou os enfeitiçados de Karancia. Não 
deve a mulher ter a vista presa à dianteira do 
marido a ponto de não lhe enxergar a parte tra- 
seira ocasionalmente. Não caberia aqui esta 
magnífica descrição do temperamento femini- 
no: “Se voltas tarde para casa, tua mulher ima- 
gina que amas outra ou por outra és amado; 
ou que bebes e te divertes; que somente-tu tens 
o que é bom e deixas-lhe o ruim22 *.” Em ver- 
dade, a contradição e a oposição são naturais 
na mulher e muito lhe agrada desagradar-nos. 
Na verdadeira amizade, e bem a conheço, 
damos ao amigo mais do que tiramos. Não 
somente prefiro fazer-lhe bem a receber dele 
favores mas ainda prefiro que o faça a si 
mesmo a fazê-lo a mim. Tanto mais alegria me 
proporciona quanto mais se outorga a si pró- 
prio; e se a ausência lhe apraz ou lhe é útil, tor- 
na-se ela desde logo muito mais aprazível e útil 
a mim do que sua presença, desde que tenha- 
mos a possibilidade de nos comunicar. Disso 
tirei outrora vantagem e prazer“? º: quando 
nos separávamos, enchíamos melhor a vidae a 
enriqueciamos; ele vivia, apreciava, via por 
mim e eu por ele, tão completamente como se 
estivéssemos no mesmo lugar. E quando está- 
vamos de fato juntos, uma metade de nós 
(visto que éramos um só) permanecia ociosa; 
separados, exercitavam nossas vontades cada 
uma por seu lado, em conjunto produziam 
mais. Esse desejo insaciável de presença física 


222 Horácio. 

223 Cícero. 

224 Terêncio. 

225 Referência a La Boétie. 


ENSAIOS — HI 445 


revela certa fraqueza na capacidade de gozo 
dos espíritos. 


Quanto à velhice, considero que aos jovens 
é que cumpre conformar-se com as opiniões e 
as leis em vigor; e privar-se por causa dos 
outros. Eles têm com que satisfazer a todos e a 
si próprios. Nós, velhos, já muito trabalho nos 
dá satisfazer-nos a nós mesmos. E tanto mais 
precisamos buscar as alegrias que ainda pode- 
mos descobrir, quanto menor se vai fazendo o 
número de satisfações naturais ao nosso alcan- 
ce. É injusto desculpar a mocidade por se 
entregar aos prazeres e proibir a velhice de se 
esforçar por encontrá-los. Na juventude eu era 
alegre e tão-somente precisava pensar em 
moderar minhas paixões; sou agora triste e 
tenho de recorrer às distrações. As leis de Pla- 
tão proíbem as viagens antes dos quarenta ou 
cingúenta anos, a fim de que sejam mais 
instrutivas e úteis. Concordo mais com o 
segundo artigo que as desaconselha após os 
sessenta. 


“Mas na vossa idade, dirão, não voltareis 
nunca de tão longa viagem!” Que importa! 
Não a empreendo para voltar ou terminá-la, e 
sim para movimentar-me enquanto o movi- 
mento me agrada. Passeio por passear. Os que 
correm atrás do dinheiro ou de uma lebre não 
correm na realidade; correm os que brincam 
de pegador ou disputam corridas. Posso parar 
“onde queira, não tendo programa organizado 
de antemão; cada jornada é um fim em si 
mesma, e assim também a vida. Isso não me 
impediu de visitar muitas localidades longin- 
quas onde de bom grado vivera. Por que não? 
Crisipo, Cleantes, Diógenes, Zenão, Antíipater 
e tantos sábios da seita mais severa, abando- 
naram seu país de origem sem motivo, apenas 
para respirar um ar diferente alhures. O que 
mais me aborrece em minhas viagens estã em 
não poder eleger domicílio onde me ache bem 
e ter sempre que pensar na volta a fim de 
conformar-me com o que determinam os 
costumes. 


Se receasse morrer longe do lugar em que 
nasci, e dos meus, não sairia de França; não 
sairia sequer de minha paróquia, pois sinto a 
morte tatear-me de contínuo, pelos rins e a gar- 
ganta. Mas tanto se me dá morrer aqui ou 
acolá. Se entretanto pudesse escolher, gostaria 
antes de morrer a cavalo do que na cama e de 
preferência fora de casa e longe dos parentes. 
Sentimos mais tristeza do que consolo em nos 
despedirmos dos amigos; e de.bom grado dei- 
xaria de cumprir esse dever de cortesia, por- 
quanto entre os serviços que a amizade exige 
de nós, esse é o mais desagradável, pois com 
satisfação esqueceria esse grande e eterno 


adeus. Se algumas vantagens oferece a assis- 
tência dos amigos em tal circunstância, inúme- 
ros são os inconvenientes. Vi quem assim mor- 
resse em lamentáveis condições, sufocado pela 
solicitude dos presentes. Considera-se contrá- 
rio ao dever e até sinal de falta de afeição e 
atenção deixar alguém morrer em paz; um 
atormenta a vista, outro os ouvidos ou a boca; 
não há sentido ou membro due não martiri- 
zem. Aperta-se o coração do moribundo com 
as lamentações sinceras e se irrita com as 
hipócritas. Quem sempre foi sensível e deli- 
cado mais ainda se torna nesse momento; 
precisaria, nessa circunstância, que ninguém 
pode evitar, uma mão hábil capaz de pensá-lo 
onde lhe doa, ou de deixá-lo sossegado. Temos 
parteira para vir ao mundo, por que não have- 
riamos de precisar de quem nos auxilie a dele 
sair? Uma tal pessoa, que além disso seria 
nossa amiga, valeria seu peso em ouro. Ainda 
não consegui alcançar essa força de ânimo que 
despreza tudo o que possa ocorrer, que tira seu 
poder de si mesma e que comove. Não. Procu- 
ro escapar à dificuldade tão-somente, e não 
por medo mas por cálculo. Acho que esse 
momento não é indicado para uma demonstra- 
ção de coragem, mesmo porque um minuto de- 
pois cessariam quaisquer direitos à reputação 
que se colhesse. Contento-me com uma morte 
serena. solitária, de acordo com a vida retirada 
e burguesa que vivi. Isso tudo em oposição ao 
que determinava a superstição romana, a qual 
julgava infeliz quem morresse sem falar e sem 
ter um parente para lhe cerrar as pálpebras. 
Muito me custa consolar-me a mim mesmo 
para que ainda queira consolar a outrem, nem 
me falta em que pensar ou com que me preocu- 
par. Esse ato da peça não comporta muitos 
papéis; tem uma só personagem. Vivamos € 
riamos com os nossos e morramos entre desco- 
nhecidos; mediante pagamento, sempre acha- 
remos alguém que nos vire a cabeça, nos fric- 
cione os pés, que atenda a tudo com 
indiferença, deixando-nos toda a liberdade 
para nos queixarmos e agirmos segundo nos- 
sos desejos. 


Afasto sem cessar, de mim, essa idéia pueril 
e inumana que nos leva a desejar que nossos 
males suscitem compaixão e tristeza em nos- 
sos amigos. Exageramos o que sentimos para 
provocar lágrimas. E a firmeza que louvamos 
nos óutros quando enfrentam a desgraça, nós a 
censuramos desde que a infelicidade seja 
nossa. Não basta que sintam nossos infortú- 
nios, é preciso que se aflijam. Estendamos a 
alegria e restrinjamos a tristeza. Quem, sem 
razão, força os outros à compaixão, arrisca-se 
a não encontrar ninguém que se condoa na 


446 


hora em que necessitar; quem em vivo se taz 
de moribundo, procurando inspirar continua- 
mente piedade, acaba por não enternecer nin- 
guém. Sei de muitos que se irritam se os acham 
bem dispostos; e evitam sorrir para não pare- 
cer convalescentes; e que não se esforçam por 
curar-se com receio de não mais inspirar pie- 
dade. E não se trata de mulheres. Em geral 
vejo minhas enfermidades exatamente como 
são, evitando prognósticos sombrios; e minhas 
exclamações não vão além das que a dor possa 
provocar. Não as comento. Junto a um doente 
sensato. é conveniente mostrar-se calmo, senão 
exuberante; por estar enfermo não é que tem 
de ser hostil à saúde; reconforta-o vê-la nos 
que o assistem, pois o fato de estar definhando 
não o impede de se ocupar das coisas vivas e 


tomar parte na conversação de todos. É quan- 


do estou bem que me comprazo em estudar as 
doenças; quando me atingem sinto-lhes sufi- 
cientemente os efeitos sem que minha imagina- 
ção precise expandir-se. Preparainos com 
grande antecedência as viagens que empreen- 
demos, mas quando chega a hora de montar a 
cavalo dedicamo-la à assistência e em seu 
benefício. 


Tiro deste estudo de meus costumes um 
inesperado proveito: serve-me até certo ponto 
de regra de conduta. Obriga-me por vezes a 
não desmentir o que sempre fui. Esta declar a- 
ção pública força-me a manter-me “obediente à 
direção tomada e a não desacreditar a descri- 
ção de minhas condições, por certo menos 
desfiguradas e contraditórias do que seriam 
através de falsos e maldosos juízos. A unifor- 
midade e a simplicidade de meu caráter permi- 


tiram-me interceptá-lo facilmente; mas a 
forma nova, não habitual, de apresentá-lo, dá 
margem à maledicência. Creio que confes- 
sando minhas imperfeições forneci os meios de 
me criticar a quem o quiser fazer com lealda- 
de. O material é vasto e não parece necessário 
recorrer a fantasias. Mas se alguém considerar 
que-o fato de me haver adiantado à acusação 
embota os dentes da crítica, poderá natural- 
mente ser impelido a ampliar os ataques, pois 
a ofensa outorga-se direitos que a justiça não 
dá; e com as raízes que mostrei, de alguns vi- 
cios, poderá fazer grandes árvores. Que se 
valha então não sómente dos defeitos que 
tenho realmente mas também dos que se 
encontram em germe em mim e que, pelo seu 
número e natureza, me tornam acessível aos 
golpes. Que me ataque por aí. Imitaria de bom 
grado, nesse caso, o filósofo Bion. Antígono, 
querendo magoá-lo, referira-se à sua origem. 
Ele retorquiu: “Sou filho de um carniceiro, 
escravo estigmatizado, e de uma barrega que 


MONTAIGNE | 


meu pai desposara porque o seu nível social 
não lhe permitia aspirar a outra mulher; 
ambos haviam cometido delitos e tinham sido 
condenados. Um orador, achando-me belo e 
amável, comprou-me, ainda criança; ao mor- 
rer, deixou-me seus bens; vendi-os e vim para 
Atenas onde me dediquei à filosofia. Que os 
historiadores não percam tempo em buscar 
informações a meu respeito, direi eu mesmo 
tudo o que sou.” Uma confissão franca e 
espontânea embota a crítica e desarma a injú- 
ria. Bem pesadas as coisas, considero que, não 
raro, os louvores também desvalorizam quan- 
do ultrapassam a medida; e parece-me igual- 
mente que desde a infância, em matéria de car- 
gos e honrarias, deram-me mais do que 
merecia. Gostaria de viver em um país onde 
tais questões fossem reguladas ou desprezadas. 
Entre homens, julgam-se descorteses as discus- 
soes de prerrogativas protocolares que com- 
portem mais de três réplicas; para fugir.a tão 
importunas contestações. não hesito em ceder o 
lugar ou passar à frente, ainda que sem justifi- 
cação,. e se alguém reivindica a precedência 
nunca deixo de concordar. 


Além desse proveito que tiro de meu estudo, 
sempre esperei que se meu modo de ser agra- 
dar e convier.a algum hor zm de bem, talvez se 
decida ele a ligar-se de amizade a mim, antes 
de eu morrer. Dou-lhe uma vantagem. grande, 
porque a familiaridade e o conhecimento que 
só teria com anos de frequentação pode alcan- 
çá-los com segurança e exatidão em três dias 
de leitura. O curioso é que não diria em parti- 
cular o que consigno por escrito publicamente 
e que, para penetrar meus pensamentos mais 
íntimos, devam os amigos mais fiéis recorrer a 
um livro: “que lhes abre os recantos recônditos 
de minha alma?? 8”, Mas, se eu soubesse de 
alguém que me conviesse, iria buscá-lo ainda 
que bem longe, pois a doçura de uma compa- 
nhia grata e adequada nunca se pagará caro 
demais, a meu ver. Ah! um amigo! Quanto 
não daria para ter um, e como é verdadeiro o 
ditado antigo que afirma ser a amizade mais 
necessária e agradável do que a água e o fogo! 


Voltando a meu assunto, direi que não vejo 
grande inconveniente em morrer sozinho e 
longe de casa, pois nos isolamos para praticar 
atos naturais, menos desgraciosos e horríveis 
do que esse. Os que durante anos levamjuma 
vida miserável também deveriam desejar não 
importunar os seus com sua desgraça. Era o 
que pensavam os indianos de certa província, 
os quais consideravam justo matar os que se 
encontravam nesse estado; e em outra região 


226 Pérsio 


ENSAIOS — HI 


abandonavar-nos para que se arranjassem 
como pudessem. À quem não se tornam eles 
finalmente aborrecidos e insuportáveis? 
Mesmo aos que os devem aguentar. 


Quando estou doente não exijo nada de 
especial. O que a natureza não me quiser dar, 
não irei pedi-lo aos remédios. Antes que a 
febre e a doença comecem a destruir-me, em 
plena posse de mim mesmo, reconcilio-me com 
Deus mercê dós últimos sacramentos cristãos. 
Sinto-me assim mais livre e mais leve e tenho a 
impressão de que isso me ajuda a resistir à 
enfermidade. Quanto aos tabeliães e a seus 
conselhos, preciso ainda menos deles que dos 
médicos. Os negócios que não tenha posto em 
ordem antes de adoecer, não irei acertá-los 
depois. O que desejo fazer em caso de morte 
está sempre feito; e o que não o esteja, ou não 
o estará porque a dúvida terá impedido uma 
decisão (o que é por vezes a melhor das deci- 
sões) ou porque não o desejo realmente fazer. 


Escrevo meu livro para poucas pessoas e 
pouco tempo; se se tratasse de uma obra desti- 
nada a durar, houvera empregado uma lingua- 
gem mais elevada. Dadas as variações que so- 
freu nossa língua até hoje, quem há de afirmar 
que será a mesma dentro de cinqienta anos? 
Modifica-se ela diariamente em nossas maos é 
no decurso de minha existência mudou pela 
metade, ao menos. Julgamo-la perfeita atual- 
mente, mas cada século diz a mesma coisa; 
não confio em que assim se mantenha; conti- 
nuará sem dúvida a transformar-se. Cabe aos 
bons escritores, aos que escrevem coisas úteis, 
fixá-la até certo ponto; quanto à duração da 
mudança, dependerá de nosso estado político. 
Não hesito entretanto em introduzir aqui al- 
guns temas que são mais da alçada de certas 
pessoas de nossa época, que se especializaram 
em determinadas ciências; compreendê-los-ão 
por isso melhor do que a generalidade de meus 
leitores. 


Não quero que se diga de mim o que ouço 
dizer de muitos defuntos: “pensava assim, 
vivia assado, desejava isto ou aquilo; se tivesse 
falado no fim da vida, houvera dito tal ou-qual 
coisa; posso afirmá-lo porque o conheci me- 
lhor do que ninguém”. Ora, na medida do pos- 
sível, aqui revelo minhas idéias e afeições e as 
revelaria mais livremente de viva voz a quem 
as desejasse conhecer. Não obstante, ver-se-á 
que nestas memórias tudo disse e indiquei; e o 
que não pude expressar aponto-o com o dedo: 
“mas esses traços, por leves que sejam, bastam 
a um espírito penetrante para que adivinhe o 


resto?? 7” Nada deixo por adivinhar, porém, 


227 Lucrécio 


447 


do que desejem saber. Quero que falem de mim 
com conhecimento de causa e com justiça; € 
voltaria do outro mundo se pudesse para des- 
mentir quem me retratasse diferente do que 
sou, embora para elogiar. Verifiquei aliás que 
dos próprios vivos falam erroneamente. E se 
não me tivesse esforçado por fazer com que 
não desfigurassem um amigo perdido, tê-lo- 
iam mostrado de mil maneiras contraditórias. 
Para acabar de confessar as fraquezas de 
meu espírito, direi que não me detenho, em via- 
gem, em nenhum lugar, sem que me pergunte 
se poderia aí morrer tranquilamente. Procuro 
alojar-me de maneira a sentir-me como em 
casa, onde não haja ruídos e não seja triste, 
enfumaçado, sufocante. Com essas frívolas 
condições faço por bajular a morte, isto é, por 
não ter que pensar senão nela quando chegar, 
porquanto já será suficiente para ocupar-me o 
espírito. Quero que participe do bem-estar de 
minha vida; desempenhe nesta um papel 
importante e espero que, dados meus sentimen- 
tos, não desminta o meu passado. A morte as- 
sume formas diferentes segundo as nossas 
idéias. Entre essas que se devem a causas natu- 
rais, a que decorre do enfraquecimento e da 
perda das nossas faculdades parece-me fácil e 
suave. Entre as mortes violentas, recearia antes 
cair em um precipício do que ser esmagado 
por um edifício que ruísse; e temeria mais uma 
estocada do que um tiro. Preferiria beber cicu- 
ta, como Sócrates, a apunhalar-me como fez 
Catão; e êmbora dê no mesmo, minha imagi- 
nação estabelece uma diferença enorme entre 
jJogar-se em uma fogueira e.mergulhar num 
canal de águas calmas. Tolamenté atentamos 
mais para os meios do que para os resultados. 
A morte é, em verdade, coisa de um instante, 
mas daria muitos dias de vida para que esse 
instante fosse o melhor possível. Como cada 
um tem suas idéias acerca dos diferentes gêne- 
ros de morte, e da escolha que faria, vejamos 
se descobrimos algum isento de tristeza. Não 
poderíamos como os comorientes??28 Antônio 
e Cleópatra tomar a morte voluptuosa? Deixo 
de lado essas mortes exemplares que a religião 
e a filosofia nos mostram; mas mesmo entre os 
homens menos ilustres houve alguns, como 
Petrônio ou Tigelino em Roma, que, instados a 
matar-se, tornaram a morte quase insensível 
graças aos requintes empregados e introdu- 
zindo-a sub-repticiamente nos seus diverti- 
mentos habituais, em meio às cortesãs e aos 
alegres companheiros. Assim, atentos a seus 
jogos, seus ditos chistosos, suas discussões 
acerca da música ou da poesia erótica. deixa- 


228 “Commourants”, neologismo que significa os 
que morrem juntos. (N. do T)) 


448 MONTAIGNE 


ram-se surpreender por ela sem pensar em 
testamentos nem se preocupar com atitudes. 
Não poderíamos imitar tal resolução, embora 
de maneira mais honesta? Se loucos e sábios 
sabem como morrer bem, tratemos dé desco- 
brir um gênero de morte que convenha aos que 
não são nem loucos nem sábios. Estou imagi- 
nando alguns que me parecem bons e desejá- 
veis, visto que temos que acabar morrendo de 
qualquer jeito. Os tiranos romanos achavam 
que, dando ao criminoso o direito de escolher 
o gênero de morte, lhe davam a vida. Por outro 
lado, Teofrasto, filósofo tão delicado, modesto 
Ê sábio, não se viu impelido pela razão a dizer 
este verso que Cicero traduziu: “a vida depen- 
de da sorte, não da sabedoria”? O destino aju- 
dou-me nesse ponto, fazendo com que não 
constitua para os meus nem uma necessidade 
nem um estorvo. Uma tal situação, eu a houve- 
ra aceito em qualquer época de minha vida, 
mas agora que me cumpre arranjar as malas 
para a grande viagem, é-me um motivo de par- 
ticular satisfação não vir a tormnar-me para 
eles, em morrendo, uma causa de prazer ou de 
aborrecimento. Em virtude de uma compensa- 
ção engenhosa, os que podem esperar algum 
proveito da minha morte, acham-se pela 
mesma razão sujeitos a perdas materiais; não 
raro a morte parece-nos mais triste em conse- 
quência dos prejuízos que acarreta aos outros; 
cujo interesse nos preocupa por vezes mais do 
que o nosso próprio. 

Nos meus alojamentos ocasionais não pro- 
curo luxo nem exagerado espaço, coisas que 
antes me desagradam; quero-os com essa 
simplicidade mais comumente encontradiça 
nos lugares menos artificiais e mais próximos 
da natureza. “Prefiro uma mesa limpa a uma 
mesa suntuosa, e o espírito ao luxo?2º.” Aliás, 
somente aos que viajam por necessidade, e são 
surpreendidos em pleno inverno nos Grisões, 
por exemplo, ocorrem tais inconvenientes; eu, 
que viajo por prazer, não corro esses riscos: se 
a estrada é incômoda à direita, tomo à esquer- 
da; se não estou com vontade de montar a 
cavalo, paro. Nessas condições nada vejo que 
não me agrade ou não seja tão cômodo como 
minha casa. Sempre achei a superfluidade 
indesejável e sinto-me embaraçado ante o 
requinte e a abundância. Se deixo para trás al- 
guma coisa por ver, volto; qualquer caminho é 
meu caminho, porque não tenho itinerário 
predeterminado. Se onde vou não encontro o 
que me disseram aí estar, porquanto as opi- 
niões alheias não se acordam em geral com as 
minhas, não me queixo, pois ao menos cons- 


229 Citação tirada em parte de Nônio e em parte 
de Cornélio Nepo. 


tato assim a inexatidão do que me afirmaram. 
Adapto-me a tudo, e meus gostos são os de 
um homem igual aos outros. À diversidade de 
costumes entre um país e outro só me impres- 
siona pelo prazer da variedade. Cada uso tem 
sua razão de ser. É-me indiferente que os pra- 
tos sejam de estanho, de madeira ou de barro; 
que a carne seja assada ou cozida; que haja 
manteiga ou azeite e este seja de nozes ou de 
olivas. À tal ponto que, ao envelhecer, deseja- 
ria perder essa faculdade e tornar-me mais 
requintado e exigente, a fim de frear o insa- 
ciável apetite que me perturba o estômago. 
Quando me encontro em França e me pergun- 
tam por cortesia se desejo ser servido à france- 
sa, recuso-o, sentando-me sempre às mesas 
ocupadas por estrangeiros. Envergonho-me 
com ver meus compatriotas hostilizarem e cri- 
ticarem os costumes contrários aos seus; pare- 
ce-lhes estar fora de seu elemento, mal saem de 
sua aldeia. Onde quer que se achem atêm-se a 
seus usos e abominam os dos outros. Se depa- 
ram por acaso com algum dos seus na Hun- 
gria, logo se congratulam pelo acaso; reúnem- 
se, frequentam-se, e se esforçam por condenar 
os costumes bárbaros que têm sob os olhos. 
Como não seriam bárbaros se não são france- 
ses? E os mais inteligentes é que falam! Em 
sua maioria os franceses viajam tão-somente 
para voltar; permanecem reservados, tacitur- 
nos, inacessíveis, desejosos de escapar ao con- 


tagio de um ar que lhes é desconhecido. Lem- 
bra-me isso alguns dos nossos jovens cortesãos 
que só se ocupam da gente da mesma laia e 
nos olham com desdém, como se fôssemos de 
um outro mundo. Impedi-os de falar das coisas 
da corte e não saberão mais que dizer; são a 
nossos olhos tão ignorantes e tolos como nós 
aos deles. Com razão se observa que o homem 
de boa companhia é o que se adapta a tudo. 
Quando viajo não quero saber de nossos costu- 
mes; não é para encontrar gascões que vou à 
Sicília; não faltam em França. São antes gre- 
gos ou persas que procuro fregientar e enten- 
der. Vou mais longe: não creio ter observado, 
em minhas peregrinações, costumes que não 
valham os nossos. É verdade que não me tendo 
afastado demasiado do meu campanário 
pouco arrisco em afirmá-lo. 


A maior parte das pessoas que encontramos 
em viagem dá-nos mais aborrecimento do que 
satisfação; por isso trato de não ligar-me a 
elas, principalmente agora que vou envelhe- 
cendo e me apego menos à etiqueta. O velho 
sofre por causa dos outros e estes por causa 
dele, o que é ainda mais grave. É raro e recon- 
fortante ter por companheiro de jornada um 
homem de bem que se agtade) de nossa 'pre- 


ENSAIOS — TI 449 


sença e tenha uma mentalidade e hábitos seme- 
lhantes aos nossos; senti muito a falta de uma 
tal companhia em todas as minhas viagens; 
mas é necessário escolhê-la antes de partir. Ne- 
nhum prazer tem sabor para mim, se não 
posso entreter-me a respeito com alguém; e o 
mais insignificante pensamento gosto de tê-lo a 
quem dizer. “Não quisera saber da sabedoria 
se ma oferecessem com a condição de não a 
comunicar a ninguém?3º.” E eis o que diz Ci- 
cero: “Suponha-se um sábio em uma solidão 
absoluta em que goze, entretanto, de tudo o 
que precisa e com tempo para estudar o que 
for digno de ser conhecido: preferirá renunciar 
a vida a uma tal solidão.” Seduz-me a opinião 
de Arquitas: “o próprio céu me daria enfado, 
se aí tivesse de passear sem companheiro, em 
meio aos divinos corpos celestes”. Todavia, 
mais vale ficar só do que em companhia de 
uma pessoa aborrecida e tola. Onde quer que 
fosse, Aristipo gostava de viver como um 
estrangeiro. “Se o destino me permitisse viver 
como desejo231”, viveria a cavalo, “pelas 
regiões queimadas de sol e por aquelas onde se 
formam a neve e as chuvas?32”. 

Mas, dirão, “não podeis dispor de passa- 
tempos mais fáceis? Que vos falta? Não tendes 
um belo panorama em vossa propriedade e um 
bom clima? Não é ela confortável e ampla, 
mais do que necessário? Aí recebestes mais de 
uma vez o reie a rainha com seu séguito. Não 
ocupa vossa família uma invejável posição 
social? O lugar desperta em vós alguma recor- 
dação que vos ulcere e seja insuportável, “que, 
enterrada no coração, vos roa e consuma??? 2” 
Ondé acreditais que podereis viver sem tor- 
mentos de qualquer espécie? “Os favores da 
fortuna nunca são sem mistura?3 *.? Convinde, 
pois, em que vós mesmo sois o vosso entrave; 
ora, em toda parte vos encontrareis convosco e 
em toda parte tereis as mesmas razões de quei- 
xa, pois a satisfação só existe neste mundo 
para os seres desprovidos de inteligércia ou os 
que atingiram a perfeição. Quem não se acha 
feliz em casa, onde se achará? Quantos milha- 
res de pessoas não ambicionam apenas uma 
situação igual à vossa? Procurai corrigir-vos, 
isso está ao vosso alcance, ao passo quê aos 
decretos do destino apenas podereis opor a 
vossa paciência. “Somente a razão nos conduz 
à serenidade verdadeira?3 8? Vejo muito bem 
os fundamentos dessa observação mas fora 
mais simples dizer em duas palavras: sê sábio. 


230 Sêneca. 

231 Virgílio. 

232 Horácio. 

233 Ênio. 

234 Quinto Cúrcio. 
235 Sêneca. 


Semelhante resolução ultrapassa a sabedoria; 
é mesmo a sua conseguência. Com semelhante 
raciocínio imita-se o médico que berra a seu 
doente agonizante que se alegre; seu conselho 
não seria: muito mais tolo se lhe dissesse: passe 
bem. Não sou dos que se elevam acima do 
comum; e embora seja preceito salutar e fácil 
de entender o “contentar-se com o que se tem”, 
outros mais sábios do que eu não o aplicam 
tampouco. O ditado popular é profundo, mas 
abarca um terreno demasiado grande. Tudo 
deve ter medida, mas tudo é suscetível de 
mudança. 


Bem sei que esse prazer de viajar revela 
inquietação e irresolução. São os meus princi- 
pais defeitos, confesso. Não conheço coisa que 
eu deseje capaz de fixar-me. Mudar, variar, é O 
que me contenta, se é que alguma coisa pode 
contentar-me. Nas viagens o que me alegra é 
parar onde queira e partir quando queira. 
Gosto de viver como um simples particular; e 
assim o escolhi, mas não por ser hostil à vida 
pública, a qual talvez assente a meu tempera- 
mento. Essa independência faz que sirva de 
melhor boa vontade meu rei por fazê-lo sem 
constrangimento; minha razão e meu julga- 
mento induzem-me a tanto, e não me dedico a 
um por não me quererem outros. Assim em 
tudo. Detesto ser obrigado a alguma coisa; 
qualquer comodidade de que tivesse de depen- 
der, ser-me-ia odicsa: “Quero com um remo 
agitar a água e com outro tocar a areia da 
praia?º 8? Uma só corda não me retém. Dirão 
que há nisso uma certa vaidade. Onde e em 
quem não haverá? Toda essa sabedoria, todos 
esses preceitos que serão senão vaidade? 
“Deus sabe que os pensamentos dos sábios são 
apenas vaidades?º 7.” Essas requintadas sutile- 
zas são boas para os sermões; são discursos 
para enviar-nos bem arreados ao outro mundo. 
A vida é movimento constante e efetivo do 
corpo, movimento essencialmente desregrado e 
imperfeito que procuro orientar segundo mi- 
nhas aspirações: “Cada um com seu desti- 
no238.” “Devemos agir de maneira a não ir de 
encontro à natureza universal, sem entretanto 
deixar de seguir nossas próprias tendên- 
cias239? Para que servem as grandes idéias da 
filosofia que nenhum ser humano pode pôr em 
prática? Para que estabelecer regras que exce- 
dam nossa capacidade? Vejo nos proporem 
amiúde modos de vida que nem os proponentes 
nem -os que os escutam têm a esperança, e se- 
quer a vontade, de seguir. Do mesmo papel em 


236 Propércio. 
237 Salmo. 
238 Virgílio. 
239 Cícero. 


450 


que acaba de escrever uma condenação por 
adultério, arranca o juiz um pedaço a fim de 
enviar um recado amoroso à mulher de seu 
colega. E essa mulher com a qual acabais de 
colher o fruto proibido, momentos depois, e 
em vossa presença, vai manifestar-se mais 
violentamente do que Pórcia contra o mesmo 
pecado cometido por uma de suas conhecidas. 
E há quem condene outros à morte, por crimes 
que ele próprio não considera sequer uma 
falta. Vi outrora um senhor de boa sociedade 
dar ao público por um lado um punhado de 
versos notáveis pela beleza e o despudor e por 
outro propagar uma defesa violenta da Refor- 
ma? “º, Assim são os homens; deixam que os 
príncipes e as leis sigam um caminho e eles 
próprios seguem outro, e não somente por 
desregramento de costumes, mas também por- 
que não raro pensam e julgam diferentemente. 
Escutai uma oração filosófica: a imaginação, a 
eloquência, o talento nela se revelam; e, no 
momento, comovem-nos; mas nada hã ali que 
impressione nossa consciência; não é a esta 
que se dirige. Como dizia Ariston, uma estufa 
ou uma lição são inúteis se não nos dão pro- 
veito. Podemos atentar para a casca, mas só 
depois de tirar o miolo; assim também, somen- 
te depois de beber o vinho é que se olha para o 
cristal do copo. Em toda a filosofia antiga 
vemos o mesmo autor redigir regras de tempe- 
rança e páginas sobre o amor e a devassidão. 
Xenofonte nos joelhos de Clínias escrevia con- 
tra a virtude que propugnava Aristipo. E isso 
não ocorre por se verilficarem milagrosas 
conversões e recaidas. Sólon, por exemplo, ora 
se apresenta como indivíduo, ora como legisla- 
dor, falando ora para si mesmo, ora para as 
massas. No primeiro caso atém-se às regras 
naturais e diz com liberdade o que pensa, “ao 
passo que o doente gravé precisa ser tratado 
pelos mais hábeis médicos? *'”. Antistenes 
autoriza o sábio a amar e a fazer o que julgue 
oportuno sem se submeter às leis, porquanto 
seu julgamento lhes é superior e melhor do que 
elas conhece a virtude. Seu discípulo Diógenes 
afirma que devemos opor a razão ao desman- 
do, a confiança à sorte, a natureza às leis. Os 
estômagos delicados necessitam de receitas; os 
estômagos sólidos só se preocupam com seu 
apetite. Assim, nossos médicos comem melão 
e bebem bons vinhos, enquanto recomendam a 
seus clientes xaropes e caldos; e dizia a cortesã 
Laís: “não sei de que livros, de que sabedoria 
ou filosofia falam esses indivíduos, mas vejo- 
os atropelarem-se à minha porta como os 
demais” Como nossa licença nos solicita 


240 Teodoro de Beze, provavelmente. 
241 Juvenal. 


MONTAIGNE 


quase sempre mais do que o razoável, não raro 
apertaram-se mais do que fora indicado as leis 
e os preceitos de nossa vida. “Nunca se pensa 
delinquir além do limite permitido? *2.” Seria 
desejável que entre a ordem e a obediência 
houvesse mais justa proporção; parece estú- 
pido propor-nos um objetivo que não temos a 
possibilidade de atingir. Não há homem de 
bem, dedicado aos estudos das leis, que não se 
encontre dez vezes na vida no caso de ser con- 
denado à forca. E entre eles alguns seriam 
punidos mui injustamente. “Que te importa, 
Olo, como este ou aquele dispõe de sua 
pessoa 2437? Por outro lado, muitos que nunca 
infringiram as leis, não se poderiam considerar 
virtuosos e a filosofia com razão os açoitaria. 
Estamos longe de ser gente de bem segundo a 
doutrina divina. Nem o poderíamos ser com as 
regras que nós mesmos criamos. A sabedoria 
humana não cumpriu jamais os deveres que ela 
própria se propôs; se o houvesse conseguido; 
estabeleceria desde logo outros mais rigorosos 
ainda, pois nossa natureza é hostil a tudo o 
que é realizável. O homem obriga-se a si 
mesmo a continuamente errar e passa a vida a 
criar deveres feitos para outros seres que não 
ele. Por que determinar o que não se espera 
que alguém cumpra? Teremos culpa de não 
fazer o impossível? As leis que nos condenam 
ao que não podemos, condenam-nos pelo que 
não podemos. 

Em todo caso essa liberdade discutível de se 
apresentar com duas caras, uma nas palavras e 
outra nos fatos, será talvez permitida a quem 
fale de certos assuntos, não a quem trate de si 
mesmo como o faço. À vida comum deve rela- 
cionar-se com as outras vidas. A virtude de 
Catão era demasiado elevada para seu século; 
seu espírito de justiça, em um homem que se 
propunha govemar os outros e ser chamado a 
opinar nos negócios públicos, podia passar por 
inútil e absurdo, senão por injusto. Meus cos- 
tumes, embora não difiram mais do que um 
dedo dos costumes comuns, tornam-me, entre- 
tanto, na minha idade, algo selvagem, pouco 
sociável. Não sei se tenho razão em andar des- 
gostoso com a sociedade que frequento, mas 
não me queixaria se lhe aborrecesse, por isso 
que a desdenho. A virtude que as coisas deste 
mundo exigem é uma virtude flexível, capaz de 
se adaptar à fraqueza humana; não é pura nem 


- simples; não é reta, constante, imaculada. As 


crônicas de nosso tempo censuraram a um de 
nossos reis ter-se deixado guiar demasiado 
escrupulosamente pelo seu confessor; é isso 
porque os negócios de Estado devem obedecer 
| 


242 Juvenal. 
243 Marcial. É 


À 
ENSAIOS — HI 


a preceitos menos prudentes; “Abandona a 
corte, se queres ser justo? **.” Tentei outrora 
aplicar à gestão dos negócios públicos as re- 
gras e os princípios a que obedeço na vida 
particular, regras e princípios rudes, pouco 
requintados, mas impolutos, que nasceram co- 
migo ou adquiri com minha educação e que 
sigo com segurança, senão com prazer. E veri- 
fiquei que essa virtude inexperiente e escolás- 
tica é insuficiente e perigosa nas coisas públi- 
cas. Quando nos misturamos à multidão, 
cabe-nos abrir o caminho aos empurrões, 
avançar e recuar € por vezes tomar por ata- 
lhos; e viver, não como desejariamos, mas 
como querem os outros; não segundo o que 
nos propomos e sim de acordo com o que nos 
impõem; segundo o tempo, os homens e as coi- 
sas. Platão diz que só por milagre quem se 
mete em política sai com a consciência limpa; 
diz ainda que quando coloca um filósofo à 
testa do governo não pensa em governo cor- 
rupto como o de Atenas, e menos ainda como 
o nosso, no qual a própria sabedoria perderia a 
razão. Uma boa planta transplantada para um 
terreno muito diferente do que lhe convém, 
transforma-se de acordo com o meio; não o 
modifica à sua conveniência. Sinto que se 
devesse refazer minha educação em vista de 
ocupações dessa natureza, teria que proceder a 
inúmeras mudanças e adaptações. Se pudesse 
assim transformar-me (e por que não o poderia 
com o tempo?), não o desejara. A primeira 
experiência desgostou-me; sinto por vezes cria- 
rem-se em mim certas ambições, mas reajo a 
essas tentações: “Persevera, Catulo, resiste até 
o fim? * 8,” Não me solicitam muito aliás, e eu 
me ofereço ainda menos. À liberdade e a ocio- 
sidade, que são minhas qualidades dominan- 
tes, opôem-se diametralmente ao que exigem 
tais funções. Não sabemos distinguir as facul- 
dades de cada indivíduo; elas se subdividem e 
se delimitam de tal maneira que se faz dificil 
apreciá-las, Julgar que alguém está apto a gerir 
os negócios públicos pelas qualidades revela- 
das em sua vida particular, é julgar erronea- 
mente. Hã quem se govermne bem a sie mal aos 
outros; hã quem escreva ensaios e não seja 
homem de ação; outro sabe comandar. um 
cerco e não uma batalha; outro fala com 
desenvoltura diante de poucas pessoas e mal 
em público; o fato de poder uma coisa não sig- 
nifica que se possa a outra; talvez implique 
mesmo em incompatibilidade. Observo que os 
grandes espíritos são tão inaptos às pequenas 
coisas como os espíritos inferiores às grandes. 
Não parece inverossímil que Sócrates tenha 


244 Tarcano. 
245 Catulo. 


451 


sido alvo da zombaria dos atenienses por não 
saber contar os suftágios de sua tribo e apre- 
sentar um relatório ao conselho? .A veneração 
que dedico a esse personagem faz que sua sorte 
proporcione magnífico exemplo às minhas 
próprias falhas. Nossa capacidade mede-se 
pelos pormenores; a minha estende-se a pou- 
cas coisas e é em tudo muito restrita. Quando 
lhe deram o comando supremo, Saturnino 
objetou: “Companheiros, perdeis um bom 
capitão promovendo-o a general.” 


Quem, em tempos tão ruins, se jacta de pôr 
a serviço público uma virtude cândida e since- 
ra, ou não a. conhece (pois, com as opiniões, 
corrompem-se os costumes) ou, se a conhece, 
vangloria-se tolamente e faz, o que quer que 
diga, mil coisas de que sua consciência o 
acusa. De bom grado acreditaria em Sêneca se 
me falasse de coração aberto acerca de sua 
experiência. Em nossa época o sinal mais hon- 
roso de bondade está em reconhecer os pró- 
prios erros e os alheios, concorrer para repri- 
mir a tendência para o mal, esperar e desejar 
melhor. Nessas dissensões que nos perturbam 
e fizeram da França a presa dos partidos, cada 
qual (mesmo os melhores) defende sua causa 
com dissimulação e mentira. Quem lhe qui- 
sesse escrever a história fiando-se nas aparên- 
cias, seria muito temerário e não diria a verda- 
de. Mesmo o partido mais certo não é senão 
parte de um organismo corroído; mas o mem- 
bro menos doente desse organismo não deixa 
de passar por são, porque somente por compa- 
ração é que podemos julgar. A inocência na 
vida pública mede-se segundo os lugares e as 
estações: Teria gostado que Xenofonte hou- 
vesse dado a Agesilau o elogio que o fato 
seguinte merecia: tendo um príncipe vizinho, 
contra o qual estivera em guerra, pedido licen- 
ça para atravessar seu território, Agesilau ace- 
deu e deu-lhe passagem pelo Peloponeso; e não 
somente não o traiu, como também o recebeu 
cortesmente, considerando-se amarrado pela 
promessa. Esta, com as idéias de hoje, nada 
significaria; mas alhures e em outras eras a 
franqueza e a magnanimidade eram honradas. 
Os nossos malandros de agora pouco se 
importariam com isso, mesmo porque em nada 
se assemelham as virtudes dos espartanos às 
dos franceses. Não é que careçamos de ho- 
mens virtuosos, mas são como os concebemos. 
Quem tenha sentimentos superiores aos de seu 
século, precisa desnivelá-los ou não se meter 
conosco, pois que ganharia com isso? “Se por- 
ventura encontro um homem íntegro, comparo 
esse monstro a uma criança de duas cabeças, 
ou a algum peixe que o lavrador atônito depa- 
rasse sob a charrua. ou ainda a uma mula 


452 


fecundável? 4 8.” Pode-se ter saudade de outros 
tempos, mas não se pode fugir ao“presente; 
pode-se desejar ter outros magistrados, mas 
não desobedecer aos que estão em função. E 
talvez haja maior mérito em obedecer aos 
maus. Enquanto souber da existência de algum 
representante das leis que a monarquia nos 
deu, não o abandonarei; mas se porventura 
uma cisão se verificasse sob a ação dos parti- 
dos contrários que as entravam, e a escolha 
entre os dois fosse difícil e duvidosa, creio que 
me decidiria por fugir à tempestade, no que, 
possivelmente, fora ajudado pela natureza ou 
os azares da guerra. Entre César e Pompeu 
teria tomado francamente partido; mas entre 
os três ladrões que se lhes seguiram seria preci- 
so esconder-se ou seguir a corrente, o que acho 
lícito quando a razão já não nos pode guiar. 
“Ou vais perder-te? 4 79” Isso já se acha algo 
fora do meu assunto; perco-me, mas antes por 
licença do que por inadvertência. Minhas 
idéias ligam-se umas às outras, mas às vezes 
de longe; não se perdem de vista, embora seja 
por vezes necessário que virem a cabeça para 
percebê-lo. Tenho diante de mim um diálogo 
de Platão construído em duas partes absoluta- 
mente diferentes; a primeira é consagrada ao 
amor, ao passo que a outra somente trata de 
retórica. Hã autores que não receiam passar 
assim de um assunto a outro sem relação com 
o precedente e fazem-no com muita graça, ao 
sabor da fantasia. Os títulos de meus capítulos 
nem sempre estão de acordo com a matéria; 
não raro a relação se manifesta apenas através 
de algumas palavras, como na “Andriana”, no 
“Eunuco” ou em Sila, Cícero, Torquato. 
Gosto de andar dando cabriolas, à maneira 
dos poetas, que é ligeira, alada, demoniaca, 
como diz Platão. Plutarco em certas obras 
esquece o tema, o qual só por momentos se 
encontra e sob matéria estranha. Vede como 
procede em seu “Demônio de Sócrates”. Como 
são belas suas escapadas, como suas variações 
são elegantes, e tanto mais quanto mais se afi- 
guram ter saído da pena por acaso. O leitor 
distraído ê que perde de vista meu tema; eu 
não. Sempre, em algum lugar, umas poucas 
palavras hão de mostrar que o tenho em 
mente. Passo de um assunto a outro sem regra 
nem transição; meu estilo e meu espírito vaga- 
bundeiam juntos. Um pouco de loucura previ- 
ne um excesso de tolice, segundo afirmam nos- 
sos mestres por palavras e exemplos. Muitos 
poetas arrastam-se e descambam para o 
prosaísmo, mas a melhor prosa antiga es- 
plende com vigor e arrebatamento poético e 


248 Juvenal. 
247 Virgílio. 


MONTAIGNE 


tem algo da paixão que a anima. À essa prosa 
cabe sem dúvida a preeminência na expressão 
do pensamento; diz Platão que o poeta, senta- 
do no tripé das Musas, deixa que derrame o 
que lhe vem à idéia, como a água jorra da 
fonte, sem meditar nem ponderar; e jorra de 
tudo, coisas contraditórias, de todas as cores, 
sem sequência. O próprio Platão amiúde entre- 
ga-se à inspiração poética. A teologia antiga, 
dizem os sábios, é toda poesia e, na opinião 
dos filósofos, esta foi a princípio a linguagem 
dos deuses. Penso que o assunto se realça por 


si. Ele bem mostra, sozinho, onde começa, 
onde muda, onde termina, sem que haja neces- 
sidade de se introduzirem ligações, tão-so- 
mente úteis aos ouvidos fracos ou indolentes; 
não quero comentar a mim mesmo. Quem não 
prefere não ser lido a sê-lo por quem cochile 
ou tenha pressa? “Nada existe, mesmo útil, 
que seja útil a quem passa correndo? *º”. Se 
bastasse pegar um livro para aprendêlo, 
olhá-lo para  penetrá-lo profundamente, 
percorrê-lo para dominá-lo, não poderia alegar 
essa ignorância que proclamo. Não podendo 
reter a atenção do leitor pelo interesse do que 
digo, contento-me com interessá-lo em minha 
mixórdia. Bem; dirão, mas lamentá-lo-á de- 
pois. Sem dúvida, porém já se terá distraído. 
Demais há espíritos que desdenham o que 
compreendem; hão de apreciar-me tanto mais 
e ante a minha obscuridade concluirão pela 
profundidade de meu pensamento, o que detes- 
to e evitaria se pudesse. Aristóteles vangloria- 
se, algures, de se esforçar por essa obscuri- 
dade; é um erro. 


A princípio desdobrava os capítulos, mas 
pareceu-me que desse modo interrompia a 
atenção antes mesmo de despertá-la, por isso 
comecei a fazer capítulos mais amplos, o que 
requer do leitor certa intenção de ler realmente 
e de destinar algum tempo à leitura. Não que- 
rer dar menos de uma hora a semelhante ocu- 
pação, é o mesmo que não querer dar nada; e 
não se entregar por inteiro ao que se quer 
fazer, é não fazer. Demais, é-me pessoalmente 
cômodo dizer as coisas pela metade, algo 
confusamente; e tenho aversão pela razão 
desmancha-prazeres. Acho-a cara demais e 
incômoda, quando se imiscui nos projetos 
extravagantes e fantasias que concebemos. Ao 
contrário, esforço-me por valorizar a vaidade e 
a estupidez se porventura me agradam, ejsigo 
minha inclinação natural sem a fiscalizar de 
muito perto. | 


Vi alhures ruínas de monumentos, estátuas, 
céus e terras. é homem é sempre o mesmo. 


, 


! 
248 Sêneca. 


ENSAIOS— HI 


Tudo isso é verdade; entretanto, não posso ver 
as ruínas da antiga Roma, tão grande, tão 
poderosa, sem que a admire e venere. O culto 
dos mortos é-nos recomendado. Desde a infan- 
cia venho vivendo na intimidade da História 
romana, e conheci tudo o que lhe diz respeito 


muito antes de iniciar-me nos meus próprios 
negócios. Conheci o Capitólio antes do Lou- 
vre, e soube o que é o Tibre antes de ver o 
Sena. Preocupei-me com o destino de Luculo, 
Metelo e Cipião antes de atentar para o dos 
nossos contemporâneos. Sem dúvida aqueles 
já então mortos, mas meu pai o está também e 
tão longe de mim após dezoito anos quanto os 


outros depois de mil e seiscentos. No entanto, 
não deixo de lhe cultivar a memória; sua ami- 
zade e companhia continuam presentes em 
meu espírito, pois é de meu temperamento 
cumprir mais dedicadamente os deveres que 
tenho para com os mortos; considero que 
necessitam mais de nós, visto não poderem 
ajudar-se a si mesmos. Mais bela se revela 
assim a gratidão, porquanto um benefício 
retroativo é menos louvado. Arcesilau visi- 
tando Ctesíbio doente, e encontrando-o sem 
recursos, colocou sub-repticiamente o dinheiro 


de que o enfermo precisava à cabeceira do 
leito, juntando o recibo da devolução, sem que 
o beneficiário o percebesse. Os que mereceram 
minha amizade e gratidão não as perderam 
porque deixaram de existir. Melhor e mais 
escrupulosamente os pago sabendo-os ausentes 
e ignorantes de meus gestos, e mais afetuosa- 
mente falo de meus amigos quando não têm a 


possibilidade de saber o que digo deles. Cem 
discussões tive em defesa de Pompeu e de 
Bruto e a minha simpatia por eles permanece 
viva. Poderão alegar que isso é fantasia, mas 
só pela fantasia nos apegamos às coisas do 
presente. Considerando-me inútil neste século, 
volto-me para outros tempos e sinto-me tão 
envolvido neles que essa velha Roma livre, 
justa, florescente (não me refiro a seu nasci- 
mento nem à sua decadência) me apaixona. 
Por isso é sempre com emoção que revejo a 
localização de suas ruas e casas nessas ruínas 
que se enterram no solo até os antípodas. Efeti- 
vo da natureza ou produto da imaginação, a 
vista dos lugares que sabemos terem sido habi- 
tados ou frequentados por personagens cuja 
memória se conservou comove-nos mais do 
que o relato de seus feitos ou a leitura de suas 
obras. “Tantos lugares despertam recorda- 
ções! Nesta cidade tudo detém o pensamento; 
por onde quer que andemos, pisamos algo 
memorável? *º.” Compraz-me imaginar-lhes a 


2498 Cicero. 


453 


fisionomia, as atitudes, as roupas; repito esses 
grandes nomes e os faço soarem a meus ouvi- 
dos: “Honro esses homens ilustres e só lhes 
pronuncio os nomes respeitosamente? 8º.” Nos 
que são grandes, ainda que em parte, admiro 
até as coisas vulgares. Como gostaria de vê-los 
conversarem, passearem, comerem. Seria in- 
justo desprezar as relíquias que nos lembram 
tantos homens de bem que vi viverem e morre- 
rem e que pelo seu exemplo nos dariam exce- 
lentes lições se as soubéssemos seguir. 


Demais, essa mesma Roma merece ser apre- 
ciada tal qual é em nossos dias, aliada há tanto 
tempo à nossa coroa. É a única cidade univer- 
sal e a todos pertence. O soberano que a gover- 
na é por todos obedecido; é a metrópole da 
cristandade; o espanhol como o francês aí se 
acham como em -sua pátria; para ser principe 
nesse Estado basta ser cristão. Não há lugar 
neste mundo a que o céu tenha outorgado tão 
abundantes favores e com igual continuidade. 
Sua própria decadência é gloriosa e seu presti- 
gio não se apaga. “Mais preciosa ainda em vir- 
tude de suas soberbas ruínas? 51”, até no tâmu- 
lo conserva a aparência e o caráter da capital 
de um império: “Aqui é que se diria, em verda- 
de, que a natureza se deleitou com sua 
obra? 82”. Quem se censurar por se sentir aces- 
sível a tal satisfação, deve pensar que é esta 
menos vã do que prazenteira. E jamais poderei 
criticar o que quer que seja que agrade um 
homem de bom senso. 

Sou grato ao destino por não se ter até 
agora manifestado contra mim além do que eu 
poderia suportar. Talvez tenha ele tendência a 
deixar em paz quem não o importuna. 
“Quanto mais coisas recusamos, tanto mais 
nos concedem os deuses. Embora pobre, jun- 
to-me aos que nada pedem. Quem muito quer 
de muito carece? º3.? Se assim continuar dei- 
xarei esta terra feliz e satisfeito e “nada mais 
peço aos deuses”, como diz Horácio. Mas cui- 
dado com o choque, se ocorrer! Contam-se 
aos milhares os que nautragam no porto. Con- 
solo-me facilmente ante a previsão do que 
acontecerá aqui quando houver morrido; o 
presente já me ocupa demasiado, “entrego o 
resto à sorte? 8 4”. Em verdade, não tenho isso 
que tanto incita o homem a pensar no futuro: 
herdeiros de seu nome e honra. É possível que 
seja desejável tê-los, mas a situação crítica que, 
atravessamos induz-me a não os querer. Já me 


250 Sêneca. 

251 Sidônio Apolinário. 
252 Plínio. 

253 Horácio. 

254 Ovídio. 


454 


apego demais à vida, sozinho; basta que eu 
mesmo deva ao destino o que não posso evitar 
de lhe dever, não é necessário que ainda lhe 
deva mais, e nunca achei que fosse uma des- 
graça não ter filhos, nem me parece que isso 
torne a vida menos completa e feliz. A esterili- 
dade também comporta algumas vantagens. 
As crianças figuram entre as coisas que não se 
devem desejar, principalmente quando, como 
agora, hã pouca probabilidade de virem a ser 
boas: “nada de bom pode nascer; a semente 
não presta? º 82. É entretanto com justa tristeza 
que as perdemos. 

Quem me entregou a direção de minha casa 
prognosticou-lhe a ruína, dado meu tempera- 
mento tão pouco doméstico. Enganou-se; 
conservei-a como a recebi; talvez em melhor 
situação, porquanto sem dívidas, embora não 
dê lucro. Se a fortuna não me causou graves 
prejuízos tampouco me trouxe muitos benefi- 
cios; o que em minha casa veio dela, aí se 
achava antes de eu tomar posse, e há mais de 
cem anos; nenhum bem de alguma impor- 
tância lhe devo. Apenas pequenos favores, e 
sem que os solicitasse, pois Deus sabe que sou 
positivo e só aprecio o que é real e de grande 
rendimento. Acho que a avareza não é muito 
menos desculpável do que a ambição, e penso 
que se deve evitar a dor tanto quanto a vergo- 
nha; e desejar a saúde tanto quanto o saber, e 
a riqueza não menos do que a nobreza. 

Entre os favores outorgados pelo destino, 
um mais do que os outros me alegrou: uma 
bula conferindo-me a burguesia romana que 
recebi com grande pompa em minha última 
viagem. Variando o estilo dessas bulas de 
acordo com as qualidades do destinatário, gos- 
taria de ter visto antes o que aqui transcrevo 
para quem tenha igual curiosidade. 

“Em consegiência do relatório apresentado 
ao Senado por Orazio Massimi, Marzo Cecio, 
Alessandro Muti, conservadores da cidade de 
Roma, acerca do direito de cidadania romana 
a ser concedido ao ilustrissimo Miguel de 
Montaigne, cavaleiro da Ordem de São Miguel 
e camarista ordinário do Rei Muito Cristão, 
decretam o Senado e o Povo Romano: 

“-— Considerando que em obediência a 
costume antigo sempre foram por nós adota- 
dos com alegria e diligência os que, distin- 
guidos pela virtude e a nobreza, serviram e 
honraram nossa República ou o poderão fazer 
algum dia, nós, respeitando o exemplo e a 
autoridade de nossos antepassados, acredi- 
tamos dever imitar e conservar esse hábito lou- 
vável. Por esses motivos, o ilustríssimo Miguel 


255 Tertuliano. 


MONTAIGNE 


de Montaigne, cavaleiro da Ordem de São Mi- 
guel e camarista ordinário do Rei Muito Cris- 
tão, mui zeloso do nome romano, sendo, em 
razão de sua condição, do nome de sua família 
e de suas qualidades pessoais, muito digno do 
título de, cidadão romano, como o julgaram o 
Senado e o povo romano, agrada ao Senado e 
ao povo romano que o ilustrissimo Miguel de 
Montaigne, ornado de todos os méritos e mui 
caro a este nobre povo, seja inscrito como 
cidadão romano, bem como os seus pósteros, 
gozando todas as honras e vantagens reserva- 
das aos nascidos cidadãos ou patrícios de 
Roma ou aos que tal se tornaram pelos seus ti- 
tulos. E como isso pensam o Senado e povo ro- 
mano que não concedem propriamente um 
direito mas pagam uma dívida; e que é menos 
um benefício que outorgam do que um favor 
que recebem de quem, aceitando essé direito de 
cidadania, honra e ilustra a cidade. 

“Os conservadores mandaram registrar este 
“senatus consultum”pelos secretários do Senado . 
e do povo romano, a fim de que seja conser- 
vado nos arquivos do Capitólio, e mandaram 
redigir este ato que vai selado com o timbre da 
cidade. Ano da fundação de Roma 2331,e do 
nascimento de Jesus Cristo 1581, aos treze 
dias de março. Seguem-se as assinaturas.” 

Não sendo cidadão de nenhuma cidade, 
agrada-me sê-lo da mais nobre. Se os outros se 
analisassem tão atentamente como o faço, 
achar-se-iam igualmente vaidosos e friívolos. 
Não posso livrar-me desses defeitos sem me 
destruir. Todos válemos tão pouco uns como 
outros, mas os que o não percebem parece-me 
que saem ganhando, embora não esteja muito 
certo disso. 

Esse hábito comum de olhar para o que está 
em nós atende sem dúvida a uma necessidade, 
pois em nós mesmos só deparamos com misé- 
ria e vaidade. Por isso, para que não soframos, 
fez acertadamente a natureza que a vista se 
volte para forá. Seguimos a correnteza; retro- 
ceder, ir contra a maré, é por demais penoso. 
Contemplai os movimentos do céu; olhai para 
as atitudes do próximo; atentai para a deman- 
da deste ou a doença daquele, ou o testamento 
deste outro; voltai a vista para círia, para 
baixo ou para os lados, para a frente ou para 
trás. A ordem do deus de Delfos era parado- 
xal, pois dizia que olhássemos para nós mes- 
mos, que volvêssemos o espírito e a vontade 
para as nossas próprias coisas, que em lugar 
de nos espalharmos nos concentrássemos, por- 
quanto o exterior nos atraiçoa, diminui e dis- 
solve. “Acaso não vês, homem — dizia esse 
deus — que o mundo se contempla à si 
mesmo? Quer olhes para dentro ou para fora 


ENSAIOS — HI 


de ti, sempre tua vaidade estará em jogo, mas 
ela será tanto menor quanto mais restrito o teu 
campo de visão. Salvo tu, homem, todas as 
coisas se estudam a si mesmas antes de mais 
nada e estabelecem os limites de suas tarefas e 


455 


de seus desejos; pois não há nenhuma mais 
necessitada do que tu que tentas abarcar o uni- 
verso. Es um observador falho de saber, um 
magistrado sem jurisdição, o bobo da comé- 
dia.” 


CAPÍTULO X 


Do domínio da própria vontade 


Em relação à maioria dos homens poucas 
coisas me afetam, ou melhor, me prendem. É 
normal que nos afetem, mas é preciso que não 
nos dominem. Esforço-me por aumentar pelo 
estudo e o raciocínio esse privilégio de insensi- 
bilidade assaz pronunciado em mim. Conse- 
guintemente, poucas coisas se me, impõem e 
me apaixonam. Sou perspicaz, mas a raros 
objetos presto atenção; comovo-me facilmente, 
mas minha compreensão e aplicação são difi- 
ceis e concentradas. Não costumo assumir 
compromissos. Na medida do possível trato 
unicamente de mim, e mesmo assim sou levado 
a reprimir a afeição que dedico à minha pes- 
soa, a fim de não atentar para aquilo que, em- 
bora me pertença, está à mercê de outros e 
mais sujeito ao acaso do que à minha vontade. 
Assim, até a saúde, que tanto estimo, não a de- 
sejo querer demasiado com receio de achar 
insuportáveis as enfermidades. Devemos res- 
guardar-nos igualmente do ódio à dor e do 
amor ao bem-estar; é o que recomenda Platão. 
E aos afetos que me distraem de mim mesmo e 
me induzem a apegar-me aos outros, oponho- 
me com todas as minhas forças. Acho que 
devemos emprestar-nos aos outros e dar-nos a 
nós mesmos. Se minha vontade se hipotecasse 
com facilidade, resistiria pouco, porque sou 
naturalmente muito impressionável, “iniraigo 
dos negócios e feito para o ócio € a tranguili- 
dade? * 8”, Discussões encamiçadas que des- 
sem finalmente vantagem ao adversário, desen- 
laces que tornassem ridícula a minha 
insistência, far-me-iam sofrer cruelmente. Se 
fizesse como os outros, não teria forças para 
suportar as emoções que experimentam os que 
aceitam tal existência, e desde o início estaria 
déstruído por uma agitação intestina. Se por 
vezes me convenceram de me encarregar de 
negócios alheios, nunca prometi apaixonar-me. 


256 Ovídio. 


Prometi encarregar-me deles, não incorporá- 
los a mim. Examino-os, não os choco. Tenho 
bastante que fazer para atender ao que me diz 
pessoalmente respeito, sem que me meta em 
coisas estranhas. Os que sabem quanto devem 
a Si mesmos não ignoram que o cometimento 
não deixa grandes lazeres: “já tens muito com 
que te ocupares em casa; não te afastes”. 

Os homens alugam-se; suas faculdades não 
lhes são úteis senão a quem eles se escravizam. 
São os locatários que vivem neles e não eles 
próprios. Essa disposição de espírito habitual 
não me seduz. Cumpre zelar pela liberdade de 
nossa alma e não a comprometer senão em 
circunstâncias excepcionais, as quais são pou- 
cas. As pessoas que se deixam empolgar são 
presas das pequenas coisas como das grandes; 
do que lhes respeita como do que não lhes diz 
respeito. Imiscuem-se em tudo, e não vivem 
onde não se podem agitar; “buscam trabalho 
para ter trabalho? *$ 7”. E não porque o queiram 
fazer, mas porque não o podem fazer, como 
não pode parar, a pedra que rola, antes de 
tocar o solo. Para certos indivíduos, ocupar-se 
de coisas é dar prova de capacidade e dignida- 
de; seu espírito busca o repouso no movimen- 


"to, como as crianças no berço. São tão úteis 


aos amigos quão importunos a si mesmos. 


Ninguém distribui seu dinheiro aos outros, no 


entanto distribui-lhes seu tempo e sua vida, 
coisas de que somos pródigos mas que deve- 
riamos poupar até a avareza. Sou por tempera- 
mento inteiramente diferente. Atenho-me a 
mim mesmo e em geral sem nada ambicionar 
exageradamente; assim me conduzo em rela- 
ção ao trabalho. Outros, em tudo o que dese- 
jam e fazem, pôem toda a sua vontade e seu 
entusiasmo. Tantos maus passos se dão, que 
mesmo nos mais seguros é conveniente pisar 
com cuidado; a própria volúpia é dolorosa 


257 Sêneca. 


456 


quando demasiado profunda: “Marchas sobre 
um fogo que arde sob traidora cinza? 8º ” 

Os cidadãos de Bordéus elegeram-me. pre- 
feito da cidade, achando-me eu longe da:Fran- 
ça e mais longe ainda de pensar que isso 
pudesse ocorrer. Recusei, mas demonstraram- 
me que não devia recusar e a tanto se juntou 
uma ordem do rei. O cargo é tanto mais honro- 
so por não ser retribuído, não proporcionando 
quaisquer benefícios. Dura dois anos mas pode 
prorrogar-se mediante reeleição, o que ocorre 
raramente. Aconteceu comigo o que somente 
se verificara duas vezes antes, com o Sr. de 
Laussac 'e com o Sr. de Biron, marechal de 
França, a quem sucedi, transmitindo em segui- 
da o cargo ao Sr. de Matignon, também mare- 
chal de França, “um e outro hábeis adminis- 
tradores e bravos guerreiros? 9”. Orgulho-me 
da companhia. A sorte interveio amplamente 
na ocorrência, pois meu caso foi semelhante ao 
de Alexandre que, tendo a princípio recebido 
com desdém os embaixadores de Corinto, vin- 
dos para lhe oferecer a cidadania de“sua cida- 
de, agradeceu-lhes em seguida a honra, ao 
saber que Baco e Hércules figuravam entre os 
que haviam obtido o título. 

Logo ao chegar, apresentei-me como sou, e 
conscienciosamente revelei-me sem memória, 
nem vigilância, nem experiência, nem energia. 
Mas também sem ódios, nem ambição, nem 
violência. Assim sabiam o que podiam esperar 
de mim. Como devesse minha eleição ao fato 
de terem conhecido meu pai e quererem hon- 
rar-lhe a memória, acrescentei lealmente que 
me aborreceria muitissimo se alguma coisa 
pudesse preocupar-me da mesma forma que o 
preocupara o governo da cidade. Lembrava- 
me de tê-lo visto, quando eu era ainda criança, 
cruelmente agitado com tais questões, esque- 
cendo a calma de que gozava em seu lar, onde 
o haviam retido até então as fadigas da idade e 
a sua saúde; e não poupando sequer a vida que 
se arriscava a perder nas inúmeras viagens a 
que os interesses da coletividade o obrigavam. 
Ele era assim; uma grande bondade domina- 
va-o, nunca houve alguém mais caridoso e 
dedicado ao povo. Porém, isso que louvo nos 
outros não me apraz seguir. E tenho minhas 
razões para tanto. 

Meu pai ouvira dizer que é necessário sacri- 
ficar-se pelos outros; que o interesse particular 
não deve ser levado em conta quando está em 
jogo o interesse geral. Em sua maioria, as re- 
gras e os preceitos deste mundo abundam 
nesse sentido, tendendo a expulsar-nos de nós 
mesmos em benefício da sociedade. Assim nos 


258 Horácio. 
259 Virgílio. 


MONTAIGNE | 


desviam do que nos interessa diretamente, com 
receio de que nos apeguemos exageradamente 
a isso, e nada se poupou nesse sentido, pois é 
comum aos sábios legislar segundo a utilidade 
das leis e não de acordo com a realidade das 
coisas. A verdade apresenta, não raro, obstã- 
culos e incompatibilidades e há que enganar 
para não nos enganarmos; cumpre-nos fechar 
os olhos e impor silêncio a nosso julgamento, a 
fim de corrigir e superar o que essa verdade 
cria: “São os ignorantes que julgam e é preciso 
muitas vezes enganá-los para que não se enga- 
nem Sor. - Quando nos ordenam que amemos 
mais do que a nós mesmos cinquenta catego- 
rias de coisas, fazem como os archeiros que, 
para atingir o alvo, visam muito acima. Tam- 
bém para endireitar um pau curvado é neces- 
sário dobrá-lo no sentido contrário. 


Creio que no culto de Palas, como em todos 
os cultos, havia mistérios aparentes destinados 
à divulgação e outros secretos reservados aos 
iniciados. É provável que entre estes figurasse 
o grau exato de afeição que cada qual deve ter 
para consigo mesmo; não essa afeição de mau 
quilate que nos leva a apreciar excessivamente 
a glória, a riqueza, o saber, nem a afeição imo- 
derada e indiscreta que nos arruína e apodrece 
como a hera arruína e apodrece os muros a 
que se prende; mas uma afeição sadia e equili- 
brada, tão útil quão agradável. Quem conhece 
esses deveres e os exerce é realmente inspirado 
pelas Musas e alcança o ápice da sabedoria e 
da felicidade humanas. Sabendo exatamente o 
que deve a si mesmo, vê como utilizar os ou- 
tros em seu proveito, o que também exige dele 
o cumprimento de certos deveres em benefício 
da sociedade a que pertence, pois quem nada 
faz por outrem nada faz tampouco por si. “O 
amigo de si mesmo é também o amigo dos 
outros? 81”. Nosso dever primeiro consiste em 
guiarmos a nós mesmos; para isso estamos no 
mundo. Quem se esquecesse de viver honesta e 
santamente e imaginasse cumprir .seu dever 
exortando os outros a fazê-lo, seria um tolo; e 
igualmente o seria se negligenciasse a própria 
vida para que os outros pudessem vivê-la. 


* Quando se aceita um cargo, deve-se-lhe dar 
toda a atenção, não poupando esforço e sacri- 
fícios: “Disposto a morrer por meus amigos € 
minha pátria? 82”: mas isso não deve ir além 
do ocasional. O espírito precisa continuar sere- 
no, não inativo mas agindo sensatamente, sem 
paixão. Agir com simplicidade custa-lhe ide 


resto tão pouco que mesmo dormindo age, mas 
! 


| 
280 Quintiliano. : 


281 Sêneca. 
282 Horácio. 


ENSAIOS— HI 


cumpre movimentá-lo com cuidado, pois o 
corpo recebe as cargas que lhe impõem mas é 
o espírito que as distribui e, distribuindo-as 
mal, ultrapassa por vezes a medida recomen- 
dável. Uma mesma coisa faz-se com esforços 
físicos e determinações diferentes. Muita gente 
se arrisca diariamente em guerras de que não 
tiram beneficio algum e se expõem em batalhas 
cuja perda não lhes perturba o sono. Enquanto 
outros em suas casas, longe do perigo que não 
ousariam enfrentar, apaixonam-se mais pelo 
resultado da guerra do que o soldado que lhe 
dá a vida e o sangue. Desempenhei cargos pú- 
blicos sem me afastar de mim mesmo e entre- 
guei-me a outrem sem me perder de vista. A 
violência dos desejos estorva mais do que 
favorece o esforço em vista de um dado objeti- 
vo; tornamo-nos impacientes, ressentidos e 
desconfiados ante os possíveis obstáculos. 
Nunca dirigimos com eficiência uma coisa que 
nos domina e obceca: “A paixão é um mau 
guia? 83.” Quem só aplica nos negócios públi- 
cos a inteligência e a habilidade, age com 
melhores resultados, porque pode dissimular, 
ceder, diferir à vontade, segundo as circunstân- 
cias. Se malogra não fica atormentado e é 
capaz de recomeçar; é sempre senhor de si. Ao 
contrário, quem se embriaga de violência e 
obstinação fatalmente incorre em faltas graves 
e comete imprudências; a impetuosidade do 
desejo torna-o temerário; e se a sorte não o 
ajuda amplamente, pouco consegue. A filoso- 
fia quer que eliminemos a cólera nos castigos 


que impomos aos que nos ofendem: não para . 


que a vingança seja menor, mas, ao contrário, 
para que pese mais e marque mais profunda- 
mente, porquanto o arrebatamento a perturba. 
A cólera cansa o braço de quem pune; esgota- 
lhe as forças e a precipitação como que o 
entrava. “Quem se apressa se atrasa? 84.” 
Assim a avareza tem seu maior inimigo em si 
mesma; quanto mais violenta tanto mais esté- 
ril, e é mais fácil acumular riquezas sob a más- 


cara da liberalidade. : ; 
Um fidalgo meu amigo, homem muito 


honesto, quase enlouqueceu por tomar dema- 
siado a peito os interesses de seu príncipe. 
Este? 85 analisou-se diante de mim com estas 
palavras: “percebo a gravidade dos acidentes 
como qualquer pessoa, mas quando são irre- 
mediáveis submeto-me às consequências; 
quanto aos outros, depois das medidas neces- 
sárias para enfrentá-los, aguardo tranqúila- 
mente o resultado”. Vi-o em ação e em verdade 
conserva inteira serenidade nas situações mais 
dificeis; considero-o mais capaz na adversi- 


263 Estácio. 
264 Quinto Cúrcio. 
2685 Henrique IV, ao que parece. 


457 


dade do que quando.a sorte o auxilia; suas der- 
rotas são mais gloriosas do que suas vitórias. 
Observe-se que mesmo nas ocupações mais 
frivolas, como no jogo de xadrez ou da bola, o 
desejo imoderado de ganhar perturba o espí- 
rito e o corpo, ofusca a inteligência e paralisa 
os movimentos. Quem encara com sensatez a 
vitória e a derrota, permanece senhor de si. 
Quem menos se irrita ou se apaixona é quem 
melhor dirige o jogo, e com maiores probabili- 
dades de êxito. 
Dando à alma coisas em excesso, não a dei- 
xamos apreendê-las e conservar. Na realidade, 
algumas há que cumpre tão-somente apresen- 
tar-lhe, outras temos que amarrá-las a ela; e 
outras ainda precisamos forçá-la a incorporá- 
las. Ela pode ver e sentir todas as coisas, mas 
deve sustentar-se apenas com o que tem em si 
e para isso há que instruí-la acerca do que lhe 
convém € é capaz de assimilar. As leis da natu- 
reza nos ensinam. Os sábios dizem que a natu- 
reza não faz indigentes e quem o é, só.o é em 
consequência da desordem de sua imaginação. 
E distinguem com sutileza os desejos naturais 
dos que nós mesmos criamos. Os que são reali- 
záveis vêm dela; os que não podemos satisfa- 
zer nascem de nossa fantasia. A pobreza de 
bens é facilmente remediável; a da alma não 
tem cura. “Se o homem se contentasse com o 
suficiente, eu seria rico; mas como o homem 
não se contenta, não há riqueza bastante para 
mim? 88,” Sócrates ao ver carregarem pelas - 
ruas da cidade móveis e jóias de grande rique- 
za, disse: quantas coisas que eu não desejo! 
Metrodoro vivia com doze onças de alimento 
por dia; Epicuro precisava de menos ainda; 
Metrocles dormia no inverno com os carneiros 


“e no verão nos claustros dos templos. “A natu- 


reza provê ao que exige? 8 7.” Cleantes vivia do 
trabalho de suas mãos e vangloriava-se de 
poder alimentar mais alguém ainda, se quises- 
se. 

A natureza exige muito pouco para nossa 
conservação, tão pouco que foge aos golpes 
possíveis da má sorte. Entretanto, permitamo- 
nos algo mais e chamemos natureza aos costu- 
mes e situação pessoal e fixemos assim os limi- 
tes de nossas aspirações, levando em conta o ' 
que já possuímos. Parece-me desculpável agir 
desse modo, pois os costuries são uma segun- 
da natureza, tão poderosa quanto a primeira. 
Se me vem a faltar aquilo a que estou acostu- 
mado, sinto-o profundamente. Quase preferiria 
que me tirassem a vida a que tornassem mais 
difícil e medíocre a minha condição social. 
Não sou mais capaz de mudar nem de modifi- 


266 TLucílio. 
267 Sêneca. 


458 


car meu teor de vida ainda que para: melhorar. 
É tarde para isso, e se uma grande fortuna 
viesse a caber-me não me alegraria, antes 
lamentaria que não tivesse acontecido a coisa 
no tempo em que me fora dado gozâ-la. “Para 
que servem as riquezas que não possa usu- 
fruir? 889” Não me seduziria tampouco qual- 
quer nova aquisição moral. E quase vale mais 
não se tomar homem de bem e não ter uma 


possibilidade de vida melhor, quando já não se: 


tem mais tempo diante de si. Eu que estou de 
partida, de bom grado cederia a alguém a 
experiência que adquiri acerca da prudência 
que cabe observar nos negócios deste mundo. 
A mim já não adianta. Que vale o saber para 
quem não tem mais cabeça? O destino ofende- 
nos e zomba de nós, ao oferecer-nos presentes 
que não nos deu na hora certa. Não precisa de 
guia quem não pode andar. Basta-me agora a 
paciência. Para que uma voz magnífica se o 
cantor tem os pulmões afetados? E que fará 
com a eloquência um ermitão no deserto? Não 
há necessidade de arte para chegar ao fim; este 
vem sozinho. Meu mundo acabou; as pessoas 
de minha espécie desaparecem; pertenço por 
inteiro ao passado; não posso senão aprovar 
esse estado de coisas e adaptar-me a ele. Darei 
um exemplo. Essa inovação que suprimiu dez 
dias do ano? 8º ocorreu agora no fim de minha 
vida, num momento em que não posso acomo- 
dar-me a essa idéia. Sou de uma época em que 
contávamos o tempo de outro modo. Continuo 
preso a tão longo hábito, e incapaz de aceitar 
novidades mesmo se se destinam a corrigir 
erros. Permaneço algo céptico. Minha imagi- 
nação, por maiores que sejam meus esforços, 
faz que me ache sempre com dez dias de avan- 
ço ou de atraso. Não pára de murmurar-me 
aos ouvidos: “essa modificação somente diz 
respeito aos que não..estão chegando ao fim”. 
A própria saúde, quando por momentos a 
recupero, antes me aborrece do que alegra; não 
sei como aproveitá-la. O tempo abandona-me 
e sem ele nada possuímos. Nenhum apreço 
daria a essas grandes dignidades que só se con- 
ferem a quem se acha nas vésperas da morte; 
não se pensa então em como exercer o cargo, 
mas em quanto tempo se poderá exercê-lo; já 
ao assumi-lo temos que atentar para o momen- 
to de deixâ-lo. Em suma, chego agora ao fim e 
não me sinto com disposição para mudar. Por 
efeito de um demorado uso, meu estado atual 
passou a fazer parte integrante de mim. Minha 
natureza está no que a sorte fez de meu ser. 


268 Horácio. 

269 Em 1582 o papa Gregório XIII introduziu 
uma reforma no calendário. Passou-se então subita- 
mente do dia 4 ao dia 15 de outubro. 


MONTAIGNE 


Digo portanto que, fracos como somos 
todos, podemos julgar-nos segundo o nosso es- 
tado habitual; além desses limites reina a con- 
fusão e não há como ampliar nossos direitos. 
Quanto mais aumentamos nossas necessidades 
e o que possuímos, tanto mais nos expomos 
aos golpes da sorte e da adversidade. A exten- 
são de nossos desejos deve ser circunscrita € 
restrita de modo a só compreender as comodi- 
dades mais próximas de nós, as que nos são 
contíguas. E não deve prolongar-se em linha 
reta, mas em curva cujas extremidades se jun- 
tem em torno de nós, sem que se abra dema- 
siado o círculo. Os atos que não se amoldam a 
essa orientação, a esse movimento essencial, a 
meu ver, como os do avarento, os dos ambicio- 
sos e outros que se encarniçam atrás de uma 
idéia inalcançável, são atos doentios e prejudi- 
ciais. A maior parte das funções públicas tem 
algo de cômico, “todos representam”, dizia 
Petrônio. Cumpre desempenhar devidamente 
seu papel, mas sem transformar a máscara e a 
aparência em realidade nem deixar que o estra- 
nho se encarne em nós. Não sabemos distin- 
guir a pele da camisa. Basta enfarinhar o rosto, 
não é preciso mascarar igualmente o peito. Há 
quem mude e se transforme em outro ser 
segundo o cargo que assume; neste mergulham 
até o figado e os intestinos e mesmo na privada 
agem como se estivessem no exercício de suas 
funções. Gostaria de ensinar-lhes a diferençar 
as saudações que se dirigem a suas pessoas das 
que visam o mandato, o séquito ou a mula que 
montam. “De tal modo se entregam à sua for- 
tuna, que- esquecem sua própria natureza? 70”. 
incham e ampliam a alma e a razão para colo- 
cá-las à altura do assento que ocupam como 
magistrados. Montaigne prefeito e Montaigne 
simples particular sempre foram homens dis- 
tintos, e nitidamente distintos. Não é por ser 
advogado ou financista que se há de ignorar o 
que tais profissões comportam de velhacaria: 
um homem de bem não é responsável pelos vi- 
cios.ou tolices de seu ofício e não deve por isso 
recusar-se a exercê-lo. Está nos costumes do 
país e é de utilidade coletiva. É preciso viver 
no mundo e do mundo. Mas o juízo de um 
imperador deve pairar acima do seu império, o 
qual ele deve encarar como um acidente alheio 
a si mesmo; e sua pessoa deve gozar de si pró- 
pria à margem das suas funções e cumpre-lhe 
entreter-se consigo mesmo tal como o faria 
Pedro ou João. 

Não sei dar-me por inteiro, e.quando minha 
vontade me induz a optar por um partido hão 
crio. obrigações que .contagiem meu Guida. 


270 Quinto Cúrcio. 


ENSAIOS — HI 459 


mento. Nas agitações que perturbam atual- 
mente o país, meus interesses não me fazem 
desprezar as qualidades louváveis de meus 
adversários nem ignorar os defeitos de meus 
correligionários. Em geral adoram tudo o que 
fazem os seus; eu não desculpo sequer a maior 
parte do que perpetram os meus; uma obra não 
perde seus méritos só porque foi escrita contra 


mim. Salvo quanto à razão essencial do debate 
(pois sou e continuarei católico), mantenho-me 
equânime e indiferente: fora das exigências da 
guerra; não desejo nenhum mal a meus inimi- 
gos. E com isso me alegro, pois vejo 
comumente assumirem atitude oposta: 
“abandona-se à sua paixão quem não pode se- 
guir a razão”. Os que estendem seu ódio além 
da causa que o motiva, como costumam fazer 
os homens, mostram que defendem outra coisa 
e por razões de ordem pessoal. Assim quando 
a febre persiste após a cura de uma úlcera, 
tem-se a prova de que outra é a sua origem. 
Não se rebelam contra a causa porque ofende 
os interesses coletivos e do Estado, mas sim 
porque prejudica os seus próprios. Daí a 
animosidade pessoal, que ultrapassa o que 
normalmente se entende por justiça. “Não 
concordavam todos em censurar todas as coi- 
sas, mas cada qual censurava o que o interes- 
sava pessoalmente? 71. Eu desejo ganhar mas 
não perco Oo juízo se assim não ocorre. Ligo- 
me ao partido que sinceramente julgo o 
melhor, mas não procuro mostrar-me especial- 
mente inimigo dos outros e não ultrapasso o 
que a razão determina. Profligo energicamente 
expressões como estas: Fulano é da Liga por- 
que admira o Duque de Guise; Beltrano é 
huguenote porque adora o rei de Navarra; 
Sicrano é de coração um rebelde, pois critica 
os costumes do rei. 


Tampouco admito que um magistrado possa 
condenar um livro tão-somente porque nele se 
menciona um herético como o melhor poeta do 
século. Pois não se há de poder dizer de um 


ladrão que tem a perna bem feita? E será obri-. 


gatório que uma mulher da vida cheire mal? 
Revogaram porventura, nos séculos em que 
reinava maior sabedoria, o título de Capitolino 
conferido a Marco Mânilio por ter salvo a reli- 
gião e a liberdade? Esqueceram-se sua liberali- 
dade, seus feitos guerreiros, as recompensas 
militares, quando mais tarde, pondo em perigo 
as leis de seu país, aspirou à realeza? E pelo 
fato de tomarmos ódio a um advogado, perde 
ele a eloquência no dia seguinte? Referi-me 
alhures ao zelo absurdo que leva certas pes- 
soas honradas a tais excessos; eu direi sempre: 


271 Tito Lívio. 


“nisto conduziu-se bem; nisso, mal”. Deseja- 
riam porém que, quando se verificam aconteci- 
mentos nefastos, cada qual, segundo seu parti- 
do, se tornasse cego e imbecil e os visse não 
como são mas como querem que sejam. Eu 
pecaria antes por exagero oposto, receoso sem- 
pre de que meus desejos não me influenciem. 
Demais, desconfio um pouco das coisas que 
ambiciono. 


Tenho visto fatos extraordinários que de- 


'monstram com que facilidade incompreensível 


os povos se deixam convencer e guiar pelos 
seus chefes quando se trata de crenças e espe- 
ranças; apesar das desilusões repetidas, são 
levados pela fantasia e o sonho. Não estranho 
por isso que as macaquices de Apolônio e de 
Maomé tenham seduzido tanta gente. A paixão 
sufoca inteiramente o. bom senso e o julga- 
mento; não distingue senão o que lhe apetece e 
lhe parece útil à causa. Já o observara no pri- 
meiro dos partidos que aqui se formou e foi tão 
exaltado; mas o que surgiu depois imita-o e o 
supera, O que me convence de que isso é defei- 
to inerente aos erros populares. Após a pri- 
meira opinião dissidente, outras aparecem; 
semelhantes às vagas do mar, empurram-se 
mutuamente segundo a direção do vento. Não 
se pertence ao grupo, quando se é capaz de 
recusar a acompanhar o movimento. Mas acho 
que prejudica as causas justas defendê-las com 
dissimulações e mentiras; sempre reprovei esse 
procedimento recomendável apenas para os 
que não têm a cabeça em bom estado. Com os 
sãos. há meios não somente mais honestos, 
como também mais eficientes para levantar o 
ânimo e atenuar os efeitos das ocorrências 
desfavoráveis. 

Não viu o céu, nem verá jamais, dissensão 
tão grave como a que se verificou entre César 
e Pompeu; parece-me entretanto observar nes- 
sas duas belas almas uma grande moderação 
na apreciação recíproca. Sua rivalidade em 
relação às honras e ao poder não os levou a 
um ódio furioso e desumano. Não houve mal- 
dade nem difamação. Nos seus atos mais vio- 
lentos, deparamos com um resto de respeito e 
generosidade. E creio que ambos desejariam, 
se possível fosse, vencer sem destruir o outro. 
Bem diferente é o caso de Mário e Sila. 


Não nos devemos aferrar tão loucamente a 
nossas afeições e interesses. Na minha juven- 
tude combatia o amor quando o julgava exage- 
rado e procurava torná-lo menos agradável, a 
fim de que não acabasse por me dominar intei- 
ramente.. E o mesmo faço nas demais ocasiões 
em que alguma paixão me acomete. Esforço- 
me por agir em sentido contrário de minha 
inclinação; e evitosatisfazê-la a ponto denão a 


460 


poder mais controlar sem graves danos. Os 
que por estupidez só vêem as coisas pela meta- 
de têm a felicidade de se sentir menos molesta- 
dos. É uma espécie de insensibilidade cujos 
efeitos se assemelham aos da saúde, e por isso 
não a desprezam de todo os filósofos. Não 
basta, entretanto, para que a qualifiquemos de 
sabedoria, como costumamos fazer. Em pleno 
inverno, Diógenes abraçava, nu, uma estátua 
de neve como exercício de resistência à dor. 
“Estais com muito frio”, disse-lhe alguém. 
“Nem um pouco”, respondeu o filósofo. “Pois 

. então, retorquiu o outro, que dificuldade há em 
fazer o que fazes, e que exemplos pensas dar?” 
Para medir nossa resolução, é-nos indispen- 
sável conhecer o grau de sofrimento que-pode- 
mos suportar. 

Os que são capazes de prever os sucessos 
contrários e as injúrias da sorte em toda a sua 
profundidade e 'aspereza, devem procurar evi- 
tar suas causas. Assim fez o Rei Cótis. Pagara 
generosamente uma vasilha riquíssima e belís- 
sima mas extremamente frágil; quebrou-a por 
isso propositadamente, para não ter a oportu- 
nidade de se irritar contra um servidor. Eu 
também sempre me esforcei por não possuir 
terras contíguas às de parentes ou amigos, por- 
quanto são em geral causa de discórdias. 
Apreciava outrora os jogos de azar, de cartas 
ou dados; renunciei hã muito porque, por bom 
perdedor que me mostrasse, sentia interior- 
mente uma viva contrariedade. Um homem de 
honra, que um desmentido ou uma injúria atin- 
gem profundamente, que não se consola com 
uma má desculpa, deve evitar de se imiscuir 
em questões escusas e discussões suscetíveis de 
degenerar em conflito. Fujo dos tempera- 
mentos tristes, das pessoas rabugentas, como 
fujo dos pestíferos. E a menos que o dever me 
obrigue, não me meto em discussões acerca de 
assuntos que me interessam e comovem: “É 
mais fácil não começar do que parar? 72”. O 
mais seguro é preparar-se para o que der ou 
vier. 

Bem sei que alguns sábios agiram de 
outra maneira e não hesitaram, em diversas 
circunstâncias, em se pegarem a fundo; mas 
são gente de grande resolução, muito seguros 
de sua força e capazes de opor ao mal uma 
paciência a toda prova: “qual um rochedo que 
isolado no meio do oceano suporta a fúria do 
vento e das ondas, e, desafiando as ameaças e 
as forças do céu e do mar conjugados, perma- 
nece inabalável? 73”. 

Não imitamos esses exemplos; não o pode- 
riamos. Esses sábios tiveram mesmo a força de 


272 Sêneca. 
273 Virgílio. 


MONTAIGNE 


assistir sem se perturbarem à ruina de seu país, 
ao qual: haviam subordinado sua vontade e 
seus interesses; mas para nossas almas vulga- 
res um tal esforço é excessivo. Catão sacrifi- 
cou-lhe a mais bela vida que se conhece; mas 
nós, que não somos de igual estatura, temos de 
fugir à tempestade e agir de acordo com nosso 
instinto em lugar de nos resignarmos. Precisa- 
mos esquivar os golpes que não estamos em 
condições de sustar. Zenão, ao ver Cremôni- 
des, a quem amava, aproximar-se, ergueu-se 
imediatamente. Perguntou-lhe Cleantes porque 
o fizera. E respondeu Zenão: porque os médi- 
cos ordenam repouso e proíbem as emoções. 
Sócrates não diz: “não cedas à atração da 
beleza; enfrenta-a e resiste”. Ele diz: “Foge, 
esconde-te dela; evita-a como a um veneno 
violento que age de longe.” 


O melhor de seus discípulos imaginando, ou 
contando (o que me parece mais certo), os fei- 
tos do grande Ciro, diz que esse príncipe, 
receoso de sucumbir ante a beleza da divina 
Pântea, sua escrava, encarregou alguém menos 
independente do que ele, de vigiá-la e visitá-la. 
E nos ensina o Espirito Santo: “Não nos dei- 
xeis cair em tentação.” Não rezamos para que 
a concupiscência não vença a nossa razão e 
sim para que não tente sequer lutar, para que 
não nos encontremos em situação de supor- 
tar-lhe a presença, as solicitações e os convites 
ao pecado; suplicamos ao Senhor que mante- 
nha nossa consciência trangúila, livre de qual- 
quer comércio com o mal. 


Os que afirmam ter triunfado do desejo de 
vingar-se ou de qualquer outra paixão difícil 
de dominar, dizem por vezes a verdade, mas 
referem-se às coisas como são e não como 
foram. Falam do que é quando as causas de 
seus erros já se acham enfraquecidas pelo 
tempo; mas volte-se atrás, tomem-se as causas 
em sua origem, não saberão que dizer. Não é 
menor a falta por ter envelhecido, nem de um 
começo injusto pode decorrer um justo fim. Os 
que como eu desejam o bem de seu país, mas 
sem se atormentar até O desespero, podem sen- 
tir-se contrariados mas gão aniquilados ao vê- 
lo ameaçado de ruína ou de desordem prolon- 
gada. Pobre nave que as ondas, os ventos e o 
piloto dirigem com desígnios contraditórios ! 

Quem pode dispensar os favores dos prínci- 
pes e não os ambiciona não se aborrece com a 
acolhida fria, a fisionomia carregada ou a 
inconstância do soberano. Quem não se faz 
escravo dos filhos ou das honrarias não deixa 
de viver comodamente em os perdendo. Quem 
faz o bem em vista de sua própria satisfação, 
não se irrita se não lhe apreciam devidamente 
o gesto. Um quarto de onça de paciência reme- 
deia a tais inconvenientes. 


ENSAIOS — HI 461 


Dou-me bem com essa receita; permite-me 
resgatar minha sensibilidade de outrora pelo 
menor preço. por essa insensibilidade atual 
que procuro ampliar quanto possível, pois com 
isso evito muitas penas e dificuldades. Com 


pequeno esforço corto de imediato qualquer 


emoção que principie a me agitar; abandono-a, 
e antes que me pese demasiado. Quem não 
susta a partida não impede a corrida; quem 
não sabe fechar a porta às paixões, não as 
pode expulsar depois de entrarem; quem não 
as liquida de início não as domina ao fim; 
quem não prevê o abálo do prédio não lhe 
evita a queda: “pois desde que nos afastemos 
da razão, brotam sozinhas as paixões; a fra- 
queza humana compraz-se em não lhes resistir, 
e insensivelmente vemo-nos, em virtude de 
nossa imprudência, arrastados para o alto- 
mar, sem abrigo a nosso alcance? 7 *?. Sinto 
em tempo útil as brisas precursoras da tempes- 
tade virem tatear-me e murmurar ao redor de 
mim, “assim o vento, fraco ainda, agita a flo- 
resta; freme e seus mugidos surdos anunciam 
ao nauta a aproximação da borrasca?? 8”. 
Quantas vezes não aceitei uma injustiça evi- 
dente, a fim de evitar coisa pior da parte dos 
juízes após um século de aborrecimentos, de 
gestões humilhantes e aviltantes, que muito 
mais pesariam a meu temperamento do que a 
Geena e o fogo ! “Deve-se tudo fazer — e mais 
alguma coisa — para evitar um processo, pois 
é.não somente honroso como também provei- 
toso abrir mão de algum direito? 7 8.” Se fósse- 
mos avisados, deveriamos regozijar-nos com a 
perda de um processo, como vi fazê-lo de uma 
feita a um jovem de boa estirpe, o qual a todos 
se vangloriava de ter sua mãe perdido o seu, 
como se se tratasse da tosse ou da febre, ou 
outra coisa desagradável. Os próprios favores 
que me outorgou o destino, parentes e relações 
influentes, sempre busquei não os utilizar con- 
tra os interesses alheios, a fim de conseguir que 
se reconhecessem meus direitos por outras 
razões que não as do mérito da causa. Em 
suma, empregando. bem meu tempo, estou 
ainda virgem de processos, muito embora mais 
de uma vez tenha tido motivos para recorrer 
aos tribunais; não tive tampouco até hoje 
nenhuma querela. Eis-me chegando ao fim de 
uma longa vida sem jamais ter ofendido grave- 
mente alguém, nem nunca ter sido ofendido, 
nem jamais ouvido juntar-se a meu nome 
algum epíteto destoante. É sem dúvida uma 
graça dos céus. 

Os grandes abalos das sociedades humanas 
têm origens ridículas. Quantas desgraças se 


274 Cicero. 
275 Virgílio. 
276 Cicero. 


abateram sobre o último duque de Borgonha. 
por causa de uma partida de peles de carneiro ! 
Não foi a legenda de um selo a causa inicial do 
mais tremendo transtorno verificado na estru- 
tura da República romana? Pois Pompeu e 
César são apenas a conseglência das lutas 
entre Mário e Sila. Em nossos dias, foi-me 
dado ver reunidos, à custa do tesouro, os ho- 
mens mais sábios do reino para assinarem tra- 
tados e acordos cujas cláusulas tinham sido 
estabelecidas não raro no toucador de alguma 
mulher insignificante, ao sabor de seus capri- 
chos. Bem o compreenderam os poetas que 
puseram a Grécia e a Ásia a fogo e sangue por 
causa de uma simples maçã. Indagai dos moti- 
vos que levam tal ou qual indivíduo a jogar a 
honra e a vida na ponta de um punhal: não os 
dirá sem corar, a tal ponto serão vãos e 
frívolos. 

A princípio basta um pouco de prudência 
para que evitemos uma questão; uma vez 
embarcados nela, sacodem-nos as cordas todas 
do litígio. Surgem então as dificuldades. Muito 
mais cômodo é não entrar do que sair! Há que 
agir ao contrário da cana, a qual de início 
deita um talo reto e longo, mas em seguida, 
como se houvesse perdido a força, vai for- 
mando nós que assinalam as pausas do cresci- 
mento. E melhor começar devagar e prudente- 
mente, conservando o fôlego e reservando o 
impulso mais vigoroso para o momento em 
que for mais necessário. Orientamos as coisas 
em seu começo como melhor nos apraz, mas 
quando sé p6oem em movimento arrastam-nos 
com elas. 


Não direi, entretanto, que esse procedimento 
me tenha poupado quaisquer aborrecimentos e 
que não precisei muitas vezes reprimir com 
grande esforço minhas paixões. Nem sempre 
se governam como fora desejável; não raro 
mesmo atuam com violência e aspereza. Como 
quer que seja, a tática é boa e dá-nos algum 
alívio e alguma vantagem, salvo aos que não 
desejam vantagem que não acarrete com ela a 
estima alheia. É que, com efeito, quem se retira 
da dança antes de nela entrar, pode viver mais 
contente mas não adquire uma reputação espe- 
cial. Acrescentarei ainda que nisso, como em 
tudo, o caminho dos que visam unicamente às 
honrarias é bem diferente do que seguem os 
que atendem aos ditames da ordem e da razão. 
Há quem se arroje inconsideradamente à corri- 
da, mas logo diminui o passo. Plutarco afirma 
que aqueles que por falsa vergonha cedem e 
facilmente concordam com o que lhes pedem, 
são mais tardê impelidos a faltar com a pala- 
vra. Assim também ocorre com os que tomam 
partido levianamente; saem da contenda não 
menos irrefletidamente.. A mesma dificuldade 


462 


que sinto em me enredar numa disputa, leva- 
me a persistir uma vez enredado. O que fazem 
está errado, pois quando se começa deve-se ir 
até o fim, embora se corra o risco de cair no 
caminho. “Empreende com frieza, dizia Bias, e 
prossegue com ardor.” A carência de prudên- 
cia conduz à carência de ânimo, o que é pior 
ainda. 

Em sua maioria os acordos com que hoje 
pomos fim a nossas dissensões são vergo- 
nhosos e hipócritas; procuramos apenas salvar 
as aparências e por isso traímos e negamos 
nossas verdadeiras intenções. São remendos o 
que fazemos. Sabemos em que circunstâncias 
falamos, o sentido que deve ser dado às nossas 
palavras; sabem-no também os assistentes, 
como o sabem igualmente os amigos perante 
os quais quisemos engrandecer-nos. De forma 
que é a expensas da nossa fraqueza, de nossa 
honra e de nossa coragem que negamos nosso 
pensamento; e buscamos as escapatórias da 
falsidade para alcançar o acordo. Desmenti- 
mo-nos a nós mesmos para destruir o efeito de 
um desmentido dado a outrem. Não devemos 
indagar se nossos atos ou palavras podem 
interpretar-se desta ou daquela maneira; é o 
sentido verdadeiro que cumpre manter e defen- 
der a qualquer preço. Trata-se de virtude e 
consciência, o que não devemos mascarar; 
cabê-nos deixar tão vis subterfúgios aos chica- 
nistas dos tribunais. As desculpas e explica- 
ções que damos de gestos indiscretos ou de 
palavras inoportunas parecem-me mais detes- 
táveis do que os próprios gestos e palavras. 
Melhor seria ofender novamente o adversário 
do que se ofender a si próprio em se humi- 
lhando diante dele. Vós o desafiastes sob o 
impulso da colera, e de sangue-frio procurais 
apaziguá-lo e lisonjeá-lo ! Dessa maneira retro- 
cedeis mais do que avançastes. Nada se me afi- 
gura mais vergonhoso para um fidalgo do que 
se desdizer em consequência de alguma impo- 
sição, mesmo porque a obstinação é defeito 
menor do que a pusilanimidade. É-me mais 
fácil evitar as paixões do que moderá-las; 
antes arrancá-las da alma do que as dominar. 
Quem não pode alçar-se à nobre impassibi- 
lidade dos estóicos deve apelar para a estupi- 
dez vulgar, essa que me induz a fazer por 
temperamento o que faziam eles por virtude. A 
meia altura reinam as tempestades; mais alto e 
mais baixo, filósofos e campônios encontram a 
serenidade e a felicidade. “Feliz o sábio que 
chega a conhecer as razões de todas as coisas; 
isento de medo, calca aos pés o inexorável des- 
tino e despreza os fragores do Aqueronte... 
Feliz também o que conhece as divindades 
campestres: Pa, o velho Silvano e a amável 
família das Ninfas? 77.” 


277 Virgílio. 


MONTAIGNE 


Todas as coisas são débeis e frágeis ao nas- 
cer; eis por que cabe atentar para esse momen- 
to, pois enquanto pequenas não se percebe o 
perigo que correm e, quando crescidas, não se 
encontra o remédio para seus males. Menos 
difícil me foi sofrear minha tendência natural 
para a ambição do que me houvera sido vencer 
os mil percalços que teriam decorrido de 
minha fraqueza. “Com razão sempre tive hor- 
ror a erguer a cabeça acima dos outros? 78.” 


Os atos públicos estão sujeitos a interpreta- 
ções diversas e imprevisíveis; há juízes demais 
para os julgar. Certas pessoas, referindo-se à 
minha ação como prefeito de Bordéus 
(agrada-me dizer alguma coisa a essg respeito, 
não pela importância da cóisa, mas como 
exemplo de minha maneira de ser), acham que 
me conduzi como alguém que não se apaixona 
bastante; não estão muito longe da verdade. 
Procuro manter serenos meu coração e meu 
espírito, “sempre naturalmente calmo, hoje o 
sou ainda mais em conseguência da idade? 7º”, 
e se por vezes se desregram ante uma impres- 
são mais rude e aguda, a culpa não cabe à 
minha vontade, Dessa apatia temperamental 
não se deduza qualquer incapacidade (falta de 
aplicação e carência de bom senso são coisas 
diversas) e menos ainda qualquer ingratidão 
para com esse povo, que, antes de me conhe- 
cer, e depois igualmente, me deu a maior prova 
de confiança a seu alcance, elegendo-me e 
confirmando-me no cargo. Quero-lhe todo o- 
bem do mundo, e se tivesse tido alguma opor- 
tunidade não a houvera poupado para servi-lo. 
Esforcei-me por ele como o faria por mim. E 
um bom povo, guerreiro, generoso e contudo 
capaz de disciplina e de bem agir quando 
convenientemente dirigido. 


Dizem também que minha administração 
passou em branca nuvem. Que tolice! Criti- 
cam minha inatividade em um momento em 
que se censuram os outros por fazerem 
demais! Ajo com energia e rapidez quando 
meu entusiasmo me impele, mas .careço de 
perseverança. Quem quiser tirar partido de 
mim, levando em conta minha natureza, deve- 
rá empregar-me em questões exigentes de vigor 
e liberdade de ação; questões honestas que 
possam ser resolvidas prontamente e mesmo 
que dependam algo do acaso. Mas se a Coisa 
exige tempo, sutileza, trabalho, malícia, que se 
dirija a outro. 


Os cargos importantes não são todos, em si 
mesmos, de difícil desempenho. Eu estavá dis- 
posto a trabalhar um pouco mais que de costu- 
me, se absolutamente necessário, pois) sou 
capaz de fazer mais do que faço ou gosto de 

l 
pas | 
278 Horácio. 
279 Cícero. 


ENSAIOS — II 


fazer. Nada deixei de lado, creio, daquilo que o 
dever impunha. Mas esqueci os gestos e os fei- 
tos que a ambição dita e qualifica como deve- 
res. Ora são exatamente os que impressionam 
e satisfazem os homens; o que estes apreciam 
são as aparências; se não ouvem nenhum ruido 
imaginam que dormimos. Por temperamento 
“não gosto de barulho; poderia reprimir quais- 
quer agitações sem me agitar e punir a desor- 
dem sem me exaltar. Se tenho necessidade de 
me mostrar encolerizado, faço de conta que o 
estou, uso máscara, pois tenho antes tendência 
para a cordura do que'para a violência. Não 
criticarei um magistrado por dormir, se os que 
administra também dormirem; é o que deter- 
minam as próprias leis. Agrada-me uma vida 
fácil, obscura, discreta, “igualmente afastada 
da baixeza e do orgulho?2ºº”. deu-ma o desti- 
no. Nasci em uma família que viveu sem brilho 
nem tumulto e que desde sempre se revelou 
sedenta de retidão e honestidade. 


A gente de hoje está tão afeiçoada à agita- 
ção e à ostentação, que a bondade, a modera- 
ção, a cordura, a constância e outras serenas 
qualidades não lhe apetecem. Os corpos áspe- 
ros impressionam o tato; os lisos deixam-se 
manusear sem que os percebamos. Sente-se a 
doença; não a saúde, ou muito pouco, como 
não sentimos o que nos agrada e sim o que nos 
oprime. Age mais em prol de sua reputação 
que do bem coletivo, quem difere o que pode- 
ria fazer na reunião do conselho para fazê-lo 
em público, ou ao meio-dia o que poderia ter 
realizado na noite anterior, ou pessoalmente o 
que esteja ao alcance de qualquer um. Assim 
agiam na Grécia certos cirurgiões que executa- 
vam suas operações à vista do público, a fim 
de atrair maior número de clientes. Só julgam 
boas as ordenações publicadas com alarde. A 
ambição não é um vício de gente comum; 
exige esforços acima de nossas possibilidades. 


Diziam a Alexandre: “Vosso pai vos legará 
um grande Estado pacificado e facil de se 
governar”, mas O jovem invejava as vitórias do 
paieo seu espírito justiceiro. Não quisera usu- 
fruir tranquilamente o império do mundo. 
Alcibtades, em Platão, observa que preferiria 
morrer jovem, belo, rico, nobre, sábio e em 
tudo alcançar a perfeição, a viver muito tempo 
nas coridições em que se encontrava. Essa 
doença é sem dúvida desculpável em um 
temperamento forte e grande como o seu, mas 
essas almas minguadas e doentias que se ilu- 
dem acerca da possível celebridade de seu 
nome, somente porque souberam julgar ou 
defender a cidade, revelam tanto mais fraqueza 
quanto mais pensam engrandecer-se com isso. 
Por úteis que sejam, esses atos insignificantes 


280 Cicero: 


463 


não têm consistência nem vida; o primeiro que 
a eles se refere já os atenua e mal se comuni- 
cam de uma esquina a outra. Há quem chegue 
a proclamá-los ao próprio filho ou aos criados, 
como aquele cidadão que, não tendo ninguém 
para dar ouvidos as lisonjas que dispensava a 
si mesmo, se vangloriava diante da camareira: 


| 
“Ó Perrette, que homem admirável tens por 


patrão !? Na pior das hipóteses resta ainda o 
recurso de falar com seus botões, como certo 
cavalheiro que, tendo desembuchado grande 
quantidade de comentários jurídicos extrema- 
mente sutis e ineptos, foi ouvido a murmurar 
para si mesmo, convictamente, entre a sala do 
conselho e o mictório: “não a mim, Senhor, 
não a mim, mas a vós é que cabe a glória”. Em 
suma, outorgam-se a si mesmos os louvores 
que não conseguem receber de outrem. 


A fama não se prostitui tão facilmente; os 
atos raros e exemplares que a conferem não 
suportam a companhia dessa multidão de 
pequenas ações cotidianas. O mármore poderá 
exaltar-vos por terdes ordenado que se er- 
guesse um pedaço de muro, ou se limpasse um 
esgoto, mas os homens de bom senso não vos 
recordarão. A glória não é forçosamente a 
consequência de uma coisa útil; cumpre ainda 
que essa coisa seja excepcional e dificil. Os 
estóicos não admitiam sequer que um ato não 
particularmente virtuoso merecesse considera- 
ção; não queriam que se estimasse quem, por 
continência, se abstivesse de cortejar alguma 
velha remelenta. Entre os que estão a par das 
admiráveis qualidades de Cipião, o Africano, 
há quem lhe recuse os elogios que lhe conferia 
Panécio, e isso porque julga que a generosi- 
dade não era uma qualidade dele e sim inerente 
ao próprio século em que viveu. Nós nos bene- 
ficiamos dos prazeres do meio em que a sorte 
nos colocou; não usurpemos o prazer da gran- 
deza. São, os nossos, tanto mais sólidos e segu- 
ros quanto menos elevados. Se não por convic- 
ção, ao menos por respeito humano 
rechacemos a ambição; desdenhemos esse ape- 
tite vil e vergonhoso de reputação e honrarias 
que nos impele a mendigá-las e a recorrer aos 
meios mais baixos e onerosos para alcançá-las. 
E desonroso ser honrado em tais condições: 
“Que valem essas lisonjas que se adquirem no 
mercado?8'9” Aprendamos a não ser mais 
ávidos de glória do que a podemos merecer. 
Jactar-se de um ato útil e inócuo é peculiar aos 
que o encaram como raro e extraordinário, 
porque o avaliam pelo preço que pagaram. 
Quanto mais brilhante me parece um feito a 
que assisto, tanto mais o rebaixo, desconfiado 
de que se executou em vista da reputação a ser 
auferida e não em consequência da grandeza 


281 Cícero. 


464 MONTAIGNE 


de alma do autor. Exibido assim em público, 
perde metade de seu valor. Os atos mais belos 
são os que escapam sem ruído das mãos de 
quem os executa, e que um dia algum homem 
de bem recolhe e realça, dando-lhes o valor 
que merecem. “Acho mais digno de elogios o 
que se faz sem ostentação e longe dos olhos do 
povo282”, disse o homem mais vaidoso do 
- mundo. 

Como prefeito, cabia-me apenas conservar e 
continuar, o que é possível sem, ruído e sem 
que o percebam. As inovações ressaltam natu- 
ralmente, mas não são recomendáveis em épo- 
cas como a nossa em que temos sobretudo que 
nos defender contra as novidades. Abster-se de 
fazer é por vezes tão meritório como fazer; 
mas isso dá menor relevo e o pouco que valho 
está nesse caso. Em suma, as oportunidades 
que se me apresentaram ajustaram-se quase 
todas a meu temperamento; felizmente. Pois 
haverá quem deseje ficar doente só para ver 
como se conduzirá o médico? E não se deveria 
açoitar o profissional que aspirasse a ver-nos 
com peste para experimentar suas drogas? 
Não tive”a preocupação iníqua, e assaz 


282 Td. 


frequente, de desejar que os negócios de minha 
cidade se perturbassem a fim de valorizar meu 
governo; antes regozijeiime com sua normali- 
dade. Quem não queira louvar-me pela ordem 
e tranquilidade que reinaram na minha gestão, 
não me denegue ao menos o favor da sorte. 
Tanto aprecio ser feliz como ser sábio e quero 
dever meu êxito antes as mercês de Deus do 
que à minha atividade. Tormnei conhecido de 
todos a minha incapacidade para a coisa pú- 
blica; acrescento que tenho algo mais grave: 
comprazo-me nessa incapacidade e, em razão 
do gênero de vida que escolhi, não aspiro a 
remediâ-la. Não tirei desse cargo, qualquer 
satisfação pessoal, mas quase cheguei ao que 
me propusera e fiz muito mais pelos outros do 
que prometera, porquanto em geral prometo 
muito menos do que posso dar. Estou conven- 
cido de que não ofendi ninguém nem provo- 
quei ódios. Quanto a ser lembrado com sauda- 


de, sei que não o tentei; não estava em minha 


“intenção: “Fiar-me desse monstro? Entregar- 


me a falsa serenidade dessas 


ondas?839?” 


pérfidas 


283 Virgílio. 


CapíTULO XI 


«+ Dos coxos 


Faz dois ou três anos que foi o ano dimi- 
nuído de dez dias, em França. Quantas 
mudanças deviam resultar da reforma! Era, no 
fundo, revolver céus e terra! No entanto, nada 
aconteceu; meus vizinhos continuam a semear, 
a colher e a vender; os dias propícios e os azia- 
gos existem como sempre existiram. Nossos 
hábitos não se ressentiam do erro, como não se 
ressentem agora da correção, tão grande é a 
incerteza de tudo, tão grosseira é a nossa 
compreensão das coisas; e tão obscura e obtu- 
sa. Dizem que o problema podia ter sido resol- 
vido de maneira menos incômoda, como o fez 
Augusto, cortando nos anos bissextos durante 
o tempo necessário ao reajuste. Por não o 
terem feito assim, estamos ainda adiantados de 
alguns dias. Entretantó, o meio permanece ao 
alcance de nossa vontade no futuro. De tantos 
em tantos anos, esse dia será simplesmente 
suprimido de modo que o erro não poderá 
doravante sobreexceder vinte e quatro horas. 


Não temos senão os anos como medida de 
tempo e há séculos vem-na empregando o 
homem. É, no entanto, uma medida que ainda 
não acabamos de determinar e continuamos 
em dúvida acerca das diversas formas que lhe 
dão os outros povos, bem como -das razões 
com que as justificam. Há quem diga que, na 
proporção em que vamos envelhecendo, os 
céus se abaixam e nos impedem a determina- 
ção exata dos dias e até das horas! Plutarco 
chega a afirmar que em seu tempo a astrono- 
mia' não conseguira ainda descobrir o movi- 
mento da lua. Eis-nos bem informados a res- 
peito dos sucessos do passado ! 

Estava a meditar, hã pouco, como faço 
amiúde, sobre a vagueza e a disponibilidade 
desse instrumento mal regulado que é a razão 
humana. Vejo comumente que os homens, em 
lugar de atentar para a realidade dos fatos, se 
divertem com lhes buscar as causas. Passam 
por cima dos antecedentes e atêm-se a exami- 


ENSAIOS — II 


nar minuciosamente as conseqiências. Dei- 
xam as coisas e correm as causas. Mas O 
conhecimento das causas cabe apenas aos que 
conduzem as coisas e não a nós que nos limita- 
mos a percebê-las, que as usamos segundo as 
nossas conveniências, sem a necessidade de 
saber-lhes a origem e penetrar-lhes os princi- 
pios. É o vinho mais agradável a quem sabe 
como se fabrica e de onde vem? Ao contrário, 
o corpo e a alma alteram o direito que têm ao 
uso do mundo e de si, quando lhe agregam as 
opiniões da ciência. Os efeitos afetam-nos, os 
meios não. Determinar e distribuir são funções 
de quem dirige e ensina; ao aprendiz e ao diri- 
gido cabe aceitar. 

Ao ouvir falar de alguma coisa, começa-se 
por indagar: “como é?” Dever-se-ia dizer: 
“antes de mais nada, é?” Nosso raciocínio é 
capaz de reconstruir um mundo como o nosso 
e descobrir-lhe os princípios e a organização; 
não precisa para tanto nem de base nem de 
materiais; basta-lhe deixar-se levar, “hábil que 
é em dar um corpo à fumaça?8 *”?. Constrói tão 
bem sobre o vazio como sobre o cheio, com 
nada como com alguma coisa. Acho que de 
quase tudo deveríamos dizer: “isto não é”. 
Daria amiúde uma tal resposta se ousasse; 
mas logo proclamam que falar dessa maneira 
denota ignorância e fraqueza de espirito e 
tenho, a maior parte do tempo, que representar 
em companhia dos outros e conversar sobre 
assuntos frivolos a que não dou fé. Sem contar 
que é em verdade algo grosseiro e peculiar ao 
espírito de contradição negar categoricamente 
um fato que nos afirmam. Tanto mais quanto 
poucas pessoas deixam de insistir em que o 
viram, indicando testemunhas autorizadas; 
principalmente quando o fato é pouco digno de 
crédito. Disso resulta conhecermos as causas € 
os efeitos de mil coisas que nunca existiram, € 
discutirem os indivíduos acerca de assuntos 
em que o pró e o contra são igualmente falsos: 
“O falso aproxima-se tanto do verdadeiro, que 
o sábio não deve enveredar por tão perigoso 
desfiladeiro?8 8.” 

Verdade e mentira têm igual fisionomia; 


vemo-las com os mesmos olhos. Não somente. 


nos mostramos covardes e nos defendemos 
com tão pouco ardor contra a impostura, 
como ainda nela chafurdamos; apraz-nos 
emaranhar-nos em vaidade, como se ela fizesse 
parte de nosso ser. 

Vi nascerem vários milagres. Embóra mor- 
ram em embrião, não deixamos de prever o 
rumo que teriam tomado se houvessem sobre- 


vivido, pois pela ponta do fio se deslinda a ' 


284 Pérsio. 
285 Cícero. 


465 


meada. Os primeiros que se metem a narrar 
histórias extraordinárias compreendem, pela 
oposição encontrada, qual o ponto fraco e o 
sustentam desde logo com alguma falsa prova. 
Demais, como “os homens têm tendência para 
espalhar rumores falsos?28 8”, acho certo dar a . 
outros o que recebemos, sem nenhuma usura, 
acrescentando-lhe mesmo alguma coisa a 
mais. O erro individual forma o erro público, o 
qual, por sua vez, cria o erro individual. 
Assim, vai-se a coisa enraizando, de mão em 
mão, a ponto de cada nova testemunha se 
achar mais bem informada do que a prece- 
dente, e a última mais convencida do que a pri- 
meira. É uma progressão natural; quem quer 
que acredite em alguma coisa, considera obra 
convencer a outrem; e para tanto não hesita 
em ampliá-la e melhorá-la, na medida em que 
julga necessário para triunfar da falta de fé 


“alheia. Eu mesmo, que tenho exagerado escrú- 


pulo em mentir e não me preocupo com impor 
o que digo, verifico que, no calor da discussão, 
alteio a voz, amplio os gestos, acentuando e 
fortalecendo minhas expressões, não sem dano 
para a verdade inicial. Entretanto, se alguém 
me chama à ordem e exige a verdade nua e 
crua, logo a exponho sem ênfase nem comentá- 
rio. Uma linguagem viva e ruidosa como a 
minha, facilmente se inclina para a hipérbole. 
Em geral os homens gostam acima de tudo de 
propagar suas idéias e quando carecem dos 
meios habituais, juntam-lhes o mando, a força, 
o ferro e o fogo. É lamentável que a maior 
prova da “verdade de alguma coisa esteja no 
número de pessoas que nela acreditam, quando 
nesse mesmo número se incluem tantos loucos 
e tão poucos sábios. “Como se nada fosse mais 
comum do que a ausência de bom-senso? 7.” 
“Uma multidão de loucos, bela garantia para a 
sabedoria288 |” É difícil contrariar as opiniões 
aceitas por todos. A princípio persuadem-se os 
simples de espírito; depois, a autoridade do nú- 
mero e a antiguidade dos testemunhos conven- 
cem os espíritos mais abertos. Eu, porém, se 
não acredito no que me diz uma pessoa, não 
me convenço tampouco se mo dizem cem. 
Nem o julgo pela idade. 

Não faz muito, um de nossos príncipes, víti- 
ma de uma crise de gota que lhe abatera o 
bom senso natural e a saúde vigorosa, deixou- 
se persuadir da autenticidade dos milagres 
terapêuticos de um padre que, com palavras e 


gestos, curava todas as doenças. Fez então 


uma longa viagem para vê-lo. O padre, pelo 
efeito da sugestão, conseguiu extirpar-lhe a dor 


286 Tito Lívio. 
287 Cícero. 
288 Santo Agostinho. 


466 


por algumas horas, de modo que o príncipe 
nesse intervalo pôde servir-se de suas pernas 
como não o podia fazer há muito tempo. Se o 
acaso houvesse provocado cinco ou seis aven- 
turas do mesmo gênero, já se teria proclamado 
a realidade do milagre. Verificou-se, entre- 
tanto, que quem obtinha tais resultados agia 
com tamanha simplicidade e tão pouca malícia 
que não se julgou, sequer, conveniente proces- 
sá-lo. Idênticas conclusões se tirariam de ou- 
tros casos semelhantes, se examinados cuida- 
dosamente. “Admiramos as coisas que iludem 
porque se encontram longe de nós?28º.” Assim 
nossa vista descobre imagens longínquas que 
se afiguram estranhas e se reduzem a nada ao 
nos aproximarmos delas: “Nunca a. fama 
corresponde à verdade?ºº.” 


E espantoso verificar como certas lendas 
muito espalhadas têm origens tão frívolas e 
causas tão insignificantes. E mesmo o que nos 
impede de nos informarmos melhor, pois, bus- 
cando causas e fins grandes, graves e dignos de 
tal renome, escapam-nos os verdadeiros em 
sua pequenez. Nessas investigações requer-se 
um pesquisador prudente, atento, sutil e isento 
de preconceitos. Até hoje os sucessos estra- 
nhos esconderam-se de mim, e em matéria de 
monstros e de milagres bem caracterizados só 
conheço a mim mesmo. Com o hábito e o 
tempo, familiarizamo-nos com tudo o que é 
estranho; apesar disso, quanto mais me analiso 
e conheço, tanto mais minha deformidade me 
espanta e menos eu me compreendo. É princi- 
palmente no acaso que se acham a causa e a 
explicação dos milagres. 

Passando anteontem por uma aldeia a duas 
léguas de casa, dei com a notícia de um mila- 
gre que acabara de abortar. Há meses o caso 
interessava a vizinhança, e das províncias mais 
próximas acorriam magotes de pessoas de 
todas as condições. Para divertir-se um jovem 
da aldeia pusera-se a fingir de alma do outro 
mundo, e tendo tido certo êxito na brincadeira 
a ela associaria uma rapariga simplória e mais 
um rapaz igualmente simples de espírito. Em 
seguida, transformando a prédica doméstica 
em prédica pública, esconderam-se sob o altar 
da igreja, revelando-se somente à noite e proi- 
bindo que acendessem luzes. Das palavras em 
prol da conversão e das ameaças do Juízo 
Final (coisas que, por sua autoridade e respei- 
tabilidade, sempre escondem melhor a impos- 
tura), passaram a aparições, mas tão ingênuas 
e absurdas que mais pareciam divertimentos 
de crianças. Entretanto, se a sorte os houvesse 
favorecido, até onde os teria levado a farsa? 


289 Sêneca. 
290 Quinto Cúrcio. 


MONTAIGNE 


Os pobres diabos estão agora na cadeia e 
sofrerão os castigos que deveriam recair sobre 
a estupidez coletiva; e não sei se algum juiz se 
vingará neles de sua própria tolice. Neste caso, 
tendo a impostura sido descoberta, tudo se 
esclarece, mas em numerosos casos análogos, 
cujas causas escapam à nosso conhecimento, 
acho que devemos suspender nosso juízo, a 
favor ou contra. ; 

Muitos abusos se engendram no mundo (tal- 
vez todos) do fato de nos ensinarem a não 
manifestarmos nossa ignorância e a aceitar- 
mos o que não podemos refutar. De tudo fala- 
mos por preceitos e convicção. Era de praxe 
em Roma que as deposições das testemunhas e 
as decisões dos juizes assim se iniciassem: 
“Parece-me que...” Eu chego a odiar as coi- 
sas verossimeis se me são apresentadas como 
infalíveis, e prefiro as expressões que atenuam 
a audácia da proposição, como, por exemplo: 
“Talvez, até certo ponto, dizem, penso”, e ou- 
tras do mesmo gênero. Se tivesse tido de edu- 
car crianças, eu as houvera habituado às dúvi- 
das e não às afirmações. Diriam: “Como? Não 
sei, pode ser, será?” Assim mais paréceriam 
aprendizes aos sessenta anos do que doutores 
aos dez, como acontece hoje. Quem deseja 
curar-se de sua ignorância precisa confessá-la. 

Íris é filha de Taumante?º?, a admiração é a 
base de tóda a filosofia; a investigação é a 
fonte do progresso; a ignorância um obstáculo 
intransponível. E, no entanto, existe certa igno- 
rância forte e generosa que do ponto de vista 
da honra e da coragem nada fica a dever à 
ciência. E há tanta ciência em conceber essa 
ignorância como em conceber a própria ciên- 
cia. Corras, conselheiro em Tolosa, publicou 
um resumo do estranho processo de dois indi- 
víduos que se faziam passar um por outro. 
Lembro-me (somente disso, aliás) que conside- 
rara a impostura daquele a quem se julgou cul- 
pado tão maravilhosa, tão acima da nossa 
possibilidade (e a do juiz) de entender, que me 
pareceu excessiva a condenação à morte, do 
réu. Deveriamos admitir uma sentença conce- 
bida nestes termos: “O tribunal não com- 
preende nada neste caso.” Seria ainda mais 
livre e sincero do que o que faziam os juízes do 
Areópago, os quais, quando deviam pronun- 


“ciar-se acerca de uma causa que não conse- 


guiam esclarecer, determinavam às partes que 
voltassem cem anos depois. 

As feiticeiras de minha terra correm risco de 
morte desde que alguém afirme que os sonhos 


| 


| 
291 Isto é, a maravilha, o milagre, é filho dajadmi- 
ração. A imagem é obscura, mesmo no seu contex- 
to. Não se encontrou comentário esclarecedor. (N. 
do T.) 


ENSAIOS — II 


delas se realizaram. Nossos. livros sagrados, 
que reproduzem a palavra divina, encerram 
também predições semelhantes (certas e irrecu- 
sáveis); para aplicá-las aos acontecimentos 
atuais, como não lhes distinguimos as causas e 
não sabemos de que maneira se realizarão, é 
necessário uma inteligência superior à nossa, e 
talvez não caiba senão a esse onipotente teste- 
munho esclarecer-nos e dizer-nos: a tal sucesso 
e não a tal outro, isto se aplica. Devemos acre- 
ditar em Deus, mas não em qualquer pessoa 
que se maravilha com sua própria narrativa (e 
naturalmente se maravilha quando o aconteci- 
mento ultrapassa o alcance de nossos sentidos) 
tanto dos fatos imputados a outrem como dos 
que atribui a si mesmo. 

Sou pesado de espírito e atenho-me ao que 
tem consistência e é plausível, evitando, a 
propósito, o defeito já assinalado pelos anti- 
gos: “os homens são induzidos a acreditar no 
que não compreendem; o espírito humano 
inclina-se a crer mais facilmente *no que é 
obscuro?º2”. Bem vejo que se irritam e me 
proíbem a dúvida sob pena das piores injúrias; 
é um novo método de persuasão. Mas graças a 
Deus não será a socos que me hão de impor 
uma orientação. Compreendo que aqueles cuja 
opinião é tachada de falsidade se revoltem 
contra a apreciação; quanto a mim, quando 
não aprovo uma idéia, satisfaço-me com 
achá-la ousada e dificilmente aceitável. Como 
todo mundo condeno as afirmações contrárias 
às minhas, mas em tom que nada tem de agres- 
sivo. Quem, para provar o que sustenta, se re- 
vela arrogante, mostra que a razão não é seu 
forte: Enquanto se trata de uma simples dis- 
cussão a respeito de palavras, como se verifica 
nas escolas, os argumentos reciprocos podem 
apresentar a mesma aparência de verdade, 
“conquanto discutam e não afirmem?*3?”: mas 
quando se trata dos efeitos que decorrem delas, 
os que se conservam calmos levam vantagem. 

Para chegar a matar as pessoas acusadas de 
feitiçaria, é preciso possuir uma idéia bem núíti- 
da dos erros que lhes são imputados; a vida 
humana é uma realidade demasiado indiscu- 
tível para que se dê como garantia os fatos 
sobrenaturais e fantasistas que se lhe atribuem. 
Não me refiro aqui aos que empregam drogas 
e venenos; são homicidas da pior espécie; e, no 
entanto, mesmo nesses casos, não devemos 
confiar sempre em suas confissões; já se viu 
quem confessasse ter matado pessoas que con- 
tinuam vivas. Quanto às acusações extrava- 
gantes que se verificaram contra os pretensos 
feiticeiros, direi que já é muito acreditar-se em 


292 Tácito. 
293 Cícero. 


467 


quem diz coisas normais e naturais; e que não 
devemos dar fé a quem conta o que não pode- 
mos entender, a menos que haja recebido dos 
céus a missão de contá-las. Esse privilégio que 
aprouve a Deus conceder a alguns de nossos 
testemunhos, cumpre não envilecê-lo comuni- 
cando-o levianamente. Doem-me os ouvidos 
de tanto escutar: “três pessoas viram-no tal dia 
do lado do nascente; três outras do lado do 
poente; a tal hora, em tal lugar, estava assim 
vestido.” Por certo eu não acreditaria sequer 
em mim mesmo. Acho muito mais natural que 
dois homens mintam do que passar um só do 
Oriente ao Ocidente em doze horas, levado 
pelo vento; e mais natural também que nosso 
juízo se perturbe arrastado por um turbilhão 
de idêias, do que um indivíduo como nós, em 
carne e osso, voar numa vassoura ou descer 
pela lareira por se ter algum espírito estranho 
apoderado dele. Não procuremos ilusões que 
venham de fora e nos sejam desconhecidas, 
quando já andamos perpetuamente agitados 
pelas que nos são próprias e existem em nós. 
Parece-me que é desculpável não crer em mila- 
gres desde que os possamos desmascarar e 
explicar de maneira plausível; e sou da opinião 
de Santo Agostinho, de que mais vale incli- 
nar-se para a dúvida do que para a certeza, em 
tudo o que se apresenta dificilmente provável. 


Há alguns anos passei pelas terras de um 
principe soberano, o qual, a fim de esmagar 
minha incredulidade, houve por bem mostrar- 
me dez ou doze indivíduos presos em um local 
especial, entre os quais se encontrava uma 
velha que, pela sua fejúra e sua deformidade, 
era uma verdadeira feiticeira, por sinal que fa- 
mosa na profissão. Examinei as provas e as 
confissões e notei não sei que espécie de estig- 
ma na' velha. Interroguei-a longamente, com 
atenção, pois não sou homem que se deixe 
impressionar por idéias preconcebidas. Em 
suma, ter-lhe-ia antes prescrito um pouco de 
heléboro em vez de cicuta, “seu caso parecen- 
do-me mais próximo da loucura que do 
crime?º +”. Para tratar dessas doenças tem a 
Justiça meios adequados. Quanto aos argu- 
mentos e objeções que as pessoas de boa fé me 
têm apresentado (nesse caso como em outros), 
não me pareceram convincentes e sempre fora 
possível encontrar outros mais verossímeis. É 
verdade que não perco tempo em desfazer o nó 
das provas e razões baseadas em experiências 
e fatos; não há como desfazê-lo; e, como Ale- 
xandre, corto-os. Mandar queimar vivo um 
homem apoiado em simples conjeturas é valo- 


-rizá-las exageradamente. 


294 Tito Lívio. 


468 


Prestâncio conta que seu pai (e citam-se ou- 
tros exemplos), como que entorpecido por um 
pesado sono, imaginava ser jumento e servir de 
animal de tiro aos soldados; e era o que imagi- 
nava. Mas ainda que os feiticeiros possam ter 
sonhos que sejam realidades e tais sonhos por 
vezes produzirem certos efeitos, não creio que 
nossa vontade deva ser responsabilizada em 
juízo. Não falo como magistrado, nem como 
conselheiro do rei, cargos de que não penso ser 
digno, mas como homem do povo, acostu- 
mado a exprimir-se e a agir com bom-senso. 
Quem contar com meus sonhos para opor-se à 
mais insignificante das leis de sua aldeia, ou 
uma opinião aceita, ou um costume do lugar, 
muito se prejudicará e não menos a mim; pois 
não dou nenhuma garantia do que digo, a não 
ser a de que o tinha na cabeça, embora confu- 
samente, ao escrever. Isto é uma espécie de 
conversação em que falo de tudo; não ofereço 
conselhos: “Não tenho, como outros, vergonha 
de confessar que ignoro o que não sei? º 5”. não 
seria tão afoito em minhas palavras-se perten- 
cesse à categoria daqueles a quem se deve dar 
crédito, e foi o que respondi a um grande per- 
sonagem que se queixava da aspereza e da se- 
cura de minhas opiniões: “Vejo muito bem que 
estais disposto a tomar determinado partido, 
ofereço-vos um outro para esclarecer-nos e 
facilitar-vos uma boa escolha; não para obri- 
gar-vos a seguir a minha idéia; Deus, que sabe 
o que vos convém, há de inspirar-vos: Não sou 
sequer presunçoso a ponto de desejar que o 
que penso faça pender a decisão para um ou 
outro lado em coisa de tão grande importân- 
cia; minha condição não me dá autoridade 
para tão graves conclusões.” Reconheço os vi- 
cios de meu espírito € as fraquezas de minhas 
idéias e com eles desgostaria um filho que por- 
ventura tivesse. Nem sempre se acomoda o 
homem à verdade, tão estranha é a sua 
constituição ! 

A propósito, diz-se na Itália que não conhe- 
ceu o amor no que tem de mais doce, quem 
não dormiu com uma coxa. O acaso, sem dúvi- 
da, ou algum fato particular, há muito introdu- 
ziu o ditado na boca do povo e o axioma apli- 
ta-se tanto aos homens como às mulheres. A 
rainha das amazonas respondeu a um cita que 
a convidava para o amor: “São os coxos que 
amam melhor?º 8.º Nessa república feminina, 
a fim de evitar que os homens tomassem o 
poder, quebravam-lhes, em criança, um braço 
ou uma perna, e só se serviam deles para aqui- 
lo em que nós utilizamos as mulheres. 

Eu pensava que os movimentos desorde- 


295 Cícero. 


296 Teócrito. 


MONTAIGNE 


nados da coxa aumentavam o prazer e acen- 
tuavam o gozo; mas acabo de verificar que os 
filósofos antigos já elucidaram a questão. Afir- 
mam que as pernas não se alimentando como 
deveriam, em consequência da enfermidade, 
nutrem-se melhor as partes genitais, desenvol- 
vem-se mais e tornam-se mais vigorosas. Ou, 
também, que com o defeito, impedindo qual- 
quer exercício, gastam os aleijados:menos for- 
ças e assim se mostram mais aptos aos jogos 
do amor. Por idênticas razões diziam Os gre- 
gos que as tecelãs eram mais ardentes do que 
as outras mulheres. Tais raciocínios podem 
levar-nos múito longe e eu acrescentaria que O 
continuo tremor a que elas são submetidas em 
sua tarefa as desperta e solicita, como ocorre 
com as mulheres sacudidas em suas carrva- 
gens. 

Todos esses exemplos confirmam o que 
disse a princípio; que a procura da causa se 
antecipa por vezes em nós à constatação do 
resultado e isso vai tão longe que chegamos a 
julgar não o que existe, mas o que não existe. 
Além dessa facilidade com que encontramos 
interpretações para qualquer sonho, nossa 
imaginação tende a impressionar-se facilmente 
com as coisas falsas e com as aparências mais 
frivolas. A simples autoridade desse ditado 
muito antigo e muito conhecido levou-me a 
crer outrora que sentiria maior prazer com 
uma aleijada e que a deformidade dava-lhe, a 
meus olhos, certa graça. 

Tasso, na comparação que estabelece entre 
a França e a Itália, observa que temos as per- 
nas mais finas do que os italianos e o explica 
pelo fato de andarmos sempre a cavalo. Da 
mesma causa tira Suetônio conclusão diferente 
ao afirmar que Germânico as tinha muito for- 
tes graças à prática continua desse exercício. 
Nada existe tão dúctil e desregrado quanto o 
nosso juízo. É como o sapato de Terâmenes 
que se ajustava a todos os pês. “Dá-me um 
dracma de prata”, disse um filósofo cínico a 
Antígono. E respondeu este: “não é um pre- 
sente digno de um rei. Pois dá-me então um 
talento. — A dádiva não convém a um cini- 
co.” “Seja porque o calor abre os poros das 
plantas e prepara o caminho para a seiva, seja 
porque torna a terra mais dura e fecha as veias 
à chuva fina, a um sol ardente ou a um frio 
boreal, é por vezes útil pôr fogo no 
campo? *?.? 

“Toda medalha tem seu reverso2º8”, eis 
porque Clitômaco dizia que Carnéades havia 
superado Hércules ao arrancar dos homens a: 
vontade temerária de julgar. Tão ousado|pen- 


297 Virgílio. 
298 Tasso. ; 


ENSAIOS — II 


samento de Carnéades viera-lhe ao espírito, 
penso eu, ante a impudência e a presunção que 
exibiam os que outrora se dedicavam a profis- 
são de saber. Esopo estava exposto à venda 
com dois outros escravos. Um comprador 
indagou de um deles que sabia fazer; este para 
se valorizar contou mil maravilhas. Disse o 
segundo mais ainda. Quando chegou a sua vez, 
Esopo respondeu: “Nada, eles já pegaram 
tudo, eles tudo sabem.” Verificou-se o mesmo 


469 


nas escolas de filosofia. A afoiteza dos que 
atribuíam ao espírito humano a capacidade de 
tudo saber levou os outros a afirmarem, por 
despeito ou contradição, que o espírito não era 
capaz de coisa alguma. Estes exaltavam ao 
extremo a ignorância como aqueles glorifi- 
cavam absurdamente a ciência. De modo que 
não há como negar que o homem é imoderado 
em tudo e só pára quando forçado pela incapa- 
cidade de ir além. 


CAPÍTULO XII 


Da fisionomia 


Quase todas as nossas opiniões nos são 
impostas por autoridade alheia. Não é isso um 
mal, pois neste século tão frágil não sabe- 
riamos escolher melhor por nós mesmos. Os 
discursos de Sócrates, cuja forma e sentido nos 
foram transmitidos por seus discípulos, só têm 
a nossa aprovação em consequência do res- 
peito que devotamos à opinião pública. Se um 
homem desse porte nascesse agora, muito pou- 
cos o louvariam. Só apreciamos as graças 
picantes e artificiais; as que se escondem sob a 
simplicidade e a sinceridade não as percebe 
nossa visão grosseira. Para discernir as belezas 
delicadas e discretas faz-se necessário uma 
vista pura e penetrante. E não é a pureza, na 
nossa opinião, parenta próxima da tolice e 
digna de crítica? Sócrates exprimia-se de um 
modo natural e simples; assim fala um campó- 
nio, assim fala uma mulher. Refere-se conti- 
nuamente a cocheiros, carpinteiros, sapateiros 
e pedreiros; suas induções e suas analogias são 
tiradas das ações mais vulgares do homem; 
todos entendem o que ele diz. Sob tão pobre 
roupagem não teriamos jamais compreendido 
a nobreza e o esplendor. de. suas. admiráveis 
concepções, pois julgamos mesquinhas as que 
a erudição não realça e só percebemos a rique- 
za pelo aparato. Nosso mundo é feito de osten- 
tação; os homens incham-se de vento e andam 
aos saltos como os balões. Sócrates não procu- 
ra fazer que prevaleçam idéias quiméricas, seu 
objetivo é prover-nos de fatos e preceitos de 
imediata aplicação na vida: “controlar suas 
ações, observar a lei do dever, obedecer à 
natureza? 9º”. Sempre foi igual e fiel a si 
mesmo; e não se ergueu por impulsos até à 
perfeição, mas pelo seu caráter. Ou melhor, 


299 Tucano. 


não se elevou e sim abaixou o homem para 
aproximá-lo de sua origem, da natureza, a'que 
subordinou as aspirações, as desilusões e as 
dificuldades da vida. Em Catão vemos clara- 
mente que estamos em presença de um caráter 
muito acima do comum; exaltado tanto nos 
seus feitos como na sua morte. Sócrates, ao 
contrário, não se afasta do chão, nem apressa 
excepcionalmente o passo; e assim discorre, 
como aliás se conduz nos momentos mais difi- 
ceis da vida, e nos mais cotidianos. 

Acontece que o homem mais digno de ser 
conhecido e apresentado ao mundo como 
exemplo, é aquele que melhor conhecemos. 
Foi-nos descrito e pintado pelos homens mais 
aptos a bem julgar que já existiram. Os teste- 
munhos que temos a seu respeito são admirá- 
veis pela fidelidade e a competência. É espan- 
toso que hajam disciplinado tão puras idéias 
sem as alterar nem ampliar, a ponto de produ- 
zirem os mais belos efeitos em nossa alma, não 
a apresentando rica ou ambiciosa, mas sadia, 
Jovial e simples. Com essas idéias comuns, 
com esses recursos vulgares, sem s€ comover 
nem excitar, Sócrates não somente estabeleceu 
as mais ordenadas ações e crenças como ainda 
as mais elevadas e vigorosas que se conhecem. 
Fez descer dos céus, onde perdia seu tempo, a 
sabedoria humana e entregou-a ao homem, no 
qual encontra mais razão de ser. Vede-o arguir 
ante seus juízes; observai como raciocina para 
firmar sua coragem na guerra, como fortalece 
sua paciência contra a calúnia, a tirania. Nada 
toma de empréstimo à arte ou à ciência; as 
pessõas mais simples nele reconhecem seus 
próprios meios e forças. Grande serviço pres- 
tou Sócrates à natureza humana, mostrando- 
lhe quanto pode por si mesma! 

Somos todos mais ricos do que pensamos; 


470 


mas ensinam-nos a pedir, e a apelar para os 
outros em vez de recorrer a nós mesmos. O 
homem não sabe contentar-se com satisfazer 
suas necessidades. Prazer, riqueza, mando, 
sempre abarca mais do que pode; sua avidez é 
incapaz de moderação. O mesmo sucede no 
que concerne à curiosidade de saber. Em- 
preende tarefas mais pesadas do que lhe permi- 
tem suas forças e do que precisa: “Não temos 
mais moderação no estudo das letras do que 
no resto?00.? E tem razão Tácito quando 
louva a mãe de Agrícola por sofrear no filho o 
desejo desmedido de aprender. 

Se encararmos com calma a ciência, vere- 
mos que é um bem que, como os demais bens 
do homem, comporta muita vaidade e fraqueza 
natural; por outro lado custa caro. Sua aquisi- 
ção apresenta maiores riscos do que a de um 
alimento qualquer ou bebida; as outras coisas, 
nós as levamos para casa quando as compra- 
mos, e podemos colocá-las em algum reci- 
piente em que as examinamos à vontade, utili- 
zando-as como queremos. A ciência somente 
em nosso espírito é que a guardamos; já a 
absorvemos ao adquiri-la e quando saímos do 
mercado já nos achamos melhorados ou conta- 
minados. Algumas ciências servem apenas 
para nos incomodar e perturbar; não nos enri- 
quecem. Outras nos envenenam, quando deve- 
riam curar-nos. Senti prazer em ver que algu- 
res, Certos homens, por devoção, fazem veto de 
ignorância; como há quem o faça de castidade, 
de pobreza e de penitência. Isso equivale a cas- 
trar nossos desordenados apetites, a embotar a 
ânsia que nos conduz ao estudo dos livros, e a 
privar o espírito da voluptuosa complacência 
com que ouvimos dizer que somos sábios. 
Cumpre-se melhor o voto de pobreza quando 
se lhe junta o da ignorância. 

Não precisamos de muita ciência para 
vivermos satisfeitos, e Sócrates nos ensina que 
aquilo de que necessitamos trazemo-lo em nós 
mesmos; e oferece-nos o método de explorá-lo 
e aproveitá-lo. Toda ciência, fora da que nos 
vem da natureza, é vã e supérflua; e podemos 
considerar-nos felizes se não nos pesa e emba- 
raça mais do que nos serve: “Não é preciso 
saber muito para ser sábio?º1.? Na realidade, 
é a ciência uma febre que confunde e inquieta 
o espírito. Recolhamo-nos em nós mesmos e 
encontraremos argumentos naturais — os 
mais eficazes — contra o temor da morte; são 
os que ajudam o camponês e povôs inteiros a 
enfrentá-la com mais firmeza de ânimo do que 
um filósofo. Teria eu morrido menos serena- 
mente se morresse antes de ter conhecido os 


300 Sêneca. 
301 Id. 


MONTAIGNE 


Tusculanes? Penso que não; a leitura dessa 
obra enriqueceu-me a língua mas não me forta- 
leceu muito mais o ânimo, o qual continua 
como o criou a natureza e não me preparo 
para o embate senão como o comum dos 
homens. Os livros não me educaram; foram 
um exercício para meu espírito. Talvez mesmo 
a ciência, tentando dar-nos novos meios de de- 
fesa contra os inconvenientes naturais, mais 
acrescenta à idéia que temos da importância e 
do alcance dos acidentes do que nos auxilia 
com os sutis remédios que sugere. Pois são 
realmente sutilezas que nos dá e mediante as 
quais em vão se aviva nosso cuidado. Vede 
como os melhores autores — e os mais enten- 
didos — reúnem ao redor de um bom argu- 
mento outros muitos secundários e, para quem 
os aprecia de perto, vazios de sentido. Meras 
argúcias verbais que nos iludem. Mas como 
isso pode ter sua utilidade não o quero discutir 
a fundo. Por empréstimo ou imitação também 
as encontrarão aqui. É que se evita denominar 
força, à simples gentileza, e considerar sólido o 
que é apenas sutil, ou bom o que não é, senão 
belo: “O que agrada ao gosto nem sempre 
apraz ao estômago*º2”: nem tudo o que satis- 
faz alimenta, “quando se trata da alma e não 
mais do espírito? 03”, 

Vendo os esforços de Sêneca no sentido de 
preparar-se para a morte, e como se retesa a 
fim de conservar sua segurança, e como se de- 
bate contra essa obsessão, sinto que se 
desacreditaria a meus olhos, se com a morte 
mesma não houvesse consolidado corajosa- 
mente sua reputação. Sua agitação febril, tão 
amiúde renovada, denota a que ponto era ner- 
voso e excitável. “Uma alma fórte exprime-sê 
com mais calma e sensatez. .. o espírito tem o 
matiz da alma... .”; são frases suas e cito-as 
para melhor mostrar a que ponto estava então 
preocupado. 

A maneira pela qual Plutarco encara a 
morte é altiva e menos obcecante; acho-a por 
isso mais viril € menos persuasiva; sua alma 
devia ter movimentos mais serenos e ordena- 
dos. O primeiro desses autores é mais pene- 
trante; comove-nos, excita-nos, perturba-nos. 
O segundo é mais sólido; informa-nos, prepa- 
ra-nos, reconforta-nos constantemente; toca- 
nos principalmente a inteligência. Aquele nos 
encanta, este nos convence. Conheço outros 
escritos de autores mais venerados ainda, os 
quais na pintura das lutas sustentadas contra 
as solicitações da carne, representam-nas tão 
violentas e invencíveis que nós, homens co- 
muns, somos induzidos a antes adennar a 


302 Cícero. 
303 Sêneca. 


ENSAIOS — HI 471 


estranheza e o vigor insólito. da tentação do 
que a resistência a ela oposta. 

Fortalecem-nos mais os esforços da ciência? 
Olhemos em torno de nós: a pobre gente que 
vemos, inclinada sob o trabalho, ignorante de 
Aristóteles e Catão, de exemplos e preceitos, 
obediente à natureza, dá-nos diariamente pro- 
vas de firmeza de ânimo e de paciência mais 
puras e maiores do que as que estudamós na 
filosofia com tanta aplicação. Quantos há que 
não se preocupam com a pobreza, que desejam 
a morte, e a acolhem sem alarde nem aflição! 
O homem que trabalha neste momento em meu 
jardim, enterrou o pai pela manhã; ou o filho. 
Os nomes que dão às doenças, atenuando-lhes 
a aspereza, suavizam-nas; a tísica chama-se 
então tosse; a disenteria, desarranjo; a pleuri- 
sia, resfriado. E assim como lhes temperam os 
nomes, suportam-nas com naturalidade. E pre- 
ciso que sejam muito graves para que lhes 
interrompam o labor diário. Deitam-se somen- 
te para morrer. “Essa virtude simples e pura é 
transformada em uma ciência confusa e 
fútil3 O 4,» j 

Escrevia isto em um momento em que desa- 
bavam sobre mim, com todo o seu peso, as 
turbulências que continuamos a sofrer. Tinha 
por um lado inimigos à porta e por outro 
ladrões mais perigosos ainda, combatendo não 
pelas armas mas pelo crime. E vinha-me 
ressentindo de toda espécie de prejuízos decor- 
rentes das hostilidades. “à direita e à esquerda 
ameaça-me um inimigo temível; preciso defen- 
der-me de ambos os lados? º 8.” 


Manstruosa guerra! As outras são dirigidas 
para fora; esta volta-se contra nós mesmos; 
destrói-se a si própria e morre de seu próprio 
veneno. É de natureza tão maligna e desas- 
trosa que se arruína com a ruína que provoca; 
na sua cólera, esquarteja-se a si mesma. 
Vemo-la que se extingue, mais por escassez de 
alimento do que pela força inimiga. Renega 
qualquer disciplina; tem por objetivo dar cabo 
à sedição, mas de sedição se enche. Propõe-se 
a punição da desobediência e dá o exemplo da 
revolta; empregada na defesa das leis, desa- 
tende às prescrições legais. Para onde vamos? 
O único remédio a que podemos recorrer é 
infeccioso: “O nosso mal se envenena com a 
terapêutica — piora e se amplia com o 
medicamento?º 8; “O justo e o injusto, confun- 
didos pelos nossos culposos furores, afastaram 
de nós a proteção dos deuses?º 7? 


304 Id. 

305 Ovídio. 
30 6 Virgílio. 
307 Catulo. 


Nessas doenças dos povos, podem-se, no 
início, distinguir os enfermos dos sãos. Mas 
quando a doença se prolonga, como em nosso 
caso, todo o corpo se ressente, da cabeça aos 
pés, nenhuma parte permanece isenta de 
corrupção, pois não há ar que mais gulosa- 
mente se respire e penetre um organismo do 
que o ar da licença. Nossos exércitos não têm 
consistência e só se conservam graças ao 
cimento de coesão que neles introduz o estran- 
geiro; com franceses não se consegue mais 
constituir um só corpo de exército bem organi- 
zado. Que vergonha! A disciplina só existe 
entre os estrangeiros de nossas fileiras. Quanto 
a nós, conduzimo-nos ao sabor de nossas 
idéias pessoais e não em obediência às ordens 
dos chefes; cada qual faz como bem entende, o 
comando tem mais problemas internos do que 
externos; cumpre-lhe vigiar seus soldados; 
cortejá-los, atender às suas exigências. Só ele 
obedece; o resto é livre e não conhece freios. 

Apraz-me constatar quanta covardia e pusi- 
lanimidade se escordem na ambição; quanta 
abjeção e mesquinharia se fazem necessárias 
para atingir seu alvo; mas lamento ver boas e 
belas almas, capazes de praticar a justiça, 
dissolverem-se nesse meio tão confuso. O 
sofrimento prolongado transforma-se em hábi- 
to e este engendra a resignação e acarreta a 
imitação. Já tinhamos almas mal formadas em 
número suficiente; não é justo que as genero- 
sas se contagiem,. pois a perdurar esse estado 
de coisas dificilmente encontraremos a quem 
confiar a saúde de nosso país, no caso em que 
o destino haja por bem lha devolver. “Não 
impeçais este jovem herói de reconstruir um 
século em ruíinas3º8 ” 

Onde foi parar o velho preceito de que o sol- 
dado deve temer mais a seu chefe do que ao 
inimigo? E que pensar do maravilhoso exem- 
plo do pomar que se encontrava no meio do 
acampamento romano e que se verificou conti- 
nuar intato ao se retirarem as tropas? Muito 
me alegraria que nossa juventude, em vez de 
empregar seu tempo em peregrinações inúteis e 
aprendizagens pouco honrosas, o dividisse 
entre fazer a guerra no mar sob o comando de 
algum bom chefe e estudar a disciplina dos 
exércitos turcos diferente da nossa « bem supe- 
rior. Assim, as expedições tornam nossos sol- 
dados mais licenciosos e os turcos mais disci- 
plinados, pois lá os roubos e os furtos 
praticados contra o povo, normalmente puni- 
dos com açoite, são em tempo de guerra passi- 
veis de pena mais severa. O furto de um ovo 
acarreta cinquenta bastonadas; é preço fixado 
de antemão. Qualquer outra falta, por insigni- 


308 Virgílio. 


472 MONTAIGNE 


ficante que seja, pode acarretar a empalação 
ou a decapitação imediata. Maravilhei-me ao 
ler na história de Salim, o mais cruél dos 
conquistadores, que, quando subjugou o-Egito, 
os belos jardins de Damasco, situados em 
plena região deflagrada e onde o exército 
acampara, permaneceram intatos, respeitados 
pelos soldados aos quais não se dera o sinal do 
saque. 

Haverá algo em um mau governo que mere- 
ça ser tratado pela. droga mortal da guerra 
civil? Favônio dizia que não, nem mesmo a 
derrubada de um tirano que houvesse usur- 
pado o poder. Platão não admite tampouco 
que se violente a tranquilidade de um país para 
curá-lo e não aceita um remédio que o revolu- 
cione, que tudo entregue ao acaso, faça correr 
o sangue e provoque a ruína dos cidadãos. 
Aconselha aos homens de bem, nesses casos, 
que deixem as coisas:correrem e peçam a inter- 
venção de Deus. Parece mesmo censurar seu 
grande amigo Dion por ter agido de outro 
modo. Sempre estive de acordo com tais 
idéias, mesmo antes de saber que Platão hou- 
vesse existido. Não podemos evidentemente, 
nós cristãos, considerá-lo um dos nossos, 
muito embora tivesse merecido, pela limpidez 
de sua consciência, o divino favor de ser ilumi- 
nado pelas luzes do Evangelho naqueles tem- 
pos de trevas; não penso por isso que seja justo 
apelar para um pagão a fim de que nos ensine 
quanto é ímpio não esperar de Deus um auxi- 
lio que só a Ele cabe dar. Fico por vezes a 
duvidar de que entre tanta gente metida em 
nossas desordens, haja quem, de boa fé e por 
insuficiência mental, possa acreditar que seja 
possível corrigir abusos mediante tantos ou- 
tros abusos! E imagine que-a salvação possa 
decorrer dos mesmos meios que sabemos 
desastrosos; que derrubando a pátria e entre- 
gando os pedaços a seus inimigos, dando a 
irmãos armados uns contra os outros a oportu- 
nidade de empregarem sua coragem em lutas 
parricidas?ºº, apelando para os demônios e as 
fúrias, dão seu apoio à Divina Providência, a 
qual encarna a justiça e a doçura, virtudes por 
excelência. Como se a ambição, a avareza, a 
crueldade, a vingança não tivessem em si mes- 
mas suficiente vigor e impetuosidade, masca- 
ram-nas com os rótulos gloriosos das grandes 
virtudes que são a piedade e a justiça. Não é 
possível sonhar com mais lamentável situação 
do que essa em que a malícia se faz legal e 
veste, com a conivência do magistrado, o 
manto da virtude: “Nada mais falaz do que 


309 Parricidas, e não fratícidas, porque lutam 
todos contra a pátria, isto é, contra os pais. (N. do 
T.). 


uma religião que justifica crimes com o inte- 
resse dos deuses?1º.” A maior injustiça, diz 
Platão, consiste em considerar justo o que o 
não é. 

Nos tempos a que aludo, não sofreu o povo 
apenas no presente por causa das depredações 
cometidas, “pois muita era a desordem e muita 
a confusão em nossas terras? 11”, como tam- 
bém em relação ao futuro. Sofreram os vivos e 
com eles os que ainda não tinham nascido. 
Arrancaram-lhes, e a mim igualmente portan- 
to, a própria esperança, e as razões de viver 
por longos anos. “O que esses bandos de cri- 
minosos não podem carregar, destroem; che- 
gam a incendiar inocentes choupanas?!2.” 
“Nenhuma segurança nas cidades; tudo devas- 
tado nos campos* !3.” 


Além dessas provações, outras padeci. Sofri 
os inconvenientes que a moderação acarreta 
em tais ocasiões; fui despojado por todos os 
partidos. Era gibelino para os guelfos e.guelfo 
para os gibelinos, como diz não sei que poeta. 
A situação de minha propriedade, minhas rela- 
ções com os vizinhos mostravam-me sob certo 
aspecto; minha vida e meus atos, sob outro. 
Não me assacavam acusações precisas; não 
lhes abria o flanco por não transgredir as leis 
(se forjassem algum inquérito somente elogios 
me dariam), mas suspeitavam de mim surda- 
mente, passando de boca em boca observações 
que as aparências sugeriam, o que sempre dá 
resultado em circunstâncias confusas e entre 
espíritos cheios de inveja e de estupidez. No 
fundo, contribuo para a propagação das 
presunções injuriosas contra mim, com minha 
mania de não me justificar, considerando que 
exporia minha reputação a interpretações 
desairosas ao defendê-la, “pois a discussão 
enfraquece a evidência?! 4”. Por isso, como se 
vissem tão claramente em mim como eu pró- 
prio vejo, em-vez de procurar destruir a acusa- 
ção dou-lhe maior força ainda, adiantando-me 
a seu encontro com sarcasmos e- ironias ou 
calando-me totalmente por julgá-la indigna de 
resposta. Quem encara esse meu modo de agir 
como testemunho de uma exagerada confiança 
na justiça de minha causa, não me quer menos 
mal do que aqueles que nele vêem uma prova 
de sua fraqueza. Os grandes principalmente 
assim pensam, porque a seus olhos a ausência 
de espírito de submissão é a mais imperdoável 
das faltas, e não gostam de fazer justiça a 


310 Tito Lívio. 


312 Ovídio. 
313 Claudiano. ; 
Bia Cicero 


| 
311 Virgílio. | 
t 


ENSAIOS — II 


quem não a solicita com humildade. Contra 
esse obstáculo não raro me choquei. 


Um ambicioso se enforcaria de desespero 
ante o que me ocorreu então; um avarento o 
mesmo teria feito. Eu atenho-me a nada adqui- 
rir: “Que conserve simplesmente o que me per- 
tence, e até menos se necessário. Pouco impor- 
ta. Aspiro a não me ocupar senão de mim 
mesmo durante o tempo que os deuses quise- 
rem dar-me ainda?! 8. Não obstante, as per- 
das que experimento em conseglência da mal- 
dade alheia, são-me tão dolorosas quanto as 
dos avarentos, porque a ofensa é mais amarga 
ainda do que o prejuízo. Mil desgraças de toda 
espécie atormentaram-me naquela época, 
umas após outras, e eu as houvera suportado 
melhor se tivessem desabado todas juntas. 


Já pensava a qual de meus amigos poderia 
confiar a incumbência de me amparar na velhi- 
ce desvalida. Passando-os em revista, vi-me em 
fraldas de camisa ! Quem cai de tão alto preci- 
sa cair nos braços de um afeto sólido, a toda 
prova, O que é raro e não tem preço, se é que 
existe. Verifiquei afinal que o mais seguro era 
confiar-me a mim mesmo; e que, se me traísse 
a sorte, teria que restringir-me mais ainda à 
minha pessoa. Os homens em geral recorrem 
aos outros, evitando olhar para os próprios 
recursos que são os únicos certos e poderosos; 
todos correm alhures para assegurar O futuro, 
porque nunca ninguém se voltou para si 
próprio. 

Chego a acreditar que tais provações me 
foram úteis; em primeiro lugar porque, quando 
a razão não basta, cumpre corrigir os maus 
alunos a chicote, assim como, pelo fogo e a 
disposição das cunhas, endireitamos uma peça 
de madeira que entortou. Embora eu me pro- 
ponha há muito desprezar as coisas estranhas 
a mim, volta e meia surpreendo-me olhando 
para os lados: um sinal, uma palavra amável 
de um grande personagem que me sorri, consti- 
tuem uma tentação. E, no entanto, Deus sabe o 
que valem, nestes tempos! Ainda escuto sem 
franzir as sobrancelhas as propostas que me 
fazem de cargos lucrativos, e os recuso com tal 
nobreza que sempre imaginam que não desejo 
senão ser convencido. Um espírito tão indócil 
merece correção; é preciso reajustar a grandes 
golpes de malho esse barco que se desconjunta. 
Em segundo lugar, tais acidentes valeram 
como exercício para enfrentar outros piores, se 
eu, que esperava ser dos últimos atingidos pela 
tempestade, viesse a ser dos primeiros, em vir- 
tude de minha fortuna e das condições em que 
vivia. Ensinaram-me a ater-me desde cedo a 


315 Horácio. 


473 


um gênero de vida adequado ao novo estado 
de coisas. A verdadeira liberdade consiste em 
um completo domínio de si mesmo, como afir- 
ma Sêneca. Em épocas normais e tranquilas, 
preparamo-nos para os acidentes comuns, 
porém na mixórdia atual, que já vai pelos trin- 
ta anos, todo francês se vê a cada instante 
sujeito a contemplar o desmoronamento total 


de sua fortuna, e tem portanto de tomar as 
medidas mais eficientes e enérgicas a fim de 
que sua coragem se mantenha à altura dos 
acontecimentos. Demos graças ao destino por 
nos ter feito nascer em um século em que a 
moleza, a ociosidade e a graça não têm curso; 
assim será famoso pelas suas misérias, por- 
quanto em outras condições ficara ignora- 
do... Sempre lamentei, ao ler a história das 
perturbações políticas, não as ter presenciado, 
mas minha curiosidade satisfaz-se agora com 
o espetáculo de nossa agonia pública, com 
seus sintomas e formas. Como não posso 
retardá-la, contento-me com presenciá-la e 


anstruir-me. Buscamos com avidez no teatro as 


trágicas peripécias do destino humano e embo- 
ra nos cause piedade o que ouvimos, apraz-nos 
o espetáculo; assim, em razão de sua raridade 
e apesar da tristeza que sentimos, tiramos al- 
guma satisfação em testemunhar os lamentá- 
veis sucessos de uma época. Só nos comove- 
mos com o que nos fere. Por isso os bons 
historiadores fogem, como das águas dormen- 
tes ou dos mares mortos, aos períodos calmos 
e se interéssam especialmente pelas guerras e 
sedições, a fim de interessar-nos. 


Duvido que possa honestamente confessar o 
vergonhoso preço pago pela serenidade de 
minha existência, vivida em grande parte em 
meio à ruína de meu país. Mostro exagerada 
indiferença ante os acidentes que não me 
dizem pessoalmente respeito. E sempre consi- 


derei lucro o que não me tiraram, tanto interna 
como externamente. E sempre achei um conso- 
lo em esquivar, um após outro, os males que 
me ameaçavam de maneira direta e foram aba- 
ter-se alhures. Demais, em matêria de interesse 
público, quanto mais extenso o campo tanto 
mais tênue se torna o meu interesse, sendo em 
parte certo que “nós não sentimos, dos males 
coletivos, senão o que de perto nos toca?! 8”. 
Por outro lado o estado de saúde de que parti- 
mos só era sadio por comparação com o que 
se lhe seguiu, e não caímos de muito alto. 
Menos suportáveis se me afiguram a corrup- 
ção e o banditismo instalados nos altos cargos, 
pois menos nos ofende ser roubados em um 
bosque do que onde deveríamos estar em segu- 


316 Tito Lívio. 


474 


rança. Em verdade, a classe dirigente era então 
composta de tarados e cada qual mais do que 
o outro. Todos com úlceras e feridas e muitas 
incuráveis. 

O desmoronamento animou-me portanto 
mais do que me aterrou, graças à minha cons- 
ciência que não somente estava tranquila 
como também me envaidecia. E como Deus 
nunca distribui males e bens integrais, minha 
saúde, ao contrário do que me acontece 
normalmente, nada deixava então a desejar;.e, 
se sem ela nada valho, com ela:sou capaz de 
tudo. Ela deu-me os meios de resistir aos aza- 
res e de aparar com a mão o golpe que me foi 
assestado e que sem isso me houvera pene- 
trado profundamente; verifiquei também que 
minha capacidade de resistência permitia 
aguúentar-me no estribo apesar dos mais rudes 
corcovos. Não digo isso para provocar a sorte; 
estou em suas mãos e submeto-me a suas 
exigências. Sou-lhe um servidor fiel e lhe rendo 
homenagem. Que se contente com isso, por 


Deus, e não imagine que seja insensível a seus 
golpes. Assim como os que atristeza acabru- 
nha, sorriem por vezes a certos prazeres, em 
minha calma habitual sou de quando em quan- 
do sujeito a depressões melancólicas, que me 
dominam enquanto não me armo para recha- 
çá-las. 

Outra calamidade juntou-se a essas misé- 
rias: a peste grassou na região com uma vio- 
lência nunca vista. Pois assim como os corpos 
sãos se acham mais sujeitos às enfermidades 
graves, porque só por elas são dominados, os 


ares de minhas terras, tão salubres que nunca 
haviam sido perturbados, ao serem contami- 
nados sofreram excepcionalmente: “Velhos e 
Jovens baixavam de cambulhada ao túmulo e 
nenhuma cabeça escapava a Prosérpina?! ?:” 
Minha própria casa tornou-se horrível à vista. 
O que nela havia ficou entregue a quem pas- 
sasse; eu, tão hospitaleiro, encontrei a maior 
dificuldade em descobrir um refúgio para 
minha família, a qual passou a ser um objeto 
de horror para os próprios amigos e parentes; 
onde quer que se apresentasse, imperava o 
pavor; precisava mudar-se cada vez que 
alguém sentia a menor dor, na ponta de um, 
dedo que fosse, pois nesses casos logo se pensa 
na peste e não se espera confirmação. E o pior 
é que, segundo dizem os médicos, é necessário. 
aguardar quarenta dias para saber se estamos 
atingidos, e durante esse tempo a imaginação 
nos atormenta e nos põe febricitantes. Tudo 
isso não me teria preocupado tanto, se não 
devesse atender às misérias alheias e servir de 


317 Horácio, 


MONTAIGNE 


guia durante seis meses a essa caravana, pois, 
pessoalmente, tenho meus preservativos: a 
paciência e a firmeza de ânimo. Não tinha 
muito medo, o que é o mais triste em tais 
casos; aliás, sozinho e com receio, poderia 
fugir mais rapidamente. Entretanto, a morte. 
pela peste não me parece das mais temíveis; é 
em geral rápida, perdem-se logo os sentidos, 
não se sofre e a ameaça que pesa sobre todos 
igualmente é um consolo. Nos arredores, a 
centésima parte da população morreu. “Teriíeis 
visto os campos desertos, e desertos os 
bosques?" 8.? Minhas terras constituem a parte 
mais importante de minhas rendas; sua produ- 
ção depende essencialmente da mão-de-obra; 
uma centena de camponeses nelas traba- 
lhavam e durante muito tempo não se pôde 
atender à cultura. 


Nesse transe quantos exemplos de resolução 
não vimos nessa gente simples do povo! Em 
geral os homens renunciavam a cuidar da pró- 
pria vida. As uvas, principal riqueza do país, 
não tinham ainda sido colhidas. Pois bem, 
indiferentes à morte, que esperavam de um 
momento a outro, prepáravam-se para recebê- 
la sem temor, como se a aceitassem à maneira 
de uma condenação universal que a todos atin- 
giria. A morte é sempre inevitável, mas bem 
poucos a aguardam com firmeza de ânimo; 
uma diferença de horas que nos separe do 
momento fatal, a companhia em que iremos 
enfrentá-la, diversificam nossa atitude. Esses, 
embora crianças, jovens e velhos, não se 
espantavam nem choravam. Vi quem receasse 
ser poupado e ficar sozinho numa horrível soli- 
dão; e vi quem apenas se preocupasse com a 
sepultura, apavorado ante a possibilidade de 
morrer em um lugar ermo, exposto às feras que 
não tinham tardado em aparecer. 


Como as idéias humanas assumem formas 
diferentes! Os neoritas, que Alexandre subju- 
gou, expõem -os corpos dos mortos no fundo 
das florestas para serem comidos; é a única 
sepultura honrosa, a -seu ver. Entre nossa 
gente, houve quem abrisse a própria cova; ou- 
tros nela se deitavam em vida; um de meus 
operários aí morreu, cobrindo-se de terra com 
as mãos e os pés. Esse esforço por construir 
um abrigo onde dormir sossegado, lembra o 
gesto dos soldados romanos após a batalha de 
Canes, cavando, para enfiar a cabeça, buracos 
que enchiam com as próprias mãos a fim de 
morrerem sufocados. Em resumo, toda a 
região subitamente se elevou, por seus atos, a 
uma grandeza de alma em tudo comparável a 
de quaisquer decisões heróicas deliberada- 
mente tomadas. 


318 Virpílio. 


ENSAIOS — II 


Os ensinamentos com que nos encoraja a 
ciência são, em geral, mais aparentes do que 
eficientes; oram mais do que frutificam. 
Abandonamos a natureza e queremos dar-lhe 
lições, a ela que tão seguramente nos conduzia. 
Entretanto, os vestígios de sua orientação, o 
pouco que resta de seu exemplo nos rústicos, 
são coisas que a ciência se vê forçada a solici- 
tar-lhe a fim de fornecer a seus discípulos 
exemplos de constância, de pureza e de 
tranquilidade. Estranhamos ver seus adeptos 
imitarem essa tola simplicidade quando que- 
rem pôr em prática os mais elementares princi- 
pios da virtude; e constatar que nossa sabedo- 
ria precisa aprender com os próprios animais 
as lições indispensáveis aos atos mais graves e 
importantes da existência: como viver e mor- 
rer, poupar nossas forças, amar e educar os 
filhos, praticar a justiça. Singular testemunho 
da fraqueza humana! À razão que orientamos 
como desejamos, e anda sempre a inventar al- 
guma novidade, não deixa que subsista em nós 
nenhum vestígio da natureza. Com esta fize- 
ram os homens o que os perfumistas fizeram 
com o azeite; sofisticaram-na tanto com argu- 
mentos e raciocínios alheios a ela, que ela 
apresenta hoje um caráter essencialmente 
variável, peculiar a cada um, tendo perdido o 
que lhe era inerente e a todos se aplicava. 
Hoje, quem quiser redescobri-la terá de apelar 
para o exemplo dos animais,:nos quais ela per- 
maneceu inacessível à corrupção e à versatili- 
dade das opiniões. 

É verdade que os próprios animais nem 
sempre seguem o caminho traçado pela nature- 
za, mas afastam-se tão pouco dela que não se 
perdem nunca. Atente-se para os cavalos que 
conduzimos pela mão: continuam a dar saltos 
e galopes, mas sempre dentro do que lhes per- 
mitem as rédeas; e seguem quem os conduz. 
Da mesma forma o pássaro domesticado; 
quando alça o vôo nunca procura ir além da 
distância que o comprimento do barbante 
amarrado a seus pés lhe concede. “Meditai 
sobre o exílio, as guerras, as enfermidades e os 
naufrágios a fim de que nenhuma desgraça vos 
surpreenda?!º.” De que vale essa curiosidade? 
Por que nos preocuparmos com tantas misé- 
rias e por que nos prepararmos com tanto 
esforço para enfrentar as que talvez nem se- 
quer nos atinjam? “A apreensão da dor é tão 
penosa quanto o próprio mal32º.” Não é só o 
golpe que nos alcança, mas ainda o ruído e o 
sopro do dardo assestado contra nós. Agir 
assim, seria agir em estado febril, pois somente 
sob a ação do delírio iria alguém açoitar-se 


319 Propércio. 
320 Pseudo Galo. 


415 


desde já, porque pode um dia ser açoitado, ou 
vestir-se de lã pelo São João porque fará frio 
no Natal. Experimentai todos os males que vos 
podem atingir e em particular os piores e 
submetei-vos a eles — eis o que nos aconse- 
lham. Fora entretanto mais fácil e natural afas- 
tá-los até do próprio pensamento. Dir-se-ia em 
verdade que não virão bastante cedo e que não 
durarão suficientemente! Querem ainda que 
nosso espírito os amplie e alongue e os incor- 
póre desde logo, como se já não pesassem 
demasiado em nossos sentidos. Que vos aca- 
brunhem quando vos encontrarem, diz um dos 
mestres da filosofia mais severa; enquanto não 
chegam, diverti-vos, ocupai vosso pensamento 
no que vos agrade. Por que ir ao encontro do 
infortúnio e acolhê-lo, estragando o presente 
por temor ao futuro, tornando-vos infeliz desde 
agora só porque o deveis ser um dia? Talvez 
seja quando nos instrui acerca da extensão de 
nossos males, “esclarecendo os mortais, me- 
diante uma triste clarividência?2'”, que a ciên- 
cia nos presta serviço. Seria com efeito lamen- 
tável que uma parte de nossa desgraça 
escápasse a nosso conhecimento e à nossa 
sensibilidade. 

E certo que na maioria dos homens a prepa- 
ração para a morte causa maiores tormentos 
do que o instante fatídico. Um judicioso autor 
assim se exprimiu outrora: “O sofrimento que 
sentimos em consequência de uma desgraça 
afeta-nos bem menos do que a própria idéia da 
desgraça?22.” A sensação de uma morte imi- 
nente provoca por vezes subitamente em nós a 
resolução de não mais tentar evitar uma coisa 
que parece inevitável, No passado viram-se 
gladiadores que, após terem lutado com covar- 
dia, aceitavam corajosamente a morte, ofere- 
cendo o pescoço ao punhal do adversário. A 
perspectiva de uma morte ainda por vir exige 
uma firmeza de ânimo mais prolongada e por- 
tanto mais difícil de manter. Se não sabeis 
morrer, não vos atormenteis; a natureza 
ensinar-vos-á no momento preciso de um 
modo suficiente. Ela executará a tarefa, não 
vos preocupeis: “Em vão, mortais, procurais 
conhecer a hora incerta de vossos funerais e O 
caminho que tomará a morte323,” “É menos 
doloroso suportar uma grande desgraça a que 
não podemos escapar, e que ocorre repentina- 
mente, do que viver durante muito tempo à sua 
espera*2 *.” Perturbamos a vida com a preocu- 
pação de morrer e a morte com a preocupação 
de viver; uma nos aborrece, outra nos apavora. 
Não é contra a morte que nos preparamos; a 


321 Virgílio. 

322 Quintiliano. 
323 Propércio. 
324 Pseudo Galo. 


476 


coisa é por demais rápida: um quarto de hora 
de sofrimento, sem consequências nocivas, não 
está a exigir preceitos particulares. Em verda- 
de, nós nos preparamos contra cs prepafativos 
da morte. Manda a filosofia que a tenhamos 
sempre diante dos olhos, prevendo-a e pensan- 
do-a antecipadamente; dá-nos também as re- 
gras que devemos seguir e as precauções que 
devemos tomar para que essa previdência e 
essa ponderação não nos magoem. Não agem 
de outro modo os médicos; enchem-nos de 
doenças para pôr em prática sua arte e minis- 
trar suas drogas. Se não soubemos viver, não 
adianta aprendermos a morrer, € se o soube- 
mos com calma e serenidade, também sabere- 
mos morrer do mesmo modo. Podem procla- 
mar os filósofos que toda a sua vida não 
passou de uma meditação sobre a morte3? 8”. 
sou de opinião que esta é apenas o fim, mas 
não o objetivo da vida. O que a vida precisa ter 
em vista, o que ela deve propor-se é ela 
mesma; cumpre que se esforce por se estudar, 
se orientar, se suportar. Entre as várias tarefas 
que lhe incumbem e se indicam no capítulo 
principal do saber viver, O artigo referente ao 
saber morrer seria dos menos importantes se 
nosso temor não lhe desse ênfase. 


A julgar pela sua utilidade e pela verdade de 
seu conteúdo, as lições da simplicidade nada 
ficam a dever às da ciência. Os homens não se 
assemelham nem pela maneira de sentir nem 
pela sua força moral; portanto há que os con- 
duzir por caminhos diversos, segundo sua 
capacidade: “Cedo ante a tempestade que me 
arrasta e abordo onde ela me joga?? 8.” 

Nunca vi nenhum labrego a meditar sobre 
sua última hora. A natureza ensina-lhe a só 
pensar na morte quando a morte chega e, 
então, conduz-se melhor do que Aristóteles, 
porquanto este duplamente se angustia, e por 
causa da morte em si, e por causa da longa 
meditação que lhe dedicou. Sou da opinião de 
César, o qual achava que a mais feliz é aquela 
em que não pensamos. “Afligir-se de antemão 
é afligir-se demasiado?? 7.” A idéia da morte 
só se nos torna aflitiva em conseguência de 
nossa curiosidade; sempre nos prejudicamos 
na ânsia de nos anteciparmos à natureza e de 
orientá-la. Que os médicos se preocupem com 
a doença quando estão com saúde, ainda se 
compreende; mas o comum dos mortais não 
precisa de remédios nem de consolações 
enquanto não o atinge a enfermidade; nesta só 
pensa quando sofre. É o que dizíamos do 
homem do povo, que não tem temor, que se 


325 Cicero. 


326 Horácio. 
327 Sêneca. 


MONTAIGNE | 


resigna aos males do presente e encara com 
indiferença os do futuro, porque é bronco e 
despreocupado. Seu espírito grosseiro e obtuso 
é dificilmente penetrável. Mas se assim é, meu 
Deus, por que não estudarmos na escola da 
estupidez ! Eis a conclusão final a que nos leva 
a ciência e para a qual encaminha seus 
adeptos. 


Não carecemos de bons professores que nós 
ensinem a simplicidade natural. Sócrates, por 
exemplo. Pois, se bem me lembro, é nesse sen- 
tido que fala aos juízes que vão deliberar a seu 
respeito: “Receio, senhores, em vos pedindo 
para não me condenardes à morte, expor o 
flanco às acusações que me fazem, de saber 
mais do que os outros, porque teria conheci- 
mento de coisas que estão acima e abaixo de 
nós. Sei que não freqlentei nem conheci a 
morte, nem vi ninguém que tivesse constatado 
suas vantagens e inconvenientes de modo a 
poder informar-me. Os que a temem, temem- 
na na pressuposição de conhecê-la; eu ignoro o 
que ela é, bem como o que ocorre no outro 
mundo. Talvez não nos traga nem bem nem 
mal; talvez seja desejável. É de crer entretanto 
que consista eim uma transmigração de um 
lugar para outro e seria então vantajoso viver 
com tão grandes personagens já mortos, € 
livrar-se da necessidade de tratar com juízes 
iníquos e corruptos. Se é porém um aniquila- 
mento total de nosso ser, não deixa de haver 
vantagem tampouco em entrar numa longa € 
tranquila noite, pois não há nada mais doce na 
vida do que um bom repouso e um sono suave, 
profundo e sem sonhos. As coisas sabidamente 
condenáveis, como ofender o próximo, desobe- 
decer a seu superior, Deus ou homem, evito-as 
com cuidado; quanto às que não sei se são 
boas ou mãs, não as posso temer. Se eu morrer 
e vós continuardes a viver, só os deuses pode- 
rão dizer quem sairá lucrando. No que me res- 
peita, resolvei como quiserdes. Se tivesse que 
vos dar um conselho, como só aconselho coi- 
sas justas e úteis, eu vos diria que o melhor que 
tendes a fazer é libertar-me, a menos que vejais 
em minha causa mais do que minha própria 
pessoa. E se julgardes, tendo em vista minha 
atuação passada, pública ou privada, minhas 
intenções, o proveito que tiram diariamente de 
minhas conversações tanto cidadãos moços € 
velhos, as vantagens que a todos ofereço, só 
podereis recompensar meus méritos e ordenar 
que, dada a minha pobreza, seja eu tido e man- 
tido a expensas do tesouro, como tendes deter- 
minado, com menos: razão que o fossem 
outros. Não vejais obstinação e desdém no 
fato de não estar aqui, segundo o costume, a 
suplicar-vos e a apelar para vossa comisera- 


ENSAIOS — HI 


ção. Tenho parentes e amigos, pois, como diz 
Homero, não fui engendrado de árvore ou 
rochedo, e também três filhos, capazes de se 
apresentarem em lágrimas para vos comover; 
mas seria uma afronta à nossa cidade rebai- 
xar-me a tais covardias, dadas a minha idade e 
a minha reputação. Que se diria dos outros 
atenienses? Sempre exortei os que me ouviam 
a não resgatarem sua vida mediante ações 
desonestas. Nas guerras de que participei, 
tanto em Anfipole como em Potidéia e Délio, 
ou alhures, provei que estou longe de buscar 
minha segurança à custa de atitudes vergonho- 
sas. Demais, estaria tentando afastar-vos de 
vosso dever se assim vos incitasse à clemência, 
pois só vos devem persuadir as razões puras € 
sólidas da justiça. Jurastes aos deuses assim 
vos conduzirdes. Se vos suplicasse, seria como 
se duvidasse que acreditais na existência deles 
e ao mesmo tempo demonstraria que também 
eu neles não creio como devo; pois estaria 
temeroso de sua conduta em lugar de lhes con- 
fiar pura e simplesmente meus interesses. 
Tenho plena confiança neles e estou certo de 
que nesta circunstância farão o que cumpre se 
faça por vós e por mim; os homens de bem, 
vivos ou mortos, nada receiam dos deuses.” 


Eis uma defesa simples e de uma elevação 
inimaginável! Verdadeira, franca, justa, exem- 
plar. E em que circunstâncias! Por certo mere- 
ce que se proclame superior à que fez por 
escrito o grande orador Lísias em prol de tão 
nobre réu, embora juridicamente fosse perfeita. 
Ter-se-iam admitido súplicas na boca de Só- 
crates? Podia fraquejar sua magnífica virtude 
no momento em que mais se fazia imprescin- 
dível? Devia sua rica e forte natureza apelar 
para artifícios em sua defesa? Cabia-lhe renun- 
ciar à verdade e à simplicidade, os mais belos 
ornamentos de sua palavra, para se enfeitar 
com as figuras de retórica de um discurso 
decorado? Agiu sabiamente e como devia, não 
alterando uma vida impoluta, não deformando 
a imagem perfeita da humanidade que nele se 
encarnava, para prolongar de um ano sua 
decrepitude e trair a lembrança imortal de seu 
fim glorioso. Devia sua vida, não a si mesmo, 
mas ao mundo, como exemplo. E fora des- 
graça pública terminâ-la no ócio e na obscuri- 
dade. Uma atitude covarde teria sido tanto 
mais acentuadá pela posteridade quanto diria 
respeito a quem sempre aguardara a morte 
com serenidade. Nada mais justo do que o que 
lhe reservou a sorte em favor de sua memória. 
Os atenienses conceberam tal aversão aos seus 
juízes que deles fugiam como se fossem exco- 
mungados. Consideravam profanado tudo o 
que deles provinha ou que eles tocassem; nin- 


417 


guém ia aos banhos com eles, ninguém os sau- 
dava; ao fim, não mais suportando semelhante 
hostilidade pública, enforcaram-se. 

Talvez se julgue que entre tantos exemplos 
que pudera escolher em apoio de minha tese, 
tenha errado em apontar o de Sócrates, dema- 
siado acima do comum. Fi-io propositada- 
mente, porque acho que sua defesa, em sua 
simplicidade, se situa muito abaixo. Revela 
uma ousadia ingênua e uma confiança pueril, 
que beiram a inocência da natureza, pois é de 
crer-se que temos medo do sofrimento da 
morte e não da morte em si, a qual é parte inte- 
grante de nosso ser, tal qual a vida. Por que 
haveria a natureza de inspirar-nos horror à 
morte, se de tão grande utilidade é esta na 
sucessão e nas vicissitudes de suas obras? No 
concerto universal, a morte antes favorece o 
nascimento e o crescimento das criaturas do 
que sua perda e ruína: “Assim se renovam as 
coisas?28,” “O fim de uma vida dá nascimento 
a mil outras?2º.” A-natureza deu aos animais 
o cuidado de sua própria conservação; temem 
o que lhes é nocivo, temem ferir-se e que os 
batamos e mutilemos, acidentes que podem 
conceber ou que a experiência lhes ensinou; 
mas não receiam que os mantemos porque não 
têm a faculdade de imaginar o que seja a 
morte; alguns há mesmo, dizem, que a aceitam 


“serenamente (os cavalos em géral relincham ao 


senti-la aproximar-se, e Os cisnes cantam) e a 
buscam como uma necessidade, como se 
deduz da maneira de agir de certos elefantes. 

Independentemente disso, não são admirá- 
veis os argumentos de Sócrates pela sua 
simplicidade e sua energia? Incontesta- 
velmente é bem mais dificil viver e falar como 
ele do que falar como Aristóteles e viver como 
César; é o cúmulo da perfeição, a que não atin- 
ge a arte. Nossas faculdades não foram educa- 
das desse modo; não sabemos por isso de que 
são capazes; recorremos às alheias e deixamos 
nativas as nossas, exatamente o que se pode- 
ria dizer de mim que aqui junto um ramilhete 
de flores estranhas, fornecendo apenas o cor- 
dão para amarrá-las. 

Fiz em verdade à opinião pública a conces- 
são de me enfeitar com esses ornatos de 
empréstimo; mas não quero que me cubram e 
escondam; seria o contrário do que me propo- 
nho, que é mostrar o que é naturalmente meu; 
e se houvera seguido minha idéia primeira, 
fora o único a falar. Sou levado a isso pela 
moda e também pelos lazeres de que disponho. 
Talvez seja um erro, mas sempre servirá aos 
outros. 


328 [ucrêcio. 
328 Ovídio. 


478 


Há os que citam Platão e Homero que 
nunca leram; eu também o faço e muito do que 
reproduzo não o colhi nos seus autores. Sem 
dificuldade nem trabalho, usando os livros que 
me cercam, poderia eu recorrer a esses compi- 
ladores — que não folheio nunca — e encon- 
trar com que marchetar este capítulo sobre a 
fisionomia. A simples introdução de alguma 
obra alemã bastar-me-ia para encher o meu 
texto. Assim é que enganamos os tolos e 
conquistamos essa glória de que somos gulo- 
sos. Esse amálgama de lugares-comuns, que 
tanta gente estuda, só se aplica aos temas vul- 
gares; pode servir de pretexto à exibição, não 
nos pode guiar. E é isso mais um ridículo 
resultado da ciência; critica-o Sócrates prazen- 
teiramente em Eutidemo. Vi quem escrevesse 
livros sobre assuntos de que nem sequer ouvira 
falar; encarregava seus amigos sábios de 
pesquisarem o material necessário e contenta- 
va-se com ter tido a idéia e juntado com habili- 
dade os elementos que lhe traziam. Tinta e 
papel lhe pertenciam, em todo caso. Na reali- 
dade, compram assim um livro, não o com- 
põem, e revelam não que o sabem fazer e sim 
que não o sabem (o que podia ainda suscitar 
dúvidas !). Um presidente de tribunal jactava- 
se perante mim de ter amontoado em suas sen- 
tenças duzentos e tantos considerandos tirados 
de julgamentos alheios; tornando-o público 
diminuía a glória que pudera auferir de uma 
tal obra-prima; considero semelhante vaidade 
pusilânime e absurda, principalmente em per- 
Sonagem dessa condição. Procedo de modo 
contrário e, entre os muitos empréstimos fei- 
tos, agrada-me poder mascarar alguns que 
arranjo de acordo com o emprego que lhe dou. 
Mesmo correndo o risco de ouvir dizerem que 
não lhes apreendi o sentido exato, empresto- 
lhes uma forma particular e pessoal de modo 
que o plágio seja menos visível. Outros confes- 
sam seus furtos e os ostentam, por isso 
perdoam-se-lhes de bom grado; eu; na minha 
ingenuidade, penso que em inventãr há muito 
mais mérito do que em simplesmente reprodu- 
zir. 


Se houvesse desejado fazer ciência, teria 
escrito mais cedo, em um momento em que me 
achava mais preso a meus estudos e não care- 
cia tanto de memória. Para seguir a profissão 
de escritor, melhor fora ter-me fiado em mi- 
nhas forças de então. Talvez me tivesse benefi- 
ciado do. favor que a sorte quis outorgar-me 
agora e que saboreio e temo perder ao mesmo 
tempo. Dois de meus conhecidos, de grande 
talento literário, perderam a meu ver metade 
de seu valor, deixando para escrever aos ses- 
senta o que podiam ter iniciado aos quarenta. 


MONTAIGNE | 


A maturidade tem seus defeitos tal qual a 
mocidade, talvez piores; quanto à velhice, é 
tão imprópria a esse gênero de trabalho como 
a qualquer outra coisa, e quem quer que impri- 
ma sua decrepitude na esperança de exprimir 
algo não pesado, desgracioso, soporífico, co- 
mete uma loucura; o espírito amesquinha-se e 
embota-se ao envelhecer. Exibo minha igno- 
rância com pompa e opulência, e meu saber 
parece magro e lamentável; este é acessório e 
acidental, aquela é que constitui o essencial em 
mim. Não trato de nada expressamente e se 
falo de saber e ciência é só para que verifiquem 
que tudo ignoro. Escolhi, para pintar minha 
vida, a época em que a tenho inteira sob a 
vista; o que não vejo pertence antes à morte, e 
quando esta chegar, se me for dado, como a 
outros, dizer minhas impressões, de bom grado 
as transmitirei ao público ao desencarnar. 
Sócrates foi um modelo perfeito de todas as 
qualidades. Lamento que tivesse um físico tão 
mal conformado e que a feiúra de seu rosto 
fosse tão pouco adequada à beleza de sua 


alma; a esse respeito a natureza foi injusta 


com quem tanto apreciava a beleza. Nada me 
parece mais desejável do que a correlação 
entre as formas do corpo e as qualidades do 
espírito. “Importa grandemente à alma o corpo 
em que se aloja, pois muitas qualidades físicas 
afiam o espírito; outras o embotam?*º)” A 
citação tem porém em vista uma deformidade 
excepcional dos membros, mas não é somente 
a isso que chamamos feiúra, e sim igualmente 
à má impressão que sentimos diante de uma 
fisionomia que nos repugna por certos porme- 
nores, uma tez ruim, uma mancha, uma 
expressão dura, às vezes algo que não percebe- 
mos bem e que no entanto assenta em mem- 
bros perfeitos. A feiúra que, em La Boétie, ves- 
tia uma bela alma era desse genero. Essa feiúra 
superficial, a mais imperiosa não raro, pouco 
influi no espírito e pouco influi na opinião das 
gentes a nosso respeito. A outra feiúra, que 
fora mais certo denominar deformidade, é 
mais efetiva e repercute amiúde em nós mes- 
mos mais do que nos outros. Todo sapato bem 
ajustado faz sobressair à forma do pé, o que 
não ocorre se tão-somente o couro é bem poli- 
do e brilhante. Quando se referia à sua feiúra, 
dizia Sócrates que fora exatamente como sua 
alma, se a esta não houvesse corrigido. Mas 
penso que não o dizia a sério, pois nunca alma 
alguma tão perfeita se criou a si própria. 
Nunca insistirei demais em reputar a beleza 
uma qualidade poderosa e vantajosa. Sócrates 
denominava-a “uma breve tirania”; Platão 


330 Cícero. | 


ENSAIOS — HI 479 


considerava-a “um privilégio da natureza”. 
Nada supera seu prestígio. Ocupa O primeiro 
lugar nas relações dos homens entre si; seduz e 
procupa nosso espírito com sua grande autori- 
dade e a maravilhosa impressão que produz. 
Friné houvera perdido sua causa, apesar do 
excelente advogado a quem a entregara, se, 
entreabrindo a túnica, não tivesse ofuscado os 
juízes com sua beleza. Ciro, Alexandre e 
César, esses senhorés do mundo, não a despre- 
zaram entre seus meios de ação; o que não fez 
o primeiro Cipião. Uma só palavra designava 
em grego o belo e 9 bom e o Santo Espírito diz 
não raro bom por belo. Eu não estou logge de 
classificar os bens outorgados ao homem de 
acordo com uma velha canção que Platão afir- 
ma ter sido muito popular: saúde, beleza, 
riqueza. Diz Aristóteles que aos belos cabe 
mandar e que quando a beleza se aproxima do 
divino merece a nossa veneração. A alguém 
que lhe perguntava por que se procurava mais 
comumente a companhia das pessoas belas, 
respondeu: “Só um cego pode .indagá-lo.” Os 
maiores filósofos pagaram sua aprendizagem e 
adquiriram sua sabedoria com sua beleza. 
Entre os meus servidores e mesmo entre meus 
animais não aprecio muito menos a beleza do 
que a bondade. 


Parece-me que as formas e as linhas do 
rosto, pelas quais se inferem algumas caracte- 
rísticas internas, bem como algo de nosso des- 
tino, não têm relação direta com a beleza e a 
feiúra, assim como um ar sereno e perfumado 
não garante a salubridade, nem uma atmosfera 
pesada e mal cheirosa é indício certo de infec- 
ção em tempo de epidemia. Os que acusam as 
mulheres de desmentirem sua beleza com seus 
costumes, nem sempre acertam, pois em um 
rosto que deixe a desejar pode alojar-se a pro- 
bidade, ao passo que muitas vezes deparamos 
em lindos olhos ameaças reveladoras de um 
caráter mau e perigoso. Há fisionomias que 
nos parecem favoráveis, e, entre inimigos 
desconhecidos que nos cercam de todos os 
lados, escolhemos de imediato um de prefe- 
rência a outro, rendendo-nos a ele com mais 
confiança e sem que a beleza pese em nossa 
resolução. 


O rosto é uma garantia frágil; merece entre- 
tanto consideração. E se devesse castigar 
alguém, mostrar-me-ia mais severo com os 
perversos que desmentem a expressão que exi- 
bem, castigaria a maldade que. se apresenta 
mascarada de bondade. Parece-me que há 
fisionomias acolhedoras e outras repelentes, e 
há uma certa arte em distinguir os rostos bon- 
dosos dos tolos, e os severos dos grosseiros, Os 
maliciosos dos ressentidos, os desdenhosos dos 


! 
melancólicos, bem como todos os que são 
donos de qualidades que pouco diferem umãs 
das outras. Há belezas que não somente são 
altivas mas também rebarbativas; e outras há 
que além de doces são insossas. Quanto a 
prognosticar o futuro pela sua observação, é 
coisa sobre a qual prefiro não falar. 

Eu, por mim, como já o disse alhures, adotei 
o. preceito antigo de que sempre acertaremos 
seguindo a natureza, e entendo que submeter- 
se a ela é regra soberana. Não corrigi minhas 


tendências naturais pela força da razão; sou 
como sou, e não combato coisa alguma. As 


duas partes essenciais de mim mesmo, o corpo 
e o espírito, mostram-se naturalmente dispos- 
tas a viver de acordo. Graças a Deus nasci e 
fui educado em uma época em que as idéias 
sãs e moderadas eram de rigor. Direi, de pas- 
sagem, que vejo estimarem mais do que vale 
certa imagem de bondade escolástica, escrava 
dos preconceitos €& limitada pela esperança e o 
temor. Amo-a, não como as leis e as religiões a 
fazem, mas como a completam e confirmam; a 
que pode sustentar-se sem ajuda; a que nasce 
de suas próprias raízes, mercê do senso 
comum, e se encontra em todo homem que não 
foi formado em oposição à natureza. Fo: essa 
razão que corrigiu a alma de Sócrates, que o 
tornou obediente aos homens e aos deuses de 
sua cidade, e corajoso diante da morte; não 
porque sua alma é imortal mas porque ele pró- 
prio é mortal. Absurdo ensinamento, e muito 
mais absurdo do que engenhoso e sutil, é o que 
persuade aos povos de que basta a crença reli- 
giosa e que não há necessidade de bons costu- 
mes para contentar a justiça divina. Na reali- 
dade, evidencia-se a enorme diferença entre a 
devoção e a consciência. 

Tenho um rosto que agrada. “Que disse? 
Tenho? Tive é que deveria ter dito331,” “Ai de 
mim, já não vedes de minha pessoa senão o 
esqueleto de um corpo acabrunhado?32.” 
Aconteceu-me, não raro, que simplesmente 
pelo efeito produzido pela minha atitude e meu 
aspecto, certas pessoas que não me conheciam 
confiassem plenamente em mim, o quê me 
proporcionou no estrangeiro favores singulares 
e nada corriqueiros. Talvez tais experiências 
mereçam que as relate. Deliberou um sujeito 
assenhorear-se de mim e de minha casa; a firn 
de realizar seu. intuito, apresentou-se à minha 
porta pedindo insistentemente para entrar. 
Conhecia-o de nome e pensava poder confiar 
nele porque era das vizinhanças e tinha algum 
parentesco comigo. Mandei-o entrar como 
faço com todos. Pois entrou apavorado, com o 


331 Terêncio. R 
332 Autor desconhecido. 


480 


cavalo resfolegando, e contou-me esta fábula: 
“A uma légua dali acabara de encontrar um 
inimigo, que eu também conhecia, como 
conhecia a dissensão que existia entre eles. 
Esse inimigo lançara-se em sua perseguição e 
ele, desnorteado pela supresa e pela'superiori- 
dade em hamens, precipitara-se em minha casa 
para se refugiar, muito preocupado aliás com 
os seus que imaginava: mortos ou prisionei- 
ros.” Tentei muito ingenuamente consolá-lo. e 
reconfortá-lo; eis senão quando quatro ou 
cinco de seus soldados se apresentam no 
mesmo estado de espírito; outros chegaram em 
seguida, e mais outros. Todos bem armados, 
em número de-vinte e cinco e fingindo fugir ao 
inimigo. O mistério começava a inspirar-me 
suspeitas; não ignorava em que século vive- 
mos, quanto minha casa era cobiçada e sabia 
de outras pessoas a quem haviam ocorrido 
desgraças em circunstâncias análogas. Vendo, 
porém, que outra coisa não podia fazer senão 
adequar-me ao caso, pois não havia como dei- 
xar de acolher os recém-chegados, mandei que 
entrassem, escolhendo o partido mais simples, 
como faço sempre. É preciso acresceritar que 
sou em geral pouco desconfiado por natureza; 
inclino-me a aceitar as desculpas que me dão e 
a interpretar os fatos no seu sentido mais favo- 
rável; encaro os homens como são geralmente 
e não acredito nos temperamentos perversos 
como não creio nos prodígios e milagres, a 
menos de haver testemunhos irrefutáveis. De- 
mais, confio facilmente na sorte e a ela me 
entrego, do que tive até hoje antes razões para 
me louvar do que para me arrepender, tendo-a 
constatado mais avisada e amiga de meus inte- 
resses do que eu próprio. Há na minha vida 
algumas ações que, pela sua dificuldade, 
podem. imaginar terem sido conduzidas pela 
minha perspicácia, mas mesmo essas a sorte 
contribuiu com dois terços para que tivessem 
êxito. Creio que nos malogramos não con- 
fiando suficientemente no céu e pretendendo 
que se deva mais a nosso esforço do que se 
deve na realidade. Mas quantas vezes não 
acertamos! A sorte prevê amiúde nossos desig- 
nios e quanto mais os ampliamos tanto mais 
tende a burlar-nos. Em todo caso aqueles sol- 
dados permaneceram a cavalo no pátio, 
enquanto seu chefe se encontrava comigo na 
sala, sem haver permitido que levassem seu ca- 
valo para as cocheiras e declarando que parti- 
ria logo que tivesse notícias de sua gente. Já es- 
tava senhor do lugar e só lhe restava executar 
seu projeto. Mais tarde repetiu amiúde (porque 
não se pejava de contar a coisa) que minha 
fisionomia e minha franqueza haviam supe- 
rado o plano traidor que meditara. Montou 
novamente a cavalo, e seus homens que tinham 
os olhos fixos nele, aguardando o sinal combi- 


MONTAIGNE | 


nado, muito se espantaram ao vê-lo sair renun- 
ciando a aproveitar-se das vantagens que obti- 
vera com seu estratagema. 


De outra feita, fiando-me de não sei que tré- 
gua de nossos exércitos, aventurei-me por uma 
região perigosa. Não me tinha adiantado 
muito quando três ou quatro magotes de cava- 
leiros se lançaram de diversos lados em minha 
perseguição. Um deles me alcançou no terceiro 
dia de marcha e vi-me assaltado por quinze ou 
vinte fidalgos mascarados, acompanhados de 
seus arcabuzeiros. Fui obrigado a render-me e 
levado ao fundo de um bosque próximo onde 
me tiraram tudo, dinheiro, bagagens e cavalos. 
Permanecemos durante muito tempo a discutir 
a importância fixada para meu resgate, tão ele- 
vada aliás que bem se via que não me conhe- 
ciam. E debateram longamente entre eles se me 
deixavam a vida ou não. Em verdade, certas 
circunstâncias sugeriam que estava correndo 
grave risco, “então Enéias teve que mostrar 
coragem e resolução?3??”. Eu mantinha-me 
firme, alegando. a trégua, decidido a não ceder 
senão o que me haviam confiscado — e não 
era pouco. Após duas ou três horas de discus- 
são, deram-me um cavalo com uma escolta de 
quinze ou vinte arcabuzeiros, dispersaram 
meus homens entre os demais e levaram-nos 
prisioneiros. Já estávamos à distância de dois 
ou três tiros de arcabuz, e “implorando Castor 
e Pólux?3 “”, quando se verificou uma inespe- 
rada mudança em sua atitude. Veio a mim o 
chefe do bando e, com palavras comedidas, 
mandou que me devolvessem meus arreios 
bem como o meu cofre. O melhor presente que 
me deram foi contudo a liberdade, pois o resto 
me preocupava pouco. Não percebo bem até 
hoje as razões da mudança, desse arrependi- 
mento estranho em empresa meditada, execu- 
tada deliberadamente e justificada pelos costu- 
mes da época, porquanto desde o início lhes 
confessara a que partido pertencia e para onde 
me dirigia. O indivíduo que a todos.comanda- 
va, desmascarou-se e revelou-me seu nome e 
disse-me várias vezes que eu devia minha liber- 
dade à minha fisionomia e à firmeza de minhas 
palavras, o que tornava tal tratamento indigno 
de mim. E pedia-me que em circunstâncias 
análogas com ele agisse do mesmo modo. É 
possível que a bondade divina houvesse queri- 
do empregar meios tão aleatórios na minha 
conservação; serviram-me aliás no dia se- 
guinte contra armadilhas piores do que aque- 
las a que acabava de escapar e de que me ha- 
viam advertido. A pessoa que tive de enfrentar 
nesta última aventura ainda vive e pode confir- 


333 Virpílio. 
334 Catulo. 


ENSAIOS — HI 481 


má-la; o ator da primeira foi morto há pouco 
tempo. 

Se meu semblante não respondesse por mim, 
e se eu não revelasse nos olhos e na voz a ino- 
cência de minhas intenções, não ficara sem 
disputas nem ofensas tanto tempo, dada minha 
indiscreta maneira de dizer as coisas, a torto e 
a direito, e de tudo julgar temerariamente. Essa 
maneira pode parecer indelicada e contrária 
aos usos, mas não encontrei ninguém que a 
tenha considerado injuriosa ou mal intencio- 
nada, nem vi quem quer que fosse que minha 
liberdade magoasse. Isso em relação a minhas 
próprias palavras, pois quanto aos diz-que- 
diz-que, outro é o tom e diferente o sentido. 
Não odeio ninguém e não me apraz ofender, 
ainda que com razão. Quando a oportunidade 
me foi dada de condenar alguém, sempre prefe- 
ri faltar ao dever: “Gostaria que não cometes- 
sem crimes, mas não tenho coragem de punir 
os que os cometeram?? 8.” Censuravam a Aris- 


335 Tito Lívio. 


tóteles ter” sido demasiado benevolente com 
um perverso: “Fui de fato benevolente”, res- 
pondeu, “mas com o homem e não com o 
crime.” Os julgamentos são em geral tanto 


mais severos quanto mais lamentáveis os cri- 
mes; a impressão que tenho diante de minhas 
faltas é diversa: o horror do primeiro crime 
leva-me a temer um segundo, o ódio que sinto 
contra a crueldade cometida induz-me a evitar 
a repetição e inclino-me para a doçura. Apli- 
ca-se a mim, personagem de pouca importân- 
cia, o que se dizia de Carilo, rei de Esparta, 
isto é, que não podia ser bom com os bons, 
pois que não sabia ser mau com os maus. Mas 
também fora possível interpretar tal atitude 


como faz Plutarco: “Era tão bom que até com 
os maus o era.” 


Assim como me desagrada intervir licita- 
mente contra aqueles a quem isso possa abor- 
recer, muito mais me desgosta, em verdade, 
agir ilicitamente contra os que se comprazem 
no ilícito. 


CAapíTULO XIII 


Da experiência 


O desejo de conhecimento 'é o mais natural. 
Experimentamos todos os meios suscetíveis de 
satisfazê-lo, e quando a razão não basta apela- 
mos para a experiência. “Através de várias 
provas, a experiência cria a arte e o exemplo 
alheio mostra-nos o caminho?* 8.” Este segun- 
do processo é menos seguro do que o primeiro 
e menos digno; mas a verdade é tão valiosa 
que nada devemos desdenhar, capaz de nos 
levar a ela. A razão assume tantas formas que” 
não sabemos qual escolher. A experiência 
igualmente; e as consequências que procura- 
mos tirar da comparação dos acontecimentos 
não oferecem segurança, porquanto não são 
jamais idênticas. O que encontramos nas coi- 
sas mais semelhantes é a diversidade, a varie- 
dade. Como exemplo de semelhança perfeita 
citamos, com os gregos e os latinos, a existente 
entre os ovos; entretanto, houve indivíduos, em 
Delfos particularmente, que sabiam não so- 
mente distinguir de que galinheiro provinha o 


ovo, mas ainda de que galinha. A diferença 
introduz-se por si só em nossas obras e nenhu- 
ma arte pode chegar à similitude. Nem Perro- 


336 Manílio. 


zet33 7 nem ninguém é capaz de polir e bran- 
quear o reverso de suãs cartas a ponto de um 
jogador experimentado não as reconhecer 
simplesmente: ao vê-las manuseadas. A 'seme- 
lhança não unifica na mesma proporção em 
que a dessemelhança diversifica. A natureza 
parece ter-se esforçado por não criar duas coi- 
sas idênticas. 

Por isso não acredito que, como pensava 
alguém, em se multiplicando as leis reprimi- 
riamos a autoridade dos juízes, porque pouco 
teriam que decidir. Não pensava que a inter- 
pretação deixa grande margem para uma intei- 
ra liberdade de julgamento. Engana-se quem 
imagina acabar com nossas discussões citando 
um texto preciso da Bíblia; nosso espírito des- 
cobre tantas razões para criticar a interpre- 
tação alheia quanto para defender a nossa, e 
tanto comentar como inventar prestam-se às 
mais acerbas discussões. E bem vemos que a 
opinião desse indivíduo está errada, pois temos 
em França maior número de leis do que os de- 
mais países reunidos e mais do que seria neces- 
sário para governar todos os mundos de Epi- 
curo: “Sofremos tanto das leis como outrora 


337 Célebre fabricante de cartas. 


482 


dos crimes?38.” Entretanto, nossos juízes opi- 
nam e julgam com uma liberdade e autoridade 
poderosas e escandalosas. Que ganharam nos- 
sos legisladores com selecionar cem mil espé- 
cies e fatos específicos e provê-los de cem mil 
leis? Esse número não está em proporção com 
a diversidade infinita dos atos humanos, nem a 
multiplicidade de nossas invenções alcançará 
Jamais a variedade dos exemplos. Acrescentem 
cem vezes mais leis e não deixará de suceder 
que nas ocorrências vindouras alguma se 
encontre, em meio as escolhidas e registradas, 
que requeira ponderação e juízo diferentes. 
Pouca relação existe entre nossos atos, sempre 
em perpétua transformação, e as leis que são 
fixas e estáticas. O mais desejável a esse res- 
peito é que estas sejam as mais simples possi- 
veis e concebidas em termos gerais; e fora 
ainda melhor não as ter do que as possuir tão 


numerosas. ; ; 
A natureza cria sempre leis melhores do que 


as nossas. Atestam-no a idade de ouro de que 
falam os poetas e o estado natural em que 
vemos viverem os povos que não conhecem 
leis artificiais. Alguns há que tomam por juiz o 
primeiro viajante que passa pelas suas monta- 
nhas; outros elegem, em determinado momen- 
to, uma pessoa qualquer para dirimir suas dú- 
vidas. Que perigo haveria em que os mais 
sábios resolvessem as nossas, segundo as 
circunstâncias, sem se aferrar a precedentes 
nem a consequências? Cada pé requer um 
sapato, cada caso sua solução. O Rei Fernan- 
do, ao enviar colonos para as Índias, muito 
sabiamente determinou que não se mandassem 
Jurisconsultos, a fim de evitar que se introdu- 
zissem demandas no Novo Mundo, pois julga- 
va com razão que a ciência da justiça gera 
altercações e dissensões. Na sua opinião, como 
na de Platão, jurisconsultos e médicos são 
maus elementos em um país. 

Por que nossa linguagem comum, tão cômo- 
da e fácil, se torna obscura e ininteligível quan- 
do empregada em contratos e testamentos? 
Por que os que se exprimem tão claramente 
quando falam ou escrevem, não acham jeito de 
não se confundir ou se contradizer em atos 
desse gênero? É porque os príncipes dessa arte 
se aplicam com especial cuidado em escolher 
vocábulos solenes, frases artisticamente cons- 
truídas, e tanto pesam cada sílaba, sutilizam 
cada termo, que nos embaraçam e embrulham 
na multiplicidade das fórmulas e das minúcias; 
e não mais distinguimos regras ou prescrições 
e não entendemos absolutamente mais nada: 
“Tudo o que se divide até se reduzir a pó, faz- 
se confuso*3º.” Quem não viu uma criança 


338 Tácito. 
339 Sêneca. 


MONTAIGNE 


tentar dar forma a uma bola de mercúrio? 
Quanto mais se obstina, tanto mais se frag- 
menta o metal rebelde e se dispersa em gotas 
incontáveis. O mesmo sucede na jurispru- 
dência. Multiplicando-se as sutilezas, ensina-se 
aos homens a aumentarem as dúvidas, a esten- 
derem e diversificarem as dificuldades; am- 
pliam-se e dispersam-se. Semeando questões e 
retalhando-as, fazemos com que frutifiquem a 
incerteza e a dissensão; assim se torna a terra 
mais fértil na medida em que mais profunda- 
mente se remove. “As dificuldades nascem das 
doutrinas? *º.” Duvidamos com Ulpiano, duvi- 
damos ainda mais com Bártolo e Baldo. Fora 
preciso apagar Os vestígios dessas inumeráveis 
opiniões, em vez de nos enfeitarmos com elas e 
transmiti-las ampliadas à posteridade. Sabe- 
mos por experiência que a pluralidade de inter- 
pretações dissipa e desagrega a verdade. Aris- 
tóteles escreveu para ser entendido; se não o 
logrou, menos lograrã alguém menos hábil do 
que ele e menos conhecedor das idéias de quem 
as expôs. Fragmentamos a matéria; de um 
assunto fazemos mil e caímos, multiplicando- 
os e dividindo-os, nessa infinidade de átomos 
que imaginara Epicuro. Nunca duas pessoas 
Julgaram uma mesma coisa da mesma maneira 
e é impossível observarem-se duas opiniões 
idênticas, não só de indivíduos diferentes mas 
ainda de um mesmo homem em dois momen- 
tos diversos. Duvido em geral acerca de pontos 
não comentados; tropeço facilmente onde não 
há dificuldades, como certos cavalos que são 
menos seguros nos caminhos batidos e pla- 
nos 41, 

Quem hã de negar que as aplicações aumen- 
tam as dúvidas e a ignorância, quando vê que 
a interpretação não dirimiu nenhuma dificul- 
dade de nenhum texto humano ou divino? O 
centésimo comentador transmite-o ao seguinte, 
mais espinhoso e escabroso do que o recebera 
de seu antecessor. Quando nos aconteceu con- 
vir em que determinado livro já fora suficiente- 
mente analisado? Isso se observa melhor ainda 
na chicana, pois então outorgamos autoridade 
legal a inúmeros doutores, decisões e interpre- 
tações. Poremos fim algum dia a essa mania de 
interpretar? Teremos feito algum progresso no 
caminho da tranquilidade? Precisamos de 
menos juízes e advogados do que quando essa 
massa de leis ainda se achava na primeira 
infância? Ao contrário, obscurecemos-lhes e 


teia Quintiliano. 

341 A frase é confusa € parece contraditória. Ou- 
tros lhe deram sentido contrário. Ativemonos à 
interpretação de Michaut. O pensamento de Mon- 
taigne carece por vezes de ligação lógica e há que 
apelar para certas associações de idéias para enten- 
dê-lo. (N. do TD. 


ENSAIOS — HI 


abafamos-lhes a compreensão, que já não per- 
cebemos senão através de tapumes e barreiras. 
Os homens desconhecem a enfermidade de seu 
espírito, o qual não faz senão fuçar, conjeturar, 
chafurdar na sua agitação até se afogar nela, 
como o bicho-da-seda ou como um camun- 
dongo no pez. Pensa, de longe, ver certa apa- 
rência de luz e de verdade imaginárias, mas ao 
acercar-se surgem os obstáculos, as novas pes- 
quisas, e ei-lo perdido e estonteado. E o caso 
dos cães de Esopo que, vendo um corpo a flu- 
tuar no oceano e não o podendo alcançar, 
resolveram beber a água para secar o mar, € 
morreram. E Crates dizia dos escritos de Herá- 
clito, que necessitavam de um leitor bom nada- 
dor para que não se afogasse na profundidade 
e no peso da doutrina. 


Só por fraqueza nos contentamos com o que 
outros e nós mesmos deparamos nessa caça ao 
saber; os mais aptos não se satisfazem e have- 
rã sempre caminho a percorrer para quem vier 
depois, e até para nós se agirmos de outro 
modo. Nossas investigações só chegarão ao 
fim no outro mundo. Contentar-se é sinal de 
falta de folego 'ou de lassidão. Nenhum espírito 
generoso se detém por si mesmo, antes vai 
sempre para diante e além de suas forças. Se 
não se afana, não se apressa, não acua, não se 
choca, não gira sobre si mesmo, é porque não 
estã vivo, vegeta. Suas buscas não têm forma 
nem fim; alimenta-se de admiração, de pesqui- 
sas, de dúvidas, o que demonstrava Apolo 
falando sempre com duplo sentido, obscura e 
obliquamente, não nos dando satisfação e sim 
despertando nossa imaginação, e excitando-a. 
Trata-se de um movimento irregular, perpétuo, 
sem molde e sem objetivo, cujas invenções se 
estimulam, se sucedem e se criam mutua- 
mente: 


“Assim se vê no arroio contem- 
plando 

a água que após a água vai corren- 
do, 

em uma ordem eternamente igual. 

A água persegue a água que foge, 

a qual outra persegue igualmente. 
Uma por outra é empurrada. 

e uma precede sempre a outra. 

A água segue a água e é variável. 
Mas o rio é sempre o mesmo, 
imutável? “2,” 


Interpretar as interpretações dá mais traba- 
lho do que interpretar a própria coisa, mas 
escrevemos mais livros sobre livros do que 
sobre os assuntos mesmos; comentamo-nos 
uns aos outros. Há excesso de comentadores 


342 Ta Boétie — Paráfrase do Orlando Furioso. 


483 


mas escassez de autores. A principal ciência 
do século consiste em entender os sábios; não 
estã nisso o fim último de nossos estudos? 
Nossas opiniões sustentam-se mutuamente; 


uma serve de degrau à outra e assim acontece 


que quem sobe mais alto e maior reputação 
adquire não tem em verdade grande mérito, 
pois não fez senão superar de um átimo o que 
vem logo abaixo. 


Quantas vezes, e quiçá tolamente, não 
ampliei meu livro fazendo com que falasse de 
si mesmo? Tolice, mesmo porque devia ter-me 
lembrado do que digo dos outros: “todas essas 
olhadelas na própria obra atestam que o cora- 
ção sente por ela muita ternura; e mesmo 
quando a maltratam e fingem desprezá-la, na 
realidade não fazem senão disfarçar o amor 
materno”. E o que diz Aristóteles, acrescen- 
tando que a estima e o desdêm de si mesmo se 
traduzem com o mesmo ar arrogante. Tenho 
contudo uma desculpa: cabe-me o direito à 
maior liberdade, porquanto é precisamente de 
mim mesmo e de meus escritos que trato neste 
livro; mas não sei se aceitarão a desculpa. 

Lutero, na Alemanha, provocou mais dúvi- 
das e dissensões acerca de suas idéias do que 
teve a respeito das Santas Escrituras. Tudo é 
questão de palavras e se resolve com palavras. 
Uma pedra é um corpo, mas, se perguntarmos 
o que é um corpo, responderão: substância. E 
que é substância? etc. Interrogado dessa 
maneira, qualquer um logo se sente acuado. 
Muda-se uma palavra por outra, as mais das 
vezes desconhecida. Sei o que é um homem, 
mas sei menos o que seja um animal, um mor- 
tal, um ser dotado de razão; para libertar-me 
de uma dúvida impingem-me três; é a cabeça 
da hidra. Sócrates indagou de Mênon em que 
consistia a virtude. “Há”, respondeu Mênon, 
“virtude de homem, virtude de mulher, de 
magistrado, de particular, de criança, de 
velho.” “Ótimo”, observou Sócrates, 
“andávamos à procura de uma virtude e dão- 
nos um enxame.” Fazemos uma pergunta € 
respondem-nos com um punhado de interroga- 
ções. Assim, pois, como nenhum fato nem 
forma se assemelha inteiramente a outro, tam- 
pouco difere por completo. Se nossos rostos 
não se parecessem, não poderíamos distinguir 
o homem do bicho; e se fossem idênticos, um 
indivíduo não se distinguiria de outro. Tudo 
comporta alguma semelhança, mas a identi- 
dade com um dado exemplo nunca é absoluta; 
conseguintemente, a relação inferida da expe- 
riência é sempre imperfeita. Entretanto, as 
comparações ligam-se entre si por alguma 
parte; é o que ocorre com as leis que, mediante 
interpretações sutis, forçadas e indiretas, adap- 
tamos aos casos que se vão apresentando. 


484 


Sendo as leis éticas — as que regulam o 
dever. particular de cada um consigo mesmo 
— tão difíceis de se estabelecerem, não há 
como estranhar que as que governam a muitos 
o sejam mais ainda. Considerai as formas da 
justiça que nos rege: são um autêntico testemu- 
nho da imbecilidade humana, tal o número de 
contradições e erros que computam. E o fato 
de depararmos com tanto rigor e tanta indul- 
gência ao mesmo tempo na justiça, prova que 
há membros enfermos no próprio corpo e 
essência da jurisprudência. Néste momento 
mesmo em que escrevo, alguns camponeses 
vêm avisar-me de que encontraram à entrada 
da floresta um homem moído de pancadas e 
que lhes pedia água e ajuda para erguer-se. 
Não ousaram aproximar-se, dizem-me, e fugi- 
ram com medo de serem presos por policiais 
(como fazem estes com quem é visto ao lado 
de um cadáver) e terem de explicar o acidente, 
o que seria um desastre para eles, sem o 
dinheiro nem os meios com que provar sua 
inocência. Que podia censurar-lhes? É certo 
que, atendendo a seu dever de humanidade, se 
teriam comprometido. 

Quantos inocentes sabemos terem sido puni- 
dos, sem culpa sequer dos juízes? E quantos o 
foram que não conhecemos? Eis um fato ocor- 
rido há tempos. Uns indivíduos são condena- 
dos por homicídio, e já se ia executar asentença 
quando os juízes são inforrnados por oficiais 
de justiça de um tribunal de instância inferior 
de que seus presos acabam de confessar 
categoricamente a autoria do crime, o que 
esclarece por completo a questão. Deliberam 
então os juízes sobre se se deve sustar a execu- 
ção da sentença já proferida; ponderam o ine- 
ditismo do caso, e as conseguências que 
podem advir para os julgamentos futuros; e 
concordam em que a sentença era válida por- 
quanto juridicamente certa. E os pobres diabos 
foram enforcados em holocausto ao forma- 
lismo da justiça. 

Filipe da Macedônia, ou outro qualquer, 
não sei bem, resolveu uma questão semelhante 
da seguinte maneira: condenara um indivíduo 
a pagar a outro forte indenização e tempos de- 
pois verificou-se que julgara iniquamente. De 
um lado havia o interesse da causa que era 
Justa, de outro a razão das formas judiciais 
que tinham sido honestamente observadas. Fi- 
lipe mandou que confirmassem a sentença e de 
seu bolso ressarciu os prejuízos sofridos pélo 
condenado. Mas o caso era reparável, en- 
quanto na questão precedente os réus perde- 
ram a vida. Quantas condenações mais crimi- 
nosas do que o crime não tive a oportunidade 
de ver!. 

Isso tudo leva-me a recordar antigos princi- 


MONTAIGNE 


pios como este: quem deseja o triunto do direi- 
to nas questões gerais, é forçado a. sacrificá-lo 
nas coisas de menor importância; a injustiça 
no pormenor é necessária à justiça no todo. A 
Justiça é como a medicina: tudo o que é útil é, 
por isso mesmo, honesto e justo. O que corres- 
ponde às idéias dos estóicos: “a própria natu- 
reza em boa parte de suas obras age contra a 
Justiça”. E admitem os cirenaicos que nada é 
Justo em si; os costumes e as leis é que deter- 
minam o que é justo e o que o não é. E os 
teodorianos pensam que o furto, o sacrilégio e 
os atos imorais de qualquer espécie se justifi- 
cam aos olhos do sábio, desde que possam ser 
úteis. Contra isso não há nada a fazer e, como 
Alcibiades, limito-me a dizer que nunca, se 
puder, me entregarei a alguém com direito de 
vida e morte sobre mim e cuja decisão se inspi- 
rará muito mais no talento e na habilidade de 
meu advogado do que na minha inocência. Eu 
só me arriscaria diante de um tribunal com 
capacidade para conhecer de minhas boas e 
más ações e do qual tanto teria a temer como a 
esperar. Uma simples absolvição não pode 
satisfazer quem tenha feito algo mais do que 
não cometer um crime. Nossa justiça só nos 
mostra uma de suas mãos, e ainda por cima a 
esquerda; quem quer que seja com ela sai sem- 
pre perdendo. 

Na China, as instituições e as artes, que 
divergem consideravelmente das nossas e que 
conhecemos mal, superam amiúde, por sua 
excelência, o que ocorre em França. Por esses 
exemplos verificamos a que ponto o mundo é 
maior e mais variado do que os antigos — e 
nós mesmos — imaginamos. Ali são enviados 
oficiais a todos os recantos do Império, a fim 
de controlar o estado das províncias; e assim 
como punem os que prevaricam e roubam, 
recompensam generosamente os que se condu- 
zem melhor do que os demais e fazem mais do 
que devem. Desse modo não comparecem os 
indivíduos perante a justiça para salvar-se e 
sim para ganhar alguma coisa, não esperam 
unicamente equidade e sim honrarias. 

Graças a Deus, nenhum juiz me falou até 
agora como juiz, nem em causa minha nem em 
de terceiros, nem no cível nem no criminal. 
Nunca entrei uma prisão sequer para a visi- 
tar; minha imaginação torna a coisa desagra- 
dável mesmo de fora. Sou tão ávido de liber- 
dade que, se me proibissem o acesso a algum 
recanto das Índias, passaria a viver por assim 
dizer incomodamente; e enquanto houver um 
lugar em que a terra e o mar sejam livres, não 
residirei onde precise esconder-me. Como 
sofreria nas condições em que vejo certas pes- 
soas, obrigadas a residir em uma dada região 
do reino, proibidas de utilizar as estradas, de 


ENSAIOS — Hi 485 


entrar nas cidades e na corte, porque infrin- 
giram as leis! Se aquelas sob as quais vivo 
ameaçassem sequer a ponta de meu dedo, iria 
imediatamente acolher-me à sombra de outras, 
fosse onde fosse. Toda a minha pequena 
prudência, emprego-a, durante as guerras civis 
que nos afligem, em evitar que entravem minha 
liberdade de locomoção. 

A autoridade das leis não está no fato de 
serem justas e sim no de serem leis. Nisso resi- 
de o mistério de seu poder; não têm outra base, 
e essa lhes basta. Foram não raro feitas por 
tolos; mais vezes ainda 'por indivíduos que, no 
seu ódio à igualdade, incorriam em falta de 
equidade; mas sempre por homens e portanto 
por autores irresolutos e frívolos. Nada há tão 
grave, ampla e comumente defeituoso quanto 
as leis; quem as obedece porque são justas, la- 
bora em erro, pois é a única coisa que em ver- 
dade não são. As leis francesas, pela sua con- 
fusão e sua deformidade, prestam-se à 
desordem e à corrupção que se verificam em 
sua aplicação. Seu conteúdo é tão obscuro e 
assenta em princípios tão variáveis, que os que 
lhes desobedecem, as interpretam, observam 
ou aplicam mal são desculpáveis. Qualquer 
que seja o fruto que tiremos da experiência, o 
que nos vier do estrangeiro não servirá para as 
nossas instituições enquanto utilizarmos tão 
mal as leis que nos demos, com as quais esta- 
mos familiarizados e que por certo são sufi- 
cientes para instruir-nos acerca de tudo de que 
precisamos. Estudo-me a mim mesmo mais do 
que qualquer outra coisa e esse estudo consti- 
tui toda a minha física e a minha metafísica: 
“De que modo Deus governa o mundo? Que 
caminho percorre a lua? Como, reunindo sua 
dupla foice, se encontra ela cheia todos os 
meses? De onde vêm os ventos que comandam 
os mares e qual a influência do que vem do 
sul? Quais as águas que formam as nuvens? 
Ocorrerá um dia a destruição do miindo? 437” 
“Procurai, vós que o desejo de aprofundar os 
mistérios da natureza atormenta? **.” Nesse 
grande todo abandono-me despreocupado e 
ignorante à grande lei geral que rege o mundo; 
conhecê-la-ei suficientemente quando lhe sentir 
os efeitos. Meu saber não pode afastá-la de seu 
caminho; não se modificará por mim, seria 
loucura esperá-lo; e maior loucura ainda abor- 
recer-me, pois necessariamente é ela igual-para 
todos e a todos se aplica. A bondade, o poder 
de quem governa o mundo eximem-nos de 
qualquer ingerência em suas leis. As pesquisas 
e às contemplações dos filósofos servem ape- 
nas de' alimento para nossa curiosidade. Têm 


343 Propércio. 
3** Lucano. 


razão quando nos apontam a natureza; mas de 
que vale tão sublime.conhecimento? Eles falsi- 
ficam-lhe as regras e no-la apresentam com um 
rosto pintado e tão sofisticado que mal a reco- 
nhecemos nessa variedade de retratos de um 
mesmo modelo. Deu-nos a natureza pés para 
andar e prudência para nos conduzirmos na 
vida. Essa prudência não é, como a imagina- 
ram, um complexo de finura, força c ostenta- 
ção; é, como disse alguém, fácil, trangúila, 
salutar e eficiente para quem a empregar com 
inocência e oportunidade, isto é, naturalmente. 
Entregar-se simplesmente à natureza é a me- 
lhor maneira de confiar nela. Como a igno- 
rância e a ausência de curiosidade constituem 
um doce e mole travesseiro para descansar 
uma cabeça equilibrada! 

Gostaria mais de entender bem o que se 
verifica em mim do que compreender perfeita- 
mente Cícero. Na minha experiência própria já 
tenho com que me tornar sábio, desde que 
atente para seus ensinamentos. Quem se lem- 
bra do papel feio que:fez quando tomado de có- 
lera e a que excessos essa febre o impeliu, já 
sabe a que ponto uma tal paixão é lamentável 
e não precisa que lho diga Aristóteles. Quem 
se recorda dos males de que foi vítima, ou de 
que se viu ameaçado, e das circunstâncias sem 
gravidade que o puderam perturbar, já se acha 
preparado para as agitações futuras e conhece 
sua condição. A vida de César não nos oferece 
mais exemplos do que a nossa, porque tanto a 
de um imperador como a de um homem vulgar 
são vidas humanas e sujeitas a todos os aci- 
dentes humanos. Escutemos nossa experiência, 
e veremos que nos diz tudo aquilo de que 
temos necessidade especial. Não é um tolo 
quem não desconfia afinal de seu juízo, se 
reconhece ter sido por ele enganado mil vezes? 
Quando me convenço, diante dos argumentos 
que me apresentam, de que minha opinião é 


“ errônea, não é tanto a ignorância que se evi- 


dencia a meus olhos — seria pouco — é 
minha fragilidade que constato, é a traição de 
minha inteligência, e chego à conclusão de que 
tudo está a exigir reforma. Em todos os meus 
outros erros, ajo da mesma maneira e tiro 
dessa regra grande proveito na vida. Não olho, 
no caso, o fato, como uma pedra em que 
ocasionalmente tropeço; o que ele me revela é 
que possivelmente tudo precisa ser revisto e 
reajustado. Saber que dissemos ou fizemos 
uma tolice, pouca importância tem; o impor- 
tante é saber que somos tolos. Os maus passos 
que minha memória me fez dar, mesmo quan- 
do mais confiava nela, não foram inúteis. Hoje 
pode ela jurar-me que está segura de si, não 
acredito mais, e qualquer objeção que opo- 
nham a seu testemunho, põe-me de sobreaviso. 


486 


Não ousaria contar com ela para algo sério, 
nem.endossá-la quando se trata de coisas exe- 
cutadas por outrem, e se não fosse porque o 
que faço às vezes por falta de memória: fazem- 
no os outros por mã fé, daria por certo o que 
sai de boca alheia mais do que o que sai da 
minha. Se cada um observasse de perto as cau- 
sas e os efeitos das paixões que o dominam, 
como eu estudo as minhas, vê-las-ia aproxima- 
rem-se e lhes atenuaria a violência. Nem sem- 
pre nos pegam de improviso pela garganta; 
ameaçando-nos é que começam, e em seguida 
nos invadem a pouco e pouco: “Assim o pri- 
meiro sopro do vento clareia o mar, incha-o, 
arma suas ondas e aos poucos leva até as nu- 
vens as águas dos abismos? * 5.” O julgamento 
ocupa em mim o primeiro lugar; ao menos 
esforça-se por isso. Deixa inteira liberdade a 
meus apetites; nem o ódio, nem a amizade, 
nem a afeição que dedico a mim mesmo o alte- 
ram ou corrompem; e se ele não pode modifi- 
car meus outros elementos a seu modo, não 
permite, ao menos, que o deformem. 


O conselho de nos conhecermos a nós mes- 
mos deve ser de importância capital, por- 
quanto o deus da ciência e da luz fê-lo gravar 
no frontispício de seu templo, como se 
compreendesse tudo o que nos podia recomen- 
dar. Platão diz que a prudência não é outra 
coisa senão a aplicação dessa máxima, e Só- 
crates, em Xenofonte, desenvolve-a longa e 
minuciosamente. As dificuldades e obscuri- 
dades de cada ciência, só as percebem os que a 
conhecem, porque é preciso um certo grau de 
inteligência para saber o que se ignora; é 
empurrando à porta que verificamos se está 
fechada. Foi o que deu origem a este áforismo 
da escola de Platão: “os que: sabem, não pre- 
cisam investigar porque sabem, porquanto 
para fazê-lo é necessário saber que se investi- 
ga”. Assim, conhecer-se a si mesmo significa 
que embora todos se mostrem muito afirma- 
tivos e satisfeitos e se imaginem bastante 
entendidos, na realidade nada sabem, como o 
demonstra Sócrates a Eutidemo. Eu que penso 
desse modo, vejo nessas palavras uma profun- 
didade tão variada e infinita que o que aprendo 
não comporta outro resultado senão o de me 
fazer sentir quanto me resta ainda por apren- 
der. À minha debilidade, tão amiúde reconhe- 
cida, devo a inclinação que tenho para a 
modéstia, para a obediência às crenças que me 
prescrevem, para a serenidade e a modera- 
ção nas minhas idéias, bem como o ódio que 
experimento contra a arrogância importuna e 
belicosa, inimiga figadal de toda disciplina e 


348 Virgílio. 


MONTAIGNE 


de toda verdade, dos que só crêem e só con- 
fiam em si mesmos. Escutai-os e vereis que, 
qualquer tolice que digam, sempre se expres- 
sam em um estilo de profeta e legisladorr. 

“Nada & mais vergonhoso do que 
afirmar e decidir, antes de compreender e de 
saber? * 89” Aristarco dizia que só se haviam 
encontrado outrora sete sábios no mundo intei- 
ro, € que em sua época fora difícil descobrir 
sete ignorantes; não teriamos mais razão do 
que ele para dizê-lo de nosso século? À afirma- 
ção e a obstinação são sinais evidentes de estu- 
pidez. Há quem beije a terra cem vezes em um 
dia e no entanto continue a provocar, mais 
afirmativo e obstinado do que nunca. Dir-se-ia 
que lhe infundiram uma alma nova e lhe retem- 
peraram as forças, e lhe acontece o que ocorria 
com aquele filho da Terra que se fortalecia 
com as quedas, “renova as esgotadas forças de 
seus membros ao tocar a terra? “7”. Pensa o 
indócil cabeçudo que adquire novo engenho 
para iniciar uma nova luta. É por experiência 
que acuso a ignorância humana de ser o que 
produz de mais seguro a escola do mundo. Os 
que não quiserem admitir minha opinião (em 
verdade sem consegiência) ou hesitam ante o 
que vêem, hão de concordar diante do pensa- 
mento de Sócrates, o mestre dos mestres, de 
quem Antistenes dizia a seus discípulos: 
“Vamos ouvir Sócrates; aí serei um discípulo 
como vós.” Esse mesmo filósofo, dissertando 
acerca do dogma estóico, de que “a virtude 
basta para assegurar a felicidade da vida, nada 
mais se necessitando”, acrescentava: “a não 
ser da firmeza de ânimo de Sócrates”. 


A atenção que de há muito aplico em anali- 
sar-me, habilita-me a julgar com algum discer- 
nimento os outros. E de poucas coisas falo 
com mais êxito e competência. Ocorreu-me 
não raro distinguir com mais justeza do que 
eles próprios as boas ou más disposições em 
que se encontravam meus amigos; alguns 
houve que espantei com a exatidão de minhas 
observações e que pus de sobreaviso contra si 
mesmos. Habituado desde a infância a estudar 
minha vida olhando-me na dos outros, adquiri 
uma aptidão real a escrutá-las; e quando me 
esforço, poucas coisas me escapam das que se 
verificam ao redor de mim e possam auxiliar- 
me nessa tarefa: fisionomias, raciocínios, ten- 
dências. Tudo estudo: o que convém evitar e o 
que cumpre imitar. Por isso percebo em meus 
amigos, pelo que fazem, o estado de alma em 
que se acham, embora não vise com isso clas- 
sificar em gêneros e espécies essa infinita 


346 Cicero. 
347 Tucano. 


ENSAIOS — III 


variedade de ações tão diversas pela sua natu- 
reza e forma, e em seguida juntá-los em classes 
e divisões conhecidas, “pois fora impossível 
enumerar todos os nomes e espécies, tão nume- 
rosos são? *8º, Os sábios falam e expressam 
suas idéias mais especifica e minuciosamente; 
mas eu, que só sei e vejo o que o uso me ensi- 
na, apresento as minhas sem obedecer a regras, 
ao acaso e parceladamente, como coisas que 
não cabe dizer em conjunto e de uma vez, pois 
nada se impõe pela harmonia nas almas vulga- 
res como as nossas. A sabedoria é um edifício 
sólido e que constitui um todo; cada peça 
ocupa seu lugar certo e traz-lhe a marca; 
“somente a sabedoria se encerra toda em si 
mesma? *º?, Deixo aos artistas — e não sei se 
o conseguem em se tratando de coisa tão for- 
tuita — o cuidado de distribuir por categorias 
a variedade imensa dos aspectos, fixando e 
ordenando a nossa inconstância. Não somente 
acho dificil ligar nossos atos uns aos outros, 
mas ainda encontrar a qualidade essencial de 
cada um, suscetível de definillo de um modo 
específico, já que são tão variegados e numero- 
sos. 

Afirmava-se que Perseu, rei da Macedônia, 
era um homem raro, porque seu espírito não se 
preocupava com nada, não se fixava em coisa 
alguma e porque ele levava assim todos os gê- 
neros de vida com hábitos tão livres e cam- 
biantes que nem ele próprio nem os outros po- 
diam saber que tipo de homem era. Penso que 
o mesmo, pouco mais ou menos, se'pode afir- 
mar de todo mundo. E em particular de 
alguém que conheço, a quem se aplicaria me- 
lhor ainda, creio: não tem sossego, vai de um 
extremo a outro sem motivo plausível; sua 
vida sem brilho não mostra nem reveses, 
nem —contrariedades sérias; não tem nenhu- 
ma qualidade nitidamente caracterizada; e dele 
se dirá provavelmente um dia que procurou 
tornar-se conhecido como um ser impene- 
trável. É preciso ter ouvidos duros para escu- 
tar um julgamento franco; e como poucos o 
suportam sem revolta, os que se arriscam a 
prestar-nos esse serviço dão-nos uma prova de 
amizade pouco comum, pois só o amor justi- 
fica que nos firam e ofendam para beneficiar- 
nos. Acho difícil julgar alguém cujos defeitos 
superam as qualidades; e Platão impõe ao juiz 
três condições: ser capaz, ser generoso e ser 
ousado. 

Perguntaram-me de uma feita o que eu pen- 
sava que fora capaz de fazer se me houvessem 
empregado na idade de servir, “quando um 
sangue mais vivo corria em minhas veias e que 


348 Virgílio. 
348 Cicero. 


487 


a velhice invejosa não tinha ainda embranque- 
cido as minhas têmporas? 8º”. Nada, respondi. 
E congratulo-me por não saber nada que me 
houvera tornado escravo de alguém. Mas fora 
capaz de dizer verdades a meu senhor e criti- 
car-lhe os costumes, se ele quisesse. Não o fi- 
zera em teoria, valendo-me da filosofia, o que 
não sei fazer e que não creio tenha modificado 
realmente quem o sabe, mas observando-o em 
detalhe, nos momentos oportunos, julgando 
seus feitos e gestos um por um, simplesmente, 
naturalmente, mostrando-lhe o que pensam 
dele e não o que lhe asseguram os cortesãos. 
Nenhum de nós valeria mais do que os reis, se, 
como eles, vivesse continuamente corrompido 
por essa canalha. E como não hão de sucumbir 
a essa corrupção, se o próprio Alexandre, 
grande rei e grande filósofo, não pôde preser- 
var-se? Eu teria tido bastante fidelidade, julga- 
mento e liberdade para isso. Um tal ofício não 
seria remunerado, sem o que perderia sua 
eficiência e seu mérito, pois é cargo que não 
poderia ser preenchido por qualquer pessoa, 
não tendo a verdade o privilégio de se manifes- 
tar a qualquer momento e propósito. Por nobre 
que seja, seu uso tem seus limites. Acontece 
não raro que, dada a natureza das coisas, dizer 
a verdade ao ouvido do príncipe pode ser 
contraproducente e mesmo injusto. Uma cri- 
tica merecida pode aplicar-se erroneamente, 
porque o interesse do conteúdo deve por vezes 
dar prioridade às exigências imediatas da 
conveniência. Para tal cargo eu indicaria um 
homem satisfeito com a sorte, “que quisera ser 
o que é e nada mais? 81º”, de situação social e 
financeira regular. Assim, por um lado não 
teria receio de, molestando o príncipe, prejudi- 
car a própria carreira e, por outro, poderia 
comunicar-se com toda classe de gente. Propo- 
ria também que somente uma pessoa ocupasse 
o cargo, pois atribuir tal liberdade e familiari- 
dade a muitos acarretaria uma perniciosa 
irreverência. Finalmente exigiria de um tal per- 
sonagem uma estrita discrição. 

Não há como acreditar em um rei que se 
vanglorie de suportar os ataques: de seus ini- 
migos quando, para se corrigir proveitosa- 
mente, não aceita a liberdade de linguagem de 
amigo, tanto mais quanto não se lhe pede 
senão que ouça; tudo o mais é de sua própria 
alçada. Não há homens que mais do que o 
príncipe necessitem de sinceras e livres adver- 
tências. Levam uma vida pública e são objeto 
de todas as curiosidades e juízos. E, como 
sempre lhes escondem tudo, acabam incor- 
rendo nas iras de todos, quando, com um 


350 Virgílio. 
351 Marcial. 


488 


pequeno esforço, o teriam evitado, sem dano 
para suas satisfações próprias, tão-somente 
ouvindo esclarecimentos oportunos. Em geral 
os favoritos atentam para seus interesses pes- 
soais mais do que para os do seu senhor; e lo- 
gram êxito com isso, porquanto, infelizmente, 
os verdadeiros serviços que um autêntico 
amigo pode prestar a um soberano são rudes e 
arriscados. Por isso exigem, além de muita 
afeição e franqueza, muita coragem. 

Em suma, todo este ensopado de frases aqui 
jogadas algo confusamente constitui uma espé- 
cie de registro das experiências de minha vida. 
No que concerne à saúde do espirito, fornecem 
elas muitos exemplos instrutivos, conquanto 
façam o contrário do que disse e eu mesmo fiz. 
Quanto à saúde do corpo ninguém há de falar 
com maior experiência do que eu, e ofereço-a 
em toda a sua pureza, não alterada por artifi- 
cios ou preconceitos. E quando se trata de 
medicina ela está à vontade; a razão cede-lhe 
seu lugar. Dizia Tibério que bastava ter vivido 
vinte anos para saber o que nos convém e o 
que nos é nocivo; e poder, portanto, dispensar 
o médico. Deve ter aprendido isso com Sócra- 
tes, o qual, recomendava a seus discípulos, 
como estudo principal, o da própria saúde, 
acrescentando que um homem de bom senso, 
simplesmente com observar seus atos, sua 
maneira de comer e beber, devia distinguir, 
melhor do que o médico, o útil e o prejudicial. 
Proclamando a medicina que assenta seus 
mandamentos na experiência, observa Platão 
que o médico precisava então ter sido vítima 
de todas as doenças que pretende curar, € nas 
circunstâncias em que lhe cumpre pronunciar- 
se. Assim, para curar a sífilis devia primeira- 
mente contrai-la. Nesses médicos eu confiaria. 
Os outros agem como quem, em segurança, 
pinta sobre a mesa mares, portos e recifes e 
passeia por eles um navio de brinquedo; na 
presença da realidade não saberia como 
'conduzir-se. Descrevem os médicos nossos 
males como um pregoeiro de aldeia descreve o 
cavalo ou o cão perdidos, dizendo a cor do 
pêlo, o tamanho e a raça, mas incapazes de 
reconhecê-lo se lho apresentam. Por Deus, se a 
medicina me prestar um dia algum serviço efi- 
caz, não deixarei de proclamar: “enfim, eis 
uma ciência de resultados palpáveis? 52” 


As artes: que nos prometem a saúde do 
corpo e da alma muito prometem, mas não há 
nenhuma que cumpra menos suas promessas. 
Entre nós, os que exercem essas profissões são 
os que menos mostram sua eficiência; pode-se 
dizer deles que vendem drogas medicinais, mas 


352 Horácio. 


MONTAIGNE | 


não que sejam médicos. Vivi bastante para que 
me julgue no direito de expor as práticas que 
me levaram tão longe. Quem o quiser tentar 
que atente para minhas informações. Eis algu- 
mas dessas práticas que relato ao sabor da 
memória. Embora minha maneira de ser tenha 
variado de acordo com as circunstâncias, cer- 
tas práticas foram seguidas mais do que 
outras; relato aqui as que empreguei mais 
habitualmente até agora. 


Doente ou com saúde meu modo de vida é 
idêntico. Uso o mesmo leito, as horas de refei- 
ção não mudam, como e bebo as mesmas coi- 
sas; nada acrescento nem retiro, apenas faço o 
que exigem minha disposição e méu apetite. 
Consiste minha saúde em manter sem pertur- 
bações o meu estado habitual. A doença acar- 
reta por certo uma ruptura de equilíbrio em 
certo sentido, mas se ouvisse os médicos, eles o 
provocariam em outro sentido e assim com a 
ajuda de sua arte e de meu azar estaria 
completamente transtonado. Creio firme- 
mente nisto: não podem prejudicar-me as coi- 
sas'a que estou há tanto tempo acostumado; 
nossos hábitos moldam nossa vida a seu bel- 
prazer, como a bebida de Circe que modifica a 
nossa natureza a seu talante. Quantos povos, a 
dois passos daqui, não consideram ridículo o 
nosso medo do sereno? E como zombam disso 
os nossos campônios! Um alemão ficará doen- 
te se dormir em colchão; ao italiano repugnam 
as penas; e o francês não passa sem cortinas e 
lareira. O estômago de um espanhol não resis- 
te à nossa alimentação, nem o nosso em beber 
como os suíços. Em Augsburgo um alemão 
criticou-me a lareira com os mesmos argumen- 
tos que usamos contra seus fogareiros. Em ver- 
dade o calor pesado e o cheiro de combustível 
que empregam sufocam quem não está habi- 
tuado.; pessoalmente não sinto esse efeito. Mas 
esse calor é igual e constante, global; não pro- 
duz chamas nem fumaça; não se recebe o 
vento que se introduz pela chaminé, como em 
nossas lareiras. O sistema de aquecimento 
suporta portanto a comparação com o nosso. 
Dizem que outrora em Roma o fogão se situa- 
va fora de casa e o calor era introduzido por 
tubos que serpenteavam no interior dos cómo- 
dos eo espalhavam por toda parte. É o que nos 
descreve Sêneca em algum trecho que não 
recordo. Todo calor proveniente do fogo me 
enfraquece e entorpece. Eveno dizia que o fogo 
é o melhor condimento da existência; eu prefi- 
ro qualquer outro meio de fugir ao frio. 

Não .apreciamos os vinhos do fundo do 
tonel; gostam deles em Portugal e servem-no 
as mesas dos príncipes. Na realidade, todo 
povo tem costumes e usos que não somente 


ENSAIOS — HI 


sao desconhecidos dos outros como ainda lhes 
parecem estranhos e bárbaros. Que pensar 
deste povo que só aceita testemunhos escritos, 
que só acredita nos homens quando falam por 
meio de livros, e na verdade se é idosa? Nossas 
tolices, a seu ver, adquirem dignidade quando 
impressas; e dizer “lh” é para ele muito mais 
importante do que “ouvi”. Por mim, dou igual 
valor ao que sai da boca como ao que vem da 
mão, sei que se escreve tão indiscretamente 
como se fala, acho meu século igual aos outros 
e acredito tanto em um amigo quanto em um 
macróbio e no que vejo como no que escrevem, 
E assim como os antigos autores acham que 'a 
virtude não é maior por ser mais velha, não 
penso que a verdade seja mais real por ser 
mais antiga. Amiúde declaro que é pura tolice 
recorrer a exemplos alheios e escolásticos; 
nossa época fornece-nos um tão grande núme- 
ro deles quanto as épocas de Homero e Platão. 
Não provirá o nosso erro de emprestarmos 
mais veracidade às citações do que ao que 
dizemos? Como se, apoiando-nos em Plantin, 
provássemos mais do que em nos atendo ao 
que vemos em nossa aldeia! Ou provirá do 
fato de não termos suficiente inteligência para 
analisar e realçar o valor e tirar conclusões do 
que ocorre ao redor de nós? Não há como 
admitirmos que careçamos de autoridade para 
dar crédito a nosso testemunho, pois entendo 
que as coisas mais vulgares e comuns poderão, 
se soubermos esclarecê-las, colocar-nos em 
presença dos maiores milagres da natureza e 
fornecer-nos os mais maravilhosos exemplos, 
em particular se nos referirmos às ações 
humanas. 


Prossigamos em nosso assunto. Aristóteles 
dizia que Andron atravessara os desertos da 
Líbia sem beber; pois eu conheço um cava- 
lheiro que já desempenhou com dignidade vá- 
rios cargos e que assegura ter ido de Madri a 
Lisboa, em pleno verão, sem beber um gole. É 
um homem forte para sua idade e que nada re- 
veia de estranho em sua vida cotidiana, a não 
ser ficar dois ou três meses por ano sem beber. 
Tem sede, mas deixa-a passar, garantindo que 
o desejo se dissipa facilmente e que, se bebe, é 
antes por capricho do que por necessidade ou 
prazer. 

Não faz muito, encontrei um dos homens 
mais sábios de França e não menos rico. Tra- 
balhava em um canto da sala, guamecido de 
tapeçarias, e ao redor dele fazia a criadagem 
grande ruído. Contou-me, e Sêneca diz o 
mesmo de si próprio, que aquele alvoroço era 
útil, e como que lhe ajudava a concentrar as 
idéias. Estudando em Parma, trabalhara tanto 
tempo em um local de onde se ouviam conti- 


489 


nuamente o barulho das carruagens e o tumul- 
to da praça, que se habituara não somente a 
não se incomodar com isso mas ainda a não o 
poder dispensar. Sócrates respondia a Alcibia- 
des, que se espantava com vê-lo suportar a gri- 
taria contínua da mulher: “é como o ruído 
comum do engenho, não atrapalha a produ- 
ção”. Eu sou, o contrário, distraio-me facil- 
mente; quando não estou bem disposto, é-me 
insuportável o menor zumbido de mosquito. 
Sêneca em sua juventude aplicara-se em se- 


* guir resolutamente o exemplo de Séxtio, o qual 


não comia nada que tivesse vida; a experiência 
durou um ano e lhe foi profícua, como nos 
informa. Só renunciou à dieta para que não o 
suspeitassem de ser partidário de certas reli- 
giões novas que a propugnavam. Seguindo 
também a recomendação de Átalo, não dormia 
em colchão mole, o que fez até morrer. O que 
os costumes da época induziam a julgar uma 
prova de austeridade, é hoje considerado 
requinte. 

Os citas e os indianos não divergem mais de 
mim, em sua maneira de viver, que os meus 
criados. Retirei por vezes da mendicância jo- 
vens que, após algum tempo, abandonavam o 
serviço que lhes dera para retornar a seu modo 
de vida antigo. Um encontrei, que juntava 
mariscos nas ruas para comer e que não conse- 
gui desviar de sua indigência nem com recom- 
pensas nem com ameaças. Os miseráveis, 
assim como os ricos, têm seus prazeres e 
magnificências, sua hierarquia e dignitários. 
Tais efeitos decorrem dos hábitos, os quais nos 
amoldam a seu gosto, de modo que, como 
aconselham os sábios, convém atermo-nos aos 
melhores, não somente porque assim mais 
acessíveis se tornam, como também porque 
assim nos preparamos para as mudanças 
possíveis, e é a melhor aprendizagem que 
podemos fazer. Minha melhor qualidade con- 
siste em ser flexivel e pouco obstinado. Tenho 
inclinações mais pessoais, que me são mais 
agradáveis, mas com um pequeno esforço afas- 
to-as ou as contrario. Os jovens devem mudar 


às vezes de regras de vida para despertar seu 


vigor e impedir que se amoleçam. Não há nada 
mais tolo do que sempre se conduzir em 
obediência a uma mesma disciplina: “Se quer 
transportar-se atê o primeiro marco do cami- 
nho consulte seu tratado de astrologia; se irri- 
tou o olho, esfregando-o, providencie para que 
o colírio se fabrique segundo seu horósco- 
po? 83,” Que cometa alguns abusos, pois de 
outra maneira o menor excesso lhe será fatal! 
O que há de pior para um homem de certa con- 


353 Juvenal. 


490 


dição social é ser obrigado a um gênero parti- 
cular de vida, em virtude de sua exagerada 
delicadeza. É o que acontece quando não se 
possui a capacidade de se adaptar a quaisquer 
exigências. Há então que não fazer, por impo- 
tência, o que fazem os outros; e as pessoas de 
semelhante temperamento devem ficar em casa 
com seu regime. Uma tal atitude é sempre 
inconveniente, mas na profissão militár consti- 
tui um vício insanável, porque o homem de 
guerra, como dizia Filopêmen, deve estar acos- 
tumado a todas as mudanças e irregularidades 
da vida. | 


Embora tenha sido educado no amor à liber- 
dade e à indiferença, ao envelhecer habituei-me 
a certas maneiras de agir (a idade não me per- 
mite mais corrigir-me) e o hábito, sem que o 
percebesse, já imprimiu em mim sua marca e 
muitas coisas já considero difícil não as fazer 
ou as fazer diferentemente. Não posso mais 
dormir ao ar livre, comer entre as refeições, 
deitar-me após o almoço, ou o jantar, sem pelo 
menos três horas de intervalo; ter relações com 
minha mulher senão antes de dormir, suportar 
o suor no meu corpo, beber água ou vinho 
puros, permanecer durante muito tempo com a 
cabeça descoberta, cortar o cabelo depois da 
refeição. Não prescindo de luvas como não 
ficor sem camisa e é-me uma necessidade 
lavar-me pela manhã e ao levantar-me da 
mesa; julgo imprescindíveis um dossel e corti- 
nas. Comeria, se preciso, sem toalha, mas não 
posso ficar sem guardanapo como os alemães. 
Sujo-os mais do que eles, aliás, e os italianos, 
porque uso pouco garfos e colheres. Lamento 
- que não se tenha adotado o hábito de trocá-los 
com cada prato como fazem os reis. O grande 
soldado Mário tornou-se, na velhice, muito 
requintado no seu modo de beber e só bebia 
em um copo especial de seu uso particular. Eu 
prefiro igualmente certa forma de copo e não 
bebo de bom grado em copo ordinário, bem 
como não gosto de ser servido por qualquer 
um. Os copos de metal não me apetecem, apre- 
cio-os de matéria clara e transparente; meus 
olhos precisam participar do prazer do pala- 
dar. Outras delicadezas dessa ordem impôs-me 
o habito, e a natureza prescreveu-me certos 
cuidados. Assim é que não posso comer mais 
de duas vezes por dia sem sobrecarregar o 
estômago, nem tampouco dispensar totalmente 
uma das refeições sem sentir os efeitos dos 
gases, a boca seca e os protestos do apetite. 
Fico incomodado quando me exponho longa- 
mente ao sereno; de alguns anos para cá quan- 
do, em circunstâncias de ordem militar, assim 
permaneço a noite inteira, já ao fim de cinco a 
seis horas meu estômago se ressente, começam 


MONTAIGNE 


as dores de cabeça ê não chego à madrugadã 
sem vomitar. E, quando os outros vão almo- 
çar, deito-me recuperando em seguida a boa 
disposição habitual. Sempre ouvira dizer que o 
sereno só cai ao anoitecer, mas um fidalgo que 
frequentei assiduamente e intimamente nestes 
últimos anos, convencido de que o sereno do 
crepúsculo é o mais pernicioso, evita-o nesse 
momento e não se incomoda com o da noite; e 
quase me levou a compartilhar não apenas de 
seu ponto de vista mas também de suas sensa- 
ções. Assim, as próprias dúvidas e as pesqui- 
sas a que nos entregamos a fim de saber o que 
é certo e o que não o é, atuam sobre nossa. 
imaginação e nos modificam! Os que cedem 
sem maior reflexão a suas inclinações, mar- 
cham para sua ruína; e conheço vários fidalgos 
que, pela estupidez de seus médicos; se viram 
forçados a uma existência reclusa embora 
sejam ainda jovens e fortes; é ainda preferível 
resfriar-se e pegar um defluxo a perder por 
falta de hábito os prazeres da vida normal. 
Triste ciência a que nos priva de nossas melho- 
res horas! Apeguemo-nos com todas as nossas 
forças ao que possuímos; em geral nós nos 
enrijecemos obstinando-nos, e corrigimos 
nosso temperamento, como fez César que 
dominou a epilepsia à força de desprezáâ-la e de 
resistir-lhe. Devemos adotar as melhores re- 
gras, mas não nos submetermos a elas, salvo 
aquelas cuja observação é obrigatória e útil. 


Reis e filósofos precisam diariamente esva- 
ziar os intestinos; e também as mais belas 
damas. Aqueles cuja vida decorre sob as vistas 
do público precisam manter um certo decoro; 
a minha é obscura e gozo a vantagem de algu- 
mas liberdades naturais; demais sou soldado e 
gascão, um e outro algo indiscretos; posso pois 
dizer o que penso desse ato. É conveniente 
realizá-lo à noite, em horas certas; consegue-se 
pelo hábito e eu o consegui. Mas não deve nin- 
guém escravizar-se a ele, ao envelhecer, a 
ponto de exigir local e assento especial, ou de 
se sentir inibido fora da hora normal. Entre- 
tanto, é muito justo que se procure ter limpeza 
e cuidado nesse mister; como em outros, 
mesmo em se tratando de coisas pouco limpas: 
o homem é por natureza um animal limpo e 
delicado. Entre todas as funções naturais, é 
essa a que menos me agrada ver interrompida. 
Sei de muitos militares que sofrem de desar- 
ranjo intestinal; o meu intestino e eu nunca fal- 
tamos ao encontro marcado, ao pular da 

.cama, salvo em caso de doença ou de ocupa- 
ção urgente. 

Como dizia, não vejo melhor meio dos 
enfermos assegurarem sua cura do que o de 
continuarem a levar a vida a que estão acostu- 


ENSAIOS — HI 


mados; qualquer mudança é prejudicial. Pode- 
reis por acaso admitir que as castanhas façam 
mal a um perigordino ou a um luquense? E 
que o.leite e o queijo- sejam nocivos a um 
moóntanhês? Proibindo-lhes esses alimentos, 
não somente mudareis o seu modo de vida'mas 
ainda lhes imporeis uma regra perigosa, por- 
que avessa a seus hábitos, pois nem mesmo um 
homem muda impunemente de dieta. Ordenai 
a um bretão de setenta anos que beba somente 
água; prendei um marujo numa estufa; proibi a 
um criado basco de passear; vós OS privareis 
de movimento, de ar e de luz: “Valerá a vida 
que se renuncie a viver para prolongá-la? Sim, 
pois não creio que se contem no número de 
vivos aqueles a quem tornamos insuportáveis O 
ar que respiram e a luz que os ilumina? 8 4,” Se 
nenhum benefício nos oferecem os médicos, 
este, ao menos, se lhes há de atribuir: o de pre- 
parar os enfermos para a morte, solapando 


neles'o uso do que lhes dá a vida. 


São ou enfermo, satisfaço os meus apetites; 
respeito os meus desejos e as minhas inclina- 
ções; não gosto de curar o mal com o mal e 
detesto os remédios, mais importunos do que 
as doenças. Ter cólicas e ser forçado a não 
comer ostras são dois males em vez de um; a 
doença magoa-nos por um lado, a dieta por 
outro. E, se temos que enfrentar certos aborre- 
cimentos, enfrentemo-los ao menos depois de 
atender ao prazer. Os homens vêem a reali- 


| dade ao contrário: imaginam que só o que é 


desagradável pode ser útil; desconfiam do que 
é fácil. Meu apetite em muitas coisas acomo- 
dou-se felizmente à saúde de meu estômago; 
na mocidade os molhos picantes eram de meu 
agrado; com a idade meu estômago cansou, e 
o gosto também. O vinho é nocivo aos doentes, 
pois é a primeira coisa que recuso em tais 
casos. Tudo o que tomo é prejudicial se me 
repugna, e nada me faz mal quando tenho von- 
tade. Nenhum ato inteiramente agradável ja- 
mais provocou algum: prejuízo a meu organis- 
mo; daí ter feito, não raro, de meu prazer a 
minha receita. 


Adolescente, “quando envolto em esplên- 


dida túnica, Cupido dançava ao redor de 
mim? 5 8? prestei-me tão licenciosa e descuida- 
damente como qualquer outro ao prazer que 
me abraçava, “e conquistei alguma glória 


nessa militança? 58º, mais pela persistência, . 


entretanto, e duração do que pelo vigor. Pare- 
ceria milagre e infelicidade confessar a que 
ponto era jovem quando, pela primeira vez, me 
vi escravizado às suas leis. Foi um efeito do 


354 Pseudó Galo. 
355 Horácio, 
3 5'6 Id. 


491 


acaso, pois não estava nem de longe na idade 
da razão e posso comparar o meu caso ao de 
Quartilla que não se lembrava de sua virgin- 
dade: “muito cedo tive pêlo nas axilas e minha 
barba precoce pasmou minha mãe3 87,” 

Os médicos adaptam, amiúde e com vanta- 
gem, suas regras à violência dos desejos dos 
enfermos, porque não há anseio, por estranho e 
pernicioso que seja, que a natureza não aco- 
mode em proveito nosso. Demais, que imensa 
satisfação a de atender à nossa fantasia! E 
isso, a meu ver, é o que mais importa. Os mais 
graves males e os mais comuns são os que nos 
vêm de imaginação; e o ditado espanhol, 
“defiendame Dios de mi”, paréce-me simpá- 
tico. Se, quando estou doente, tenho algum 
desejo, dificilmente a medicina me afastará 
dele; e o mesmo digo quando estou com saúde. 
Mas é doloroso que, em conseglência da 
idade, me ache adstrito a apenas esperar. 

Não é a arte da medicina tão absoluta que 
não encontremos em nós alguma razão para 
fazer o que queremos; muda segundo o clima e 
as fases da lua, segundo Fernel ou segundo 
Escaligero. Se vosso médico vos proíbe beber 
vinho ou comer tal prato, indicar-vos-ei outro 
de opinião contrária; a variedade das opiniões 
e argumentos em matéria de medicinaçassume 
todas as formas. Vi um coitado que, para 
sarar, se deixava atormentar pela sede a ponto 
de perder os sentidos e de quem zombava mais 
tarde outro médico, o qual condenava as pres- 
crições de seu colega. Não faz muito morreu 
de cálculos um desses profissionais; para lutar 
contra seu mal, recorria a uma abstinência 
total. Dizem seus confrades que um tal jejum 
lhe fora prejudicial, porquanto o secara e lhe. 
cozera a areia nos rins. 

Verifiquei que quando estou doente ou 
machucado, falar me cansa e me prejudica 
tanto quanto uma loucura qualquer. Falo com 
dificuldade e sinto-me exausto porque o timbre 
de minha voz é alto e exige um esforço, tendo 
ocorrido que, ao falar ao ouvido de algum 
grande personagem de qualquer assunto im- 
portante, me pedise o ouvinte para baixar a 
voz. 

Eis uma anedota divertida: alguém numa es- 
cola grega falava alto como eu. Disse-lhe o 
professor que baixasse a voz: “que me dê o 
tom”, respondeu: o rapaz advertido, ao que 
retorquiu o mestre sugerindo-lhe que o bus- 
casse nos ouvidos daquele a quem se dirigisse. 
Estava certo, sob a condição de que com isso 
quisesse dizer: “fala segundo o que tens a tra- 
tar com quem te ouve”, pois se quisesse insi- 


357 Marcial. 


492 


nuar: “basta que te ouça, regula assim a tua 
voz”, não creio que tivesse razão. O tom da 
voz encerra uma parte da expressão, cumpre 
graduá-lo portanto. Há um tom para ensinar, 
outro para adular, outro para advertir. Não 
somente é preciso que a voz alcance o ouvinte, 
mas ainda que o fira e, por vezes, o traspasse. 
Seria inadmissível que um criado por mim 
repreendido em tom rispido me viesse obser- 
var: “falai-me, senhor, mais baixo, que eu vos 
ouço perfeitamente”. “Há um tipo de voz apro- 
priado aos ouvidos, não pela sua magnitude e 
sim pela sua qualidade? 5º.” Metade da pala- 
vra pertence a quem fala e metade a quém 
escuta, e este deve preparar-se para recebê-la 
como se preparam para receber a bola os joga- 
dores de pelota, de acordo com a força e a 
direção do lance. 


Ensinou-me ainda a experiência que nós nos 
perdemos por falta de paciência. Os males têm 
sua vida, com limites determinados, suas doen- 
ças e seu estado de saúde. A constituição das 
doenças é organizada da mesma maneira que a 
dos animais. Têm sua evolução, sua duração 
fixada já na origem; quem as tenta abreviar, 
impondo-lhes a sua vontade, prolonga-as e as 
multiplica, excita-as em lugar de apaziguá-las. 
Sou da opinião de Crantor: não há como con- 
trariar os males com obstinação, nem deixar 
que nos dominem por falta de energia de nossa 
parte; cabe ceder naturalmente, de acordo com 
sua condição e a nossa. Deve-se dar passagem 
as doenças, e creio que não se detêm em mim 
porque não as molesto; livrei-me de algumas 


que passavam por tenazes; desgastaram-se 
sozinhas, sem que a arte interviesse e mesmo 
em me opondo às regras da medicina. Deixe- 
mos que a natureza aja por si; ela entende me- 
lhor do que nós de seus negócios. “Mas fulano 
morreu”, dirão. É verdade, e vós também mor- 
rereis; se não dessa doença, de outra. Quantos 
igualmente não escaparam com três médicos à 
cabeceira! O exemplo é um espelho em que 
tudo se reflete vagamente e sob todos os seus 


aspectos. Se o remédio que vos oferecem é 
agradável, aceitai-o. Nada perdereis com isso. 
Eu não atentarei sequer para o nome e a cor, se 
for apetitoso, porquanto o prazer constitui 
uma das principais formas do proveito. Deixei 
que envelhecessem e morressem por si os 
defluxos, as crises de gota, os desarranjos, as 
palpitações, as enxaquecas e outros acidentes, 
os quais me abandonaram quando já me ia 
resignando à sua companhia; melhor se conju- 
ram com cortesia do que com bravatas. É pre- 
ciso suportar com paciência as leis inerentes à 


358 Quintiliano. 


MONTAIGNE 


nossa condição; somos feitos para envelhecer, 
enfraquecer, adoecer a despeito dos remédios. 
É a primeira lição que os mexicanos dão a seus 
filhos quando, ao saírem do ventre materno, os 
acolhem dizendo: “Filho, vieste ao mundo 
para sofrer; sofre, pois, suporta e cala” É 
injusto queixar-se do que pode ocorrer a todos: 
“Queixa-te, mas só se aplicarem unicamente a 
ti uma lei injusta? 89.” 

Não é uma loucura um velho pedir a Deus 
que lhe mantenha intata a saúde e inteiro o 
vigor? Seria devolver-lhe a juventude, o que 
não lhe permite sua condição de velho., 
“Insensato! por que, em tuas preces pueris; 
pedir coisas irrealizáveis? 8º 1 EA 

A gota, os cálculos, a indigestão são ineren- 
tes à idade, como o calor, as chuvas, os ventos 
comuns às longas viagens. Platão não crê que 
Esculápio devesse, com suas prescrições, fazer 
durar um corpo gasto € caduco, inútil ao país e 
à profissão, inapto à fecundação robusta e 
sadia. Não acha que semelhante papel possa 
convir à justiça divina e à divina prudência, as 
quais tudo devem conduzir a um fim útil. “O 
mais que se pode fazer por ti, homem, é remen- 
dar-te, enfeitar-te um pouco e prorrogar de 
algumas horas tuas misérias, como faz quem, 
para sustentar um edifício, coloca algumas 
estacas no ponto que ameaça desabar; mas um 
dia todo o conjunto se rompe e as estacas são 
enterradas sob os escombros? 81? 

É necessário aprender a sofrer o que não hã 
como evitar. Nossa vida, como a harmonia 
dos mundos, é composta de elementos contrá- 
rios e tons variados: doces e estridentes, agu- 
dos e surdos, frágeis e graves; que partido 
deles tiraria o músico que gostasse de uns € 
renegasse os outros? Cumpre-lhe empregá-los 
todos e misturados. Assim devemos fazer com 
os bens e os males que são parte integrante de 
nossa vida; nosso ser só é possível com essa 
mistura. Tentar reagir contra essa necessidade, 
é renovar o ato de loucura de Otesifonte que 
empreendera lutar a pontapés com seu jumen- 
to. 

Mesmo quando sinto que a saúde se altera, 
consulto raramente os médicos porque são 
indivíduos que, quando nos têm nas mãos, nos 
enchem a cabeça com seus prognósticos. Ven- 
do-me outrora abatido pela doença, esmaga- 
ram-me ultrajosamente com sua ciência e suas 
atitudes, ameaçando-me com dores violentas e 
até com a morte próxima. Isso não me desmo- 
ralizou mas irritou-me e magoou-me; e embora 
não se conturbasse o meu espírito, sentia-me 


359 Sêneca. 
360 Ovídio. 
361 Pseudo Galo. 


ENSAIOS — HI 


algo incomodado; e a discussão provoca 
agitação. 

Sou todo cuidados com minha imaginação; 
se pudesse evitar-lhe-ia todo irabalho e pena. E 
preciso auxiliá-la, lisonjeá-la, enganá-la 
mesmo se possível. E tarefa de que meu espi- 
rito entende e se soubesse persuadir como 
argumenta prestar-me-ia grande serviço. Que- 
reis um exemplo? Eis o que me diz: “Esses cál- 
culos são um bem para mim, já que todo edifi- 
cio da minha idade tem suas goteiras. E a lei, e 
fora injusto que em relação à minha pessoa 
algum milagre ocorresse. Com isso pago o tri- 
buto devido à velhice e não me parece possível 
pagar menos. Devo consolar-me pensando que 
o acidente é dos mais vulgares nos homens de 
meu tempo. Por toda parte vê-se gente com 
essa doença, a qual sói atingir de preferência 
os grandes personagens, sendo portanto essen- 
cialmente nobre e digna. Entre os enfermos 
dessa doença poucos a suportam tão bem 
como eu, e mesmo assim à custa de drogas, ao 
passo que a sorte me tem permitido continuar 
a viver mediante umas tantas infusões de uso 
doméstico que algumas senhoras me fizeram 
beber e que tomei por considerar que não me 
podiam prejudicar. Os outros doentes preci- 
sam fazer promessas a Esculápio e pagar visi- 
tas de seus médicos a fim de expelir um pouco 
de areia, o que tenho conseguido naturalmente. 
A decência de minha conduta não se ressente 
da enfermidade, pois posso passar dez horas 
sem urinar, como qualquer pessoa sã. O mal 
assustava-me antes de eu o conhecer; os gritos 
e lamentos dos que o exageram por falta de 
resignação faziam que o temesse muito. E mais 
ainda, é um mal que nos castiga onde mais 
pecamos.” E acrescenta o espírito: “Se tens 
consciência encara o castigo como doce e 
paternal em comparação com outros”: — “o 
'mal que não se mereceu é o único de que se 
tem o direito de queixar? 82.” “Pensa como te 
chegou tarde a descarga, no momento em que 
tua vida já se tornou vã e estéril; ela substitui 
os prazeres e as licenciosidades adolescentes. 
Tiras certa vaidade do receio e da piedade que 
a doença inspira, é um defeito de que imaginas 
ter-te curado mas que teus amigos ainda perce- 
bem em ti. E é agradável ouvir dizer: que ener- 
gia, que paciência! Vêem-te suar, empalidecer, 
tremer, vomitar sangue, verter lágrimas, expe- 
lir urinas espessas e escuras ou deixar de uri- 
nar porque um cálculo cruelmente se incrustou 
na uretra. Não obstante conversas com os pre- 
sentes como de costume, gracejas, desmen- 
tindo as dores com tuas palavras, e superando 


362 (Ovídio. 


493 


o sofrimento. Não te recordas dessa gente de 
outrora que buscava a dor para exercitar a vir- 
tude, e despertá-la? Pois a natureza dá essa 
oportunidade que voluntariamente não houve- 
ras procurado. E se me disseres que se trata de 
uma doença perigosa e mortal, eu te respon- 
derei que todas o são, pois trapaceia a medi- 
cina quando te afirma que algumas não levam 
diretamente à morte. Que importa o caminho 
seguido, se é reto ou ziguezagueante! Não 
morres porque estás doente e sim porque estás 
vivo; a morte não precisa da doença para 
matar. Em alguns casos esta afastou a morte e 
viveram mais tempo os doentes porque lhes 
pareceu que estavam sempre por morrer. As 
doenças assemelham-se aos ferimentos: são 
por vezes salutares. A cólica, não raro, dura 
tanto quanto o homem; há quem a suporte 
desde a infância até a decrepitude. E ainda que 
fosse um indício de morte, não te presta servi- 
ço forçando-te a meditar sobre o momento 
fatal? Finalmente — e é o pior — nada pode 
curar-te. Considera com que arte e quão suave- 
mente a enfermidade te arrasta ao desprezo 
pela vida e te afasta do mundo, não com vio- 
lência e tirania (como outros males comuns 
aos velhos e que os entravam em meio a mil 
tormentos), mas através de advertências e 
ensinamentos, repetidos com intervalos de 
bom repouso, a fim de que possas meditar 
comodamente, e aprender. Para dar-te o meio 
de bem julgar e de tomar o partido dos homens 
de caráter, apresenta-te a situação tal qual é, e 
em um mesmo dia te oferece uma vida ora ale- 
gre, ora insuportável. Se não abraças a morte, 
não deixas, ao menos uma vez por mês, de 
tocar-lhe a mão, o que te dá a esperança de ser 
um dia arrastado sem aviso prévio. Tantas 
vezes serás conduzido ao porto que, confiante, 


" atravessarás inopinadamente o mar, sem o 


perceberes. Não há como queixar-se das-.doen- 
ças que partilham lealmente o tempo com a 
saúde.” 

Sou grato à sorte por me assaltar tão 
frequentemente com as mesmas armas; mol- 
da-me assim e me educa, e fortalece-me. E hoje 
sei com bastante exatidão em que estado me 
encontro. Falho de memória, apelo para o 
papel; qualquer sintoma novo é logo anotado, 
de modo que, tendo já conhecido quase todos 
os casos que podem ocorrer, diante de uma dú- 
vida consulto essas notas e nunca deixo de 
deparar na experiência do passado com algum 
prognóstico favorável. O hábito leva-me a 
esperar um melhor futuro, pois é de crer que a 
natureza não modificará-o.que há tanto tempo 
vem fazendo, nem produzirá acidentes mais 
graves. Demais os efeitos dessa ênfermidade 


494 MONTAIGNE 


não perturbam meu temperamento vivo e 
impaciente. Temo as crises pouco intensas por- 
que se prolongam; mas, quando são violentas, 
atormentam-me um dia ou dois apenas. Meus 
rins ficaram quarenta anos sossegados; há 
quatorze tudo mudou. Temos nossos períodos 
de doença como nossos períodos de saúde, e 
talvez a minha enfermidade esteja chegando ao 
fim. A idade atenuou o calor de meu estôma- 
go; menos bem feita a digestão, os alimentos 
alcançam os rins menós elaborados. Pode tam- 
bém acontecer que em “dado momento se debi- 
lite igualmente o calór de meus rins e que, não 
produzindo mais secreções arenosas, tenha a 
natureza de inventar outro modo de evacua- 
ção. Os anos acabaram com meus defluxos; 
por qué não acabariam também com esses 
cálculos? 

Nada me parece mais delicioso do que o que 
sinto quando, depois de expelir um cálculo, 
recupero de imediato a saúde, inteira e perfei- 
ta. Haverã na dor experimentada algo compa- 
rável ao prazer da repentina melhora? Muito 
mais bela é a saúde depois da enfermidade, e 
segue-a tão de perto que posso distingui-las 
ambas, na sua luta encarmniçada. Dizem os 
estóicos que os vícios são úteis porque valori- 
zam a virtude; com maior razão pode-se dizer 
que a natureza nos deu o sofrimento a fim de 
realçar a excelência do prazer e da tranqgúili- 
dade. Quando lhe tiraram os ferros; sentiu Só- 
crates a sensação agradável de se libertar do 
entorpecimento que o peso causara às pernas e 
constatou então a estreita ligação existente 
entre o sofrimento e a volúpia, tão intima- 
mente associados que se sucedem e se engen- 
dram reciprocamente. E o filósofo acrescentou 
que Esopo devia ter-se aproveitado do tema 
para uma fábula. 

O que há de pior nas outras enfermidades 
estã em que não são tão graves em seus efeitos 
quanto em seu desenlace; leva-se por vezes um 
*ano para recuperar a saúde e, nesse ínterim, 
vive-se em constante sobressalto e penoso esta- 
do de fraqueza. Há tantas etapas a percorrer, 
que mal se pensa em chegar. Antes que nos 
retirem os curativos, que nos desembarassem 
ão bonê, nos permitam tomar ar, beber vinho, 
comer melão e ver nossa mulher, corre tanto 
tempo que é em verdade um milagre não ter- 
mos alguma recaída. Meu mal comporta essa 
vantagem de desaparecer de repente, enquanto 
os outros nos deixam sempre vestígios e 
perturbações suscetíveis de facilitar o- apareci- 
mento de nova moléstia. Menos graves são as 
doenças que se contentam com possuir-nos 
sem nos entregar a outras, e graciosas são 
aquelas que-ácarretam alguma conseqiiência 


útil. Desde que fiquei com esses cálculos, pare- 
ce-me que me tornei, mais do que antes, refra- 
tário a diversos males, como as febres, por 
exemplo. Deduzo disso, que os vômitos violen- 
tos e frequentes me purgam e que as repugnân- 
cias que sinto, e os jejuns, dissolvem meus 
humores malignos e a natureza despeja nessas 
areias o que tem de supérfluo e nocivo. Não 


me venham alegar que o remédio é-caro, pois 


que diríamos então de tantos xaropes hedion- 
dos, cautérios e incisões, suores e dietas e ou- 
tros tratamentos que amiúde provocam a 
morte pela sua violência e sua inoportunidade? 
Julgo minhas crises como remédios em atua- 
ção e fora delas considero-me completamente 
bom. 

Citarei outra vantagem particular de minha 
doença. Age sem me impedir de agir; uma vez 
terminada a crise, ainda que extremamente 
aguda, posso andar dez horas a cavalo. Todo o 
regime consiste em suportar a dor; quanto ao 
resto, Jogai, ceai, fazei isto ou aquilo se puder- 
des. Vossos desmandos vos serão úteis até. Já 
não se dirá o mesmo da gota, da varíola, da 
hérnia. As outras enfermidades impõem-nos 
obrigações de toda sorte, entravam nossa ativi- 
dade, desequilibtam nosso organismo; e seus 
efeitos perseguem-nos o resto da vida. A 
minha belisca-me apenas a pele, não toca na 
inteligência, nem na vontade, nem na língua, 
nos pés ou nas mãos; excita-nos mais do que 
nos entorpece. A febre atinge a alma; a epilep- 
sia esmaga-a; uma enxaqueca redu-la à impo- 
tência; em suma, é ela influenciada por todas 
as moléstias que atuam sobre nosso ser e em 
particular sobre as partes mais nobres. No 
meu caso a alma não é perturbada e se porven- 
tura sofre cabe-lhe a culpa. Traiu-se a si pró- 
pria, fraquejou. Somente um louco pode acre- 
ditar que esses corpos duros e maciços que se 
formam nos rins se dissolvem com beberagens; 
quando se pôem em movimento não resta 
senão deixá-los passar, mesmo porque abrirão 
caminho à força se preciso. 

Ainda encontro em minha moléstia uma 
comodidade espécial: é um mal que não nos dá 
muitos motivos de dúvida, ao passo que os res- 
tantes nos enchem de incerteza acerca de suas 
causas, condições e progressos, o que é infini- 
tamente penoso. Eu não sei que fazer de médi- 
cos; o que sinto já revela em que consiste e 
onde se localiza. 

Com esses argumentos, uns fortes, outros 
frágeis, e agindo como Cicero agia no combate 
à velhice, essa outra enfermidade, procuro 
adormecer e distrair a imaginação, tento pen- 
sar as chagas. Se porventura vierem a agra- 
var-se, verei outras escapatórias. Em verdade, 


ENSAIOS — II 


de uns tempos para cá; os mais ligeiros movi- 
mentos fazem que urine sangue puro; por que 
razão? Isso não me impede entretanto de ir é 
vir como antes, de acompanhar meus éães à 
caça com um ardor juvenil; esse gravé acidente 
não me causa senão um entorpecimento passa- 
geiro e alguma irritação na parte do corpo em 
que se situa o cálculo. Essa recrudescência da 
doença deve provir de um cálculo grande que 
me comprime os rins e se forma a expensas 
desse órgão, o qual assim se esvai aos poucos 
— e com ele minha vida — não sem que eu 
sinta um pequeno alívio, como quem expila 
uma coisa incômoda e supérflua. Quando vejo 
que vou piorando, não procuro verificar o 
pulso nem analisar a urina, a fim de não 
submeter-me a providências aborrecidas; basta 
o que sofro, não é necessário ampliar meus 
sofrimentos. Quem teme sofrer, sofre mais do 
que receia. Digamos ainda que a dúvida e a 
ignorância dos que procuram explicar as 
molas internas dos fatos e os prognósticos não 
raro errôneos que emitem, devem convencer- 
nos de que os recursos infinitos da natureza 
nos são totalmente desconhecidos; a maior 
incerteza, a maior diversidade, a maior obscu- 
ridade reinam no que podemos esperar ou re- 
cear dela. Salvo a velhice, que é sinal inegável 
da aproximação da morte, não deparo nos de- 
mais acidentes com nenhuma indicação em 
que nos seja permitido assentar uma idéia 
qualquer acerca do futuro. Julgo-me pelo que 
sinto realmente e não pelo raciocínio; de que 
serviria agir de outro modo, se ao mal somente 
posso opor a paciência e a resignação? Que- 
reis saber o que ganho seguindo essa linha de 
conduta? Vede os que fazem o contrário, e 
buscam opiniões e conselhos, quanto padecem 
pela imaginação atribulada sem que entretanto 
sua apreensões se justifiquem. Mais de uma 
vez diverti-me, nos momentos de sossego, em 
me entreter com os médicos acerca do acidente 
que eu dizia aguardar. Estava assim à vontade 
para ouvir seus horríveis prognósticos; tanto 
mais agradecia a Deus e tanto mais me con- 
vencia da inanidade de uma tal arte. 

Nada se deve recomendar mais à juventude 
do que a atividade e a vigilância; a vida é 
movimento. Sou tardo em tudo, custo a levan- 
tar-me, a deitar-me, a comer; para mim, sete 
horas é cedo, e onde tenho liberdade não almo- 
ço antes das onze e só janto depois das seis. 
Outrora atribuía minhas febres e enfermidades 
a um excesso de sono e sempre lamentei tornar 
a dormir pela manhã. Platão é de parecer que 
o excesso de sono é mais prejudicial do que o 
excesso de bebida. Gosto de dormir em. cama 
dura, só, como os reis, e bem coberto. Nunca 


495 


aquecem meu leito, porém agora que estou 
velho, quando necessário, cubro o estômago e 
os pés com panos quentes. Acusavam Cipião, 
o Grande, de dorminhoco, mas penso que os 
invejosos não acharam o que lhe censurar e 
encontraram isso. Se alguma coisa se me afi- 
gura dever ser requintada, estará ela no leito, 
mas nisso, como no resto, sei acomodar-me às 
circunstâncias. Dormir foi e continua sendo a 
grande ocupação de minha vida. Na idade a 
que cheguei, durmo ainda de oito a nove horas 
de enfiada. Quando é preciso, liberto-me dessa 
propensão para a preguiça e dou-me visivel- 
mente bem; a mudançã é-me penosa, mas 
durante dois ou três dias tão-somente. Não sei 
de muita gente que seja mais frugal e simples 
do que eu quando o exigem as circunstâncias, 
nem que se exercitem mais e achem menos 
duras as atividades militares. Meu corpo 
é capaz de suportar durante muito 
tempo uma vida agitada, mas não se adapta a 
uma agitação veemente e repentina. Evito 


porém agora os exercícios violentos suscetíveis 


de me fazer transpirar; meus membros cansam 
antes de se aquecerem os músculos. Fico sem 
dificuldade em pé durante um dia inteiro, e 
passear nunca me entedia; mas não gosto de 
andar nas cidades senão a cavalo e isso desde 
a infância, pois quando ando a pé, emporca- 
lho-me até a espinha e as pessoas de pequena 
estatura, como eu, correm o risco de ser 
permanentemente empurradas e atropeladas. 
Tanto estendido como sentado, agrada-me ter 
sempre as pernas à altura do assento ou mais 
alto. 


Não existe atividade mais agradável do que 
a militar; nobre em sua prática (pois a maior, 
mais bela e generosa virtude é a coragem), essa 
atividade é igualmente nobre em seus fins, por- 
quanto nada é mais justo e útil do que roteger 
a tranquilidade e a grandeza do país. É grata a. 
companhia de tantos fidalgos jovens e ágeis; 
admirável a contemplação habitual de espetá- 
culos- trágicos; atraente a conversação livre e 
sem artifícios, bem como o genêro de vida 
varonil e sem cerimônias, a belicosa harmonia 
das músicas que estimulam e entretêm a alma 
e os ouvidos, a honra que esse exercício nos 
outorga, e atê as dificuldades e os maus 
momentos que comporta. Platão no entanto a 
desprezava a ponto de sugerir que as mulheres 
e crianças tomassem parte nas guerras. Tudo 
isso incita a feitos e proezas particulares e 
voluntários, segundo a importância e o brilho 
que se colocam ao nosso alcance. E mesmo se 
nos ocorre morrer pela causa que abraçamos, 


496 


“é belo morrer de armas nas mãos? 83”. 

Temer os perigos a que tantos se .expõem, 
não fazer o que faz todo um povo, é ter um 
coração por demais covarde e mau, pois a 
companhia dá coragem às próprias crianças. 
Outros podem superar-nos em graça, força, 
fortuna; isso decorre de causas alheias à nossa 
vontade, mas a firmeza de ânimo só de nós 
mesmos depende. A morte é mais abjeta, mes- 
quinha e triste na cama do que na luta; as fe- 
bres e os catarros tão dolorosos e mortais 
como um tiro de arcabuz. Quem sabe suportar 
corajosamente os acidentes da vida comum 
não precisa engrandecer-se para ser soldado: 
“Viver, caro Lucílio, é lutar? 8º? 

Não me lembro de ter tido sarna, mas 
coçar-se é um dos prazeres mais suaves que 
possamos usufruir e está sempre à nossa dispo- 
sição; implica porém em pronta penitência. O 
que mais me ocorre coçar são as orelhas, onde 
por vezes sinto comichões. 


Nasci com sentidos quase perfeitos. Meu 
estômago é sólido e a cabeça também, e 
ambos, bem como meu hálito, sempre se man- 
tiveram bons mesmo nas febres. Passei da 
idade em que, entre certos povos, não sem mo- 
tivo se fixava o limite da vida, não se permi- 
tindo que ninguém o ultrapassasse. Mesmo 
agora tenho momentos, curtos embora e irre- 
gulares, em que me encontro na posse tão total 
de mim mesmo que me sinto quase como na 
mocidade. Não me refiro ao vigor e à agilida- 
de, pois não há razão para que se projetem 
além do normal, “minhas forças já não me per- 
mitem enfrentar as intempéries do céu à porta 
da mulher amada? 8 5”. Meu rosto e meus olhos 
revelam imediatamente meu estado de saúde; 
por aí começam todas as mudanças e meus 
amigos não raro se compadecem de mim antes 
que perceba a causa. Eles vêem nesse espelho 
que não engana, pois, mesmo na mocidade, 
mais de uma vez ocorreu que se alterassem 
sem motivo a minha tez e a minha fisionomia, 
o que os médicos atribuiam a um estado de 
espírito provocado por alguma paixão malig- 
na. E se iludiam. Se meu corpo acompanhasse 
a alma, estaria muito bem. Esta tinha eu então, 
não somente isenta de preocupações, mas 
ainda satisfeita e festiva, o que é em mim nor- 
mal, já porque assim quer a natureza, já por- 
que me esforço por não a perturbar: “Jamais 
as dores da alma influíram em meu corpo? * 8)” 


Creio, ao contrário, que muitas vezes ela aju- . 


dou o corpo nas suas fraquezas. Este está 


383 Virgílio. 
384 Sêneca. 
365 Horácio. 
366 Ovídio. 


MONTAIGNE | 


amiúde cansado, ao passo que ela, se não se 
mostra brejeira, mantém-se ao menos serena. 
Tive uma febre intermitente durante quatro ou 
cinco meses; alterou-me completamente a 
fisionomia. Entretanto, meu espírito conser-. 
vou-se calmo e mesmo alegre. Quando não 
sinto dores, minha fraqueza e languidez não 
me entristecem. Sei de inúmeras misérias fisi- 


-cas cujo nome basta para me causar horror e 


as receio mais do que as mil paixões que per- 
turbam o espirito de tanta gente. Tomei a deci- 
são de não mais correr e contentar-me com me 
arrastar; e não me queixo de uma decadência 
que está na ordem natural das coisas: “Quem 
se espanta com encontrar papeira nos 
Alpes? 877” Não lamento tampouco não dever 
durar tanto e sem decrepitude quanto um 
carvalho. 

Não posso queixar-me de minha imagina- 
ção; poucas preocupações na vida me pertur- 
bariam sequer o sono, e salvo quando o deseja- 
va, sempre me senti contrariado ao despertar. 
Sonho raramente; quando sonho é com coisas 
fantásticas e quiméricas, produzidas em geral 
por pensamentos prazenteiros, antes ridículos 
do que tristes. Acho que nossos sonhos são a 
expressão fiel de nosso estado de espírito, mas 
é preciso certo talento para apreender tais rela- 
ções: “Não é surpreendente, com efeito, que os 
homens encontrem no sonho o que os preo- 
cupa na vida que meditam, vêem e fazem 
acordados? 88,” Platão vai mais longe e diz 


que é prudente tirar dos sonhos indicações 
acerca do futuro; nada vejo em apoio dessa 
tese, senão os maravilhosos exemplos que nos 
dão Sócrates, Xenofonte, Aristóteles, cuja 


“autoridade é indiscutível. Os historiadores afir- 


mam que os atlantes não sonhavam nem co- 
miam carne; associo essas coisas porque na 
segunda está possivelmente a causa da primei- 
ra. Não recomendava Pitágoras uma alimenta- 
ção especial a quem quisesse ter sonhos de 
acordo com seus desejos? Os que tenho são 
bons e não me excitam. Tampouco sonho em 
voz alta. Conheci muitas pessoas que se ener- 
vavam demasiadamente. Téon, o filósofo, an- 
dava em sonho, e o criado'de Péricles passeava 
dormindo pelos telhados. 

A mesa não tenho preferências. Pego o pri- 
meiro prato ao alcance da mão, e dificilmente 
passo de um a outro. A multidão de pratos e 
serviços desagrada-me. Contento-me com re- 
duzido número de petiscos e não compartilho 
a opinião de Favorino, o qual recomenda que 
nos festins retirem os pratos antes que o convi- 
va acabe de comer e os substituam per outros. 


387 Juvenal. 


368 Cícero. 


ENSAIOS — II 497 


Acrescenta que pobre é o banquete em que os 
convidados não se saciem de coxas de diversas 
aves e considera que somente a toutinegra deve 
ser comida inteira. Como em casa muita carne 
salgada e por isso me apraz o pão sem sal, de 
modo que meu padeiro não me fornece outro, 
contrariamente aos costumes da região. Quan- 
do criança tiveram principalmente de me corri- 
gir da recusa em comer o que em geral apetece 
aos meninos: doces, geléias, biscoitos. Meu 
preceptor combateu essa minha tendência 
como se se tratasse de uma espécie de requinte 
absurdo; e na realidade isso revelava um gosto 
dificilmente satisfeito. Quem ensina uma crian- 
ça a não apreciar exageradamente o pão tri- 
gueiro, o toucinho ou o alho, combate também 
uma tendência para a gulodice. Há quem se 
mostre reticente diante de uma perdiz, lamen- 
tando a falta de carne de vaca e presunto; isso 
é mais do que um requinte, é a prova de um 
gosto que já não encontra satisfação a não ser 
nas coisas vulgares, “é o luxo querendo fugir 
ao tédio da riqueza? 8º”. Deixar de comer o 
que outros acham bom, cuidar meticulosa- 
mente da refeição, “não saber contentar-se 
com um pouco de legumes no jantar? 7º”. eis a 
essência desse vício. Há por certo uma dife- 
rença no caso citado, pois é melhor evidente- 
mente ter predileção pelas coisas fáceis; mas é 
sempre prejudicial ter manias, quaisquer que 
sejam. Delicado era sem dúvida um parente 
meu que, em consequência do serviço prestado 
durante longos anos na marinha, perdera o há- 
bito de dormir na cama e de desvestir-se para 
deitar. 


Se tivesse filhos homens desejar-lhes-ia a 
minha sorte. O excelente pai que Deus me deu 
e por quem nada pude fazer senão lhe dedicar 
toda a minha gratidão pela sua bondade, 
enviou-me, recém-nascido, para uma pobre al- 
deia onde fiquei durante a primeira infância, 
acostumando-me 'à existência mais humilde: 
“É um grande passo para a liberdade saber 
disciplinar o estômago3”1.” Não vos encarre- 
gueis nunca — e menos ainda vossas mulheres 
— da educação de vossos filhos. Deixai que se 
eduquem ao acaso segundo as leis da natureza; 
e se habituem à frugalidade e à austeridade; 
que se surpreendam antes com a atenuação de 
Suas privações do que com seu agravamento. 
Outra era a intenção de meu pai: pensava em 
me aproximar do povo, dos homens que preci- 
sam de nosso auxílio; queria que eu fosse leva- 
do a olhar para o lado dos que nos estendem 
os braços mais do que para os que nos viram 


369 Sêneca. 
370 Horácio. 
371 Sêneca. 


as costas. Por essa mesma razão quis que pes- 
soas humildes me conduzissem à pia batismal, 
pois assim eu lhes ficaria devendo obrigações e 
a elas me afeiçoaria. 

Sua intenção deu certo. Ocupo-me com pra- 
zer dos pequenos, tanto por considerar que há 
nisso algum mérito como por sentimento natu- 
ral de compaixão, virtude que tem sobre mim 
grande influência. O partido que combato 
nesta guerra civil, muito mais sinceramente o 
criticara se fosse florescente e próspero. Ao 
contrário, mostrar-me-ia mais generoso se o 
visse infeliz e esmagado. Admiro o caráter de 
Quelônis, essa filha e mulher de reis de Espar- 
ta. Quando, nas desordens verificadas na cida- 
de, Cleômbroto, seu marido, venceu Leônidas, 
seu pai, ela acompanhou o vencido ao exílio, 
abraçando a causa do mais fraco. Quando a 
sorte mudou ela também mudou de partido e 
corajosamente tomou o do marido, dedican- 
do-se sempre desse modo a quem mais preci- 
sava dela. Eu seria antes levado a imitar o 
exemplo de Flamínio, que se devotava aos que 
necessitavam de seu auxílio do que o de Pirro 
que se humilhava diante dos grandes e se mos- 
trava orgulhoso com os pequenos. 


Aborrece-me demorar à mesa e isso me faz 
mal, pois vou comendo enquanto não me 
levanto, talvez por força do hábito, porque em 
criança era o único meio de me obrigarem a 
comer. Eis por que em minha casa, embora 
ninguém se demore demasiado, sento-me um 
pouco depois dos outros, como fazia Augusto, 
mas não o imito no sair antes da mesa. Ao 
contrário, aprecio um ligeiro descanso, ouvin- 
do a conversa, conquanto nela não tome parte. 
Falar de estômago cheio cansa-me,: como gri- 
tar e discutir antes da refeição constituem um 
bom exercício para mim. 

Os gregos e os romanos andavam certos, 
dedicando as refeições, ato essencial de vida, 
várias horas e a maior parte da noite. Não 
havia ocupação que mais os divertisse. Co- 
miam e bebiam mais tranquilamente do que 
nós que tudo fazemos às pressas, e entre- 
meavam esse prazer com conversações úteis e 
agradáveis. 

Os que cuidam de mim à mesa podem sem 
esforço deixar de me servir o que julguem 
prejudicial à minha saúde, porque não peço 
senão o que vejo. Por outro lado perdem seu 
tempo aconselhando-me a não comer o que es- 
teja à minha frente. Por isso, quando devo 
jejuar, como em mesa separada, pois de outro 
modo esqueço minha resolução. Quando peço 
que se mude o tempero de algum prato logo 
sabem os meus que estou sem apetite. Quando 
possível, quero que as carnes sejam pouco 
cozidas e descansadas, inclusive, em certos 


498 


casos, já com um odor alterado. Só não supor- 
to que sejam duras; quanto ao restô, sou indi- 
ferente à maneira por que são preparadas. Dai 
ocorrer-me, ao contrário dos outros, achar não 
raro o peixe fresco e consistente demais. E não 
é porque tenha maus dentes; sempre foram 
muito bons e só agora a idade começa a amea- 
çá-los. Desde criança habituei-me a esfregá-los 
com um guardanapo pela manhã e no começo 
e no fim das refeições. 

Deus dã essa mercê dos dentes se estraga- 
rem com a idade aqueles que ele afasta aos 
poucos da vida; é a única vantagem da velhice, 
pois então a morte já não mata senão metade 
do homem. Um de meus dentes acaba de cair, 
sem dor, sem esforço; chegou ao fim de sua 
vida. Essa parte de meu ser — e outras mais 
— estão mortas. Outras — e das mais ativas 
na mocidade — começam a morrer. Assim me 
dissolvo e vou-mé subtraindo a mim mesmo. 
Não seria tolo sentir a dor dessa lenta deca- 
dência como se viesse repentinamente? Espero 
que tal não me aconteça. Em verdade, conso- 
la-me bastante pensar que minha morte será 
justa e natural, e espero que o destino não me 
enganará! Os homens são levados a imaginar 


que outrora sua vida era mais longa e sua esta- . 


tura maior; enganam-se porém, porque Sólon, 
que pertence à antiguidade, fixa em setenta 
anos o extremo limite da existência. Eu que 
tanto admirei a “excelente mediocridade” dos 
tempos idos, e que vislumbrei na justa medida 
e na boa média a perfeição, poderei aspirar a 
uma velhice prolongada e excepcional? Tudo 
que contraria a ordem natural das coisas pode 
ser nocivo e tudo que obedece a suas leis deve 
ser útil: “E bom tudo o que se faz naturalmen- 
te3 72? Por isso Platão considera morte vio- 
lenta toda aquela decorrente de ferimentos ou 
enfermidades, e natural a morte a que nos con- 
duz a velhice da maneira mais suave e por 
assim dizer deleitosa. “Morrem os moços de 
morte violenta e os velhos de amadurecimen- 
to? 73,” Em tudo e por toda parte a morte mis- 
tura-se à vida; o declínio lembra a hora fatal e 
acentua-se na medida em que o fim se aproxi- 
ma. Possuo retratos com as idades de vinte e 
vnco e trinta e cinco anos. Ocorre-me compa- 
rá-los aos de hoje; por certo não mostram a 
mesma pessoa, minha fisionomia atual difere 
muito mais das precedentes do que da que terei 
ao morrer. É abusar demasiado da natureza 
atormentá-la de antemão com cuidados que a 
obriguem a abandonar-nos; cansa-se de ver- 
nos entregar a direção de nós mesmos, de nos- 
sos olhos, nossos dentes, nossas pernas € o 


372 Cicero. 
373 Td. 


MONTAIGNE : 


resto a estranhos, confiando-nos inteiramente 
à arte. 


Não sou grande amador de saladas e frutas, 
salvo melões. Meu pai não apreciava nenhum 
molho; eu gosto de todos. Comer demais inco- 
moda-me, mas não pude ainda verificar com 
exatidão se algum prato me é prejudicial, 
como não constatei tampouco se a lua cheia 
ou minguante, o outono ou a primavera, 
influem em mim. Os rabanetes, por exemplo, 
durante muito tempo não me foram nocivos, 
mais tarde fizeram-me mal e agora não mais 
me perturbam. A muitos respeitos sinto que 
meu estômago se está modificando; do vinho 
branco passei ao clarete e eis-me voltando ao 
branco. 


Adoro o peixe e os dias de magro são para 
mim dias de regalo, como os de festa me pare- 
cem de jejum. Creio (há quem o diga) que se 
digere mais facilmente do que a carne. E assim 
como evito comer came nos dias em que o 
peixe é obrigatório, evito misturar carnê com 
peixe nos demais dias, pois acho que há entre 
ambos uma diferença excessiva. 


Na minha mocidade aconteceu-me suprimir 
um refeição para ter melhor apetite no dia 
seguinte e assim aumentar o meu prazer com a 
abundância, agindo desse modo ao contrário 
de Epicuro, que jejuava para se acostumar a 
prescindir dessa volúpia. Mas eu também, por 
vezes, deixava de comer para me conservar 
bem disposto em vista de algum trabalho do 
corpo ou do espírito, os quais: se tornam incri- 
veimente preguiçosos quando me alimento 
bem. Demais, detesto esse casamento da alegre 
deusa? 7 * com o deusinho da gula, indigesto, 
arrotador e recendendo a licores. Igualmente 
abstive-me de comer, não raro, por andar com 
estômago cansado ou quando não tinha com- 
panhia agradável, pois digo, como esse mesmo 
Epicuro, que, mais do que aquilo que se come, 
se deve olhar com quem se come. E admiro 
Quilon por não ter prometido ir a um banquete 
organizado por Periandro antes de saber quais 
eram os convivas. Não há para mim tempero 
ou molho que valham uma boa companhia. 
Acho que é mais saudável comer devagar, 
pouco e amiudadamente; gosto entretanto de 
satisfazer meu apetite e nenhum prazer experi- 
mentaria em seguir os preceitos médicos de 
três ou quatro refeições mesquinhas. Sei lá se o 
apetite da manhã durará até a noite? Aprovei- 
temos a oportunidade, principalmente nós os 
velhos, e deixemos aos fazedores de almana- 
ques as esperanças e os prognósticos. O fruto 
essencial da saúde está nos prazeres que nos 


1 


374 Vênus. 


ENSAIOS — HI 499 


oferece; fiquemos pois com o primeiro que 
surja e que nos seja conhecido. Evito ater-me 
demasiado longamente à mesma dieta; para 
“que nos seja benéfica não a devemos seguir 
indefinidamente, sem o que nos calejamos, o 
organismo perde algo de sua atividade, habi- 
tua-se à rotina, nossas forças definham e não 
mais poderemos mudar sem inconvenientes. 


Tanto no inverno como no verão uso 
simplesmente meias de seda. Por causa dos 
resfriados, consenti em cobrir a cabeça e, em 
razão das dores, a manter o ventre bem agasa- 
lhado. Em poucos dias essas indisposições se 
acostumaram, desdenhando minhas precau- 
ções. Tinha passado do boné ao: gorro e deste 
a um chapéu forrado; hoje as peles de meu 
gibão servem apenas de enfeite e tudo isso não 
adianta se não acrescento um colete de lebre e 
um barrete. Nesse pé onde iremos parar? Nada 
mais farei e desistiria do que já fiz se me atre- 
vesse. Assim ocorre com quem se enterra em 
dietas e regimes especiais a que obedecem 
supersticiosamente. Sempre mais e mais ainda: 
é um nunca acabar. 


Em relação às ocupações e aos prazeres, 
melhor seria não almoçar como os antigos, e 
fazer uma refeição copiosa na hora do repou- 
so, ao fim do dia. É o que fazia outrora. Do 
ponto de vista da saúde, ensinou-me a expe- 
riência que, ao contrário, devemos conservar o 
almoço, pois a digestão é melhor quando esta- 
mos acordados. Não sinto muita sede nem 
mesmo quando enfermo; neste caso tenho a 
boca seca, mas não é de sede, e em geral só 
bebo comendo, e só sinto vontade de líquido 
quase ao fim da refeição. Bebo copiosamente 
para alguém que nada tem de particular; no 
verão, no decurso de uma refeição apetitosa, 
ultrapasso a medida de Augusto, o qual só 
bebia três vezes, a fim de não parar em quatro, 
número que Demócrito considerava azarado. 
Eu vou até cinco, se preciso, o que corres- 
ponde a pouco mais de meio litro, pois uso 
copos pequenos que esvazio de uma vez, coisa 
que os outros não fazem por não julgar de boa 
educação. Corto o vinho com água, metade ou 
um terço, e, seguindo um conselho dado a meu 
pai, a mistura é feita na copa três ou quatro 
horas antes de ser servida. Dizem que esse cos- 
tume de misturar a água ao vinho remonta a 
Cranau, rei de Atenas; quanto às vantagens 
são discutíveis. Acho mais conveniente e sau- 
dável para as crianças, só lhes servir vinho 
após os dezesseis ou dezoito anos; antes, deve- 
riam beber unicamente água. O modo de vida 
preferível é o mais comum; toda singularidade 
deve ser evitada e parece-me tão errado um 
alemão que mistura água ao vinho como um 


francês que o bebe puro. O uso é lei nessas 
coisas. 


Sou avesso ao ar carregado e detesto a 
fumaça; a primeira reforma que me apressei 
em executar foi a das lareiras e privadas que 
deixam muito a desejar nas antigas constru- 
ções; e entre as incomodidades da guerra figu- 
ram essas espessas nuvens de poeira dentro 
das quais, nos dias de calor, somos obrigados 
a permanecer. Respiro com desenvoltura e as 
mais das vezes, quando pego algum resfriado, 
meus pulmões não são atingidos nem tenho 
tosse. 

O rigor do verão é-me mais insuportável que 
o do inverno, pois além do calor contra o qual 
nos defendemos menos bem do que contra o 
frio, e além dos raios de sol sobre a cabeça, 
meus olhos sofrem com a luz; atualmente já 
não posso sequer comer diante de um fogo da 
lareira. 

Quando há mais do que hoje, a fim de amor- 
tecer a brancura do papel, cobria o livro com 
um pedaço de vidro. Até agora não uso óculos 
e vejo muito bem; é certo entretanto que, ao 
fim do dia, já sinto, ao ler, alguma perturbação 
e cansaço; mas o trabalho, principalmente à 
noite, sempre me cansou a vista. É um passo 
atrás. Outro logo darei, e mais outro, e outro, € 
assim estarei cego antes de sentir a fraqueza da 
vista, tal o cuidado com que as Parcas desfiam 
a trama de nossa vida. Quando começar a pen- 
sar que me vai endurecendo o ouvido, estarei 
meio surdo e atribuirei a culpa de não ouvir a 
quem me fale. Muito há que fustigar a alma 
para que sinta como se esvai aos poucos. 

Tenho o andar vivo e firme e não sei o que 
sou mais capaz de sustar em um dado ponto, 
se o corpo ou o espírito. Muito meu amigo terá 
de ser o predicador, para que eu o escute 
durante o tempo todo de seu sermão. Nas ceri- 
mônias em que cumpre manter certa compos- 
tura e as próprias senhoras evitam olhar ao 
sabor de sua fantasia, nunca pude conseguir 
que alguma coisa em mim não destoasse; 
ainda que sentado não fico calmo. A criada de 
Crisipo dizia que o filósofo bebia com pessoas 
que eram sujeitas à ação do vinho e que 
somente ele nada sentia; e que suas pernas se 
embriagavam porque as mexia sem cessar, em 
qualquer posição que estivessem. De mim tam-. 
bém diziam na infância, que tinha mercúrio 
nos pés, a tal ponto sou impelido a mexer-me e 
agitar-me onde quer que me encontre. 

Como com voracidade, o que não é decente 
e prejudica a saúde e até o prazer. Na pressa 
chego a morder a língua e por vezes os dedos. 
Diógenes, vendo uma criança que comia desse 
modo, deu um tabefe no preceptor. Havia em 


500 MONTAIGNE | 


Roma quem ensinasse a mastigar como há 
quem nos habitue a andar com graça. Por isso 
não me sobra muito tempo para falar, o que 
constitui um dos maiores prazeres da mesa, 
sempre que se trate de assuntos agradáveis e 
curtos. 


Nossos deleites invejam-se mutuamente e 
lutam entre si, chocam-se e se contrariam 
reciprocamente. Alcibíades, que entendia de 
comer, bania a própria música das refeições, a 
fim de que: não perturbasse a doçura das 
conversações, acrescentando (segundo Platão) 
que “convidar músicos e cantores para seus 
festins era costume de gente vulgar, que não 
sabe entreter-se de maneira útil e agradável”. 
Varro julga que para um bom banquete é pre- 
ciso gente gentil, nem muda nem por demais 
falante, comida delicada, serviço conveniente e 
bom tempo. Não era outrora festa de pouca 
“arte e volúpia um festim, e nunca a desde- 
nharam os grandes filósofos e os grandes capi- 
tães. Conservo a lembrança de três refeições 
desse genero que me foram muitíssimo agradá- 


veis; doravante essas festas não estão mais ao 
meu alcance, dado o meu estado de saúde. Eu 
que nunca alço vôo, detesto essa sabedoria 
antinatural que procura fazer com que despre- 
zemos o corpo; é tão absurdo repelir os praze- 
res que a natureza nos oferece como se apegar 
demasiado a eles. Xerxes, que podia ter todas 
as volúpias, foi bem néscio em prómeter uma 
recompensa a quem descobrisse um novo pra- 
zer; não o é menos porém quem se priva dos 
prazeres da natureza. Não devemos correr-lhes 
atrás, nem tampouco fugir-lhes; precisamos 
aceitâ-los. Prezo-os mais agora do que no ano 
passado e deixo-me seduzir de bom grado. 


Não há como exagerar sua inanidade, já que 
esta se faz sentir suficientemente graças a 
nosso espírito mesquinho, o qual nos induz a 
aborrecê-los, e a si mesmo, pois trata tudo o 
que acolhe ora de um jeito, .ora de outro, 
segundo sua versatilidade: “Em um vasilhame 
impuro tudo se corrompe? 7 5.” Aplicando-me 
a analisar de perto as vantagens especificas da 
vida, não encontro nelas senão vento. Como se 
- espantar? Haverá em nós outra coisa? Entre- 
tanto, mais sábio do que nós, o vento com- 
praz-se em se agitar e mover, contentando-se 
com seu próprio ofício, sem desejar a estabili- 
dade e a solidez que não são qualidades suas. 

Dizem alguns que os prazeres e dissabores 
da imaginação são os maiores, como o assina- 
lava a balança de Critolau. Não é de estra- 
nhar: nosso espírito forma-os ao sabor de sua 
fantasia; sei de exemplos insignes e desejáveis. 


375 Horácio. 


Mas eu, homem de gosto pouco requintado, 
não posso ventilar tão singelo tema sem deixar 
de inclinar-me fortemente para os prazeres pre- 
sentes da lei humana e geral, intelectualmente 
sensíveis e sensivelmente intelectuais. Querem 
os filósofos cirenaicos que, assim como as 
dores, os prazeres físicos sejam os mais pode- 
rosos, e mais justos. Há pessoas de uma estupi- 
dez feroz, diz Aristóteles, que deles se afastam; 
e eu conheço algumas que o fazem por ambi- 
ção. Por que não renunciam também a respi- 
rar? Por que não recusam a luz, que é gratuita 
e não lhes custa invenção ou esforço? Por que 
não trocam Vênus, Ceres e Baco por Marte, 
Palas e Mercúrio? Andarão à descoberta da 
quadratura do círculo, de cima de suas mulhe- 
res? Não gosto que nos recomendem elevar- 
mos o espírito às nuvens quando estamos à 
mesa; não quero que o espírito chafurde no 
prazer, mas que participe dele; que não durma 
a mesa, mas sente-se. Aristipo cuidava do 
corpo, como se não tivéssemos alma; Zenão só 
considerava a alma, como se nãc tivéssemos 
corpo. Ambos erravam. A filosofia de Pitágo- 
ras era, dizem, toda contemplativa; a de Sócra- 
tes tinha unicamente por objeto os costumes e 
os atos; e Platão situa-se entre os dois. A medi- 
da exata foi-nos dada por Sócrates; Platão 
inclina-se mais para ele do que para Pitágoras. : 
Quando danço, danço; quando durmo, durmo; 
e mesmo quando passeio por um belo bosque, 
se porventura meus pensamentos se dirigem 
para coisas estranhas, forço-os a voltarem-se 
para o bosque, a solidão. 

A boa mãe natureza fez que os atos que 
somos instigados a praticar, para satisfazer às 
nossas necessidades, nos dessem igualmente 
prazer. Incita-nos não somente pela razão mas 
ainda pelo desejo, e é um erro ir de encontro a 
suas regras. Quando vejo César e Alexandre 
em seus momentos mais árduos gozar tão ple- 
namente os prazeres humanos e físicos, não 
considero que sua alma se haja amolecido; 
acho que a fortaleciam subordinando suas 
ocupações e seus laboriosos pensamentos às 
práticas da vida cotidiana. E sábios terão sido 
se a estas encararam como normais em sua 
existência, e àquelas como excepcionais. 
Somos insensatos. Dizemos: “Passou a vida 
na ociosidade”, ou “nada fiz hoje”. Não vives- 
tes então? Pois essa é a ocupação mais funda- 
mental e ilustre. “Se ao menos”, direis 
“houvesse dirigido grandes empresas, teria 
mostrado minha capacidade.” Não soubestes 
então dirigir a vossa vida? Tereis nesse caso 
cumprido a mais bela das tarefas. Para se 
manifestar e frutificar, a natureza não precisa 
da fortuna; sua ação se exerce em todas as 
condições sociais: às ocultas como a desco- 


ENSAIOS — HI 501 


berto. Se soubestes controlar vossos costumes, 
fizestes muito mais do que quem escreveu 
livros; sabendo como e quando vos repousar- 
des, agistes mais sabiamente do que se houvés- 
seis conquistado cidades e impérios. 

A mais admirável obra-prima do homem 
consiste em viver com acerto. Em outras pala- 
vras, a fazer cada coisa em seu devido tempo. 
Tudo mais — reinar, juntar, edificar — não 
passa de acessório, de minúcia. Admira-me ver 
um general, às vésperas do assalto, libertar-se 
de quaisquer preocupações e conversar com 
seus amigos; ver Bruto, com céus e terra cons- 
pirando contra ele e a liberdade romana, sone- 
gar algumas horas da noite aos cuidados que 
tem para com seus homens a fim de, tranqúila- 
mente, ler e anotar Políbio. Só as almas sem 
envergadura, esmagadas pelos negócios, não 
sabem libertar-se, esquecê-los e voltar a eles 
quando necessário: “Bravos companheiros que 
tantas vezes partilhastes comigo os mais duros 
momentos, afoguemos hoje nossas preocupa- 
ções em vinho; amanhã voltaremos a percorrer 
os vastos mares? 7 8.” 


Por mofa ou a sério, o vinho teológico e 
sorbônico? 7? tornou-se proverbial; e assim 
também os festins da universidade. Pois acho 
razoável que comam confortável é agradavel- 
mente os que empregaram a manhã nas ativi- 
dades da escola. A consciência de ter gasto 
honestamente o resto de seu tempo constitui 
um justo e saboroso condimento aos que pas- 
sam à mesa. Assim viviam os sábios. E essa 
inimitável e continua propensão para a virtu- 
de, que nos impressiona nos dois Catões, esse 
humor severo a ponto de se tornar importuno, 
sem dificuldade se submeteram às leis que 
regem a natureza humana, às de Vênus e Baco 
como às outras, e eles de bom grado as obser- 


varam, obedecendo aos preceitos de sua seita, 


a qual determinava que para ser perfeito devia 
o sábio ser perito no desempenho dos prazeres 
naturais: “Que tenha o paladar delicado tanto 
quanto o juízo? 78.” A distração e o amor à 
vida honram, a meu ver, uma alma forte e 
generosa. Epaminondas não pensava que dan- 
çar e cantar, e participar das festas da cidade 
fossem atos indignos de suas vitórias. Entre 
muitos traços admiráveis da vida do primeiro 
Cipião, tão notável que diziam descender dos 
deuses, nenhum lhe dá maior encanto do que o 
de passear à beira-mar em companhia de 
Lélio, brincando, colhendo conchas, apos- 
tando corridas; e, quando fazia mau tempo, 
escrevendo comédias em que esboçava os cos- 


376 Td. 
377 Da Sorbona — universitário. 
378 Cícero. 


tumes das classes mais baixas. E quando 
arquitetava seus planos de guerra contra Ant- 
bal, não deixava de visitar as escolas da Sicília 
assistindo às aulas dos filósofos, a ponto de 
despertar a inveja de seus adversários em 
Roma. Haverá coisa mais extraordinária em 
Sócrates do que aprender a dançar e a tocar 
depois de velho? Pois esse mesmo homem foi 
visto passar um dia inteiro de pé, em êxtase, 
diante do exército grego, mergulhado em pro- 
funda meditação, o que não o impediu de ser o 
primeiro a precipitar-se ao socorro de Alcibia- 
des, rodeado de inimigos, cobrindo-o com seu 
corpo e libertando-o pelas armas. Em outra 
batalha salvou Xenofonte que caíra do cavalo. 
E foi também o único em Atenas, indignada 
como ele ante tão odioso espetáculo, a tentar 
arrancar Terâmenes das mãos dos trinta tira- 
nos que o haviam condenado à morte, só 
renunciando, com os dois companheiros que 
afinal arranjara, a instâncias da própria víti- 
ma. Solicitado por uma beldade de quem se 
enamorara e que por ele igualmente se apaixo- 
nara, atém-se à mais estrita abstinência. Amiú- 
de, na guerra, marcha descalço, mesmo sobre 
o gelo, usa uma só roupa no inverno como no 
verão e supera a todos pela paciência com que 
suporta as fadigas. Quando assiste a um ban- 
quete, come como de costume. Durante vinte e 
sete anos, sem que seu rosto revele a menor 
emoção, enfrenta a fome, a pobreza, a indisci- 
plina dos filhos, as violências da mulher, e 
finalmente a calúnia, a tirania, a prisão, os fer- 
ros € o veneno. E no entanto se, por um dever 
de cortesia, precisava erguer um copo, era no 
exército quem melhor bebia; não se recusava a 
brincar com as crianças e o fazia de bom 
humor, porque, como diz a filosofia, tudo 
assenta ao sábio. Tais fatos abundam na vida 
de Sócrates; e nunca podemos deixar de apre- 
sentar esse personagem como modelo de toda 
perfeição. Poucos exemplos há de uma vida 


- tão plena e tão pura, e é um erro em nossa edu- 


cação oferecer-nos outros exemplos frágeis e 
defeituosos, recomendáveis apenas de um só 
ponto de vista e mais suscetíveis de nos fazer 
retroceder do que avançar. Engana-se O povo: 
em verdade é mais fácil, para atingir um obje- 
tivo sem se perder, contorná-lo com habilidade 
do que enfrentá-lo sem rodeios; mas é também 
menos honroso e digno de admiração. 

A grandeza de alma consiste menos em se 
elevar e avançar do que em se ordenar e se 
circunscrever. Grande é tudo o que é sufi- 
ciente; e há mais elevação em amar as coisas 
comuns do que as eminentes. Nada é tão legi- 
timo e belo como desempenhar o papel de 
homem em todos os seus aspectos. Não há 


502 


ciência mais árdua do que a de saber viver 
naturalmente; e a mais terrível das moléstias é 
o desprezo pela vida. 

Quem quiser isolar a alma, faça-o se o 
puder, quando o corpo se achar enfermo, a fim 
de evitar o contágio. Fora disso, ao contrário, 
que ela o assista sempre e não lhe recuse tomar 
parte nos prazeres naturais; contribuindo além 
disso Com sua moderação para evitar o abuso 
que acarreta o desprazer. A intemperança é a 
peste da volúpia; a temperança é o condi- 
mento. Eudóxio, que considerava a volúpia um 
bem soberano, e seus companheiros que tanto 
a valorizavam, saborearam-na em toda a sua 
doçura, graças à temperança que, neles, sem- 
pre foi exemplar. 

Ordeno à minha alma que olhe com os mes- 
mos olhos a dor e o prazer: “A dilatação da 
alma no prazer não é menos anormal do que 
sua contração na dor? 7º.? Ordeno-lhe que os 
encare com igual firmeza; jovialmente aquela, 
severamente este, e que procure acalmar a pri- 
meira com o mesmo cuidado com que deve 
procurar não exacerbar o outro. Uma aprecia- 
ção sadia dos bens acarreta um julgamento 
sadio dos males. Assim como a dor tem algo 
inevitável em seu início, o prazer tem algo evi- 
tável. Platão coloca-os em pé de igualdade e 
quer que seja tarefa da firmeza de ânimo com- 
bater os excessos de ambos. São duas fontes; 
feliz quem sabe dessedentar-se numa e noutra 
segundo suas necessidades. Tome-se a dor 
como um remédio, quando imprescindível, e o 
menos possível; tome-se o prazer quando se 
tem sede, mas sem se embriagar. A dor, o pra- 
zer, o amor, O Ódio são os primeiros senti- 
mentos da criança; na sua subordinação à 
razão, mais tarde, encontra-se a virtude. 

Tenho um vocabulário meu: digo que 
“passo o tempo” quando o tempo é mau e 
incômodo; mas quando é bom não quero 
“passar”, quero saboreá-lo e parar. Cumpre 
correr quando é mau € andar devagar em caso 
contrário. Estas expressões comuns 
“passatempo” e “passar o tempo” espelham 
bem a maneira de viver dessa gente prudente 
que imagina não haver melhor emprego para a 
vida. Deixam-na passar, esquivam-se, igno- 


ram-na como se fosse coisa nociva e desprezi-. 


vel. Eu porém penso de outro modo, acho-a 
agradável e valiosa mesmo em seus últimos 
momentos. A natureza no-la deu em condições 
tão favoráveis que somente por nossa culpa 
pode tornar-se pesada e inútil: “A vida do 
insensato é desagradável, inquieta; pois só tem 
por objetivo o futuro? 8º.” Preparo-me, contu- 


379 Cícero 
380 Sêneca. 


MONTAIGNE 


do, para perdê-la sem queixas, porque isso está 
na ordem das coisas e não porque ela me seja 
penosa e importuna; aliás, quem se compraz 
na vida não teme deixá-la. Há que gozar a 
existência e eu a gozo duplamente, porquanto 
o gozo se mede pela atenção que lhe dedica- 
mos. Sobretudo neste momento em que perce- 
bo que a minha toca de tão perto o fim, quero 
sublinhar quanto a aprecio, sustar a rapidez de 
sua fuga com minha presteza em detê-la, e 
compensar, quanto possível, a transitoriedade 
pela intensidade. Na medida em que diminui o 
tempo de que ainda disponho, aplico-me em 
fazer que a posse seja mais profunda e 
completa. 


Sentem outros a doçura da satisfação e da 
prosperidade; sinto-a também, mas não de pas- 
sagem e sem me apegar a ela. Cabe estudá-la, 
saboreá-la, ruminá-la para melhor devolver 
aquele que no-la outorga a graça que lhe deve- 
mos. Gozamos os prazeres como gozamos o 
sono, sem sentir. Pois, para melhor apreciar 
esse prazer do sono, lembrei-me outrora de 
mandar que me acordassem. Analiso meus 
prazeres; não me mantenho à superfície; apro- 
fundo-me e obrigo minha razão a prestar-lhes 
atenção quando principiam a entediar-me. Se 
me encontro em um momento de calma, ou 
experimento alguma sensação agradável, não 
deixo que os sentidos os esbanjem, faço inter- 
vir o espírito para que os sinta igualmente, 
para que deles tenha consciência. Quero que se 
mire nesse estado e participe da euforia do 
corpo. Quero que pondere quanto deve a Deus 
por se achar com a consciência repousada e 
livre de paixões e por ter um corpo em condi- 
ções normais, gozando ordenada e competen- 
temente as funções doces e agradáveis que 
Deus houve por bem atribuir-lhe para compen- 
sar as dores que sua justiça também lhe dá. 
Examina minha alma o valor de se achar insta- 
lada de tal maneira que, de onde quer que diri- 
ja a vista, depara com um céu sereno que ne- 
nhum desejo; temor ou dúvida perturba; e 
sempre pode sua imaginação representar-se, 
sem sofrimento, qualquer dificuldade passada, 
presente ou futura. Vejo que isso é do maior 
alcance, quando o comparo com casos diferen- 
tes e quando encaro, sob mil aspectos, o desti- 
no das pessoas cujos erros as expõem ao furor 
da tempestade e também as que, mais próxi- 
mas de mim, consideram sem entusiasmo e 
negligentemente a sua sorte. São gente que 
realmente “passa o tempo”; não vê senão além 
do presente e do que possui; vive de esperan- 
ças, de sombras, de miragens; “como esses 
fantasmas que se vêem rodar em volta dos tú- 
mulos após a morte, ou esses sonhos que ilu- 


ENSAIOS — TI 503 


dem os nossos sentidos entorpecidos38'*, e 
fogem de quem os persegue. O fim é o resul- 
tado que essas pessoas têm em mira consistem 
em apenas prosseguir, assim como Alexandre 
só trabalhava por trabalhar, “achando nada 
ter feito quando sobrava alguma coisa por 
fazerê 82", 

Amo pois a vida e a cultivo tal qual Deus 
outorgou. Não gostaria que carecesse de 
necessidade de beber e comer, nem me agrada- 
ria que essa necessidade fosse maior do que é: 
“Busca o sábio com ansiedade as riquezas 


naturais? 8º,” Tampouco lamento que não nos: 


alimentemos com aquela droga graças à qual 
Epaminondas se privava de apetite e que lhe 
bastava para viver; nem que os filhos não nas- 
çam das unhas ou dos calcanhares, ainda que 
com tais soluções não fosse menor a volúpia 
da fecundação; nem que nosso corpo não seja 
sem desejos e insensível as carícias; queixar- 
me seria mostrar-me ingrato e injusto. Aceito 
de bom grado e com reconhecimento o que a 
natureza fez por mim. Declaro-me satisfeito e 
congratulo-me com ela. Ofendemos essa gran- 
de e poderosa doadora, recusando-lhe os dons, 
anulando-os ou os deformando. De sua parte 
tudo é bom, o que faz é bem feito: “Tudo o que 
se ajusta à natureza é digno de apreço? * *.” 

Entre as opiniões da filosofia prefiro as mais 
sólidas, isto é, as mais humanas, as mais nos- 
sas. Raciocinando como vivo, com humildade, 
sem elevação de idéias, acho infantil de sua 
parte pregar-nos solenemente as vantagens de 
unir o divino ao humano, a razão à loucura, a 
severidade à indulgência, a honestidade à 
desonestidade. São coisas monstruosas. 
Acho-a ridícula quando afirma que a volúpia é 
brutal e indigna do sábio; que o único prazer 
que se deve usufruir de uma bela e jovem espo- 
sa é o de cumprir um ato natural, como o de 
calçar as botas para uma longa cavalgada. 
Talvez abandonassem os filósofos tais idéias 
se os seus direitos de desvirginar suas mulheres 
se reduzissem aos termos de seus ensinamen- 
tos! 

Sócrates, mestre desses sábios e nosso, não 
diz o mesmo. Aceita, como deve, o prazer fisi- 
co; mas prefere o do espírito, que julga mais 
rico, forte, variado e digno. Este último porém 
não deve isolar-se — Sócrates não é um 
sonhador — mas tão-somente controlar o 
outro; deve atentar para a moderação e não se 
apresentar como adversário. A natureza é um 
guia amável, mas no qual a prudência e a justi- 


381 Virgílio. 
382 Tucano. 
383 Sêneca. 
384 Cícero. 


ça superam a doçura: “É preciso penetrar a 
natureza das coisas e ver exatamente o que ela 
exige38 5.” Ando continuamente à sua procura, 
mas a pista perde-se por vezes em meio às 
intervenções da arte, eis por que o soberano 
bem, acadêmico e peripatético, “de viver 
segundo a natureza” é dificil de se delimitar e 
aplicar. O mesmo acontece com o que propug- 
nam os estóicos: “consentir no que ela pede” 
Não será um erro considerar certos atos desai- 
rosos só porque são necessários? Por isso 
acredito que a aliança do prazer com a neces- 
sidade, que os deuses procuram sempre impor, 
é uma união de grande conveniência. Por que 
desmembrar e divorciar tais elementos de uma 
associação tão fraternal? Apertemos ao con- 
trário o laço que os prende e façamos com que 
se prestem mutuamente serviço. Que o espírito 
desperte e vivifique o corpo tão pesado em si e 
que este modere a leveza daquele e o torne 
estável: “Quem quer que exalte a alma como 
soberano bem e condene a came como coisa 
má, abraça e adora a alma com os sentidos; a 
seus sentidos também se atribuirá o sentimento 
que o induz a fugir da carne, e que nasce do 
fato de raciocinarmos sob o império da vaida- 
de humana e não em obediência à verdade 
divina? 8 8.” 

No presente que Deus nos oferece não há 
nada indigno de nosso cuidado; de tudo tere- 
mos de prestar contas em todas as suas minú- 
cias. O criador, ao dar ao homem a missão de 
se conduzir por si, fê-lo de um modo expresso, 
severo e franco. Como as palavras alheias têm 
mais peso do que as que dizemos, insistamos 
nesse ponto com a opinião de Sêneca: “Não é 
tolice fazer com negligência e de mau humor o 
que se tem obrigação de fazer? Empurrar o 
corpo para um lado e a alma para o outro, é 
dividir-se em prol de dois movimentos contrá- 
rios.” 

Se quiserdes algum dia examinar os pensa- 
mentos e argumentos que tem na cabeça quem 
rechaça a idéia de uma boa refeição e lamenta 
o tempo perdido em comer, vereis que entre 
todos os pratos de vossa mesa nenhum haverá 
tão insípido quanto o estado em que desse 
modo entretém a alma (as mais das vezes me- 
lhor fora que dormissemos, dadas as causas 
que nos mantêm acordados) e achareis que 
suas razões não valem vosso ensopado. E o 
próprio êxtase em que caía Arquimedes, que 
importância tinha na realidade? Não viso aqui 
(não as confundindo com a turba de fedelhos 
que somos, nem lhes atribuindo os desejos e os 
pensamentos em que se compraz nossa vaida- 


385 Td. 
386 Santo Agostinho. 


504 


de) a essas almas veneráveis que o ardor reli- 
gioso e a devoção induzem a uma constante e 
conscienciosa meditação acerca das coisas 
divinas, e que, inteiramente amarradas pelo 
esforço que lhes inspira a esperança viva e pro- 
funda de conquistar a felicidade eterna — fim 
último para o qual tendem as aspirações cris- 
tas, único prazer continuo e incorruptível — 
desdenham dar atenção a essas necessidades 
que são também satisfações, mas passageiras e 
ambíguas, e renunciam tão facilmente a preo- 
cupar-se com o corpo, recusando-lhe o uso 
- daquilo" que, nesta vida, é apanágio dos senti- 
dos. Trata-se nesse caso de um ideal. Geral- 
mente tenho visto marcharem de comum acor- 
do as idéias elevadíssimas e os costumes mais 
condenáveis. 

Esse: grande homem que foi Esopo, ao ver 
seu amo urinar andando, exclamou: “Teremos 
também que esvaziar o ventre correndo?” 
Com efeito, por melhor que empreguemos o 
tempo, sempre nos sobrará algum para a ocio- 
sidade e ós erros; nosso espírito encontrará, se 
quiser, horas bastantes para executar suas 
tarefas sem se dissociar do corpo no curto es- 
paço de tempo que este exige. As pessoas obce- 
cadas por essa idéia de separar o corpo do 
espírito, de se tornarem diferentes e de deixar 
de ser homens não passam de loucos; não se 
transformam em anjos .e sim em feras; em 
lugar de se elevarem, abaixam-se. Esses humo- 
res transcendentes apavoram-me, como os si- 
tios excessivamente altos e inacessíveis, e nada 
me parece tão difícil de admitir na vida de Só- 
crates quanto seus êxtases e aquele gênio fami- 
liar a que atribuía sua inspiração. Quanto a 
Platão, as qualidades em virtude das quais o 
apelidaram divino são exatamente, a meu ver, 
o que tem de mais humano. E entre as ciências, 
as que pretendem tratar das coisas mais eleva- 
das são as que mais perto da terra se acham e 
as de menor importância. Não acho tampouco 
nada-na vida de Alexandre, mais chão, e sinal 


MONTAIGNE 


Pao 


evidente de que é um mortal, quanto sua“qui- 
mérica pretensão à imortalidade. Isso, de resto, 
acarretou-lhe uma espirituosa observação de 
Filotas. Quando Alexandre lhe escreveu que o 
oráculo de Júpiter Amon o colocara entre os 
deuses, Filotas redarguiu: “Folgo em sabê-lo, 
por causa: da consideração que terás; mas 
como são dignos de piedade os homens obriga- 
dos a viver com uma pessoa que os sobreex- 
cede a tal ponto, que despreza a condição 
humana, e a quem devem obediência! “É por- 
que te submetes aos deuses, que comandas os 
homens? 8 7.” 


A graciosa inscrição com que os atenienses 
homenagearam Pompeu concorda com minha 
maneira de pensar: “És tanto mais divino 
quanto reconheces que és apenas um 
homem? 88.” 


Saber lealmente gozar do próprio ser, eis a 
perfeição absoluta e divina. Nós só desejamos 
condições diferentes das nossas porque não 
sabemos tirar partido daquelas em qué nos 
achamos. Saímos de nós mesmos porque igno- 
“ramos o que nos compete fazer. Embora use- 
“mos pernas de pau, temos de mexer as do 
corpo para andar, e é com o traseiro que nos 
sentamos no mais alto trono do mundo. As 
mais belas vidas são, penso, as que se adaptam 
ao modelo geral da existência humana, as mais 
bem ordenadas e de que se excluem o milagre e 
a extravagância. Quanto à velhice, cumpre tra- 
tá-la com alguma ternura; eis por que termino 
recomendando a minha a esse deus protetor da 
saúde e da sabedoria, da sabedoria jovial e 
sociável: “Peço-te, filho de Latôna, que me 
deixes gozar o fruto de meus trabalhos, dan- 
do-me uma saúde constante e perfeita, livran- 
do-me da senectude, surda aos doces cantos 
das Musas? 8º.” 


387 Horácio. 
388 Plutarco. 
389 Horácio.